Quando em 1990 vim viver temporariamente para Portugal (mais uma vez), mas desta vez dos Estados Unidos, em termos comunicacionais Portugal ainda estava, comparativamente falando, na idade média.
Já nessa altura, em Cambridge, uma cidadezinha vizinha de Boston, eu tinha em casa televisão por cabo com acesso a uns cem canais, incluindo a CNN. A internet ainda era ficção científica para a quase totalidade da humanidade e o melhor que havia para enviar informações era um aparelho de fax, que eu de facto tinha em casa desde 1988 (pago a peso de ouro) para enviar semanalmente as crónicas que eu escrevia para um pequeno jornal local, que preparava num computador Apple e imprimia numa impressora laser (dantes, escrevia numa máquina de dactilografar e mandava os textos pelos correios).
Em Portugal nessa altura quase ninguém tinha aparelhos de fax em casa, quando muito surripiavam uns aos amigos às escondidas, no emprego. Quase ninguém tinha um computador em casa e mesmo no emprego ainda era uma coisa muito rara. Impressoras laser, nem pensar. Não havia televisão por cabo e as notícias eram aquilo que a RTP decidia que eram notícias e o que os jornais publicavam, com imagens a preto e branco, consoante o partido ou a tendência ideológica dos seus patocinadores.
Meia dúzia de privilegiados (eu incluído, num decrépito apartamento na baixa de Lisboa) possuiam um gigantesco prato no telhado, de onde, com considerável dificuldade técnica, sintonizavam meia dúzia de canais por satélite, entre as quais a CNN. Apesar das minhas explicações, as minhas vizinhas octagenárias com bigode receavam ser afectadas pelos raios de micro-ondas emitidos pela antena e discutiam se eu obtivera uma autorização do governo para meter aquilo ali.
Na televisão portuguesa, o José Rodrigues dos Santos iniciava com alguma dificuldade a sua carreira como jornalista televisivo, depois de uns tempos como correspondente da BBC e fazendo uns biscates para a RTP e a CNN.
Na altura, em média, a população portuguesa via a RTP, ouvia a Rádio Renascença e lia o Diário de Notícias. Tudo num vago manto de cinzentismo em que se destacavam a erudição arrogante do Expresso e o espalhafato gozão do Independente. Aníbal Cavaco Silva há poucos anos surgira do nada e em breve terminava o seu segundo mandato como primeiro ministro e com uma maioria absoluta.
Em Portugal nessa altura choviam diariamente milhões de contos (na altura eram contos) da CEE e uns dias antes da segunda eleição parlamentar no fim de 1991, Portugal inaugurava aquilo que eu chamaria – citando a legendária frase de Alan Greenspan, então chairman do Federal Reserve Board norte-americano – a sua fase inenarrável de irrational exuberance – preparando a fase seguinte do desastre socialista e da longa estagnação da economia portuguesa. Pouco depois houve o orgasmo celebratório nacional prematuro chamado Expo 98, em que os portugueses decidiram que finalmente valia a pena mesmo ser-se português.
As ratazanas do regime refastelavam-se e enchiam as barrigas e as contas offshore.
E logo a seguir começou a lenta, penosa, dolorosa travessia do deserto moral, social, fiscal e económico. Na verdade, na altura ninguém deu por nada, pois estava-se a entrar na Era dourada do Euro, das taxas baixas, das casas compradas com um telefonema ao amigo no banco, dos carros bons ao preço da uva mijona, da gasolina a metade do preço da Coca-Cola . Inflamado com o sucesso da nova auto-estrada A1 (wow, Lisboa ao Porto em duas horas em vez de seis horas num caminho de cabras) e com a novidade do acesso aos mercados de capitais estrangeiros, o governo decidira que a coisa decente a fazer a seguir era construir mais auto-estradas para tudo quanto é de sítio, de Bragança para Beja, de Viseu para Aveiro. E mais um aeroporto. E mais pontes, e mais, e mais.
Tudo concessionado, tudo em parcerias público-privadas, tudo em regime de gasta-agora-paga-depois.
Tudo e todos, governos, pessoas, empresas, recorrendo alegremente ao crédito, desta vez o estrangeiro. Foi o novo Brasil, a nova África. Passou a ser normal o até o braquicéfalo do vizinho atrasado mental brogesso que não pagava o condomínio ir fazer férias na neve em Março e apanhar banhos em Cuba em Maio. Passou a ser normal falar-se em projectos de milhões como se fosse a coisa mais natural do mundo. A propaganda socialista, alternada com a complacência da oposição, declamava a chegada da nova era de prosperidade e justiça social. Bairros da lata inteiros eram demolidos e nas televisões via-se a senhora cigana ressabiada a receber as chaves para o seu apartamento novinho em folha, pago pela generosa partilha da prosperidade apercebida dos contribuintes. Sócrates até inventou mais tarde regras para dar aos pobres dinheiro dos nossos impostos só por o serem.
Pois afinal nós éramos ricos. Não?
Foi uma festa.
Só que ninguém estava a pagar a conta.
Em Moçambique, a Renamo e o que restava da Frelimo ainda se tentavam decapitar, apesar dos ventos de 1989 soprarem fortemente. Num subúrbio de Roma, em breve, sem ninguém reparar, a liderança da Frelimo, muito mais bem preparada e conectada, negociaria a sua vitória.
A modernidade comunicacional portuguesa começou na madrugada de 16 de Janeiro de 1991, quando, a propósito da decisão do ditador iraquiano Saddam Hussein de invadir a obscura e medieval ex-colónia do Kuwait uns meses antes, os Estados Unidos decidem ripostar com uma formidável “Coligação dos Justos” e um ataque directo ao Iraque, antes que este invadisse a Arábia Saudita e nos tivesse a todos bem agarrados pelos petrolíferos tomates.
Os locais comentaristas da treta, futuros quadros dos blocos da esquerda, acusavam isto de ser uma nova manifestação do neo-imperialismo americano. Estúpidos, declamavam sem saber: “nós portugueses não precisamos do petróleo para ter democracia e prosperidade”. Nessa noite a RTP interrompe a sua emissão regular e começa a passar dez horas seguidas de imagens do bombardeamento aéreo dos Estados Unidos a Bagdad feita pela CNN.
Para a CNN, do meu colega de faculdade Ted Turner, a cobertura da guerra do Iraque foi a coroação da sua estratégia de globalização. Fundada em meados de 1980 a partir de uma obscura e medíocre “super-estação” meio pirosa do estado norte-americano da Geórgia, a WTBS, que era do pai e que fora a primeira estação a emitir por satélite para todos os Estados Unidos, através das crescentes redes de satélites e de cabo que proliferavam pelos EUA, a CNN inaugurava a era das notícias internacionais por televisão, 24 horas por dia.
Em Portugal, cujos hábitos noticiosos televisivos eram mais do que questionáveis, duma formalidade doentia e de conteúdos quase estritamente governamentalizados, geridos por profissionais feitos a pulso (ainda não ocorrera a explosão de cursos de “comunicação social”) o súbito surgimento do novo formato foi um choque.
Claramente, as pessoas reagiram ao imediatismo fulgurante das bombas a caírem no terreno do Senhor Saddam ao vivo nas suas salas de visita e colavam-se horas a fio a tentar perceber o que é que o senhor da CNN dizia, no que o jovem jornalista José Rodrigues dos Santos assistia, traduzindo isto e aquilo.
Mas rapidamente, e face ao feed constante das imagens e das informações vindas de todas as capitais relevantes do mundo, tornou-se necessário haver algum debate e contextualização feitos em casa e em língua portuguesa. E é aí que surge do nada um novo herói da televisão portuguesa: Nuno Rogeiro.
Em 1991, Nuno Rogeiro era, por falta de melhor definição, uma espécie de equivalente televisivo da máquina de pesquisa Google. De fato e gravata e com uma trunfa característica, o então professor, cronista e comentador (não haviam então sites, nem blogues nem redes sociais nem jornais online) surgia sempre oportunamente nas câmaras da RTP (a SIC e a TVI ainda estavam na fase de planeamento e não havia Zon TV Cabo nem telemóveis populares nem nada disso) e cobria a ignorância mentacapta de quase todos os jornalistas a soldo da estação, discorrendo longa e livremente sobre tudo: onde ficava o Iraque, quem era Saddam, o que dizia Bush pai, porque é que os americanos atacavam pelo Sul e não pelo Norte, quantos aviões estavam envolvidos nos raids aéreos, o que é que a Turquia iria fazer. Tornou-se inesquecível nessa altura quando, a propósito de ter dado a Saddam para atirar uns mísseis de médio alcance chamados Scud para dentro do território de Israel, faz na televisão descrições detalhadas do que eram os Scud, para que serviam os Scud, quais eram as suas atribuições técnicas e alcance, que tipo de carga podiam levar.
Isto hoje é tudo pré-história. Rogeiro evoluiu, cortou o cabelo e tem um programa de entrevistas muito interessante na SIC e escreve umas coisas na Sábado. Toda gente em Portugal hoje tem telefones móveis, televisão por cabo em casa, computadores, internet e canais de notícias nacionais e estrangeiros à distância de um toque no aparelhinho de controlo remoto. José Rodrigues dos Santos consagrou-se e continua a ler as notícias enquanto vende livros sobre mega-conspirações. Como Santana Lopes, a CNN ainda anda por aí.
Nós temos o Maschamba.
Desses tempos, só fica a asfixia da vasta dívida acumulada, da quase falência do governo, das decisões que vão ter que ser tomadas e agora o poder executivo nas mãos periclitantes do governante mais mediático-dependente de toda a história de Portugal.
Para acompanhar os próximos episódios e o desfecho desta saga, agora podemos, a partir do sofá em casa e no computador, ver tudo a cores e ao vivo, e ler as opiniões e aferir os factos.
Só nos falta fazer isso com uma boa dose de desassombro, e de bom senso. Para o futuro que se avizinha, estes serão atributos para os quais não há tecnologias e nem riqueza que valham.
Gostava de explicar aos exmos leitores que geralmente não gosto de ouvir música no rádio. Tirando as estações de música clássica, desde sempre. Tolero o ocasional devaneio musical mas muito pouco, O que gosto de ouvir na rádio é gente a falar: jornalistas, entrevistados, comentadores, escritores, pessoas que telefonam, debates, etc.
Nos Estados Unidos existe um formato de estação de rádio para isto: chama-se talk radio. Dão notícias, entrevistas, programas em que as pessoas telefonam, programa da manhã com notícias e anedotas para quem está a ir no carro para o emprego, a mesma coisa quando estão a regressar a casa, programas para depois do jantar, conversas a meio da noite. Hoje pouca gente sabe que o Sr. Larry King, que mundialmente é conhecido por fazer entrevistas de meia hora ou uma hora na CNN, tornou-se conhecido nos EUA porque durante anos e anos e anos ele fazia todas as noites da semana, com repetição do melhor programa no sábado à noite, numa cadeia de estações chamada Mutual Broadcasting Network, da meia noite e seis minutos até às cinco da manhã um programa ao vivo. Eram magníficos e muito, muito maus, para o meu sono. Só anos mais tarde é que ele passou para a televisão com a CNN.
Em Portugal, só a estação TSF se aproxima vagamente desse formato (e por isso a escuto mais que as outras todas juntas) e mesmo assim, tirando raras excepções, não é uma estação de talk radio. Nem sequer de notícias é: quando houve um tremor de terra de 6.0 na escala Richter há umas semanas no continente português, eles continuaram a transmitir música gravada como se nada se tivesse passado até ao cimo da hora, quase meia hora depois do safanão. E quando dão notícias, repetem a mesma lenga-lenga ad aeternum, que deve ser para os que tinham os ouvidos entupidos há cinco minutos atrás. As entrevistas são pouquíssimas para o que podiam fazer e demasiado curtas.
Mas o que me irrita mais é que passam música. E com que critérios não sei. Tanto se lhes dá para uma balada dum roqueiro qualquer, como uma salsada moderna que eu não conheço e que, sinceramente, pagaria para não ouvir. Quando começa aquela mistórdia musical sem eira nem beira, tenho o problema adicional que é que o meu velho e delapidado carro tem um rádio que não muda de estação facilmente. Tenho que andar aos murros nos teclados até me aparecer outra estação, e em geral as escolhas são de fugir. Outro dia apanhei umas beatas a rezar o terço vez após vez na Rádio Renascença.
O que me surpreende (e já volto à música). Qualquer vertebrado pensante já se deve ter apercebido do que aconteceu ao mundo nos últimos dez anos. Toda a gente praticamente tem acesso quase gratuito exactamente, precisamente, aos tipos de música que gosta de ouvir. Poder gravá-la via computador ou por uma variedade de meios, e estar uma vida a ouvir Amália, o Frank, o Puccini ou lá o que quiserem é uma banalidade da vida actual. As audiências fragmentaram-se e portanto quem continua a apostar em programação generalista está a dar – na minha humilde opinião – tiros para o ar. A vantagem de uma talk radio é que é barata, tragável se bem gerida e eu acho que muita gente havia de gostar de ouvir programas interessantes.
E note-se – surpresa – é em português. Feita por portugueses. Como este blogue.
Claro que há uma coisa que em Portugal não funcionaria – e eu suspeito que é por isso que verdadeiramente não há talk radio em Portugal. É que para se ter bom talk radio tem que haver lá gente com cor e com cabeça. E em Portugal regra geral quem tem cor não tem cabeça, e quem tem cabeça não tem cor (nenhuma). É qualquer coisa étnico-cultural daqui. E em Portugal quase todos vivem para pretender que têm cabeça, mesmo que não tenham. Por exemplo, nunca vi país na terra com mais carros pretos, cinzentos escuros e azuis escuros como este. Se se for a um centro comercial num domingo numa tarde de inverno, presume-se que todos vieram de um funeral, quer pela cor sorumbática da roupa, quer pela atitude sério-sorumbática das multidões. O português não consegue rir para quem não conhece à sua volta. Deve ter medo que lhe levem os dentes.
Pior ainda, nenhum meio de comunicação social em Portugal regra geral aposta em “personalidades” – a não ser que sejam cómicos gays (na base de que é impossível serem levados a sério) pois que essas são para matar na primeira oportunidade.
A verdade é que, para se ser personalidade, um requisito básico é que tem que se a ter. E tê-la, neste país, significa que, mais cedo ou mais tarde, tem que se dizer esta ou aquela verdadinha que vai infalivelmente seriously piss off o sôr ministro ou o rei da batata frita, que telefona ao patrão da estação a insultar o gajo ou então, como agora está na moda, telefona a uma qualquer holding chamada Going On, que compra a estação (como faz o patego estúpido do anúncio do Euromilhões) e mete lá um mentecapto a fazer relatos de touradas. Como os portugueses individualmente são seres humanos sublimes mas no agregado são um fenómeno keynesiano de estupidez colectiva induzida exponencial, comem, comem e calam.
Aliás, regra geral o consumidor e o cidadão aqui quase sempre come e cala. Com tudo. Os professores são incompetentes? come e cala. O supermercado vende batatas que apodrecem em dois dias? nimguém vai andar de carro 20 minutos em bichas até ao supermercado fazer o gerente comer as batatas que vendeu. O médico não parece saber o que faz? paga-se e não se bufa. O défice este ano vai estoirar? para o ano há-de ser melhor, alguém que resolva. O vizinho do lado não paga as cotas do condomínio há três anos e comprou um carro novo há dois meses? não esquecer de fazer sempre aquele estranho (e unicamente português) cumprimento simpático mudo à saída no corredor a dizer “olá!” mas que na realidade significa “ó meu grandessíssimo filho da puta como estás tu?”
