(por AL ainda constipada, afónica e farta do Inverno)
Não tenho ido muito ao cinema, mas vi recentemente um filme que me agradou particularmente e que me remeteu para um outro de há uns anos atrás. Sao dois filmes sul-africanos; ambos abordam a exclusão social e neles se assiste ao processo de humanização dos protagonistas, se assim posso dizer, ainda que de perspectivas e com abordagens completamente diferentes.
Tsotsi, baseia-se numa novela de Atol Fugard, adaptada para o cinema por Gavin Hood e ganhou em 2006 o Oscar para Melhor Filme em Língua Estrangeira. A novela de Fugard passa-se em Sophiatown, uma township destruída nos anos 50 para dar lugar a um subúrbio branco. A acção desenrola-se no ambiente de opressão do apartheid e ilustra o racismo, a terrível pobreza da maioria da população negra e a violência da época. O primeiro rascunho da novela foi escrito nos anos 60, mas a novela acabou por ser publicada somente nos anos 80. Transposto para a África do Sul dos dias de hoje, pós-apartheid, o filme continua tão actual como o era a novela na altura em que foi escrita, mostrando a terrível pobreza em que a maioria da população negra continua a viver na África do Sul e a violência que parece não ter diminuído, bem como a exclusão social gerada pela política do apartheid, na novela e pela pobreza e pela violência, no filme.
Na novela Tsotsi, o protagonista, é um jovem sem memória do passado; no filme é um jovem gangster do Soweto, igualmente sem passado e sem memória. A violência é para Tsotsi (na novela e no filme) o motor da sua vida e um simples mecanismo de sobrevivência, para quem, como ele, vive num presente permanente – senão tem passado não tem também qualquer futuro, nem sonhos, nem ambições.
A vida de Tsotsi muda radicalmente no dia em que encontra um bebé abandonado, na novela; no filme, raptado juntamente com um carro de luxo. O processo de humanização de Tsotsi começa com a confusão que o avassala quando ele não consegue simplesmente matar o bebé e com ele se identifica – ambos vulneráveis e ambos sem história. E protegendo o bebé Tsotsi vê-se de repente “vítima” de empatia (um sentimento até aí seu desconhecido), forçado a confiar e a ligar-se a outros e vê abrir-se-lhe um mundo de alternativas, de futuro. Tudo isto sem melodramas açucarados e de lágrima fácil, numa acção pontuada por uma banda sonora fenomenal. No filme, claro; para ler a novela recomenda-se o silêncio requerido por um bom livro.
O filme que recentemente vi e que me remeteu para Tsotsi tem um registo completamente diferente e chama-se Distrito 9. É um filme de ficção científica.
Uma nave espacial avariada imobiliza-se por cima de Joanesburgo. Vinte e oito anos depois do primeiro contacto, os extraterrestres, umas criaturas bizarras a quem os humanos chamam Prawns (camarões), foram tratados como refugiados e confinados a um acampamento, a que o governo da África do Sul chamou Distrito 9, enquanto os líderes mundiais debatem como abordar a situação. Mas os humanos não vêem com bons olhos esta acomodação e conforme a tensão vai subindo, o governo atribui a tarefa de controlar os extra-terrestres a uma empresa privada, a Multi-National United. O interesse da MNU, no entanto, centra-se no armamento que os extraterrestres trazem consigo e que os humanos não sabem como utilizar.
O protagonista é um funcionário do MNU – Wikus van der Merwe – que sofre um acidente que lhe provoca uma mutação no seu ADN, mutação essa que lhe permite o uso das armas extraterrestres. Wikus torna-se assim na chave que poderia desvendar o segredo dessas armas. Funcionário zeloso e orgulhoso do seu trabalho até à data do acidente, olhando para os extraterrestres com uma mistura de fascínio, paternalismo e desprezo, Wikus vê-se de repente confrontado com os preconceitos que anteriormente personificara. Ostracizado e isolado Wikus refugia-se no Distrito 9 onde se completa o seu processo de identificação com o “outro”, iniciado com o acidente que lhe causou a mutação do ADN.
Dois filmes notáveis, ambos sobre redenção sem heroísmos e sem choradinhos, e que recomendo vivamente aos leitores maschambianos.


