“Eu já era bebedor de vinho de palma desde os dez anos de idade. Não fazia outra coisa senão beber vinho de palma. Naquela época não conhecíamos outro dinheiro a não ser o cauri, de maneira que tudo era muito barato, e meu pai era o homem mais rico da nossa cidade. (…)
Quando o meu pai percebeu que eu não sabia fazer outra coisa além de beber, contratou um excelente vinhateiro cujo único trabalho seria preparar-me vinho de palma diariamente“
Assim começa O Bebedor de Vinho de Palma, de Amos Tutuola (Edições 70, 1980). O vinhateiro virá a morrer e como ninguém se lhe equipara na preparação do vinho, o protagonista, um Hércules local, lançar-se-á durante dez anos pelas matas do Fantástico em busca da Cidade dos Mortos para o resgatar.
Um livro delicioso. Para quem resmungue ao realismo fantástico, o livro é de 1952. Não só prévio ao boom literário, mas imune ao seu capeamento poético. Espanta pela naturalidade e pela modernidade, ríspido mesmo.
