(por AL em plena frustração e armada em queixinhas) –
Por muito que viva e por muita experiência que vá acumulando, não deixo de me surpreender com a mentalidade retorcida que continua a prevalecer neste país. Isto vem a propósito desta nova fase da minha vida, que tento refazer aqui em Lisboa e, sabem que mais?, quanto mais tempo aqui passo, menos gosto de cá estar. Eu tento, mas desconsigo!
Estou aqui por um acto de vontade e não de devoção. Nada há em Portugal que eu goste verdadeiramente; nunca tive saudades enquanto lá fora. Nunca vim de bom grado e sempre saí com alegria. Mas depois de 15 anos perdida pelo mundo, sabe-me bem estar perto da família.
Claro que preferia ter a família em qualquer outro país – já nem sou esquisita, qualquer outro país servia (neste momento até a Albânia me parece invejável) – mas as filhas decidiram assentar arraiais em Portugal e é cá que tenho os netos.
Desenvolvi mecanismos de defesa. Evito o mais possível sair à rua; tenho TV cabo que me dá acesso ao que se passa nos centros onde se faz diferença; estou ligada ao mundo pela internet; uso o telefone para contactos frequentes. Tento manter a interacção geográfica e cultural com Portugal ao mínimo indispensável. Vou assim criando a ilusão de que estou algures que não onde estou; afinal somos livres de acreditar nas ilusões que escolhemos, verdade?
Mas há que ganhar para pagar estas pequenas mordomias, que me permitem manter a ilusão e ainda fazer umas viagens. Não tendo grandes oportunidades no meu métier normal e que regularmente tenho exercido ao longo da minha vida, virei-me novamente para as traduções. Gosto de fazer traduções; não de romances e textos anódinos, mas sim de livros técnicos, relatórios profissionais e quejandos. Tenho aprendido imenso a fazer traduções.
Recentemente, um contacto numa editora (digo-o com embaraço, sim; nepotismo…) tem-me dado para traduzir livros sobre grandes pensadores em economia e outras questões técnicas, o que me tem dado bastante gozo, para além de algum rendimento que me vai proporcionando. Gosto da actividade. Exercita-me a mente, leio livros interessantes, sou dona do meu tempo e permite-me ficar dentro de portas.
Deparo-me então com a mentalidade corporativa que não consigo entender. Este ano vou já no meu terceiro livro, ainda não me pagaram um cêntimo que fosse, cada vez que submeto uma factura “houve lamentavelmente um engano do nosso lado” e o valor nunca corresponde ao acordado previamente. E não estou a falar de peanuts; só nesta última factura estou a referir-me a mais de 2,000 euros a MENOS!
Aproveitam também, já agora, para acrescentar mais alguma condição pouco favorável para mim, como por exemplo, pagamento a 30 dias depois da publicação do livro, processo sobre o qual não tenho qualquer poder. E senão publicam?, pergunto eu. Isso nunca aconteceu, dizem eles. Sim, mas e se acontecer?, insisto eu. Propõem um contrato (neste processo que se arrasta desde Janeiro) com valores avançados por eles; eu aceito valores e revejo condições; faço algumas anotações para clarificações, por exemplo, quem paga o IVA; que se inclua a data da publicação e que se expresse que será essa a data para pagamento, quer o livro seja ou não publicado, etc. Num pais sem justiça, parece-me ajuizado que os contratos sejam o mais claros possível. Desde Janeiro que o contrato lá está, para ser corrigido e finalmente assinado.
Entretanto, “vá fazendo a tradução, que há alguma pressa“. Fiz, confiante nos valores avançados por email escrito e assinado. Afinal ainda existem valores como a honra e a palavra, ou não? Acabada a tradução, envio esta com a respectiva factura para duas semanas depois vir a saber, também por email assinado, que os valores expressos no contrato que, entretanto, continua por assinar “foram um lapso da administrativa. Junto anexamos contrato com valores corrigidos”. Os valores vinham de facto corrigidos (para menos 2,000 euros), mas as minhas condições contratuais continuam esquecidas!
Com o texto traduzido já lá do outro lado o meu poder negocial, que já não é muito grande de início, fica reduzido a nada. Tenho falado com amigos com actividade semelhante e o panorama parece ser o mesmo e recorrente, não só no plano editorial, pelo que me contam, mas extensivo a todas as actividades que funcionem por tarefa e/ou recibo verde. E então, sem alternativas (fazer o quê? Ir a tribunal? Queixar a quem? E depois? Ficamos sem trabalho?) cerramos os dentes, engolimos a amargura da impotência e apertamos a mão ao diabo!
Em toda a minha vida profissional trabalhei somente para um patrão português. Foi no início da minha carreira e jurei para nunca mais. E assim tem sido até agora! Mais de vinte anos depois pensei que a mentalidade empresarial teria mudado; que as empresas portuguesas teriam percebido entretanto que um negócio bom não é aquele em que se engana (ou explora) o parceiro, mas sim aquele que é feito com transparência e com benefícios para ambas as partes. Que uma relação profissional se pauta pelo respeito mútuo; que um contrato se honra. Enganei-me redondamente!
Razão tinha eu já aos 4 anos de idade. Quando me perguntavam o que eu queria ser quando fosse grande, invariavelmente eu respondia: Estrangeira!
Um aparte: não tem nada a ver com nada, mas ando para dizer isto há imenso tempo e sistematicamente esqueço-me. O meu estado de espírito, que costumo por entre parêntesis no início dos meus posts foram ideia roubada ao ABM. Noto agora que sou a única a fazê-lo; mas a ele se deve o crédito da ideia…