Por tudo isso, frequentemente sinto que, como os meus concidadãos, o colectivo português vive um quotidiano de entrelinhas acinzentadas, sempre resguardado, sempre à espera da próxima catanada, da próxima sacanice, ou da próxima oportunidade de obter algo em troca de nada, sendo a base da felicidade quando não se leva com ela mais vezes do que é normal, ou quando se constata que os outros (e os outros são todos os outros menos os “amigos”) estão pior que nós. Sendo que o normal é levar com as desgraças em cima. Aí, tem-se pena.
Ah, adoro estas generalizações. É tudo mentira, não é? ok.
E nesta questão da desgraça, o país tornou-se num esquema de pirâmide: a sujeira estes dias democratizou-se, vai do mais baixo ao mais alto nível da sociedade.
Voltando ao rádio, o tema que gostava de fechar aqui. De há uns meses para cá, nas vezes quando me deu para escutar a tal de TSF, comecei a reparar em três coisas.
A primeira, foi que começaram a passar música portuguesa com uma frequência suspeita. Ao princípio pensei que se tinham enganado, que tinham posto a senhora da limpeza a tomar conta da estação, ou que tinham ficado estúpidos e não tinham reparado no ecletismo das suas audiências. Em Alcoentre toda a gente sabe que o que vende é música pimba, fados e a as canções da Ágata a chorar o milésimo desgosto de amor sobre o homem da vida dela que (para variar) se pirou pela vigésima vez com a empregada ucraniana. Em Cascais e Lisboa já não é bem assim. Ainda por cima, as músicas que tocam, que são medíocres quase sem excepção, são de gente que não conheço, cujo estilo não gosto e cujas mensagens nada me dizem.
A segunda coisa que reparei, e que me deixou ainda mais apreensivo, foi que, mesmo quando mudava de estação, acontecia o mesmo, ou seja, levava com uma espécie de música pimba de vanguarda, e habitualmente a mesma que estava a dar na TSF.
A terceira, e de longe a mais desconcertante, foi quando me apercebi que, juntamente com a música pimba de vanguarda portuguesa, começaram a juntar-lhe a mesma gente, mas desta vez ou a tocar em ou em inglês, ou ainda mais surpreendemente, começaram a passar músicas americanas e inglesas, tocadas em inglês, mas por portugueses (!).
Não sei como explicar ao exmo leitor o que é ouvir o these boots are made for walking (a grande canção de Nancy Sinatra, sff de ver em cima) cantados vinte vezes na TSF, pela actriz Maria de Medeiros, irmã da agora deputada socialista residente em Paris e que vem a Lisboa de vez em quando receber o taco e atender as sessões do parlamento. Ou as baladas britânicas do jovem David Fonseca, simpático e esforçado mas para mim uma versão cultural do que é o milho transgénico para a alimentação.
Pois só a noite passada é que esclareci este mistério. Afinal eu não estava a alucinar. É que os poderes constituídos aqui do burgo, em 2006, passaram uma lei qualquer a obrigar as estações de rádio portuguesa a passar 25 a 40 por cento da música que vai para o ar por….. leia-se (decalco de uma peça da RTP):
A lei da Rádio determina que as rádios estão sujeitas ao cumprimento de quotas no que respeita à programação de música portuguesa, que uma portaria de Abril de 2007 fixou em 25 por cento.
O cálculo das percentagens é apurado mensalmente e tem como base o número de composições difundidas por serviço de programas no mês anterior.
A lei estabelece ainda que 60% da emissão de música nacional deve ser preenchida por música composta ou interpretada em língua portuguesa por cidadãos dos Estados membros da União Europeia.
A lei prevê o pagamento de coimas entre os 3 e os 15 mil euros para as estações locais e entre 30 e 50 mil euros nas estações nacionais.
Quando eu vivia fora de Portugal, achava alguma piada e respeitava o facto de que as estações que emitiam para as comunidades portuguesas, quase só passavam fados, música pimba e aqueles clássicos do tempo da Maria Cachucha. Pois era aquilo ou o vasto mar estrangeiro que nos rodeava. Agora, que se tenha importado o costume e que se tenha dele feito lei em Portugal é que foi novidade. Ou seja, em vez dos artistas daqui competirem honestamente pelo privilégio de me tentarem impingir a sua arte, o governo da república socialista portuguesa espeta-nos como uma espécie de IVA cultural em cima e somos obrigados a comer o que nos servem.
Mas como gente como eu não aguenta aquilo, e usando as regras impostas, inventou a música estrangeira, cantada em língua inglesa, por portugueses.
Já não bastava a porcaria do acordo ortográfico e os subsídios aos famosos filmes nacionais que rigorosamente ninguém vê. Esta liberdade socratiana está-se a revelar um verdadeiro assombro cultural.
Felizmente, há a minha teimosia em fazer o que me apetece e a tecnologia. Imitei o que qualquer teenager português hoje faz sem sequer pensar. Por cinco euros e 99 cêntimos, recentemente comprei uma espécie duma cassete com um fiozinho, que liga o meu velho rádio a um aparelhinho que cá se chama um MP3 (mas que na realidade é um MP4), onde gravei na internet não sei quantos gigabytes de: Sinatra, Nat King Cole, Chico Buarque, Óscar Peterson, Walter Wonderley, The Beatles, Mozart, etc etc etc. Até lá tenho o Poker Face da Lady Gágá.
E agora, quando acabam as notícias da TSF no meu carro, a programação passou a ser a minha. Em casa, pela internet e o computador, oiço a LM Radio a partir de Maputo.
Isto antes que eu comece a ouvir a Maria de Medeiros a arranhar o My Way do Frank numa estação portuguesa.
por ABM (Alcoentre, Sábado, 6 de Fevereiro de 2010)
A confirmação chegou num banal e-mail de um primo nos Açores à uma hora e quarenta minutos da madrugada do passado dia 14 de Janeiro de 2010 e concluiu um processo que eu começara muitos anos antes: a confirmação absoluta de quem era Constância, a jovem e elegante senhora cuja imagem aparece no topo deste texto, e que foi tirada em Agosto de 1892.
Há cerca de 118 anos, portanto.
De entre as informações sobre a genealogia familiar que obtive há quase trinta e cinco anos dos meus avós açorianos (bem, aquilo foi mais “extrair” que “obter”) e que visitei algumas vezes quando ainda vivia em Moçambique, há já algum tempo atrás referi aos exmos leitores uns detalhes curiosos sobre um tal Manuel Jacinto Lopes, que é meu tio-bisavô. Como referi na altura, do que descobri, o que me surpreendeu foi a mulher dele.
Mas confesso que, das pesquisas familiares que efectuei, a seguir a descobrir que os meus avós maternos se haviam conhecido e casado nos Estados Unidos da América nos anos 20 do século passado, onde estiveram emigrados alguns anos antes de regressarem a São Miguel, a descoberta mais fascinante de todas foi no que concerne a enigmática Constância.
Por três razões.
A primeira, foi que a minha avó paterna me ofereceu a fotografia de (então) uma tal “tia” Constância – a que está lá em cima – juntamente com algumas outras velhas fotos de família.
A segunda, foi que a minha mãe chegou a conhecer a senhora quando era menina nos anos 30. Lembrava-se dela perfeitamente. De tudo, desde a cor dos olhos, o sotaque, o sentido de humor, a cultura, etc. E que nunca se casara. Nessa altura Constância já era velhinha e morreria poucos anos depois.
A terceira foi que, confirmado pela minha mãe, a minha avó e agora pela minha tia paterna, Constância era mulata e falava com sotaque brasileiro.
Ora, para quem supunha ter sólidas raízes açorianas até aos primeiros colonos (estes, colonos mesmo) das ilhas açorianas no século XVI, e antes destes até obscura fidalguia do reino de Leão e Castela no Século XI, antes de Portugal existir como nação independente, a notícia de haver a possibilidade de uma raiz africana negra na família BM foi uma surpresa – uma grande surpresa. Uma total surpresa. Pois à partida não ocorria. Nada o aparentava e não havia registos que tal indicassem.
A primeira vez que ouvi dizer que Constância era mulata foi por puro acaso. Veio da boca de uma velha prima da minha avó paterna, que por acaso estava de visita a sua casa num sábado em fins de Agosto de 1975. Tinha eu 15 anos de idade e estava de férias no delapidado casarão de verão dos meus avós em Vila Franca do Campo, que fica perto do porto situado em frente ao Ilhéu da Vila. Esse casarão fora dos meus bisavós paternos, pais da mãe do pai BM.
Nessa tarde, lembrei-me de mostrar-lhe as fotografias que a minha avó tinha acabado de me dar, inocentemente, para ver se ela, sendo kokuana e portanto desses tempos, conhecia as pessoas ali retratadas. Quando eventualmente lhe exibi a fotografia da Constância, ela imediatamente disse que a conhecera muito bem, sim, que fora uma senhora muito culta, muito prendada, muito simpática, muito engraçada. E, mais baixinho, inclinando-se levemente na minha direcção, disse, “e, sabes, ela era mulata”. Quando ela me faz esta revelação, fiquei literalmente de boca aberta. Não era possível. Como era possível?! Uma mulata nos Açores naquela altura?
Olhei novamente para a fotografia. Olhei de seguida para os olhos azuis claros e cristalinos que brilhavam na face fina, rosada e elegante da velha prima Ernestina, agora mais sorridente pois via nos meus olhos arregalados a surpresa e a curiosidade suscitada pela sua revelação.
Confesso que não sou assim grande perito em termos de analisar os traços finos no que concerne a classificação das raças. Já em Moçambique, tendia a distinguir quatro ou cinco raças e fazia muito poucas distinções a partir daí. E, neste caso, a senhora na fotografia não me parecia nada de especial. Parecia-me, naquela pose rígida e distante, ser branca. Quero dizer, a foto está um pouco para o escuro e velha.
Mas a prima da minha avó foi categórica; “olha bem para o cabelo dela. O cabelo era carapinha”. E inclinou-se, segredando-me no ouvido novamente, baixinho, como que para ninguém ouvir, apesar de não estar rigorosamente ninguém na enorme sala de música naquele terceiro andar do poeirento palacete dos meus bisavós: “como os pretos.” (ela dizia a palavra no sotaque de São Miguel: “prâtos”).
Dei um salto e fui ter com a minha avó na cozinha, que ficava situada um andar abaixo e mais uma corrida por um longo corredor para as traseiras da casa. “Ò avó, a prima Ernestina (ah estes nomes antigos) diz que a tia Constância era mulata!”. A minha avó, que era enorme e tinha o porte de um lutador de sumo, e que era muito ciosa do seu estatuto de senhora na então sociedade açoriana, virou-se lentamente e fitou-me, silenciosa durante uns segundos. E após uma pausa, disse-me apenas: “sim, é verdade. Mas – ò rapazinho – aqui não se fala disso”.
Mas…então…ahh…mas…se a Constância era “tia” (minha não era) e era mulata, então isso significava que temos “prâtos” na família?! Então, ela era tia de quem? A minha avó deu-me uma resposta meio esfarrapada e fiquei na mesma. Pois nos Açores “não se falava disso”.
Pelos vistos estas questões de raça nos Açores do século XIX e XX eram assunto que não se discutia – mesmo. Não sei bem como era possível, dado que raça não é coisa que se esconde debaixo da cama, mas foi ao que assisti.
A resposta em maior detalhe, levei trinta e três anos para confirmar. E aponta para a existência de uma raiz africana na genealogia dos BM.
Ei-la.
A história é verdadeiramente fascinante.
De seu nome completo Constância Sinclética Botelho de Mendonça, ela era irmã do meu bisavô paterno, Francisco Botelho de Mendonça (pai da mãe do meu pai BM – a minha avó Clotilde) – que portanto também era mulato.
Recuemos uma geração. O pai de Constância – um meu trisavô – foi um açoriano que emigrou para o Brasil nas primeiras décadas do século XIX. Terá feito bom dinheiro no negócio de peles em Pernambuco, assim reza a lenda familiar.
Em meados do século, ele casou-se com uma senhora mulata, filha de uma escrava africana e de um branco, cujas identidades se desconhecem, em Pernambuco. Ali tiveram duas filhas, uma tal Gonegundes (de quem perdi o rasto) e Constância Sinclética.
Poucos anos mais tarde, subitamente, o meu trisavô açoriano contraiu tifo, doença que na altura invariavelmente era fatal. Doente, resolveu regressar aos Açores com a sua jovem família. Vendeu tudo o que tinha e fez-se aos Açores de barco, levando com ele baús cheios de haveres, prata e dinheiro. Quando embarcaram, a mulher dele (a minha trisavó) já estava grávida de um terceiro filho – o meu bisavô.
Durante a viagem, o meu trisavô morreu de tifo. Pelo que a Ponta Delgada chegaram a minha trisavó brasileira, já viúva, com duas filhas, e ainda grávida. Já em terra, ela deu à luz um bebé rapaz – o meu bisavô, a quem deu o nome de Francisco Botelho de Mendonça. Quando se confirmou que era um rapaz, e de acordo com a lei naquele tempo, parte dos bens que vieram do Brasil foram constituídos em herança do bebé e os baús contendo esses bens foram selados até que o jovem atingisse os 21 anos.
Ainda hoje, dado pela mãe BM, eu tenho um pequeno paliteiro de prata, que fazia parte da herança de Francisco, que viera do Brasil nessa viagem de barco e que esperou selada nos baús até ele ter idade para dela tomar posse.
Sendo jovem, a mãe de Sinclética, uma viúva com alguns bens, casou-se uma segunda vez em São Miguel com um membro da família Félix Machado e teve mais quatro filhos. Assim, os descendentes da família Félix Machado partilham este património genético com os BM.
Quando Francisco, que, como Constância e Gonugundes, já era filho de uma mulata com um branco, portanto um mulato “diluído” (não sei se há nomes especiais para estas coisas) atingiu a maioridade, casou com uma senhora cuja nome era, depois de casarem – e lá vamos nós outra vez com os nomes – a encantadora e culta Ludovina Amélia Lopes Botelho de Mendonça. Os apelidos já vieram depois do casamento.
Constância era, portanto, cunhada de Ludovina (irmã do Sr. Visconde da Palmeira) e viveu nos Açores, solteira, até à sua morte. Com o seu humor e distinto sotaque brasileiro.
Francisco e Ludovina tiveram duas filhas, Margarida e Clotilde, esta última a mãe do pai BM.
O meu pai.
E que viveram toda a vida no enorme e poeirento palacete em Vila Franca do Campo onde eu, num dia de verão em Agosto de 1975, me sentei na sala de música com a prima Ernestina e lhe mostrei uma velha foto.
por ABM (Alcoentre, sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2010)
Foto tirada há momentos de duas imagens penduradas no centro de operações do Maschamba da Região Não Autónoma do Ribatejo.
Winston Churchill é para mim uma figura genial e tragicomédica, incontornável para o século XX e uma figura que viveu como poucos a sua era. A imagem de Churchill achei interessante porque o apanha (na Florida, princípios dos anos 60 no iate de um amigo ricaço americano) de chapéu à cowboy e a ler uma cópia da revista Time. Passou por Lourenço Marques aquando da guerra anglo-boer em 1900 e no fim da vida passava férias numa Ilha da Madeira avant AJJ.
