A propósito de uma breve entrada dedicada ao Museu da Ilha de Moçambique e à actividade dos Arqueonautas há troca de comentários, talvez interessante para os interessados na matéria.
Archive for the ‘Arqueologia Subaquática’ Category
Museu da Marinha na Ilha de Moçambique
Sábado, Setembro 1st, 2007
A saga, um bocado mísera diga-se, da pirataria “arqueológica” dos Arqueonautas, vendedores de restos cargas naufragadas e aboletados na Ilha de Moçambique, vai continuando. Agora, tentando lavar a cara (“face-lifting”) avançaram para a apresentação museológica dos salvados (dos restos, melhor dizendo). De imediato localmente denominado como o “Museu do Caco”. Honra ao ministro ali presente, Aires Aly, que nem quis aceitar a sua inauguração.Para quando uma verdadeira (e turística) exploração arqueológica?
Arqueologia subaquática 15
Sexta-feira, Junho 18th, 2004Em relação aos princípios básicos que enuncia estamos de acordo com as alíneas a) (soberania moçambicana sobre navios e cargas naufragados nos nossos mares); b) (Exploração das estações respeitando as normas da arqueologia marítima e; c) (Recuperação dos bens e realização de estudos). Em relação à alínea d) não podemos estar de acordo por prever algo que, de acordo com a nossa interpretação da lei moçambicana, e a interpretação de juristas por nós consultados, é ilegal.
a) Falta de documentação fotográfica das pesquisas efectuadas (no laboratório e no campo);b) Falta dos mapas, ilustrações e exemplos das fichas básicas do registo.
Maura Quatorze
Arqueologia Subaquática 14
Domingo, Junho 13th, 2004Arqueologia subaquática 13
Sexta-feira, Junho 11th, 2004Ladies and Gentlemen,
Nikolaus Sandizell CEO / Administrador Delgado
Arqueologia subaquática 12
Quinta-feira, Junho 10th, 2004Arqueologia subaquática 11: artigo no Savana
Domingo, Junho 6th, 2004
Mas, afinal, como começou o projecto que culminou com o leilão de 19 de Março?
Segundo Paulo Alexandre Monteiro, da Archport, “A Arqueonautas, AS é uma empresa de caça ao tesouro formada em 1994. Tinha como director de operações John Grattan, ex-oficial da Royal Navy e protagonista de vários desacatos e crimes na ilha Terceira, onde operou em 1972. A empresa que tem (ou tinha) como accionistas, entre outros, membros do Grupo Espírito Santo, Francisco Pinto Balsemão e José Manuel de Mello, opera (ou operou) em Cabo Verde com o beneplácito do Ministro do Mar, depois de ter visto frustrada a sua intenção de proceder a prospecções e recuperações nos mares dos Açores, ao abrigo do revogado dec.lei 289/93.
Arqueologia subaquática 10
Sexta-feira, Junho 4th, 2004No Savana (sem ligação ao texto referido) trabalho aprofundado sobre a acção da “Arqueonautas” em Moçambique: “Arqueologia em águas turvas”, de Maura Quatorze e Machado da Graça. Acentuando a ilegalidade face à legislação moçambicana. E sublinhando o facto da empresa caça-tesouros não trabalhar sob nenhuma fiscalização estatal, como foi contratualizado (nem isso, nem isso). Destaque acentuado, ocupa as páginas centrais.
(Para quando o Savana na internet?).
Arqueologia subaquática 9
Sexta-feira, Junho 4th, 2004Agradeço os agradecimentos. Aliás, retribuo os agradecimentos. No sentido em que tal questão não é dos arqueólogos, é de todos. Os arqueólogos são (apenas) os “nossos” especialistas nesta(s) matéria(s). [piscadela de olho]
Mas talvez alguns leitores do Ma-schamba estejam até cansados/surpresos com tanta atenção [é o 9º apontamento longo sobre o assunto]. Então, e principalmente para os menos ligados a estas questões, aqui deixo um texto que o Alexandre Monteiro me enviou sobre o assunto pois poderá contextualizar melhor a importância da matéria em causa.
Tanto no texto como nos emails recebidos fala-se de princípios. Que são fundamentais. Mas eu gostaria de lhes somar algo, mais pragmático, ainda que com voz de não-especialista. Portanto hei-de fazer 10º apontamento.
Então aqui transcrevo o texto do Alexandre Monteiro:
“”O tipo de património com que trata a arqueologia, neste caso a subaquática, encontra-se, no mínimo, em ampliação constante à medida que as escavações se vão realizando e à medida que os achados fortuitos se vão multiplicando, um pouco por todo o espaço nacional e internacional.
Cabe aos órgãos governativos de cada país – a quem compete legislar, estudar, defender, animar e classificar o património cultural – a definição de uma política de intervenção esclarecida, responsável, orientada pelo sentido das prioridades e assente em estruturas de futuro, desde que esta seja devidamente suportada pela comunidade académica e amadora.
Finalmente todas estas premissas nada serão se não gozarem do apoio da população directamente envolvida nos processos de gestão arqueológica.
