Archive for the ‘António Botelho de Melo’ Category

CONTROLO ANTI-DOPING

Quarta-feira, Setembro 1st, 2010

Kornelia Ender a sair da piscina

por ABM (1 de Setembro de 2010)

Um dos mistérios em redor dos eventos na Covilhã aquando da deslocacão da equipa de controlo anti-doping para atestar da condição da selecção nacional de futebol é que se sabe que o controlo foi feito.

E que o seleccionador, Carlos Queiroz, terá constestado as circunstâncias ou a perturbação causada pela referida visita.

Alguns dos exmos leitores e calhar não sabem do que se está a falar. Afinal, recolher umas amostras de urina não parece ser complicado à partida.

Talvez sim, talvez não.

Vou explicar.

Nos meus tempos de desportista de competição, há uns séculos atrás, apesar de agora se saber que havia em abundância aquilo que hoje se considera doping em quantidades apreciáveis – até na natação, o desporto que eu praticava – não havia nem organismos nem protocolos para o seu controlo a nível nacional. E mesmo a nível interncaional, era extremamente raro.

A piscina fica na estrutura situada em baixo à esquerda do estádio olímpico de Montréâl

A única vez que fui sujeito a um controlo anti-doping foi no verão de 1976, durante os jogos olímpicos de Montréal. Eu tinha 16 anos e, com quatro colegas, representava a natação portuguesa de então.

O que aconteceu foi que, de manhã disputavam-se as provas eliminatórias, e à tarde às provas finais.

Numa das eliminatórias, de manhã, logo após uma prova, apareceu um tipo à borda da piscina mal eu acabara de nadar, e mandou-me acompanhá-lo.

Pelo caminho, informou-se que eu seria sujeito a um controlo anti-doping.

Eu nem sabia do que ele estava a falar mas segui-o.

Levou-me para uma sala espaçosa e sem janelas, onde havia umas cadeiras e uma televisão a transmitir as provas na piscina ali ao lado, e fechou-me lá.

Indicou-me que o procedimento era que eu teria que urinar para uma pipeta em frente a ele e depois podia ir-me juntar de novo ao resto da equipa.

Dali a uns minutos, para minha surpresa, acompanhada por uma mulher, entrou na mesma sala a nadadora alemã-oriental Kornelia Ender (a menina na foto acima).

Eu sabia quem era Kornelia Ender pois vira fotos dela e lembro-me de a minha irmã Cló, que nadara também, falara sobre ela mais que uma vez. Era na altura uma legenda da natação mundial, com recordes mundiais batidos e parte daquela geração de atletas de craveira mundial que a RDA usava e abusava para puxar o lustre na podridão que era o seu regime. Posteriormente se comprovou que, como vários outros atletas, Kornelia Ender se dopou até dizer chega.

Mas na altura isso eram só rumores. Em parte por constatação visual simples. Ao pé das outras nadadoras, as atletas da RDA eram umas bestas humanas. Ao pé dos homens elas pareciam ser umas bestas.

E ali estávamos os dois, sentados, de fato de banho e toalha, sózinhos e vigiados pelos dois funcionários através de um vidro (eles estavam numa sala contígua).

Falámos pouco. O inglês dela era uma desgraça e eu não falava uma palavra de alemão.

Obviamente, ambos sofríamos do mesmo pequeno problema: antes de nadar nas provas, um dos rituais normais é ir ao quarto de banho e fazer-se chi-chi. Ora, tendo acabado as provas há minutos, não havia nada na bexiga para espremer para a pipeta que os diligentes funcionários tinham na mão à espera para fazer o seu trabalho.

Mas sem chi-chi na pipeta, não se saía dali.

Não que isso fosse um problema. Se fosse preciso ficávamos lá fechados o dia inteiro.

Para ajudar, os senhores da brigada anti-doping tinham disponibilizado um frigorífico cheio de águas, sumos e até cerveja.

Levou-me umas três horas para que a minha bexiga produzisse algo que se assemelhasse com a quantidade mínima para encher a pipeta. A Kornelia tinha o mesmo problema.

Mas quando fiz o sinal ao jovem para avançarmos com a colheita, ele explicou-me que eu teria que fazer o chi-chi directamente em frente a ele, eu de pé com a pipeta, e ele sentado à minha frente a olhar para a piloca.

Bem, eu não sei quantos exmos Leitores já passaram por uma destas, mas no momento crucial tive um bloqueio mental e passou-me a vontade de urinar (que para começar já era ténue).

Voltei para a sala, onde ainda estava a Kornelia e onde, já algo farto daquilo tudo, emborquei mais um sumo de laranja.

Passou mais uma hora, e finalmente, depois de um esforço hercúleo, lá enchi a pipeta, o fulano a olhar atentamente para o jorrozinho amarelo a encher a sua pipeta.

E me deixaram ir embora.

Nunca mais me disseram nada. Na vida, só vi a Kornelia Ender mais uma vez, um ano depois, quando ela veio com o Roland Mathes (campeão da RDA e mais tarde seu marido durante alguns anos) a Portugal inaugurar a piscina do SFUAP em Almada. Sendo Almada na altura uma espécie de reduto comunista no Novo Portugal, a inauguração foi uma daquelas festas com bandeiras vermelhas do PC, o hino da internacional comunista, montes de comida e, claro, a presença dos expoentes da RDA, o país socialista irmão da Cova da Piedade. Tanto Ender como Mathes estavam ambos fora de forma, mas deu para abrilhantar a festa.

Na altura, ela não me reconheceu e eu respirei de alívio por assim ser.

Voltando à questão do episódio do controlo anti-doping na Covilhã.

Se a equipa de controlo anti-doping aparecesse no começo de um treino, é de esperar que os meninos tivessem feito previamente os seus mundanos chi-chis antes de começar. Se lhes fizessem o que foi feito a mim em 1976, então não haveria treino.

Mas não sei. Ninguém explicou ainda.


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A ENTREVISTA

Domingo, Agosto 22nd, 2010

por ABM (21 de Agosto de 2010)

Confirmada a segunda derrota consecutiva do Sport Lisboa & Benfica no campeonato nacional de futebol português, e na face do cada vez mais complexo xadrez político nacional, o Maschamba captou mais uma gravação ilegal, esta em vídeo, de um encontro secreto de José Sócrates.

Contactado telefonicamente, o nosso comentador futebolístico, George Ribéro, na sua residência de férias em Pénis (ao pé de Óbides), ele sugeriu que o problema das águias encarnadas poderá estar localizado na baliza e sugere que, como complemento àquele senhor hespanhol que supostamente a defende, que o Benfica deveria talvez pedir à Federação Portuguesa de Futebol, autorização para, em vez de colocar a rede da baliza atrás, que lhes seja permitido colocar a rede à frente. E concluiu a sua breve análise com um comentário mistificante. Disse: “volta Quim, estás perdoado”.

Bom fim de semana.


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MAPUTO-LISBOA, DESCONTO ATÉ 70%

Quinta-feira, Agosto 19th, 2010

por ABM (19 de Agosto de 2010)

Quando o meu amigo Carl me enviou uma mensagem inócua esta noite, os gigacomputadores da publicidade do Sr. Gúgele instaneamente colocaram uma série de anúncios pagos na barra situada do lado direito do écrã do meu computador.

Nada demais. Por vezes até acho interessante a pouco invisível ligação entre o título e o conteúdo das mensagens que recebo, e os anúncios que a mão invisível dos gúgeles ali colocam.

Esta gente para ganhar dinheiro vende a alma da mãe deles, certamente que vender a minha não é um grande passo em frente. Pelo contrário. Por outro lado, eu usufruo dos magníficos serviços da Gúgele praticamente de borla e não perco sono à noite com isso. A privacidade estes dias que correm é imensamente relativa e imensamente negociável. Eu tenho amigos que há meses que se entretêm a ler os malabrismos dos Srs do Feicebúke para lhes vender a vida inteira a retalho. O que me fascina é que quase ninguém quer saber. Anda tudo alegremente a encher os “seus” (deles) dados de manhã até à noite e contando aos seus “amigos” os dados mais infimérrimos das suas invariavelmente inóspidas vidas, como se não fosse nada. Como se agora fosse como antigamente, quando havia correios e leis draconianas contra a violação do sigilo (precariamente assegurado dentro de um envelope selado com uma mistura de cuspe e ranho).

Só que esta noite o tópico não era nada de especial, e os anúncios que apareceram também não. Um era sobre certtificação energética (de um tal Sr Jesus Ferreira), outro convidava-me a negociar petróleo online (de um tal www.plus500.com.pt) .

Mas o terceiro mistificou.me.

No visor apareceu o seguinte:

Maputo Lisboa
Descontos até 70%:
Reserve antes de 31 de Agosto!
www.eDreams.pt/Maputo-Lisboa

Hum.

Nunca ouvi falar desta gente.

