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Now is the time

Há vinte anos Mandela saía da prisão. O absurdo (mas muito racional) regime racista desmanchava-se. Ainda foi a tempo, now is the time disse-se logo a partir daí – até 1994. Quando foi eleito presidente.

Antes uma situação insustentável internamente. Uma imensa campanha internacional (abaixo o hino – festivo – cantado nos 80s). E o fim do comunismo e da Guerra Fria.

O melhor dos homens.

jpt

MANDELA FOREVER

por ABM (Cascais, aos 11 de Fevereiro de 2010)

Como o tempo passa. Faz hoje 20 anos que o Dr. Nelson Mandela saiu em liberdade formal depois de décadas na prisão. Foi o princípio do fim – ou o fim do princípio – de uma aventura.

OPENING VAN DEN DELAGOABAAI SPOORWEG


por ABM (Cascais, 9 de Fevereiro de 2010)

Se eu fosse rico, tinha comprado na semana passada o medalhão que se retrata em cima, da autoria de um tal Johan Philip Mathias Menger, o artista principal do Royal Mint em Utrecht, Holanda.e que foi feita para comemorar a abertura em 1895 da linha de caminho de ferro que passou a ligar Lourenço Marques a Pretória, então capital da Zuid-Afrikaanse Republik.

Quem o pôs à venda foi um senhor de Durban, na África do Sul, em leilão que começou a 90 dólares. Mas quando subiu rapidamente desisti.

Existem duas variedades desta moeda.

Neste caso, numa face vê-se a efígie de Paul Kruger, o então presidente da República Sul-Africana e pode-se ler a frase em africaanse, “OPENING VAN DEN DELAGOABAAI SPOORWEG” (abertura do caminho de ferro da Baía de Delagoa).

Do outro lado, vê-se o símbolo da companhia de caminhos de ferro daquela república boer e a frase “NEDERLANDSCHE ZUID-AFRIKAANCHE SPOORWEG – MAATSCHAPPIJ” (Companhia dos Caminhos de Ferro da África do Sul Holandesa).

As iniciais do Senhor Johan Menger aparecem em baixo: J.P.M.M.F.

A medalha é de bronze, tem um diâmetro de 44 milímetros e um peso de 38.3 gramas.

Estas moedas de bronze aparecem de vez em quando. Muito mais raras são as feitas em prata: apenas foram produzidas vinte.

Redenções Cinematográficas

(por AL ainda constipada, afónica e farta do Inverno)

Não tenho ido muito ao cinema, mas vi recentemente um filme que me agradou particularmente e que me remeteu para um outro de há uns anos atrás.  Sao dois filmes sul-africanos; ambos abordam a exclusão social e neles se assiste ao processo de humanização dos protagonistas, se assim posso dizer,  ainda que de perspectivas e com abordagens completamente diferentes.

Tsotsi, baseia-se numa novela  de Atol Fugard, adaptada para o cinema por Gavin Hood e ganhou em 2006 o Oscar para Melhor Filme em Língua Estrangeira. A novela de Fugard passa-se em Sophiatown, uma township destruída nos anos 50 para dar lugar a um subúrbio branco. A acção desenrola-se no ambiente de opressão do apartheid e ilustra o racismo, a terrível pobreza da maioria da população negra e a violência da época. O primeiro rascunho da novela foi escrito nos anos 60, mas a novela acabou por ser publicada somente nos anos 80. Transposto para a África do Sul dos dias de hoje, pós-apartheid, o filme continua tão actual como o era a novela na altura em que foi escrita, mostrando a terrível pobreza em que a maioria da população negra continua a viver na África do Sul e a violência que parece não ter diminuído, bem como a exclusão social gerada pela política do apartheid, na novela e pela pobreza e pela violência, no filme.

Na novela Tsotsi, o protagonista, é um jovem sem memória do passado; no filme é um jovem gangster do Soweto, igualmente sem passado e sem memória. A violência é para Tsotsi (na novela e no filme) o motor da sua vida e um simples mecanismo de sobrevivência, para quem, como ele, vive num presente permanente – senão tem passado não tem também qualquer futuro, nem sonhos, nem ambições.

A vida de Tsotsi muda radicalmente no dia em que encontra um bebé abandonado, na novela; no filme, raptado juntamente com um carro de luxo. O processo de humanização de Tsotsi começa com a confusão que o avassala quando ele não consegue simplesmente matar o bebé e com ele se identifica – ambos vulneráveis e ambos sem história. E protegendo o bebé Tsotsi vê-se de repente “vítima” de empatia (um sentimento até aí seu desconhecido), forçado a confiar e a ligar-se a outros e vê abrir-se-lhe um mundo de alternativas, de futuro. Tudo isto sem melodramas açucarados e de lágrima fácil, numa acção pontuada por uma banda sonora fenomenal. No filme, claro; para ler a novela recomenda-se o silêncio requerido por um bom livro.

O filme que recentemente vi e que me remeteu para Tsotsi tem um registo completamente diferente e chama-se Distrito 9. É um filme de ficção científica.

Uma nave espacial avariada imobiliza-se por cima de Joanesburgo. Vinte e oito anos depois do primeiro contacto, os extraterrestres, umas criaturas bizarras a quem os humanos chamam Prawns (camarões), foram tratados como refugiados e confinados a um acampamento, a que o governo da África do Sul chamou Distrito 9, enquanto os líderes mundiais debatem como abordar a situação. Mas os humanos não vêem com bons olhos esta acomodação e conforme a tensão vai subindo, o governo atribui a tarefa de controlar os extra-terrestres a uma empresa privada, a Multi-National United. O interesse da MNU, no entanto, centra-se no armamento que os extraterrestres trazem consigo e que os humanos não sabem como utilizar.

O protagonista é um funcionário do MNU – Wikus van der Merwe – que sofre um acidente que lhe provoca  uma mutação no seu ADN, mutação essa que lhe permite o uso das armas extraterrestres. Wikus torna-se assim na chave que poderia desvendar o segredo dessas armas. Funcionário zeloso e orgulhoso do seu trabalho até à data do acidente, olhando para os extraterrestres com uma mistura de fascínio, paternalismo e desprezo, Wikus vê-se de repente confrontado com os preconceitos que anteriormente personificara. Ostracizado e isolado Wikus refugia-se no Distrito 9 onde se completa o seu processo de identificação com o “outro”, iniciado com o acidente que lhe causou a mutação do ADN.