O primeiro passo a dar, será sem sombra de duvida, a elaboração de uma carta arqueológica subaquática, com todo os sítios da área considerada marcados e posicionados.
Ora, a necessidade de conhecer os sítios arqueológicos de uma região implica a obrigatoriedade de se obter um vasto número de dados arqueométricos e geofísicos. O trabalho de prospecção torna-se assim, uma ferramenta essencial para a colecção desses dados, ao mesmo tempo que corrobora ou amplia as informações fornecidas pelas fontes escritas, sendo de destacar a importância da fidelidade de prospecção , bem como o aumento da importância do conceito de sítio.
A definição de “sítio arqueológico” está intimamente ligada com os limites das conclusões que se podem tirar dos trabalhos de prospecção, já que é uma definição necessariamente aproximativa devido ao carácter restrito das interpretações cronológicas e funcionais.
A arqueologia e a história constroem imagens que retratam, de uma forma verosímil, o que se passou anteriormente em determinado espaço, imagens essas que são validadas diferencialmente por diferentes públicos. Estas imagens, consumidas pelos próprios utentes do território, atribuem ao património arqueológico um valor de recurso corrente e de primeira necessidade porque, sem ele, a paisagem perde qualidade e transforma-se num vasto deserto desmemoriado. É, pois, fundamental a abertura do debate e do diálogo entre as forças sociais e políticas sobre o que realmente se pretende como política cultural para este tipo de património.
No caso de Moçambique e da putativa polémica que se tentou levantar relativamente à reclamação dos achados, no meu entender, esse património, tal como o seu congénere em terra, é inalienável, indivisível e único.
Logo, a questão da propriedade deixa de se colocar. O património cultural subaquático das águas de Moçambique passa a pertencer, não à região ou ao país, mas sim à Humanidade. Como a Ilha de Moçambique, Património Mundial.
O fundamental agora é saber quem é que vai assumir as responsabilidades inerentes à sua gestão, com todos os custos que isso implica… até porque se pode sempre optar pela opção zero: afinal, um património afundado há 500 anos, poderá esperar outros 500 anos em condições de estabilidade ideais…”
Arqueologia Subaquática 8
Sexta-feira, Junho 4th, 2004Aqui o transcrevo. O negrito é meu….
Caça ao Tesouro em Moçambique
Ricardo Teixeira Duarte
E lá foi leiloado o património da Ilha de Moçambique.
Na minha qualidade de arqueólogo lamento o facto. Lamentam-no igualmente todos os meus colegas arqueólogos Moçambicanos. Lamenta o povo da Ilha, indignado pelos seus tesouros terem ido parar às colecções de meia dúzia de capitalistas diletantes.
Em Novembro de 1997 encontrava-me a trabalhar na Ilha de Moçambique, num projecto financiado pela cooperação Sueca (ASDI), juntamente com um biólogo do Museu de História Natural, o José Rosado, num mergulho, mesmo em frente à fortaleza da ilha, a cerca de 20 m de profundidade encontrámos um conjunto de jarrões enterrados na areia e uma grande âncora, em direcção à superfície pelo declive acima uma profusa quantidade de vestígios arqueológicos misturavam-se com corais e peixes num magnifico espectáculo que se ia proporcionando em direcção à plataforma de coral, mesmo em frente à fortaleza da Ilha, onde repousavam as pedras de lastro e o resto do casco de uma antiga nau portuguesa. Estava descoberto o naufrágio cujo espólio agora foi leiloado pela Christie´s em Amesterdão.
Em Fevereiro de 1998 com a ajuda dos arqueólogos Steve Lubkmann e David Colin do Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos iniciei o estudo deste importante naufrágio com grande entusiasmo. Numa primeira campanha de 15 dias fizemos um reconhecimento do local e o levantamento da zona dos jarrões. Os resultados foram apresentados numa conferência no centro cultural Americano em Maputo. Um dos jarrões foi retirado e depositado no museu da Marinha da Ilha de Moçambique. Sobre este assunto foi feito na altura um documentário para a televisão Moçambicana (TVM) pela saudosa jornalista Teresa Sá Nogueira.
Os trabalhos estavam devidamente autorizados por uma licença da Direcção Nacional do Património Cultural. Programávamos um importante projecto de pesquisa da Universidade no local. Mas este entusiasmo foi “sol de pouca duração”: no mesmo ano o Governo assina um contrato de exploração comercial de achados arqueológicos com a empresa Arqueonautas, precisamente para a zona onde estávamos a trabalhar. E assim traçou o destino dos restos da nau portuguesa que durante séculos tinha sido conservada no fundo do mar e cujo espólio foi agora parar às colecções privadas de meia dúzia de ricaços na Europa.
No meio de toda esta tristeza que nem vale a pena discutir, somente deixo um comentário e uma pergunta:
O comentário:
Foi a primeira vez que objectos de um Monumento do Património Cultural da Humanidade foram vendidos em hasta pública !! Isto perante a passividade da UNESCO !! Como é possível?
A pergunta:
Como autoriza o Governo a venda de objectos de uma estação arqueológica quando a lei nº 10/88 de 22 de Dezembro no seu artigo 10 considera “Estações e objectos arqueológicos” propriedade inalienável do Estado ?
