Gosto de ouvir rádio de manhã, enquanto me estou a arranjar na casa de banho. Tenho um velho rádio-despertador roufenho, empurrado para a reforma pelo telemóvel, mas que para o propósito funciona muito bem. Está sintonizado para a Antena 1, não por qualquer opção especial mas sim porque emperrou naquela estacão. Entretanto habituei-me a ouvir em pano de fundo os programas com intervenção popular.
Raramente retenho o que se vai passando. Além de meio ensonada, vou pensando no dia que começa e nas prioridades que vou estabelecendo ou revendo. De tal forma absorta que nem me irrito muito com as musiquinhas que passam. Se acordo bem disposta vou sorrindo com as inanidades que vou ouvindo; comovo-me com algumas intervenções; desculpo os disparates. Se acordo rabugenta não os ouço, escuto mas não ouço. Portanto, ouvir o meu rádio roufenho de manhã na casa de banho, é só lucro!
Muito raramente algo capta a minha atenção. Hoje, não sei bem a que horas, depois de andar a flanar pela casa numa preguiça sem hora enquanto bebia pausadamente a minha litrada de café, ouvi algo que me chamou a atenção. Trata-se da primeira tradução directa do latim para português (se bem entendi, pois só comecei a ouvir mais ou menos a meio) da primeira obra de Galileo Galilei. Sai esta semana que amanhã começa.
Tendo perdido metade da notícia, googlei e fiquei a saber que se vai chamar O Mensageiro das Estrelas e encerra o Ano Internacional da Astronomia, que esteve a cargo de Portugal, que comemorou os 500 anos das primeiras observações celestes feitas com um telescópio, precisamente por Galileu. É provavelmente notícia serôdia, mas para mim foi novidade e, sendo eu uma astrónoma diletante, apeteceu-me assinalar aqui esta publicação.
(por AL em plena frustração e armada em queixinhas) –
Por muito que viva e por muita experiência que vá acumulando, não deixo de me surpreender com a mentalidade retorcida que continua a prevalecer neste país. Isto vem a propósito desta nova fase da minha vida, que tento refazer aqui em Lisboa e, sabem que mais?, quanto mais tempo aqui passo, menos gosto de cá estar. Eu tento, mas desconsigo!
Estou aqui por um acto de vontade e não de devoção. Nada há em Portugal que eu goste verdadeiramente; nunca tive saudades enquanto lá fora. Nunca vim de bom grado e sempre saí com alegria. Mas depois de 15 anos perdida pelo mundo, sabe-me bem estar perto da família.
Claro que preferia ter a família em qualquer outro país – já nem sou esquisita, qualquer outro país servia (neste momento até a Albânia me parece invejável) – mas as filhas decidiram assentar arraiais em Portugal e é cá que tenho os netos.
Desenvolvi mecanismos de defesa. Evito o mais possível sair à rua; tenho TV cabo que me dá acesso ao que se passa nos centros onde se faz diferença; estou ligada ao mundo pela internet; uso o telefone para contactos frequentes. Tento manter a interacção geográfica e cultural com Portugal ao mínimo indispensável. Vou assim criando a ilusão de que estou algures que não onde estou; afinal somos livres de acreditar nas ilusões que escolhemos, verdade?
Mas há que ganhar para pagar estas pequenas mordomias, que me permitem manter a ilusão e ainda fazer umas viagens. Não tendo grandes oportunidades no meu métier normal e que regularmente tenho exercido ao longo da minha vida, virei-me novamente para as traduções. Gosto de fazer traduções; não de romances e textos anódinos, mas sim de livros técnicos, relatórios profissionais e quejandos. Tenho aprendido imenso a fazer traduções.
Recentemente, um contacto numa editora (digo-o com embaraço, sim; nepotismo…) tem-me dado para traduzir livros sobre grandes pensadores em economia e outras questões técnicas, o que me tem dado bastante gozo, para além de algum rendimento que me vai proporcionando. Gosto da actividade. Exercita-me a mente, leio livros interessantes, sou dona do meu tempo e permite-me ficar dentro de portas.
Deparo-me então com a mentalidade corporativa que não consigo entender. Este ano vou já no meu terceiro livro, ainda não me pagaram um cêntimo que fosse, cada vez que submeto uma factura “houve lamentavelmente um engano do nosso lado” e o valor nunca corresponde ao acordado previamente. E não estou a falar de peanuts; só nesta última factura estou a referir-me a mais de 2,000 euros a MENOS!
Aproveitam também, já agora, para acrescentar mais alguma condição pouco favorável para mim, como por exemplo, pagamento a 30 dias depois da publicação do livro, processo sobre o qual não tenho qualquer poder. E senão publicam?, pergunto eu. Isso nunca aconteceu, dizem eles. Sim, mas e se acontecer?, insisto eu. Propõem um contrato (neste processo que se arrasta desde Janeiro) com valores avançados por eles; eu aceito valores e revejo condições; faço algumas anotações para clarificações, por exemplo, quem paga o IVA; que se inclua a data da publicação e que se expresse que será essa a data para pagamento, quer o livro seja ou não publicado, etc. Num pais sem justiça, parece-me ajuizado que os contratos sejam o mais claros possível. Desde Janeiro que o contrato lá está, para ser corrigido e finalmente assinado.
