Entries Tagged 'Arquitectura Moçambique' ↓

O Fim da Praia do Wimbe

wimbe.jpg

Qual The Artist Formerly Known as Prince, mas não como se crisálida, que não será de borboletas o futuro feito. Sim, dentro de pouco poderemos falar sobre The Beach Formerly Known as Wimbe.

Praia ícone em Moçambique, um pouco pela beleza natural, amena enseada olhando a baía de Pemba, mesmo ladeando-lhe a barra. Englobando aquela meia-dúzia de praias mais célebres desde o tempo colonial, talvez não tanto pela sua excelência - que partilham com tantos outros recantos da costa - mas pela antiguidade das suas infraestruturas turísticas: Tofo, Ponta do Ouro, Bilene, Zalala, Fernão Veloso. E o Wimbe, claro.

Ainda assim o Wimbe tem uma excelência única, exactamente o aconchego, a  baía como horizonte, a (ainda) pacatez sob o arvoredo.

Memórias a manter, a guardar, agora que tudo isso mudará. Tive o “privilégio” de ver o novo projecto turístico para a praia, que gente ufana me mostrou, dessas crentes no progresso e isso, desenvolvimento turístico chamam-lhe e até acreditam. Na praia! exactamente na praia, no seio do arvoredo protector (a sul do Nautilus, para quem conhece) vão espetar um hotel, a deslizar para a água.

Este será uma construção da Vovó Donalda e do Tio Patinhas, puro Walt Disney. Tem a forma de um barco, como se paquete. Honestamente julguei que estivessem a brincar quando me mostraram as coloridas fotocópias. “Mas quem é que faz uma merda destas?” - perguntei, malcriadíssimo, ainda surpreeendido pois acreditava já ter visto tudo o que é possível nisto do campeonato do mau-gosto dos arquitectos em Moçambique (a colecção de cromos Sommerschield B - Bairro do Triunfo seria um must como programa cómico num sítio onde se saiba soletrar b-o-m-g-o-s-t-o). “Investidores moçambicanos“, dizem-me com orgulho, até nacionalista, ainda que ali um pouco desapontado dada a minha truculência, “arquitecto indiano … da Índia“.

Um arquitecto indiano aqui arribado para brincar ao Huguinho, Zezinho e Luisinho. Uns investidores moçambicanos a derrubarem o arvoredo protector, a alteraram a enseada, a assumirem a linha de água. Em suma, uma aliança internacional para foder o Wimbe. Será só cupidez e ignorância? Ou é mesmo má-vontade demencial?

Janela da Moda


(Morrumbala. Marco 2007)

Palimpsesto

Sempre me irritou, por mediocre e preguicoso, o termo pos-colonial. Por melhor embrulho “teorico” com que se apresente. Por razoes varias relacionadas com a negacao explicita de dinamicas longas nas sociedades assim ditas. Mas tambem com a arrogancia “esquerdista” (nos constantes paradoxos da nova esquerda) academica que o canta.

Mas visitar com olhos-de-ver a Namaacha, essa tambem estancia de repouso colonial, a apregoada “Sintra de Mocambique” desses tempos impeliu-me ao termo (para dele sair basta andar uns poucos kms perpendiculares aos edificios, claro). Mas, ainda assim, aqui fica o palimpsesto.

Globalizacao: Virgem (significados e significantes)

Uma estatua da Virgem, ao centro da praca, fronteira a igreja. Algo absolutamente inusitado em Mocambique. Dizem-me que duas vezes por ano ha procissao, desde a Matola ate aqui, Namaacha. A visitar, claro.

Pemba em livro:

Sandro Bruschi, Júlio Carrilho, Luís Lage, Pemba. As Duas Cidades, Maputo, Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico, 2005

[A Situação da Edificação em 1970; fotografia aérea, AHM 5587]

Um livro já amplamente abordado no Forever Pemba, mas ainda assim a merecer uma visita crítica.

Ibo (1)

No Expresso [abaixo transcrito] Paola Rolleta coloca texto sobre o Ibo e sobre os livros ontem publicados em Moçambique, “Ibo - a Casa e o Tempo” de Júlio Carrilho, e “Pemba, as Duas Cidades“, de Júlio Carrilho, Luís Lage e Sandro Bruschi, edições da Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico.