A imagem de Quental trouxe-a de Ponta Delgada (comprada numa loja de velharias) uma vez que fui lá há alguns vinte anos, para um “encontro de escritores açorianos” – encontro em que eu era o único presente que para variar não era nem açoriano nem escritor. Mas como o meu avô MIM era um poeta e figura castiça local, e era bom rapaz e filho assumido de açorianos, fui aceite como membro incondicional da confraria com um vago estatuto de “observador”.
Para além das suas crises de neurastenia (agora diz-se “bipolar”) e de alguns exotismos e namoros socialistas (os de então) Antero de Quental foi alguém que, de quase lado nenhum, surgiu nas letras portuguesas nos anos 60 do século XIX e foi dos primeiros que, sem aprumos, diagnosticou de forma inequívoca aquilo que até hoje considero o discurso mais verdadeiro e perturbador sobre a cultura e civilização portuguesas – as herdadas. Isto numa altura em que, como posteriormente se veio a repetir, o sistema político do seu tempo apostava numa entente cordiale entre oponentes políticos que se revesavam na disposição do espólio nacional. Chamaram-lhe, na propaganda daqueles tempos, “regeneração”. Tirando o Fontes (e mesmo assim), aquilo foi mais uma pulhice feita em Lisboa.
Mas ao menos naquele tempo o António José da Vila (Marquês de Ávila) assinou a portaria de interdição publicamente e fechou as conferências, não é bem o mesmo que se faz agora, que é mandar um recado à Prisa por interposta pessoa, dizer à PT para comprar um grupo de comunicação e ainda subterraneamente despachar as vozes que incomodam.
Houve uma altura em que eu rotineiramente oferecia às pessoas com quem me dava, cópias do texto da sua conferência (do Casino) intitulada Causas da Decadência dos Povos da Península Ibérica. Que li pela primeira vez em 1980 nos EUA numa cadeira na Universidade Brown, dada pelo Onésimo Teotónio Almeida. Tinha a dupla vantagem de dizer o que havia a dizer em poucas páginas e de custar só cinco euros. Cento e cinquenta anos depois de escrito, como muito do que disseram a seguir os seus amigos Eça e o Oliveira Martins (e outros), mantém uma actualidade perturbadora. José Bruno Carreiro e a sua (de Antero) namorada (post mortem) Ana Maria Almeida Martins escreveram ampla e brilhantemente sobre ele.
Dessa viagem, tenho uma fotografia exorcizante de eu a acenar em cima do banco do jardim em Ponta Delgada onde em Setembro de 1891 o Antero deu (sem pontaria) o tiro que acabou por o matar.
Bem, isto tudo a propósito da interessante citação feita pelo JPT de um comentário do Ruy Cinnati sobre uma estátua que ele tinha em casa de São João Baptista com um tomahawk na mão.
Aprendi com o pai BM a gostar do Frank Sinatra, e foi uma lição que gostei de aprender.
Sobre ele durante anos só conhecia um fantástico repertório, uma voz ímpar e das melhores dicções de inglês que já escutei (o exmo leitor tente entender o que os Deep Purple dizem em Smoke on the Water, que tive que escutar ods meus irmãos no princípio dos anos 70).
Gostar de Sinatra para a minha geração (a nascida em 1960) já era algo estranho, que eu complementava com uma apreciação (única na casa dos BM) por música clássica, jazz e outros tipos de música que já não é chique mencionar-se como Paul Mauriat e Waldo de los Rios.
Mas Sinatra resiste bem aos tempos e tem os seus adeptos. Um dos maiores prazres da minha rotina nos meus tempos de Maputo era ir jantar ao Restaurante da Costa do Sol, com cujo dono, o grande Manuel Petrakakis, partilho a paixão sinatriana, e quando me sentava, mão invisível logo removia aquela música estilo zurrapa internacional que se toca enquanto está lá, e põe um longo CD com as músicas favoritas do Frank.
Que mais se pode pedir neste mundo, senão o folclore africano em frente ao restaurante numa tarde quente, um bom prato de ameijoas com uma Coca-Cola bem gelada, enquanto se ouve umas canções pelo Frank?
Hoje faço anos e a patroa, que está de viagem, mandou-me num e-mail o que está acima, a mais bem conseguida balada de Sinatra (andamos em contenção de custos). I’ve got you under my skin é um dos clássicos mais bem conseguidos pelo imortal Cole Porter, com arranjo pelo insuperável Nelson Riddle.
E a única canção cuja letra sei cantar desde o princípio ao fim.
E com ela brindo a todos, leitores, amores, amigos, inimigos (só hoje).
O antigo jogador de futebol Eusébio completa hoje 68 anos de idade.
Aproveito assim para abordar brevemente esta figura do desporto português e moçambicano.
Ao contrário do clã BM, eu nunca liguei quase nada ao futebol, que em Moçambique antes da independência era uma total obsessão para muita gente. Fui a muitos jogos de futebol em Lourenço Marques, mas mais como castigo e para não causar distúrbios em casa aos fins de semana.
Olhando retrospectivamente, o futebol estabelecia uma das diferenças visíveis entre a África portuguesa e as colónias e ex-colónias inglesas, que rodeavam Moçambique, onde os desportos seguiam padrões raciais e culturais muito específicos. Na África do Sul, o futebol era, e ainda é, regra geral, um desporto predominantemente de e para os negros, enquanto que os brancos se cingiam quase exclusivamente ao râguebi e ao cricket e desprezavam o futebol como “desporto de preto”. Presumo que pouca gente então se apercebeu que o piropo também se dirigia aos portugueses, que aos olhos de muitos dos boers e dos sul-africanos brancos, eram uma raça “cafrealizada” – os kaffirs from the sea, como diziam alguns (touché).
Em Moçambique aquilo era mais um pagode, tudo ao molho e fé em Deus. Toda a gente ia e toda a gente vibrava com o futebol, independentemente das questões raciais, económicas e sociais que os analistas de hoje possam congeminar. Aos fins de semana muita gente ia ver o futebol e durante a semana falava-se do que tinha acontecido no fim de semana anterior. Os jogos eram transmitidos pelo rádio clube em simultâneo em português e em ronga. Nesse aspecto, fazia parte do ídílio africano de que falarei mais tarde e que pelos vistos se tornou desporto das classes literadas de hoje desafiar.
Se no esquema geral das coisas essa paixão partilhada entre brancos e negros na África portuguesa valia o que valia, ela existia e pelo menos baralhava um pouco as cartas em termos da dialéctica de então. Os portugueses do regime usavam-na para apontar credenciais não racistas ao mundo, enquanto que os restantes a desvalorizavam, apontando que praticamente não havia quaisquer moçambicanos negros em posições de poder e influência na nomenclatura nacional e colonial.
Mas, só para chatear – excepto no futebol.
Esta realidade foi a meu ver algo injusta em termos de verdadeiros talentos como Eusébio, Coluna e Hilário (por exemplo, mas há mais, como o Vicente, o Shéu, o Matateu, o Matine, o Abel) cujo valor deveria estar acima destas questões mas acabou, durante algum tempo, por ser questionado por temas que nada têm que ver com o facto de que eram atletas de invulgar talento.
As estrelas que Moçambique produziu foram muitas e brilharam. Outro dia ouvi um comentário que achei interessante e parcialmente correcto, não me lembro de quem, mas que dizia que a primeira “verdadeira” selecção de Moçambique foi a que Portugal levou ao Mundial de 1966 em Londres. Sem descurar os restantes jogadores, o talento moçambicano reunido naquela equipa era verdadeiramente excepcional.
E Eusébio, filho de um senhor branco e de uma senhora negra do Xipamanine (pois…) foi a estrela cadente desse conjunto de homens notáveis. Ao ponto de integrar, nas mentes do povão, com a tal de vidente Lúcia e a fadista Amália Rodrigues, uma espécie de santa trilogia do Portugal da segunda metade do salazarismo: Fátima, Fado e Futebol.
Ele era um deus em Moçambique quando eu era pequeno. Um dia, não sei bem por que razão, nos anos 60, ele visitou a casa onde os meus pais viviam na Polana. Não sei como, a palavra passou que ele estava lá, e em cinco minutos a casa estava rodeada de uma multidão a querer vê-lo e a pedir autógrafos. Diligente, eu passei o meu tempo a recolher livrinhos de autógrafos e levá-los ao Eusébio enquanto ele estava calmamente sentado a falar com o pai BM – e ia assinando os livrinhos.
Como um simbolo inescapável de Portugal, difícil foi, e tem sido, a reconciliação com o regime moçambicano, que, antes e depois da independência, nunca o viu como seu, e que nunca aceitou o portuguesismo de Eusébio – apesar de ele ser logicamente também tão moçambicano como qualquer outro, produto genuíno do Xipamanine e da Mafalala dos anos 50 do século passado.
Também não ajudou o facto de que, ao se nacionalizarem os bens imóveis em 1976, incluíram-se os investimentos que quer Coluna quer Eusébio tinham feito na sua terra. Na base da ideologia e de que não podiam abrir excepções, deixaram-nos mais pobres e mais ressabiados. Coluna, que regressou a Moçambique independente e refez lá a sua vida, ficou quase na miséria. Mas isso é história que dava panos para mangas.
Independentemente de todas essas questões, acho que a História já colocou Eusébio no seu lugar devido: o de ter ele sido um dos maiores talentos do futebol que o mundo jamais viu.
Um talento moçambicano.
E, também por isso, lhe dou hoje, e a nós também, os parabéns.
O futuro augura novas oportunidades para todos nós - lá fora
por ABM (Cascais, 16 de Janeiro de 2010)
Cartaz que encontrei à porta do elevador do centro comercial Cascais Villa, no centro da Vila de Cascais, onde fui beber um sumo de frutas nacional e um croquete e visitar a loja local da Livraria Bulhosa para procurar um livro (sobre isso ver o texto seguinte).
Nele, o Wall Street Institute tenta vender o seu produto, associando-o aos grandes atributos conhecidos do povo português dentro e fora de fronteiras e que neste momento são ferramenta essencial do progresso em curso.
Na Bulhosa disseram que não tinham o tal de livro mas que “estava no computador”, podiam mandar vir de Lisboa, espera de três dias, tinha que voltar.
Sim sim, obrigado. Mas um best seller daqueles e não tinham na loja? afinal? mas tinham o do José Rodrigues dos Santos sobre os Al-Caídos, não? “ah desse temos muitos”.
Claramente, um problema de distribuição.
Dado o preço de estracionar um carro neste centro comercial, que é entre o usuário e o escandaloso, e estando eu em poupanças, tentarei de futuro ir lá o menos possível.
Um dos pequenos suplícios do meu quotidiano é ter que ir às compras ao supermercado. Não pelo acto em si. Mas porque nestes dias, nem sei bem porquê, quem faz as compras é a Patroa. Eu apenas relego-me à função de segui-la pelos corredores e conduzir o carrinho das compras.
Ao contrário de mim, para quem a compra da comida para a casa é uma função em que misturo a máxima eficiência com uma pesquisa rápida de preços, sempre com o objectivo de me despachar dali para fora, para a Patroa as compras são um ritual digamos que mais analítico e reflexivo, mais intemporal, com outros parâmetros, como a qualidade, o que é que diz mesmo o rótulo, que novos produtos é que há, e vai por uma misteriosa lista mental do que ela quer – e não pela forma como os produtos estão dispostos na loja.
Por outras palavras, é uma valentíssima seca.
Quando eu era mufana em Lourenço Marques, não sei porquê, era o pai BM que fazia a maior parte das compras da casa. Como o filho-em-residência (os 3 irmãos estavam todos a estudar na África do Sul e as 3 irmãs, misteriosamente, não participavam no exercício) o pai BM às sextas-feiras fazia-me saltar da cama às 5 da manhã e eu fazia mais ou menos as mesmas funções de hoje, só que o pai BM era, por comparação, de uma velocidade fulminante a fazer as compras, e no Mercado Municipal na baixa (agora designado Mercado Central, por razões obscuras) claro, não havia carrinhos. O pai BM levava um daqueles cestos enormes de palha na mão e eu dois. No princípio das compras aquilo era fácil, mas lá para o fim, quando os cestos já estavam cheios de fruta, legumes, hortaliças, etc, seguir o pai BM naqueles passos rápidos no meio do que me parecia a maior confusão, exigia, para um puto com 8-11 anos de idade, folgo olímpico e a precisão de um kamikaze. Mas era rápido. E eu adorava o ritual, a algazarra e aquele fulgurante despertar da cidade.
Bem, de volta ao presente.
Como a loja que habitualmente frequento é o gigantesco supermercado Continente no Cascais Shopping, pois temos lá um cartãozinho que dá um desconto qualquer, isso significa que não é fora do habitual este processo das compras levar mais do que hora e meia.
O problema que eu tenho (deve ser trauma da infância) é que por aí à volta de 45 minutos depois de entrar, fico positivamente saturado de estar ali. Não sei se é a iluminação, a música, o ambiente, o ritual, há ali qualquer coisa na experiência que não resulta para mim.
Para me tentar distrair, o que tento sempre fazer é escapulir-me desta parte dos deveres conjugais e discretamente deslocar-me para a secção dos livros (tem lá uma, não muito má) a ver o que por ali anda. E habitualmente consigo enfiar um livro entre uns pacotes de esparguete e um saco de tomates, para ler em casa. A patroa, sublimemente generosa, aceita a paz resultante em troco desse subornozito.
Mas nem sempre corre bem. O raio do lugar é tão grande que depois tenho que recorrer à modernice ridícula de telefonar à Patroa no telefone celular, para saber onde é que ela anda. Por essa altura devia estar entre os desodorizantes e os detergentes da casa, mas não é certo, pois, como disse, ela não segue o plano da loja.
Pois este fim de semana aconteceu a mesma coisa e o meu troféu da expedição ao supermercado foi 1939, um livrinho fascinante e pequenino de um professor de História da Universidade de Exeter chamado Richard Overy, magnificamente traduzido por uma sra chamada Patrícia Oliveira (Dom Quixote, 2009).
De certa forma, o livro é um preciosismo, na medida em que Overy, que tem obra considerável no tema da I e II Guerras Mundiais, dedica-se aqui unicamente ao contexto e aos eventos que imediatamente precederam, há 70 anos, o despoletar da Segunda Guerra Mundial, com a agressão militar à Polónia por parte do exército alemão. Polónia, que tinha sido “esculpida” escassos vinte anos antes com partes da Alemanha e da Rússia, e que Hitler achava que era o quintalinho que os alemães tinham que ter, para além de Danzig, uma espécie de Jerusalém de Leste, que era uma dor de cabeça desde o momento em que o esquema foi inventado.
Os factores que mais me impressionaram do relato do prof Overy foram 1) a ilusão colectiva (aferida a posteriori, claro) em relação às reais intenções de Adolf Hitler quanto à Polónia, sendo ele a figura incontornável na altura; 2) o nível de bullying que Hitler utilizava na gestão da sua política externa, que atingiu níveis inacreditáveis – estamos a falar de primeiro-ministros, embaixadores e ministros dos negócios estrangeiros; 3) que por um fio a guerra, que já era tida como perfeitamente inevitável, não começou não na madrugada de 1 de Setembro de 1939 (uma sexta-feira) mas cinco dias antes, a 26 de Agosto. Por causa de um embróglio diplomático, Hitler cancelou a invasão na noite de 25 de Agosto.
Hitler e a sua equipa utilizaram um novo modo de fazer a guerra, a que chamavam blitzkrieg, que consistia em, por um curto período, aplicar a máxima pressão militar sobre o oponente, utilizando então novas tecnologias tais como tanques e bombardeamentos aéreos maciços – tecnicamente chamados de saturação.