Entretanto, “vá fazendo a tradução, que há alguma pressa“. Fiz, confiante nos valores avançados por email escrito e assinado. Afinal ainda existem valores como a honra e a palavra, ou não? Acabada a tradução, envio esta com a respectiva factura para duas semanas depois vir a saber, também por email assinado, que os valores expressos no contrato que, entretanto, continua por assinar “foram um lapsoda administrativa. Junto anexamos contrato com valores corrigidos”. Os valores vinham de facto corrigidos (para menos 2,000 euros), mas as minhas condições contratuais continuam esquecidas!
Com o texto traduzido já lá do outro lado o meu poder negocial, que já não é muito grande de início, fica reduzido a nada. Tenho falado com amigos com actividade semelhante e o panorama parece ser o mesmo e recorrente, não só no plano editorial, pelo que me contam, mas extensivo a todas as actividades que funcionem por tarefa e/ou recibo verde. E então, sem alternativas (fazer o quê? Ir a tribunal? Queixar a quem? E depois? Ficamos sem trabalho?) cerramos os dentes, engolimos a amargura da impotência e apertamos a mão ao diabo!
Em toda a minha vida profissional trabalhei somente para um patrão português. Foi no início da minha carreira e jurei para nunca mais. E assim tem sido até agora! Mais de vinte anos depois pensei que a mentalidade empresarial teria mudado; que as empresas portuguesas teriam percebido entretanto que um negócio bom não é aquele em que se engana (ou explora) o parceiro, mas sim aquele que é feito com transparência e com benefícios para ambas as partes. Que uma relação profissional se pauta pelo respeito mútuo; que um contrato se honra. Enganei-me redondamente!
Razão tinha eu já aos 4 anos de idade. Quando me perguntavam o que eu queria ser quando fosse grande, invariavelmente eu respondia: Estrangeira!
Um aparte: não tem nada a ver com nada, mas ando para dizer isto há imenso tempo e sistematicamente esqueço-me. O meu estado de espírito, que costumo por entre parêntesis no início dos meus posts foram ideia roubada ao ABM. Noto agora que sou a única a fazê-lo; mas a ele se deve o crédito da ideia…
Chama-se Teresa, a minha neta, mas podia chamar-se Rosa de linda e perfumada que é! São três semanas de vida que cabem nas palmas das minhas duas mãos; quase três quilos de gente em 50 cm de presença. É ainda pequenina a minha neta, mas compensa em genica o que lhe falta em tamanho.
É delicada a minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é. Pigarreia duas vezes num “preparem-se” bem educado e só depois nos brinda com o pranto anunciado.
A minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é tem o rosto em forma de coração; acaba num queixinho que se adivinha voluntarioso e prenunciador de carácter. Os olhos são de um azul profundo, como os da tia-avó Jú; franze o sobrolho ao jeito da avó Antónia. As sobrancelhas e pestanas, foi buscá-las à tia Joana e o pescoço alto copiou da mãe. No equilíbrio dos genes revela bem ser filha de seu pai e a honra da sua mãe.
O cabelo da minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é, é claro e arruivado e remata numa madeixa branca enrolada em remoinho rebelde.
É pequenina a minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é, mas enche-nos a vida e deslumbra-nos o coração!
Vejo-a ocasionalmente quando de manhã cedo vou passear a cadela, ou se, ao fim da tarde, vou à mercearia. Cruzamo-nos; eu no carro e ela a pé, com o filho nos braços. É nova, muito nova mesmo, aí pelos seus vinte anos mal medidos. O menino deve rondar os dois anos de idade. Mora ao fundo da rua íngreme que, a ocidente, ladeia a quinta que temos para os lados da Costa.
De manhã, vai ela subindo a ladeira com a mala a tiracolo, um saco na mão que, presumo, contenha a marmita com o almoço e lanche para o filho. Com o braço que lhe sobra abraça o filho que carrega ao colo. Ela franzina, cabelo comprido, rosto bonito e marcado já pela crueza da vida; o menino faz-me lembrar as ilustrações de um livro que tive na infância e que se chamava “O Pequeno Lorde”. Cabelos louros com ondulado de anjo, repousa a cabeça no ombro dela e olha o mundo com olhos inchados ainda pelo sono. As mãozinhas papudas rodeiam o pescoço da mãe, fazem-lhe uma festa ocasional no cabelo e movimentam-se a pontuar algo que lhe vai contando.
Sei que vão conversando um com o outro, não porque os ouça, mas porque lhes vejo o movimento dos gestos e o sorriso que lhe atravessa, a ela, o rosto cansado. Nada sei sobre eles, mas comovo-me sempre que me cruzo com a intimidade terna que, ladeira acima, ladeira abaixo, os une e envolve.
Mulher 2
Queria ser médica; a mãe era doente e o sonho dela era estudar muito e ser médica e descobrir um remédio que tirasse a mãe do sofrimento em que vivia.
Apurava-se nas aulas e veio um dia um senhor do Ministério da Educação que lhe falou da escola especial que havia lá na capital, para meninas como ela, que queriam ser médicas. Os pais desconfiaram de tanta esmola, mas ela insistia. Afinal o senhor não era um qualquer, era do Ministério da Educação, instituição idónea do governo que os libertara do jugo colonial. Os pais ainda renitentes quiseram conhecer o tal senhor. Sim, era verdade, tratava-se de um programa especial para jovens futuros quadros. Mostrou credencial e identificação. Ela chorou, insistiu, amuou, usou todas as armas que os catorze anos lhe punham à disposição até que, por fim, lá partiu rumo à capital embalada no sonho da escola de medicina pela voz do senhor do Ministério da Educação.
