(por AL sem justificação)

Não tenho particular simpatia por agências internacionais de “apoio humanitário” ou de “auxílio ao desenvolvimento”. Tenho-as visto demasiadas vezes em acção em todo o seu esplendor, para ter por elas qualquer respeito. Uma que “desgosto” particularmente é a Oxfam. Hoje (quase) mudei de ideias.
Abri, como é usual todas as manhãs assim que acordo e enquanto bebo o meu café, o site do jornal Independent e dou com um artigo chamado Rankin in Africa: Images of love in a land of conflict.
Rankin, fotógrafo inglês famoso pelas suas fotos de celebridades, foi convidado pela Oxfam para ir até ao Congo (RDC) fotografar o povo na comunidade de Sange na região leste do país, onde o conflito ainda se mantém. Pretende a Oxfam, obviamente, angariar fundos para os projectos de sanidade e água limpa que tem na região. Pois!
Diz ainda o artigo que a estratégia de Rankin foi fotografar as gentes do Congo com o objecto do seu amor – um parceiro, um livro, um amigo… Pretendia Rankin retirar as pessoas ao miserabilismo das imagens de guerra e sofrimento e retratá-las como qualquer um de nós (nós no sentido do nosso relativo conforto), como seres humanos. Diz Rankin no artigo do Independent: “Queria que as pessoas [os espectadores] se identificassem com a sua [dos fotografados] humanidade, com as expressão dos seus olhos e dos seus rostos. Estas não são nem imagens feias de brutalidade, nem imagens sentimentais de sofrimento. Queria que fossem como que uma imagem do espelho”.

Não podia concordar mais! Já por várias vezes me tenho insurgido aqui no maschamba contra a forma miserabilista com que, particularmente, África e os africanos são retratados; contra a exploração quase pornográfica do sofrimento alheio e contra a falta de respeito e indignidade que tal representa. Alegrei-me por ver um fotógrafo famoso ter esta atitude.
Rankin fotografou uma avó com o neto ao colo, casais jovens, pares de amigos, um miúdo com o seu livro favorito, um homem com a sua viola, e muitos outros. A todos pediu que explicassem porque era aquele/a o objecto do seu amor. Entusiasmei-me com a ideia que me parece fantástica – a de se apresentar o outro que sofre, não no seu sofrimento, que esse a gente conhece por demais, mas sim naquilo que o iguala a nós, no conforto dos nossos amores e na ilusão dos nossos sonhos.
Fui imediatamente ao site correspondente da Oxfam, pronta a redimir-me por todas as minhas críticas passadas e dúvidas presentes. Logo ao abrir da página vejo algumas das fotos de Rankin, reconhecíveis pois ele fotografa toda a gente em frente de um écran branco. Clicam-se nas fotos e aparece o discurso dos retratados. Sim, a razão do amor pelo objecto com que se retratam está lá, mas, sabiamente tecido com o discurso individual, vem o habitual discurso do coitadinho. Pois!
Não mudei de opinião. Portanto!
(por AL muito constipada) –
Tenho andado desarticulada! Fruto talvez da falta de irrigação cerebral provocada pela batalha insana contra a tremenda constipação que me assola. Tanta coisa a passar-se na maschamba… E eu nesta crise de desarticulação que não me deixa juntar dois pensamentos numa frase coerente!
Refugio-me no facebook, esse espaço cibernético para quando não quero, ou não consigo, pensar nem estou muito disposta a alto voos intelectuais. E entre espirros e assoadelas lá me vou entretendo com mais um bocadinho de farmville, ou passeio até ao cafeworld, visitando de caminho o happyaquarium e as minhas manas da sororitylife. Sim, admito que sou uma tonta por este joguinhos palermas. Todos temos idiossincrasias e eu tenho muitas; chamem-me excêntrica!
Tenho também andado às voltas com um post aqui para a maschamba. Arrumando, devagarinho, as quase 2,000 fotografias que recolhi na Índia deparei-me com estas duas pérolas. Foi em Cochim, ao fim da tarde, junto ao porto e ao mercado do peixe. Dois cegos num tuc-tuc armadilhado com dois gigantes altifalantes roufenhos. Ela (en)canta com a sua voz e ele lá vai, literalmente com tacto, dominando a estática. Quem passeia agradece e deixa a sua homenagem na forma de umas rupias. Quem guia o tuc tuc foi mistério que ficou por esclarecer!