No vídeo acima, que uma querida amiga me indicou, está um interessante tratamento por Lena Gieseke do quadro Guernica, de Picasso, alusivo a um bombardeamento alemão de uma vila basca (de onde vem o nome da obra) em Abril de 1937, que de certa forma, não tendo sido o primeiro bombardeamento aéreo, é considerado o primeiro bombardeamento de saturação de uma cidade na Europa e teve um enorme impacto na opinião pública de então, não só porque assinalou a dimensão da agressividade dos regimes fascistas na Europa dos anos 30, como deixou antever como poderia ser uma guerra futura.
Que foi, começando com Londres, Dresden e acabando em Hiroshima e Nagasaki.
Cito a mensagem que recebi: “Lena Gieseke, uma artista nova-iorquina, que domina as mais modernas técnicas de infografia digital, decidiu propor uma versão 3D da célebre obra e colocá-la na net sob a forma de um vídeo. O resultado permite-nos visualizar detalhes que de outro modo nos passariam despercebidos. Esta técnica inovadora revela-se um instrumento poderoso para compreender melhor a forma de trabalhar do pintor e até o modo como funcionava a sua imaginação.”
Excelente leitura. Vou tentar lembrar-me disto tudo da próxima vez que fôr ao supermercado fazer as compras.
O imparável ABM acaba de encetar o The Delagoa Bay Company, um riquíssimo blog dedicado à história do desporto federado em Moçambique. Na fotografia estão os nadadores António Botelho de Melo, Rui Abreu e Paulo Frischknecht, à partida para os Jogos Olímpicos de Montreal (1976), os dois primeiros então oriundos da natação em Moçambique.
Hum, hoje faz 120 anos que o governo britânico mandou aquele telegramazito a dizer ao governo português para mandar as suas precárias tropas sair das terras de Cecil Rhodes ou arriscava-se a levar umas buzacadas em Lisboa a partir da sua frota no Tejo.
Adiante.
Ontem a partir das dez horas da noite tive uma dupla experiência em Cascais.
A primeira, menos traumatizante para quem tem vivido em certas partes de África, onde os confortos da vida como ter água e electricidade em casa não são tidos como garantidos, foi aquilo que um jovem do atendimento telefónico da empresa Electricidade de Portugal me revelou ao telefone ter sido um “corte geral no fornecimento de electricidade à área de residência”.
Durante cerca de uma hora e meia, no dúbio conforto de um apartamento completamente às escuras, um frio de rachar e chuva copiosa lá fora, lá descortinei umas velas que sobraram do Natal, mais duas velas no candelabro da bisavó que estavam ali para decorar, mais um brinquedo meio estranho do Dr. Micael que, no meio da sua electrónica sofisticação, acendia uma luzinha quando se carregava num botão.
Eventualmente, como um grito civilizacional vindo do nada, a energia voltou, disparando ao mesmo tempo as luzes, frigorífico, televisão, computadores, impressora, telefones, router, etc. Acabaram-se o silêncio e a escuridão.
Mais grave foi, cerca da meia noite, estava eu a rever uma mensagem para um amigo, quando aquela rodinha que está no meio na parte da frente do rato do meu computador, partiu-se. Ou melhor, parti-a.
Em casa ainda uso um velho (quase seis anos já é velho) computador daqueles de caixote que ficam no chão, a que se liga um teclado, um écrã e o rato. Comprei-o ao Fernando Macedo em Moçambique e ele já deu umas voltas pelo mundo, tendo sido reparado duas vezes. O maior elogio que lhe posso fazer é dizer que funciona.
Com a rodinha do rato partida, logo descobri, a setinha que fica no ecrã deixou de mexer.
Ou seja, o computador, que de outro modo funciona normalmente, não fazia rigorosamente nada.
Corajoso, ainda fui buscar uma chave de fendas para ver se os meus dotes de handy man me serviam e dava um geito naquilo.
Só que em cinco minutos desfiz o resto do rato e fiquei com dezanove peçinhas de rato na mão. Sempre generoso comigo próprio, logo que me convenci que de facto aquilo não tinha conserto de qualquer maneira e que o melhor era sofrer o corte de comunicações e passar ao plano B: comprar um rato novo no dia seguinte – hoje.
Assim, ao princípio da tarde de hoje, já banhado, perfumado, vestido e artilhado com dinheiro, máquina fotográfica, carta de condução e acompanhado da minha amiga Dra Dulce Gouveia, que tinha que comprar ração para os seus vinte gatos, dirigimo-nos juntos para o Cascais Shopping, ela para o Continente e a ração e eu para a Worten para comprar um rato novo.
A secção dos ratos informáticos da loja Worten (que um jovem funcionário referiu como a secção dos máuzes) é um verdadeiro microcosmo do mundo actual. Tem ratos de todas as qualidades, formas, feitos, cores e preços. Há ratos com fio, ratos sem fio, ratos ópticos, ratos que fazem coisas que eu não sabia que os ratos faziam, alguns tinham descrições longuíssimas das suas especificações técnicas (naquela letrinha que só se pode ler com um microscópio), outros tinham garantia para toda a vida, outras vinham com um disco compacto e instruções, outros ainda diziam apenas “rato”. Havia ratos por 120 euros e havia ratos por 5 euros. Havia ratos brancos, pretos, amarelos, côr de rosa, dourados, castanhos, azuis.
Depois de uma aturada análise, tomei a decisão e decidi comprar um rato preto com fio, óptico, daqueles que só precisa de ligar à ficha do rato do computador.
Custo: 4.79 euros.
Um rato, portanto, para os pobres.
Voltando a casa depois de despejar a Dulce em casa dela mais os sacos de ração dos seus gatos e um magnífico Atlas de Moçambique que arranjou num alfarrabista, fiz uma espécie de funeral das 19 peças do meu defundo rato e, após pensar nos (poucos) anos de úteis serviços que me prestou, liguei o novo rato.
Stereoscópio de Lourenço Marques, fim do século XIX, vista da Baía
por ABM (Cascais, 6 de Janeiro de 2010)
Hoje à hora de jantar, por razões assaz obscuras, o Dr Micael (10.5 anos de idade) deu-lhe na cabeça de rezar para pedir a benção de Deus para várias coisas, depois de comermos o mais epicúrio jantar de toda a minha vida (tenho que dizer estas coisas para o caso da Patroa vir espreitar isto no Maschamba, sorry).
Depois de pedir saúde e longa vida para a mãe, pai, avó, irmã, padrasto (eu), cães, cadelas, avestruz e a professora, eu sugeri-lhe (suscitando a imediata ira da mãe, que leva estas coisas muito a sério) que pedisse sorte para a mãe ganhar o Euromilhões e assim ficarmos ricos de uma assentada.
Combati indignado a acusação de abuso do favor Divino dizendo que pedir umas massas ao Senhor lá em cima não era um pecado per se.
E, enquanto rapidamente se passou para a questão de o que é que cada um faria se fosse rico, eu lembrei-me da velha canção que fui apanhar no Iutúbe há bocadinho, que para os mais velhos deve ser vagamente familiar: Topol, representando o pobre judeu russo Reb Tévje em Um Violista no Telhado, 1971, cantando Se eu Fosse Rico.
Que eu vi num cinema de Lourenço Marques lá para 1972.
Nunca meti os pés na Índia, e muito menos em Goa, o ponto fulcral e crucial da segunda exploração marítima portuguesa no séc. XVI, de que a Ilha de Moçambique era de importância vital mas apenas como ponto de apoio.
Recordo que a primeira fase da exploração lusa das rotas marítimas foi o Norte de África, que correu mais ou menos (às vezes menos bem) até à maior derrota militar de 900 anos de história portuguesa, Alcácer-Quibir, em Agosto de 1578, que só tem comparação na sua dimensão épica com igualmente épica e inenarrável vergonha (mais política e moral que militar) que foi a forma da retirada formal de Portugal de África e de Timor em 1975.
Mas, bons portugueses, quase tudo esquecemos e tudo perdoamos. Quando muito, ruminamos na calada da noite em blogues como este e depois vamos dormir, na enferna convicção da consciência ventilada.
Uma espécie de peido emocional.
Ou, mais prosaicamente, uma catarse num quarto escuro e fechado.
Como alguns dos restantes territórios sob soberania portugues até aos anos 60 e 70 do século findo, Goa era de certa forma mais um anacronismo de uma potência pós-decadente. Já há séculos que para quase nada servia, só dava despesa, Portugal pouco ou nada fazia lá, tinha meia dúzia de gatos pingados na sua guarnição, a paisagem aquele latinismo exótico, doce e delapidado, a economia irrelevante e, mais importante, não havia maneira de evitar o embate de uma Índia independente, orgulhosa e anti-colonial. Nehru fartou-se de avisar e de mandar recados, alguns até simpáticos, mas o Dr. Oliveira Salazar pelos vistos tinha que manter, e manteve, a consistência da sua postura.
A tomada de Goa e restantes territórios da Índia Portuguesa em 1961 não foi coisa assim tão insípida como se possa pensar. Mais tarde soube que em Moçambique, por exemplo, a comunidade de ascendência indiana foi quase decapitada por causa dos eventos na Índia. Muita gente foi encarcerada, maltratada, muitos foram explusos e despojados dos seus bens, ou simplesmente presos e usados como moeda de troca pelos (principalmente) militares portugueses então feitos prisioneiros pelo exército indiano, com até uma mãozinha do omnipresente Jorge Jardim pelo meio. Dos poucos que ficaram atrás, e seus descendentes, as feridas resultantes desse trauma perduraram até hoje.
Alguns goeses viajaram no sentido oposto, para Moçambique, onde tentaram refazer as suas vidas. Conheci alguns. E talvez seja minha mania, mas sempre me ficou a impressão de serem pessoas com uma cultura e profundidade espiritual que contrastava de todo com a elevada quantidade de carapaus de corrida que iam desaguar a Lourenço Marques, vindos da Metrópole, com a mania de que iam ensinar os locais brancos e pretos como é que se comia com o garfo e a faca.
Uma dessas pessoas que me ficou gravada cá dentro foi uma professora de História que tive no segundo ano da Escola Preparatória, a infame Escola General Machado na Polana, para onde eu tinha que marchar todos os dias as sete da manhã com um horripilante colete verde-garrafa estilo militar e basicamente levar porrada nas aulas de educação física do famoso e temeroso professor Trepa Torres. Ela era uma pessoa sublime, cultíssima, uma mulher conhecedora do mundo, uma docente de cinco estrelas. E que era goesa. Claro que na altura eu não fazia a mínima ideia do que era Goa nem onde ficava e muito menos que os indianos na altura já tinha surripiado aquilo a Portugal. Pouco tempo depois, quando saí de Moçambique para estudar em Coimbra, encontrei-a no avião da TAP (um Boeing 747, nada menos) de mala aviada para Portugal, para ela uma segunda fuga. Sorumbaticamente, prestei-lhe os meus respeitos e despedi-me quando desembarcámos em Lisboa. Nunca mais a vi.
Pelo meio, não sabendo bem porquê, sempre tive uma visão quase idílica de Goa e das suas gentes e culturas, em parte espelhando os ecos moçambicanos. Mais tarde apercebi-me de algo ainda mais supreendente, que era a elevada consideração em que aparentemente são tidos na Índia e no Reino Unidos alguns descendentes mais sonantes dos Goeses, cujos nomes são, nalguns casos, de matriz portuguesa. E ainda que, sendo o subcontinente indiano uma enormidade, que Goa, a pequenina Goa dos portugueses em que pouco ou nada se fizera em quinhentos anos, aparecia como a jóia da coroa e o local de passeio das classes mais abastadas da Índia, do seu turismo internacional.
Uma menção especial para Gujarat, mais a Norte, a seguir a Mumbai, a velha Bombaím, dada por João IV como dote da sua filha Catarina de Bragança à Inglaterra de Carlos II em meados do século XVII. Lidei bastante com homens de negócios de lá e seus descendentes, em Angola e Moçambique, e foi sempre um prazer.
Portanto aquilo era o paraíso na terra e a minha imagem do paraíso na terra é mais ou menos o que está na fotografia lá em cima.
Basicamente, portanto, sem as vacas a passear nem os vendedores de quinquilharias que a Senhora Baronesa, com o seu afincado olho antropológico e a máquina digital, descortinou.
Mas enfim. As coisas nunca são exactamente como pensamos, não é?
Pois ponha-se a vaquinha na praia que eu continuarei a pensar que há-de haver por lá aquele cantinho do paraíso que eu sempre suspeitei haver.
Não sei se é da idade. Ou da expectativa. Ou de um qualquer estado de espírito. Mas apesar de todo o já habitual carnaval de Natal, de fim de ano e desejos de um “bom ano” e as discussões do que foi e do que podia ter sido e ainda do que vai ser, cada vez menos tenho aquele sentimento de que a 1 de Janeiro algo é realmente novo. Não é um “ano novo”. Não é um ciclo novo que se começa. Acordo de manhã com as mesmas memórias, as mesmas expectativas, os mesmos condicionalismos.
O mundo parece-me igual ao que era antes.
Não deveria ser assim. Tanto quanto a idade, o ano solar representa, quer se queira ou não, um ciclo estruturante. Quase tudo gira à volta dele. Pecando por dizer o óbvio, todos os anos o primeiro dia do ano é o dia 1 de Janeiro. Todos os anos assinalamos o dia em que nascemos e todas as restantes “efemérides”, boas e más. O clima, as plantas seguem um ciclo mais ou menos anual. As empresas e outras organizações, os estudantes, os políticos, as estações de televisão, meticulosamente (pensa-se) fazem os seus planos de actividade, que tentam mais ou menos seguir, espécie de fios condutores a que mais ou menos tentam aderir, com os imprevisíveis ajustes de percurso.
O primeiro verdadeiro desafio ao paradigma do ciclo anual ocorreu-me, naturalmente no dia 20 de Fevereiro de 1975, quando “tive” que sair de Moçambique e ir estudar para Coimbra, sem sonhar que tal era uma ida sem regresso. Para já não falar da descoberta algo desconcertante e kafkiana que até então vivera uma infância quase idílica, imersa numa ditadura com décadas de existência dum pequeno país europeu com colónias em África (já de si uma constatação um tanto épica na altura para quem tinha feito 15 anos de idade e nada entendia de organização política, em simultâneo com o que me pareceu um ajustamento a uma velocidade alucinante), o que me pareceu implausível foi a minha mudança de latitude e as suas consequências. Janeiro a Março é o pico da estação quente no Sul de Moçambique. Em Coimbra – e em Portugal – é o inverno.
Ou seja, a celebração do Ano Novo em Moçambique é feita em tempo de muito calor. O carnaval, que na altura era uma ocasião importante, era celebrado em tempo de muito calor. O meu aniversário – no dia 30 de Janeiro – era celebrado no mais puro tropicalismo. O ano escolar começava em Setembro e as férias escolares de Natal eram um período de piscina e de praia. Eu, que praticava a natação, treinava em piscinas ao ar livre. Num ápice, essas datas passaram a ocorrer em tempo frio e escuro, a natureza em regressão, algo muito estranho, difícil de absorver e de ajustar internamente.
Aliás no Sul de Moçambique vivem-se basicamente duas estações, um longo verão húmido e uma estação mais fresca e seca, nada comparável ao clima da Europa ocidental. Sendo, ainda assim, um ciclo. é um muito menos marcante que as quatro estações dos climas mais temperados.
É mais contínuo.