Dois filmes notáveis, ambos sobre redenção sem heroísmos e sem choradinhos, e que recomendo vivamente aos leitores maschambianos.

Maputo em Pano de Fundo

por ABM (Cascais, 21 de Janeiro de 2010)

Não pagámos a renda e eu fiquei desligado durante dois dias. Coisas da internet.

Junto uma canção excelente, agradável, segundo o nosso leitor Sr, Sérgio Braz (cuja informação agradeço) da banda moçambicana 340 ml, que anda por Gauteng.

Os seus membros são Pedro (voz, sampler e percursão), Tiago (guitarra, coro e teclado), Rui (baixo e coro) e Paulo (percussão e coro) estudaram e vivem na África do Sul.

Já editaram dois álbuns: Moving (2003) e Sorry For The Delay ( 2008).

Como certas histórias que se contam por aí, eu oiço tanto a canção, ou vejo as pessoas a dançar à minha frente, como vejo ali tudo o que está à volta.

Maputo, Moçambique, no esplendor da sua decadência e renascença.

E danço.

A canção é Fairy Tales.

Voltem sempre. Magnífico.

White Trash

Foto 5 de Roger Ballen - Dresie e Casie, irmãos gémeos, Transvaal Ocidental, 1993

Foto 5 de Roger Ballen - Dresie e Casie, irmãos gémeos, Transvaal Ocidental, 1993

por ABM (Cascais, 4 de Janeiro de 2010)

Ora hoje começa a semana, o ano e a década.

O estatuto de membro do Maschamba tem as suas (poucas) benesses. Assim, generosamente, o JPT enriqueceu a minha mais do que dúbia colecção bibliográfica, oferecendo-me a semana passada um livrinho de fotografias tiradas por Roger Ballen, aparentemente mais uma celebridade de quem, na minha usual e algo indiferente ignorância, nunca tinha ouvido falar. “Afenal”, ele até tem um canto na internet e uma fundação (uma fundação?).

Para além da arte, da qualidade e do estilo, Ballen, que supostamente vive na África do Sul há muitos anos, teve a iniciativa de ter saído algumas vezes do seu indubitavelmente requintado atelier em Joanesburgo até à África do Sul “profunda”, para tirar umas fotografiazitas a alguns dos brancos mais feios que eu já vi na minha vida – aquilo a que nos Estados Unidos se chama normalmente white trash.

O livrinho ofertado pelo Senador JPT tem 64 fotografias, a esmagadora maioria delas sobre o supracitado tema (edição Photo Poche Societé da Natahan, 1997), qual delas a mais assustadora – de uma forma mais ou menos simpática, em que se vislumbra a beleza do feio – e que, presume-se, desafia alguns dos conceitos convencionados sobre os cidadãos brancos daquele país vizinho de Moçambique, que para o observador casual invariavelmente parecem ser estupidamente ricos, estupidamente bonitos e estupidamente bem apetrechados com Porsches, BMW’s, barcos a motor para levarem para a Ponta do Ouro, Inhambane e Xai-Xai e casas de sonho.

Os tais que quando vêm a Moçambique dizem, em inglês, desconcertantemente para o local, I am coming to Africa.

Até 2000, apesar da proximidade geográfica e de quatro dos meus irmãos terem estudado em Nelspruit, Sabié e Belfast, antes da independência apenas estive lá uma manhã, em 1968 (só me lembro da secção dos rebuçados e dos chocolates do OK Bazar) e mais uma semana, em 1984, quando, um nadinha mais desperto para a vida, passei lá uma semana antes de visitar Moçambique pela primeira vez depois da Independência.

Dessa segunda vez, já meio americanizado, fazia algumas perguntas indiscretas aos brancos com quem contactei, que manifestamente não estavam lá muito confortáveis com a situação mas que repetidamente me diziam oh, but we love our blacks! Boa sorte, desejei-lhes eu a todos, de todas as cores, e meti-me de volta no avião para Nova Iorque.

Em 2001, temporariamente a residir em Maputo e após ter feito a descoberta de que se se for de carro directo de Maputo pela estrada N4 na direcção Oeste, se vai dar a Pretória e a Joanesburgo, um dia pus-me à estrada para visitar a casa, no centro de Pretória, onde vivera o incontornável Paul Kruger, presidente do Transvaal entre 1880 e 1900, quando se pirou para a Europa via Lourenço Marques, após o exército inglês ter invadido a sua capital.

Curiosamente, Kruger hoje é recordado pelo (para mim, insípido) facto do seu nome adornar o parque animal que fica na fronteira com Moçambique, um estratagema de charme então congeminado pelo verdadeiro fundador do parque há uns cem anos, um pouco como se fez com a Guebuza Square naquele centro comercial indescritível na baixa de Maputo.

Ao entrar de carro em Pretória, prontamente me perdi e andei às voltas até que à direita duma rua vi o que me pareceu um centro comercial numa área que obviamente era um reduto africaner na cidade. Fui lá para comprar uma Coca-Cola e pedir direcções para a casa de Kruger. Ao estacionar o carro no parque, veio um boer, obviamente muito pobre, mas muito sério e profissional, com um vago ar de agente da Pide, pedir-me dinheiro (em Afrikaans) para guardar o carro.

Dentro do centro comercial, que tinha um ar meio delapidado mas limpo, mais brancos pobres a pedir esmola. Ali dentro só se falava afrikaans (para informação do exmo leitor, eu só sei dizer cac, boerewors e dankie em afrikaans). Na caixa à minha frente estava um casal de boers de idade, obviamente reformados e pouco abonados, a fazer as contas para pagar meia dúzia de coisas para comer (não tinham o dinheiro suficiente e um pacote de manteiga teve que ficar para trás).

Claramente, aquilo para mim, que não conhecia lá muito bem a África do Sul, foi, posso dizer agora, um “momento Roger Ballen”.

Aliás, foi mais do que isso. É que em tempos, na universidade Brown e sob a tutela magistral do meu velho e querido professor de ciência política, Newell Maynard Stultz (então casado com uma sul-africana branca) estudei algumas coisas sobre a evolução do sistema político sul-africano – o que se publicava então (e aqui está uma crítica a um dos seus livros).