À primeira vista pareceu-me bom demais. Toda a gente sabe que, pese a choradeira toda sobre a pobreza de África, tipicamente as carreiras de África são as cash cows das companhias aéreas de todo o mundo que para lá voam. Na portuguesa Tap esse deve ser o segredo mais mal guardado da companhia. Por comparação com um voo para África, a TAP cobra para aí metade para o voo mais ou menos semelhante para o Brasil.

Mas pensei cá para mim: “ABM, estes gajos não se vão dar a todo este trabalho para me encontrar para me enfiar um barrete destes.”

Ou então o barrete é daqueles bem fundos e leva algum tempo a perceber.

Ciente do pouco risco que adviria de ir ver o que a tal de eDreams estava a publicitar, procedi a visitar o seu sítio.

Não tinha nada a falar sobre promoção nenhuma a Maputo.

Hum.

Mas tinha um daqueles formulários electrónicos que se preenchem rapidamente, para em seguida aparecerem as indicações de preço.

Simulei então uma viagem Lisboa-Maputo por doze dias, de 8 a 20 de Setembro.

A cotação mais barata era cerca de 1.120 euros

Não me pareceu ser 70 por cento mais barato que o habitual.

Isto mais o novo custo do visto maputiano (82 paus) vai para os 1200 euros.

Mas então apercebi-me do meu equívoco: o anúncio dizia Maputo-Lisboa e não Lisboa-Maputo.

Ah, esta gente do marketing…

Será que ir no mesmo avião que liga as duas cidades em sentidos diferentes implica preços diferentes?

Clic, clic, clic, fiz o mesmo pedido de simulação, mas desta vez a sair de Maputo em direcção a Lisboa.

Surpresa. Desta vez a cotação mais barata era de 936 euros. Os residentes em Maputo têm desconto automático de 350 euros. Nada mau.

Mas …cadê o meu desconto de até 70 por cento?

Já agora, desconto de 70 por cento em relação ao quê? A quem?

Em ambos os casos, as viagens seriam autênticos filmes de terror. No caso do vôo a sair de Maputo, estamos a falar de classe turística, saída de Maputo às 9 da manhã de um dia, e chegada a Lisboa às 15 horas do dia seguinte, voando de Maputo para Joanesburgo, depois para Paris numa conhecida companhia áerea francesa, e depois a ligação a Lisboa.

Partido de Lisboa, é o mesmo horror épico, mas no reverso.

Trinta e duas horas de percurso, em que mais que metade é passada em salas de espera de aeroportos.

Em frente ao preço, premindo numa frasesinha que diz “detalhes do preço”, aparece uma janelinha a dizer que na realidade, dos 936 euros, o bilhete em si custa 441 euros. O resto – 502 euros – é descrito como “taxas”.

Lembrei-me que na página de entrada do sítio vira um número (707 782 829).

Liguei para lá.

Após um toque, surgiu na linha uma voz em português no melhor sotaque do Brasil, indicando que os serviços de atendimento só atendiam das 8 às 19 horas durante a semana. Azar.

Nunca tinha ouvido falar nesta eDreams, mas não é supresa. Estes dias pago para não viajar e empresas destas são mais que os peixes no mar. Mas, para minha surpresa, o sítio tinha uma outra frase que, clicando sobre ela, me deixava saber tudo sobre a eDreams.

E avisava que a explicação seria em hespanhol.

Hum, não sei se vou conseguir ler….

Premi com o rato e, após esperar uns cinco minutos, apareceu um extenso documento daqueles com doses industriais de charme a tentar explicar quem era el Grupo. Hespanhol, baseado em Barcelona, expandiu por aqui e por ali e agora até já tinha escritórios em Lisboa.

Eles obviamente acham que são a melhor coisa a aparecer na face da Tierra desde a passagem de Cristo por Jerusalém e arredores.

Menciona que em 2006, a data mais recente contida no relatório, que data de Junho de 2007, portanto antes do crash em cadeia de metade do mundo, tinha facturado 300 mijones de euros, o que achei curioso estando nós em Agosto de 2010.

Até tinha os nomes dos membros do Conselho de Administração e resumos dos seus currículos (que são, no mínimo, fabulosos). O Christian Grunwald, então, devia ser rei de Hespanha em vez do Juan. Sem menosprezar os outros, que são todos Mckinseys, Harvard Business School, carreiras fulgurantes desde o berço, etc etc.

E termina com números de telefone e os endereços de e-mail da Maria de Andrés e da Pilar Cueca, que são as meninas da empresa de comunicação da eDreams (se ainda lá estiverem, claro).

Fiquei com tudo impressionado.

Estes tipos parecem ser mesmo a sério.

Só mesmo uma coisa menor permaneceu na minha mente após a saturada viagem por esta empresa:

Cadê o bilhete de Maputo para Lisboa com desconto até 70 por cento se eu reservar até antes de 31 de Agosto, que alguém da eDreams cozinhou e me foi para à caixa do correio, ao lado da mensagem do meu querido amigo Carl?

Estou a pensar mandar este texto para o Christian Grunwald e para a Pilar Cueca para ver o que é que eles dizem.


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GOODBIE LARRY

Sábado, Julho 3rd, 2010

por ABM (Sábado, 3 de Julho de 2010)

Presumo que muitos dos exmos. Leitores saibam que Larry King seja. Desde 1985, foi o entrevistador celebrado da cadeia de televisão CNN, tendo nalguns aspectos revolucionado este negócio das entrevistas na televisão. Tendo uma personalidade peculiar, era conhecido por fazer algumas perguntas difíceis, outras fáceis, mantendo quase sempre os seus programas interessantes e atraindo personalidades de topo, que pelos vistos não se importavam de ser entrevistadas na rádio a meio da noite.

No dia 29 de Junho passado, anunciou que vai deixar de fazer o seu programa de entrevistas na CNN, Larry King Live.

Creio que esta decisão em parte tem que ver com o que parece que foi um começo de divórcio da sua actual mulher (que é a sétima ou a oitava, dependendo das contas) mas que foi afectado por uma suposta tentativa de suicídio por um dos seus dois filhos, que tem nove anos de idade (bolas…).

Tenho um lugar muito especial nas minhas memórias para Larry, que me ajudou a aprender a falar inglês e adquirir alguma cultura no processo, quando me refugiei nos Estados Unidos em 1977, vindo de Coimbra e de então uma vida em Moçambique. Na altura Larry era uma “personalidade da rádio” e transmitia um programa de entrevistas e telefonemas dos ouvintes numa cadeia de rádio nacional chamada Mutual Broadcasting Network. Na altura Larry estava baseado em Washington, de onde a emissão era feita. Estando eu em Providence, a norte da costa Leste dos EUA, e só comecei a escutá-lo na noite de 30 de Janeiro de 1979, a noite do meu 19º aniversário, quando inaugurei o meu primeiro sistema de alta-fidelidade (um Pioneer que custou 189 dólares, incluindo as colunas) e vivia numa camarata na Universidade de Brown, onde eu era caloiro.

O dinheiro para o Pioneer era o primeiro prémio de um concurso de escrita (em inglês, ainda por cima) para filhos de imigrantes portugueses, que para minha total surpresa ganhei com uma quase patética composição com três páginas e que tinha o título Being Portuguese. Basicamente segui a mesma fórmula do Fernando Pessoa quando ele escreveu A Mensagem em 1934: give them what they want and call it a strategy.

Nessa noite ele comemorava o primeiro aniversário desde que iniciara o seu programa de rádio com emissão nacional (que começara a 30 de Janeiro de 1978). Nunca mais deixei de o escutar, o que era positivamente péssimo para os meus hábitos de dormir.

Eventualmente, ele mudou-se para a CNN em meados dos anos 80 e começou a fazer as suas entrevistas mais ou menos no mesmo formato mas em programas com a duração de apenas uma hora, o que, sendo ainda cativante, não tinha nada que ver com a intimidade dos dias do programa de rádio na cadeia Mutual, os quais tinham a duração de…cinco horas, cinco dias por semana.

Desses dias da rádio, recordo-me principalmente do refinado sentido de humor de Larry, um judeu americano que já naquela altura parecia que tinha passado por tudo e mais alguma coisa na vida, mas que ainda sabia encarar e lutar e ainda rir da vida. Havia duas histórias que ele deve contado uma dez vezes nesses anos da rádio, que só de pensar nelas já me rio.

E que conto a seguir.

