Archive for the ‘Africa Austral’ Category

O REINO ALI AO LADO

Quinta-feira, Julho 1st, 2010

A legenda diz: "Contraste. Campo de futebol e mansão de uma das 13 mulheres do rei"

por ABM (Quinta-feira, 1 de Julho de 2010)

É sempre interessante ver como um jornalista brasileiro, neste caso enviado à África do Sul para fazer a cobertura do Mundial, apreende a realidade local.

Neste caso a realidade no Reino da Suázilândia.

O que se segue é da autoria de -creio – Evelson de Freitas – e foi publicado hoje no sítio afiliado com o jornal o Estado de São Paulo:

Absolutismo resiste na Suazilândia

Pequeno reino situado entre a África do Sul e Moçambique tem família real bilionária e população miserável

A Revolução Francesa foi há 221 anos, mas o absolutismo ainda sobrevive num pequeno reino encravado entre a África do Sul e Moçambique. O rei Mswati III da Suazilândia nomeia o primeiro-ministro, os juízes e um terço dos deputados e senadores, e ainda tem poder de veto final sobre as leis aprovadas no Parlamento.

Partidos políticos são proibidos desde 1973, quando o rei Sobhuza II, pai de Mswati, anulou a Constituição deixada pelos ingleses ao concederem a independência da Suazilândia, em 1968. Os grupos de defesa da democracia foram proscritos e seus líderes, processados por alta traição e terrorismo. Só há uma emissora de TV e uma de rádio, ambas estatais.

Mswati III e sua extensa família controlam todos os negócios rentáveis do país. O rei é legalmente proprietário de todas as terras. Aos 38 anos, tem 13 mulheres (cada uma mora numa mansão), 23 filhos, 7 palácios, um jato particular de US$ 45 milhões e uma coleção de carros de luxo, num país em que 69% da população vive com menos de US$ 0,63 por dia. Do 1,3 milhão de suazis, 300 mil dependem da distribuição de comida da ONU para sobreviver. A Suazilândia tem a maior incidência de aids do mundo (26% ) e a menor expectativa de vida (31 anos).

Recentemente, o principal jornal do país, The Times of Swaziland, foi obrigado a pedir desculpas, em manchete de domingo, por ter publicado que o rei havia comprado um Rolls Royce e dois Mercedes-Benz para sua vasta frota.

Em matéria de família extensa, falta muito para Mswati alcançar o pai, que teve 110 mulheres e 250 filhos. Em relação à fortuna, Mswati tem progredido depressa. O reverendo Hanson Ngwenya, membro do Conselho de Igrejas da Suazilândia, lembra que, quando Sobhuza morreu, em 1982, tinha US$ 7,6 bilhões numa conta na Suíça. Menos de quatro anos depois, quando seu filho foi coroado, e recebeu a herança, teriam sido transferidos US$ 10 bilhões para uma conta sua na Arábia Saudita. Tanto num caso como noutro, os titulares das contas não eram os reis da Suazilândia, mas suas pessoas físicas, observa Ngwenya. Como quase tudo o que se refere à monarquia, a fronteira entre a fortuna pessoal do rei e o Tesouro nacional é nebulosa.

Dever de amar. Os súditos de Mswati III nunca chegaram perto de seus palácios e sabem muito pouco sobre o rei e sua família ? com exceção de que devem “amá-lo” acima de tudo. “Há a história geral, que todos devem saber, e a história real, que só a família (real) conhece”, diz a professora de religião Patricia Mahlobo, de 39 anos. “Sabemos sobre o rei tanto quanto você”, responderam um estudante universitário e dois profissionais formados, diante de perguntas como onde Mswati nasceu e mora. Os três nunca votaram: “Para quê?”

“O silêncio é parte da nossa cultura”, descreve Nkululeko Twala, que trabalha num cassino online para clientes na África do Sul, onde o jogo é proibido. “Aprendemos na escola que temos de amar e respeitar o rei, assim como amamos nossos pais e respeitamos os mais velhos”, explica Nqobizwe Shipanga, de 25 anos, que estuda relações públicas. Os trabalhos escolares incluem poesias de louvor ao rei, e ensina-se que seu poder emana de Deus, como ocorria com Luís XIV, o “rei sol” da França.

“Aqueles que não o amam devem guardar para si”, sentencia Skhulile Ntshalintshali, de 24 anos, especialista em informática de uma empresa fabricante de brocas para mineração. “Se criticar o rei, você vai direto para a cadeia.”