E no meu relógio interno nunca perdi essa continuidade. Pelo que no meu caso os anos não se repetem – vão-se acumulando ao longo de uma (longa) linha temporal.
Isto pode parecer pouco mas a diferença entre uma perspectiva e a outra é enorme. Muita e boa gente de facto vê cada ano como um mini-ciclo com os seus rituais e os seus protocolos estabelecidos. Fazem listas do que querem fazer, dos objectivos a concretizar, celebram todas as datas não no sentido de obviar o distanciar do evento (um nascimento, um casamento, um divórcio, uma morte, etc) mas para mentalmente repeti-lo.
Claro que o que os outros fazem condiciona-nos. Dou um exemplo. Durante muitos anos, trabalhei para empresas cuja ano contabilístico terminava a 31 de Dezembro. Toda a vida dessas empresas girava à volta desse ciclo. Um ano, fui trabalhar em Moçambique para uma empresa cujo ano contabilístico terminava a 30 de Junho. Ou seja, todo o ciclo da actividade girava em redor de um período em que o “ano” começava a 1 de Julho. Para quem já estava habituado, aquilo era normal. Para mim aquilo não fazia muito sentido até porque o país inteiro funcionava no ciclo anual que terminava a 31 de Dezembro. Em termos funcionais, as pessoas que ali trabalhavam não concebiam de ter planos de trabalho e objectivos cujo dia “d” era – para eles, pelo menos – a meio do ano.
A conclusão é simples: é sempre boa altura de começar seja o que for. Sendo que o mais importante querer começar e mudar alguma coisa, na nossa vida e na dos outros.
Senão a vida torna-se um longo déjà vu.
Enfim.
Ainda assim….um bom ano de 2010 para todos os Maschambianos. Paz (?), saúde, sucesso, boas coisas a acontecer, etc.
É sempre boa altura também de ter a oportunidade de poder desejar o melhor àqueles que conhecemos melhor (família e amigos) e aos outros que não conhecemos.
Tirando a oportunidade fortuita de ter uma desculpa para uma espécie de apresentação de cumprimentos anuais a quem de outro modo basicamente nada se disse durante todo o ano, já há muito tempo que não gosto do circo do Natal. Gasta-se dinheiro demais basicamente em coisas que de outro modo ningém no seu perfeito juízo compraria e muito menos ofereceria – e para isso já temos aniversários, sendo que o meu, em Janeiro, vem logo a seguir ao Natal, o que em termos logísticos me deixa em overdose nestes meses e depois em descanso obrigatório durante os restantes dez meses do ano.
Camarões tigre e bacalhau com natas misturado com bocados de camarão - uma novidade da Patroa
Além disso, apesar de ser tudo divino, nesta altura há comida a mais para tão pouco tempo. Eu gosto de comer tanto como qualquer pessoa, mas gosto de comer bem comedidamente. Hoje já não há nada de comedido na altura do Natal. Os jantares são de arromba e a casa transforma-se temporariamente numa pastelaria conventual de tal forma que constitui um perigo para quem não pode ou não deve comer uma série de coisas e que tenta manter um nível de peso normal.
Mais importante, o episódio do Natal ilustra de forma singular a evolução das relações familiares (nenhuma, alguma ou muita) e a entrada do consumismo ao nível familiar.
Normalmente, se as relações familiares não são de comentar durante o ano, no Natal tudo de alguma forma se exacerba – o bom mas especialmente o mau. Eu, infelizmente, sempre fui particularmente sensível ao mau, que tende a contaminar o (pouco de) bom. Um gesto, uma palavra, uma atitude basta, para me fazer pensar que tão bom seria se eu estivesse, em vez de naquele convívio meio forçado, a pescar sózinho com um esquimó no Pólo Norte e a falar do degelo glacial. A ocasião acaba por ser o mesmo que durante o resto do ano, só que mais assim e com as pessoas e as situações à nossa frente para o confirmar.
Quanto ao consumismo, representado pelos “presentes” que se dão e recebem nesta altura, pelo menos no meu caso, já há muito tempo que se passou daquilo que eu considero razoável, e tenho a impressão que isso se passa com muita gente. Para além do caro, do supérfluo, do inútil, do despropositado e do exagerado (os miúdos tipicamente recebem um absurdo em termos de brinquedos, gadgets e equipamento electrónico), muita gente gasta o que não tem ou o que não deve nestes tempos incertos, num frenesim que no fim de contas não passa disso – uma espécie de febre que passa depressa.
Imagino que para muitos crentes cristãos todo este carnaval deve ser no mínimo desconcertante.
As boas notícias é que isto passa sempre e que acabamos por sobreviver este regurgitar colectivo mais ou menos como dantes.
Portanto, mais do que desejar aos exmos leitores que tenham tido um bom Natal, mais desejo que o tenham sobrevivido.
No meu caso, passei uma boa parte do meu tempo quietinho a criar uma coisa chamada The Delagoa Bay Company, um pequeno blogue sobre desporto de Moçambique e de “moçambicanos” quase todo antes da independência. Quase tudo só fotografias, do que apanhei dos tempos, desavergonhadamente incidente sobre o velho Grupo Desportivo Lourenço Marques. Mas tenta ter um pouco de tudo, desde imagens do Frank Martiniuk a meter um cesto pelo Desportivo, à Dulce Gouveia nos seus tempos de combate na piscina e no campo de basquetebol, e ao Mário Albuquerque a encestar pelo Sporting Clube de Lourenço Marques.
E acima de tudo tive o raro e grato prazer e a honra de ter pessoalmente oferecido ao JPT, Senador do Maschamba, as prendas que lhe eram devidas. Que foram reciprocadas com duas magníficas obras, uma delas da sua autoria, sobre Moçambique, o ficheiro dá pelo nome de pimmentel2003 mas a obra dá pelo mais prosaico título de Matuga no Mato: imagens sobre os portugueses em discursos rurais moçambicanos. Leitura de Natal neste blogue.
Esta, sim, uma ocasião de festa.
O pai Natal entrega uma dose de Reserva Sporting para o JPT enfrentar o resto da época futebolística do maior clube de futebol português a usar a côr verde
Agora tenho que me preocupar novamente com as coisas comezinhas da vida, tal como a enorme destruição que o temporal de alguns dias atrás trouxe ao meu reduto no Ribatejo, em que telhados, muros e árvores voaram com os ventos sentidos naquela zona.
Como dizem os franceses, Ah, la vie est belle mais les hommes dont cábe delle…
Dado o facto de que o Senador JPT está sem comunicações e a Sra Baronesa está neste momento molhando os pézinhos nas tépidas águas índicas que banham Goa, prossigo neste crescente solilóquio internético até que um se ligue e a outra tire o pé da praia.
Eu hoje quero referir um assunto a propósito das festividades natalícias.
O Natal era para o pequeno comércio português – e hoje é-o para as grandes superfícies de que a do Bill Gaitas Português (a Sonae Distribuição) é a maior – ou o sopro que salva o ano ou o chantilly que cobre o gelado.
Quando eu vivia nos EUA, era comum os meus amigos portugueses vociferarem o seu desprezo pelo que consideravam o excessivo comercialismo dos americanos no Natal. O que se tornava particularmente curioso pois a maioria deles nunca meteu lá os pés, pelo que deduzo que papagaiavam o que os intelectuais da praça cuspiam para os antecessores dos blogues – aquelas crónicas infindáveis que povoavam os jornais da praça.
Pois agora os portugueses copiaram tão bem os americanos que já estão quase em posição de lhes dar umas lições. Mesmo em tempo de vacas magras e com potencialmente 25 por cento dos que trabalham a perder emprego, o que se vê é o pessoal a gastar como se o mundo fosse acabar amanhã. Os comércios ajudam, vomitando música com temas natalícios para todos os espaços públicos e privados e mais algum, as autarquias gastam o dinheiro dos nossos impostos a colocar luzinhas e presépios na via pública, para ver se entramos no espírito das coisas.
As estações de televisão, que tiveram um annus horribilis em termos de publicidade (pior mesmo, só os jornais) a partir do fim de Novembro começaram já a passar uma impenitente sucessão de anúncios meio porno-eróticos, meio estapafúrdios, tentando impingir-nos a ideia de que a prenda ideal para quem não fazemos a mínima ideia do que oferecer nesta altura de dar alguma coisa, é dar um perfume com que a Charlize Theron é suposto estar borrifada quando ela entra num palacete qualquer nas vestes mais requintadas mas que caem rapidamente enquanto ela, já nua, caminha para o que, presumimos nós dirty old men que estamos a assistir, seja dar uma valente queca num toyboy qualquer na cama que está no quarto ao lado.
Ou o perfume “um milhão” do Paco Rabão, em que um tipo com ar de playboy meio duvidoso que estala os dedos e (mais uma vez) cai logo no chão a roupa de uma menina qualquer que está ali à mão. Pois , pois.
Ou aquela “marquesa” do Ferré Roché que pede ao Ambrósio que lhe apetecia “algo” e em que o Ambrósio, em vez de lhe dar o algo que todos achamos que apetece à marquesa, lhe dá umas bolinhas de chocolate na caixa mais amaricada que eu já vi na história da televisão e ela rebola-se de contente.
Ou ainda uma de várias marcas de whisky que, sendo bebida (dizem as minúsculérrimas legendas em moderação) com aquele grupo de malta porreira chique da boa, que a celebração é tanto mais divertida.
Pena que eu mal toque em álcool.
No Natal os bancos aproveitam para nos tentar convencer que os Planos de Poupança Reforma, que hoje são um relativo barrete fiscal, apropriado exclusivamente para quem não só não precisa de um mas que ainda tem dinheiro que sobre para fazer um – são coisa a não perder. Obviamente, obedecendo a um plano de ataque previamente preparado pelo departamento de marketing, o meu banco já me ligou esta semana. “Boa tarde sôr dótôr. Vimos saber se o dótôr já fez o seu pêpêérrezinho este ano”.
Se o meu banco não sabe se já eu fiz ou não o meu pêpêérrezinho para este ano, então quem sabe, não é? – pensei. Mas não disse nada.
De resto, as empresas de electrodomésticos, de telemóveis, de televisão por cabo, de cremes para tudo e mais alguma coisa, continuam o seu carnaval. Os anúncios dos cremes de senhoras aumentaram, o que me leva a suspeitar que no Natal isto também vende como rissóis quentes em dia de festa.
Na internet, já comecei a receber alguns emails um pouco elaborados e alusivos à efeméride. Mas, mais interessante, há dias notei (felizmente na caixa de Spam) um aumento na quantidade daqueles emails meio malucos a tentar impingir-nos doses maciças de … Viagra e afins.
Fui pesquisar um pouco e parece que o negócio dos químicos legais todos disparam no Natal e fim de ano.
Sinceramente, não sei bem qual é a relação do Viagra, que é suposto ser um perigoso químico para combater a impotência sexual, e o Natal. Não acredito que seja prenda que se dê a alguém (dentro de uma caixinha de Ferré Roché?) nem supunha que pudesse ser algo que alguém nos tentasse impingir através de emails não solicitados.
Será para a festa de ano novo? possivelmente. Aliás, numa dessas revistas com 400 páginjas de anúncios e que custam três euros e meio para o mercado feminino, que eu li enquanto esperava a minha vez de pagar as compras da comida no hipermercado do Continente de Cascais City há dois dias, vinha um artigo não assinado em que se referia pessoas algures em Portugal, que organizavam “Viagra parties” (cuja descrição poupo aos exmos leitores mas que envolveriam várias pessoas em várias situações em várias posições). Paguei a minha conta do supermercado distraído a pensar no que andavam a ler e fazer as donas de casa e as mulheres trabalhadoras deste país com os seus significant others.
Enfim.
Lá em casa, a árvore de Natal já está luzente e esplendorosa. Temos uma daquelas árvores de plástico, com o ar mais natural deste mundo, que tenho que ir à arrecadação uma vez por ano buscar, desempoeirar e montar, e, também uma vez por ano, desmontar e pôr lá de volta, juntamente com as caixas de berliquoques que se penduram na dita cuja no entretanto. Gosto tanto de empacotar aquela porcaria que já mais do que uma vez pensei em deixar a árvore montada na sala para o ano seguinte. Mas de facto lá para Maio a coisa começa a destoar.
Entretanto a Patroa já puxou do cartão Visa e comprou os presentes para o agregado e cia. Eu nunca compro nada para ninguém, a não ser seja obrigado e tirando o que já anunciei aqui. Para mim, nunca quero nada, pois há muitos anos que já me compenetrei que basicamente já nada quero ou preciso que me possa ser possivelmente oferecido por alguém no Natal. Mesmo no caso de livros, ainda estou, por exemplo, a recuperar da oferta, o ano passado, de um livro sobre como o Anticristo ia tomar conta dos Estados Unidos e levar-nos todos rapidamente para o apocalipse (sendo a solução juntar-me rapidamente a uma seita qualquer e encomendar a alma). Quando mo ofereceu e eu estupidamente fingi um interesse mínimo, o meu amigo ofertante assegurou-me que, de facto, o Obama tinha pinta de Anticristo.
Haja paciência.
Para alguns domésticos o Anticristo é o J. Sócrates. Mas sabem o que diz o velho ditado, não é: “Anticristos da casa não fazem milagres”.
Para a maior parte das pessoas que conheço e de quem objectivamente gosto, a mera ideia de que tenho que andar a fazer listas do que dar a toda a gente confrange-me. Honestamente, nem sei por onde começar.
Mas…hum… deixa-me cá ver…talvez umas garrafinhas de whisky? Ou um perfumezito da Charlize?
Às 1:37 horas da madrugada do dia 17 em Cascais City, estava eu a começar a rever as infindáveis gralhas de um mais um dos dos escritos para este blogue, quando, no breve espaço de cinco segundos, me apercebi que o chão por baixo de mim estava a vibrar e de repente a casa toda como que deu um pequeno mas expressivo solavanco para a frente. No meio, ouviu-se um som estranho vindo de toda a estrutura da casa.
De um ápice, estava no quarto a pegar as chaves do carro, a carteira, um casaco, corri à cozinha, apanhei uma maçã, peguei na família, duas mantas, tudo a correr pelas escadas abaixo, para a rua, para dentro do carro, para nos afastarmos para algures longe de algo que nos pudesse cair em cima.
Mas na rua, reinava a maior das calmas.
O bom povo português, pelo menos ali para os meus lados, nem sequer acordara. Fazia um frio de rachar e estava tudo a dormir pacificamente.
No rádio, sintonizei a estação TSF para saber mais informação. Nada. Dava umas dessas músicas pirosas, o locutor debitava as banalidades de uma madrugada sem incidentes.
Peguei no telefone celular e tentei ligar para o serviço nacional de emergência português, o 112.
Dava sinal de impedido.
Na mente, corria uma breve checklist. Não desligara a água. Não desligara o gás. As cadelas ficaram atrás. O seguro da casa tinha cobertura anti-sismos? (tinha). Os meus amigos estavam bem? (sim, soube mais tarde).
Liguei para o 112 durante quase meia hora. Finalmente atendeu um fulano.
“Olá boa noite, houve um tremor de terra”.
“Sim”.
“Prevê-se alguma coisa?”
“Não sabemos”.
“Estamos no meio da rua, toda a família dentro do carro, estão cinco graus na rua. Devemos fazer o quê? ficar aqui, ir para casa?
“Faça como achar melhor, e oiça as notícias para o caso de acontecer alguma coisa”.
