Archive for the ‘Soltas’ Category

LacriMozart

Terça-feira, Agosto 31st, 2010

(por AL lacrimosa) –


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Cromos Prováveis

Terça-feira, Agosto 24th, 2010

(por AL em produção fictícia) –

AVISO: qualquer semelhança com pessoas ou acontecimentos reais será pura coincidência


Era um falhado! Estacionava a vida de escombros e fracassos num buraco a que chamava casa. Ocupava os dias a desenvolver projectos que não passavam dos sites e em folhetos que lhe consumiam o capital de arranque (pouco, muito pouco, quase sempre nada). Já entrado na meia idade vivia sustentado pela família, amigos e por aqueles com quem se ia endividando. Dizia-se sonhador e aos erros consecutivos chamava opção de vida; com esse mant(r)a tapava a avalanche de fracassos que o compunham. Pode mesmo dizer-se que era bem sucedido a fracassar.

Uma outra coisa conseguia fazer com sucesso: seduzir! Protagonizava na perfeição o papel de sedutor cinéfilo. Ah!, isso sim!, saía-lhe sempre bem. Pelo menos durante algumas semanas, ou dias. As deixas, essas, eram sempre as mesmas: os cabelos dela na almofada, o corpo enrolado no lençol e outros romantismos serôdios. Adoçava a conversa com citações de filmes ou livros, inseria referências a locais e gentes interessantes com quem se tinha cruzado; contava-lhes maus comportamentos passados. Deixava-as de manhã com bilhetes de amor e o pequeno almoço preparado. Ocupava-lhes o dia com SMS delicodoces e metafóricos. Gastava os tostões cravados em jantares e vinhos gourmet, num esbanjamento de indiferença pelos bens materiais. Assim as prendia e assim lhes vampirava os corações.

Depois, tal como nos filmes que acabam com o beijo, também a ele se lhe esgotava o script, falhava-lhe a continuidade. Consumidas as deixas não se conseguia reinventar. Chegara a hora de procurar outra protagonista para as mesmas linhas cansadas. Descartava-se então da mulher conquistada, agora desorientada com o Mr Hyde que de repente se lhe revelava. Empatava uns dias. Para dar tempo a que o amo-te passasse a amei-te e que o hei-de amar-te se convertesse em amo-te. O guião, esse, continuava a ser o mesmo: os cabelos na almofada, o corpo enrolado no lençol…

Era completamente bi-dimensional, com um trompe l’oeil de profundidade. Enfim, não passava de um palhaço! Um cromo!


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Elogio da Tecnologia

Quinta-feira, Julho 29th, 2010

(por AL virtual) –

Foto gentilmente roubada ao co-maschambeiro MVF

Que fazer insone, em Lisboa, às 3 da madrugada?, pergunto-me eu às voltas na cama. Levanto-me e vou até à janela ver o silêncio das ruas. Vou à cozinha, bebo água, agarro nas bolachas e largo-as enfastiada. “Apetecia-me caminhar”, penso e não faço. Vou até ao computador. Ligo-o e ligo-me à internet. Vejo online um amigo igualmente insone. Encontramo-nos. Com a conversa na ponta dos dedos passeamos os dois pela nossa amizade virtual. Finda a cavaqueira desligo o computador e volto para a cama, agradada com o passeio. E enquanto me interrogo: “Como é que se vivia antes da internet?”, chega-me o sono de mansinho e deixo-me dormir consolada. Que a vida é feita de pequenos nadas…


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Estreia

Segunda-feira, Julho 26th, 2010

(por AL em jeito de estreia)

O meu neto Benjamim que é tão lindo que até dói, adora a água e o banho. Agitam-se-lhe as mãos num frenesim de splashes, que nem maestro em delírio de Valquírias, e abre-se-lhe o rosto num sorriso já povoado com dois dentes. Ihhhhhh, guincha numa orgia de agudos; pá-pá-pá-pá-pá, alegra-se ele numa onomatopeia de proto-linguagem; Neptuno reencarnado e reinando na sua porção de mar. Sem tritão, mas de igual fúria, revelada em protestos gritados quando o banho chega ao fim. No deleite do meu neto aprendo o prazer das coisas simples da vida.