Mphandlane Shongwe, um ativista pró-democracia de 49 anos, afirma que já foi preso mais de 20 vezes. Formado em educação, só trabalhou seis meses como professor, antes de ser demitido e nunca mais contratado, por causa da atuação política. Atualmente, ele está envolvido na resistência de 20 mil moradores da favela de Logoba, na cidade de Matsapha (a 30 km da capital, Mbabane). Eles receberam ordem de desocupar a área, porque o rei quer construir ali um shopping center. Logoba faz divisa com terras do rei aparentemente improdutivas, mas ele prefere desapropriar a favela, sem oferecer indenização nem outra moradia para as famílias expulsas.

Bico. Regina Shongwe, de 58 anos, mora desde 1992 em Logoba. Viúva, ela tem 7 filhos adultos (mães e pai solteiros) e 8 netos, que vivem em barracões ao lado do seu. Apenas duas filhas, Futhi, de 28 anos, e Khanyisile, de 30, estão empregadas, numa fábrica de roupas do polo industrial de Matsapha, que lhes paga 900 emalangeni (US$ 120) por mês. Os rapazes vivem de bico. Tsepo, de 22 anos, ganha 40 emalangeni (US$ 5,33) por dia fazendo blocos de concreto,  quando aparece trabalho.

“Não sei o que vou fazer”, diz Regina, que adquiriu o terreno pelo método tradicional africano, oferecendo uma vaca ao chefe local, além de ter tido de pagar propina a um intermediário. Ela diz que o enviado do príncipe Masitsela (tio do rei e administrador regional) veio acompanhado da polícia, fez perguntas e informou que a família precisa ir embora até dezembro.

O mestre de obra Thomas Dlamini, de 58 anos, mostra-se disposto a resistir: “Nasci aqui e ninguém vai me tirar daqui.” Sua mãe, Tsembile Nkambule, de 86, nasceu a 30 km de distância, e se mudou para Logoba com o marido e um filho mais velho em 1951. “Fomos trazidos pelo rei Sobhuza II, para criar uma zona tampão aqui e não deixar que as indústrias crescessem para esse lado.”

E isto foi o que o Evelson escreveu.


O pai deles todos


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JOSÉ MILHAZES E SAMORA MACHEL

Terça-feira, Maio 11th, 2010

por ABM (10 de Maio de 2010)

Enquanto me encontro a ler o quase enciclopédico ANC: A view from Moscow, de Vladimir Shubin (Joanesburgo: Jacana Media, 2008), interrompi ontem por um serão para ler o mais ou menos bombasticamente intitulado Samora Machel – Atentado ou Acidente?, da autoria de José Milhazes (Lisboa: Alêtheia Editores) publicado há poucas semanas.

O livro de José Milhazes, um português que faz de Moscovo a sua casa aparentemente desde 1977, é, por comparação com a obra de Shubin, que é uma segunda edição revista da primeira, saída em 1999, quase uma brincadeira. Contém algumas citações interessantes relativamente aos grandes protagonistas das décadas entre 1960 e 1990 em Moçambique e na África Austral e o relacionamento dos soviéticos com estes.

Sendo relativamente breve e superficial (para encher o chouriço, começa com a revolução russa em 1917 e no fim até transcreve insuportáveis discursos de Samora a agradecer medalhas soviéticas e de Gorbachov a elogiá-lo à maneira dos tempos de então, com camarada para cima, camarada para baixo), ainda assim tem algumas coisas interessantes, se bem que destinadas a alimentar a guerrilha agora pela memória e pela História, do que foram esses anos.

A começar por Samora Machel, que, por contraste com Joaquim Chissano e Eduardo Mondlane, a acreditar nos testemunhos registados, era considerado quase um tótó pouco racional pelos soviéticos, que se torciam para o acomodar sem saber bem como. Por seu lado, subentendem-se as dificuldades da liderança moçambicana daquela altura em sobreviver e navegar as perigosíssimas águas da Guerra Fria na África Austral.

Pelo meio, José Milhazes aproveita para dar uma tacada a Jacinto Veloso, a Sérgio Vieira e ainda manda um inexplicado torpedo lateral ao actual presidente, sugerindo que não se foi mais longe na investigação das causas e circunstâncias da queda do avião em que Samora e a sua entourage pereceram em 1986, tenha que ver com o facto de Armando Guebuza estar no poder. Para quem como eu está completamente fora da trama, não se percebe a boca publicada, que sugere não sei bem o quê.

A julgar pelo título, o prato forte da obra (que me foi gentilmente oferecida, com rótulo de preço e tudo) seria a queda do avião presidencial em 1986. Mas na verdade é apenas uma parte da obra, em que Milhazes aproveita umas declarações mais ou menos conhecidas e junta a sua às milhentas teorias e conspirações que se vão lendo por aqui e por ali, sobre a queda do avião.