“Ah. Obrigado. Mas se houver outro tremor não é preciso o rádio. A gente sente. Boa noite.”
“Boa noite”.
Voltei para casa, li um bocado e fui dormir.
No dia seguinte, vi na televisão que ocorrera um sismo de grau 6.0 na escala de Richter, centrado a 100 kms do Cabo de São Vicente, na ponta do Algarve. Um ministro qualquer bufou para um jornalista que “o sistema nacional de emergência funcionou bem”. O meu ex-colega da natação, Henrique Vicêncio, que trabalha há uma vida na Protecção Civil, proclamou que “foi de facto um tremor”.
Ah. Pois.
Como nada se partiu e ninguém morreu, adiante.
Mas da próxima vez já percebi que ligar para o 112 vale zero.
E que vou escrever a minha própria lista do que fazer no próximo tremor.
(Manuel Jacinto Lopes, Visconde da Palmeira – o de Portugal)
por ABM (Cascais, 16 de Dezembro de 2009)
Como estamos a entrar na época natalícia e portanto supostamente a celebrar a família e valores familiares (e oh tão apropriadamente, o PS de José Sócrates aproveitou precisamente esta semana para propor expandir generosamente o conceito legal de família, em Portugal, para passar a incluir os casais com o mesmo sexo), hoje este escrito é dedicado ao tema da família – da minha família.
Bem, de parte dela.
Tendo crescido no Sul da África Oriental Portuguesa, em plenos trópicos, de pé invariavelmente descalço e sujo e num agregado familiar que mais se assemelhava à família von Trapp do Música no Coração (vide abaixo) tirando a facilmente constatável diferença epidérmica com 99.99% da população e o dúbio estatuto de privilégio colonial, só muito tardiamente me apercebi que tinha origens “lá” longe no que se estipulou chamar, muito hiperbolicamente, a “Metrópole”.
Até lá, para mim, “família” significava, strictu sensu, os meus pais, os seis irmãos, o cão pastor alemão, a gata siamesa e o piriquito, que era azul, chamava-se Antoninho e que quando morreu teve honras de funeral de Estado no nosso quintal, com flores e campa.
No meu caso as raízes são solidamente açorianas. E da Ilha de São Miguel, de onde os meus pais se escapuliram em 1950 após o que os americanos chamam um shotgun wedding, celebrado por procuração no dia 18 de Janeiro de 1949, pai BM em Lisboa e mãe BM (grávida de seis meses) em Ponta Delgada. Exactamente noventa dias mais tarde, nascia a minha irmã mais velha.
Isto hoje em dia é coisa vulgar de Lineu, mas na altura era uma verdadeira barraca, um escândalo familiar do grau mais elevado.
Sendo que a única coisa que eu sabia sobre os Açores até aos doze anos de idade era a imagem idílizada, num enorme cartaz, da Lagoa das Sete Cidades em São Miguel, que os pais BM tinham colado na parte de trás de um armário de loiça na cozinha da casa que habitávamos na Rua dos Aviadores (pardonnez moi, hoje é a Rua da Argélia em Maputo, ao pé do Núcleo de Arte).
E que o meu pai quando falava dizia os “ús” de uma maneira esquisita, com pronúncia que me parecia francesa.
E que o Gungunhana tinha morrido lá.
E que ficavam desolados algures no meio da imensidão do mar.
A única vez que tinha visto um familiar fora do “Compacto Familiar” BM fora em 1968, quando o pai do meu pai, o MIM, foi a Moçambique de visita – a única vez que foi a África. As únicas duas coisas que me lembro dessa viagem era que quase não percebia nada do que ele dizia e que quando andávamos de carro pela cidade que ele só dizia que nunca tinha visto “tantes prâtos” na vida.
Pois é, avô, TIA (This is Africa).
Mas em Agosto de 1972, com 12 anos e meio de idade, tive a oportunidade de visitar pela primeira vez o arquipélago e conhecer a família açoriana. Que consistia primariamente num vasto, complexo e disperso conjunto de tios, primos e primas em 1º, 2º e 3º grau e os pais do pai BM, nos mais variados graus de cultura, de riqueza – e de pobreza. A minha primeira impressão ao sair de uma Lourenço Marques de uma modernidade e sofisticação quase estonteante e aterrar em Ponta Delgada foi que eu estava a regressar à era medieval. A ilha era – e é – de uma beleza que quase dói de ver. Mas em termos humanos aquilo pareceu-me ser um verdadeiro atraso de vida.
Para eles, eu era o jovem familiar meio selvagem que vinha de África, impressão que eu acentuava andando descalço pela cidade, vestindo apenas uns calções de kakhi e uma t-shirt. Dizer que este encontro – que durou duas semanas – foi um choque cultural para ambas as partes é claramente subestimar o que aconteceu.
Mas adiante pois este blogue é um blogue e não um livro.
Quase todas as famílias, e presumo que os BM não sejam grande excepção, sublimam aquilo que apreciam ou que parece bem, e arrumam debaixo de uma pedra, atrás de um armário escondido na cave mais escura, aquilo de que não se fala.
O que se torna curioso quando facilmente se constata que as árvores genealógicas são isso mesmo: árvores. Ou seja, todos nós que temos esta curiosa faculdade de estarmos vivos, fomos paridos por um pai e uma mãe, cada um deles teve pais, eles também e por aí adiante. Pelo meio há irmãos, primos, cunhados, sobrinhos, etc.
Mas tipicamente, tirando os nossos pais e qualquer coisa sobre os nossos avós, pouco ou nada sabemos sobre o resto dessa vasta árvore genealógica.
Excepto se há alguém, ou algo, com algo, alguma distinção, que sai do baralho inexorável do esquecimento e é preservado contra quase toda a lógica.
No caso dos BM que encontrei, essa figura é o senhor cuja imagem acima reproduzo, o Senhor Manuel Jacinto Lopes. Visconde da Palmeira, Comendador, Fidalgo da Casa Real, Cavaleiro da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo e mais umas coisas de que não me lembro.
Não confundir este com um outro ilustre Visconde da Palmeira, este brasileiro, criado pelo Imperador D. Pedro II.
Manuel Jacinto não devia ser um monárquico lá muito convicto, pois consta que após o infame derrube da Monarquia lá no Continente, em 1910, ele logo aderiu ao Partido Republicano Português, o que me faz lembrar aqueles colonos todos em Maputo em 1974 que de um dia para o outro magicamente se revelaram os mais ferventes e ferrenhos frelimistas, nalguns casos até levantando as maiores suspeitas dos libertadores recém-chegados à capital moçambicana com as suas bazookas e AK’s .
Mas, lá como cá, esta cultura Palop não é uma cultura de convicções, não é? É uma cultura de conveniências. E é sempre mais conveniente pender para o que é, ou se pensa que é, o Poder. Porque do poder, pinga o poder.
De Manuel Jacinto Lopes não sabia muito para além do mito familiar. Era irmão da minha bisavó paterna, a venerável Senhora Dona Ludovina Amélia Lopes Botelho de Mendonça (em açoriano, “Lú-doú-viiiinâ”, sff pronunciar os “u” como os franceses fazem). Portanto o meu tio-bisavô. Mesmo quando em 1988, contra toda e qualquer probabilidade, eu recebi das mãos do pai BM (resultado da partilha dos bens dos avós paternos) um espesso envelope contendo todos os documentos originais dos seus hoje indecifráveis títulos, solenemente lacrados e assinados por Suas Majestades D. Luis e D. Carlos sobre papel-seda, manuscritos a tinta, capas de couro púrpura e com talha dourada, não liguei assim tanto ao assunto. Mostrava apenas o livro contendo o brasão dele mais como curiosidade que qualquer outra coisa. Anos antes, ainda comecei a recolher dados e a construir a árvore genealógica dos BM, mas quando aquilo já era do tamanho de um lençol de cama de casal, parei. Os papéis ficaram guardados no envelope, dentro de uma gaveta. E entretanto os ratos em Alcoentre roeram parte do lençol.
Isto até que a semana passada, após um jantar no restaurante chinês ao pé dos Bombeiros Voluntários do Estoril com um casal amigo, o George & Guida, passámos um longo serão de conversa em minha casa, e em que, para passar o tempo, entre outras coisas, abri o tal envelope com os “papéis” de Manuel Jacinto Lopes, juntamente com o galheteiro de prata que o Sr. Engenheiro me deu em 2003 e que nos divertiu bastante.
Como me tenho entretido nos últimos dias a fazer a genealogia de outra família, aproveitei há dois dias para ver o que se encontrava na internet sobre Manuel Jacinto Lopes. Na verdade, pouca coisa e o que tenho em casa revela dez vezes mais do que encontrei. Ele deve ter sido boa pessoa e teve uma vida perfeitamente normal para o que parece que ele foi.
Mas a pouca coisa que li deu que pensar. E na verdade nem foi ele que me fascinou.
Foi a sua mulher, Maria Carlota Moreira da Câmara. Que já fora casada antes e que, depois de enviuvar, voltou a casar, desta vez com Manuel Jacinto.
Senão veja-se.
O que corria nos bastidores familiares sobre o Manuel Jacinto era que ele era de origem modesta (somos quase todos) e que era esperto e ganhou umas massas nos negócios, mas que ele realmente dera o salto para o dinheiro a sério quando ele casou com a Maria Carlota – que ninguém sabia dizer quem era. Dizia-se que era a viúva rica do patrão. E mais nada.
Ora, dos dados para que apontei acima, os factos são quase incompreensíveis à luz dos dias que correm.
Peço ao exmo. leitor atenção às datas pois isto é crucial.
Maria Carlota nasceu em 1813 numa família com 14 irmãos, sete rapazes e sete raparigas. Em 1839 (portanto com 26 anos de idade) casou com um tal Arsénio José de Arruda Botelho de Gusmão – chamemos-lhe Arsénio. Arsénio tinha três particularidades. As duas primeiras eram que ele tinha dinheiro a sério e que quando casou tinha 38 anos de idade, portanto doze anos mais velho que ela – e nessa altura com 40 anos já se era velho.
A outra particularidade de Arsénio era que era irmão de uma Ana Felisberta Botelho de Gusmão, oito anos mais velha que ele – e a mãe de Maria Carlota.
Portanto o rico Arsénio casou com a sobrinha de 26 anos, algo que hoje dava um especial na televisão e a seguir acabava tudo na Judiciária.
No fundo uma boa maneira de manter o dinheiro na família e que foi adoptada por gerações de Rothschilds. A propósito, o “outro” Visconde da Palmeira, o brasileiro, que se chamava António Salgado da Silva, também casou com a sobrinha, Maria Bicudo.
Mas ainda não acabei.
Manuel Jacinto nasceu em 1844, ou seja, cinco anos depois de Maria Carlota ter casado com Arsénio, casamento este que durou uns relativamente longos trinta anos, sem filhos, até que Arsénio, que vivia com Maria Carlota num daqueles palacetes de arromba perto de Vila Franca do Campo chamado Solar da Madre de Deus, morreu em 1869, tinha ele 68 anos de idade e a Maria Carlota quase 56 anos de idade.
Apropriada e piamente, Maria Carlota fica viúva durante cerca de três anos e em Setembro de 1872, no Solar da Madre de Deus, onde vivera com Arsénio, casa, já com 59 anos de idade, com Manuel Jacinto, que tem….28 anos de idade.
Os dois estiveram casados durante uns onze anos até que, em 1883 Maria Carlota morre aos 69 anos de idade, deixando um certamente desolado mas incomparavelmente mais rico Manuel Jacinto, com apenas 39 anos de idade.
Jacinto, que não casou outra vez, viveu feliz e respeitado até 1935, quando morreu, com 91 anos de idade, deixando apreciável património à sua irmã “Lú-doú-viiinâ” e suas duas filhas – uma delas a minha avó paterna, que ao que sei foi uma santa e nunca teve que trabalhar um dia na vida.
Antes disso, fez-se Visconde, Cavaleiro, Comendador, Juiz desembargador, patrono da célebre Banda Lealdade de Vila Franca do Campo (a quem doou a primeira sede) e mais meia dúzia de coisas. Supostamente ofereceu o seu palacete de Vila Franca do Campo para ser usado como um lar da terceira idade, o que deixou a descendência ligeiramente mais desabonada mas suscitou a admiração eterna dos vila-franquenses, que, tal e qual como os moçambicanos fazem hoje, logo mudaram o nome da rua principal de Vila Franca do Campo para Rua Visconde da Palmeira.
No entretanto terá, num momento de paixão arrebatada, engravidado uma serviçal sua, que despachou prenha para os EUA no fim do século XIX. Pouco depois de chegar aos States, essa senhora teve um filho – nos EUA, registado como filho de pai incógnito – cujo filho (portanto neto de Manuel Jacinto) esteve com o pai BM nos EUA há cerca de 20 anos. Eu não o conheci pessoalmente mas dei-lhe cópias de alguns documentos e uma fotografia de Manuel Jacinto. Se não me engano ele era dono duma lojinha de artigos desportivos chamada GobShop na pacata Vila de Warren, RI, nos EUA. Isto com base nas informações que a mãe passara ao filho e ao neto antes dela morrer – de que viera despachada de Vila Franca do Campo, nos Açores, que o pai era um senhor Visconde de lá, rico, chamado Manuel, com um bigode farto, que lhe pagara o bilhete e dera dinheiro para emigrar (ajudou que nas fotografias que vi eles eram o focinho chapado do Manuel Jacinto).
Num sábado chuvoso, a imagem de três grandes nadadoras de Moçambique do ante-pós: Dulce Gouveia, Manuela Gourinho e Susana Abreu. Do Grupo Desportivo Lourenço Marques.
Eram as melhores nadadoras de então, no Portugal pluri-continental, onde os moçambicanos (versão 0.0) jogavam cartas.
Foto tirada em fins de Julho de 1967 em Lisboa, na Piscina dos Olivais, e publicada na portuguesa TV Guia de 10 de Agosto de 1967.
(inauguração da Piscina dos Olivais)
A piscina dos Olivais, a primeira piscina da capital portuguesa com 50 metros de comprimento, foi por elas inaugurada no dia 25 de Julho de 1967, aquando dos Campeonatos Nacionais de Natação. Para o tempo uma quase monumental obra arquitectónica. Sempre mal utilizada, quase sempre desprezada.
Segundo legislação aprovada, a partir de agora todos os automóveis em Moçambique passarão a ter que transportar a bordo um colete e um triângulo. Que são para serem utilizados pelos motoristas quando páram os seus veículos na via pública (não estamos a falar de estacionar aqui).
A falta destes objectos implica multas entre 40 e 80 USD, a serem diligentemente aplicadas pela Polícia da República.
Conhecendo as estradas moçambicanas e as suas manhozices, prevejo que nos primeiros tempos as coisas vão ser complicadas.
Começando com se há já equipamento deste à venda e em quantidades para que o mercado as possa adquirir atempadamente. Em Portugal um colete e um triângulo custam cerca de 450 Meticais, com um bocado de sorte menos. Em Moçambique inteiro não vai ser fácil fazer chegar este equipamento a todos os cantos do território. E Deus sabe a que preço vai ser.
Depois, isto abre toda uma nova linha de negócio quer para os agentes policiais menos escrupulosos (a tentação não sendo pouca, com os salários modestos que auferem infelizmente) quer para os amigos do alheio, que a partir de agora passam a ter dois objectos óptimos para roubar nas bagageiras e que têm valor de mercado imediato.
