Sven Goran Eriksson, selecionador/treinador da Costa do Marfim
Archive for the ‘África do Sul’ Category
O Estratega
Quarta-feira, Junho 16th, 2010A POLÍTICA DAS GALINHAS
Segunda-feira, Junho 14th, 2010por ABM (14 de Junho de 2010)
A cadeia de comida rápida Nando’s, que vende galinhas grelhadas na África do Sul e noutros países (tiveram uma loja em Portugal mas durou pouco), tem a particularidade de na sua imagem institucional ainda reter algumas coisas dos portugueses, como a sua história e aquele galo lá em cima que me parece muito com os de Barcelos (o piri-piri é de Moçambique), mas, mais importante, recorrem à publicidade mais estapafúrdia para vender os seus produtos.
Com pedidos de desculpas para os menos letrados na língua inglesa, vejam-se abaixo dois dos anúncios que foram utilizados recentemente na África do Sul.
Um, parodia o actual presidente sul-africano, que se casou pela quinta vez recentemente, e que antes da eleição esteve metido num processo judicial por violação duma mulher. Mas a base da piada é a tese de que fora da África do Sul toda a gente pensa que os homens todos têm mais que uma mulher. Daqui ao prato de galinha frita, não sei.
O outro parodia Julius Malema, um jovem quadro do ANC que parece que quer correr com os brancos daquele país à paulada, e o trocadilho que há na língua inglesa, associado à palavra change, que pode querer dizer “mudança” mas também “troco”. Neste caso, o Julius começa por dizer que o que o seu país precisa é de change (mudança) mas depois explica como ele obtém change (troco) quando vai ao Nando’s comprar galinha.
Não sei bem como é que isto se traduz em termos do número de pernas de galinha vendidas.
As Trompas Identitárias : Boletim do Mundial nº 7
Sexta-feira, Junho 11th, 2010Ainda que a origem da vuvuzela seja discutida parece pacífico atribuir a sua “invenção” ao adepto dos Kaizer Chiefs Freddie Maake, um hooligão orgulhoso do cognome que ostenta, “Saddam”. A história que narra sobre a “sua” (?) “invenção” é interessante, a da adaptação da buzina de uma bicicleta aquando da sua meninice (anos 60s) e posterior evolução decibélica na década passada e sua imediata industrialização. A vuvuzela surge então como um must, um paradigma do tom “pós-moderno”. A sua imediata aparência de ícone cultural ancestral, filiado no corno soprado em antiquérrimos, míticos e até mágicos momentos, nas savanas ou planaltos austrais, casa de imediato com outro ícone muito actual, o do conceito “palimpsesto” [que é, mas isso é outra conversa, um "nada" intelectual inchado de cagança explicativa].
De facto o facto da vuvuzela ser uma “construção”, adaptação muito recente, nada lhe retira, os traços identitários socioculturais não exigem – quantas vezes é bem pelo contrário – qualquer antiguidade que os “legitime”. Mas o interessante é o facto do desconhecimento da sua realidade passada, e assim do seu imediato remeter para um “sopro gentílico”, providenciar a aceitação acrítica das suas características simbólicas. E também de permitir a homogeneização do universo ao qual se decide aplicar a característica de “simbolizado” sob a égide da vuvuzela.
A trompa plástica surge então como um delicioso (quando calada, claro) exemplo dos processos de exo-simbolização e de exo-categorização, sempre simplificadores do alheio, seja na desvalorização preconceituosa seja na valorização preconceituosa. Ignorantes atitudes apenas distintas na posição moral que reclamam, surgindo sempre a (“multiculturalista”) valorização como arrogando-se a uma supremacia moral, filha que é da “superioridade moral da esquerda”, mana que é dos piores totalitarismos que conhecemos em vida. Ou seja, “eles” (aqueles a quem prezamos ou aqueles a quem aderimos; ou, a outra face de Juno, aqueles a quem desprezamos) são os “vuvuzelas” – forma de pensar que há para aí cem anos se chamava “totemismo”.