Mas não deixa de ter interesse, já que detalha, por exemplo, a dinâmica do processo, vista do lado soviético, o que não é de subestimar, já que o aparelho e a tripulação do malogrado avião eram soviéticos.

Mas quanto a se foi acidente ou atentado, objectivamente, fiquei na mesma. Aquilo para já é um mistério total, tirando que agora sabemos que a tripulação soviética veio todo o caminho a discutir como dividir entre si umas latas de Coca-Cola surripiadas não sei onde.

Mas o livro tem umas jóias dignas de se ler, como 1) a descrição da cena em que Samora supostamente manda (literalmente) à merda o embaixador russo em Moçambique, 2) a quase impossibilidade dos soviéticos em ajudarem a reforçar a segurança militar no território na face dos ataques das renamos, dos sul-africanos e dos rodesianos, 3) a fase de pastor de Mondlane em Gaza antes de se formar em Portugal (onde, como era de esperar, os tugas logo o trataram abaixo de cão, metendo-o no Aljube por coisa nenhuma), 4) a enigmática descrição dos eventos em redor do assassinato de Mondlane em 1969, contados à lupa como eu nunca lera antes, 5) o facto de Milhazes indicar que o ponto de viragem de toda a guerra com Portugal foi em Julho de 1970, quando o Papa Paulo VI recebe os líderes das guerrilhas africanas antes de uma importante conferência em Roma (pelo meio, morre o ditador Oliveira Salazar, o que Milhazes, curiosamente, omitiu).

E finalmente, uma interessante estatística, quase enterrada por acaso numa das páginas, que indicava que o suporte soviético dado à Frelimo no início dos anos setenta não chegava aos cem mil dólares, enquanto que, apenas poucos anos depois, o orçamento de defesa dos sul-africanos era de cerca de três mil milhões de dólares.

É caso para pensar como é que Samora, mesmo com a história, a razão e a moral do seu lado, pensava que se podia meter com os boers, especialmente num contexto em que a União Soviética se manifestava indisposta para financiar o conflito. E ainda mais curioso foi ficar a saber que, quando oito anos após a independência decidiu assinar o acordo em Komatipoort, em 1984, os amigos soviéticos souberam do tratado pelos jornais. Para eles deve ter sido um grande sapo para engolir.

De certo modo, fico com pena e algo expectante. Milhazes está baseado em Moscovo, e se há dados interessantes e relevantes sobre as perspectivas soviéticas e o seu envolvimento na fase que antecedeu e sucedeu a independência de Moçambique, presumo que certamente esses dados existam na actual Rússia. Assim, quer em termos absolutos, quer em termos relativos (se se comparar, por exemplo, com a profundidade da obra de Vladimir Shubin sobre o ANC, cuja capa reproduzo abaixo), este livro soube a pouco. Espero que esta seja apenas uma primeira tentativa e que Milhazes volte à carga um dia destes com uma versão de 400 páginas muito mais aprofundada sobre o papel soviético em Moçambique.

Entretanto, José Milhazes alimenta um excelente blogue chamado “Da Rússia“, que se recomenda.


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UM AR DA SUA GRAÇA

Domingo, Abril 18th, 2010

por ABM (18 de Abril de 2010)

Graça Machel deu uma curta entrevista em Joanesburgo e que foi publicada ontem no jornal britânico Mail & Guardian.

A curta entrevista, sobre o papel dos britânicos em África e nomeadamente em relação aos últimos anos no Zimbábué, é interessante quer pelo seu tom, quer por alguns dos comentários feitos avulsamente. Deliciosamente concluída com um comentário por Eddie Cross, um parlamentar zimbabueano do MDC, que parece concluir que, por piores que os britânicos sejam e tenham sido, que nada poderia ser tão mau como o colonialismo português. Para isso, refere que Samora Machel terá dito que, no que toca aos colonialistas, os britânicos foram de longe os melhores.

Donde se pode concluir que há bons e maus colonialistas. Os leitores britânicos devem-se ter babado com esta. Ah, rule Brittania, eles é que sabiam fazer as coisas.

Interessante para o exmo leitor que lê inglês, é ver os comentários feitos pelos leitores no fim da peça.

Graça é provavelmente a mulher mais rica de Moçambique e neste momento patriarca da dinastia Machel, apesar de ser simultaneamente a terceira mulher do grande Nelson, o que lhe confere um estatuto à parte.

A entrevista:

One of Africa’s most eminent political figures has condemned Britain for taking a patronising “big brother” attitude to its former colonies.

