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Março 4th, 2010 — Livros Moçambique, Pancho Miranda Guedes
É interessante saber o arquitecto Pancho Miranda Guedes de visita ao Maputo de hoje, cidade em profunda transformação, tanto pela explosão imobiliária no Maputo-cimento dos últimos dois anos como pelo crescimento exponencial do Maputo-caniço, ocorrido nas últimas décadas, esse que menos chama a atenção dos mídia tradicionais e dos neo-meios informáticos. Para muitos o arquitecto será já um desconhecido e talvez por isso será conveniente lembrá-lo e lê-lo:

[Pancho Guedes. Vitruvius Mozambicanus, Museu Colecção Berardo, 2009]
“Ulli Beier: Quantos edifícios construíu em Lourenço Marques? Pancho Guedes: Não sei, ainda estou a organizar o meu arquivo. Parece que há trezentos ou quatrocentos edifícios em Moçambique. (…) mas ao todo desenhei mais de seiscentos, talvez setecentos edifícios.” (23-24) Olhá-lo não deverá ser num sentido museológico, conservacionista que seja, e ele próprio sabe-o: “A maior parte das minhas obras está agora morta ou ferida, vítima de acidentes e revoluções.” (31). Pelo contrário olhar a sua obra é, para arquitectos porventura mas com toda a certeza para cidadãos, uma aprendizagem das exigências, do que é a exigência de quem vive, agora que, e não só em Maputo, ”Em toda a parte as cidades estão a perder as suas personalidades e começam a parecer-se umas com as outras, quase como os aeroportos. Não é através de regras, dogmas, ditames, piruetas ou assassinatos que a cidade será devolvida aos seus cidadãos. Só através do poder da imaginação a cidade se tornará maravilhosa.” (75) Uma imaginação que terá que ser um questionamento: o do grão-edifício padronizado – cuja inevitabilidade/obrigatoriedade a sociedade urbana moçambicana parece aceitar sem angústia e, até, com orgulho, altaneira e com indiferença diante de “edifícios propositadamente estranhos, que têm a qualidade das aparições. Há algo de extraordinários neles, são desiquilibrados …” (20); o da planeamento “racionalista” – “Quando voltei a Lourenço Marques em 1950 (…) a câmara tinha imposto um plano à cidade propriamente dita, através do qual, à autoritária maneira pombalina tentava determinar a título definitivo o que poderia vir a ser construído em cada local. Felizmente, Fernando Mesquita, um conselheiro municipal iluminado, desenvolveu algumas alternativas dissidentes das quais beneficiei…” (75); e o da arrogância sociológica – “… os urbanistas seguintes … foram, na sua maioria, indiferentes ao que se passava no caniço.” (75).
Ler (e ver) Miranda Guedes é aprender também a como a tal “cidade maravilhosa” imaginada na prática se faz não na manutenção de uma qualquer “identidade” pré-determinada, em purismos sempre legitimados pelo sufixo “idade”. Sabê-la como produzida, imaginada na mistura, arrojada mas nunca auto-complacente, de referências. A tal imaginação, o tal arrojo, não como um acantonamento, sim como uma viagem: “Ulli Beier: E quando começou a fazer o tipo de edifícios a que chama Stiloguedes? Pancho Guedes: Logo no início. (…) Ulli Beier: Quando desenha edifícios que têm esses elementos estranhos, como chega até eles? (…) A imagem surge primeiro, então? Pancho Guedes: A imagem – não sei de onde vem. Neste caso em particular, chamei-lhes dedos, picos. Será uma reinterpretação de um edifício que sempre teve importância para mim? É uma casa em Lisboa, a Casa dos Bicos, que picos piramidais em toda a fachada e arcos góticos. Quase toda a superfície da parede tem estas pirâmidade salientes, em ângulos rectos. Lembro-me desta casa de quando era pequeno, e vou vê-la sempre que volto a Portugal.” (20-21-22). Enfim, conjugar para além do óbvio. Do grande. E do “cimento”. E é nisso que radica a “ident – idade”.
Deixo as imagens. Para um “quem diria?!” que venha a ser “dizer que”.

["A Ribeira Velha antes de 1755", a Casa dos Bicos é o segundo edifício desde a esquerda, com a forma aproximada da actual]

["Fachada da rua dos Bacalhoeiros, primeira metade do séc. XX"]
Nota: imagens da Casa dos Bicos reproduzidas do livro Maria da Conceição Amaral e Tiago Miranda (coords.) De Olisipo a Lisboa. A Casa dos Bicos (Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2002)
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Março 3rd, 2010 — Arquitectura Moçambique, Pancho Miranda Guedes

["Templo decadente", escultura em madeira, 1968]
A visita de Pancho Miranda Guedes a Maputo é uma ocasião única, arquitecto mítico desta cidade que é. Amanhã (4.3) o Consulado de Portugal (Av. Mao-Tsé-Tung) inaugurará uma exposição sobre o seu trabalho, que traz o título “Pancho Guedes- a aventura da arquitectura, o desafio ao formalismo” e que estará disponível durante um mês e meio. Para quem é da cidade, para quem gosta da cidade, torna-se obrigatório ir ver.
Entretanto Miranda Guedes falará na Faculdade de Arquitectura duas vezes, hoje (3.3: 17 h.) e depois de amanhã (4.3: 10 h.). As conferências serão abertas ao público.
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Fevereiro 15th, 2010 — Arquitectura Moçambique, História Moçambique, Maputografia, Postais Moçambique