Essa homogeneização dos outros, dos “totemizáveis”, esse aplanamento dos “outros” a quem (des)prezamos, e que tanto se vê nisto de se vuvuzelar a (querida; desdenhada) África do Sul, foi hoje violentamente cabeçeado (qual Zidane) pelo fantástico cómico sul-africano Trevor Noah: “If Julius Malema was an instrument he’d be a Vuvuzela. Loud, obnoxious and on every South Africans lips!“. Para melhor arrumar com a idílica imagem do “corno austral” ou do “sopro gentílico”, para melhor trazer de volta a puta da corneta para o palco de debate actual, não se conseguiria melhor. Para melhor arrumar os “bem-pensantes”, idem. Para melhor, e isto já é ética, respeitar o alheio, procurar compreender o alheio (forma máxima – e até única – de respeito e adesão) também.
Talvez seja importante regressar a isso. Pois Malema, perdão, a vuvuzela está a ser sorteada numas ruas e vendida noutras. Queremos?
jpt
Identidades
Segunda-feira, Junho 7th, 2010Abaixo está uma entrada sobre a campanha publicitária da GALP que importa para Portugal a corneta (vuvuzela) destinada aos campos de futebol e, presumivelmente, seus arredores e locais públicos. O texto é explícito: trato ali da importação de um instrumento, que em meu entender é supra-barulhento, agressivo e desconfortável; para além do futebol trata ainda da mania lusa (mas não só) de adquirir tudo o que vem à rede, o acrítico e desbragado consumismo. Implicitamente – mas esse implícito só pode ser para quem acompanha o ma-schamba, claro – liga-se com o meu enorme fastio com a futebolização do país (abordada por exemplo aqui mas várias vezes depois em tempos mais recentes), que entendo não só como uma forma de distrair o povo mas, fundamentalmente, como uma forma de “fazer pensar”. Uma padronização do pensamento do qual o exemplo mais óbvio é o “futebolês” mas que tem coisas bem mais profundas, como a “derbiização” do debate público. Ou seja, gosto de futebol, gosto dos grandes torneios e sou sportinguista (talvez um bocadinho menos do que aquilo que enceno, mas pouco). Mas isto da bola deve ter limites.
O ma-schamba está ligado no facebook e aí, nos comentários a esse texto, gerou-se um resmungar contra as cornetas [qualquer falante médio de português interpreta bem a extensão semântica jocosa do termo "corneta"], e na conversa mais entre-amigos gerei um grupo contra o raio da …. corneta em Portugal, uma catarse contra a imbecilização (neste caso via publicidade, mas quem dera que fosse só esta a causa): Eu Não Vuvuzelo.
A este propósito uma jovem senhora que eu conheço publica isto: “The portuguese are creating vuvuzelas hate groups on FB. If that is the attitude they better not come to the World Cup!”. Ou seja, “os portugueses” (eu, jpt) criam “grupos de ódio” contra a merda das cornetas (não só em Portugal, o que dá sumo à invectiva). Seria de pasmar se não se soubesse que a interpretação é uma decisão.
Tem níveis de análise? Tem. Estamos a falar de “vuvuzelas” (cornetas, trompas?)? Não. O que surge a um nível superficial é o paradigma “democrático” que se quer dominante: não tens só que respeitar a minha “cultura”, aceitar a minha “cultura”, tens que viver a minha “cultura”, tens que viver como a “minha” cultura vive. Em não aceitando isto é-se um agente de discriminação, e pelo ódio. O que nos ensina o fait-divers da corneta: é que se toca a corneta em Umtata tem que tocar em Marco de Canavezes. Senão são (os de Marco) uns porcos fascistas odientos. Pois isto tem um outro nível de análise, mais profundo, o das identidades. Eu, desde que não me pluralizem, vou bem. Português, claro, e pelo que parece muito dado a “hate groups”. Quanto às identidades dos outros é com eles, não é meu assunto. Mas também não quero ser alimento delas.