São pobres e vivem de esmolas, mas não enganam ninguém; fazem a oferta de um serviço que, não tendo sido solicitado, não deixa por isso de ser agradável ou pitoresco. É honesto! E, por uma estranha associação, vêm-me estes dois cegos à mente enquanto vejo as imagens chocantes da destruição no Haiti.
Comecei interessada em ver e saber mais e acabei enjoada com a pornografia da miséria que prolifera por essa televisão fora. E desarticulada como me sinto, nem consigo explicar bem porque me incomodam tanto os apelos por fundos para grandes (des)organizações humanitárias que devem ir ajudar os aflitos e de quem parece depender a salvação. Ou as imagens e conversas com jovens ainda semi-enterrados, desesperadamente esperando por equipamento retido sabe-se lá onde, que dali os desenterre.
Não me interpretem mal. Estivesse eu assim enterrada, aqueles jornalistas e aquelas câmaras seriam como que um fio a ligar-me à vida; uma quase garantia de que nada de pior me iria acontecer; certamente não me deixariam morrer assim debaixo dos projectores. Mas daqui, deste lado, incomoda-me o que me parece ser uma exploração desmesurada da dor e da miséria e pergunto-me porque não largam eles as câmaras e os microfones e não dão uma ajuda aos voluntários que, desesperadamente tentam, com mãos nuas e míseras barras de ferro, ir deslocando as placas de cimento que soterram, ainda, a vítima que acabou de ser entrevistada. E penso no aumento das audiências e dos fundos para as (des)organizações humanitárias que estão a deslocar-se em massa para o Haiti.
E enquanto navego nos meus jogos insanos do facebook vou pensando nisto e vou sendo bombardeada com mensagens da miséria e de como posso contribuir com fundos. A bem da facilidade e da comodidade as (des)organizações humanitárias foram mais rápidas a abrirem um site no facebook do que o tempo que demora a dizer Haiti. Acreditem ou não, num ápice se abriu uma giftshop, onde posso adquirir uns bonequinhos idiotas e virtuais que simbolizam o meu “gift” ao Haiti e que, depois de por mim comprados, serão postados na minha wall e na wall dos meus amigos. Senti-me afrontada com a imbecilização da ideia e da giftshop. Estarão a fazer troça? E imediatamente me senti mal e culpada de maus pensamentos. Afinal não posso ficar indiferente a um horror tão grande! E se fosse comigo e com a minha família?
Num esforço resolvo então visitar os sites das organizações envolvidas na giftshop. Pelo menos ver onde pensam gastar o dinheiro que angariam. Nada! É para o Haiti e pronto! Desconfio. Depois de muita pesquisa encontrei UM financial statement, referente ao ano de 2007. Fiquei a saber que dos mais de 8 milhões de dólares que a Oxfam recebeu em 2007 ($8.283.401 mais propriamente) somente $752.854 foram gastos em coordenação humanitária, isto é, menos de 10%. Advocacia e campanhas (penso que para angariar os tais fundos) usaram $2.936.878; $1.870.682 ficaram em caixa e os restantes milhões de dólares encontram-se distribuídos por Governação, Desenvolvimento de Afiliação, Comunicações (mais de 1 milhão de dólares), Desenvolvimento e Planeamento de Programas (não implementação, notem), tudo categorias tão obscuras para mim como serão certamente para quem me lê. Ou 2007 foi um ano pobre em calamidades, ou então, estamos a ajudar quem?
E lembrei-me outra vez dos cegos de Cochim, que me pareceram ainda mais limpinhos e honestos! E fiquei outra vez zangada comigo. Porque nesta minha diatribe pareço esquecer-me de tantas organizações meritoriamente desinteressadas. Lembrei-me dos médicos sem fronteiras, da AMI e outras, todas elas meritórias de apreço e que, sem embandeirarem em arco e sem alarde, tanto têm feito. Também têm sites, também usam o espaço cibernético mas, parece-me a mim, fogem da indigência high-tech.