O edifício era grande, imponente, rodeado de altos muros. Para protecção, disseram-lhe, que o país ainda estava em guerra. Entrou. Era afinal um quartel, fez instrução militar e lutou durante 10 anos numa guerra que não entendia. Foi desmobilizada sem mais instrução que a que tinha aos catorze anos. Mas não desistiu. Afinal tinha agora 24 anos, era nova e tinha vontade.
Com mais instrução que a maioria das mulheres guerrilheiras, arregaçou as mangas e lutou pelos seus direitos e pelo reconhecimento do papel destas mulheres no destino do país. Matriculou-se no ensino à distância; aprendeu inglês; tirou um curso de assistência social. Casou e teve três filhos – dois meninos e uma menina, todos a estudarem. Aprendeu a escrever propostas de financiamento, a falar com doadores, a argumentar com políticos, a discursar em seminários e conferências. Aos fins-de-semana ainda se junta com as amigas no pátio das traseiras da sua casa, onde se enfeitam com tranças e penteados, enquanto desenrolam as histórias da vida que lhes aconteceu. Esta mulher eu conheço: é minha amiga!
Mulher 3
Vamos chamar-lhe Ana porque na realidade pode ter um nome qualquer. É surda-muda e nada sabe contar sobre si mesma. Teve sorte a Ana, vive num orfanato de meninas que se pauta pela dedicação de quem lá trabalha. Quem lhe preencheu a ficha de inscrição, foi quem a baptizou. Aqui baptizo-a eu com o meu nome.
Tinha onze anos quando a polícia a encontrou a vaguear sozinha pelas ruas. Não tinha papéis consigo; fizeram-se apelos na rádio e na televisão. Ninguém se apresentou a reclamá-la.
Tem um rosto alegre, olhos vivos e inteligentes, é uma criança feliz. Brinca com as outras e desenvolveu a sua linguagem gestual muito própria, que lhe permite alguma comunicação funcional; entendem-se nas coisas do quotidiano, mas faltam-lhe os gestos para emoções e conceitos abstractos. Vai com as amigas à escola, para que não se sinta ainda mais diferente. Não escreve, desenha palavras, pois desconhece o conceito da palavra que copiou do gesto das amigas. O país dela é pobre e não tem escolas de ensino especial.
Com o consolidar das novas vivências vai-se perdendo a sua identidade. Porque a Ana não consegue comunicar como foi a sua vida até ser apanhada pela polícia; nasceu aos 11 anos de idade.
Mulher 4
Chama-se Palmira Marques e escreveu este poema sobre as mulheres timorenses:
Carregas no olhar
os azuis das montanhas,
onde as lágrimas secaram
e esperas…
esperas que regressem
aqueles que pereceram
às mãos dos ocupantes.
Sentada no tear
teces a tais
e silenciosa continuas a aguardar
que o teu filho, o teu pai, o teu irmão
voltem para casa,
porque a libertação já chegou!
Mulher timorense
com muito carinho
ergues altares e acendes velas
levas flores aos teus mortos:
ao Manelito,
ao Adelino,
e a tantos outros que pereceram…
Mas tu MULHER Timorense
com tuas mãos vais construir uma Nação!!
Nota de pé de página
Hoje é dia 8 de Março de 2010 e faz hoje 100 anos que se celebra o Dia Mundial da Mulher.
Joan Bardeletti, fotógrafo francês, ganhou o segundo prémio na categoria de Imagens da Vida Diária com esta fotografia chamada picnic de domingo, tirada em Moçambique.
O nosso calendário encontra-se pejado de dias assinalados com festas e celebrações públicas e privadas. Algumas agradam-nos a todos cá em casa, outras somente a alguns do nós; há dias que nos deixam indiferentes e depois há aqueles dias que nenhum de nós gosta.
De longe, a celebração favorita cá de casa é o Natal. Neste pequeno agregado familiar de 8 pessoas e meia (incluindo o meu neto de dois meses e sendo a “meia”, a minha neta que nos bate à porta) alimentam-se os pequenos gestos tradicionais e consegue-se escapar, tanto quanto possível ao comercialismo vigente. Mas isto será matéria para outro post lá mais para o fim do ano.
Já o Ano Novo, tal como o Carnaval, encontra poucas simpatias por estas bandas; parece que nunca percebemos muito bem esta coisa da alegria com hora marcada e da folia por calendário.
A Páscoa é para nós um deleite de paganismo, com ovos pintados e grande refeição familiar de omelette em dias de pintura, e na confecção de amêndoas de chocolate, deliciosas e que a minha Mãe teima em manter como receita familiar exclusiva.
Algumas festas foram por nós importadas de outras partes e celebradas de forma intermitente, como as lanternas de S Martinho que deixámos em pousio quando as crianças cá de casa se tornaram adolescentes e que esperamos retomar quando na família tivermos novamente crianças que já não precisem de colo. Os magustos fazíamo-los quando vivíamos na província e caíram em desuso quando, depois de anos de diáspora, nos juntámos novamente por Lisboa. Outras festas deixaram de ser celebradas cá em casa por falta de quorum, como a festa das comadres e dos compadres e o Thanks Giving Day.