E um dos elementos fortes do que nos anos 30 e 40 do século passado se passou teve que ver, para além daquela vaga mania de que Deus lhes tinha dado a África do Sul em testamento e do eterno amor-ódio entre os boers e os sul-africanos de extracção britânica, de um quase prodigioso esforço de educação, de urbanização e de apoio, entre os próprios boers, que em parte explica (minha óptica) muitas das barbaridades que mais tarde se tornaram peças fundamentais do apartheid. Pois até aos anos 40, com a excepção da comunidade boer do Cabo, a maioria dos boers era pobre, analfabeta e rural – tal e qual a quase totalidade da população negra naquele país naquela altura. Portanto parte do apartheid tinha por fim descriminar em favor desses boers pobres, rurais e analfabetos.

Contra quem, dou um rebuçado se o exmo. leitor descobrir.

Mas obviamente e naturalmente e ainda assim muitos ficaram pelo caminho, agravado pela mudança de regime e as sucessivas tentativas da Nova África do Sul de reverter décadas de privilégio e de colocar a população negra sul-africana, senão no centro das atenções dos poderes, pelo menos em pé de igualdade – com os ocasionais exageros da praxe.

Um desses episódios de algum exagero ocorreu em Novembro do ano passado, quando o segundo maior banco sul-africano – o Primeiro Banco Nacional – publicou na sua revista interna que a instituição iria disponibilizar bolsas de estudo aos filhos de todos seus empregados cujos rendimentos anuais fossem inferiores a cem mil randes (isso dá 8.333 randes por mês).

Excepto – literalmente – se eles fossem brancos.

Ou seja, na incompreensível complexidade do actual paradigma sul africano, as bolsas eram exclusivamente destinadas aos filhos dos funcionários “pretos”, definidos algures na lei como descendentes de africanos com a pele total ou parcialmente negra, indianos e chineses.

Uns dias depois a história estoirou nas primeiras páginas dos jornais sul-africanos e um sindicato sul africano acusou os seus responsáveis de serem racistas, mas agora contra os brancos.

O banco, pouco habituado a este tipo de controvérsias, lá teve que fazer um rápido passodoble de relações públicas, seguido de uma espécie de marcha-atrás meio repolhuda, com o seu CEO a tentar explicar que aquilo afinal correspondia ao que a actual lei exigia mas que, enfim, eles iam ver se era mesmo assim e se pudessem também dariam uma ajudinha aos filhos brancos dos seus empregados brancos que ganhavam menos que 8333 randes por mês.

Entretanto, algumas pessoas (do que vi maioritariamente brancas e com nomes que me parecem boers) até formaram um grupo no Fêicebúke para destilar o seu veneno.

O ponto da questão aqui volta a ser o do branco sul-africano pobre. Dantes descaradamente protegido e promovido pelo sistema, mas agora, talvez precisamente em memória do que aconteceu antes, deliberadamente descriminado, até ao detalhe de o segundo maior banco do país publicamente adoptar a política de negar bolsas de estudo aos filhos dos empregados brancos que auferem menos, apenas por os seus pais serem brancos.

Acho que, da maneira como as coisas andam, o Senhor Roger Ballen vai ter matéria abundante para as suas fotografias por mais uns anos.

Ademais, o ANC tem o azar de não ter sítio para lhes fazer uns 24/20.

Best New Song

MEDAL Nobel-Prize

por ABM (Cascais, 11 de Dezembro de 2009)

Com o JPT em trânsito para a Europa e a Sra Baronesa para o seu retiro de verão em Goa, a loja ficou mais vazia esta semana.

Mas o mundo não parou. Ontem, sentado enquanto bebericava um espesso café com leite, assisti ao vivo na BBC à cerimónia de entrega, pelo Comité Nobel, do Prémio da Paz ao actual presidente dos Estados Unidos, Barack Hussein Obama.

Como muitos dos exmos leitores, cresci com os sucessivos anúncios das entregas dos prémios Nobel a uma variedade de personalidades, quase sempre tudo boa gente, merecedoras dos mais rasgados elogios, nunca deixando de achar curiosa a particularidade de ser uma prerrogativa da Suécia, um relativamente pequeno país escandinavo mais conhecido pelo seu clima inclemente, pela beleza das suas mulheres e pela qualidade dos seus automóveis (Saab e Volvo), gerir e atribuir estes prémios em relação à nata da raça humana. Fazem-no há mais que cem anos e toda a gente leva aquilo muito a sério.

Uma curta pesquisa leva-nos ao seu criador, Alfred Nobel, que na primeira chance pirou-se da Suécia e foi viver para a mais mediterrânica San Remo, com uns saltos a Paris, e ao seu testamento, onde, para além de umas massas valentes para um conjunto de pessoas de que hoje não reza a história (incluindo uns pós para os seus criados e o seu jardineiro – simpático) deixou um fundo estimado, na moeda actual, em cerca de 250 milhões de USD.

Isto supostamente porque Nobel, que enriquecera obscenamente com o negócio dos armamentos e explosivos, ficara horrorizado com a constatação do que se pensava de si quando, aquando da morte do seu irmão Ludwig em 1888, um jornal de Paris por engano ter publicado o seu obituário, intitulando-o le marchand de la mort est mort, elogiando-o mordazmente pelo seu feito de ter “encontrado melhores formas de matar mais gente mais depressa que nunca dantes na história”.

Seja como for, Nobel canalizou a maior parte do seu património para instituir os prémios (apenas cinco no início) que, depois de uma série de peripécias, começaram a ser atribuídos em 1901.

A nomeação de Barack Obama para o prémio Nobel da Paz de 2009 a meu ver só pode ser contabilizada contra o credo que Obama defende desde que decidiu concorrer para a presidência dos Estados Unidos e o que a sua eleição significou para o mundo, após dois mandatos de George W. Bush e o seu quase narcisismo nacionalista (para não falar do resto, incluindo a actual recessão). Pois que – como o próprio ocupou boa parte do seu discurso de aceitação a explicar, algo eloquentemente – nem ele tem obra feita, nem se pode omitir que é um presidente e comandante-em-chefe de um dos mais poderosos exércitos na história do mundo, envolvido em duas guerras violentas neste momento e a congeminar outras tantas.

