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A Ascensão do Silêncio

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[Marc Augé, Para Que Vivemos?, Graus Editora, 2006, pp. 135-136]

A ascensão do silêncio

Um dos paradoxos da mundialização é que as utopias desapareceram no momento em que a humanidade estaria tecnicamente em condições de se definir como corpo social unificado. [...] Assistimos hoje, em sentido inverso, e apesar da força dos factores tecnológicos da mundialização, a uma extensão sem precedentes da violência, a retraimentos identitários múltiplos e a um aumento da distância entre os mais ricos dos ricos e os mais pobres dos pobres. O optimismo pós-moderno assenta na tomada em consideração do segundo aspecto, excluindo os dois outros, e entrincheira-se no elogio da diversidade cultural reivindicada e da mestiçagem. [...]

Pelo meu lado, tenho a impressão de haver tentado construir uma antropologia atenta às tomadas de palavra mais diversas, aos enunciados mais surpreendentes e aos locutores mais modestos [...] e tomo hoje consciência do silêncio que invadiu a nossa história, de uma extensão aparentemente irreversível das zonas de silêncio. É uma constatação que pode espantar: o estrépito da actualidade, as suas desordens e os seus furores, o tagarelar incessante dos media poderiam, pelo contrário, dar a impressão de um assédio sonoro, de um ruído sem fim. Mas o silêncio cuja existência creio poder comprovar também nada tem de repousante, de apaziguador ou de contínuo. Percebe-se somente entre duas explosões de vozes, sob os risos mecânicos das entrevistas televisivas, sob os comentários maquinais, recorrentes e compostos da CNN, por de trás do clamor publicitário das semanas comerciais ou o alaridos dos efeitos especiais. É um silêncio mascarado, dissimulado, porque, percebido de súbito, como um vazio infinito entre duas montanhas, não pode engendrar mais do que a vertigem e o pavor.

[sobre o pós-blog. sobre o in-blog]

Descobridores de futuros

Ainda que de Marc Augé se possa dizer isto

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É muito possível, de facto, que dentro de alguns anos ou algumas décadas se veja menos na literatura antropológica uma análise de formas sociais desaparecidas do que um documento sobre o mundo planetário em vias de nascer.”

[Marc Augé, Para Que Vivemos?, Lisboa, 90 Graus Editora, 2006 (2003), p. 33]

(um pouco também para o leitor fc e, apesar dele, para quem ele trabalha – que aqui não vem)

“Ele” há quem blogue muito alto. Muito cheio. A ver se é ouvido …

O feiticeiro é como a Arlesiana: fala-se muito dele, mas ninguém o vê; ou então encontramo-lo vencido, humilhado, longe de corresponder à imagem aterrorizante dos estereótipos e dos boatos; ou ainda transformado num cadáver manipulado, cujo silêncio definitivo provoca discursos vingativos ou hábeis, útil às angústias duns e aos cálculos doutros (por vezes os mesmos)”

[Marc Augé (dir.), A Construção do Mundo (Religião, Representações, Ideologia), Lisboa, Edições 70, [1971], p. 71]