O que uma mera corneta nos faz lembrar.
jpt
As Questões do Mundial de Futebol na África do Sul
Quarta-feira, Junho 2nd, 2010As grandes questões levantadas pelo campeonato mundial de futebol na África do Sul estão magistralmente indicadas aqui (jornal espanhol Marca) – uma referência recebida via e-mail de um amigo, mudo leitor do ma-schamba. Consultem a ligação para ficarem preparados para o que aí vem.
jpt
Zapiro e o Islão 2
Domingo, Maio 30th, 2010Depois deste desenho que provocou a ira de alguns sectores islâmicos Zapiro respondeu. Em grande. Aliás, à Zapiro.
jpt
Zapiro e o Islão
Segunda-feira, Maio 24th, 2010Este desenho de Zapiro incendiou muçulmanos na África do Sul – em última análise comprovando o próprio desenho. E a discussão ainda vai no adro da mesquita. Na concepção dos adversários de Zapiro, o Conselho Judicial[?] Muçulmano, os crentes islâmicos sul-africanos tiveram um papel importante na luta pela democracia e liberdade de expressão e como tal não podem ser assim insultados. Temos assunto …
jpt
Invictus, de Clint Eastwood
Domingo, Abril 18th, 2010Mãos amigas trouxeram-me o filme. Que delas voou para o DVD. Tinha maus pressentimentos face a ele: a história de Nelson Mandela, o melhor dos políticos (dos homens?), e do mundial de râguebi, o melhor dos jogos, pelas mãos e olhos de Clint Eastwood, o melhor dos cineastas (e único alter ego). Expectativas muito altas, medo de me desapontar. Mas não, não se tratou de um desapontamento. Foi apenas um engano, trouxeram-me outro filme, enganaram-se na capa.
E por isso levei com uma grande pepineira! Trouxeram-me, afinal, um tele-filme com os maus tiques todos, as analepses para evitar o génio narrativo, as câmara-lentas para nos “fazer-sentir” (a câmara-lenta em cinema é o equivalente ao baralho marcado da mesa de jogo, com hipotética excepção do que às vezes aconteceu a Sam Peckinpah), uns excertos de râguebi ridiculamente mal jogado, por “jogadores” quase tão preguiçosos como o raio do argumentista (há uns pontapés de abertura que fariam rir um espectador menos furibundo), uma sucessão de inanidades, tudo previsível. Salva-se apenas o sotaque do actor que representa Nelson Mandela, um tal de Morgan Freeman. Actor que merecerá, pareceu-me, sair do registo televisivo e começar a fazer verdadeiros filmes de cinema.
O que terá acontecido? O que explicará isto? Pirataria?
jpt
UM AR DA SUA GRAÇA
Domingo, Abril 18th, 2010por ABM (18 de Abril de 2010)
Graça Machel deu uma curta entrevista em Joanesburgo e que foi publicada ontem no jornal britânico Mail & Guardian.
A curta entrevista, sobre o papel dos britânicos em África e nomeadamente em relação aos últimos anos no Zimbábué, é interessante quer pelo seu tom, quer por alguns dos comentários feitos avulsamente. Deliciosamente concluída com um comentário por Eddie Cross, um parlamentar zimbabueano do MDC, que parece concluir que, por piores que os britânicos sejam e tenham sido, que nada poderia ser tão mau como o colonialismo português. Para isso, refere que Samora Machel terá dito que, no que toca aos colonialistas, os britânicos foram de longe os melhores.
Donde se pode concluir que há bons e maus colonialistas. Os leitores britânicos devem-se ter babado com esta. Ah, rule Brittania, eles é que sabiam fazer as coisas.
Interessante para o exmo leitor que lê inglês, é ver os comentários feitos pelos leitores no fim da peça.
Graça é provavelmente a mulher mais rica de Moçambique e neste momento patriarca da dinastia Machel, apesar de ser simultaneamente a terceira mulher do grande Nelson, o que lhe confere um estatuto à parte.
A entrevista:
One of Africa’s most eminent political figures has condemned Britain for taking a patronising “big brother” attitude to its former colonies.
Graça Machel, a founder member of the Elders group of world leaders and the wife of former SA president Nelson Mandela, warned British politicians to “keep quiet” about countries such as Zimbabwe and let African diplomacy take its course.
Machel (64) is a former first lady of Mozambique, where she served as education minister, and has won numerous international awards for her advocacy of women’s and children’s rights.
In an interview with the Guardian in Johannesburg, she indicated that the crisis in Zimbabwe has revealed the shortcomings of a persistent imperialist mindset.
“Can I be a little bit provocative?” Machel said. “I think this should be an opportunity for Britain to re-examine its relationship with its colonies. To acknowledge that with independence those nations will want to have a relationship with Britain which is of shoulder to shoulder, and they will not expect Britain to continue to be the big brother.