Construções na praia da Polana há cem anos. Ao fundo a colina da Ponta Vermelha. Note-se que a actual marginal foi roubada às colinas e que naquela altura não era possível vir da baixa para a praia da Polana a não ser a pé pela praia ou, mais tarde, pela Estrada do Caracol e pelo eléctrico que descia uma rampa atrás do Clube Naval que hoje creio que está fechada.
por ABM (Cascais, 15 de Fevereiro de 2010)
Na noite em que o Senador JPT nos brindou com a periclitâncias do termo machimbombo, eu coloquei uma outra questão: e de onde veio o nome “Polana”?
Sendo que eu nasci, cresci e vivi na Polana (bem, no dia em que nasci meus pais estavam acampados no aquartelamento de Boane, onde o pai BM era um tenente miliciano. Mas a mãe BM tinha vindo à cidade ver o filme Casablanca com uma amiga e já não foi para o cinema, foi directa para o Hospital Miguel Bombarda onde nasci às 20 horas de 30 de Janeiro de 1960).
Primeiro, um ponto de ordem. Antes da independência, aquilo a que se chamava Polana era uma área geográfica muito específica da cidade, circunscrita (e escrevo isto de cabeça) a Norte pelo Hotel Polana e pela chamada Carreira de Tiro (ainda hoje há uma farmácia com esse nome, é para aí), a nascente pelas barreiras e a Rua Friedrich Engels (acho antigamente se chamava a Rua dos Duques de Connaught mas não tenho a certeza, é aquela onde fica o Miradouro), a Sul pela Ponta Vermelha (que era literalmente uma língua de terra, do Palácio até às barreiras) e a Poente pela Maxaquene, que era mais ou menos na rua onde fica a Pastelaria Princesa.
Hoje não percebo nada. Fala-se em Polana Cimento, em Polana Caniço, não entendo muito bem a razão para o realinhamento dos bairros mas também não interessa.
O importante é que o nome está lá há muitios anos.
Mas então, de onde vem?
“Polana” não é um termo ou um nome português. Nem é referenciado em parte nenhuma na história dos portugueses.
Uma consulta na internet indica que em polaco, “polana” é o nome dado a uma clareira numa floresta – sendo que “polanski” é o nome de alguém que vive nessa clareira. Em grego, supostamente, deriva de Apollina, nome feminino do nome de (por exemplo) o deus grego Apollo, significando “sol”.
Mas poderá ser um nome africano? mais precisamente, houve um régulo chamado Polana? Numa peça publicada pelo inolvidável João Craveirinha sobre Maputo (na qual conclui que a capital de Moçambique devia ser mudada para o centro do país), o sobrinho do Sr. José Craveirinha a certa altura escreveu o seguinte:
O mesmo Lobato fazia alusão às invasões vindas do norte, dos grandes Lagos, foz do rio Nilo Branco, de que nos falaria outro grande historiador de Moçambique, Caetano Montez quando referia que: “(…) a gente do Tembe foi invasora como também o foi a de Mpfumo (…) Maputo é um ramo da dinastia do Tembe: Matola é um ramo da dinastia de Mpfumo (…)” Caetano Montez, ainda na sua obra “Os Indígenas de Moçambique”, diz (…) A casa da Matola (Matsolo) provinha de In-lha-rúti (Mpfumo), o invasor das terras da margem norte da baía, vindo com a sua gente de Psatine (Suazilândia). Seus filhos Mpfumo, Polana, Massinga e nuá-Intiuane repartiram as terras como vassalos do pai. Nuá-Intiuane (deu Tivane) ficou com as que denominariam Matola.
Segundo estas indicações, é então plausível que os terrenos onde dantes se situava a “velha” Polana, poderão ter pertencido ao tal Polana, filho do tal invasor que que veio da Suazilândia não se sabe bem quando. Mas então, cadê do Sr. Polana? Haverá registos de transacções imobiliárias dessa altura?
Na sua dissertação para o grau de Doutora pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1979, Maria Clara Mendes a certa altura refere a compra, em 1914, pelo Estado, dos terrenos compreendidos entre “a Rua de Nevala, a praia da Polana e a Rua Bérrio, que compreendem actualmente a Polana e a Sommerschield”.
Num detalhado relato sobre a construção, concluída em 1922, do Hotel Polana, a que tive acesso, é de facto referida a aquisição dos terrenos onde o hotel hoje se situa ao Estado pela Delagoa Bay Lands Syndicate, a empresa que ganhou o contrato para a sua construção.
Só que, que eu saiba, o nome Polana não é nada comum nos grupos étnicos que entravam e saiam da região da Baía – nem me parece ser particularmente “suázi”. Mas apelo aos exmos leitores que saibam alguma coisa que ajudem a fechar este puzzle.
O HOTEL POLANA