Mais divertido vai ser com os carros de matrícula estrangeira a transitar em estradas moçambicanas. Na África do Sul já é obrigatório ter colete e triângulo no carro, portanto aí não deverá haver problema, mas não sei se é assim para os restantes países que circundam o país (Suazilândia, Zimbabué, Malawi, Zâmbia e Tanzania).
Mas no cômputo geral este é um passo no caminho certo. Supostamente esta medida ajudará a salvar vidas e a aumentar a segurança rodoviária, por um custo gerível.
Agora só falta as viaturas circularem em condições, reduzir o número de condutores alccolizados que segundo as notícias ainda abundam, tapar uns buracos no asfalto aqui e ali e tentar fazer com que os chapas não circulem na via pública como se fossem os donos e senhores das estradas.
Como é domingo e meio chôcho (ora chove, ora faz sol) e as ruas em Cascais City estão quase intransitáveis por causa de um desses assuntos de Estado (a cimeira ibero-americana, cujas delegações estão a desaguar aqui neste momento) e copiando da senhora Baronesa de Lioness, mencionarei brevemente um velho favorito musical.
Uma das heranças do pai BM foi o gosto por alguns tipos de música de entre os quais destaco o jazz. E dentro deste género, o norte-americano Louis Armstrong sempre se distinguiu como um caso aparte, um clássico entre os clássicos. De entre as grandes canções que ele interpretou, quer cantando, quer com o seu mágico uso da trompeta, de longe o que eu guardo como um tesouro e recomendo é o álbum cuja capa é acima reproduzida – Satchmo the Great – cuja história é interessante e tem que ver com África.
Satchmo the Great foi um disco editado em 1957, a partir de uma iniciativa da cadeia de televisão norte-americana e do famoso jornalista Edward R. Murrow, que incluiu uma digressão de Louis pela Europa e ainda uma visita à antiga colónia britânica da Costa do Ouro, que se declarou independente sob o nome de Ghana tornou o primeiro país africano e percursor da onda de independências que se seguiram no continente. Louis esteve em Accra meses antes das cerimónias da independência em 6 de Março de 1957 (Richard Nixon, Ralph Bunche, Matin Luther King Jr e a sua mulher estavam lá também, bem como a diva americana de ópera Lillian Evanti, que compôs o hino do Ghana e claro o Governador cessante, Charles Arden-Clarke e, em representação de Elizabeth II a Duquesa de Kent) e tocou jazz para Kwame Nkrumah, então primeiro-ministro e o primeiro líder africano moderno e na altura muito na baila (até ser sumariamente deposto enquanto estava de visita ao Vietname em 1966).
Apesar do disco estar repleto de clássicos e ainda uma entrevista com Armstrong, de longe a canção que mais me impressionou é uma espécie de fusão entre música clássica e jazz. Foi gravada na noite de14 de Julho de 1956 durante o Concerto Gughenheim no Estádio Lewinson em Nova Iorque. Quem tocou foram os 88 membros da Orquestra Filarmónica de Nova Iorque, dirigida por Leonard Bernstein, juntamente com a banda de jazz de Louis Armstrong. Interpretaram um dos hinos do jazz, Saint Louis Blues, composto muito anos antes pelo lendário W.C.Handy. Na audiência de 25 mil dessa noite, estava lá também o próprio W.C.Handy, já com 83 anos de idade e cego.
Que noite deve ter sido. E que música sublime. Jazz do melhor com a Orquestra Filarmónica de Nova Iorque pelo meio, e a divina interpretação do imortal Armstrong.
Como a canção não está disponível na internet (felizmente eu tenho uma velha edição sul-africana do disco do pai BM em 33 rpm e um CD) oiça-se aqui uma interpretação de um outro grande clássico de Armstrong, Mack the Knife.
Louis Armstrong tem a particularidade de ter sido o meu cantor favorito quando eu tinha 11 anos de idade. Quando soube que ele tinha morrido em Julho de 1971, fiquei choroso o dia todo. Quando a família BM soube qual era a razão para o meu desalento, desatou tudo a gozar comigo.
William Saffire era, nos meus tempos de estudante norte-americano made in Mozambique, leitura obrigatória no The New York Times. Para além de questões da língua inglesa, em que me tornei mais ou menos bilingue e apreciava como um miúdo numa casa cheia de brinquedos, especialmente nos seus contrastes com a língua portuguesa, que eu aprendi como materna (versão de matriz açoriana) tinha uma percepção interessante sobre o que era a América do seu tempo e além disso as suas colunas eram muito bem escritas e divertidas. Fiquei com tanta pena quando parou como quando Alistair Cooke deixou de fazer as suas geniais crónicas faladas que passavam aos fins de semana no BBC World Service em onda curta e que eu ouvi religiosamente até à última, e que se chamavam Letter from America. Algumas ouvia com o rádio de onda curta aos berros no meio do campo em Alcoentre enquanto arranjava o telhado ou tomava conta do jardim aos sábados e domingos à tarde. Bons tempos.
Em parte por causa destes e outros exemplos que fui recolhendo e saboreando ao longo da vida, adquiri uma certa predilecção por utilizações peculiares das palavras e da linguagem, tema que por si só daria para escrever uma coluna semanal o resto da vida. Especialmente em Portugal.
Pois que não é só o que as palavras dizem que interessa. Frequentemente é o que se pretende que elas digam e ainda mais o manto em seu redor.
E neste contexto, há duas que gostava de referir, uma das quais observo há muito tempo, outra que li ontem à noite numa revista de uma empresa imobiliária – a ERA – que com a Remax têm andado a “americanizar” o processo de vendas de casa em Portugal, por uma módica comissãozinha de entre 4 e 6 por cento do valor do imóvel transaccionado.
A primeira é “trata”. Na maior parte dos países, quando se quer vender uma coisa, põe-se um papel à frente a dizer “vende-se”. Aliás em Portugal quando se quer vender uma casa mete-se um cartaz a dizer “vende-se”. Mas não automóveis. No caso de automóveis toda a gente mete um papel que diz “trata”. “Trata”? mas “trata” o quê? obviamente, trata no sentido em que vende.
Só que a palavra “trata” não quer dizer “vende”. Nunca teve esse significado e creio que, em bom rigor, continua a não ter. Já perguntei aos meus concidadãos sobre o assunto – pois não sou de cá – e a melhor desculpa que ouvi foi que, talvez nos tempos idos do dr. Salazar, os tais em que havia Polícia dos Costumes e quando se tinha que pagar uma licença para uso e porte de um isqueiro, alguém teria inventado uma regra qualquer em que, para se colocar um cartaz no carro a dizer que se pretendia vendê-lo, que era necessário afixar ao mesmo um certo montante de – lembram-se? – sêlos fiscais, comprados na tabacaria mais próxima ou na Fazenda.
Só que os selos fiscais, como o papel azul de 25 linhas, já não existem. E nem sei se esta história é verdadeira. E mesmo que seja isto é tudo ridículo. Mas aqui estamos nós todos no último mês de Dezembro de 2009 e o bom povo português, quiçá por reacção pavloviana pré-salazarenta, depois de várias revoluções políticas, sociais e fiscais, continua a “tratar” os seus carros na rua. Com aquele informalismo tipo desenrasca-chuta-prá-frente-que-a-coisa-se-resolve-na-mesma. O eufemismo tornado em arma contra a eventual intervenção do Estado naquilo que é a coisa mais normal e natural em todo o mundo, que é ajudar a despachar um carro que já não se quer.
O outro termo é igualmente enigmático mas por razões diferentes. Ao folhear as ricamente coloridas 40 páginas da publicação “ERA Proprietários – 2ª edição 2009″ – que esta empresa imobiliária produz a cores em quantidades industriais e que deixa por todos os lados e mais algum (a que eu tenho obtive na Pastelaria Girassol no Estoril ontem à tarde), constatei que uma percentagem muito significativa dos imóveis que estavam à venda simplesmente não indicavam um preço de venda.
No local do preço limitava-se a colocar o fleugmático termo “sob consulta”.
Se bem entendo, ainda que este termo do “sob consulta” faça quase tanto sentido como “trata”, acho que dá para perceber que isto é um termo meio arrepolhudo lusofónico de dizer ao leitor da revista que por alguma razão etérea (a mísera fotografia a cores com 4.2 x 2.5 cm? as hiperbólicas e sucintas descrições do que constitui o imóvel? o desespero do comprador em tentar encontrar algo decente para comprar?) que se quer saber o preço vai ter que pegar no telefone e ligar para um dos vendedores hipertreinados em técnicas de venda da ERA (à americana, ainda por cima”) para o empregado, depois de exigir o nosso nome e número de telefone (creio que para efeitos da comissãozinha) magnânimamente nos comunicar o preço e imediatamente nos recrutar para a nossa “pesquisa” pedindo detalhes sobre o que é que “realmente” estamos à procura, onde e por que preço.
Só que eu não estou interessado – e nem me ocorre à partida – recrutar os exmos senhores vendedores da ERA para me procurarem uma casa para mim, nem de lhes contar a história da minha vida, nem de lhes dar o meu nome e número de telefone. Com todo o devido respeito, eu quero que a ERA se vá lixar. Aliás, folhear a revista deles enquanto bebo uma Coca-Cola Zero na Pastelaria Girassol e como um bitoque tecnicamente não se qualifica sequer como uma “pesquisa”.
Comprar um imóvel em Portugal nos últimos sete anos, para além de para suprir a necessidade de ter um tecto sobre a cabeça (que milagrosamente eu já tenho) tornou-se um negócio ruinoso, pois paga-se demais à entrada, paga-se demais enquanto se tem o imóvel, e paga-se demais à saída, seja por venda, separação ou morte.
O que me impressiona é que a tal de ERA, que, segundo relata o seu sítio na internet, teve início no profundo estado do Kansas nos anos setenta do século passado e que pelos vistos é uma das poucas exportações de sucesso americanas, e que, segundo a revista, em Portugal tem 200 lojas, 2.000 empregados, 100 mil casas “angariadas”, 4 centros de formação, publica 3 milhões de revistas como a que eu li por ano e teve perto de 62 milhões de pageviews, traduzidos em 204 mil horas de navegação no seu sítio por parte dos compradores (isto é apenas um pouco mais que o Maschamba) – faz isto tudo para depois, no fim deste processo e investimento todo, meter uma tal quantidade de imóveis à venda em que indica como preço “sob consulta”.
Naturalmente que o corolário desta observação, que só pode decorrer, é que deve haver muito boa gente neste mercado que cai no truque e que, apesar do manancial comunicacional desta empresa, gasta o seu tempo e dinheiro a telefonar para os senhores da ERA a contar a história da sua vida e a pedir se fachavôr se não se importa diga lá qual é a porcaria do preço.
Pois que se fossem todos como eu a ERA em dez segundos arrepiava caminho. E devem haver muitos vendedores de imóveis que obviamente não se importam de ver o seu património a ser (a meu ver mal) vendido desta forma, em troca de uma comissão que importa em média 5% do valor por que esse património venha a ser vendido.
Não acredito que lá em Kansas City as coisas sejam assim.
Para quem tiver a curiosidade, em cima uma imagem do local onde escrevo estas notas em Cascais City. A mesa é de madeira de Moçambique, é uma enorme mesa de desenho de arquitecto, tem a vantagem de se poder meter lá tudo e mais alguma coisa. É mais velha que o carqueja e arranjei-a em 1998 quando regressei a Moçambique, desta vez com visto de turista. Está como no dia em que foi feita, aí para os anos 50 do século passado.
O rádio é de ondas curtas e supostamente o melhor rádio portátil feito até hoje, um Grundig Satellit Professional 650. Som incrível, sensibilidade de recepção da melhor. O rádio foi fabricado numa fábrica da Grundig em…Portugal, há uns vinte anos.
O computador é uma cebola, linha branca, baratinho, mas, surpreendentemente, continua a funcionar, especialmente desde que lhe coloquei um daqueles programas assassinos de anti-vírus.
À esquerda, um televisor Electric Co., comprado no Mini Preço por uns 60 euros. É a cores, tem controlo remoto e habitualmente está sintonizado para a BBC ou a Sic Notícias.
Por baixo do telefone, a caixa de expediente.
Ao fundo, uma impressora Samsung laser a preto e branco. Eu não acredito em impressoras a cores, paga-se uma renda em toners para nada.
A seguir, um monte de livros lidos e por ler, tais como as biografias de D. Teresa, mãe de D Afonso Henriques, de D. João I, D. Fernando, D. Filipe I, Dinner with Mugabe, o livro 1808, de Laurentino Gomes, sobre o cavanço dos Braganças para o Brasil, um livro de Vladimir Shubin sobre as relações entre o ANC e Moscovo, o In Memoriam de Anthero de Quental, 1ª edição de 1896, que cacei numa livraria no Rio de Janeiro há uns meses, Transforming Mozambique de M. Anne Pitcher, A Morte de D. João por Guerra Junqueiro, edição de 1907, O Pensamento Político de Sá Carneiro, escrito pelo José Miguel Júdice, Samarcanda, por Amin Maalouf, e A Concordata e o acordo missionário de Salazar, escrito por um tal de José Carvalho. Etc.
As fotografias por cima da mesa fazem parte de um trabalho de registo que ando a fazer nas horas vagas.
Como o exmo. leitor pode ver, tudo muito organizado e arrumadinho, tal como este blogue.
(Júpiter, de Os Planetas, composto por Gustav Holst)
por ABM (Cascais, 25 de Novembro de 2009)
Numa crónica em que salientei o grande prazer que tive em ler o lvro de Bill Bryson intitulado A Short Story of Nearly Everything, a Sra Baronesa de Lioness referiu (acho que correctamente) que a demais obra dele era, na melhor das hipóteses…menos recomendável. Ainda que antes e depois de ler este livro, Bryson era-me alguém perfeitamente desconhecido (cacei-o numa prateleira da Exclusive Books em Nelspruit) não me surpreendi.
Pois não é a primeira nem a última vez que vejo isto acontecer, e que aqui chamarei o Paradoxo de Holst.
Eu explico.
Nos meus tempos de mufana, a minha vida centrava-se, para além dos deveres escolares, no Desportivo, onde, cerca dos 12 anos de idade, era conhecido no clube por ser irmão da minha irmã, uma conhecida nadadora, campeã nacional etc e tal – e filho do pai BM, que toda a cidade conhecia. Nada de material daí advinha – excepto algo, que para mim na altura era de extrema importância. Havia no clube um senhor, que na altura parecia-me ter 200 anos de idade mas que devia ter uns 50, que era um doente do Desportivo e que era também bilheteiro na plateia do Cinema Gil Vicente. E que me conhecia bem.
Naquela altura, como agora, os filmes eram classificados em termos da idade da audiência. E ir ao cinema em Lourenço Marques era um fenómeno cultural e social que hoje ninguém entenderia. Era “o” divertimento do quotidiano semanal. A maioria dos programas de fim de semana passavam por ir ao cinema e as pessoas vestiam-se a preceito para ver um filme. As salas de toda a cidade estavam repletas aos fins de semana. Só que naquela altura era mandatório não deixar entrar alguém com 12 anos para ver um filme para maiores de 17 anos. O que então se aplicava a mim – excepto no Cine-Teatro Gil Vicente, onde este senhor me deixava entrar e ver o que quisesse. A entrada era uma operação discreta, eu só entrava quando a sessão já começara e às escuras, sentava-me nas cadeiras de trás, com a Anabela Gouveia.
É preciso dizer que naquela altura se num filme aparecesse o canto da parte de cima duma maminha a 200 metros de distância, o filme era logo classificado para maiores de 17 anos pela Comissão de Censura.