Mais do que tudo, Obama sobressai pelos valores internacionais que defendeu – internacionalismo, cooperação, de querer tentar fazer coisas novas, de promover valores fundamentais por que, aliás, os Estados Unidos se bateram praticamente desde que ascenderam à cena internacional entre a I e a II Guerras mundiais, tais como a democracia e os direitos humanos. E uma causa relativamente nova – a preservação do ambiente.

Num mundo cada vez mais globalizado e à beira de um ataque de nervos após oito anos de Bush, ainda por cima vindo do primeiro presidente mulato de um país que até recentemente lutava contra os demónios da descriminação racial e com uma história atribulada no cumprimento da sua promessa de igualdade para todos e ascendência com base no mérito, o surgimento algo inesperado deste homem na cena internacional – um mundo cada vez mais globalizado de cidadãos não brancos, terá sido uma inspiração para muitos. Vagamente reminiscente do que foi a atribuição do mesmo prémio ao grande Nelson Mandela (conjuntamente, para quem já não se lembra, a um muito menos celebrado mas igualmente meritório Frederick de Klerk) em 1993.

Mas, convenha-se dizer, se isto fossem os Prémios MTV, Obama nesta altura teria ganho apenas o prémio “Best New Song”.

Ademais, não sei se repararam que no seu longo discurso ele não disse praticamente nada sobre o Médio Oriente, a quase permanente dor de cabeça do mundo desde que acabou a II Guerra Mundial e que promete novas violências.

A ver vamos no que isto vai dar.

Viva Nelspruit

formuleone

por ABM -

Eu sempre tive alguma dificuldade em explicar aos meus irmãos moçambicanos a ligeira confusão na minha cabeça quando, acho que em 1976, num rasgo de fervor revolucionário e acto de exorcização dos fantasmas coloniais – ou talvez apenas para mostrar ao mundo quem é que mandava ali agora – Samora Machel mandou mudar o nome da capital de Lourenço Marques para Maputo.  Acho que disse que esse tal de LM era nome de colonialista imperialista e isso tinha, depois de 500 anos, acabado. Os residentes prévios interrogavam-se onde é que ele fora buscar o nome, os fabricantes de mapas apressaram-se a confirmar se era mesmo assim para alterar a topografia oficial. Toda a gente achou fantástico.

Eu hoje não ligo ao assunto. Mas na altura confesso que achei estranho quando eu dizia para mim próprio em voz baixa “eu sou filho do Maputo”. Aquilo soava mesmo maningue estranho. E durante algum tempo dançava com os dois termos. A quem era dos tempos eu dizia LM, quando era outras pessoas eu dizia Maputo. Quando anos mais tarde visitei Maputo pela primeira vez desde que saira para ir estudar em Coimbra, em fins de Novembro de 1984, a cidade já uma sombra ferida do que fora há menos de dez anos, digna e limpa mas morta e à beira de um ataque de nervos, cheia de regras esquisitas como as de não poder andar nos passeios em frente a uma série de edifícios e de tirar fotografias na via pública. As pessoas falavam baixo comigo para não se ouvir o que diziam.

Quando no fim dos anos 90 regressei para lá viver e trabalhar, o efeito dissipou-se e a cidade foi-se metamorfoseando para o que é hoje: Maputo, capital de Moçambique moçambicano. Mas ainda vi muita gente na cidade que quase se ofendia quando aparecia o ocasional portuga mais distraído que chamava à LM à cidade – como se houvesse ali algum resquício de atitude “colonial” ou saudosismo – ou falta de respeito.

O mais provável é que velhos hábitos, como chamar os nomes às coisas que se conhecem, custam a mudar. No fundo no fundo as pessoas não gostam de mudança. Nem mesmo os moçambicanos. É provavelmente por isso que há nomes que nunca foram tocados, como 2M, Zambi, Costa do Sol, Sommerschield, Polana, Laurentina Piri-Piri, etc. São patrimónios colectivos, referências que transvazam em muito a intenção original, símbolos mais de familiaridade quotidiana do que expressões culturais que “dizem” algo. Ninguém se lembrou de mudar o nome a Ressano Garcia (o portuga que fez a Avenida da Liberdade em Lisboa). mas ninguém se lembraria de o mudar hoje, creio. É apenas mais uma toponímia, moçambicanizada.

Esta propensidade não é exclusiva dos marxistas (se bem que estes adoram fazê-lo), dos moçambicanos e muito menos dos africanos. Os portugueses fartaram-se de o fazer depois da sua “revolução” em 1974. Tudo o que era Salazar e Caetano levou uma imediata e valente machadada. Os recantos mais patéticos do pequeno Portugal encheram-se de “Avenidas 25 de Abril”, “Rua General Humberto Delgado”, “Praça da Liberdade”, etc. Mas não sei bem porquê os portugueses não mudaram o nome às cidades, nem aos aeroportos (excepto o do Porto quando o Sá Carneiro foi assassinado) . A minha quinta ribatejana fica perto de Alcoentre, uma pequena vila que mantém o mesmo nome sem qualquer alteração desde a colonização árabe, há mais do que mil anos. Mas em Alcoentre a maior revolução que houve em 50 anos foi a colocação de um semáforo no cruzamento principal da vila (informalmente descrito como “os quatro ventos”), onde a brigada do reumático senta-se em dias de sol, como lagartos, a ver os carros a passar.

Na vizinha África do Sul, cujas zonas urbanas eram a coutada exclusiva da civilização branca naquele país (protegidas pelas pass laws do apartheid) e tal como no resto de África, a toponímia era tipicamente boer-anglo-saxónica. Logo após a passagem do testemunho em 1994, houve pressões no sentido de “africanizar” os nomes. Durante uns anos, andou tudo à estalada sobre o assunto, os brancos a dizer que aquilo era tudo só para chatear branco, os negros para mostarem que aquela merda já não era o que era.

Mas eis que agora o governo do Senhor Zuma passou um decreto a mudar as coisas. Para quem não leu, copio em seguida os novos nomes das cidades sul-africanas, cortesia da Lusa, lembrando que a partir de agora quem for fazer compras de fim de semana a Nelspruit já não vai a Nelspruit: vai a “Mbombela”.