Hotel Polana, imagem de um postal da época
Sobre este tema, não vou inventar a roda, pois, enterrado algures na Geocities há um excelente artigo de José Maria Mesquitela que, com profunda vénia, cujo texto transcrevo em baixo. De notar que este texto deve datar cerca dos anos 90, antes da concessão do Hotel Polana ter sido cedida à organização Aga Khan e o seu nome ter sido alterado para Polana Serena Hotel (e lamentávelmente, o edifício pela primeira vez ter sido pintado de creme em vez do habitual branco).
O texto:
“A construção de um grande e luxuoso hotel para servir o turismo rico foi ideia que nasceu cerca de 1917 em Lourenço Marques.Como todas as iniciativas audaciosas, teve defensores e detractores. Havia altos interesses em jogo.
Longa fora a jornada, primeiro que a ideia se concretizasse e ao fazer a história do empreendimento de forma alguma se pode esquecer o nome do coronel Alexandre Lopes Galvão que por ela se bateu. Ele próprio se referiria mais tarde, a esses tempos difíceis, em carta de 26 de dezembro de 1950, que escreveu a um amigo de Lourenço Marques :
…” Chego a Lourenço Marques em 1917, verifiquei que não havia ainda um hotel para receber ´pessoas de categoria, que nos visitavam. Passei a fazer parte do Conselho de turismo, onde pontificava o comandante Augusto Cardoso, dono do Cardoso Hotel.
De variadíssimas inssistências para que o Conselho tratasse de arranjar para Lourenço Marques um hotel decente, cheguei à conclusão que o assunto não interessava ao Conselho.
Apareceu-me nessa altura Adriano Maia, que me disse que os seus amigos do Transvaal estavam dispostos a fazer um grande hotel em Lourenço Marques, em determinadas condições. Ouvi-o, ouvi as condições, que me pareceram aceitáveis e levei o caso ao conhecimento do Massano de Amorim. Este achou bem e autorizou-me a negociar.
O Comandante Cardoso, ouvindo falar do caso, foi para o Conselho de Turismo, e diz: Ouvi dizer que há negociações para se fazer um hotel. E, olhando para mim, acrescentou: Alguém sabe dizer alguma coisa do que se passa? Resposta minha: Eu sei, mas não estou autorizado a dizê-lo. Mas como o Conselho despacha directamente com o Governador-Geral, é-lhe fácil saber o que há.
Na noite desse dia recebo no Hotel Cardoso uma carta do Comandante Cardoso dizendo cobras e Lagartos ! e cortando as relações comigo.
Mostrei a carta ao Mariano Machado e este pediu-me autorização para ir falar no assunto ao Comandante. E foi. Vem com a resposta de que jamais reataria relações comigo.
Levadas as negociações a bom termo, os capitalistas foram a Lourenço Marques e o Inspector Góis Pinto foi autorizado a lavrar o contrato.
O Comandante Cardoso perde a cabeça e faz um manifesto patriótico ap povo de Lourenço Marques, assinado por ele e pelo arrendatário Luís Boschian, Italiano.
O Massano, nessa altura, foi para o Norte da Colónia e ao chegar a Inhambane recebe um telegrama assinado pelo comandante Cardoso e creio que pelo Boscgian, protestando contra a construção do hotel. O Chefe de gabinete foi quem lhe deu conhecimento e o Massano de Amorim disse-lhe: “responda-lhe dizendo que vá ver da…”
Em resumo: se Lourenço Marques passou a ter um belo hotel, inaugurado em Março de 1922, a mim o deve.
Ficou a representar os capitalistas o velho Leão Cohen. Eu estava na África do Sul, nessa ocasião, onde tinha ido com Freire de andrade na Missão Diplomática que havia de negociar uma nova convenção. Pois ninguém se lembrou de me convidar para a inauguração, que se fez com um certo aparato. E nem ao menos o meu nome foi lembrado nos discursos laudatórios, então pronunciados.”
Alexandre Lopes Galvão
Em outubro de 1918, foi aberto um concurso pela Delagoa Bay Lands Syndicate , apresentado pelos Senhores A.W.Reid & Delbridge, arquitectos de Johannesburg e Cidade do Cabo, para a construção do Hotel Polana, ao qual concorreram sete firmas construtoras, das quais, apenas uma era Portuguesa, conforme abaixo:
- Hill Mictchelson, de Johannesburg, classificado em segundo lugar.
- Ferreira da Costa, de Lourenço Marques
- Philip Treeby, de Johannesburg
- Herbert Baker & amp; Fleming, de Johannesburg
- H.W.Spicer, de Johannesburg
- R.L.McCowat, de Johannesburg
Os planos foram postos em exposição no Conselho de Turismo, e aprovada pelo Governo a construção do novo Hotel na Polana pela Delagoa Bay Lands Syndicate, por ser a proposta mais barata apresentada. Ficou o compromisso que o Hotel seria construido em 19 meses. Os proprietários do hotel instalarão uma planta para fornecimento de luz elétrica e um frigorífico.Com isto, com mobília, ascensor para a Polana, e direitos, etc, o custo total do Hotel ficou estimado em 200 000 Libras.
O Governo garantiu ao Sindicato 6% anuais sobre o capital empregado durante dez anos, assim como garante algumas concessões.
Projecto de um arquitecto famoso
O projecto desse hotel em estilo “Palace” foi de autoria de um não menos famoso arquitecto inglês, Sir Herbert Baker, autor do projecto do majestoso edificio da “Union Buildings”, em Pretória. A sua construção foi dirigida pelo engenheiro Hugh Le May.
Inauguração
Iniciada a sua construção, devido à iniciativa do Coronel Lopes Galvão, que foi sem dúvida alguma a alma deste notável empreendimento turístico e que no governador-geral, general Massano de Amorim, encontrara sólido apoio, o Hotel Polana inaugurou-se no dia 1 de Julho de 1922.
Foi um acontecimento de grande relevo na vida da cidade. A assinalar a data, a Delagoa Bay Lands Syndicate, que se fez representar por Leão Cohen, ofereceu nesse dia um almoço solene.
Na mesa em U armada na elegante sala de jantar do Hotel Polana, sentaram-se 131 convidados. Na presidência, à cabeceira da mesa, Leão Cohen, dava a direita ao Alto Comissário, Dr. Brito Camacho, ao cônsul de Sua Majestade Britânica, Hall , e ao secretário-geral, Dr Mário Malheiros. À sua esquerda sentavam-se o inspector das Obras públicas, Eng. Monteiro de Macedo, o cônsul da França, G.Savoye, o chefe do Estado-Maior, coronel Santana Cabrita e o cônsul dos Estados Unidos, Hazeltine.
A construção acabou beirando o valor de 300.000 Libras, mas foi considerado na época uma das construções mais perfeitas e modernas e sem rival nos portos do Sul, havendo muito poucos hotéis na Europa semelhantes.
Ele tinha vida própria para a sua laboração: máquinas geradoras de electricidade e aquecimento, Frigorífico, Lavandaria eléctica, Fábrica de sodas, Telefones e água quente em todos os quartos, e para tudo ser completo, estava programado para questão de dias um serviço permanente de correios e telégrafos, permitindo assim aos seus visitantes expedir cartas, telegramas, radiogramas e até encomendas postais para todas as terras e navegação.
A inauguração do Hotel, também mexeu significativamente no movimento da cidade, pois um mês e meio depois da inauguração, os carros elétricos começaram a transitar até ao bairro da polana, com uma paragem obrigatória no Hotel.
Na área externa do hotel, tinha um lindo campo de golfe , quadras de ténis e jardim que o embelezavam.
Assumiu a gerência do hotel, o Sr. Kershaw, auxiliado por sua esposa.
O hotel deu ênfase ainda ao turismo na cidade de Lourenço Marques, que assim passava a contar com um ponto de super luxo, e delegações de vários paises, tais como a própria África do sul e países vizinhos, ou de Italianos e até Brasileiros que começaram a ser trabalhadas as excursões a Moçambique.
O Hotel muda de mãos
Em junho de 1936 o hotel mudou de mãos pela primeira vez. Tendo a Delagoa Bay Lands Syndicate posto o imóvel à venda, a oportunidade foi aproveitada pelo milionário I.W.Schlesinger, que o adquiriu pela importância de 400.000 Libras. Pouco depois a empresa foi registada sob a designação de “Polana Hotel, Lda”, sociedade com o capital de um milhão de libras.
Tempos passados, a African Consolidated Investments Corporation, uma das muitas organizações de Schlesinger, passou a ser a maior accionista da empresa exploradora do hotel, que pouco depois passou para a African Caterers, também importante organização do grupo de companhias Schlesinger.
No periodo que precedeu a II Guerra Mundial conheceu anos de prosperidade, projectanto-se internacionalmente nos mapas turísticos como um dos mais importantes de toda a Àfrica, depois de Cairo e do Carlton, de Johannesburg.
Nos seus salões se realizou o banquete de gala que as Forças Vivas de Moçambique ofereceram em honra do presidente da República Portuguesa, Marechal António Óscar de Fragoso Carmona, o primeiro Chefe de Estado que visitou oficialmente Moçambique, em 1939.
Durante a II Guerra
Quando a 1 de setembro de 1939, com a invasão da Polónia pelo exercito alemão, rebentou a II Grande Guerra, ao Hotel Polana, pela sua privilegiada situação de hotel de luxo e ponto de reunião da nata da sociedade lourenço-marquina, coube desempenhar, pela força das circunstâncias, outro curioso papel: o de centro elegante de espionagem e de intriga Internacional.
Durante a II Guerra, o Hotel Polana gozou de reputação internacional porque, tendo Portugal proclamado a neutralidade, os agentes secretos tanto dos Aliados como das potências do Eixo (Alemanha e Itália) Puderam ali dedicar-se com certo à-vontade a práticas de espionagem e de contra-espionagem. Os espiões dos dois lados, passaram naturalmente a servir-se desse luxuoso hotel de uma cidade portuária para campo de sua acção.
Assim, agentes secretos Sul-Africanos, Ingleses, Americanos, alemães e Italianos, cumprimentavam-se cerimoniosamente quando se cruzavam nos seus longos corredores, nos seus salões ou no “Bar”.
Um dos agentes mais notáveis que por ali passou foi o tenente-coronel J. Stevenson-Hamilton, então fiscal de caça do Kruger Park. Em suas memórias, descreve a missão mais agradável, quando teve que se infiltrar em Lourenço Marques, instalado no Hotel Polana, quando descobriu que, em principio de Junho de 1940, quando correu um boato que os Alemães haviam invadido e tomado Lourenço Marques e se preparavam para invadir a África do Sul via Komatipoort, que se tratava de um boato propositadamente implantado por agentes alemães que operavam em Lourenço Marques, numa rede de espionagem bastante eficiente. possuiam emissoras clandestinas que mantinham os submarinos nazis que operavam no Canal de Moçambique bem informados dos movimentos dos navios aliados no porto de Lourenço Marques.
O chefe dos espiões era um importante membro da Gestapo. O “Quartel-General “era o Hotel Polana.
O Hotel na mão dos Portugueses
Em 1963, John Schlesinger, filho e herdeiro do milionário que havia adquirido em 1936 o famoso estabelecimento hoteleiro, vendeu-o a uma empresa onde os capitais Portugueses eram solidamente presentes, entre eles um dos dos acionistas era o Eng. Manuel Arouzo, que foi o braço forte do Hotel durante anos, até que um problema com o seu procurador o fez sair da sociedade.
Nesta fase foi ampliado e construída a sua piscina tão tradicional e ainda um novo anexo, o Polana-Mar, que assim atendia à demanda que cada vez mais se avolumava
O Hotel manteve o seu glamour, sempre foi frequentado pela nata da Sociedade Lourenço-Marquina, assim como por todos os turistas de peso que visitavam constantemente Lourenço Marques.
O Hotel Polana confundia sua Imagem com a da Capital de Moçambique.
O Hotel e a Independência
Com a Independência de Moçambique, após 1975, o Hotel entrou em declínio,por falta de clientes e pela degradação pela óbvia falta de pessoal e respectiva manutenção, permanecendo durante 20 anos praticamente abandonado.
Em 1994, um grupo Sul-Africano adquire o Hotel, remontando às suas origens de fundação, e com as melhoras que já sinalizava Moçambique, deu continuidade ao seu estatuto de um dos melhores hotéis de cinco estrelas do continente africano. Desde o hall, revestido a mármore, aos jardins generosos em estrelícias e coqueiros, nada é deixado ao acaso neste escaninho luxuoso, que se prepara para nova reestruturação. Curiosamente, não é apenas procurado por viajantes exigentes, mas também pelos próprios maputenses, devido à cozinha requintada e à pastelaria – o chá com scones e o cozido ao domingo são dois clássicos –, à piscina – a mais cobiçada de Maputo – e até ao ginásio. É ainda um dos lugares da cidade que são frequentados para ver e ser visto.
A IPE -Investimentos e Participações Empresariais está, em parceria com o Grupo Pestana, a negociar a compra do Hotel Polana. O grupo que detém a maioria do capital do prestigiado Hotel Moçambicano encontra-se com sérias dificuldades financeiras e pretende vender a sua participação. Caso o negócio se concretize, o Grupo Hoteleiro Português, que tem já vários empreendimentos turísticos em Moçambique, será responsável pela gestão e o controlo do Hotel Polana.
A holding do Estado português tem cerca de 1,6 milhões de contos investidos em Moçambique, nomeadamente nos sectores agro-industrial, ambiente, financeiro e em infra-estruturas industriais. Caso a co-aquisição do Polana venha a concretizar-se, o investimento do IPE deverá subir para cerca de 2,4 milhões de contos.”
E aqui está mais uma “maschambada”.
Janeiro 26th, 2010 — Arquitectura Moçambique, Ecologia Moçambique, Viagens Moçambique
O texto dedicado ao novo hotel na “Casa do Capitão” na baía de Inhambane foi de novo aumentado, com imagens que recebemos do Rui Monteiro.
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Janeiro 22nd, 2010 — Arquitectura Moçambique, Ecologia Moçambique, Viagens Moçambique