(Lembro os interessados residentes no estrangeiro, arquitectos, amantes do maravilhoso Cabo Delgado, amantes de livros e curiosos, que os livros podem ser encomendados na Livraria Escolar Editora que os distribuirá internacionalmente).

***

Turismo no arquipélago das Quirimbas
Ilha de Ibo, um encanto decadente
Expresso, 30 de Setembro
Paola Rolletta

A ilha do Ibo - no arquipélago das Quirimbas - é um destino que começa a aparecer nos roteiros turísticos mais sofisticados a cinco e seis estrelas, como Quilálea e Matemo.

O Ibo ainda mantém um ar decadente, e já despertou o interesse nacional e internacional pelo grande património arquitectónico que possui, pelo que representa na história dos povos português e moçambicano.

«Casas de pedra e limo, bichos obstinados na sua quietude. Pacientes, embalados pelo vaivém das marés. Deixando que o sal lhes carcuma a pele por terem desde há muito desistido de contrariar o tempo», escreveu numa estória da ilha, João Paulo Borges Coelho.

As ruínas das casas, as ruínas das varandas, elemento tão característico da ilha, as ruínas das estradas, tudo isto foi levantado e estudado pela Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico (FAPF) de Maputo e publicado agora em livro, «Ibo - a casa e o tempo» pela pena de Júlio Carrilho, poeta e arquitecto e oriundo do Ibo. É apresentado ao público, em Maputo, juntamente com «Pemba, as duas cidades», levantamento da cidade de cimento e da «informal»: a expansão recente da antiga Porto Amélia é constituída da adaptação à resistência permanente no ambiente urbano de uma tipologia de casa pré-colonial transformada e evoluída através de uma sabedoria antiga e ainda viva.

A ilha do Ibo já foi um terra de comércio de escravos. Quando a capital dos grupo de ilhas Quirimbas foi mudado para Pemba, a ilha do Ibo já não foi mais nada. Ficou refém das marés vivas e do esquecimento do tempo, com as varandas sempre mais vazias e sempre mais decadentes. Já se pensou fazer dela o centro de Zona Especial de Turismo, mas não deu em nada.

Hoje o ambiente é mais favorável e muito se deve à mudança de mentalidade da qual a FAPF é certamente uma das principais mentoras, com o director José Forjaz e uma equipa de arquitectos moçambicanos e italianos que estão a levar a cabo o levantamento do património arquitectónico moderno moçambicano.

Em Moçambique, onde os monumentos históricos não são certamente uma presença significativa, parece ainda mais importante tutelar este património arquitectónico que constitui a cara mais evidente das cidades de cimento, seja pela qualidade específica seja pela dimensão e o papel urbano, elemento importante pelo turismo urbano e sustentável, actual aposta de desenvolvimento.

«Ibo- a casa e o tempo» tem o aspecto mais de um diário de viagem do que um tratado de arquitectura. Júlio Carrilho, entre plantas urbanas e fotos de edifícios, relata as entrevistas feitas com os velhos habitantes que todos os segredos sabem das casas, das argamassas, da cal e das ervas usadas para ser mais forte. Reconhece um espaço especial a quem quando a maré não deixa pescar, come apenas maçanicas.

E faz um acto de amor para com a sua ilha, alimentando o optimismo da convicção de que «também o presente ciclo de degradação e um certo marasmo será ultrapassado pela redescoberta da riqueza natural, de novas vocações para o relançamento económico e social e da importância do património tangível e intangível das ilhas no seu conjunto e do Ibo, em particular».

Edifício Capitania, Lourenço Marques

Um belo postal, não-identificado. Anterior a 1911, como se reconhece pela inscrição manuscrita. Uma bela oferta do Marco. O qual se apresta para proporcionar grandes surpresas (e prazeres) aos leitores de blogs. Fico à espera.

Adenda: Machado da Graça acaba de deixar comentário a corrigir imprecisão, o qual aqui coloco pelo seu interesse: “O edificio chamava-se Predio Capitania mas creio que apenas por ser perto da dita cuja. Não creio que esses serviços alguma vez lá tenham funcionado. A sua última utilização, se bem recordo, foi como “casa de meninas“.”

Mera Agenda?

Chega-me às mãos oferta supreendente de preciosa. Uma agenda de 2005, isso do todos os anos, objecto utilitário sempre desprezado, usar e amachucar. Ainda para mais no agora, tempos do digital. Uma mera agenda?