Um dia que nunca foi celebrado cá por casa foi o dia de hoje, o 13 de Fevereiro, pela simples razão de que nada havia para o assinalar. Mas uma mensagem que recebi hoje de manhã, suspeito, vai alterar para sempre a nossa relação com este dia. Chegou às 8:29. Dizia: “Já estamos no hospital e epidural já dada. Está tudo bem mas ainda demorado. Ligo quando houver mais novidades.” O remetente é o meu genro João. É a minha neta, ainda anónima, que nos bate à porta neste dia 13 de Fevereiro!
Não tenho particular simpatia por agências internacionais de “apoio humanitário” ou de “auxílio ao desenvolvimento”. Tenho-as visto demasiadas vezes em acção em todo o seu esplendor, para ter por elas qualquer respeito. Uma que “desgosto” particularmente é a Oxfam. Hoje (quase) mudei de ideias.
Rankin, fotógrafo inglês famoso pelas suas fotos de celebridades, foi convidado pela Oxfam para ir até ao Congo (RDC) fotografar o povo na comunidade de Sange na região leste do país, onde o conflito ainda se mantém. Pretende a Oxfam, obviamente, angariar fundos para os projectos de sanidade e água limpa que tem na região. Pois!
Diz ainda o artigo que a estratégia de Rankin foi fotografar as gentes do Congo com o objecto do seu amor – um parceiro, um livro, um amigo… Pretendia Rankin retirar as pessoas ao miserabilismo das imagens de guerra e sofrimento e retratá-las como qualquer um de nós (nós no sentido do nosso relativo conforto), como seres humanos. Diz Rankin no artigo do Independent: “Queria que as pessoas [os espectadores] se identificassem com a sua [dos fotografados] humanidade, com as expressão dos seus olhos e dos seus rostos. Estas não são nem imagens feias de brutalidade, nem imagens sentimentais de sofrimento. Queria que fossem como que uma imagem do espelho”.
Não podia concordar mais! Já por várias vezes me tenho insurgido aqui no maschamba contra a forma miserabilista com que, particularmente, África e os africanos são retratados; contra a exploração quase pornográfica do sofrimento alheio e contra a falta de respeito e indignidade que tal representa. Alegrei-me por ver um fotógrafo famoso ter esta atitude.
Rankin fotografou uma avó com o neto ao colo, casais jovens, pares de amigos, um miúdo com o seu livro favorito, um homem com a sua viola, e muitos outros. A todos pediu que explicassem porque era aquele/a o objecto do seu amor. Entusiasmei-me com a ideia que me parece fantástica – a de se apresentar o outro que sofre, não no seu sofrimento, que esse a gente conhece por demais, mas sim naquilo que o iguala a nós, no conforto dos nossos amores e na ilusão dos nossos sonhos.
Fui imediatamente ao site correspondente da Oxfam, pronta a redimir-me por todas as minhas críticas passadas e dúvidas presentes. Logo ao abrir da página vejo algumas das fotos de Rankin, reconhecíveis pois ele fotografa toda a gente em frente de um écran branco. Clicam-se nas fotos e aparece o discurso dos retratados. Sim, a razão do amor pelo objecto com que se retratam está lá, mas, sabiamente tecido com o discurso individual, vem o habitual discurso do coitadinho. Pois!
Queixam-se os meus co-maschambeiros dos meus posts de viagens e outras parvoíces afins, em detrimento de posts potencialmente mais interessantes sobre o que é ser avó. Insinuam mesmo que estarei eu, quiçá, numa fase de negação da provecta idade avoenga que me vai corroendo as juntas e as cruzes. Vou hoje falar do meu neto.
O Benjamim chegou dia 17 de Novembro de 2009 ao seio de uma família em êxtase com o acontecimento. Devidamente registado para se firmar bem na sua cepa; passou com nota máxima no teste do pézinho; já levou dois furos nos pneus, que o inocularam contra diversas doenças manhosas. Tem o sono dos justos e o feitio manso de alguém da família que não a avó. De Cascão não tem nada; adora o banho, onde aproveita para bicicletar com tal vigor que já andamos a pensar em adquirir aventais de plástico. Gosta da água bem quentinha e de tomar banho com vagar. Quando lhe apetece saborear melhor o seu banho, lambe as mãozinhas e alterna expressões de riso e alegria com a pura concentração do exercício físico extenuante que é, para ele (e para nós), o banho.
Não foi circuncidado. Não por qualquer razão ideológica ou religiosa, mas simplesmente porque não. De bens possui uma família babada e um guarda-roupa esmerado ainda que sem grifes ou marcas. Cá em casa não gostamos de fazer de bilboards para ninguém, ainda por mais pagando por isso! Era o que faltava!
É a cara da mãe, embora sendo eu a avó materna tal afirmação possa parecer suspeita. Mas se se vier a parecer com o pai, também não fica mal, pois é o pai dele um homem muito bem apessoado.
É tão lindo o meu neto Benjamim que até dói! São 60 cm de alegria pura e sem malícia, com um cheiro doce a leite. Duas amêndoas negras abrem-se para um mundo cheio de coisas novas a descobrir. Palra e ri-se agora, do alto dos seus 2 meses de vida. Olha-nos com a confiança de quem ainda só foi amado.