Uma foi quando, sendo ele muito jovem, arranjou um emprego como vendedor daqueles carrinhos com quatro pernas onde se metem bebés para andar pela casa e que supostamente não se conseguem virar. Ele era suposto ir de porta em porta a vender aquilo. Antes de ir para a rua vender, teve umas sessões de formação em que lhe indicaram que era imperativo ele fazer uma demonstração com o bebé dos donos da casa lá dentro. Era imperativo para a venda ter sucesso. Na formação, aquilo dava umas voltas violentas mas nunca virava. Na sua primeira tentativa de venda real numa casa, ele enfrenta um casal mal encarado que lhe diz que não acredita que o carrinho não se vira. Para fazer a história curta, ele faz o discurso mais convincente do mundo, faz toda a demonstração com o bebé do senhor dentro do tal carrinho, mas às tantas o carrinho vira-se mesmo de pernas para o ar, e o Larry teve que fugir a correr pela porta do homem furibundo, que o queria matar.

A outra aconteceu quando o Larry estava no começo da sua carreira na rádio na cidade de Miami, na Flórida. Ele era discjockey numa pequena estação local e era suposto falar e passar discos durante toda a noite. Uma noite, recebe um telefonema tórrido de uma mulher qualquer com quem ele tinha um flirt, e que o convida a passar lá em casa (presume-se que para dar um encontro íntimo). Entusiasmado, o Larry arranja um conjunto dos discos mais longos que encontra na estação, põe-os a tocar em automático, penteia-se e sai a correr porta fora para o seu encontro romântico, presumivelmente com a corrida cronometrada até ao segundo em que os discos acabavam de tocar. Só que acontecem duas coisas: o seu entusiasmo foi mal medido que ele atrasou-se. Pior, a meio do conjunto, um dos discos estava riscado e passou duas horas e meia seguidas, engatado a dizer repetidamente uma frase, do tipo “eu sou teu, eu sou teu, eu sou teu”…

Entretanto o Larry com a fulana em casa dela e ninguém na estação.

Eventualmente, umas duas horas e meia depois, ele regressa à estação e quando entra no estúdio está o telefone a tocar. Na linha estava uma senhora velhinha que ele conhecia de telefonar para lá às vezes e que habitualmente escutava a estação à noite. Ela estava doente e imobilizada na cama, não podia mexer no rádio, que ficava do outro lado do quarto, mas tinha o telefone ao pé da sua cama.

Quando ele atende, ouvia-se apenas a voz da velha senhora, a repetir, num tom enfadonho: “eu sou teu, eu sou teu, eu sou teu, eu sou teu….”

Bons tempos, Larry.


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COMEÇOU O VERÃO EM PORTUGAL

Quinta-feira, Julho 1st, 2010

por ABM (Quinta-feira, 1 de Julho de 2010)

O Cabo da Roca, a seguir a Cascais, esta tarde

A parte de trás da Praia do Abano, junto ao Guincho, esta tarde


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VÁ A HELSÍNQUIA POR APENAS 99 EUROS!

Quinta-feira, Julho 1st, 2010

por ABM (Quinta-feira, 1 de Julho de 2010)

Às vezes interrogo-me se as pessoas que trabalham em certas empresas pensam que nós deste lado da paliçada, e que somos supostos consumir os produtos deles, temos “estúpido” escrito na testa.

Como utente aficionado da empresa Transportes Áereos Portugueses, empresa que, ao contrário da PT, continua a ser dúbia posse do Tesouro Nacional, e que agora dá pelo nome comercial de TAP-Air Portugal, há muito tempo que subscrevo um serviço que eles fornecem na internet, através do qual recebo quase diariamente mensagens promocionais de viagens e destinos que eles entendem por bem promover.

Nada de mais, que eu saiba hoje em dia toda a gente faz isso, é promoção barata e eu não me importo.

Por isso não me perturbou minimamente que a TAP me tenha enviado esta tarde uma mensagem cujo título é o título desta pequena crónica, seguido pela imagem acima que o exmo Leitor pode ler.

E que pode ser visto directamente premindo aqui com o rato do seu computador.

Ok, os factos: nunca fui a Helsínquia e para ser honesto não faço tenção de lá ir. Não é o que está em causa. O que está em causa é que estamos no dia 1 de Julho de 2010 e, mesmo com o mundo a acabar e o José S. a esventrar-nos as finanças públicas e privadas, e o prof. Aníbal a apelar para fazermos férias lá para os lados de Boliqueime, presumo que ainda haja muito boa gente que possa estar a pensar em fazer férias au dehors.

Lógico é que a TAP utilize esta altura para nos tentar aliciar com o que achar que deve tentar aliciar-nos e, nesse sentido, Helsínquia poderá ser um destino tão interessante como outro qualquer.

Só que – o exmo. Leitor que olhe bem para a mensagem.

Preferencialmente, sugiro, com uma lupa.

A parte que se vê bem da mensagem é que custa “apenas 99 euros” para ir a Helsínquia.

A parte em que se tem que usar a lupa e apontar bem para se ver o que está lá a dizer, é mais interessante, e diz o seguinte:

a) “apenas” 99 euros afinal é mesmo só para ir para lá. Por exemplo, no caso de o viajante quiser emigrar para lá definitivamente. Se quiser voltar para Lisboa, são mais 99 eurozitos. Portanto, na realidade a tarifa aérea custa 198 euros, o que até continua a não ser mau, tendo em conta que aquilo fica no raio que o parta mais velho ao pé da Rússia.

b) que esta tarifa que afinal é de 198 euros, só é válida para o período entre 1 de Novembro e 10 de Dezembro de 2010, em que o regresso ocorra até ao dia 15 de Dezembro E a marcação feita até 31 de Julho de 2010. E a viagem feita no avião que liga directamente Lisboa à capital da Finlândia (presumo que o único mas o Leitor sabe como são estes tipos do marketing, nunca dão ponto sem nó).

Ora, estamos no dia 1 de Julho de 2010.

E, portanto, como sugestão de umas férias, a menina do marketing lá da TAP, decidiu, no dia 1 de Julho de 2010, convidar-me, enquanto olho lá para fora para o sol azul, sinto a leve e quente aragem de Cascais City e o observo o mar sereno lá ao fundo, a ir a correr até ao dia 31 de Julho ao escritório da TAP, comprar um bilhete de avião, para ir passar uns dias a um sítio entre 1 de Novembro e 10 de Dezembro, situado no outro lado do fim do mundo, e onde nessa altura as temperaturas rondam os dez graus abaixo de zero e onde o único sítio seguro onde se pode estar é enfiado numa sauna de madeira com o aquecedor ligado ao máximo.

Logicamente, dentro dos parâmetros mais latos, a TAP pode mandar para a minha caixa do correio quase tudo o que quiser. Pode até tentar vender-me uma ida à China para daqui a dois anos.

Mas no dia 1 de Julho de 2010, se calhar fazia mais sentido focar-se em coisas mais imediatas e comezinhas, coisas que pessoas que têm vidas normais e que não sabem bem o que vão fazer daqui a cinco meses, poderão de facto comprar.

E já agora, que metessem o texto sobre o que nos estão a tentar vender, em letra que se possa ler.


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HOMENAGEM AOS AÇORES

Domingo, Junho 27th, 2010

por ABM (Domingo, 27 de Junho de 2010)

Apesar da minha vertente africana, pai e mãe (e linhagem até aos colonos originais das ilhas no séc. XV e XVI) nasceram e cresceram na ilha açoriana de São Miguel, sobre a qual as únicas coisas que eu sabia até aos doze anos, para além duma hilariante visita do meu avô paterno MIM a Moçambique em 1968, eram um cartaz promocional da ilha igual à fotografia acima exibida e que estava na cozinha dos BM, e o misterioso sotaque dos meus pais, que os acompanhou até ao dia em que morreram – e que é particular à Ilha de São Miguel, e tão diferente do sotaque falado na cidade de Lourenço Marques.

Em Moçambique, o sotaque do pai BM era legendário e a sua proveniência gentilmente parodiada. Lembro-me de, antes da independência, a revista Tempo, na sua versão light antes de 1975, ter feito, no fim das suas edições, uma espécie de “dicionário” de termos. com a respectiva explicação, que usavam para fazer algum comentário local. Para a entrada “açoriano”, a tradução era “Botelho de Melo”.

As duas melhores amigas da mãe BM em mais que vinte anos de África, eram duas açoreanas, Conceição e Maiana, com quem manteve contacto até falecer em 2005 nos Estados Unidos.

Quando vivi década e meia na costa Leste dos Estados Unidos, tive então o raro privilégio de conviver com tanta gente de lá, no que é considerada ainda a “décima Ilha”. E que incluíram alguns mais conhecidos: a Natália, o Onésimo, o Martins Garcia, o Cristóvão de Aguiar, o Adelino Ferreira (director do Portuguese Times, onde escrevi durante mais que duas décadas, para ver se não me esquecia de como se falava e escrevia em língua portuguesa) etc.

E com este sotaque, ao mesmo tempo tão familiar e tão peculiar dos micaelenses, um vulto tão familiar em casa.

Definitivamente, uma forma tão diferente e tão peculiar de se ser português.