Nada disso, excelente Agenda a que os Caminhos de Ferro de Moçambique editam para este ano. Uma bela paginação a apresentar fotografias de Funcho (João Costa) sobre o mundo ferroviário moçambicano. Fotografias antes expostas como “Trilhos” na PhotoFesta 2004, e manda a justiça dizer que muitissimo mal expostas pelo autor, uma tristeza de desperdício pensei alto então.


Fotografias nada dos comboios e carris, estas trazem-nos o interior dos caminhos-de-ferro, esses homens com alguns dos seus instrumentos que vão fazendo o comboio avançar, e nisso explicando o lentamente mas também o ir caminhando. E que trazem também os pontos de intersecção, essas tantas estações pulmões de gente e terras. Fotografias estas que nos desvendam, mas com o paradoxo de também encantar, o dia-a-dia do como viajar aqui e do quem como o permite.

Que era belo e sentido o trabalho de Funcho já se adivinhava. Mas com este cúmulo de bom gosto impõem-se os CFM como obreiros de futuro livro destas imagens, destes eles-próprios. Custos e obrigações desta nada “mera agenda”.

Arquitectura Aqui

O Complexidade e Contradição chama(-me) a atenção para uma entrevista de José Forjaz, o decano dos arquitectos moçambicanos e director da Faculdade de Arquitectura da UEM, à revista Arquitectura e Vida. Que eu leria com todo o interesse, mas que julgo não ser por cá distribuída (ainda que acredite que algum vizinho leitor ocasional me possa fazer chegar cópia do texto). Ainda assim não deixo de a re-recomendar aos interessados no binómio arquitectura/Moçambique.
A este propósito não posso deixar de lembrar uma sua entrevista ao jornal Expresso, nº 1633 [47 semanas depois ainda se paga para ler, um miserabilismo], então editada sob o polissémico título “Um Ilustre Português de Além-Mar”.

De novo a Sé de Maputo

Atrás referi e coloquei a Sé de Maputo e a sua antecessora, esta em fraca fotografia.

Agora o Rui M. P. do Companhia de Moçambique, que continua a reproduzir as imagens dos maravilhosos livros de Santos Rufino, enviou-me uma outra fotografia (incluída no vol. III de Santos Rufino, 1929), da velha igreja paroquial de Lourenço Marques. Mais do que lhe agradeço.

Ei-la:

Arquitectura Moderna em Moçambique

Chega-me só agora às mãos, e depois de muitas perguntas e tentativas, e em (in)suficiente fotocópia, um aqui muito sussurrado trabalho:

Arquitectura Moderna em Moçambique.Inquérito à Produção Arquitectónica em Moçambique nos Últimos Vinte e Cinco Anos do Império Colonial Português. 1949-1974

O autor é António Manuel da Silva e Sousa de Albuquerque, que o realizou como Prova Final de Licenciatura em Arquitectura na Faculdade de Ciências e Tecnologia, na Universidade de Coimbra em 1998, sob orientação do Prof. Arquitecto Alexandre Alves Costa.

Penso que ao trabalho lhe terá faltado a abordagem às obras públicas de então, por dificuldades de acesso ao arquivo. Mas o interesse da obra, para profissionais e não só, é relevante.


Por razões óbvias (e as imagens que aqui deixo sublinham-nas) muito se deseja a sua passagem de quase invisível fotocópia para a edição em livro. Até pelo ineditismo do trabalho, pois ninguém o seguiu. E como base para a sua extensão, tanto para o período colonial, como para uma recolha analítica do que tem vindo a ser feito nos últimos trinta anos.

Mas essa vontade de edição encontra grande obstáculo. Não se tem conseguido o contacto com o autor, e aqui vai o nome repetido: António Manuel da Silva e Sousa de Albuquerque.

Será que alguma visita deste Ma-Schamba conhecerá esse arquitecto, para que se transforme esta tese em publicação? Ou quiçá os bloguistas A Barriga de Um Arquitecto, Complexidade e Contradição, hARDbLOG, ou outros, possam convocar o colega?