Na sequência da conversa que tem decorrido na respectiva caixa de comentários o texto “A Casa do Capitão, na Baía de Inhambane” foi actualizado com novas fotografias.
jpt
Janeiro 17th, 2010 — Arquitectura Moçambique, Ecologia Moçambique, Paternidade, Viagens Moçambique
Aqui,

que estava assim,

constrói-se deste modo

para ficar desta forma


Sabedores da construção do hotel (e timesharing), propagandeado em Maputo, logo que chegados a Inhambane apressámo-nos a ir ver o resultado. Fico, ao volante, balbuciando “Meu Deus!! … [nestas alturas dá-me para o deísmo, mas em molde de ateu, vituperando este deus preguiçoso e incompetente que nos rege o devir] … Meu Deus!, isto parece, isto parece …” e logo no banco de trás a Carolina, nos seus sete anos desconhecedora de debates arquitectónicos, urbanísticos, culturais ou ecológicos, remata “pai, isto parece o serviço!”.
Adenda: na caixa de comentários surgiram (legítimas) dúvidas sobre o que aqui tentei demonstrar. Como acima refiro a minha filha esgotou-me a argumentação sobre o assunto. Deixo mais uma pobre fotografia, que é o máximo que posso tentar para elucidar os visitantes [e, já agora, os futuros "timesharers"]

[pressionando as fotografias elas aumentam]
Adenda: Nos comentários ao texto o Rui Monteiro argumenta sobre o assunto e lamenta a inexistência de fotografias da “casa do capitão”, disponibilizando-se para as ceder. Eu aí explico porque não considerei relevante colocá-las, nem mesmo fotografá-las. Ainda assim, e enquanto ele não envia as suas coloco as minhas duas fotografias em que o velho edifício surge. A segunda dará uma pequena amostra da sua escala face ao empreendimento. Mas não dão, reconheça-se, sequer uma pálida ideia do que nesse edifício (a antiga casa) será feito.


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Segunda Adenda: o Rui Monteiro - e agradeço-lhe - enviou fotografias do interior da construção, no contexto da antiga “Casa do Capitão”, que possibilitam uma outra panorâmica do edifício. Mandou ainda duas, as finais, sobre a “Casa” propriamente dita e sua porta, mantida.





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Terceira Adenda: Um texto no PembaAtoll dedicado a este tema, e que me parece de bastante interesse.
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Dezembro 3rd, 2009 — Arquitectura Moçambique, Livros Moçambique

[Ana Magalhães, Inês Gonçalves, Moderno Tropical. Arquitectura em Angola e Moçambique, 1948-1975, Lisboa, Tinta-da-China, 2009]
Em Portugal acaba de ser publicado este livro, cuja sessão de apresentação pública ocorreu ontem. Nada mais sei. Mas será daqueles livros de “comprar sem ver”, entenda-se sem sequer folhear. Tamanha a cobiça! Espero que venha a ser distribuído aqui. Quando o conseguir mostrarei mais …
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Novembro 27th, 2009 — Arquitectura Moçambique, História Moçambique, Portugal-Moçambique
(Na foto acima, Francisco Craveiro Lopes, então Presidente da República Portuguesa, de farda branca e óculos. De fato e chapéu à civil à direita na foto está Gabriel Teixeira, então Governador Geral de Moçambique. Numa visita ao Parque Nacional da Gorongosa, integrada numa visita de Estado à Província e à União Sul Africana, Julho e Agosto de 1956)
por ABM (Cascais, 26 de Novembro de 2009)
Parte da beleza de escrever num meio destes é que há pessoas de boa vontade que lêem alguns escritos e não só comentam e discutem, o que é interessante, mas nalguns casos dão outros contributos.
Numa crónica que preparei ontem sobre Gabriel Teixeira, um dos problemas que tive foi que, apesar de uma longa pesquisa na internet, não consegui encontrar uma -uma só que fosse – fotografia do distinto oficial e governante de Moçambique português. Felizmente, lá longe por detrás dos coqueiros e dos leões e búfalos da Serra da Gorongosa, o meu muito caro Dr. Vasco Galante teve a iniciativa de enviar a foto acima, onde se pode ver o então governador Gabriel Teixeira. Muito grato e obrigado. Ajudou a compor a história de mais maneiras do que pensa. Continue a ler e vai ver como.
A “aparição” de Craveiro Lopes na fotografia acima apresentada motiva-me a mencionar algumas peças de trívia moçambicana que o tempo quase que apagou e que fazem parte do fabrico do Moçambique actual.
Francisco Craveiro Lopes foi presidente de Portugal entre Carmona e Américo Tomás. A sua presidência foi no mínimo penosa, por várias razões. São legendárias as suas ambivalências em relação a Salazar e aos destinos por que o seu país navegava. No fim, Salazar mandou-lhe uma simples nota indicando que a União Nacional (que era ele) seleccionara o mais dócil e ultra Américo Tomás para “concorrer” para a eleição de 1958 – a famosa eleição em que concorreu o General Humberto Delgado.
Tudo indica que Craveiro Lopes era um homem bom e decente, com um distinto currículo. O seu pai fora um general e governador da Índia e formou-se no Colégio Militar. Antes dele houve mais. Mais importante, foi um homem que se apercebeu, por mais suavemente que fosse, que algo corria mal na sua república, o que era mais do que se pode dizer de muito boa gente na altura. Foi o único presidente que activamente conspirou contra o regime que Salazar impora aos portugueses. Foi por isso alvo das maiores infâmias por parte dos correlegionários do regime. A ligação acima dá alguns detalhes e testemunhos sobre o que isso foi.
O que pouca gente sabe é que a primeira vez que Craveiro Lopes apareceu no cenário nacional foi pelo que fez em Moçambique, quando, em plena I Guerra Mundial, esteve na fronteira entre o Norte de Moçambique e o então Tanganica alemão, na qualidade de Aspirante de Cavalaria e distinguiu-se no combate aos alemães em 1915 e 1916, nomeadamente em Newala e Quionga. Após voltar à Europa em 1917 para se casar e tirar um curso de aviador, voltou a Moçambique em 1918 por algum tempo.
Craveiro Lopes teve quatro filhos, tudo boa gente mas aqui mencionarei apenas o seu filho Nuno, que viveu durante muitos anos em Moçambique e que, para além de opositor ao regime, foi um arquitecto que deixou obra interessante quer em Portugal quer em Moçambique, para onde veio viver em 1952 e trabalhar como responsável pelo Gabinete de Urbanização e Obras Públicas. A igreja de Santo António da Polana e a Igreja do Sagrado Coração de Jesus no Chibuto são de sua autoria.

