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Makwayela

Na anterior entrada referi João Soeiro de Carvalho, professor da Universidade Nova de Lisboa. Tive o prazer de o conhecer aqui em Maputo, há já 8 anos. Por ocasião da apresentação aqui deste seu belissimo (e sério) trabalho,

Makwayela. Moçambique” (Comissão Descobrimentos [CNCDP] / Expo-98 - Pavilhão de Portugal/ Tradisom; 1998), a recolha e gravação de 17 canções, dos grupos Makwayela Riya Ndlheve Muyingiseti (5 canções: Satana, Atiku Dzezu, Davula Mananga, Psinuyane, Hi Mani Leyi a Psitiwaka), Makwayela Confiança (5: Watsongwani Wa Masiku Lawa, Hé Nwina Masungukate, A Mahanyele, Tindjombo, Tiwoneleni Ka Maputso), Makwayela LAM (2: Wana Wa Moçambique, Ghogo Mandela), Makwayela TPM (5: Satana, Famba Teresa, A Hi Tiwoneleni A Wayiwi, Tatana Wa Watsongwana, Xitimela Ka Manhiça). Algo único no trabalho que as instituições culturais portuguesas faziam/patrocinavam em Moçambique nessa década de “vacas gordas”. E que foi inserido num conjunto absolutamente fabuloso: “A Viagem dos Sons”, uma caixa de 12 discos de recolha musical.

Recomendável, se encontrável. Obrigatório. Não sei se o “Makwayela Moçambique” se vendia sozinho e se não estará esgotado. Mas será de procurar.

Relativismo cultural

Clareza de raciocínio?. Só assim.
Em muitos locais se lê e ouve argumentar contra o relativismo cultural. Mero dogma, por vezes, crença no(s) absoluto(s). Mera estratégia política, noutros casos, de afirmação de relativos próprios como se absolutos, “o relativismo é falso porque o meu relativo tem validade absoluta”. Pois …
torna-se óbvio que a adesão (agora também se diz “aderência”) a determinadas crenças, símbolos, valores influenciam, estruturam o mundo que vemos, ouvimos, sentimos. Como o vemos seja como o interpretamos. Como lhe traçamos causas e efeitos. Aos indivíduos essa adesão (a tal neo-”aderência”) molda o entendimento topológico. As percepções físicas. As concepções de estático e dinâmico. Estipula o tempo. Delimita a âmbito do normativo. A corporização do legal. Enfim, a adesão (agora também se diz “aderência”) a uma crença, a um grupo, estrutura-nos o espaço e o tempo, causas e efeitos. Corporiza a verdade. A cada grupo a sua verdade. Absoluta.
Eu e as minhas circunstâncias, medida do tudo?. Como não?

Elogio da verdadeira sabedoria. Sim, livro. E apresentá-lo (conversá-lo) em Moçambique. Estamos à espera. Com vontade (e até pressa).

Lembro-me de Edmund Leach regressar de umas férias em Portugal em meados dos anos 60 e dizer aos seus alunos de investigação que havia visto camponeses arar as terras com bois - alguém deveria ir até estudá-los. Mas qualquer pessoa que insistisse em realizar trabalho de campo na Grã-Bretanha se arriscava a ver-se exilada num departamento de sociologia“.

[Adam Kuper, “Histórias Alternativas“, Etnográfica, 2, 2005, 222]

Henri Junod

Com a conferência de Pascoal Mocumbi terminou ontem o ciclo de quatro conferências que foi dedicado à vida e obra de Henri Junod, missionário suíço que trabalhou no sul de Moçambique (actual província de Maputo) entre 1889-1895 e 1907-1921. Grande obreiro da missão suíça aqui (cuja extrema influência se estenderá por longas décadas) e extraordinário etnógrafo (inclusive influenciando a teorização do seu contemporâneo Radcliffe-Brown) a evangelização de Junod teve ainda influência nas delimitações étnicas deste sul de Moçambique. Dele há edição nacional de Usos e Costumes dos Bantu (Maputo, Arquivo Histórico de Moçambique, 1998, 2 vols.)

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Aqui deixo fotografia-epítome que, por excelente escolha, ilustrou o cartaz alusivo à primeira conferência, a cargo de Mia Couto.

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Da vasta bibliografia que se pode encontrar na internet gostaria de realçar, aos hipotéticos interessados, estes textos:

PHOTOGRAPHY AND THE RISE OF ANTHROPOLOGY: Henri-Alexandre Junod and the Thonga of Mozambique and South Africa, de Patrick Harries;

Biographical Study of H.-A. Junod: the Fictional Dimension, de Bronwyn Louise Michler [texto longo, dissertação].