E em particular com o sentido de humor, sentido aestético e a maneira de estar dos açorianos, que não tem igual em quase parte nenhuma. Eu acho que o próprio Fernando Pessoa, cuja mãe era uma açoriana da Ilha Terceira, subestimava esse efeito, preferindo elaborar referências místicas sobre a sua proveniência beirã e judia, notoriamente mais diluída. Mas não conheço muito que tenha sido escrito sobre a sua mãe, que viveu até 1925 (morreu na Amadora) e que era de Angra do Heroísmo, cidade onde Pessoa esteve em Maio de 1902 para visitar a família materna. Escreve-se tanto sobre o homem mas a mãe a relação com a mãe, e a terra da mãe, quase népia. O primeiro poema conhecido de Fernando Pessoa? dedicado à sua mãe, que o guardou para a posteridade:

À MINHA QUERIDA MÃE

Eis me aqui em Portugal
Nas terras onde eu nasci.
Por muito que goste delas,
Ainda gosto mais de ti.

(26-7-1895)

Mãe açoriana é outra loiça.

Para quem não conhece o sotaque e humor de São Miguel, que eu conheço relativamente bem, aqui fica um saborzinho num domingo de início de verão, com estas duas jóias. Na primeira, uma paródia à série “Doutor House”. Na segunda, um micaelense conta detalhes de uma visita à América.

Bom fim de semana.

E vivam os açorianos, incluindo o que fez estes filmes.


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O SONHO QUE EU TIVE

Sexta-feira, Junho 25th, 2010

por ABM (Sexta-feira, 25 de Junho de 1975)

Foi há 35 anos e parece que foi há momentos.

Em 1975 eu tinha 15 anos de idade.

Um ano antes, em finais de Abril, descobrira que a independência da minha terra, que sabia que viria um dia próximo, afinal viria muito mais depressa. Afinal, eram uns homens brancos em fatos cinzentos na Metrópole a que agora (então) chamavam “fascistas” que impediam a independência da minha terra. Fizeram uma guerra por causa disso. Os “terroristas” afinal eram os da minha terra e haviam lutado contra os outros. Não eram terroristas.

Eram libertadores.

Quando chegaram os primeiros guerrilheiros para patrulhar a cidade de Lourenço Marques, vinham mal vestidos, armados até aos dentes e alguns de óculos escuros, não falavam português, eram rudes. Por causa de uma série de distúrbios em Setembro e Outubro, toda a gente que eu conhecia na Polana pareceu acreditar que as coisas iam piorar, não melhorar. Na minha escola, os professores abandonavam os postos, faziam as malas e iam-se embora, para o longínquo Portugal. Nos jornais, a retórica agudizava-se: tudo era questionado, tinha que se reinventar a sociedade, tudo estava mal.

No fim do ano, receoso de perder o ano escolar por as aulas no liceu estarem a tornar-se numa brincadeira, decidi ir estudar para Coimbra. Milagrosamente, os meus pais autorizaram e arranjei maneira de para lá ir, apesar de nem sequer me ocorrer alguma vez questionar a minha “moçambicanidade” ou o apego ao que era o único lugar do planeta a que eu chamava “a minha casa”. Tinha 15 anos. Estudar era a prioridade. A única prioridade. Fui para Coimbra, a única cidade que gostara de visitar em Portugal.

Onde, por ser branco, ninguém reparava que eu era africano.

Em Junho de 1975, os meus pais continuavam a viver em Moçambique, se bem que reportavam que tudo se estava a complicar rapidamente. A cidade estava-se a transformar num campo de concentração em que todos eram suspeitos. O meu pai não ligava, fazia parte da mudança de regime e de poderes. Rapidamente Moçambique iria entrar nos eixos. Tanto havia por fazer e o futuro só podia ser risonho. Já a minha mãe não estava confiante: “eles não sabem o que estão a fazer e querem um ajuste de contas”. Para ela, uma discreta açoreana arrancada das ilhas pelo aventureirismo do marido, Moçambique nunca foi um poiso seguro. “Esta terra não é nossa, é deles. Um dia têm que tomar conta do poder”. Já tinha vivido sete anos em Macau, onde o meu pai comandara um pelotão de … moçambicanos, as tropas Landins. Irónico, o meu pai açoreano a comandar cem moçambicanos em Macau nos anos 50. Parece outro mundo dentro de outro mundo.

No dia 25 de Junho de 1975, eu estava em Coimbra. Todo o dia escutei colado a um velho rádio Panasonic preto do professor José Sacadura, a emissão em directo de Lourenço Marques feita pela emissora nacional portuguesa. Quase que nem acreditava. Meu Deus, chegou o Grande Dia. Finalmente. Moçambique independente. Quase que me beliscava. À meia-noite em Moçambique (uma ou duas horas antes em Coimbra) com dificuldade, de entre o ruído das ondas curtas, ouviu-se a voz de Samora Machel a proclamar a independência. Foram momentos de emoção. A minha terra tinha todo o futuro pela frente. E os erros tinham-se corrigido: agora eram moçambicanos a tomar conta do seu governo.

Cumpria-se o destino.

No Estádio Salazar, rapidamente rebaptizado de Estádio da Machava, soube depois, estiveram o meu pai, como jornalista da Tribuna, onde ele escrevia umas coisas (a maior parte a ver com futebol, se me lembro) e uma irmã minha.

Uns meses depois, sem pré-aviso, apareceram-me o meu pai e a minha mãe à porta da casa em Coimbra. Cada um com uma mala. Exaustos. Tinham decidido sair de Moçambique. Acharam que não era possível viver mais lá. Toda a família enfrentava um futuro de total incerteza e dificuldades.

Muitos anos depois, descobri que o novo governo moçambicano tinha passado uma lei qualquer da nacionalidade. Afinal eu não era moçambicano, nem podia ser. Era português. Diziam-no os meus irmãos moçambicanos. Como os meus pais eram açoreanos de origem, e eu era menor, não tinha qualquer voto na matéria. Não interessava o que eu pensava, o que eu sentia, o que tinha visto, pelo que tinha passado. Os dados haviam sido jogados. A História não se compadece. Para todos os efeitos, sentia-me apátrida.

A vida continua, e em geral para a frente. Pus o assunto de lado, guardei os meus sentimentos para mim, e fiz pela vida. Trinta e cinco anos depois, continuo a achar que os moçambicanos são meus irmãos. Tendo vivido em meio mundo, ainda me sinto em casa em Moçambique, apesar de todas as reviravoltas, e de agora precisar de obter um visto de Estrangeiro para visitar a minha terra. E de lá ser tratado, por quem não me conhece, como tal. Até há quem ache que foi muito bem o que fizeram a gente como eu, apanhada pelos ventos desta História. E necessário o percurso em que a minha terra se tornou durante décadas um dos países mais pobres do mundo. Onde morreu mais que um milhão de pessoas. Para quê? não sei.

A tudo isso assisti, de muito longe, indignado, preocupado. Quando falava de Moçambique, a minha família sempre me dizia “esquece aquilo”.

Mas nunca esqueci aquilo.

E, ironia das ironias, um dia tive a chance de voltar e até de fazer lá umas coisas. Foi uma sorte que tive. Um privilégio. E aí pude confirmar que eu tinha razão. Que não podia, que não devia, esquecer. Não me era possível esquecer.

E, após um quase apocalipse, vi Moçambique, lentamente, a emergir novamente das cinzas. Cheio de problemas, tantos problemas.

Mas a emergir.

Senti nisso algum conforto. Pois a promessa de Moçambique, a mesma promessa que eu senti naquele momento, naquela noite escura em Coimbra em Junho de 1975, quando fechei os olhos e sonhei, para a única terra que sempre senti como a minha, tardiamente, estava, finalmente, a começar a cumprir-se.

E como esse sonho era, e é, belo.

A minha terra, independente.


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NOS BONS VELHOS TEMPOS

Segunda-feira, Junho 14th, 2010

por ABM (14 de Junho de 2010)

Nos bons velhos tempos, quando a maior parte das pessoas em casa só tinha um rádio que apanhava menos de meia dúzia de estações em onda média e, para os mais afortunados, um gira-discos (na velha LM dizia-se um pickup, que se dizia “picâpe”), as pessoas quando muito cantarolavam baixinho e mais alto quando estavam sózinhas nuas e trancadas na banheira, com o chuveiro a correr e a escovar as costas com aquelas escovas de banho com um cabo de madeira longo.

Em Moçambique, quando eu crescia, era assim com os brancos, mas rodeados por um belo, estonteante, omnipresente, contagiante mar de canto e dança africano.

Hoje em dia deu nisto. Uma espécie de hooligans bem intencionados e armados com um exército de câmaras e aparelhagens sonoras aparecem em lugares públicos, armando ciladas musicais que deixam alguns dos transeuntes sem saber o que dizer. Depois escarrapacham uma gravação do evento no Iutúbe.

Como no fundo acho divertido e a seguir vem mais um desses textos chatos sobre economia, coloco aqui dois dos que mais gostei.