Aliás há uma história interessante sobre Nuno Craveiro Lopes e a Igreja de Santo António da Polana. No seu projecto original, aquela horrível casa onde viviam (vivem?) os padres, e que foi erguida mesmo ao lado do ainda hoje arrojado edifício, ficava muito mais longe. Mas os senhores padres não se viam a andar a pé para entrar no templo e mandaram “encostar” a casa à igreja e fazer um túnel de acesso entre os dois edifícios para não molharem a batina, o que enfureceu o arquitecto (ele deve ter desmaiado quando fizeram o ainda mais arrepiante “salão de festas” por detrás, um armazém, basicamente, onde fui inúmeras vezes ao cinema – por cinco escudos via o filme e ainda comia uma bola de Berlim e bebia uma Coca-Cola).
Outro incidente igualmente grave foi que, no projecto original da igreja em si, tal como concebido por Craveiro Lopes, o altar-mor ficava não onde está hoje mas no centro da igreja, directamente debaixo da cúpula do espremedor de limão, onde o efeito da luz ao meio dia era mágico. E o chão da igreja era para ser feito em mármore branco. Ou seja, nas cerimónias os crentes ficariam sentados todos em círculo à volta do altar-mor, iluminado pelos vitrais coloridos de cima, o que é conceptualmente muito mais belo e dinâmico que a chachada que acabou por ser imposta no fim.

Mas os srs. padres no fim mais uma vez deram a volta. Até hoje, aquilo ficou organizado em estilo teatro, o altar-mor encostado à parede e o povão crente sentado de frente.

Novembro 17th, 2009 — Arquitectura Moçambique, Maputo

[Av. Julius Nyerere, Novembro 2009]
Esta é uma das imagens de Maputo 2009, ano da explosão do imobiliário na capital, da substituição das antigas casas em troca de modernos (entenda-se, altos) edifícios. A cidade não voltará a ser o que era, o primado do volume já consagrado nos projectos urbanísticos tardo-coloniais está aí, acompanhando o crescimento de investidores. É certo que o relativo imobilismo da construção de prédios nas zonas centrais da cidade não poderia ser eterno. E que muito do parque imobiliário estava decadente ou desadequado. Mas é com alguma angústia que se poderá prever a extrema densificação do urbanização, o tal endeusamento do volume. E, não só por razões estéticas, também pela erupção da previsível barreira entre a cidade e o mar e rio, já aí. Para além da multiplicação de utentes, não acompanhada de estruturas rodoviárias.
Em lado nenhum o negócio imobiliário conhece barreiras – que não sejam as da falta de financiamento. Não será em Moçambique coisa diferente. Mas sobreviverão algumas zonas ex-libris de uma cidade que é lindissima? Sê-lo-á no futuro? Ou apenas mais uma mescla de torres de vidro (para o ar condicionado), sonhos dos arquitectos do apenas-hoje, ou de Maputos Shoppings e Mesquitas “Velhas”?
Restará alguma nesga de céu?
jpt
Setembro 25th, 2009 — António Quadros, José Forjaz, Literatura Moçambique, Livros Moçambique

A surpresa de encontrar em Portugal esta nova edição do célebre e lendário “Eu, o Povo“, de Mutimati Barnabé João (António Quadros), uma publicação em colecção de bolso da Biblioteca de Editores Independentes (2008). Com um interessante prefácio de José Forjaz, narrando da sua origem, e um hermético (percebi nacos, e com toda a certeza não o fundamental) posfácio de Daniel Jonas (e que tal levantar o pé na densidade quando se escreve para uma colecção de bolso?).
Sobre o mítico livro, apropriação criacionista da identidade moçambicana por parte de Quadros, muito ouvi falar. Transpira o tempo de então, o 1975 ideologizado colectivista. Mas acima de tudo o voluntarista tempo de então. Talvez seja esse mesmo voluntarismo, essa vontade de crer, que tenha levado a crer ter sido um “povo”, um guerrilheiro, a escrever estes poemas – consta (acredito porque mo contaram) que só tendo sido levado o texto a Jorge Rebelo, ele próprio poeta, ele negou essa hipótese ao ler “Tenho um espinho no pé direito. / Descalço a alpercata. / Esta terra é estéril. Queima. Está na agonia.” (O estrume). Pois, disse, “alpercata só um português utilizaria”. Ao reler agora os poemas ocorre-me imaginar o espírito do leitor de então que não descodificava de imediato a operação autoral.
Alguns destes poemas são ainda recorrentemente ditos, mostrando o como produziram uma época, que tem permanências. É o caso de “Relatório” (Faz favor dá ordem para pôr dentro outro Irmão / Camarada Comandante) ou (não é hoje tão explícito?) “Camarada Inimigo” (Este inimigo deixa muita informação e rasto / Não pode ser um inimigo assim tanto) ou ”Eu, o Povo” (A táctica colonialista é deixar o Povo no natural / Fazendo do Povo um inimigo da natureza). É disso que se faz o encanto que neles encontro. Como neste, o meu preferido espelho desse tempo:
Operação da guerra da libertação
Esta árvore amiga é o inimigo
Destroncar esta árvore é uma operação contra o inimigo.
Escolhemos um inimigo, inimigo, à medida da nossa grandeza
Um inimigo do tamanho da nossa tarefa
Que vai dar muita chatice a cair, e táctica e estratégia
E vai ser derrubado melhor que em pé
Pois se que esta terra é boa para uma árvore tão alta
Há-de ser muito boa para dar machamba.
Vais ser ataque de serrote ou machada ou enxada na raiz?
Vai cair para o lado do vento?
Vai ser de cinto de fogo ou trotil mesmo?
Vai ser com as mãos fazendo força, camaradas?
Onde há uma árvore maior do que a força do Povo?
Se vier o velho, a mulher, o menino, todos um e um e um
Riscar com a unha do dedo pequeno, lamber com a língua
Nove milhões de pequenas carícias e pouca força
Esta árvore cai mesmo.
Por onde passa o Exército da Libertação
Fica um rasto verde e cheiroso e o caminho aberto
Para passar a Liberdade e o Futuro.
É fácil ver quem passou aqui.
Abril 9th, 2009 — Arquitectura Moçambique, Arte Moçambique, Carlos Alberto Vieira, Fernando Couto, Fotografia Moçambique, Livros Moçambique