Edward S. Curtis

No Os Cavaleiros Camponeses … reprodução do trabalhos de Edward S. Curtis. Excelente. Agradecimentos pela indicação, belissima.

Não resisto a também reproduzir algumas imagens, até para acicatar a curiosidade de quem por aqui passe.

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Sacred Buckskin - Apache

edwardscurtis2.jpg Haschebaad - Navaho

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Maternity Belt - Apache

Paulo Raposo colocou dois blogs antropológicos: Ritual e Performance e Oficina de Etnografia. A acompanhar, coisa importante virá.

In Britain it has been widely noted that Muslims originating from Pakistan in South Asia have in recent years stressed their Islamic identity, distancing themselves from a more neutral “South Asian” racial and cultural ascription, from a politically activist “black” self-labelling, and, most recently, from a nationalist identification as “Pakistanis”. I wish to argue here that this apparent identity shift disguises a continuing tension between different dimensions of a complex cluster of personal identities. Islam, as “high culture” to be defended to all costs, cannot suppress popular cultural traditions rooted in the South Asia and Pakistani nationalist origins of immigrants and their descendents.”

[Pnina Werbner, “Our Blood is Green: cricket, identity and social empowerment among British Pakistanis“, Jeremy MacClancy (org.) Sport, Identity and Ethnicity, Oxford, Berg, 1996]

Fim de Semana Prolongado [II]

Um salto a Neilspruit, mais exactamente ao mall, quase apenas à Exclusive Books, essa que já foi uma excelente livraria (ainda para mais no Mpumalanga nada cosmopolita) e que de há dois anos para cá, mudança de gerente soube-o porque perguntei, cada vez mais tem menos ficção e ensaio paper back. E cada vez mais esoterismo (esohisterismos, aprendi com uns amigos) e capas rutilantes, brilhantes como os anglógilos amam.

Ainda assim no montinho duas maravilhas, baratas ainda para mais.

Jurgen Schadeberg, The San of the Kalahari, Protea Book House, 2002 [254 rands]

Um álbum fotográfico (preto e branco) demonstrando trabalho junto dos San em 1959.


Laurie Levine, Traditional Music of South Africa, Jacana/The Drumcafé, 2005 (incluindo um CD com 54 músicas recolhidas) [224 rands]

Grande colheita. Deleite. E pronto para semana terrível.

“Os albinos não morrem”

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[Fernando Gil e outros (org.), O Processo da Crença, Lisboa, Gradiva, 2004]

Só agora me chegou às mãos. Contendo, entre vários artigos, um interessante texto sobre Moçambique, também com diálogo teórico: “Os Albinos Não Morrem: crença e etnicidade no Moçambique pós-colonial“, da autoria de João Pina Cabral.

“…a harmonia nas nossas famílias, e portanto na nossa sociedade, pressupõe que se distanciem os idênticos e se aproximem os diferentes. Ora, a lei tem tendência para denegar o papel do pai …

…Boris Cyrulnik faz notar como, pela atribuição de um abono de estudos aos jovens, o Estado curto-circuita o papel do pai, ocupa o lugar deste, desaloja-o do seu estatuto e sapa, portanto, a sua função separadora ….

O Estado é cada vez mais requerido em suprimento do pai….Se a lei designava … o pai como chefe de família, era para contrabalançar de algum modo a ordem biológica natural que outorga um privilégio exclusivo à mãe na relação com o filho. Hoje, os dois pais são chefes ao mesmo tempo, e um mais que o outro já que o pai não é pai se não for designado como tal pela mãe e se ele aceitar este lugar.”

[Françoise Héritier, “Apresentação”, O Incesto, Pergaminho]

Antropólogos e Jornalistas

“… ao tecer algumas considerações finais sobre a impossibilidade de se ser objectivo, apesar da importância de se procurar sê-lo o máximo possível, mencionei o caso específico dos jornalistas estrangeiros (e não os jornalistas em geral) que se encontram numa situação de “antropólogos com pressa.”

[Onésimo Teotónio Almeida, Rio Atlântico]

E quantos dos antropólogos não são jornalistas um pouco lentos?