O primeiro foi feito por alguns membros da Companhia de Ópera de Filadélfia, que descaroçaram uma ária de La Traviata num mercado local.

O segundo, creio que mais conhecido, foi feito em Amsterdão e inclui uma das minhas canções favoritas, Do, re, mi, do filme A Música no Coração (Óscar para melhor filme em 1965, entre outros).

Aliás, li num jornal da Beira de hoje que uns jovens estão a preparar naquela cidade uma manifestação de apoio ao Sr. Bachir da MBS (acho que é mais para chatear os americanos e as suas medidas administrativas mas enfim) dançando numa praça da cidade da mesma maneira.

Das coisas que mais aprecio em África é que, em África, regra geral, cantar e dançar faz parte da vida. A maioria dos brancos na Europa tem já gerações de tentar parecer sério…e gente séria não canta nem dança….e nunca em lugares não designados. Não?

Com um bocado de sorte, seguir-se-á uma análise sociológica do tema pelo nosso Senador e talvez (oh se isso fosse possível) pela Exma. Sra Baronesa, que calcorreou África, conhece as Europas e tem um olho prescrutante para estas coisas. JPT, Sra Baronesa, porque é que as coisas têm que ser assim?


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NO CERNE DO CU

Terça-feira, Junho 1st, 2010

O CU dele

por ABM (1 de Junho de 2010)

Outro dia fiz 50 anos de idade. Antigamente 50 anos era considerado uma idade provecta. Agora é apenas a meia idade, se bem que, estatisticamente, com base nos meus dados, eu deva viver não mais do que uns meros 25 anos mais, o que, fazendo as contas, nao é bem a meia idade. É mais o começo do fim. Mas enfim. Os fins são sempre o começo de mais qualquer coisa.

Quando em 1990 cheguei a Portugal, já tinha carta de condução de ligeiros há uns 12 anos, obtida nos Estados Unidos a um custo de 10 dólares. E que sorte tive. Tirar um curso obrigatório para obter uma carta de condução de ligeiros em Portugal hoje em dia custa uns 500 a 600 euros e leva meses de aulas e testes. Isto fora a papelada toda depois para obter a carta propriamente dita. Dizem-me que é um negócio de milhões, e a única coisa que me surpreende é porque é que em Portugal as pessoas conduzem geralmente com uma agressividade e falta de atenção aos sinais e aos outros, sugerindo que tiraram a carta de um pacote de sabão Omo.

Mas deve ser uma questão de educação, e a educação, a educaçãozinha, deve começar em casa, não é?

Trocar a carta americana por uma portuguesa foi um filme de terror. No fim, o amigo do primo dum cunhado dum irmão da secretária do assessor de não sei quem na Direcção das Cartas em Portugal, lá se apiedou de mim e, com uma pancada valente, em três dias tinha a minha carta portuguesa.

Havia uma diferença enorme entre a carta norte-americana (do glorioso Estado de Massachusetts) e a portuguesa. A carta norte americana era já naquela altura mais ou menos parecida com um cartão de crédito, e tinha que ser renovada de um ou de dois em dois anos. Mas a renovação era fácil, era coisa de menos de meia hora, dez dólares e arriverdeci.

A carta de condução portuguesa de 1992 era completamente diferente. Era uma espécie de lençol de um papel com uma cor de rosa chocante, que se dobrava em forma de tríptico, e que lá continha os dados necessários para me identificar perante (invariavelmente) as autoridades policiais se e quando necessário. Para além daquela cor enigmática, tinha a desvantagem de ser enorme e de não caber na carteira de ninguém que se preze. Portanto as pessoas, especialmente os homens, ou andavam com carteiras enormes nos bolsos, ou, na versão mais pirosa e que ainda se vê um bocado por aí, andavam com umas bolsas de médio porte penduradas na mão, onde tinham arquivada toda a papelada relevante em mão, e que inclui itens como os documentos do carro (que era mais um lote de lençóis).

Mas a minha carta portuguesa tinha algo de fantástico: era válida até eu completar os 65 anos de idade. O lado por onde a coisa estoirava é que, como a dita cuja refere, e é suposto ter, a morada do motorista devidamente actualizada, se, como hoje vai acontecendo, uma pessoa muda de casa, tem que mudar de carta. E isso é toda uma nova aventura burocrática de assustar.

Só que, para variar, há já algum tempo, os poderes constituídos daqui mudaram a lei no que concerne a renovação da carta, e pura e simplesmente legislaram que toda a gente passou a ter que obrigatoriamente que renovar a sua carta de condução …. quando completasse 50 anos de idade.

Diligente e muito relutantemente, há uns dias fui ver como é que se faz isso.

Depois de esperar um bocado, a senhora que me atendeu despachou-me em quarenta segundos com o que era preciso, e que – claro – eu não tinha.

Os requerimentos eram, para além da carta expirada, o Bilhete de Identidade actualizado, uma fotografia e … um atestado médico, declarando que eu tenho (cito) “aptidão física e mental para a condução de veículos”.

O que quer que seja que isso quer dizer.

E mais. A senhora reparou, quando eu preenchi o formulário para a nova carta, que o endereço que eu indicara diferia do Bilhete de Identidade e da carta de condução. Logo, sentenciou; “para renovar a carta de condução, o senhor primeiro tem que renovar o Bilhete de Identidade”.

Só que, desde há algum tempo, Portugal, que nestas coisas pretende ser mais avançado que os americanos, já não tem Bilhete de Identidade.

Tem o Cartão Único. Ou CU (mais tarde, apressada e estrategicamente, alteraram o nome para “Cartão do Cidadão”).

Mas aqui tem mais piada manter a designação original.

O que tem o CU de único? O que o CU tem de único é que para os devidos efeitos, o CU substitui uma série de cartões que os residentes aqui no burgo têm que ter e andar com eles nas calças: o Bilhete de Identidade, o cartão de contribuinte fiscal, o cartão da segurança social portuguesa, o cartão de eleitor, e o cartão de saúde, que é suposto exibir quando se usa um hospital público.

Portanto o CU é mais ligeiro e portátil. Como o outro.

Ora, dado que eu nunca usei a segurança social portuguesa na vida, nem um hospital público (sortudo) e voto só muito muito excepcionalmente, nem sabia por onde andavam esses cartões ou sequer se eu os tinha.

Mas a questão era simples.

Sem documentozinhos acima não havia CUzinho.

E sem CUzinho não havia cartinha de condução.

Portanto, fiz-me à estrada.

Primeiro, fui obter um atestado médico. Numa manhã gloriosa de sol radiante, desloquei-me ao Centro Clínico Privado de Cascais, que por acaso fica em Tires, e marquei uma consulta. Cinquenta euros e dois dias mais tarde, fui atendido pela jovem e expediente Sôra Doutora Elizabete, que, de imaculada bata branca, luvas antibacterianas, atestadas a minha aptidão física com uma rápida medição da tensão arterial, e a aptidão mental com três perguntas simples sobre o estado em que o mundo se encontra (felizmente ela não lê o Maschamba), assinou o tal de atestado e apostou um selinho com um código de barras cor de rosa.

De seguida, o Cartão de Eleitor.

Há muitos anos, vivi numa área muito boa de Lisboa. Lisboa tem inúmeras subdivisões administrativas cujos nomes fazem lembrar o Portugal dos Pequeninos do tempo daquele filme A Aldeia da Roupa Branca. A Junta de Freguesia de São José, adicionalmente, tem as particularidades de incluir o imobiliário mais valioso de Portugal inteiro – a Avenida da Liberdade – e de ser povoado por velhinhos caquéticos e vendedores de relógios falsos, que parece que votam todos no Partido Comunista Português. O edifício da Junta de Freguesia, situado numa ravina com vista para a Avenida da Liberdade, parece um daqueles serviços de notários que há na baixa de Maputo, em que alguém se esqueceu de pintar aquilo e substituir as lâmpadas. Intrepidamente, sai da segurança civilizada de Cascais e fui lá. Depois de dois dias de charme lambuzante e aquele ar de cão indefeso a quem tiraram o osso, a funcionária, certamente um quadro do Partido desde há longa data, convocou-me à sua presença e lá me deu o tal de cartão de eleitor, apenas e só depois do Sua Excelência o Senhor Presidente da Junta de Freguesia o assinar em Despacho após a sessão semanal da Junta.

Obter o cartão da Segurança Social foi mais estranho. Depois de uma série de telefonemas para o que me pareceu ser toda a estrutura de saúde deste pais, apanhei uma senhora que me disse para ir ao “Sáite” tal não sei aonde, onde havia um formulário, que eu preenchia com os meus dados (nome, número de BI e endereço de correio electrónico) e que no espaço máximo de não sei quantos dias, receberia um e-mail com o número.

O dobro do prazo mais tarde, recebi a mensagem com um longo número, que imprimi.