A minha neta Teresa, que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é, deslumbra-se com os jogos de sombra e luz que dançam nas folhas das árvores do quintal. Observa silenciosa e atenta, como quem escuta um segredo. Fshhhhhhh, agitam-se as folhas ao vento. Guuuu-gáááá, responde a Teresa em jeito de conversa. Fshhhhhhh, insistem as folhas  e Teresa solta uma gargalhada cúmplice de cavaqueira privada. No deslumbramento da minha neta aprendo a beleza da luz.

Os meus netos ensinam-me a vida!

Hoje estreei o meu primeiro Dia Mundial dos Avós.


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Luzes na madrugada

Sexta-feira, Julho 23rd, 2010

(por AL desperta) –

Acordo em sobressalto com o galope do peito. No silêncio da madrugada só a minha dor grita. Calada. Vou até à varanda do meu refúgio ver o mundo que começa a colorir-se de luz e de cores que não chegam ao mundo de cinzentos que me habita. Daqui não se vê a esquina onde dei um primeiro beijo. Fica já ali a esquina. Perto, muito perto, mas tão perdida agora para mim quanto o amor que lá estreei.


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Postal da Rua da Paz

Quinta-feira, Julho 22nd, 2010

(por AL refugiada) –

Downloaded de http://www.pbase.com/diasdosreis/image/98986754

Da varanda do meu refúgio olho para as vidas que na rua se tecem.  No rés-do-chão do prédio de esguelha, uma  janela aberta, vestida de cortinas de linho com entremeios de renda. Bonitas. Ela, já idosa, vai desfiando as horas do dia a costurar roupa e cansaço no parapeito. Ao fim da tarde junta-se-lhe a amiga. Mais nova, chega a cabo-verdiana ajoujada de sacos e de um dia de trabalho. Pegam-se de conversa. Do lado de dentro relatam-se os dramas diários da rua. “Foi um AVC!”, anuncia-se com espanto; ”Só um filho e um neto e veja lá a desgraça”, comisera-se; “É uma vida madrasta”, apoia-se. Do lado de fora chegam notícias das Avenidas Novas, das patroas que se prolongam em extensões de cabelos e unhas e se seduzem em carros de luxo. Trocam-se as amigas nos quotidianos e juntam-se nos insultos às vizinhas. Mastronça!, vem gritado lá de dentro; Mastronça!, ecoa gritado do lado de fora, em invectiva apontada a uma janela que permanece fechada. É uma amizade improvável debruada a mexerico e rematada em harmonia racial. Despedem-se: Até amanha!, Até amanha!. E fico eu, sozinha na varanda do meu refúgio, agradeço a serenata dos canários do prédio mais adiante, viro as costas à Rua da Paz e volto ao turbilhão da minha alma.


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Uma dor de alma

Quarta-feira, Julho 21st, 2010

(por AL desalmada)

Lá em baixo na rua. Um pássaro caído, de asas abertas. Fui ver. Estava morto. Espezinhado. Era eu.


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Sabedoria Popular

Quarta-feira, Junho 9th, 2010

(por AL desatenta) –

Jacarandas de Lisboa no site http://members.virtualtourist.com/m/p/m/44938b/

Se há sabedoria popular que me é particularmente antipática, o mote do “não deixes para amanhã” figura com certeza no top-10. Hedonista por excelência e adepta ferrenha da gratificação instantânea, nem podia ser de outra forma. No meu léxico figura como “não faças hoje o que podes deixar para amanhã, ou depois” o que, perante a precariedade da vida, me parece bem mais sábio. Não admira portanto que tenha sido (e continue a ser) o trecho de sabedoria popular que mais me tem atormentado por via da sua invocação por terceiros (se já sabias que hoje ias sair, porque é que não preparaste logo tudo?). Mas se na grande maioria das vezes a procrastinação me tem vindicado, outras há em que tal não acontece. Principalmente quando são coisas que me agradam.

Vem isto a propósito dos jacarandás de Lisboa. Sou por natureza desatenta, mas confesso que só este ano me apercebi do meu grau de desatenção. Nunca tinha reparado que Lisboa tinha jacarandás! Ia, aqui há dias, caminhando desatenta da minha vida pelas ruas de Lisboa quando tive o meu momento Twilight Zone – por um breve instante senti-me teletransportada para Pretória: uma imensa mancha púrpura brilhava por entre os verdes do Parque.