Roupa Velha 23: Os dragões e a antropologia

Está o Rodrigo Moita de Deus preocupado com os dragões, e até se antevê machambeiro por causa do bafo (era um mal que lhe vinha por bem, afianço-lhe).
Um pouco a despropósito, lembra-me um texto sobre dragões que em tempos escrevi. Não será grande escama, algo hermético e confuso, além de longo: ainda por cima leva como sub-título “suma epistemológica”. Mas aqui fica. Não como homenagem, mais como sensibilização na luta contra a dragonite. Que tais bichos ameaçam surgir por todo o lado…
[chamada de atenção para o WR, que habita por aquelas zonas…]

Comem os dragões cajú? (suma epistemológica)

Para a Antónia Lima, pisteira de dragões

Era Verão, eu estava em Portugal a acompanhar o parto da Carolina e, como é natural, tudo o resto desceu a bruma desinteressante e, até, um pouco bafienta. Num desses dias de rame-rame, ali ao café Polana onde estávamos aboletados, surpreendi-me com um colega do liceu, o Alcobia, do qual uns muito antigos rumores diziam morto de tão atropelado que fôra lá pelos lados do Vale do Silêncio.

Logo entrámos em narrações, eu a mentir com alguma parcimónia, num à vontade presumindo superioridade, e ele a dar-lhe pelo menos com tanta força, mas não seria só treta o ter andado pelos orientes, percebia-se pelos portos que contava. Então não é que ele tinha dado em embarcadiço?, nem percebi se em cargueiros ou paquetes, estivador ou gigolo, mas com aquelas papada e careca, já para não falar da lentidão no olhar, pareceu-me mais dado às mercadorias, mas nunca se sabe. Pouco miolo é certo, versando mais negócios (desperdiçados, dizia-me o seu jogo de olhos e ombros) e histórias de putedo. Largou-se num palrar de quem tem poucos a ouvi-lo, a denunciar o emigrado, e sem nenhuma curiosidade sobre as minhas coisas, notei-o. E sempre me desagradam os que mostram tão pouco interesse em mim como o quanto neles tenho, sinto-o um desmerecimento.

No meio do arrazoado dele pelo menos ainda consegui meter que também me tinha australizado, agora dava aulas e tudo. “Ah, na universidade, sim senhor, era de esperar, já naqueles tempos eras bom aluno”, mentiu ele lembrar-se, pois tinha-me cruzado na balda, a passar-me a mão pelo pêlo não fosse eu pensar em cortar-lhe o pio contando-lhe a minha história, assim tornada tão desinteressante do previsível que afinal sempre fora.

E nem me deixou continuar nos meus méritos, logo a lembrar-se de um chinês que tinha conhecido em Macau, sábio de prestígio nas terras dele, mestre em dragões por Xangai, doutorado em histórias de dragões por Cantão, e com mais umas investigações sobre esses bichos, seus afazeres e arcaboiços achava ele, mas disso já não tinha certezas pois eram assuntos complicados. As últimas andanças em volta dos ditos répteis tinham arrastado o bom homem pelos mares da China até aportar a Macau, onde os acasos os tinham cruzado por coisas da que me pareceu ser uma amante comum, e a qual surgia ali na conversa a prometer outros relatos, de exóticos e eróticos gemeres. “Pois o homem é uma sumidade na matéria”, frisava orgulhoso o Alcobia, então a pôr-me no meu lugar diante de tanta sapiência alheia, enquanto concluía invectivando-me a imaginar qual seria hoje o trabalho desse seu amigo, e eu a entreolhar-me, pois tanta coisa até me pareciam ares de polícia ou mesmo espião naquelas sempre agitadas terras chinesas, “pois dou aulas, claro. Se não existem dragões…!” citava-o, e com ênfase, o Alcobia.

Bem, como não conseguia fazer o meu relato aproveitei a breve pausa na qual armava ele o fôlego e fui-me despedindo trocando abraços e telefones enquanto lhe mentia um almoço, coisas de hábito na capital, fugindo aos capítulos seguintes da história sexual de um alcobia nas terras do oriente, os quais despontavam já no horizonte. Assim saí, algo perturbado na saudade dos tempos do liceu e também na nostalgia de um oriente ao qual nunca cheguei, e já se faz tão tarde. E também um bocado fodido, confesso, com aquela história de dragões a qual não tinha percebido, tamanha a placidez do gajo, se teria ali arribado para que me desse ele uma porrada, o sacana do marinheiro, ou se era mesmo só verborreia.