Quanto ao cartão de Saúde tive mais sorte. Fui ao Centro de Saúde de Cascais (tirei a senha, esperei, esperei, etc) e a senhora que me atendeu, depois de consultar um delapidado computador, desapareceu durante cinco minutos. Quando voltou, deu-me um cartão. “O Senhor pediu o cartão há três anos e ele já cá estava”. Ah, claro…

E pronto. Agora já podia pedir o meu CU.

E com o CU já podia renovar a carta de condução.

Com toda a papelada, dirigi-me na semana seguinte à conservatória do Registo Civil mais próxima. Uma hora depois, aparece o meu número no visor da lista de espera do serviço. Quinze minutos e doze euros mais tarde, num estranho processo que incluiu digitalizar ambas as pontas dos meus dedos indicadores (hum…) a empregada deu-me um papel comprovativo do pedido feito e um recibo e disse-me que dali a dez dias úteis receberia uma carta a dizer para vir buscar ali o meu CU. Para levantar o CU, teria que trazer a carta, o meu antigo BI, o meu cartão de contribuinte fiscal, o meu cartão de eleitor, o meu cartão de segurança social e o meu cartão de saúde.

Em troca disso, dava-me o CU.

Munido com o meu comprovativo de pedido de CU, no dia seguinte fui à repartição das cartas de condução, que ficava para além do Raio que o Parta Mais Velho, levando também a minha velha carta de condução, uma fotografia, e o atestado médico da Sôra Doutora Elizabete com o selinho cor de rosa, a dizer coisas boas sobre a minha aptidão física e mental para conduzir veículos na via pública.

O senhor que me atendeu recebeu a documentação, preencheu um documento e, sessenta euros e quinze minutos mais tarde, deu-me um papelinho que, a título provisório, me permite andar na via pública, dizendo que eu pedi uma nova carta de condução.

Que juntei ao outro papelinho, também provisório, a dizer que eu pedi um novo CU.

Daqui a uns tempos, terei finalmente renovado a minha carta de condução portuguesa.

E terei um novo CU, português.

Se este pais não existisse, tinha que ser inventado.

ADITAMENTO (3 de Junho de 2010)

A repartição das cartas de condução hoje devolveu-me o atestado médica da Sra Dra Elizabete. Para além do endereço da minha casa, indicado no atestado médico, não corresponder exactamente ao endereço registado no meu projectado CU, e dado que a minha velha carta habilitava-me a dirigir automóveis ligeiros e motas acima de 125 cm3, a Sra Dra atestou que eu podia apenas conduzir veículos do tipo A (carros ligeiros) mas não mencionou os veículos do tipo B (motas). Assim, voltou tudo para trás e eu tive que ir outra vez à Clínica pedir à Sra Dra que fizesse novo atestado com a morada correcta e atestando que eu estava física e mentalmente apto para conduzir não só carros ligeiros mas também motas. Mas a Sra Dra só trabalha quando quer e não estava na Clínica, pelo que tenho que esperar mais dois ou três dias.

Ou seja, já tenho um papel meio rufenho que me permite andar de popó na rua, mas na verdade o pedido da nova carta de condução está parado à espera da declaração da Sra Dra, que tem que corresponder a tudo o que está na restante papelada, senão volta para trás.

Isto que acabei de contar levou uma tarde e 40 kms de viagens a fazer. Daqui a uns dias tenho que ir buscar o papel à Clínica e levar de volta à Repartição das Cartas de Condução.


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O LEÃO ADORMECEU

Segunda-feira, Maio 31st, 2010

Maria Duarte Silva, Rui Quadros e Suzette Malosso, anos 60

por ABM (31 de Maio de 2010)

Em aditamento ao que referiu o Senador.

Gostava de, com muita pena, assinalar a morte de Rui Quadros ontem em Maputo e, para além de apresentar as minhas condolências à sua família (conheço o Nuno e a filha, que já deve estar grande desde que a vi há uns anos) e de referir algumas memórias sobre este invulgar homem.

O pai do Rui Quadros era administrador de posto no mato, perto da então Lourenço Marques. Rui Quadros tinha um irmão, Jorge (que morreu em circunstâncias esquisitas na Guiné-Bissau) e várias irmãs- para além do Nuno. Com os anos ele tornou-se caçador-guia, e veio a ser um dos melhores caçadores-guia de Moçambique, juntamente com Amadeu Peixe, Luís, Vasconcelos, etc. Durante anos trabalhou para a Safarilândia (do Jorge Abreu e o irmão, tios da Susana Abreu, uma grande nadadora moçambicana dos tempos) uma empresa que organizava caçadas, acompanhando muitos dos visitantes mais distintos que vinham a Moçambique desfrutar das suas maravilhosas paisagens selvagens e fauna.

Antes da independência, ele era uma verdadeira lenda na cidade. Dele, que conheceu Moçambique como muito pouca gente, se dizia, afectuosamente, que “andava como um preto, dormia como um preto, e falava como um preto”. Para além de português e inglês, ele falava fluentemente várias línguas de origem africana.

O Rui Quadros entrou no imaginário dos BM de uma forma curiosa. No final dos anos 60, Rui Quadros, que estava no auge da sua celebridade, um dia convidou o meu irmão Fernando, que devia ter uns dez anos de idade, para ir caçar com ele. O Nando estava no fim de umas férias escolares curtas e todos pensávamos que ele ia caçar apenas durante o fim de semana, o que era no mínimo uma experiência única. Só que o fim de semana vem e vai e nada de Rui Quadros nem de Fernando. Os dias passaram. Ao fim de dez dias, e uma semana sem aparecer nas aulas (hoje assunto de lana caprina mas naqueles tempos era crime de Estado) o pai BM manda um SOS para todos os lados para tentar perceber o que se passava e por onde eles andavam. Na noite do domingo seguinte, aparece em nossa casa o Rui, que entrega um Fernando todo sujo, malcheiroso e esfarrapado mas absolutamente encantado com os dias em que andaram perdidos no mato a caçar e a passear. Depois de um valente banho e do jantar, sentámo-nos todos na sala a ouvi-lo a contar as suas aventuras da caça com o famoso Rui Quadros.

Depois da independência, o Rui esteve algum tempo na África do Sul e mais tarde em Portugal, onde chegou a explorar uma espécie de quinta de animais selvagens no Alentejo. Mas, volvidos uns anos, ei-lo de volta em Moçambique. Ele de facto parecia que pertencia ali, e não encaixava nos formalismos de gravata da Europa. Vi-o inúmeras vezes na esplanada do Piri-Piri, olhando o tempo a passar e magicando novas formas de voltar ao mato.

O mato a que pertencia.


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A CONTRACICLO

Segunda-feira, Maio 24th, 2010

por ABM (24 de Maio de 2010)

Quando o exmo Leitor Maschambiano der um passeio um dia destes pela marginal até à Beverly Hills portuguesa – Cascais e arredores – antes de chegar ao centro da próspera vila deparará, pelo lado direito, com um gigantesco e estranho edifício, que mais parece uma nave espacial esquisita que acabou de aterrar em frente ao mar. Trata-se de um badalado novo complexo habitacional de luxo, a que, para variar, se deu o sempre comercialmente apetecível, anglicizado, título de Estoril Sol Residence.

Eu suspeito sempre de complexos habitacionais com nomes ingleses em Portugal porque normalmente esta é uma forma imediata e (pouco) subliminar de sugerir que o lugar ou é muito exclusivo, ou é muito caro, ou ambos. E é também um pouco o correspondente imobiliário ao tique de muitos ilustres da vida empresarial portuguesa, especialmente os que publicam, de entulhar os seus escritos com anglicismos, muitos deles com excelentes termos correspondentes em português. Mas dizer coisas como sub-contratar (outsourcing) e part-time (tempo parcial) em inglês dá logo aquele ar místico de que a peça andou a ler e a aprender alguma coisa etérea lá fora que a gente cá dentro não sabe.

Eu tenho uma ligação peculiar e muito pessoal com o lugar, onde durante umas décadas operou o paradigmático Hotel Estoril-Sol, de cinco estrelas, e onde, se me recordo das fotografias no salão de entrada (o…..lobby) Sua Sereníssima Alteza a Princesa Grace de Mónaco (antes a actriz norte-americana Grace Kelly) ficou quando visitou Portugal nos anos 60. Em 1976, sendo eu nadador entornado de Moçambique, fui convocado para integrar a a equipa de natação que foi aos jogos olímpicos de Montréàl, no Canadá. Ora, a “preparação” (na verdade um estágiozinho à medida do que era o país na altura) deveria ser feita numa piscina de 50 metros. Na altura havia poucas em Portugal – Olivais, Évora, Coimbra…e a piscina do Hotel Estoril-Sol. Já não me lembro bem porquê (Olivais estava em obras, Évora estava sem água, Coimbra foi fechada pelos jogadores de futebol do Académico em protesto por não receberem os salários, e a do Estoril-Sol ninguém se lembrou na altura) pegaram na equipa e mandaram-nos todos durante umas cinco ou seis semanas para …. a piscina do Complexo de Montjuich, em Barcelona.