Gosto de empiná-lo ao meu ombro, por sobre o qual ele pode ver o globo terrestre com África estrategicamente posicionada no seu campo de visão. E conto-lhe então como vai ser quando fugirmos os dois para África, onde o vou deixar correr nu pela praia. Guuu, diz ele. Na maré baixa, vamos os dois apanhar amêijoas, digo-lhe baixinho. Grrrr responde ele em de-leite. Quando tiveres cinco anos já hás-de saber cortar cocos com uma catana, para a Avó beber coco lenho como ela tanto gosta. Guuu-grrrr ri ele na cumplicidade da pilhéria. Rimos os dois.
Depois conto-lhe que em Dezembro havemos de ir a Tete ver os embondeiros floridos e provar do seu fruto; vamos também ao Niassa para veres como é um mar de água doce. Chama-se lago. Guuuu responde ele já em planos de viagem. Em Nampula, havemos de aterrar por entre cabeços redondos e depois vamos para a Ilha. Aaaaaa, palreia ele. Havemos também de ir à Zambézia! Tantos coqueiros como nunca viste e colinas e um rio imenso que agora já tem ponte mas que a Avó ainda atravessou de batelão. Aaaaaa continua ele extasiadamente. E eu continuo a viajar na memória, agora por ele acompanhada, e conto-lhe do Tofo e da Barra, de Inhambane e do Morrungulo, de Magaruque, Benguerua, Sta Carolina e Bazaruto, subimos ao Ibo, passamos por Zanzibar e pernoitamos em Mombassa.
Juntos atravessamos a baía de Luanda e vamos banhar-nos no Mussulo. Quando tiveres seis anos hás-de começar a surfar; vamos até Cabo Ledo, para aí te iniciarmos. Depois subimos por aí fora e vamos a Timbuctu, compramos peixe em Mopti. Grrrr gaaaaa…. Havemos de ir ao Kruger cheirar o mato e ver os animais. Conto-lhe a história do cão do macaco e da vaca, que vão passear de machibombo.
E vão-se-lhe fechando os olhos no cansaço da viagem, até que adormece encostado no meu ombro. E nesse momento, também eu fico em paz.
Têm sido diversas as reacções à abertura do grupo maschamba no facebook, mas uma delas, bastante gratificante por acaso, tem sido a quantidade de sugestões que tenho recebido de amigos. Hoje foi a minha amiga Docha que me enviou fotos de táxis renováveis nas Filipinas com a legenda “era giro pores no maschamba“. São giros os veículos, com a carroçaria inteiramente construída em bambu num esqueleto de metal, montada num motoreco alimentado a óleo de coco!
Sendo de bambu, que volta a crescer depois de cortado, e alimentados a biodiesel produzido a partir do óleo de coco, produtos autóctones, não põem pressão acrescida no ambiente nem tampouco interferem com terras de cultivo. Além de que abrem espaço para a abertura de pequenas unidades industriais nas zona rurais onde a matéria prima abunda, apoiando ainda o desenvolvimento de artes tradicionais como as esteiras.
Como o bambu é leve e extremamente resistente, consomem relativamente pouco combustível e oferecem relativa segurança, embora dificilmente passassem os testes de segurança exigidos no mundo ocidental. Mas, hei!, que eu saiba as Filipinas não têm uma indústria automóvel a proteger, ou têm? Sendo leves, não necessitam de motores de grande cilindrada, pelo que nunca atingem velocidades que façam perigar a integridade dos passageiros. Dizem os entendidos que são ideais para estradas rurais e pequenos percursos em cidades congestionadas e poluídas.
Enfim, e só lucro! Uma boa ideia cheia de potencial.
(por AL ainda constipada, afónica e farta do Inverno)
Não tenho ido muito ao cinema, mas vi recentemente um filme que me agradou particularmente e que me remeteu para um outro de há uns anos atrás. Sao dois filmes sul-africanos; ambos abordam a exclusão social e neles se assiste ao processo de humanização dos protagonistas, se assim posso dizer, ainda que de perspectivas e com abordagens completamente diferentes.
Tsotsi, baseia-se numa novela de Atol Fugard, adaptada para o cinema por Gavin Hood e ganhou em 2006 o Oscar para Melhor Filme em Língua Estrangeira. A novela de Fugard passa-se em Sophiatown, uma township destruída nos anos 50 para dar lugar a um subúrbio branco. A acção desenrola-se no ambiente de opressão do apartheid e ilustra o racismo, a terrível pobreza da maioria da população negra e a violência da época. O primeiro rascunho da novela foi escrito nos anos 60, mas a novela acabou por ser publicada somente nos anos 80. Transposto para a África do Sul dos dias de hoje, pós-apartheid, o filme continua tão actual como o era a novela na altura em que foi escrita, mostrando a terrível pobreza em que a maioria da população negra continua a viver na África do Sul e a violência que parece não ter diminuído, bem como a exclusão social gerada pela política do apartheid, na novela e pela pobreza e pela violência, no filme.
Na novela Tsotsi, o protagonista, é um jovem sem memória do passado; no filme é um jovem gangster do Soweto, igualmente sem passado e sem memória. A violência é para Tsotsi (na novela e no filme) o motor da sua vida e um simples mecanismo de sobrevivência, para quem, como ele, vive num presente permanente – senão tem passado não tem também qualquer futuro, nem sonhos, nem ambições.