“When a nation is independent, there is no big brother. They are partners. Part of the reason why Britain finds it difficult to accept Zimbabwe is precisely because that relationship of a big brother is influencing [efforts] to try to understand.”
Britain, along with the European Union and United States, has imposed travel restrictions and asset freezes on Zimbabwe President Robert Mugabe and his political and business allies. It has defied calls from South Africa to end these measures for the sake of the power sharing agreement between Mugabe’s Zanu-PF and the Movement for Democratic Change (MDC).
Earlier this year Foreign Secretary David Miliband said the UK would be “guided by what the MDC says to us about the conditions under which it is working and leading the country”. Critics said this handed Zanu-PF a propaganda coup, allowing it to portray the MDC as a puppet of Britain and blame it for sanctions.
Machel added: “I’m not saying things are OK, they’re all fine in Zimbabwe. I’m saying a different kind of dialogue, a different kind of bridge to try to understand the other side could have produced a different result from what it is.
“The more the British shout, the worse the situation will be in terms of relationship with Zimbabwe. That’s why sometimes I really question, when something happens in Zimbabwe and Britain shouts immediately. Can’t they just keep quiet? Sometimes you need just to keep quiet. Let them do their own things, let SADC [Southern African Development Community] deal with them, but keep quiet, because the more you shout, the worse [it is].”
Expectations
Asked if Britain’s attitude is patronising to its former colonies, Machel replied: “I’m afraid so. And what I’m saying is they have expectations which do not always coincide with what are the aspirations and expectations of those who are their former colony.
“When you change the relationship, you just have to give yourself to take the humility to stop and listen. And when you listen, then you take into account the other side. You put your case, then you take the other side. In a way, you harmonise interests of both sides.”
Zimbabwe will mark 30 years of independence this weekend. Britain remains politically and economically influential and denies Mugabe’s claim that it reneged on promises to fund the redistribution of land to the black majority.
Mugabe’s response, the chaotic seizure of white-owned farms, has been blamed for the collapse of Zimbabwean agriculture.
‘There’s more to Africa than Zimbabwe’
Machel, whose first husband was the late Mozambique president Samora Machel, called on Britain to take a broader view of the African continent. “That’s one of the issues, particularly with the British people: because of the emotional attachment they have with Zimbabwe, in many cases they define the continent in terms of Zimbabwe. Zimbabwe is one country among 53 countries, so you have all the rest of 52 countries. Well, let us put aside Somalia also, which is a failed state. But you have 50 countries who are running a relatively normal situation in the continent.
“I would like to raise with you the issue that yes, Zimbabwe has failed, and it is hurting British people directly, but there’s much, much more to Africa than Zimbabwe.”
Machel, who became Mandela’s third wife in 1998, also accused developed countries of double standards on CO2 emissions and climate change.
“This has been very clearly stated at the negotiations to Copenhagen. They know — the developing world, including China — that Africa has very small responsibility in the impact of climate change, but Africa is the one paying the highest price.”
Britain’s intentions are still treated with scepticism in Zimbabwe, even among some members of the MDC. Eddie Cross, policy coordinator general of the MDC, said: “Perfidious Albion. I tell you, you Brits have a well-deserved reputation for perfidity in your colonial relations … I think Britain’s always been very sophisticated in its relations with its former colonies — it’s got more experience than any other state in the world — but it doesn’t necessarily make them right.
‘You would never choose to be colonised by the Portuguese’
“Britain’s role in the last 10 years has often been difficult for us in the MDC to interpret and read. Sometimes they’ve backed certain initiatives in Zimbabwe which have not been helpful in terms of pursuing a principled transfer of power and I think sometimes the Brits regard us as being rather naïve in the MDC and they have a rather jaundiced view of Africa and African politics.”
But Cross, an economist and MP, added that other European powers probably behaved worse: “Samora Machel once said to me: ‘If you were to choose to be colonised, you would never choose to be colonised by the Portuguese.’ The colonial record was pretty dismal. For the British it was probably the best.”
NÃO ME MATE, EU NÃO SOU O BOER
Quinta-feira, Abril 15th, 2010por ABM (15 de Abril de 2010)
Em tempos, era comum para os meus amigos moçambicanos que viajavam até Johannesburgo nos seus carros, ao passarem a fronteira em Ressano Garcia, mudarem as suas matrículas de fundo preto e letras em branco, por uma espécie de matrículas inventadas mas com as cores características das matrículas da província de Gauteng.