Talvez agora, por apenas uns dias, os meus amigos moçambicanos que fazem as romarias a Nelspruit vão entender um pouco melhor a confusão que senti quando Lourenço Marques passou a chamar-se Maputo.

E boas compras em … “Mbombela”!

PS – o Fórmula 1 mantém o nome.

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Lusa – 21 de Outubro de 2009 :

Nelspruit, a cidade mais próxima da fronteira de Ressano Garcia com Moçambique, e Machadodorp, uma vila baptizada no séc. XIX com o nome de um português, são algumas das cidades e vilas sul-africanas que mudaram de nome por decreto.Outras localidades da mesma província (Mpumalanga), que foram re-baptizadas por decreto assinado pela ministra das Artes e Cultura, Lulu Xingwana, são Belfast, agora chamada eMakhazeni, e Waterval Boven, re-baptizada Emgwenya.

Nelpsruit, conhecida por muitos moçambicanos que desde sempre ali se deslocam para fazer compras ou para consultas médicas, passou a chamar-se Mbombela, enquanto Machadodorp, que tinha o nome do engenheiro português Joaquim Machado, que realizou o levantamento topográfico da zona antes da construção da linha de caminhos-de-ferro para Moçambique, em 1894, tem o nome oficial de eNtokozewni.


Desde que assumiu o poder, em 1994, que o Congresso Nacional Africano, apoiado pelos Governos provinciais e nacional, alterou centenas de nomes da toponímia sul-africana, desde estradas e aeroportos a edifícios públicos de natureza vária, apesar dos protestos, em muitos dos casos, de organizações e associações cívicas de afrikaners e sul-africanos brancos de outras origens, que acusam o partido no poder de pretender eliminar por completo a sua herança histórica.

Algumas cidades importantes cujos nomes foram já alterados são Port Elizabeth (para Nelson Mandela Bay), Bloemfontein (para Mangaung), e Durban (para eThekwini), enquanto outras, como a capital, Pretória, mantêm o nome antigo apenas como referência do centro da cidade apesar da municipalidade ter sido re-baptizada (Tshwane no caso de Pretória).

Em todos os casos as autoridades permitem que as cidades e vilas mantenham o nome anterior durante um período transitório de cerca de três anos.

(fim)

A Menina de Ouro Deles

ATHLETICS-WORLD/

(Ou um caso de femininibilidade desportiva duvidosa)

(por ABM)

Apesar de alguma, muito penosa e controversa evolução, as sociedades estão basicamente organizadas, habituadas a subscrever profundamente raciocínios quase perfeitamente binários no que concerne certos aspectos da existência humana – como são raça, sexo, religião, e opção sexual. Desvios da norma são rapidamente rotulados como aberrações ou anomalias e descriminados, legal, moral, socialmente ou ambos.

Poucos casos, no entanto, causaram mais confusão e debate recentemente que o de Caster Semenya, uma jovem atleta sul-africana que subitamente se tornou mundialmente conhecida quando, no dia 19 de Agosto, durante os campeonatos do Mundo de atletismo em Berlim, a capital da Alemanha, ganhou a final da corrida dos 800 metros, vencendo a segunda classificada e anterior detentora do título de campeão do mundo por 2.45 segundos.

Talvez por ser alta, musculada, praticamente não ter seios e ter uma voz grossa, desde que Caster apareceu nos campeonatos na Alemanha que se especulava nos meios do atletismo se haveria alguma situação anómala envolvendo a atleta, tal como consumo de esteróides, uma mudança de sexo, ou outra condição. Testes químicos efectuados após a sua prova no dia 19 de Agosto rapidamente provaram que ela não tinha consumido nenhuma substância na longa lista de químicos banidos pela Associação Internacional de Federações de Atletismo (AIFA).

Na África do Sul, em parte porque Caster é negra, em parte por causa da fixação nacional em raça, desportos e em ganhar, a reacção à controvérsia foi em geral de indignação e de acusação de obscuras manobras racistas (algumas das adversárias na corrida não eram da mesma raça que Caster) e uma conspiração para negar à África do Sul a medalha de ouro dos 800 metros.

Só que, segundo um artigo do Economist a propósito deste caso, emergiu então a informação de que, de facto, antes da corrida, a AIFA mandara fazer testes físicos à atleta sul-africana e, com base dos resultados recebidos, terá recomendado à federação sul africana de atletismo (que vai pela sigla ASA ou Athletics South Africa) que retirasse Caster dos campeonatos. O seu presidente, o Senhor Leonard Chuene, recusou, afirmando que previamente ninguém tinha alguma vez suscitado dúvidas sobre se Caster era efectivamente uma mulher ou não.

Mas a saga não acabou aqui. Segundo informações surgidas mais tarde, foi revelado que Leonard Chuene mentiu sobre o seu desconhecimento sobre a situação de Caster. De facto, antes da equipa sul africana viajar para a Alemanha para disputar os campeonatos mundiais, o presidente da ASA havia mandado fazer testes físicos e já sabia que o corpo de Caster exibia algumas características femininas e masculinas, o que quase certamente poria em causa o seu desempenho nas competições. Mas, aparentemente mais preocupado em trazer para a África do Sul uma medalha de ouro, guardou os resultados dos testes na gaveta e tentou minimizar a crítica. Numa reunião da Direcção da ASA no final da semana passada em Kempton Park em que era suposto deliberar sobre o papel do Sr. Chuene neste escândalo, nada foi dito nem feito.

Apesar de não serem conhecidos os detalhes dos resultados dos testes feitos a Caster, do que transpirou ela é – não se sabe até que ponto – hermafrodita. Para uma pessoa qualquer, esta circunstãncia poderia até certo ponto passar despercebida da sociedade ou até pela própria. Só que Caster era campeã de atletismo da África do Sul e ia entrar em competições internacionais. E aqui as regras mudam completamente. Nomeadamente, para quem não reparou, na maioria dos desportos discrimina-se a participação com base no sexo, ou seja, homens e mulheres têm que competir separadamente. Adiconalmente, há, por uma variedade de razões e em muitos desportos, um maior e melhor desempenho dos homens do que das mulheres. Regra geral os homens são maiores e têm mais força e resistência.