Graça Machel, a founder member of the Elders group of world leaders and the wife of former SA president Nelson Mandela, warned British politicians to “keep quiet” about countries such as Zimbabwe and let African diplomacy take its course.

Machel (64) is a former first lady of Mozambique, where she served as education minister, and has won numerous international awards for her advocacy of women’s and children’s rights.

In an interview with the Guardian in Johannesburg, she indicated that the crisis in Zimbabwe has revealed the shortcomings of a persistent imperialist mindset.

“Can I be a little bit provocative?” Machel said. “I think this should be an opportunity for Britain to re-examine its relationship with its colonies. To acknowledge that with independence those nations will want to have a relationship with Britain which is of shoulder to shoulder, and they will not expect Britain to continue to be the big brother.

“When a nation is independent, there is no big brother. They are partners. Part of the reason why Britain finds it difficult to accept Zimbabwe is precisely because that relationship of a big brother is influencing [efforts] to try to understand.”

Britain, along with the European Union and United States, has imposed travel restrictions and asset freezes on Zimbabwe President Robert Mugabe and his political and business allies. It has defied calls from South Africa to end these measures for the sake of the power sharing agreement between Mugabe’s Zanu-PF and the Movement for Democratic Change (MDC).

Earlier this year Foreign Secretary David Miliband said the UK would be “guided by what the MDC says to us about the conditions under which it is working and leading the country”. Critics said this handed Zanu-PF a propaganda coup, allowing it to portray the MDC as a puppet of Britain and blame it for sanctions.

Machel added: “I’m not saying things are OK, they’re all fine in Zimbabwe. I’m saying a different kind of dialogue, a different kind of bridge to try to understand the other side could have produced a different result from what it is.

“The more the British shout, the worse the situation will be in terms of relationship with Zimbabwe. That’s why sometimes I really question, when something happens in Zimbabwe and Britain shouts immediately. Can’t they just keep quiet? Sometimes you need just to keep quiet. Let them do their own things, let SADC [Southern African Development Community] deal with them, but keep quiet, because the more you shout, the worse [it is].”

Expectations
Asked if Britain’s attitude is patronising to its former colonies, Machel replied: “I’m afraid so. And what I’m saying is they have expectations which do not always coincide with what are the aspirations and expectations of those who are their former colony.

“When you change the relationship, you just have to give yourself to take the humility to stop and listen. And when you listen, then you take into account the other side. You put your case, then you take the other side. In a way, you harmonise interests of both sides.”

Zimbabwe will mark 30 years of independence this weekend. Britain remains politically and economically influential and denies Mugabe’s claim that it reneged on promises to fund the redistribution of land to the black majority.

Mugabe’s response, the chaotic seizure of white-owned farms, has been blamed for the collapse of Zimbabwean agriculture.

‘There’s more to Africa than Zimbabwe’
Machel, whose first husband was the late Mozambique president Samora Machel, called on Britain to take a broader view of the African continent. “That’s one of the issues, particularly with the British people: because of the emotional attachment they have with Zimbabwe, in many cases they define the continent in terms of Zimbabwe. Zimbabwe is one country among 53 countries, so you have all the rest of 52 countries. Well, let us put aside Somalia also, which is a failed state. But you have 50 countries who are running a relatively normal situation in the continent.

“I would like to raise with you the issue that yes, Zimbabwe has failed, and it is hurting British people directly, but there’s much, much more to Africa than Zimbabwe.”

Machel, who became Mandela’s third wife in 1998, also accused developed countries of double standards on CO2 emissions and climate change.

“This has been very clearly stated at the negotiations to Copenhagen. They know — the developing world, including China — that Africa has very small responsibility in the impact of climate change, but Africa is the one paying the highest price.”

Britain’s intentions are still treated with scepticism in Zimbabwe, even among some members of the MDC. Eddie Cross, policy coordinator general of the MDC, said: “Perfidious Albion. I tell you, you Brits have a well-deserved reputation for perfidity in your colonial relations … I think Britain’s always been very sophisticated in its relations with its former colonies — it’s got more experience than any other state in the world — but it doesn’t necessarily make them right.

‘You would never choose to be colonised by the Portuguese’
“Britain’s role in the last 10 years has often been difficult for us in the MDC to interpret and read. Sometimes they’ve backed certain initiatives in Zimbabwe which have not been helpful in terms of pursuing a principled transfer of power and I think sometimes the Brits regard us as being rather naïve in the MDC and they have a rather jaundiced view of Africa and African politics.”