Isto porque havia a percepção de que os moçambicanos eram alvos preferidos para os asslatantes.
Na face das recentes polémicas relacionadas com o assassínio de um antigo líder radical sul-africano, com uma canção cujo refrão é “mata o boer” e as declarações e atitudes do líder do sector da juventude do ANC, o Sr. Julius Malema, já me mandaram a foto acima (obrigado JP e CA) como forma, que espero ser humorística, de alguns brancos que visitam a África do Sul, se tentarem proteger contra eventuais represálias de terceiros pela circunstância da cor da sua pele.
Acima, no verso das t-shirts de uns turistas brancos à chegada ao aeroporto Oliver Tambo em Johannesburgo, a frase que se pode ler é “por favor não me mate, eu sou apenas um turista, não o boer”.
Entretanto, como aparentemente e para início de festa metade das pessoas que se esperavam na África do Sul não apareceram, está em curso a venda de quinhentos mil bilhetes para os jogos de futebol, a metade do preço. A alternativa era vermos os jogos do Mundial em estádios vazios.
Este campeonato mundial de futebol na África do Sul promete.
Malema
Quarta-feira, Abril 14th, 2010Nos últimos dias tenho estado desatento às notícias do mundo. Reparo agora nos eventos na vizinha África do Sul. Ouço, espantado, sobre o assassinato de Eugene Terre’Blanche, o cabecilha do grupo nazi africander AWB - o qual hoje poderá parecer uma sobrevivência folclórica mas que emanou, representou e simbolizou o estertor de uma realidade tenebrosa.
Uma África do Sul cuja realidade actual (a qual é muito mais do que o Mundial de Futebol) apresenta muitos problemas. Que escurecem o horizonte. Acima de tudo a maior potência económica da África sub-sahariana é palco de enormes diferenças socioeconómicas. Vi recentemente um bom documentário canadiano, Madiba: life and times of Nelson Mandela [filme aqui (trailer aqui)] que põe o dedo na ferida. A velha dicotomia brancos-negros, cristalizada pela legislação da segregação racial, esmoreceu. Os últimos 15-20 anos viram florescer uma camada possidente e uma burguesia urbana negra. Mas não aliviaram substancialmente a marginalização, a pauperização (para falar com velhos termos), de uma larga maioria da população. Que vive não só expropriada como paredes-meias com a prosperidade burguesa e o extremo desafogo da alta burguesia local. Situação prado para o populismo. O qual ali fala no dialecto racista, música para os que querem ouvir. E para os que precisam de ouvir, também.
Nisto ancora o episódio de Julius Malema, chefe da juventude do ANC. Agora insultando um jornalista da BBC em termos explicitamente racistas, algo que já percorreu mundo, não será novidade para ninguém. Mais interessante pois mais signficante (mas menos “chaveziano”) é o episódio do seu recente comício no Zimbabwe, acolhido pelos companheiros mugabianos. Onde alimenta a fogueira populista com os dois pontos centrais de um discurso que tem, queiram ou não, muito futuro: esconde a sociologia das diferenciações socioeconómicas e da exclusão radical, traduzindo-a em termos rácicos; e apresenta a solução fácil para a questão, num “Now, it´s our turn” que tem como grande característica o esconder o “nós” de quem é a “vez”. Julius Malema tem força, e bate o pé ao próprio Zuma. Alguns dirão que representa o próprio Zuma, outros que representa, já, o pós-Zuma. Do que estou certo é que se representa a si próprio e a forças sociais importantes no país. No seu “boçalismo a céu aberto” Malema será provavelmente descartável, a algum prazo. Mas não o que ele representa.
Hoje encontro este trecho de “comédia-em-pé”, devastadora do homem. Estão condensados os tiques – mas sobre o humor não se fala, vê-se e ouve-se:
E lembro-me de que há já dois anos o fantástico Zapiro nos mostrava Malema. Não só ele pois a caricatura é também, e só por ela própria, um tratado de sociologia política. Malema e o ANC por Zapiro em 2008 (uma teoria da evolução aplicável em tantos outros sítios – e escreve um português -, mas esses sítios com questões e problemas bem diversos, porventura menos explosivos).