Para espantar a má disposição com que dali ia pus-me a descer a Estados Unidos da América, enquanto remoía as dúvidas acicatadas. Mas nestas alturas o que vale é ter a memória domesticada, lesta no saber escolher para aplacar as crises. E assim do tão irritado que estava, cheguei-me aos âmagos e, ali peão, do que me fui eu lembrar? das velhas arengas do gringo, sempre a jurar a existência dos dragões. Pois tinha-os ele encontrado e a tantos que desde então passara a ganhar a vida ensinando como o fazer, rodeado pelo respeito, até invejoso, dos colegas menos afortunados. E quando nós, alunos, alçávamos dúvidas, naturais em quem ainda não andou o mundo, lá ripostava o homem, enfático, que sossegássemos pois os bichos eram amáveis, davam-se a ver, cheirar, ouvir e até, e aqui chegado sorria-nos matreiro à conquista de cumplicidades, apalpar. Mas depois, e não fosse perder o prestígio, regressava, magistral, às enormes dificuldades que nos aguardavam. Que fossemos talentosos e sérios e eles viriam até nós, viçosos a mais as suas proles, mas caso contrário logo os dragões, sensíveis e mágicos, voariam no vácuo, esfumados num sopro.

Nestas lembranças amornei o suficiente para que se sossegasse o andar. Deixei-me então numa esplanada a acompanhar umas cervejas, ali muletas das certezas retomadas. E voltei ainda a esses tempos, todos nós em coro mudo a repetir de que tudo era moral, o mais importante era o “não mexer, não mudar, nunca comprar”. Pois de tudo isso era feito o respeito, sem o qual desapareceriam os dragões, ariscos, e então adeus trabalho. Importante era jamais esquecer o não se poderem eles comprar, nem tão pouco suas pistas ou informações, pois senão estragada a magia e conspurcado o real logo este, amuado, se irrealizaria, a sarar.

Assim acalmei, mas já que ali estava e para não ficar sozinho a matutar, subi as Forças Armadas até à velha escola, ainda a toca de alguns amigos, uma gente que ainda me vai dando alguma atenção. Quem sabe se por andarem já fartos uns dos outros, e quando lhes apareço talvez lhes quebre o monótono do todos os dias, mesmo se a repetir o número do ano anterior, tal e qual, como se fosse um daqueles velhos circos no regresso de Agosto ao Concha Azul de São Martinho do Porto, em reprises da triste miséria e os veraneantes a rirem na mesma. Pudera, coitados, com o frio que fazia…

Logo que os encontrei pus-me a desabafar a história do Alcobia, talvez eles conhecessem o tal china, duns artigos ou congressos, os júris das fundações, quem sabe? nos últimos anos andou tanta gente por Macau… Mas nada, aliás essas nem são áreas lá da casa, ainda se fossem dragões de Goa. Mas ateou-se a discussão, existiriam ou não os répteis? Afinal por aqui o assunto continua actual, pois vão-se passando os anos e por mais que os procuremos não se acham esses cabrões. E assim anda mal o negócio, incertos os preços das buscas, tabelados por atenções e respeitos, tricotadas estes na amizade, pura e impura como sempre ela é, e sobretudo de medos, desses do “à volta cá te espero” que enchem a vida, essa puta a rir-se pelas esquinas.

Mas se ali tinha ido reforçar alento estava-me a correr mal a visita, já todos a desistir, apesar de tantos anos de estudos e pensares, ou se calhar por isso mesmo. Não resisti, meti-me em brios a opor-me, tal como se no reconvencê-los me convencesse a mim mesmo, e agora em definitivo. Invoquei então o nosso gringo com isso levantando sorrisos, mas estes já de velhos, reparei, semicerrados do tempo que passou e que fere mais do que toda a luz. Mas esse sossego foi-o de pouca dura, logo voltou a idade, céptica, nas objecções, que tudo aquilo era ingenuidade, tantos anos passados e ainda a acreditar que é mágico o real? E que histórias, então bastava um toque de respeitinho e era logo a passear-nos pelas tocas dos bichos, ainda para mais sem lhes dar nada em troca? E nesta borrasca já lá vinham, ameaçadoras, as habituais palmadas no ombro do “já são anos demais por lá, está na altura de regressares”, esse célebre “perdido no mundo” a explicar estes meus devaneios.