Quando regressámos a Portugal depois de estar a banhos em Barcelona, alguém tinha falado com alguém do Hotel Estoril-Sol, que na altura, devido à Gloriosa Revolução Socialista do Nobre Povo Português, estava completamente às moscas, e eis que o vosso ABM, de repente, apesar de com 16 anos e num delicadíssimo e adiantado estado de pelintrice (nessa altura nem dinheiro tinha para comprar um fato de banho), foi instalado numa das melhores suites do hotel de cinco estrelas durante quatro semanas, situada no lado direito do último andar do Estoril-Sol, com todas as mordomias inerentes e disponíveis no local. Todas as manhãs, um empregado solícito e vestido de rigor acordava-me na cama ligando a música ambiente e abrindo as cortinas e servia-me um magnífico pequeno almoço na enorme varanda da suite, de onde se via toda a costa do Estoril e onde, vestido com um daqueles fartos robes turcos brancos, bebericava o sumo de laranja e lia distraidamente sobre os feitos da Grande Revolução dos Cravos no Diário de Notícias, se não me engano então nas mãos de José Saramago (no que foi sucedido pelo Mário Mesquita).

Do que me recordo, nessa altura, para além do ocasional turista, o enorme hotel estava quase completamente vazio – excepto nós (que éramos meia dúzia) e …. todas as dançarinas do espectáculo de dança do Casino do Estoril, que ficava ali perto, e que eram cerca de duas dúzias, todas elas jovens belezas nórdicas estonteantes de cartaz, com pernas infindáveis e aspecto físico digamos que desesperadamente impecável, e que falavam naquelas línguas lá do norte das Europas e que para mim soavam a dialectos hutu.

A razão porque estávamos ali era porque o hotel mantinha uma piscina de 50 metros, onde treinávamos duas vezes por dia, altura em que parte da piscina era encerrada ao público. Cedo de manhã naquele mês de Junho-Julho, quando íamos treinar, era habitual estarmos lá só nós…e as meninas do Casino Estoril nas cadeiras de reclinar ao lado da piscina, a apanhar banhos de sol para ganhar mais côr.

Enfim.

Há uns anos, depois de uma daquelas novelas de faca e alguidar envolvendo o próprio casino (agora na esfera da organização Stanley Ho), a Câmara Municipal de Cascais e mais meia dúzia de organismos, o velho hotel foi demolido juntamente com a piscina e naquele lugar disseram que ia ser construído qualquer coisa de monumental para o povão ver.

Essa qualquer coisa, é o conjunto de prédios que acima descrevo, desenhados por um tal de Arquitecto Gonçalo Byrne (e eu que pensava que em Portugal era ou Siza Vieira ou nada) e está quase terminada.

E para além de um mastodonte, parece que a obra é virulentamente odiada por alguns. Há uns dias, o meu amigo Cha mandou-me um daqueles discursos arrasantes sobre o edifício, que deixo aqui.

Em nome do equilíbrio argumentativo, também deixo ao exmo Leitor o acesso ao lugar dos senhores que estão comercializar os seus espaços, onde, para além de se fazer referência aos prédios como A escultura, contém daquelas frases cintilantes e típicas do marketing de luxo, tais como mais do que uma declaração de amor, o Empreendimento, representa uma natural representação de que a vida flúi em eterno movimento, e que nesse dinâmico e contínuo processo de transformação, ‘nada se perde, tudo se transforma’. Como bem anunciam os sábios. Como sonham e realizam os optimistas, os que crêem e vivem a felicidade.

Não sei bem o que o que é que o tipo que escreveu esta descrição dos interiores da Estoril Sol Residence (ESR) tomou antes de escrever isto , mas quero tomar também um pouco.

Mas indo rapidamente para os finalmentes, o que o povão na rua diz é que aquilo é tão caro, tão caro, que a ESR provavelmente acabará por ser arrebatada pelos mitológicos milionários angolanos que nestes dias não saberão o que fazer com os seus petrodólares.

Quando, para efeitos deste texto, quis averiguar quanto ao custo de um apartamento lá, levei uma encantadora e penosa descarga de conversa que, espremida, dizia qualquer coisa como “aparece cá e a gente depois fala”.

Como eu sei que o leitor maschambiano quer saber estas coisas (ademais, pode haver interessados, pois estatisticamente quem visita esta casa está mesmo lá em cima), segui o velho esquema do “se não podes caçar com o cão, caça com o gato”. E com dois clics fui parar ao anúncio num desses sítios onde se vende tudo e mais alguma coisa e em que – ahá – alguém está a tentar despachar, por via da famosa modalidade de cedência de posição, um modesto apartamento tipo 3, com uns confortáveis 196 metros quadrados, por uns míseros 1.750.000 euros. Dá 8.928.57 euros por metro quadrado, se se excluirem os dois lugares de estacionamento e uma arrecadação com uns impressionantes 14 metros quadrados. Mais uma vez, a descrição detalhada do apartamento está aqui.

A este preço, claro, acrescentem-se os custos com a escritura e registo, o imposto imobiliário, e depois a contribuição anual e a quota do condomínio, e a empregada, que vão para as dezenas de milhares de euros anuais.

E, garantidamente, uma visita das finanças portuguesas a perguntar de onde é que veio o dinheiro.

Mas para os que verdadeiramente crêem e vivem a felicidade, afinal isto são apenas detalhes, não é? Pequenos obstáculos no longo percurso para o Zen terreno.

Confesso que não gostei muito da configuração. Pois apesar toda esta área útil, o Sr Arquitecto Byrne deve estar a sonhar se pensa que eu compraria um apartamento destes com um quarto banho social com apenas 2.4 metros quadrados. Brincamos, Gonçalo? Eu lá em casa tenho armários maiores do que isto.

Contudo, a arrecadação, ah, essa já dava para mostrar aos amigos.

Com o desabar da economia há ano e meio, e o aguçar do apetite das repartições de finanças em todo o mundo, projectos como o ESR aparecem agora um pouco a contraciclo. O bom povo português e gentes um pouco por toda a parte neste momento preocupam-se com coisas mesquinhas tais como meter o pão na mesa e gasolina no tanque e ficam raivosos com estas nefastas manifestações de riqueza, achando que, nestes casos, a inveja não só é justa: é moral.

Mas para os ricos que escaparem de pagar a crise, o empreendimento é uma pechincha e aquele aspecto de nave espacial preta estacionada no sítio onde ficava o velho Hotel Estoril-Sol é muito apropriado.

Pois de facto os ricos vivem noutro mundo.

Na piscina do Estoril-Sol, 1976. Um rebuçado a quem descobrir quem é um futuro maschambeiro


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MOÇAMBIQUE NO CASINO DO ESTORIL (e mais qualquer coisinha)

Quinta-feira, Maio 20th, 2010

por ABM (20 de Maio de 2010)

Cito o Diário de Notícias de hoje:

Inaugura-se hoje às 21.30, na Galeria de Arte do Casino Estoril, uma exposição de pintura, escultura, desenho e gravura de artistas moçambicanos, que se insere no programa comemorativo do 35.º aniversário da independência de Moçambique.

Nesta exposição vão participar trabalhos de Álvaro Passos, Bertina Lopes, Frank Ntaluma, Heitor Pais, Joaquim Canotilho, José Júlio, José Pádua, Lara Guerra, Lívio de Morais, Malangatana Valente, Mankeu, Naftal Langa, Reinata Sadimba, Roberto Chichorro, Shikani e Teresa Rosa de Oliveira. Assinale-se que foi na Galeria de Arte do Casino que em 1983, de 23 de Setembro a 10 de Outubro, se realizou o primeiro grande evento cultural em Portugal, depois da independência daquele país, chamado de Semana de Moçambique. Em Fevereiro de 1991, voltava a ser realizada outra grande exposição, intitulada “Pintores e Escultores de Moçambique”, com a participação de pintores nascidos em Portugal mas residentes em Moçambique.
Esta exposição manter-se-á patente ao público todos os dias, das 15.00 às 24.00, até 2 de Junho.

O que me mistificou mesmo foi início do texto do DN: a utilização do reflexivo “inaugura-se”. A exposição inaugura-se. A si própria. Ou talvez, “alguém que não se sabe bem quem é mas que não deve ser nem importante nem de outro modo mencionável senão apareceria nesta parte do texto onde está escrito “inaugura-se”, vai inaugurar a exposição”.

Quer dizer, estes usos são comuns: “realiza-se” e “assinale-se” são usadas com frequência, se bem que toda a gente sabe que nada se realiza, alguém tem que realizar, nada se assinala, alguém tem que assinalar.