Ahhh, ohhh disse nos primeiros momentos de confusão. Mas, mas, sao jacarandas! a destacar o obvio… Hmmm, pensei, tenho que tirar uma fotografia a isto e fazer um post para o maschamba; amanhã passo cá outra vez. E assim alegremente fui adiando a tarefa – hoje não trouxe a máquina; ontem não tinha bateria na máquina; no outro dia já era escuro; antes disso havia demasiada luz… enfim… lá fui alegremente procrastinando, aumentando a urgência da tarefa na proporção da mancha púrpura no chão.

Finalmente ontem fui derrotada pela chuva: começou ao fim da tarde e prolongou-se por quase toda a noite, com a fúria de uma vingança. Não fui ainda ver, mas acredito que a devastação nos jacarandás tenha sido total. Armei-me em navegadora (referência de pretensão humorístico-invocadora) procurei na internet – o último reduto da aflição. Encontrei esta foto que aqui fica postada. Não faz jus à beleza dos jacarandás mas…. quem dá o que tem…. fica sem nada! Para fechar com mais uma bela sabedoria popular.


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Zeitgeist

Domingo, Junho 6th, 2010

(por AL em dinavegações)

Tenho andado arredada da maschamba, embalada nas ondas de um amor marinheiro com mãos de seda e de vento, mas não totalmente alheada do que me rodeia. Algumas coisas me ocorreram:

1. A capacidade que o conflito israelo-árabe parece ter em trazer ao de cima o pior que há nas pessoas. Vem isto a propósito do barco turco a caminho da Palestina. Gente que tinha por sensata e “compaixonada” desata-me a espumar pela boca impropérios de uma desumanidade confrangedora. Qual humanitário qual quê? Deitem-nos mas é ao fundo que é para saberem! – como senão fosse de pessoas, de gente de carne e osso, que sangra, e sofre, e tem fome, e tem frio, e sonha, e tem família, e tem amigos… enfim tal e qual como nós, de que se tratasse; nem tampouco de ideais como respeito pela vida,  mas sim de um mero jogo de batalha naval povoada com uns entes abstractos, sem rosto e sem alma, mas que dão mais piada ao jogo: 1A, 1B e 1C – navio ao fundo, em versão Nintendo.

Humanitários sim senhora, dizem outros, estes agora acometidos de uma cegueira escolhida e de uma caridadezinha de cariz cristão (?) e ideologias remanescentes de esquerda europeia enquistada. Como se o Hamas fosse uma organização de heróis, merecedores de todo o nosso apoio e como se os barqueiros turcos fossem GreenPeaces a protegerem golfinhos, ou baleias. Ignorando ou esquecendo que o barco foi sempre referido como sendo de “apoio ao Hamas” e nalguns casos, quiçá mais piedosos, “de apoiantes do Hamas e do Povo da Palestina” como se as duas coisas fossem indissociáveis, como se o Hamas não fosse uma organização politica de comportamento altamente questionável, na melhor da hipóteses!

Em minha humilde opinião, que os Hamases e os Arafates da Palestina não sejam flores que se cheirem só me parece que seja defensável por anti-semitas explícitos ou implícitos; que o Estado de Israel não tenha embarcado numa verdadeira paranóia com a defesa, escolhendo acções extremas e humanitariamente condenáveis só me parece que seja defensável por anti-anti-semitas básicos.

E entre um anti e o outro anti está um povo tiranizado pelo vizinho e martirizado por quem diz representá-lo; um povo privado de tudo o que é básico para a mera sobrevivência – comida, medicamentos, água, electricidade, combustível e outras necessidades afins. Um povo que vê as escolas fecharem-se porque o vizinho cortou o fornecimento de água; ou vê as escolas abrirem-se porque os seus líderes precisam dos seus filhos em congregações de escudos humanos; onde abastecimentos básicos se fazem por túneis vitais à sobrevivência civil, que os Hamases rapidamente transformam em rotas subterrâneas de armamento, marimbando-se para quem morre de fome, de dor e de doenças curáveis; um povo cujo sofrimento continua ignorado, talvez porque não caiba entre os antis.