A vida de Tsotsi muda radicalmente no dia em que encontra um bebé abandonado, na novela; no filme, raptado juntamente com um carro de luxo. O processo de humanização de Tsotsi começa com a confusão que o avassala quando ele não consegue simplesmente matar o bebé e com ele se identifica – ambos vulneráveis e ambos sem história. E protegendo o bebé Tsotsi vê-se de repente “vítima” de empatia (um sentimento até aí seu desconhecido), forçado a confiar e a ligar-se a outros e vê abrir-se-lhe um mundo de alternativas, de futuro. Tudo isto sem melodramas açucarados e de lágrima fácil, numa acção pontuada por uma banda sonora fenomenal. No filme, claro; para ler a novela recomenda-se o silêncio requerido por um bom livro.
O filme que recentemente vi e que me remeteu para Tsotsi tem um registo completamente diferente e chama-se Distrito 9. É um filme de ficção científica.
Uma nave espacial avariada imobiliza-se por cima de Joanesburgo. Vinte e oito anos depois do primeiro contacto, os extraterrestres, umas criaturas bizarras a quem os humanos chamam Prawns (camarões), foram tratados como refugiados e confinados a um acampamento, a que o governo da África do Sul chamou Distrito 9, enquanto os líderes mundiais debatem como abordar a situação. Mas os humanos não vêem com bons olhos esta acomodação e conforme a tensão vai subindo, o governo atribui a tarefa de controlar os extra-terrestres a uma empresa privada, a Multi-National United. O interesse da MNU, no entanto, centra-se no armamento que os extraterrestres trazem consigo e que os humanos não sabem como utilizar.
O protagonista é um funcionário do MNU – Wikus van der Merwe – que sofre um acidente que lhe provoca uma mutação no seu ADN, mutação essa que lhe permite o uso das armas extraterrestres. Wikus torna-se assim na chave que poderia desvendar o segredo dessas armas. Funcionário zeloso e orgulhoso do seu trabalho até à data do acidente, olhando para os extraterrestres com uma mistura de fascínio, paternalismo e desprezo, Wikus vê-se de repente confrontado com os preconceitos que anteriormente personificara. Ostracizado e isolado Wikus refugia-se no Distrito 9 onde se completa o seu processo de identificação com o “outro”, iniciado com o acidente que lhe causou a mutação do ADN.
Dois filmes notáveis, ambos sobre redenção sem heroísmos e sem choradinhos, e que recomendo vivamente aos leitores maschambianos.
Ah como eu gostava delas! Como me revia nas suas conversas! Como se pareciam comigo e com as minhas amigas quando em conversas de mulherio nos juntávamos…
Elas, claro, em Manhattan, com Starbucks nas mãos e Blahnicks nos pés; nós, na Benard, com calçado anónimo, bebíamos chávenas de Tetley (era o que havia, era o que havia). Mas falávamos todas do mesmo: homens, amor e sexo. Quem eles eram; onde paravam e o que faziam; como beijavam; eram bons na…? Sim, admito que trocávamos notas e que passávamos, a elas notas e a eles homens, umas às outras.
Ai, com esse não que andas a perder tempo; é só fachada! Esse? Hmmm, dei-lhe uma vez um beijo e não foi nada de especial… Aquele ainda tem muito que aprender; se tiveres pachorra… Tem cuidado que esse é um predador emocional! Não posso acreditar que ele te disse isso! Não vão acreditar com quem eu estive ontem e no que trago para contar!
E misturavam-se as ansiedades das etiquetas com o telefone e do que faço quando o vir outra vez?; do que acham que ele quis dizer quando…?; e das interrogações confudidas do já alguma vez estiveram com um que…
Continuávamos pela tarde fora em conversas de bravata a desfolhar proezas; ou em conversas de desgostos amargos, a sarar feridas com a raiva vingadora das amigas; ou em conversas de sonhos de vida eterna que nem as certezas delas conseguiam resguardar do descalabro que aí vinha. E todas nós nos revíamos na Carrie, na Miranda, na Charlotte e na Samantha. E tínhamos também o nosso Mr Right para mal dos nossos pecados; cada uma o seu, claro! Eu deleitava-me nessa cumplicidade que me acolhia depois das prolongadas ausências por terras alheias, onde via a série por atacado e com a qualidade dúbia dos videoclubes. Reconfortavam-me, davam-me um sentido de pertença depois de meses a ser estrangeira em mim. Deixavam-me entrar de mansinho no quotidiano não partilhado das outras e afastavam-me do que com elas não conseguia partilhar. Assim, estilo calçadeira de sapato para amizades interrompidas.
Cada uma tinha também a sua favorita e eu venerava a Samantha e os seus toy-boys! A verve com que ela os agarrava, usava e descartava! Aquilo sim é que era pinta! E ainda por cima era desbocada:
My name’s Samantha and I’m a loveaholic.
Well, I don’t know how you people do it. All that emotional chow-chow. It’s exhausting.
If we could perpetually do blowjobs to every guy on earth, we would own the world. And at the same time have our hands free.