Para mim o bilheteiro – o Senhor Santos – era um homem modesto e pobre e sem história, até que, mais tarde descobri, na sua juventude ele tinha sido campeão de atletismo do Desportivo durante anos e anos, sendo em toda a sua vida a sua única obra de que se orgulhava e por que era conhecido. Lembro-me bem de uma fotografia dele repleta de medalhas ao peito, que está mais abaixo.
O Senhor Santos podia ser pobre e o bilheteiro da plateia do Gil Vicente, mas no Desportivo ele era um Senhor, primus inter pares, respeitado como um campeão, um exemplo de valor e excelência do Desportivo – detentor de uma Águia de Cobre, uma das raras honrarias que o clube atribuía (em 1972 recebi um medalhão de “Mérito no Desporto” de um Eduardo Paixão mal humorado).
Tive uma surpresa semelhante com a indescritível, arrepiante beleza da música que acima reproduzo graças a esta maravilha que é o Iutube, e que ouvi pela primeira vez no Rádio Clube de Moçambique por essa altura. Uma pequena parte de Júpiter tocava no jingle de abertura dum programa qualquer que eu costumava ouvir, e sempre tive a curiosidade de saber do que se tratava. Anos mais tarde, já a viver nos Estados Unidos, e mais velho, descobri que fazia parte de uma obra intitulada Os Planetas, por um tal de Gustav Holst. Quando mais tarde ouvi Os Planetas na totalidade, fiquei estupefacto, completamente rendido. Meu Deus, que beleza. Quem era este Holst? que tesouros me aguardavam?
O fascínio e a desilusão, quando mais tarde pesquisei o homem, a sua vida e obra.
Holst foi um inglês, já de si uma relativa raridade no que eu considerava ser o créme de la créme da composição clássica. Nasceu pobre, foi doente toda a vida, nunca teve dinheiro nenhum e para ganhar a vida dava aulas de música numa escola para meninas algures perto de Londres.
A sua obra de composição sinfónica foi a meu ver relativamente medíocre ou decente – excepto com Os Planetas, onde parece que, se há um Deus, Ele desceu à Terra e ditou a mais excepcionalmente sublime das composições a este apagado, tímido, doente, de outro modo modesto professor de música inglês, que nunca conseguiu viver do que compunha.
Tal como o bilheteiro do Gil Vicente, Holst viveu uma vida discreta e atribulada, sem grandes concretizações, mas no meio daquele aparente mar de cinzentismo havia em ambos algo em comum: a realização de uma obra por que, se por mais nada, eles serão sempre lembrados.
Por um momento indelével, estiveram junto com os deuses.
O que, de certa forma constitui um paradoxo – que eu, algo jocosamente, chamo de Paradoxo de Holst. Gente cinzenta uma vida inteira, mas que algures e sem razão aparente, fizeram algo de absolutamente excepcional.
Parece-me que, salvaguardadas as devidas proporções em cada caso, aconteceu o mesmo com o nosso Bill Bryson(se a Exma Senhora D Vera ler isto leia-se “Richard”) no seu livrinho.
Pode ser que toda a obra de uma vida dele seja banal. Mas acho que as descrições que ele fez sobre o Universo no livro que mencionei brilharam e são memoráveis.
Poderá ser este o seu momento de glória num mar de realizações inconsequentes.
Que, num mundo cinzento, brilha como uma estrela cadente no céu mais escuro.
Devido à minha digressão norte-americana, para mim o calendário natalício só começa realmente depois do feriado americano do Thanksgiving, que é na última semana de Novembro. Do que me lembro lá, só depois desse dia é que de repente se começam a ver decorações de Natal um pouco por toda a parte e ouvir We wish you a merry Christmas encanados pelos sistemas de som nos corredores dos centros comerciais.
Mas este ano em Portugal não é assim. Há pelo menos duas semanas que, para quem andar nas ruas e nas lojas já vê árvores e outras decorações de Natal e ouve aquela música empacotada de Natal.
Confesso que sou do tipo que gosto de dar prendas mas não de ocasião. Ter que andar a magicar que outra bugiganga posso embrulhar e dar a alguém pelo Natal é quase uma tortura, pois regra geral não consigo vislumbrar o que é que pode ser ou útil ou até simpático para oferecer a alguém – que não me coloque na bancarrota, isto é – e que seja adequado ao espírito natalício. É um exercício de burguesia rasca que pago para não ter que enfrentar, ao contrário da Patroa, que num ápice saca do Visa card e numa tarde no Cascais Shopping compra tudo para toda a gente, até um chocolatinho para o carteiro com um cartãozinho personalizado e ração especial para o cão, o gato e o piriquito.
Claro que quando chega o extracto do cartão dela em Janeiro é “Christmas all over again”.
Outra mudança desde há uns anos é que acabei com o envio dos cartões de Natal. Para além de ser caro e complicado em termos de logística (eu hoje já não tenho literalmente os endereços físicos da maior parte das pessoas que conheço), só de pensar em ir para a bicha dos correios nessa altura para mandar tudo a tempo dá-me dores de barriga. Havia ainda o psico-drama de decidir a quem mandar e a quem não mandar, depois a quem mandei e que não mandou, a quem não mandei que mandou, a quem mandei e que mandou mas que mandou já em Março num gesto de cortesia falhada. E finalmente o que fazer com esses cartões todos depois de acabadas as festividades (caixote do lixo).
Felizmente que a internetização dos protocolos sociais sobrepôs-se a tudo isto e de repente toda a gente começou simplesmente a mandar um e-mail com uns bonequitos de Natal e já está. Imagino que o feicebúque este Natal vai parecer um presépio com árvores cintilantes e copiosa neve virtual.
Afinal o que conta é o espírito natalício, não é? e uma mensagem de Natal sempre é uma mensagem, certo?
Portanto este ano, devido à crise e a um futuro incerto, não há nada para ninguém.
Bem, abri apenas uma excepção pois não consegui resistir.
JPT, se vieres à tua terra, o que está lá em cima é para ti. Merry Christmas!! Antecipadamente.
(de notar que tirei a foto em que as garrafas do Sporting Reserva Alentejana 2006 Encostas do Alqueva estão em cima do livro do Bill Bryson…)
A Sra Baronesa recusa-se a ir em digressão pelas Índias com um malão de conhecida marca francesa, no erróneo pressuposto que tal poderia ser considerado elitista.
Tenho a informar à Sra Baronesa que os tempos mudaram e não tem que ter esses pruridos. Para além das óbvias cópias baratinhas feitas pela China e vendidas em Maputo em frente ao Piri-piri e em Portugal na Feira de Santana perto de Rio Maior, já há produção africana de qualidade como se pode ver em cima.
Para além de uma profundíssima actividade intelectual, este vosso escriba também faz algumas coisas menos gloriosas, tais como aspirar o chão da casa, limpar o quarto de banho, ler correspondência, fazer as compras no supermercado, regar as flores, levar o lixo ao contentor, etc.
Hoje foi a vez do quarto de banho. Não sendo de ascendência germânca, orgulho-me da metodologia que sigo, que se prima para eficiência e rapidez.
Só que hoje, algo me surpreendeu.
Foi o seguinte.
Quando o meu pai morreu, uma das coisas que fiz foi fazer um raid na despensa dele. O pai BM, que conseguia ser mais forreta e eficiente que eu, era do tipo de pessoa que se visse por exemplo pasta de dentes em saldo, comprava dez pacotes e metia na despensa. Depois estava dois anos seguidos a orgulhar-se, em reuniões de família, que tinha comprado pasta de dentes a x cêntimos a bisnaga. Para o exmo Leitor ter uma ideia do que aquilo era, ele infelizmente já se foi há oito anos e eu ainda estou a usar a última garrafa de champô que ele tinha lá em casa.
De entre as coisas que trouxe de casa dele há oito anos, vinha o que me pareceu ser um desodorizante daqueles de meter debaixo dos braços, daqueles de spray (em português AO: de esguicho de espargir…?).
Poucas vezes o usei, pois era uma espécie de arma de recurso para quando se acabava o desodorizante que eu costumava usar. E quando o usava, não era bem que aquilo tresandasse a perfume – que claro, tresandava. Era mais que tinha um odor um pouco forte demais a flores e eu não ia lá muito com aquilo. Mas não sou pessoa para me vergar facilmente perante um mero detalhe desses. Não vou deitar fora algo perfeitamente bom só porque não acho piada ao perfume. Servia perfeitamente, o pai BM tinha pago aquilo e o resto era conversa.
Só que hoje, durante as minhas limpezas no quarto de banho, dei de caras com o frasco, que estava em cima da mesa do lavatório, e resolvi por piada ler o que raio era mesmo aquilo.
Era, descobri, spray para eliminar o mau cheiro do quarto de banho.
Portanto, intermitentemente, durante oito anos, andei a usar spray de eliminar o mau cheiro do quarto de banho debaixo dos braços.
Hum. Pensando retrospectivamente, bem me parecia.
Melhor que isso só pode ter sido o episódio ocorrido quando os BM desembaracaram nos EUA em Outubro de 1977. Antes da mãe BM chegar de avião dias mais tarde, eu e o pai BM fomos na primeira expedição a um supermercado americano, que na altura nos pareceu ser o maior, o melhor, o mais barato e o mais diversificado supermercado existente na face do planeta. Era o Paraíso. Andámos lá perdidos às voltas a ver aquilo tudo, a maior parte do qual positivamente não percebíamos o que era. Enchemos um carrinho com algumas coisas para comer e trouxemos para casa, arrumando tudo na pequena despensa que havia no apartamento que alugámos por cima de uma lavandaria chamada State Street Laundry. Aquilo não era bem a Sommerschield mas na altura parecia-nos o máximo dos máximos, pois foi a primeira vez que tinhamos uma casa “nossa” desde a debandada descolonizante primeiro de Moçambique e depois de Portugal e que havia sido iniciada três anos antes, sem fim previsível.
Nessa noite o pai BM, cujos dotes gastronómicos são mais ou menos os de um sargento da recruta irritado e em tempo de guerra, preparou um excelente prato de esparguete com uma magnífica dose de almôndegas regadas com um molho de tomate, daqueles que vêm enlatados (na América então tudo era enlatado, parecia, e baratíssimo).
Aliás as latas eram tão baratas que ele comprou umas cinco latas, que vinham com aqueles rótulos com fotos coloridas das almôndegas que faziam crecser a água na boca.
Comemos aquilo mais umas vezes, até que um dia descobrimos que aquilo era ração para cães. Nesse dia, em vez de choque, rimos às gargalhadas e passámos a ficar fascinados com como os cães americanos eram tão mais bem tratados que as pessoas noutros países (o nosso pastor alemão em Moçambique comia, sempre, farinha com bofe).
Desde então, parece-me que este tipo de engano era relativamente comum entre os recém-imigrados nos Estados Unidos.
Desde criança, e ao contrário dos meus sete irmãos, sempre fui apreciador de música clássica, o que não era coisa fácil pois, para além de estranho e suspeito – estávamos em plena era dos Beatles e de Mick Jagger – em casa o único rádio acessível era um velho Telefunken com caixa de madeira e válvulas (demorava cinco minutos a aquecer) com um som espectacular mas que só apanhava estações em onda média e onda curta.
Habitualmente, o rádio ou estava sintonizado para a Estação A quando o pai BM estava em casa, ou na estação B (a LM Radio, em inglês e que só passava música pop) quando ele saía e as irmãs tomavam conta da casa, ou na Emissora Nacional, de Lisboa, em onda curta aos domingos, à tarde, quando, de entre assobios e trovoadas, mal se ouviam os relatos de futebol emitidos a partir de Portugal e que para mim eram um absoluto mistério (quer Portugal, que eu não percebia o que era nem onde ficava, quer os relatos de futebol, que só mais tarde percebi o que eram ao ver o João de Sousa sentado à beira dos campos de futebol a emitir os relatos locais para as Produções Golo via o Rádio Clube).
Com a retirada estratégica e acelerada da família face a um ambiente visivelmente mais hostil, e como aconteceu com tanta outra coisa, o velho rádio desapareceu misteriosamente, provavelmente despachado para alguém como lastro inútil num futuro que se augurava instável e totalmente imprevisível (e se foi).
Mas eu tinha e mantenho boas memórias desses tempos e por coincidência eventualmente recolhi uma simpática colecção de rádios. Trinta e dois anos mais tarde inquiri junto de uns antiquários nos arredores de Berlim e eis que hoje sou o feliz proprietário de um rádio igualzinho ao que a família BM usava e que funciona ainda melhor que o outro.
Naqueles tempos Maputo não tinha televisão, internet e a alternativa era ouvir discos, privilégio que obviamente o orçamento familiar não extendia aos membros da família com menos de 10 anos de idade como eu.
Mas o Rádio Clube tinha uma estação – a estção D, creio – que passava música clássica. Em frequência modulada – ou FM – que na altura era uma espécie de último grito da tecnologia. O meu pai tinha no quarto dele um então moderno Zenith Transoceanic 7000 (que, inacreditavelmente eu ainda tenho na minha colecção e que funciona perfeitamente) que apanhava emissões em FM. Então o meu grande desafio era de vez em quando surripiar-me para o quarto dele quando ele estava fora e, no maior secretismo, escutar as emissões de música clássica da Estação D. Era um prazer quase único.
Mas onde é que eu ouvi pela primeira vez música clássica? recordo-me vividamente das duas ocasiões em que gostei do que ouvi e onde. Curiosamente as duas foram no mesmo sítio: o actual Teatro África, que nos tempos da outra dama dava pelo nome de Manuel Rodrigues. Aí, em meados dos anos 60, um domingo à tarde a minha mãe levou-me a uma apresentação de ópera, encenada uma uma troupe sul-africana em digressão por ali. Nesse dia ouvi pela primeira vez partes da ópera Carmen, de George Bizet, berradas por uma sul africana (branca) com um vestido vermelho de onde se podiam ver as mais do que óbvias. Neste sentido, era uma espécie de programa duplo.
A segunda vez foi absolutamente mágica e é por isso que o exmo leitor Maschambiano tem no topo desta nota uma inserção do Youtube (esta coisa da internet é indescritível). Foi em 1968 ou 1969. Em cartaz no Manuel Rodrigues estava o filme 2001 Uma Odisséia no Espaço, a legendária criação de Stanley Kubrick e a meu ver o primeiro filme de ficção científica que parecia mais do que um filme de desenhos animados – e um dos grandes filmes de todos os tempos – e que na altura não percebi patavina do que se tratava, confesso. Ora, quem já viu o filme sabe que ele inicia com cenas dos primórdios da raça humana, e salta de seguida para uma nave a ascender no espaço. Nessa cena, é passada integralmente o que mais tarde vim a saber ser a valsa O Danúbio Azul, do austríaco Johan Strauss. Foi absolutamente sublime e uma revelação.
Se o exmo. leitor premir a imagem em cima, verá exactamente o que eu vi há …40 anos: do osso do nosso antepassado atirado ao ar, a nave espacial a dirigir-se para a Lua. Ao som da mais sublime valsa de Strauss.
A partir a loiça toda. O Tó-Mané Botelho de Melo já aqui botou algumas faladuras, das muitas que vai escrevendo, sempre entre o cortante e corrosivo. Agora que se foi de Moçambique para um porto qualquer transferiu, para mal dos meus pecados, as suas incursões bloguísticas para a vizinha Passada. Assim, e ainda que roído de inveja, muito aconselho o seu “partir a loiça toda” nesta Laranja Dourada.