Referi abaixo este Moçambique. Imagens da Arte Colonial, livro organizado por Fernando Couto e editado pela Ndjira em 1998. A obra reproduz 86 fotografias do espólio de Carlos Alberto Vieira, fundamentalmente dedicadas a obras arquitectónicas, monumentos, algumas vistas aéreas urbanísticas e arte sacra. Se a selecção não é exaustiva cobre o país [17 fotos de Maputo, 2 de Zavala, 2 de Xai-Xai, 2 de Inhambane, 4 da Beira, 2 de Quelimane, 10 de Tete, 2 de Angoche, 2 de Nampula, 32 da Ilha de Moçambique, 4 da Cabaceira Grande, 5 do Ilha do Ibo, 1 da Ilha da Quirimba, 1 de Pemba].
Não sei se ainda estará disponível - na altura a edição atingiu 1500 exemplares, número aqui apreciável. Mas será, com toda a certeza, interessante recuperar a obra, introduzindo-lhe o que então foi impossível integrar, uma identificação mais completa das obras apresentadas – autoria e data da instalação das peças, datação das fotografias. Com toda a certeza um projecto nada irrealizável. E que em nada choca com as recentes edições em Portugal de livros sobre o espólio do fotógrafo Carlos Alberto Vieira, tanto porque são estes de maior abrangência temática como pelo facto de também essas edições não apostarem na identificação exaustiva dos objectos retratados.
Abril 8th, 2009 — Arquitectura Moçambique, Arte Moçambique, Fernando Couto, História Moçambique, José Forjaz, Livros Moçambique

Evocando a aguada que Gama fez na região de Inhambane (10 de Janeiro de 1498) ali foi instalada uma estátua durante o período colonial (não conheço nem data nem autoria). Apeada aquando da independência está desde há muito acantonada no pátio traseiro de um edifício municipal.
É óbvio e normal que signifique bem mais para portugueses do que para Estado e sociedade moçambicanos. Não só porque Gama se destaca na galeria de heróis identitários portugueses. Mas, e talvez fundamentalmente, porque a historiografia oficial moçambicana continua a reproduzir a mitificação histórica portuguesa (tardo oitocentista e muito Estado Novo) dos “quinhentos anos de colonização” - assim fazendo, inevitavelmente de Gama o “primeiro colono”.
Não me parece que a estátua tenha particular relevo artístico. Mas está lá, valendo como exemplar da arte (oficial) colonial. Recordo o que deste conjunto disseram José Forjaz: “A qualidade artística destas peças é muito diversa e vai do medíocre, ou mesmo francamente mau, à de grande valor estético. Não é, portanto, significativo observar cada peça por si só.” (in Fernando Couto, Moçambique. Imagens da Arte Colonial, Ndjira, 1998, p.7) e Fernando Couto: “Ainda que concebidas e realizadas por uma outra cultura, estas obras fazem, hoje, parte, do património histórico moçambicano, são parte de Moçambique e devem, por isso, ser objecto de preservação e valorização.” (Fernando Couto, Moçambique. Imagens da Arte Colonial, Ndjira, 1998, p.5).
Tendo em conta os precedentes de integração museológica dos exemplares de arte oficial colonial em Maputo (Fortaleza e Museu Nacional de Arte) e na Ilha de Moçambique (Museu da Ilha), não parece haver impedimentos práticos ou conceptuais para a salvaguarda desta estátua. O museu de Inhambane seria um bom destino, ainda para mais constituído por uma colecção suficientemente heterogénea para que não tenha a sua coerência agredida por esta obra.
Fevereiro 12th, 2009 — Arquitectura Moçambique, Livros Moçambique

Com relação à edição de um livro sobre a arquitectura tardo-colonial em Moçambique João Almeida esclarece que o livro recentemente editado é Obras Públicas em Moçambique. Inventário da Produção Arquitectónica Executada Entre 1933 e 1961 de André Faria Ferreira (Edições Universitárias Lusófonas; p.v.p. 35 euros; ISNB:978-972-8881-50-4).
Fica-se ainda na expectativa da publicação da tese de António Albuquerque, “Arquitectura Moderna em Moçambique. Inquérito à Produção Arquitectónica em Moçambique nos Últimos Vinte e Cinco Anos do Império Colonial Português, 1949-1974“.
Fevereiro 11th, 2009 — Arquitectura Moçambique, Linguística
Comentários em posts antigos são particularmente agradáveis. Alguns pedem informações.
1. Vários visitantes perguntam onde adquirir os dicionários de português-macua e macua-português, produzidos por A. Pires Prata. Confesso que não sei, nem me lembro onde obtive os meus. Se algum visitante souber poderá deixar indicação nos comentários?
Recordo que o dicionário “Macua-Português” foi editado (1990) pelo Instituto de Investigação Científica e Tropical (Lisboa), sendo provável que se encontre nos depósitos da instituição. Quanto ao ”Português-Macua” foi editado (sem indicação de data) pela Sociedade Missionária Portuguesa, pelo que através desta ou de instituições católicas deverá ser possível obtê-lo.
2. Há anos referi a existência de um trabalho académico “Arquitectura Moderna em Moçambique.Inquérito à Produção Arquitectónica em Moçambique nos Últimos Vinte e Cinco Anos do Império Colonial Português. 1949-1974″, da autoria de António Albuquerque. Na altura falava-se aqui da vontade em proceder à sua edição e da dificuldade em contactar o seu autor. Agora encontro um comentário avisando da publicação do citado trabalho – e através deste noto um outro comentário do próprio autor, já com um ano, disponibilizando-se a facilitar a consulta do trabalho. Será que alguém poderá dar mais informações sobre a referida publicação?
3. Sobre os cursos de escrita criativa de Luís Carmelo pouco sei. Ouvi que, hoje em dia, os realiza via internet através do Instituto Camões – e que são muito interessantes.
Maio 31st, 2008 — Arquitectura Moçambique, Ilha de Moçambique