O Balcão (II)

A parcela não-cínica do JPT está agradada, e até com ponta de vaidade, pelo facto do Balcão ter alertado algumas boas consciências. “A ver vamos”, resmunga o outro naco de JPT, sempre pessimista mas, confessa entredentes, invejoso num “pois, e a mim ninguém me liga…”

O Balcão

O edifício dos Correios de Moçambique, na 25 de Setembro, é um dos mais antigos de Maputo. Brilha numa Baixa algo descaracterizada nas últimas décadas e que actualmente sofre alguma desqualificação, talvez inexorável, pois o centro da cidade dela se vai afastando. Até ao longo da própria avenida, algumas centenas de metros apenas, com a zona da FACIM animada durante os últimos anos por via de novas construções de uma arquitectura anódina.


Também por isso a manutenção do edifício dos Correios, bem como o muito similar que alberga a Biblioteca Nacional, assume particular importância, a preservação de uma memória arquitectónica, de uma identidade histórica da cidade.

Mas para além disso a sede dos Correios tem uma componente belissima. A sua enorme sala de atendimento é ladeada por dois antigos balcões em madeira, peças únicas e que lhe dão um insubstituível carisma.

Pois soube-se agora que uma parte de um dos balcões vai ser removido para possibilitar o acesso a uma sala pública de internet, a instalar.

O pressuposto é óbvio. Há a consciência da importância histórica, e até da beleza dos balcões. E da importância da sua manutenção. Mas esta não implica a sua completude. Ou seja, a ideia de que o património (identitário) se mantém ainda que fragmentário. Um compromisso letal, que assume a parcela como a coisa-em-si. Compromisso que não sente a estética, que não entende a função. Compromisso que desvaloriza os itens a preservar e que, em última instância, os condena ao desaparecimento, num futuro dia em que serão desvalorizados porque inúteis e, exactamente, fragmentários.

Pois um diferente, e mais esclarecido, entendimento do que é uma peça patrimonial poderá salvar a integridade destes balcões. Que um dia poderão orlar uma sala de visitas ou até núcleo museológico dos correios moçambicanos. Que por enquanto aconchegam e servem os utentes.

Os correios têm instalações amplas. Decerto que com alguma imaginação poderão encontrar uma opção, fácil e barata, para outra via de acesso à muito bem-vinda sala pública de internet.

Consta que nos finais dos anos 1980s houve um projecto de remoção destes balcões. Então os alunos de Arquitectura intervieram, assumindo a sua manutenção como causa. Será que os arquitectos de hoje e alunos de ontem ainda terão tempo e paciência (e energia) para colaborar numa outra solução?

Praça

Em comentário recente a IO, amiga da casa, dizia que apesar da sua memória afectiva de Lourenço Marques e da sua Sé não gostava da Praça.

Pois…ei-la, no seu estilo magestático, o ritual do Império. Ao cimo o então Palácio da Câmara Municipal (hoje Conselho Municipal), a seu lado a Igreja protectora, no centro Mouzinho, a enigmática personagem que a necessidade de mito tornou Conquistador. Ali altaneiro protegendo a Baixa (então coração) da Cidade - o Marquês de Pombal em África, impossível não associar.

Tudo isto olhando o braço de mar e, para lá, a terra dos Tembe.

Hoje Mouzinho repousa, digno, ao fundo da avenida, no centro da Fortaleza pastiche. E a Praça leva o nome de Independência.

[Fotografia de Carlos Alberto, retirada de Fernando Couto (coord.) Moçambique. Imagens da Arte Colonial, Maputo, Ndjira, 1998]

(Ainda) a Sé de Maputo

[Imagem de Carlos Alberto Vieira. Reproduzida em Fernando Couto (coord.) Moçambique. Imagens da Arte Colonial, Maputo, Ndjira, 1998]

A primeira catedral (1879), demolida em 1936 para se erguer a actual.
[imagem não identificada. Reproduzida em Luigi Corvaja, Maputo. Desenho e Arquitectura, Maputo, Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico, 2003 (retirado do mercado)]
Nota: infelizmente não possuo nenhuma obra com informações substantivas sobre autoria e construção de ambos os edifícios. Assim sendo restrinjo-me a imagens e datas de construção.

Gostos

Alguém se surpreendeu por eu considerar “feiosa” a Sé de Maputo. Não me atrevo a aqui discutir arquitectura, assunto no qual os oficiais desse ofício são muito renitentes em aceitar foice alheia. E ainda menos transformar esta casa num sítio turístico-exótico, assuntos aos quais os oficiais do meu ofício ainda são mais renitentes em aceitar como seara própria. Mas, ainda assim, aqui fica amostra da dita para consideração alheia.

(Fotografia de Miguel Mansilha, postal Edição Futur)