Nós, e penso que muitas outras como nós, adorávamos o Sex and the City. Era como que uma afirmação da nossa emancipação e da nossa sexualidade; assim estilo flower-power finalmente casa com o Faubourg de Saint-Honoré. Para nós, foi o corte final com o mito da imagem em proporção inversa ao intelecto. Agora podíamos ser inteligentes, cultas e profissionais, mas também bonitas, depiladas, arranjadas e fúteis. Quase chorámos quando a série acabou! Chorámos pelo fim e por causa do fim. Onde é que já se viu! Não nos caíu bem que a palonça da Carrie andasse feita dama das camélias por Paris (embora o cenário fosse o adequado); que o palerma do Mr Right, depois de tudo o que lhe fez, fosse a correr com um ramo de flores (digam lá se há cliché mais piroso!) e a atolantada derrete-se que nem rebuçado em boca de bébé a começar a dentição! Valha-nos deus! Arruinaram anos, ouviram?, anos fabulosos com este fim serôdio!
Depois apareceu o filme. Fomos todas ver! Juntas novamente! Mais maduras agora, estabelecidas noutros sonhos e noutras heroínas. Com outras guerras para lutar. Mas unidas pela cumplicidade desses anos, lá nos metemos na calçada da memória e aí fomos nós. A desilusão do último episódio sagrou-se com o filme. Não que fossemos à espera de um fino recorte cinematográfico, mas ao menos UMA, UMA daquelas conversas fabulosas do estilo da Charlotte a descrever um loverboy não circuncidado: Tinha tanta pele que parecia shar-pei!
Não, o filme tinha sido depurado, sanitizado. O factor “mulher independente, desbocada e assertiva” tinha desaparecido e as nossas “meninas” nao passavam de donas de casa desesperadas em roupas de assinatura! Fomos defraudadas! E agora, juntando insulto a injúria, vem aí a sequela!
Falava aqui há dias o JPT nos Xutos para crianças na infantilização duma rebeldia geracional em favor da mercantilização de um produto com mercado descendente (quiçá esgotado?). Pus-me a pensar e agora pergunto-me, será que no Natal de 2020 a minha neta vai receber o Sex and the City 47, em versão capa rija?
É este o convite que acaba de chegar à minha parede do facebook e que aqui divulgo. Eis o que diz a organização:
Estamos todos tão perto, mas tão longe, que resolvemos promover um reencontro de malta de Moçambique, numa “Mistura de Sabores”, identidades, memórias, passados e presentes… Apareçam! Divulguem! Colaborem! Para que este seja o primeiro de muitos momentos futuros de partilha. Famílias e simpatizantes “coca-cola” são obviamente bem vindos. Aliás, decidimo-nos por um almoço pensando precisamente nos descendentes, pequenos demais para sairem à noite.
O repasto decorrerá no restaurante “Mistura de Sabores“, em Sintra – R. D. António Correia de Sá, nº2, Várzea de Sintra. Sugiro que consultem o link, mas deixamos desde já os detalhes de maior importância: 18.50 Euros, por adulto; crianças até os 10 anos pagam metade, crianças até os 4, não pagam nada. O menu é composto por entradas, grelhado de carnes variadas, sobremesa, e bebidas à descrição.
Para quaisquer outros esclarecimentos, questões, informações e outros ões semelhantes, não hesitem em contactar o restaurante, no link aqui indicado.
Agradecíamos que confirmassem presença até o dia 5 de Fevereiro e a não comparência após confirmação, implica o pagamento obrigatório do elemento em falta, pelo que levem isso em atenção por favor.
Aguardamos Vossa resposta,
Beijinhos e abraços,
Teresa e Katija
Acrescento somente que podem consultar a pagina que as organizadoras abriram no facebook e verem quem vai, quem não vai, quem não sabe ainda se vai. Ah, e também que o site do restaurante tem uma musiquinha irritante que só se fina quando clicamos no fundo da página, do lado direito, numa nota musical que lá está, mas mal se vê.
Por um lapso meu, a data do almoço não foi incluída. Aqui fica então: Sábado, 13 de Fevereiro - 13:00 horas no restaurante indicado
Tenho andado desarticulada! Fruto talvez da falta de irrigação cerebral provocada pela batalha insana contra a tremenda constipação que me assola. Tanta coisa a passar-se na maschamba… E eu nesta crise de desarticulação que não me deixa juntar dois pensamentos numa frase coerente!
Refugio-me no facebook, esse espaço cibernético para quando não quero, ou não consigo, pensar nem estou muito disposta a alto voos intelectuais. E entre espirros e assoadelas lá me vou entretendo com mais um bocadinho de farmville, ou passeio até ao cafeworld, visitando de caminho o happyaquarium e as minhas manas da sororitylife. Sim, admito que sou uma tonta por este joguinhos palermas. Todos temos idiossincrasias e eu tenho muitas; chamem-me excêntrica!
Tenho também andado às voltas com um post aqui para a maschamba. Arrumando, devagarinho, as quase 2,000 fotografias que recolhi na Índia deparei-me com estas duas pérolas. Foi em Cochim, ao fim da tarde, junto ao porto e ao mercado do peixe. Dois cegos num tuc-tuc armadilhado com dois gigantes altifalantes roufenhos. Ela (en)canta com a sua voz e ele lá vai, literalmente com tacto, dominando a estática. Quem passeia agradece e deixa a sua homenagem na forma de umas rupias. Quem guia o tuc tuc foi mistério que ficou por esclarecer!