Assim cutucado não me fiquei, aquilo já não era conversa, passara a despique. Insisti que havia resposta para tudo isso, e era essa a moral, uma moral mágica tal e qual o real, pois com ela se achariam os dragões, exactamente por esse respeito, o do dar mas sem nunca comprar. E nesta discussão ter-me-ei exaltado, agredi até, como confundir o dar com o comprar?, isso são coisas de quem tem pouco andar, ensimesmados nas próprias tocas sem ver o mundo. Distinção tão fácil, o comprar é dar em troca, o dar é partir o que se tem, o que nos sai da pele, e com isso lá virão os bichos até nós. E já afinado desafiei, “vamos lá ao gringo, para tirar as teimas”, num tardio regresso a jovem aluno.

Aí foi o riso geral, e não tanto por causa da minha irritação. Pois às minhas historietas ainda ouviam, agora ao gajo nem pensar, e ali chispava a ironia. “Desilude-te”, e contaram, ainda por cima o homem anda por aí à caça, mas insinua-se, deixa oferendas nas tocas a crer que assim os bichos lhe vão aparecer, e além de se gabar disso ainda quer ser pago por essas prendas, a resmungar que não ganha o suficiente, “Esqueceu-se desse respeito”, gozava alguém, “se é que alguma vez se lembrou”, logo veio a recarga, e em toda aquela ironia já se sentiam laivos de piedade, nem percebi se dele ou de mim ou de nós todos.

Custou-me a acreditar, ainda titubeei “mas…se quer que lhe paguem as ofertas está mesmo a comprar, lá se vai o real”, e ninguém o avisa? seria aquilo possível, não se lhe iria volatizar tudo, no vácuo? Ou seria um desespero já senil, e nós cruéis ali a gozá-lo? Como eu parecia não desistir alguém somou, “olha, agora dá-lhes cajú… convenceu-se que como os dragões são pobres nunca comeram cajú e que quando o provarem vão gostar tanto que se tornarão seus amigos”, ao que me brotou o espanto “onde é que já se viu dragões a comer cajú?”. Súbito ficou gélido o ambiente e, para não dar parte de fraco, pus-me a morder o Rothmans a querer entrar, já atrasado, no jogo da ironia “e quem é que lhes paga as cervejas? é que com o cajú são obrigatórias, e bem geladas”, mas aqui já nem tive resposta, tudo mudo de angústia ou vergonha, agora defronte dum real que afinal não havia.

Não resisti ao silêncio, retirei-me para casa até à Carolina, que até já estava no meu turno, e fiquei-me de guarda ao bichinho a remoer um whisky, aquecendo-o no tempo. Estúpido distraí a memória, e deixei-me lembrar uma carolina preta, a filha duns tipos encontrados há anos, andava eu aos dragões. Entrei-lhes pela cabana dentro, de entrevista em punho e lá estava essa carolina preta, meia dúzia de meses pequena e já só o branco dos olhos do revirados que eles estavam, no colo da mãe, e esta defronte de mim sentada na esteira atrás do marido, e a diarreia não largava o bebé, e eu impávido a perguntar-lhes da machamba, e do algodão, e da frelimo, e da renamo, e do bafo do dragão, e o homem de braços cruzados a semirresponder, e eu era vampiro, e não dei dinheiro senão tudo virava irreal, e lá perdia o trabalho. Como a conversa não andava, pudera, avisei que voltaria no dia seguinte, e lá estavam eles à minha espera, eu de novo de entrevista em punho e a carolina preta, com o branco nos olhos do revirados que eles estavam, no colo da mãe, e esta defronte de mim sentada na esteira atrás do marido, e a diarreia não largava o bebé, e eu impávido a perguntar-lhes da machamba, e do algodão, e da frelimo, e da renamo, e do bafo do dragão, e o homem de braços cruzados a semirresponder, e eu era vampiro, e o bebé era óbvio que a morrer-se, e a mãe a agarrar-se a ela não fosse eu querer levar-lha ainda antes da hora, e eu para que tudo não virasse irreal não dei dinheiro, não os levei lá longe à Província ao hospital, e a carolina preta só inerte, os olhos revirados, e os pais apenas ali, e a cria do dragão a não medrar, e eu sem cajú, sem lhes comprar cajú, sem lhes dar cajú…

Comem os dragões cajú? Mas quem é que não gosta de cajú?
Cabrão do gringo..!
Que porra de dia!

Imaginem o tema. Foi para aí há vinte anos, a ler ex-austríacos, que me certifiquei, como se tal fosse necessário, que o futuro está em aberto…(E se te pagam, bem, para trabalhar futuros e não o sabes então…não serves)

Parece-me óbvio afirmar que “o preconceito é o Outro”. E chega.