[Maio 2008]
Maio 31st, 2008 — Arquitectura Moçambique, Ilha de Moçambique


[Maio 2008]
Fevereiro 26th, 2008 — Arquitectura Moçambique, Ecologia Moçambique

Qual The Artist Formerly Known as Prince, mas não como se crisálida, que não será de borboletas o futuro feito. Sim, dentro de pouco poderemos falar sobre The Beach Formerly Known as Wimbe.
Praia ícone em Moçambique, um pouco pela beleza natural, amena enseada olhando a baía de Pemba, mesmo ladeando-lhe a barra. Englobando aquela meia-dúzia de praias mais célebres desde o tempo colonial, talvez não tanto pela sua excelência – que partilham com tantos outros recantos da costa – mas pela antiguidade das suas infraestruturas turísticas: Tofo, Ponta do Ouro, Bilene, Zalala, Fernão Veloso. E o Wimbe, claro.
Ainda assim o Wimbe tem uma excelência única, exactamente o aconchego, a baía como horizonte, a (ainda) pacatez sob o arvoredo.
Memórias a manter, a guardar, agora que tudo isso mudará. Tive o “privilégio” de ver o novo projecto turístico para a praia, que gente ufana me mostrou, dessas crentes no progresso e isso, desenvolvimento turístico chamam-lhe e até acreditam. Na praia! exactamente na praia, no seio do arvoredo protector (a sul do Nautilus, para quem conhece) vão espetar um hotel, a deslizar para a água.
Este será uma construção da Vovó Donalda e do Tio Patinhas, puro Walt Disney. Tem a forma de um barco, como se paquete. Honestamente julguei que estivessem a brincar quando me mostraram as coloridas fotocópias. “Mas quem é que faz uma merda destas?” – perguntei, malcriadíssimo, ainda surpreeendido pois acreditava já ter visto tudo o que é possível nisto do campeonato do mau-gosto dos arquitectos em Moçambique (a colecção de cromos Sommerschield B – Bairro do Triunfo seria um must como programa cómico num sítio onde se saiba soletrar b-o-m-g-o-s-t-o). “Investidores moçambicanos“, dizem-me com orgulho, até nacionalista, ainda que ali um pouco desapontado dada a minha truculência, “arquitecto indiano … da Índia“.
Um arquitecto indiano aqui arribado para brincar ao Huguinho, Zezinho e Luisinho. Uns investidores moçambicanos a derrubarem o arvoredo protector, a alteraram a enseada, a assumirem a linha de água. Em suma, uma aliança internacional para foder o Wimbe. Será só cupidez e ignorância? Ou é mesmo má-vontade demencial?
Novembro 4th, 2007 — Arquitectura Moçambique, Daniel da Costa, Ilha de Moçambique, Literatura Moçambique, Mia Couto, Política Moçambique, Postais Moçambique
O fim do Xitonhana: um abraço ao António, que sei por vezes aqui. “Ilha de Moçambique”, poema de Mia Couto. “Mesquita Grande” da Ilha, de Rui Knopfli, no Petromax. O texto de Mia Couto apresentando “A Ciência de Deus e o Sexo das Borboletas, de Daniel da Costa, transcrito no Mãos de Moçambique. Postais antigos de Moçambique no Kafe Kultura A propósito do Prémio Boa Governação José Medeiros Ferreira anuncia relato de uma conversa com Joaquim Chissano, havida em 1976 na ONU. Será aquando da entrega do Prémio. Fica-se à espera, presume-se que significativa a conversa, interessante o relato. [via Lusofolia] O nada lento minguar da economia do continente africano, em estudo da Oxfam [meros 15% ao ano na última década e meia ...] – via Causa Africana. O shoppingcentrismo e seu mais moderno mamarracho, devastando a Baixa de Maputo, segundo o Chapa 100 O Machado da Graça, implacável sobre o processo de recenseamento eleitoral em curso (?). Nota sobre o genocídio ucraniano nos anos 30.
Junho 18th, 2007 — Arquitectura Moçambique, Ilha de Moçambique
Pois muito se tem falado da reabilitação de edifícios na Ilha de Moçambique, pelo que será de recordar a excelente intervenção que o Millenium BIM fez na sua agência na cidade de pedra-e-cal. Exemplo da participação empresarial no cuidar da Ilha.
Março 26th, 2007 — Arquitectura Moçambique, Viagens Moçambique

(Morrumbala. Marco 2007)
Novembro 24th, 2006 — Arquitectura Moçambique, Viagens Moçambique
Sempre me irritou, por mediocre e preguicoso, o termo pos-colonial. Por melhor embrulho “teorico” com que se apresente. Por razoes varias relacionadas com a negacao explicita de dinamicas longas nas sociedades assim ditas. Mas tambem com a arrogancia “esquerdista” (nos constantes paradoxos da nova esquerda) academica que o canta.Mas visitar com olhos-de-ver a Namaacha, essa tambem estancia de repouso colonial, a apregoada “Sintra de Mocambique” desses tempos impeliu-me ao termo (para dele sair basta andar uns poucos kms perpendiculares aos edificios, claro). Mas, ainda assim, aqui fica o palimpsesto.













Novembro 24th, 2006 — Arquitectura Moçambique, Religião, Viagens Moçambique


Uma estatua da Virgem, ao centro da praca, fronteira a igreja. Algo absolutamente inusitado em Mocambique. Dizem-me que duas vezes por ano ha procissao, desde a Matola ate aqui, Namaacha. A visitar, claro.
Outubro 24th, 2006 — Arquitectura Moçambique, Citações, Joseph Brodsky
Declaração de princípio moral (e de repugnância higiénica): “… era um reles arquitecto, dessa pavorosa seita do pós-guerra que fez mais estragos na linha do horizonte europeu do que qualquer Luftwaffe. Em Veneza, o indivíduo desfigurara dois campi maravilhosos com os seus edifícios, um dos quais era, claro está, um banco, pois este género de animal humano adora os bancos com um fervor absolutamente narcísico, com o amor de um efeito pela sua causa. Só por essa “estrutura” (como nesse tempo se dizia) merecia amplamente, a meu ver, um par de cornos. Mas já que, tal como a mulher, também ele era, pelos vistos, membro do PC, melhor seria confiar a missão a um camarada“.
[Joseph Brodsky, Marca de Água, Lisboa, D. Quixote, p. 17-18 (tradução de Ana Luísa Faria)]
(claro está que, aos meus quarenta anos, não há ninguém que se abomine tanto como os arquitectos. Em especial os “melhores”).
Agosto 26th, 2006 — Arquitectura Moçambique, Citações

Do meu longínquo país chegam-me notícias de que os monstros sagrados da corporação reforçam a ditadura arquitectónica (quem, no mero “vulgo ignaro”, se atreve a enfrentá-los?). Diga-se, a impessoalização do estar. Urbes nuas e agora, ameaça-se, os vestígios românticos a “pós-modernizarem-se”.
“Não me parece que o arquitecto deva, sistematicamente, utilizar a linguagem ou os hábitos do seu utente ou cliente mas tem pelo menos que usar uma linguagem que seja compreensível, e portanto esse linguagem tem muito, naturalmente, do momento, da linguagem do passado próximo, por vezes até do passado antigo” (Fernando Távora)
[Augusto Santos Silva, Vítor Oliveira Jorge (orgs.), Existe Uma Cultura Portuguesa?, Porto, Afrontamento, 1993, p. 93]
Julho 31st, 2006 — Arquitectura Moçambique, Livros Moçambique
Pemba em livro:

Sandro Bruschi, Júlio Carrilho, Luís Lage, Pemba. As Duas Cidades, Maputo, Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico, 2005