É desta massa que surge o reviver de falsas soluções. Malema insiste em cantar o “Matar o Boer” como símbolo da necessária mudança da África do Sul? Como fermento da sua massa de apoio? Porque acredita? Eu acho que o canta porque acredita. Mesmo.
Toda esta história me lembra um episódio ocorrido em 1994. Durante alguns meses vivi na África do Sul como observador eleitoral, aquando das primeiras eleições democráticas no país. Uma experiência fantástica, acontecida entre o Ciskei (de Gqozo) e o Transkei (de Holomisa). Na altura acompanhei alguns comícios do Pan-Africanist Congress (PAC), o mais ”esquerdista” dos partidos, historicamente influente. Sempre situações incómodas – éramos constantemente (o meu colega francês e eu) muito mal recebidos, contrariamente ao que acontecia nas acções de todos os outros movimentos políticos. O PAC caracterizava-se por duas questões simbólicas: insistia na palavra-de-ordem One Settler, One Bullett [cuja sequela regressa em força com Malema] e defendia a mudança de nome do país para Azânia. Felizmente, digo eu, foi devastado nas mesas de voto, abandonado pela história a uma irrisória expressão.
Poucos dias depois de regressar a Portugal fui até à universidade onde então estudava. Lá encontrei um colega, profissional competente, cidadão empenhado e corajoso, sempre pronto à palavra pública, em particular se difícil, libertário sempre pronto a defender as “causas justas”. Homem bom, julgava e julgo. Simpático cumprimentou-me e, interessado, logo avançou “Ouvi dizer que estiveste na Azânia! Como foi?“. E ainda hoje me lembro, e tão bem, do como me foi então óbvia a completa cegueira, estrutural, constante, desse voluntarismo de tez radical, retórica festiva e dado ao bom-coração. Nunca, mas nunca, percebem. Devido ao “véu e à máscara” que julgam conveniente carregar, devido à pressa em tomar a atitude “correcta”, “boa”. São eles, acima de tudo, o pasto do(s) Malema(s). Seja em que continente estejam. E festejem.
jpt
Now is the time
Quinta-feira, Fevereiro 11th, 2010Há vinte anos Mandela saía da prisão. O absurdo (mas muito racional) regime racista desmanchava-se. Ainda foi a tempo, now is the time disse-se logo a partir daí – até 1994. Quando foi eleito presidente.
Antes uma situação insustentável internamente. Uma imensa campanha internacional (abaixo o hino – festivo – cantado nos 80s). E o fim do comunismo e da Guerra Fria.
O melhor dos homens.
jpt
MANDELA FOREVER
Quinta-feira, Fevereiro 11th, 2010OPENING VAN DEN DELAGOABAAI SPOORWEG
Terça-feira, Fevereiro 9th, 2010por ABM (Cascais, 9 de Fevereiro de 2010)
Se eu fosse rico, tinha comprado na semana passada o medalhão que se retrata em cima, da autoria de um tal Johan Philip Mathias Menger, o artista principal do Royal Mint em Utrecht, Holanda.e que foi feita para comemorar a abertura em 1895 da linha de caminho de ferro que passou a ligar Lourenço Marques a Pretória, então capital da Zuid-Afrikaanse Republik.
Quem o pôs à venda foi um senhor de Durban, na África do Sul, em leilão que começou a 90 dólares. Mas quando subiu rapidamente desisti.
Existem duas variedades desta moeda.
Neste caso, numa face vê-se a efígie de Paul Kruger, o então presidente da República Sul-Africana e pode-se ler a frase em africaanse, “OPENING VAN DEN DELAGOABAAI SPOORWEG” (abertura do caminho de ferro da Baía de Delagoa).
Do outro lado, vê-se o símbolo da companhia de caminhos de ferro daquela república boer e a frase “NEDERLANDSCHE ZUID-AFRIKAANCHE SPOORWEG – MAATSCHAPPIJ” (Companhia dos Caminhos de Ferro da África do Sul Holandesa).
As iniciais do Senhor Johan Menger aparecem em baixo: J.P.M.M.F.
A medalha é de bronze, tem um diâmetro de 44 milímetros e um peso de 38.3 gramas.
Estas moedas de bronze aparecem de vez em quando. Muito mais raras são as feitas em prata: apenas foram produzidas vinte.