Assim, em resultado de situações que foram aparecendo ao longo dos anos, foram sendo desenvolvidas regras e testes para assegurar que não existam circunstâncias, ocorridas natural ou artificialmente, que dêem uma vantagem ilegítima a uma dada pessoa se comparado com – no caso do ateletismo feminino – uma mulher “normal”. Nomeadamente, o facto básico, se desconcertante, que uma característica masculina é a presença de níveis elevados de testosterona, uma substância que, se presente numa mulher (com ou sem aspas) lhe daria uma significativa vantagem sobre as restantes.

O adjectivo “normal” é colocado entre aspas pois a definição de “normal” é não absoluta mas relativa e sujeita a discussão por um painel de especialistas. Um artigo de opinião publicado no Los Angeles Times e da autoria de Megan Daum, cita fontes da organização ISNA, que se especializa em questões vulgarmente identificadas em língua portuguesa como hermafroditismo, indicando que em cada 100 pessoas nascidas, em média uma exibe uma ou mais características do outro sexo. É mais ou menos a frequência com que se vê alguém na rua com cabelo ruivo.

No caso de Caster, a imprensa refere que ela tem ambos órgãos masculinos e femininos, se bem que os seus órgãos masculinos não sejam visíveis a olho nu. Terá testículos internos mas não um útero ou ovários.

Como parte do clima de exaltação algo carnavalesca que se tem vivido na África do Sul, a revista You, que ali se publica, publicou um trabalho fotográfico em que Caster é figura de capa, exibindo a atleta em sensuais poses femininas, de saltos altos, pintada e com roupa de moda.

Neste momento não há registo de que os órgãos internacionais que gerem o atletismo mundial hajam retirado a medalha de ouro que Caster conquistou em Berlim em Agosto. Essa medida penderá de uma análise detalhada dos relatórios dos testes médicos efectuados e uma ponderação dos mesmos.

Quanto à atleta em si, pouco tem dito. A imprensa reporta que de nada suspeitava e que aguarda a evolução da sua situação, sendo que já não competiu numas provas recentes, pendendo um esclarecimento quanto à sua condição de “femininibilidade desportiva adequada”.

Neste caso, ditada pela AIFA.

Zuma e Zapiro

A televisão sul-africana censurou um programa satírico, “defendendo” a imagem do presidente Zuma. Zapiro passou a estar debaixo de fogo.

 

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Em toda a polémica sobre o acontecimento o porta-voz do ANC é claro: “I don’t think he’s [Shapiro] a small fish in a small pond. I think he’s a cog in a wheel … of right-wing elementary journalism that looks at people from a very one-sided viewpoint and doesn’t allow for the opposite views to come through,” Duarte says in the documentary.

É o tempo de Zuma: Zapiro passou a ser explicitamente um racista direitista.

O caminho, que era esperado, é explícito.

[Que dirão os meus amigos, tão zumistas, eles próprios tão dados à irreverência humorística? A des-ilusão é um prato que se come quente?]

Tudo isto pode ser diariamente acompanhado no perfil de Zapiro no Facebook. Como ele aí diz “The web is where freedom of expression is still OK – let’s hope it stays this way.”

A Era Zuma

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A vitória de Jacob Zuma nas eleições desta semana na África do Sul tem uma dimensão mitológica. Como ecoa o último Savana é “o regresso do poder do povo“. Fazendo-me lembrar o meu total assombro quando um amigo (e bloguista) me disse (em registo elogioso) “Zuma é de esquerda!”.

Não é a poligamia do homem, nem a sua libido algo descuidada, nem mesmo a apetência pelo dinheiro que me chocam – é sintomático do carácter prático e ideológico do ANC o facto das “alternativas” Sexwale e Ramaphosa (este directamente saído da liderança da central sindical) se terem “transformado” em empresários milionários.

O chocante e o temível é a ascensão deste populismo. Apetecível para os velhos marxistas, crentes na panaceia para a esclerose que os ataca. Voluptuoso para os neo-gamelistas, sempre lestos diante do novo totem.

Zapiro explica. Claro que lá, e não só, afirmarão que não tem a cor certa. Deve ser por isso …

Coisas para o facebook 2

Tratado (doutoral) em Antropologia Económica

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Esta fotografia equivale a uma tese de doutoramento, aka PHD. (Durban, Janeiro 2009)

A resistência sul-africana a Jacob Zuma

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Loja Exclusive Books em Durban [a foto - telefone Nokia - é péssima, apelando a uma ainda mais profunda hermenêutica política]

Atrás de mim virá quem bom de mim fará

Mbeki resigna.

Ícone

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“Restaurant Mandela, spécialités africaines” [Ixelle (Matongé), Bruxelas, Agosto 2008]

Jacob Zuma

Aqui ao lado, “lá em cima” como se costuma dizer, é a era de Zuma que chega. Amigos meus, gente boa e culta, dizem-me e repetem-me, à mesa, com bonomia, do seu “zumismo”. Gente, boa e culta, que continua a crer numa cartografia sacra, numa iconologia topológica – Zuma “é de esquerda”, afiançam-me(se) e nisso potenciam esperanças, e até nem tão parcas estas.

Para esses meus caros amigos “zumistas” com os quais, ao longo dos anos, tantos elogios cruzei ao grande Zapiro, insuspeito de costela direitista ou de revanchismo malaniano – julgo eu, que se calhar agora feito herege cartográfico -, aqui deixo os seus dois últimos cartoons. Sobre o ANC de hoje, sobre a África do Sul que aí vem. Mas mais do que tudo, sobre isso “da esquerda” …

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[Pressionar as imagens para as aumentar]

O agente dos atentados

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Craig Williamson, o agente sul-africano envolvido nos atentados de Maputo contra Albie Sachs e Ruth First, ocorridos na década de 1980 – e também referenciado no caso do assassinato de Olof Palme - continua notícia na África do Sul.

Coisas que mudam

Esta interessante polémica recorda-me algo que me esqueci de anunciar com as fanfarras justificadamente devidas: é ir a Neilspruit, já é permitido vender bebidas alcoolicas no mall ao domingo! “Eppur si muevo“!

South Africa

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(Neilspruit, Marco 2008; um post de autoria conjugal)

Brand New Madam & Eve

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Bring me my (new) Washing Machine! Inútil ir a Neilspruit?