Ahhhh, diz a esquerda caviar, mas o Hamas “ganhou” as eleições! Pois ganhou!, digo eu, e o Mugabe também, e o Sadam lá naquele tempo, e o Bush para mal dos nossos pecados. E depois? Um erro deixa de ser erro quando é “legitimado” por eleições? E entre acusações mútuas dos antis e discursos patetas da comunidade internacional, a “situação” lá se vai mantendo, uns dias melhor, uns dias pior, com a desilusão a alimentar as fileiras dos Hamases e dos Arafates. Como se dois errados dessem um certo, como se o sofrimento fosse mutuamente exclusivo e a violência mutuamente justificadora…

2. Naveguei à bolina até ao Algarve. Constatei o que já de há muito desconfiava: Portugal é muito mais bonito visto de longe.

3. O meu neto Benjamim que é tão lindo que até dói iniciou-se na alimentação sólida. Para trás fica a dieta aborrecida de só-leite e abriu a nova ementa com papas, frutas e sopas. Adorou e para mostrar a sua aprovação brindou a nova gerência com um festival de nódoas!

4. A minha neta Teresa que se podia chamar de Rosa de linda e perfumada que é tem um riso gordo que não é de ficar guardado e amplamente se prodigaliza por quem dela se aproxima. Começa nos lábios, estende-se aos olhos, ilumina-lhe o semblante e solta-lhe um guuu, gaaa por vezes dobrado em alegria.

5. Há coisas que por mais que viva não entendo. Questões de opinião, dizem-me. Serão, mas alguém me explica como é que uma homenagem a Jaime Neves faz correr rios controversos de tinta e a morte de Rosa Coutinho parece receber ovação unânime de primeira página nos jornais? Terá sido porque o mundo ficou melhor? perguntei eu em jeito de quem cospe fininho para o ar. Não, querida, diz-me o meu amor marinheiro, é simplesmente o zeitgeist…


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Rounds de Ternura

Sábado, Maio 15th, 2010

(por AL “condecorada”) –

Passei ontem o dia com o meu neto Benjamim, que é tão lindo que até dói e com a minha neta Teresa, que podia chamar-se Rosa de linda e perfumada que é.

Quando saíram tinha eu medalhas de todo o tipo de fluido vital passível de ser expelido por bebés daquela idade! A roupa foi para a máquina; eu para a banheira.

Adormeci KO nas ondas do meu mar. Foi um dia em cheio!


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Convite

Segunda-feira, Maio 3rd, 2010

(por AL em nepotismo admitido e auto-promoção sem disfarce)

Soe dizer-se que a auto-promoção não é coisa bonita de se fazer, mas não me parece que aqui na maschamba se receie quebrar  convenções. Portanto aqui fica um convite aos nossos leitores maschambianos para este “evento” do nosso maschambeiro MVF.

Pena tenho eu de não estar no Porto; mas daqui segue já ‘aquele abraço’!


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Celebrações do 25 de Abril

Domingo, Abril 25th, 2010

(por AL em zona livre) –

 

A piada era costumeira quando por lá vivia, em África. Vinha em jeito de adivinha, armada em pergunta malandra aos recém-chegados: qual é o animal que mais mata em África? O leão, diziam uns; o hipopótamo, aventavam outros; o homem, exclamavam ainda muitos, como que adivinhando que tal pergunta traria armadilha. Poucos, muito poucos se lembravam do humilde mosquito.

Mas este humilde mosquito, ou mais propriamente a fêmea do mosquito Anopheles de sua graça, mata cerca de 1 milhão de pessoas por ano na África sub-sahariana e é uma das principais causas de anemias graves, de nasciturnos com pouco peso à nascença, de partos prematuros e de mortalidade infantil e maternal. A sua picada e a doença a ela associada – a malária -  aflige entre 350 e 500 mil milhões de pessoas a nível mundial, 86% das quais vivem em África.

Em termos económicos, calcula-se que o Anopheles (ou melhor, da sua senhora) cause uma perda média de 1,3% do crescimento económico anual nos países afectados e chega a representar 40% das despesas com saúde pública.

Hoje é o dia 25 de Abril e celebra-se o Dia Mundial contra a Malária!


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Quando a saudade aperta …

Domingo, Abril 11th, 2010

(por AL em ondas de nostalgia) -

A praia da Barra depois de uma tempestade de Verao e com arico-iris

Praia da Barra depois de uma tempestade de Verao e com arco-iris

Não sou grande fã das máquinas fotográficas, embora a quantidade de fotos que aqui tenho postado possa ter levantado suspeitas do contrário. Tenho para mim que enquanto perco tempo com lentes, máquinas e equipamentos, me escapam pormenores mais interessantes. Costumo dizer que aquilo que queremos mesmo recordar fica gravado na nossa memória sem necessidade de adereços (e muitas vezes o que não queremos também, mas isso é outra história). Enfim, manias!