Creio que é correcto mas fica estranho. É um pouco datado. Não? ainda me lembro de um episódio dos tempos idos em que quem escrevinhava nos jornais de referência usava o “nós” e vez de “eu”, presumo agora que tentando elevar-se com referência a um colectivo, que se presume que seja o (insignificante) escrivão e um seu colega ou, hiperbolizando, o jornal.

Ou seja, o colectivo valia mais que o individual.

Educado durante alguns anos nas garras das máfias culturais lourenço marquinas e mais tarde (cruzes canhoto) conimbricenses, quando cheguei aos Estados Unidos com 17 anos de idade, a Universidade de Brown, para onde fui estudar, mandou-me tirar um curso de escrita em língua inglesa, pois o estatuto de refugiado de Moçambique lusófono assim o recomendava. Com a maior das descontracções, imediatamente metamorfoseei a minha experiência luso-globalizada e procedi a usar o we (nós) quando na realidade me estava a referir à minha própria insignificância terrena. Durante meses, o meu tutor, um jovem mestre em inglês a ganhar a vida tormentando meia dúzia de nós (curiosamente, os meus colegas eram norte-americanos de origem, o que me deixou perplexo), bombardeou-me de forma inclemente com a sua canetinha encarnada (lá não há complexos com o uso da esferográfica vermelha), fazendo círculozinhos quase perfeitamente redondos nos textos que eu tinha que escrever, sempre que eu usava o we e punha à frente we, who? (nós? quem?). O meu vício era total e eu desesperava.

Até que um dia eu lhe tentei explicar, no meu elementar vernacular inglês de então que, na pórtuguize cultura, quando alguém escreve “nós” num texto, na verdade toda a gente que lê sabe mais ou menos que “nós” é quem escreve o texto. “Não sei. É uma coisa dos portugueses”.

Ele olhou para mim e perguntou simplesmente: “porquê? vocês pensam que são todos o rei?”

Pois, realmente.

A partir desse dia acabou o nós.


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É OFICIAL

Quarta-feira, Maio 12th, 2010

Imagem captada de uma emissão da CNN

por ABM (12 de Maio de 2010)

A propósito de um stopover imprevisto de Angela Merkel (a chanceler da Alemanha) em Lisboa, devido ao encerramento dos aeroportos mais para Norte durante a semana passada, resultante da nuvem de poeira vulcânica que mais uma vez se espalhou pelas costas da Europa, a menina dos gráficos dos mapas da CNN, Maria de Lurdes Costa Palhinha, ilustrou a informação com o mapinha que se vê em cima.

Asneira à parte, fiquei sem perceber se Merkel pernoitou em São Tomé e eles se enganaram no nome ou se ficou em Lisboa e enganaram-se na geografia.

Podia ter sido pior.

Podiam ter dito que ela pernoitou em Espanha.


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DEUS E O MEU CORREIO ELECTRÓNICO

Quinta-feira, Abril 15th, 2010



por ABM (15 de Abril de 2010)

Sempre recebi essas mensagens, mas o facto de nos últimos meses ter aumentado a sua frequência, me levou a pensar mais sobre o assunto.

Antes, um pouco de contexto:

Apesar de toda uma educação formal nos bastidores moçambicanos da igreja católica colonial nos anos 60 – a igreja arqui-conservadora dos senhores cardeal Cerejeira e o então bispo Custódio Alvim Pereira, e de a mãe BM ter sido quase toda a sua vida uma católica dedicada, eu não sou religioso.

Nunca fui.

Simplesmente, nunca acreditei que existisse um ou mais deuses no universo. Não acredito que um ou mais deuses tenha passado mensagens transcendentais e códigos de conduta celestiais para que nós, que sobrevivemos precaria e perenemente à superficie da terra, nós, descendentes prolíficos de um punhado de austrolopitecus quaisquer que sobraram em África de uma qualquer série de razias naturais que em tempos ainda não identificados assolaram o planeta, possamos saber o que é isso de viver uma vida decente e moral, que saibamos o que é a diferença entre o certo e o errado.

Para isso, a razão, a moral e o bom senso bastam a maior parte do tempo.

Mais: qualquer pessoa, crente ou não, que leia um bom livro de história, rapida e facilmente constatará que da corporização e codificação das religiões ao longo dos séculos tem resultado tanto bem como mal.

Em nome das respectivas deificações e específicos paradigmas, cometeram-se as maiores carnificinas, as maiores injustiças, entre os seres humanos.

E se calhar evitaram-se males piores.

E também se fez muito bem.

Ao mesmo tempo, obrigo-me, por princípio, e na esperança de alguma reciprocidade, a respeitar quem acredita que existe um ou mais deuses e as mensagens que supostamente constituem a expressão do que essas entidades quererão que seja feito pelos homens que nelas acreditam. Faço-o primariamente pela constatação básica de que, normalmente, as religiões organizadas podem ser formidáveis catalisadores do bem para muita gente boa e moral.

Algo muito fácil para mim, que tive a relativa sorte de crescer e viver em países mais ou menos plurais política e religiosamente.

E, ao nível pessoal, também constato que muito boa gente aguenta-se psicologicamente perante os por vezes pesados desafios da vida por sentir que existe esse apoio que a sua religião presta.

Bom para eles e elas.

Onde a coisa começa a andar mal é quando este ou aquele crente, esta ou aquela religião, começa a sentir que a sua verdade é a única verdade universal, que se aplica a mim, e que quem não está com ela está contra ela.

Essa intolerância, que se expressa das variadíssimas formas, é perigosa e fomentadora de problemas. Muitos. Há quem diga que hoje em dia se vive mais uma confrontação entre essas visões do homem e do divino. Nalgumas,aparentemente ínfimas franjas destas audiências, resolve-se as disputas à bomba e em espectáculos de assassínios em massa, o palco os media cada vez mais interligados e globalizados.

Eu não escondo as minhas convicções, mas também não faço delas propaganda. Não está no centro do meu universo. A maior parte do tempo, estou calado.

E por isso não me surpreende nada quando, ocasionalmente, alguém que eu conheça relativamente bem me aborde sobre assuntos de religião, assunto que, de facto, estudei, ao contrário de muito boa gente, que fala do que não sabe.

Mas no mundo da internet, onde se trocam milhares de mensagens por ano, existe uma forma de propagação da fé que me tem vindo a ser encaminhada, por pessoas que até conheço bem, e que de certa forma me surpreende.

Com a recessão económica, constato que a sua frequência aumentou.

São aquelas longas mensagens, frequentemente apresentações de slides com música “celestial” a acompanhar, em que o autor (não necessariamente o emissor da mensagem, que apenas se associa pelo gesto de a re-enviar) me exorta a ler a palavra do seu deus, a fazer isto ou aquilo, com promessas de vida eterna feliz e a garantia de uma ida súbita para o inferno se eu não re-enviar a mesma dentro de x minutos para toda a gente que está registada no meu (parco) ficheiro de endereços de correio electrónico ou, ainda pior, se eu simplesmente apagar a mensagem.

Ora, por definição, eu sou quase absolutamente imune à evangelização religiosa exógena, venha ela de quem vier e sob que forma vier. E nos meus 50.3 anos de vida, já praticamente vi, li e ouvi tudo, desde a vigorosa proliferação das religiões mais estabelecidas até ao fenómeno da tele-evangelização inovadora, inventada nos Estados Unidos quando eu lá vivia, e que se foi espalhando pelo mundo, incluindo a sua explosão em Portugal nos anos 90 do século passado e em Moçambique a seguir.

Consistente com a minha abordagem ao assunto, não reajo. Não é algo que me concerne particularmente. Nalguns casos leio o que me é enviado, noutros não, e tudo apago. Discreta e respeitosamente.

Ao mesmo tempo, não entendo o fenómeno, que vem acompanhado de outros fenómenos menores de superstição organizada, astrologia, profecias do fim do mundo, etc. Pois não é assim que eu penso e se calhar apenas indica que quem me conhece, não conhece tão bem como possa parecer ao início.

Mas enviar algo deste tipo, que à partida presumo ser um assunto sério para quem envia, com a ligeireza com que por vezes assisto, é algo um pouco desconcertante. Pois, algo paradoxalmente, eu trato este assunto com pouca ligeireza.

Mais: será mesmo possível, hoje em dia, converter ou de alguma forma influenciar alguém, em termos religiosos, enviando uma carrada de mensagens com conteúdos religiosos, profecias, ameaças de inferno, promessas do cumprimento de desejos, etc?

Não creio.

Mas se o exmo. Leitor acredita nestas coisas, peço que re-envie nos próximos dez minutos esta crónica a quinze dos seus melhores amigos senão esteja certo de que as duas piores coisas que lhe possam acontecer na vida (escolha agora) irão acontecer nas próximas 24 horas, sem apelo nem agravo.


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