(18.12.2007) Ainda a Cimeira Europa-África: “Nova Era” de relacionamento; respeito por “direitos humanos”, políticas de “desenvolvimento”, apoio à “transparência”, implementação da “boa governação” [aka "governância"]. Depois? Depois Zuma.

Enfim, a insustentável melodia retórica face ao ritmado do real.

(18.12.2007) “Zuma na Caneca“: – meu sms para amigos longínquos (desses incultos que não acham o desaparecimento da “pequena maddie” o acontecimento internacional do ano).

As ideias de Mbeki sobre o Sida

Está no Domingo de hoje o eco de um artigo no Guardian sobre as posições de Mbeki relativas ao Sida. Continua sendo, como refere o seu biógrafo oficial, um “dissidente do Sida”. Continua agitando e promovendo um documento por ele elaborado já nesta década no qual defende nada curiosas teses: o vírus HIV não é o causador da doença; os investigadores da doença são quais cientistas nazis dos campos de concentração; os africanos que aceitam a visão da ciência médica sobre a doença são vítimas de uma auto-infligida mentalidade de escravos.

Uma continuada visão em Mbeki e em vários dos seus seguidores sul-africanos, com eco em tantos membros das elites africanas (a Nobel da Paz Wangari Maathai, o cardeal de Maputo são sonantes exemplos) – representam uma transferência letrada das visões populares sobre o Sida (e a estas alimentam), mas não só. Nelas se reconhece um profundo anti-capitalismo confuso (pois brotado em políticos de acção pró-capitalista), traduzido em aparente recusa do capitalismo da indústria farmacêutica, sinal óbvio da confusão ideológica dessas elites políticas (dramático caso em Mbeki, ainda assim dos grandes líderes africanos actuais).

Mas mais do que isso, dois outros vectores a sustentarem esta “teoria conspiratória do Sida”, avatar contemporâneo da “teoria conspiratória da história”: por um lado, um óbvio, profundo, dramático, ressentimento com o “ocidente”, com o “homem branco” – aqui anunciado como genocida perene, autor da epidemia que dizima as populações do continente. Há uma doença avassaladora em África? Pois a responsabilidade, autoria e gestão, é dos brancos. Esta é uma constatação constante. E, por muito que seja historicamente compreensível tal angústia com os antigos colonos, ela é no caso presente patética (e pateta). E, para além da questão do Sida, este fundo moral e ideológico dificilmente será constitutivo de algo positivo – o “inimigo externo” como culpável de tudo não me parece grande argumento de desenvolvimento e de justiça social. E, neste caso, de saúde pública. Mas esta culpabilização rácica apela ainda a outra consideração, a de um actual e futuro espartilho para aqueles que recusam as categorias raciais como explicativas da acção humana: incrustados que parecem estar entre os racistas de várias cores, propondo estes supremacias racionais e civilizacionais (como acontece entre o trogloditismo de tez branca) e supremacias “históricas” e morais (como agita o trogloditismo de tez negra) [e aqui nem refiro outros locais do espectro de cores].

Finalmente, esta concepção constante de que os fenómenos têm uma “mão visível” subjacente, que a desordem (a doença mortal, neste caso a pandemia) é originada por uma vontade humana malévola, é a constante de uma cosmovisão feitícica, a sua actual demonstração religiosa, essa que elege o feitiço esconso como motor da acção social (muitos há, e até antropólogos encartados que chamam a isto fatalismo – e daí ao postular de um atavismo apenas lhes custa um dos seus pequenos passos -, símbolo de que não percebem nada disto). Ou seja, um entendimento geral subordinado a um extremo homocentrismo, em que as causas dos fenómenos têm que ser os indivíduos, mortos ou vivos, na sua constante e imortal interacção.

Por esta mesmo tão interessante – apesar do drama do Sida, apesar da tristeza racista – é ver as elites mais “modernizadoras” (como Mbeki) e mais cristãs (como os representantes do Vaticano) actuarem no quadro cosmológico tão perseguido pela actual revolução religiosa em África. Interessante de olhar enquanto se espera um novo Copérnico que aqui descentre o universo deste pobre pó que são os homens – não tão omnipotentes assim, nem quando vivos nem quando espíritos.

(Quase) Uma semana de Pretória.

1. Das medicinas privada e pública. Na privada (sul-africana) douta opinião do tira-tudo, acompanhada da lista de honorários – nem grande coisa diga-se. Na pública (santa terrinha) douta (e fraterna) opinão do espera-e-não-tira, sem honorários claro. Os óbvios malefícios do Serviço Nacional de Saúde. [O casal paterno, talvez porque óbvio socialista, tira nada.]

2. A Exclusive Books [entenda-se, a hiper-FNAC lá do sítio] de Neilspruit é melhor do que a Brooklyn Mall (Pretoria) e quase do que a de Sandton (JHB).


Onde vive a “elite” de lá, afinal em Trás-os-Montes?

3. Decadência sul-africana.

Não há novo livro de Madam & Eve.

4. Qualquer coisa sul-africana.

Cheira a Zuma.

5. Maputo (no regresso, mas antes também). No BB (belo blog) Solvstag cita-se Miguel Esteves Cardoso. Ler e comprovar que no Shamwari (ao talho Polana) se serve a melhor cerveja de pressão (aka “imperial”) da cidade.

6.
Maputo (no regresso, a ler e ouvir de Portugal). O meu ex-Presidente (e por isso sempre respeitado) Pedro Santana Lopes muito bem, baldando-se por ter sido trocado pelas malas da família Mourinho. E a minha surpresa com alguma da muito minha gente a não perceber, tamanha lhe é a clubite rosa, de que se trata mesmo da “a infantilização assassina que nos assola como uma praga …”, diga-se neste caso a futebolização.

7. Maputo (no regresso, a ler e ouvir de Portugal). Por falar em bola, eis o sossego da sociedade civil, a “auto-estima” lusa, a exigir outro Trapattoni “campeão”. O apito rubro? Sócrates (o inventor dos dez estádios do Europeu, então o arauto da sociedade [da construção] civil]) agradecerá.