[A Situação da Edificação em 1970; fotografia aérea, AHM 5587]
Um livro já amplamente abordado no Forever Pemba, mas ainda assim a merecer uma visita crítica.
Dezembro 11th, 2005 — Arquitectura Moçambique
A Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico da UEM (uma ligação passa a estar colocado na coluna de elos) tem estado muito activa quanto a publicações, as cujas espero aqui indicar em breve. Nesse seu seu sítio informático a FAPF tem notícia, algo desactualizada, das suas edições.
Como exemplo significativo do muito que tem vindo a ser publicado pode-se ver no Forever Pemba em entradas (incorrectamente) denominadas “A Pemba do Júlio Carrilho” notícia bem detalhada e ilustrada de “Pemba. As duas cidades” de autoria de Sandro Bruschi, Júlio Carrilho e Luis Lage (FAPF, 2005).
Outubro 1st, 2005 — Arquitectura Moçambique, Ilha do Ibo, Imprensa Moçambique, Livros Moçambique, Paola Rolleta
No Expresso [abaixo transcrito] Paola Rolleta coloca texto sobre o Ibo e sobre os livros ontem publicados em Moçambique, “Ibo – a Casa e o Tempo” de Júlio Carrilho, e “Pemba, as Duas Cidades“, de Júlio Carrilho, Luís Lage e Sandro Bruschi, edições da Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico.
(Lembro os interessados residentes no estrangeiro, arquitectos, amantes do maravilhoso Cabo Delgado, amantes de livros e curiosos, que os livros podem ser encomendados na Livraria Escolar Editora que os distribuirá internacionalmente).
***
Turismo no arquipélago das Quirimbas
Ilha de Ibo, um encanto decadente
Expresso, 30 de Setembro
Paola Rolletta
A ilha do Ibo – no arquipélago das Quirimbas – é um destino que começa a aparecer nos roteiros turísticos mais sofisticados a cinco e seis estrelas, como Quilálea e Matemo.
O Ibo ainda mantém um ar decadente, e já despertou o interesse nacional e internacional pelo grande património arquitectónico que possui, pelo que representa na história dos povos português e moçambicano.
«Casas de pedra e limo, bichos obstinados na sua quietude. Pacientes, embalados pelo vaivém das marés. Deixando que o sal lhes carcuma a pele por terem desde há muito desistido de contrariar o tempo», escreveu numa estória da ilha, João Paulo Borges Coelho.
As ruínas das casas, as ruínas das varandas, elemento tão característico da ilha, as ruínas das estradas, tudo isto foi levantado e estudado pela Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico (FAPF) de Maputo e publicado agora em livro, «Ibo – a casa e o tempo» pela pena de Júlio Carrilho, poeta e arquitecto e oriundo do Ibo. É apresentado ao público, em Maputo, juntamente com «Pemba, as duas cidades», levantamento da cidade de cimento e da «informal»: a expansão recente da antiga Porto Amélia é constituída da adaptação à resistência permanente no ambiente urbano de uma tipologia de casa pré-colonial transformada e evoluída através de uma sabedoria antiga e ainda viva.
A ilha do Ibo já foi um terra de comércio de escravos. Quando a capital dos grupo de ilhas Quirimbas foi mudado para Pemba, a ilha do Ibo já não foi mais nada. Ficou refém das marés vivas e do esquecimento do tempo, com as varandas sempre mais vazias e sempre mais decadentes. Já se pensou fazer dela o centro de Zona Especial de Turismo, mas não deu em nada.
Hoje o ambiente é mais favorável e muito se deve à mudança de mentalidade da qual a FAPF é certamente uma das principais mentoras, com o director José Forjaz e uma equipa de arquitectos moçambicanos e italianos que estão a levar a cabo o levantamento do património arquitectónico moderno moçambicano.
Em Moçambique, onde os monumentos históricos não são certamente uma presença significativa, parece ainda mais importante tutelar este património arquitectónico que constitui a cara mais evidente das cidades de cimento, seja pela qualidade específica seja pela dimensão e o papel urbano, elemento importante pelo turismo urbano e sustentável, actual aposta de desenvolvimento.
«Ibo- a casa e o tempo» tem o aspecto mais de um diário de viagem do que um tratado de arquitectura. Júlio Carrilho, entre plantas urbanas e fotos de edifícios, relata as entrevistas feitas com os velhos habitantes que todos os segredos sabem das casas, das argamassas, da cal e das ervas usadas para ser mais forte. Reconhece um espaço especial a quem quando a maré não deixa pescar, come apenas maçanicas.
E faz um acto de amor para com a sua ilha, alimentando o optimismo da convicção de que «também o presente ciclo de degradação e um certo marasmo será ultrapassado pela redescoberta da riqueza natural, de novas vocações para o relançamento económico e social e da importância do património tangível e intangível das ilhas no seu conjunto e do Ibo, em particular».
Janeiro 13th, 2005 — Arquitectura Moçambique, José Forjaz
O Complexidade e Contradição chama(-me) a atenção para uma entrevista de José Forjaz, o decano dos arquitectos moçambicanos e director da Faculdade de Arquitectura da UEM, à revista Arquitectura e Vida. Que eu leria com todo o interesse, mas que julgo não ser por cá distribuída (ainda que acredite que algum vizinho leitor ocasional me possa fazer chegar cópia do texto). Ainda assim não deixo de a re-recomendar aos interessados no binómio arquitectura/Moçambique.
A este propósito não posso deixar de lembrar uma sua entrevista ao jornal Expresso, nº 1633 [47 semanas depois ainda se paga para ler, um miserabilismo], então editada sob o polissémico título “Um Ilustre Português de Além-Mar”.
Novembro 28th, 2004 — Arquitectura Moçambique
Chega-me só agora às mãos, e depois de muitas perguntas e tentativas, e em (in)suficiente fotocópia, um aqui muito sussurrado trabalho:
Arquitectura Moderna em Moçambique.Inquérito à Produção Arquitectónica em Moçambique nos Últimos Vinte e Cinco Anos do Império Colonial Português. 1949-1974
O autor é António Manuel da Silva e Sousa de Albuquerque, que o realizou como Prova Final de Licenciatura em Arquitectura na Faculdade de Ciências e Tecnologia, na Universidade de Coimbra em 1998, sob orientação do Prof. Arquitecto Alexandre Alves Costa.
Penso que ao trabalho lhe terá faltado a abordagem às obras públicas de então, por dificuldades de acesso ao arquivo. Mas o interesse da obra, para profissionais e não só, é relevante.
Por razões óbvias (e as imagens que aqui deixo sublinham-nas) muito se deseja a sua passagem de quase invisível fotocópia para a edição em livro. Até pelo ineditismo do trabalho, pois ninguém o seguiu. E como base para a sua extensão, tanto para o período colonial, como para uma recolha analítica do que tem vindo a ser feito nos últimos trinta anos.

Mas essa vontade de edição encontra grande obstáculo. Não se tem conseguido o contacto com o autor, e aqui vai o nome repetido: António Manuel da Silva e Sousa de Albuquerque.
Será que alguma visita deste Ma-Schamba conhecerá esse arquitecto, para que se transforme esta tese em publicação? Ou quiçá os bloguistas A Barriga de Um Arquitecto, Complexidade e Contradição, hARDbLOG, ou outros, possam convocar o colega?
Outubro 28th, 2004 — Arquitectura Moçambique, Maputografia

O edifício dos Correios de Moçambique, na 25 de Setembro, é um dos mais antigos de Maputo. Brilha numa Baixa algo descaracterizada nas últimas décadas e que actualmente sofre alguma desqualificação, talvez inexorável, pois o centro da cidade dela se vai afastando. Até ao longo da própria avenida, algumas centenas de metros apenas, com a zona da FACIM animada durante os últimos anos por via de novas construções de uma arquitectura anódina.

Também por isso a manutenção do edifício dos Correios, bem como o muito similar que alberga a Biblioteca Nacional, assume particular importância, a preservação de uma memória arquitectónica, de uma identidade histórica da cidade.
Mas para além disso a sede dos Correios tem uma componente belissima. A sua enorme sala de atendimento é ladeada por dois antigos balcões em madeira, peças únicas e que lhe dão um insubstituível carisma.
Pois soube-se agora que uma parte de um dos balcões vai ser removido para possibilitar o acesso a uma sala pública de internet, a instalar.
O pressuposto é óbvio. Há a consciência da importância histórica, e até da beleza dos balcões. E da importância da sua manutenção. Mas esta não implica a sua completude. Ou seja, a ideia de que o património (identitário) se mantém ainda que fragmentário. Um compromisso letal, que assume a parcela como a coisa-em-si. Compromisso que não sente a estética, que não entende a função. Compromisso que desvaloriza os itens a preservar e que, em última instância, os condena ao desaparecimento, num futuro dia em que serão desvalorizados porque inúteis e, exactamente, fragmentários.
Pois um diferente, e mais esclarecido, entendimento do que é uma peça patrimonial poderá salvar a integridade destes balcões. Que um dia poderão orlar uma sala de visitas ou até núcleo museológico dos correios moçambicanos. Que por enquanto aconchegam e servem os utentes.
Os correios têm instalações amplas. Decerto que com alguma imaginação poderão encontrar uma opção, fácil e barata, para outra via de acesso à muito bem-vinda sala pública de internet.
Consta que nos finais dos anos 1980s houve um projecto de remoção destes balcões. Então os alunos de Arquitectura intervieram, assumindo a sua manutenção como causa. Será que os arquitectos de hoje e alunos de ontem ainda terão tempo e paciência (e energia) para colaborar numa outra solução?