Maputo em rumo a Inhaca

Maputo do mar, rumo a Inhaca

Foi somente com o advento das máquinas digitais que eu comecei a tirar mais fotografias. Acho descomplicado e rápido – disparo aqui e ali sem grandes preocupações e nunca se acaba o filme. Se sair bem, fica; se sair mal, dilita-se. E a única preocupação é recarregar a bateria à noite. Quando há electricidade, claro! Para os sítios onde vou sem electricidade, compro geralmente daquelas máquinas descartáveis. Problema mesmo, é quando se extravia o computador e, com ele, as nossas memórias…

Tofo

Praia do Tofo

Mas divago. Afinal estava errada e percebo hoje que as fotografias são um excelente auxiliar de memória e que o tempo que se “perde” a tirá-las se ganha quiçá mais tarde no pormenor da recordação. E assim, quando a nostalgia me assola, lá vou eu para os álbuns que tenho na minha hard-drive e revivo cheiros, sabores e amores conforme as fotos vão desfilando. Hoje deixo aqui três, do meu país de adopção e de locais onde fui feliz.


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Sem palavras

Sábado, Abril 10th, 2010

(por AL em roubo declarado a MVF) -

O nosso co-bloguista MVF, ilustre fotógrafo da praça e viajante inveterado, colocou há pouco esta foto no facebook.

A legenda diz:

Casa do Passal
Cabanas de Viriato
Casa de Aristides de Sousa Mendes, classificada Monumento Nacional.
Será preciso comentar?

Fim da legenda

Porque aqui há umas semanas referi Aristides de Sousa Mendes num outro post, desconsegui de resistir à tentação de pôr também aqui a foto com o breve comentário. Uma imagem vale realmente muitas palavras…


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Páscoa Feliz

Sábado, Abril 3rd, 2010

(por AL em tradicionais reminiscências)

Cá em casa gostamos de tradições; são assim como uma espécie de cola familiar. Vão-se alterando, acrescentando aqui e tirando dali; internacionalizam-se por força da geografia familiar; são intervaladas por vezes por falta de quórum ou por causa da composição etária dos presentes. Umas caem em desuso durante uns anos e algumas retomam-se mais tarde. Mas acho que posso dizer que todas estão presentes, pois senão se fazem naquele dia em particular, são lembradas vezes sem conta as vezes anteriores em que a tradição foi cumprida.

Quando na família ainda matávamos o porco (1990 foi o último ano em que o fizemos) tínhamos por costume fazer o jogo dos compadres e das comadres, que era assim. No Domingo Gordo, antes da terça-feira de carnaval, juntava-se a família alargada, com os amigos “cá de casa” e quem mais calhasse ser convidado nesse ano, para uma grande almoçarada. Nesse dia almoçava-se o bucho do porco. Para quem não saiba, o bucho é o estômago do porco recheado com carnes, sangue e miúdos diversos do porco, muito bem temperados com cominhos e vinha d’alhos e é uma absoluta delicia beirã. Fazia-se na altura da matação (como dizem lá na Beira) e secava-se no fumeiro até ao Domingo Gordo, quanto era baixado, preparado e comido. Cozia-se em água abundante e acompanhava-se com batatas, nabos, ovos, couves e mais enchido cozido. Há quem faça o bucho também com arroz, mas na minha família era assim que o fazíamos. Tudo isto, claro, regado com muito vinho e ainda mais alegria.

Depois do café fazíamos então as comadres e os compadres. Cada um escrevia o seu nome num pedaço de papel e os nomes dos homens iam para um recipiente e os das mulheres para outro. Tiravam-se então nomes aos pares e quem saísse par, ficava comadre e compadre durante esse ano. No Domingo de Páscoa, as comadres ofereciam amêndoas que os compadres reciprocavam com flores. Era coisa séria cá em casa! Havia até quem não pudesse comparecer ao almoço de Domingo Gordo, mas tivesse o cuidado de avisar que pusessem o nome dele/dela para o jogo dos compadres. Deixámos de jogar quando deixámos de ter bucho para inaugurar. Não porque a refeição não se possa fazer com qualquer outro menu, mas apenas porque não nos deu ainda para isso. Não deixa porém de nos acompanhar, pois não há almoço de Domingo de Páscoa em que não lembremos o jogo dos compadres, não comiseremos não o ter feito e não relembremos os equívocos e anedotas que quase sempre acompanham estes acontecimentos – quesílias familiares mitigadas, recados enviados subtilmente…