8. Maputo (no regresso, a ler e ouvir de Portugal). Mentira pura nas palavras de Ruben A. Há imensa gente que atende o telefone. Portanto, pois

9. Maputo. E então, muito caro leitor frequente, deseja algum comentário face à polémica relativa às afirmações do arcebispo de Maputo sobre o Sida e suas origens? Menezes, meu caro leitor, Menezes …

[ainda que ... em estando gravado se poderá dizer "nada de novo sob este céu" - os brancos de tudo têm culpa (sua condição semi-divina, dir-se-ia); e o preservativo como a arma do deboche não-marital. É o pacote habitual, amancebando-se (não sacramentalmente, já agora) com as ideias populares, de que é na camisinha que mora a doença e que são os brancos que a trouxeram para ficarem com estas belas terras. Contudo a Terra move-se, ainda que a Igreja Católica se atrase.]

10. E falando de coisas bem importantes. “Old age”, diz-me o mecânico, meneando a cabeça até pesaroso, face às múltiplas mazelas do meu

Musso. O nosso fim avizinha-se? Que será de mim?


(Autocolante das eleições sul-africanas de 1994, que aqui estava à frente para ilustrar uma memória que nunca mais sai. Então fica já, imagem dedicada ao Portugal dos Pequeninos)

Mandela Terrorista

Via Cocanha cheguei a isto, um protesto ao Nobel da Literatura a Pinter: “Depois que dois terroristas do calibre de Arafat e Mandela foram premiados com o Nobel, podemos esperar qualquer coisa.”. Está aqui a bílis toda, “o calibre de terrorista” de Mandela sublinhado, como forma de invectivar a academia que atribui o prémio.

Posteriormente, decerto para manter um ar “actualizado”, “civilizado”, um jogo retórico a querer-se auto-legitimador, algo que nem justifica contraposição pois aqui o contexto dos textos é evidente. Superlativo de evidência.

Esta coisa, prenhe de desprezo, da tal bílis para não dizer de outra forma, por quem participou e liderou numa luta contra um regime racista (por excelência) e supra-opressivo*, surge agora muito apreciada, louvada e emparceirada no bloguismo português. Dito democrático, algum até liberal. Louvores e parcerias que ficam a quem os faz. Ficam bem se demonstrando-os. Ficam mal, se demonstrando-os.

Para esta coisa a história da política foi dando nomes: “ultramontano”, “fascista”, “fundamentalista” mais agora, “autoritário”. Tudo palavras cujo excessivo mau-uso desvalorizou, poluíu. Já não servem. De facto esta coisa tem um só nome. Lixo.

Depois … há quem viva com o lixo, há quem abrace o lixo. E há quem o limpe. Mera questão de higiene. O chá em criança talvez ajude. Mas não chega.**

*para os mais liberais mas ao mesmo tempo apreciadores de tais simpatias racistas com o anterior regime de apartheid da África do Sul seria conveniente aprenderem, mesmo que apenas para matizar tamanho desapreço com o tal terrorista. Aquele foi um regime ferozmente anti-liberal: não só as liberdades individuais eram na lei e na prática negadas, como o direito à propriedade privada era com a população não-branca a ser impedida de acumular e preservar propriedade. Mais, aquele foi também, imagine-se, arquétipo de um regime de multiculturalismo.

**no ma-schamba já me irritei contra o vácuo da proclamada superioridade moral da esquerda. Mas é óbvio que quem aprecia estes recipientes enferma de uma óbvia “inferioridade moral de centro/direita”. Mal hajam.

“A Apiska-Sul é bonita”, diz a Carolina.

E é, o Mpumalanga é bem mais do que o mall de Neilspruit – ainda que tantas vezes o esqueçamos.

Jacob Zuma

 

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Bem recentemente Zuma foi demitido de Vice-Presidente da África do Sul, devido a evidências de corrupção. Isto após um forte conflito com Thabo Mbeki, e apesar do apoio à sua postura populista e etnicista por parte do aparelho do partido ANC, do seu braço sindical (Cosatu), das secções de juventude e mulheres, bem como de parte da região Zulu de onde é originário e onde busca(ou) suporte “culturalista”.

A queda de Zuma foi uma lufada de ar fresco. E principalmente para quem ache que a África do Sul pode ser o motor do desenvolvimento da África Austral. Não como país bom samaritano. Mas como potência económica e política com supremacia regional, portanto num processo em que o seu interesse nacional próprio pode [sublinhe-se o "pode"] coexistir com interesses desenvolvimentistas vizinhos.

Mas, e mais egoisticamente, a queda de Zuma é também exemplo refrescante. Porque num país de tamanha complexidade política e de tão recente democracia (apenas uma década) as instituições podem forçar tamanha derrota de um homem-forte do partido supra-maioritário. Se tal é possível não o será noutros contextos com menor complexidade socio-política? E alguma maior tradição democrática?

Final de Semana prolongado

Já lá não ia há uns meses. E está até melhor.

Boas, limpas e bonitas instalações, tudo espaçoso, agora até um bom restaurante (coisa rarissima, verdadeira petita no Mpumalanga, como se sabe), um belo repouso para quem o quer. A 150 metros, verdade, não é coisa de pub, da entrada do Kruger, o Malelane Gate. Que ali é assim mesmo

E a preços mais do que honestos (a chamada boa relação qualidade-preço). Apesar de não darem desconto a bloguistas. Last, but least, é empresa patrícia. A andar bem, pelo menos parece.

Bichos? Também convém, em especial para a Carolina. Para quem diz que perto das entradas há poucos animais, a menos de 1 km da entrada de Crocodile Bridge conheceu ela (e nós) 2 casais de rinocerontes com seus filhos respectivos – a menos de 20 metros. E lá no Lower Sabie leopardo, senhor que não vi, apenas a presa na árvore, quase a pingar na estrada – mas os amigos no outro carro viram-no, calmamente rondando (e como é raro o leopardo dar-se a vistas).

No remanso do maravilhoso Marloth Park (que é assim um Kruger para conhecedores) dizia a tia da Carolina: “Vocês assim estão tramados com a miúda” “Porquê?” “Deixem-na ficar mais uns tempos, e não muitos, e ela nunca mais há-de querer sair de África”.

“Pois” assobio eu para o lado, a ver se ninguém mais ouviu a tia. Enquanto os kudus (e que macho!!!) e as zebras vêm até à casa e os leões roncam, lá no rio.