Redenções Cinematográficas
Segunda-feira, Janeiro 25th, 2010(por AL ainda constipada, afónica e farta do Inverno)
Não tenho ido muito ao cinema, mas vi recentemente um filme que me agradou particularmente e que me remeteu para um outro de há uns anos atrás. Sao dois filmes sul-africanos; ambos abordam a exclusão social e neles se assiste ao processo de humanização dos protagonistas, se assim posso dizer, ainda que de perspectivas e com abordagens completamente diferentes.
Tsotsi, baseia-se numa novela de Atol Fugard, adaptada para o cinema por Gavin Hood e ganhou em 2006 o Oscar para Melhor Filme em Língua Estrangeira. A novela de Fugard passa-se em Sophiatown, uma township destruída nos anos 50 para dar lugar a um subúrbio branco. A acção desenrola-se no ambiente de opressão do apartheid e ilustra o racismo, a terrível pobreza da maioria da população negra e a violência da época. O primeiro rascunho da novela foi escrito nos anos 60, mas a novela acabou por ser publicada somente nos anos 80. Transposto para a África do Sul dos dias de hoje, pós-apartheid, o filme continua tão actual como o era a novela na altura em que foi escrita, mostrando a terrível pobreza em que a maioria da população negra continua a viver na África do Sul e a violência que parece não ter diminuído, bem como a exclusão social gerada pela política do apartheid, na novela e pela pobreza e pela violência, no filme.
Na novela Tsotsi, o protagonista, é um jovem sem memória do passado; no filme é um jovem gangster do Soweto, igualmente sem passado e sem memória. A violência é para Tsotsi (na novela e no filme) o motor da sua vida e um simples mecanismo de sobrevivência, para quem, como ele, vive num presente permanente – senão tem passado não tem também qualquer futuro, nem sonhos, nem ambições.
A vida de Tsotsi muda radicalmente no dia em que encontra um bebé abandonado, na novela; no filme, raptado juntamente com um carro de luxo. O processo de humanização de Tsotsi começa com a confusão que o avassala quando ele não consegue simplesmente matar o bebé e com ele se identifica – ambos vulneráveis e ambos sem história. E protegendo o bebé Tsotsi vê-se de repente “vítima” de empatia (um sentimento até aí seu desconhecido), forçado a confiar e a ligar-se a outros e vê abrir-se-lhe um mundo de alternativas, de futuro. Tudo isto sem melodramas açucarados e de lágrima fácil, numa acção pontuada por uma banda sonora fenomenal. No filme, claro; para ler a novela recomenda-se o silêncio requerido por um bom livro.
O filme que recentemente vi e que me remeteu para Tsotsi tem um registo completamente diferente e chama-se Distrito 9. É um filme de ficção científica.
Uma nave espacial avariada imobiliza-se por cima de Joanesburgo. Vinte e oito anos depois do primeiro contacto, os extraterrestres, umas criaturas bizarras a quem os humanos chamam Prawns (camarões), foram tratados como refugiados e confinados a um acampamento, a que o governo da África do Sul chamou Distrito 9, enquanto os líderes mundiais debatem como abordar a situação. Mas os humanos não vêem com bons olhos esta acomodação e conforme a tensão vai subindo, o governo atribui a tarefa de controlar os extra-terrestres a uma empresa privada, a Multi-National United. O interesse da MNU, no entanto, centra-se no armamento que os extraterrestres trazem consigo e que os humanos não sabem como utilizar.
O protagonista é um funcionário do MNU – Wikus van der Merwe – que sofre um acidente que lhe provoca uma mutação no seu ADN, mutação essa que lhe permite o uso das armas extraterrestres. Wikus torna-se assim na chave que poderia desvendar o segredo dessas armas. Funcionário zeloso e orgulhoso do seu trabalho até à data do acidente, olhando para os extraterrestres com uma mistura de fascínio, paternalismo e desprezo, Wikus vê-se de repente confrontado com os preconceitos que anteriormente personificara. Ostracizado e isolado Wikus refugia-se no Distrito 9 onde se completa o seu processo de identificação com o “outro”, iniciado com o acidente que lhe causou a mutação do ADN.
Dois filmes notáveis, ambos sobre redenção sem heroísmos e sem choradinhos, e que recomendo vivamente aos leitores maschambianos.

