São pobres e vivem de esmolas, mas não enganam ninguém; fazem a oferta de um serviço que, não tendo sido solicitado, não deixa por isso de ser agradável ou pitoresco. É honesto! E, por uma estranha associação, vêm-me estes dois cegos à mente enquanto vejo as imagens chocantes da destruição no Haiti.
Comecei interessada em ver e saber mais e acabei enjoada com a pornografia da miséria que prolifera por essa televisão fora. E desarticulada como me sinto, nem consigo explicar bem porque me incomodam tanto os apelos por fundos para grandes (des)organizações humanitárias que devem ir ajudar os aflitos e de quem parece depender a salvação. Ou as imagens e conversas com jovens ainda semi-enterrados, desesperadamente esperando por equipamento retido sabe-se lá onde, que dali os desenterre.
Não me interpretem mal. Estivesse eu assim enterrada, aqueles jornalistas e aquelas câmaras seriam como que um fio a ligar-me à vida; uma quase garantia de que nada de pior me iria acontecer; certamente não me deixariam morrer assim debaixo dos projectores. Mas daqui, deste lado, incomoda-me o que me parece ser uma exploração desmesurada da dor e da miséria e pergunto-me porque não largam eles as câmaras e os microfones e não dão uma ajuda aos voluntários que, desesperadamente tentam, com mãos nuas e míseras barras de ferro, ir deslocando as placas de cimento que soterram, ainda, a vítima que acabou de ser entrevistada. E penso no aumento das audiências e dos fundos para as (des)organizações humanitárias que estão a deslocar-se em massa para o Haiti.
E enquanto navego nos meus jogos insanos do facebook vou pensando nisto e vou sendo bombardeada com mensagens da miséria e de como posso contribuir com fundos. A bem da facilidade e da comodidade as (des)organizações humanitárias foram mais rápidas a abrirem um site no facebook do que o tempo que demora a dizer Haiti. Acreditem ou não, num ápice se abriu uma giftshop, onde posso adquirir uns bonequinhos idiotas e virtuais que simbolizam o meu “gift” ao Haiti e que, depois de por mim comprados, serão postados na minha wall e na wall dos meus amigos. Senti-me afrontada com a imbecilização da ideia e da giftshop. Estarão a fazer troça? E imediatamente me senti mal e culpada de maus pensamentos. Afinal não posso ficar indiferente a um horror tão grande! E se fosse comigo e com a minha família?
Num esforço resolvo então visitar os sites das organizações envolvidas na giftshop. Pelo menos ver onde pensam gastar o dinheiro que angariam. Nada! É para o Haiti e pronto! Desconfio. Depois de muita pesquisa encontrei UM financial statement, referente ao ano de 2007. Fiquei a saber que dos mais de 8 milhões de dólares que a Oxfam recebeu em 2007 ($8.283.401 mais propriamente) somente $752.854 foram gastos em coordenação humanitária, isto é, menos de 10%. Advocacia e campanhas (penso que para angariar os tais fundos) usaram $2.936.878; $1.870.682 ficaram em caixa e os restantes milhões de dólares encontram-se distribuídos por Governação, Desenvolvimento de Afiliação, Comunicações (mais de 1 milhão de dólares), Desenvolvimento e Planeamento de Programas (não implementação, notem), tudo categorias tão obscuras para mim como serão certamente para quem me lê. Ou 2007 foi um ano pobre em calamidades, ou então, estamos a ajudar quem?
E lembrei-me outra vez dos cegos de Cochim, que me pareceram ainda mais limpinhos e honestos! E fiquei outra vez zangada comigo. Porque nesta minha diatribe pareço esquecer-me de tantas organizações meritoriamente desinteressadas. Lembrei-me dos médicos sem fronteiras, da AMI e outras, todas elas meritórias de apreço e que, sem embandeirarem em arco e sem alarde, tanto têm feito. Também têm sites, também usam o espaço cibernético mas, parece-me a mim, fogem da indigência high-tech.
Há dias o meu amigo Miguel Barros, Africanista recente mas já viciado, postou esta sua foto no facebook. Despertou-me a memória vívida de um fim de tarde mágico em Benguerua, sentada na areia ainda morna da praia à espera do dhao que nos vinha buscar. Eram assim as cores do nosso céu de então; o ar doce e manso, o mar adormecido em efeitos de seda. Deitados na proa do dhao, cruzámos a baía embalados pelo arrufo da água no casco, só quebrado pela conversa do vento com as velas. O matiz de cores foi-se esbatendo para dar lugar à luz ocre da lua que nascia. Lá à frente, a Ponta de S Sebastião, ao nosso lado deslizou Magaruque; cresciam os coqueiros que bordam Vilankulos. Tempo e espaço cristalizados num momento perfeito e que nada se atrevia a perturbar. Já perto da vila começaram os tan-tans dos pescadores, a pastorearem o peixe para o redil dos baixios, onde a maré vazia os deixaria encurralados e presa fácil. Da margem, o ocasional ulular de uma mulher. Acostámos em frente à casa, numa magia de verbo sufocado e palavras supérfluas.
Viajei já por quase todo o mundo mas memórias vívidas assim só as tenho de África, continente excessivo e (mal) amado. Aqui deixo uma para estreia no Maschamba, uma carta de amor, ridícula como se querem as cartas de amor. África, África minha, a minha África…