A empresa Arqueonautas cometeu assim uma infração flagrante à lei. Quem vai fazer justiça, quem vai zelar pelo cumprimento da lei neste caso?
Arqueologia subaquática 7
Segunda-feira, Maio 31st, 2004Arqueologia Subaquática 6
Domingo, Maio 30th, 2004Arqueologia subaquática 5
Sexta-feira, Maio 28th, 2004Arqueologia subaquática 4
Quinta-feira, Maio 27th, 2004Arqueologia subaquática 3
Quinta-feira, Maio 27th, 2004Arqueologia Subaquática 2
Quinta-feira, Maio 27th, 2004Reproduzido ontem no Naufragio
Boaventura de Sousa Santos
Visão, 22 de Agosto de 2002
A Ilha de Moçambique é um lugar incomparável, tanto pela sua história e pelas marcas visíveis dela na arquitectura e na arqueologia subaquática, como pelas suas potencialidades enquanto centro de reflexão sobre contactos e relações interculturais; um futuro que a Ilha começou, de facto, a construir há muitos séculos, antes e depois de os portugueses ali aportarem no séc. XV.
Fazendo jus a este impressionante conjunto arquitectónico, grande parte dele em ruínas, a UNESCO declarou a Ilha, em 1991, como património cultural da humanidade. Esta declaração faz com que a preservação e o florescimento da Ilha sejam tarefas imperativas tanto para Moçambique como para todos os restantes países do mundo, e nomeadamente para os que, para o mal e para o bem, partilham com Moçambique parte da sua história, como é o caso de Portugal.
O futuro da Ilha reside na valorização do seu riquíssimo património e no contexto único que ele pode oferecer para a promoção de diálogos entre culturas, para além, naturalmente, daqueles de que a Ilha é já testemunho vivo. Nesse futuro querem se activamente envolvidos os habitantes da Ilha e as suas associações como, aliás, decorre do estatuto de património cultural da humanidade. Ora, uns e outros estão preocupados. Temem que o seu património esteja a ser dilapidado se não mesmo pilhado. Ao largo da costa de Moçambique estão identificados e catalogados mais de cem naufrágios de navios, muitos deles à volta da Ilha. Um alvo apetecido para caçadores de tesouros. Desde há algum tempo, a empresa internacional Arqueonautas, em associação com a empresa moçambicana Património Internacional SARL, está a realizar pesquisa arqueológica subaquática à volta da Ilha.
Desconheço os termos do contrato de pesquisa celebrado com o Governo moçambicano e a empresa moçambicana, mas a versão aprovada do contrato-tipo concede a esta empresa o direito de se tornar proprietária de bens culturais cujo valor represente 50% do valor global do total dos bens encontrados. Mesmo que se faça a ressalva de os objectos a conceder à empresa serem semelhantes a outros descobertos na mesma localização e não serem considerados de valor excepcional, fica aberta a porta para a venda do património da Ilha.
Aqui reside a inquietação dos seus habitantes. Como não vêem nenhuma autoridade a fiscalizar os achados, perguntam-se sobre quem define o todo em relação ao qual se repartem os 50% dos achados. Como não são credivelmente informados, vêem ou imaginam ver peças valiosas a serem trazidas para terra embrulhadas em toalhas, vêem ou imaginam ver pequenos aviões a levantar do aeródromo do Lumbo com peças não declaradas, vêem ou imaginam ver peças valiosas exportadas sem controlo alfandegário.
Os habitantes e os amigos da Ilha estão inquietos e a sua inquietação aumenta cada dia que passa, sem que, estranhamente, o Governo moçambicano assine a Convenção da UNESCO sobre a protecção do património cultural subaquático, adoptada em Novembro de 2001, que expressamente proíbe a comercialização desse património. E só por uma via pode o Governo pôr fim a tal inquietação: assinando a Convenção e pondo fim a contratos que envolvam a comercialização do património arqueológico. Há que evitar o risco de a Ilha vir a perder o estatuto de património cultural da humanidade.
Arqueologia subaquática 1
Segunda-feira, Maio 24th, 2004Refiro-me a três pontos essenciais:
Porque senão poder-se-á dizer (forçando um pouco a nota, é certo) que os “Arqueonautas” não são piratas. Mas sim (nossos) corsários.
MEMBERS OF THE ADVISORY, EXECUTIVE AND SCIENTIFIC BOARDS
Advisory Board
President HRH Dom Duarte Pio, Duke of Bragança
Vice President Admiral Isaías Gomes Teixeira
Speaker Dra. Rita Delgado
Secretary Dr. Heribert Keil
Finance Dr. António Portugal Catalão
Controlling Dr. Tristão da Cunha
Director Baron Stefan von Breisky]
É absolutamente lamentável. Absolutamente inaceitável. E absolutamente inacreditável que a sociedade portuguesa possa dar qualquer tipo de relevo e respeito (ainda que meramente simbólico) a cidadãos agentes de malfeitorias.
E, entenda-se, republicano fundamentalista mas de família com longa tradição militar, o que custa mesmo é ver um Almirante a sujar os galões com esta tralha. Que malta…