A Sexta-Feira Santa acolheu na minha família a tradição alemã dos ovos pintados e das omeletas. Penso que é também tradição em Portugal, mas confesso que até me casar com um alemão não foi coisa cá de casa. Aliás, ainda hoje tenho que mandar vir de lá as tintas e corantes que usamos para os ovos. Fazemos de duas maneiras: com ovos cozidos e com cascas vazias.

Os ovos são cozidos em água colorida com corantes especiais (os tais que ainda não consegui encontrar cá em Lisboa) de diversas cores fortes. Depois de cozidos e arrefecidos, temos então canetas da mesma tinta e cores diferentes, com as quais podemos desenhar ou contrastar as decorações exteriores. Os outros ovos são retirados da casca por via de dois furinhos e nestas  cascas utilizamos canetas de feltro, guaches, aguarelas e qualquer tinta que nos apeteça, bem como estrelinhas, brilhantes, corações e qualquer coisa que sirva para adornar. Juntamo-nos todos durante uma tarde inteira a pintar e a decorar ovos, numa galhofa constante. Ao fim do dia comemos uma enorme refeição de omeleta. Bem bom! Antes de importarmos a tradição dos ovos, a Sexta Feira Santa era passada em oração e sussurros; as tias velhotas na Igreja e nós sob ralhos constantes devido ao barulho que fazíamos. À uma da tarde soava a sirene dos bombeiros a assinalar a morte do Senhor e nós dizíamos uma oração. Não é por nada, mas gosto mais da tradição dos ovos!

No Domingo de Páscoa, depois do almoço do cabrito (obrigatório cá em casa) um ou dois de nós escondem os ovos pintados e coloridos pela casa, jardim, quintal, ou mesmo parque público e depois os outros vão procurar até os ovos todos terem sido encontrados. Não parece ter graça, mas nós divertimo-nos imenso com isto! Os ovos que aqui mostro, foram pintados numa das Páscoas que passei em Timor Leste. A minha filha mais nova que foi lá ter comigo levou as tintas e eu mobilizei os amigos “desfamiliados” para uma Sexta-Feira Santa de tintas e ovos. Comemos um bruta omeleta ao fim do dia e ainda hoje falamos disso sempre que, embora espalhados pelo mundos, nos encontramos.

Outra tradição cá de casa são as amêndoas de chocolate feitas por nós e os pães da Páscoa. Estes são assim estilo folares, mas completamente ao contrário. Não levam ovos em cima, não têm erva doce, nem nunca comi a não ser na Beira Baixa. São amassados com fermento de padeiro, levam ovos, azeite, aguardente, vinho do Porto e muito pouco sumo de laranja. Amassam-se, fintam-se e depois divide-se a massa em “pães” grandes que vão ao forno a cozer. Ficam altos, fofos e são uma perdição!

Já as amêndoas começamos a fazê-las aí uma semana antes da semana da Páscoa, porque por mais que façamos nunca temos excedente. Os amigos que já as provaram todos os anos reforçam pedidos e cá em casa ninguém levanta mão delas. Temos mesmo um tacho que é conhecido como o “tacho das amêndoas” e que é disputado entre nós rotativamente. Não é que o tacho seja especial, mas tem o tamanho ideal para as fazermos e nunca agarra. Já tentámos outros, mas não eram a mesma coisa…

Quando vivíamos na Beira Baixa e sem a tradição dos ovos escondidos, depois do almoço do Domingo de Páscoa, nós, os mais pequenos íamos desfolhar flores com cujas pétalas adornávamos o passeio em frente da casa do meu Avô, onde geralmente se almoçava nesse dia. Era para indicar ao Senhor Padre que devia entrar ali em casa, para benzer a família, tomar um café e uma fatia de pão da Páscoa ou umas amêndoas. Como nós, também as outras famílias enfeitavam os passeios em frente das suas casas. Ficava a rua bonita, mas acho que hoje isto caiu em desuso.

Quer se cumpram todos os anos ou só de vez em quando, são estas as tradições cá de casa!


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