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Setembro 25th, 2009 — António Quadros, José Forjaz, Literatura Moçambique, Livros Moçambique

A surpresa de encontrar em Portugal esta nova edição do célebre e lendário “Eu, o Povo“, de Mutimati Barnabé João (António Quadros), uma publicação em colecção de bolso da Biblioteca de Editores Independentes (2008). Com um interessante prefácio de José Forjaz, narrando da sua origem, e um hermético (percebi nacos, e com toda a certeza não o fundamental) posfácio de Daniel Jonas (e que tal levantar o pé na densidade quando se escreve para uma colecção de bolso?).
Sobre o mítico livro, apropriação criacionista da identidade moçambicana por parte de Quadros, muito ouvi falar. Transpira o tempo de então, o 1975 ideologizado colectivista. Mas acima de tudo o voluntarista tempo de então. Talvez seja esse mesmo voluntarismo, essa vontade de crer, que tenha levado a crer ter sido um “povo”, um guerrilheiro, a escrever estes poemas – consta (acredito porque mo contaram) que só tendo sido levado o texto a Jorge Rebelo, ele próprio poeta, ele negou essa hipótese ao ler “Tenho um espinho no pé direito. / Descalço a alpercata. / Esta terra é estéril. Queima. Está na agonia.” (O estrume). Pois, disse, “alpercata só um português utilizaria”. Ao reler agora os poemas ocorre-me imaginar o espírito do leitor de então que não descodificava de imediato a operação autoral.
Alguns destes poemas são ainda recorrentemente ditos, mostrando o como produziram uma época, que tem permanências. É o caso de “Relatório” (Faz favor dá ordem para pôr dentro outro Irmão / Camarada Comandante) ou (não é hoje tão explícito?) “Camarada Inimigo” (Este inimigo deixa muita informação e rasto / Não pode ser um inimigo assim tanto) ou ”Eu, o Povo” (A táctica colonialista é deixar o Povo no natural / Fazendo do Povo um inimigo da natureza). É disso que se faz o encanto que neles encontro. Como neste, o meu preferido espelho desse tempo:
Operação da guerra da libertação
Esta árvore amiga é o inimigo
Destroncar esta árvore é uma operação contra o inimigo.
Escolhemos um inimigo, inimigo, à medida da nossa grandeza
Um inimigo do tamanho da nossa tarefa
Que vai dar muita chatice a cair, e táctica e estratégia
E vai ser derrubado melhor que em pé
Pois se que esta terra é boa para uma árvore tão alta
Há-de ser muito boa para dar machamba.
Vais ser ataque de serrote ou machada ou enxada na raiz?
Vai cair para o lado do vento?
Vai ser de cinto de fogo ou trotil mesmo?
Vai ser com as mãos fazendo força, camaradas?
Onde há uma árvore maior do que a força do Povo?
Se vier o velho, a mulher, o menino, todos um e um e um
Riscar com a unha do dedo pequeno, lamber com a língua
Nove milhões de pequenas carícias e pouca força
Esta árvore cai mesmo.
Por onde passa o Exército da Libertação
Fica um rasto verde e cheiroso e o caminho aberto
Para passar a Liberdade e o Futuro.
É fácil ver quem passou aqui.
Abril 8th, 2009 — Arquitectura Moçambique, Arte Moçambique, Fernando Couto, História Moçambique, José Forjaz, Livros Moçambique

Evocando a aguada que Gama fez na região de Inhambane (10 de Janeiro de 1498) ali foi instalada uma estátua durante o período colonial (não conheço nem data nem autoria). Apeada aquando da independência está desde há muito acantonada no pátio traseiro de um edifício municipal.
É óbvio e normal que signifique bem mais para portugueses do que para Estado e sociedade moçambicanos. Não só porque Gama se destaca na galeria de heróis identitários portugueses. Mas, e talvez fundamentalmente, porque a historiografia oficial moçambicana continua a reproduzir a mitificação histórica portuguesa (tardo oitocentista e muito Estado Novo) dos “quinhentos anos de colonização” - assim fazendo, inevitavelmente de Gama o “primeiro colono”.
Não me parece que a estátua tenha particular relevo artístico. Mas está lá, valendo como exemplar da arte (oficial) colonial. Recordo o que deste conjunto disseram José Forjaz: “A qualidade artística destas peças é muito diversa e vai do medíocre, ou mesmo francamente mau, à de grande valor estético. Não é, portanto, significativo observar cada peça por si só.” (in Fernando Couto, Moçambique. Imagens da Arte Colonial, Ndjira, 1998, p.7) e Fernando Couto: “Ainda que concebidas e realizadas por uma outra cultura, estas obras fazem, hoje, parte, do património histórico moçambicano, são parte de Moçambique e devem, por isso, ser objecto de preservação e valorização.” (Fernando Couto, Moçambique. Imagens da Arte Colonial, Ndjira, 1998, p.5).
Tendo em conta os precedentes de integração museológica dos exemplares de arte oficial colonial em Maputo (Fortaleza e Museu Nacional de Arte) e na Ilha de Moçambique (Museu da Ilha), não parece haver impedimentos práticos ou conceptuais para a salvaguarda desta estátua. O museu de Inhambane seria um bom destino, ainda para mais constituído por uma colecção suficientemente heterogénea para que não tenha a sua coerência agredida por esta obra.
Janeiro 13th, 2005 — Arquitectura Moçambique, José Forjaz
O Complexidade e Contradição chama(-me) a atenção para uma entrevista de José Forjaz, o decano dos arquitectos moçambicanos e director da Faculdade de Arquitectura da UEM, à revista Arquitectura e Vida. Que eu leria com todo o interesse, mas que julgo não ser por cá distribuída (ainda que acredite que algum vizinho leitor ocasional me possa fazer chegar cópia do texto). Ainda assim não deixo de a re-recomendar aos interessados no binómio arquitectura/Moçambique.
A este propósito não posso deixar de lembrar uma sua entrevista ao jornal Expresso, nº 1633 [47 semanas depois ainda se paga para ler, um miserabilismo], então editada sob o polissémico título “Um Ilustre Português de Além-Mar”.