But Cross, an economist and MP, added that other European powers probably behaved worse: “Samora Machel once said to me: ‘If you were to choose to be colonised, you would never choose to be colonised by the Portuguese.’ The colonial record was pretty dismal. For the British it was probably the best.”


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OPENING VAN DEN DELAGOABAAI SPOORWEG

Terça-feira, Fevereiro 9th, 2010


por ABM (Cascais, 9 de Fevereiro de 2010)

Se eu fosse rico, tinha comprado na semana passada o medalhão que se retrata em cima, da autoria de um tal Johan Philip Mathias Menger, o artista principal do Royal Mint em Utrecht, Holanda.e que foi feita para comemorar a abertura em 1895 da linha de caminho de ferro que passou a ligar Lourenço Marques a Pretória, então capital da Zuid-Afrikaanse Republik.

Quem o pôs à venda foi um senhor de Durban, na África do Sul, em leilão que começou a 90 dólares. Mas quando subiu rapidamente desisti.

Existem duas variedades desta moeda.

Neste caso, numa face vê-se a efígie de Paul Kruger, o então presidente da República Sul-Africana e pode-se ler a frase em africaanse, “OPENING VAN DEN DELAGOABAAI SPOORWEG” (abertura do caminho de ferro da Baía de Delagoa).

Do outro lado, vê-se o símbolo da companhia de caminhos de ferro daquela república boer e a frase “NEDERLANDSCHE ZUID-AFRIKAANCHE SPOORWEG – MAATSCHAPPIJ” (Companhia dos Caminhos de Ferro da África do Sul Holandesa).

As iniciais do Senhor Johan Menger aparecem em baixo: J.P.M.M.F.

A medalha é de bronze, tem um diâmetro de 44 milímetros e um peso de 38.3 gramas.

Estas moedas de bronze aparecem de vez em quando. Muito mais raras são as feitas em prata: apenas foram produzidas vinte.


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O Fim do Mundo em Moçambique

Sexta-feira, Dezembro 11th, 2009



por ABM (Cascais, 11 de Dezembro de 2009)

Cortesia de Hollywood e por apenas cerca de cinco dólares (excluindo uma lata de Coca Cola e uma dose de pipocas) o exmo leitor pode ver a mais recente versão do fim do mundo, que é suposto ocorrer no dia 21 de Dezembro de 2012, mais ou menos daqui a três anos.

O novo filme de Roland Emmerich, que custou “apenas” 260 milhões de dólares a produzir e que dura umas quase insustentáveis duas horas e quarenta minutos de ponta a ponta, parte de bases interessantes. Uma, que é mais do estilo “voodoo”, é que o calendário da mais ou menos extinta civilização meso-americana dos Maias, e que nas contas deles indica que o mundo começou há seis mil e tal anos, acaba precisamente no dia acima referido, em resultado de algum (não confirmado) alinhamento de corpos celestes, que eles viram mas que nós hoje não descrutinámos ainda.

Outra base, também comprovada, é que em 2012 haverá um ressurgimento da actividade solar, sendo nessa altura a terra assolada por uma dose acrescida de ventos solares. Isto acontece todos os 11 anos e qualquer vulgar mortal que tenha um rádio de onda curta, opere um satélite, ou faça a gestão de uma rede eléctrica sabe isso.

Uma terceira base é que parte desse vento solar inclui umas minúsculas partículas chamadas neutrinos, que só agora andam a ser estudadas, e que têm a particularidade de poderem atravessar, supõe-se, o planeta de um lado ao outro. Neste filme, o aumento nos neutrinos “ferve” o interior da terra, causando a novimentação das placas terrestres – onde assentam os continentes.

Com esses pressupostos, temos 260 milhões de dólares de fim do mundo, desta vez à escala global, com cenas longas e chatas para entreter meninas teenager californianas e as suas congéneres no resto do mundo. Isso inclui a Califórnia literalmente cair para o mar (o que, sendo do imobiliário mais caro do mundo, dá um certo gozo ver), as magníficas pinturas de Michelangelo na Capela Sistina a desfazerem-se em pó por cima do Papa e os seus acólitos, a gigantesca cratera vulcânica que se situa no que é hoje o parque norte-americano de Yellostone a explodir, o Cristo-Rei no Rio de Janeiro a cair, Nova Iorque a ser demolida mais uma vez, e o maior tsunami na história do cinema a subir até ao pico mais alto da cadeia de Everest, no Nepal.

Isto com a habitual dose de amor, choro, baba e ranho, traição, humanidade e egoísmo que acompanham estas mega-produções.

O que trai o filme são as sequências infindáveis de cenas de perigo em que os nossos heróis (apropriadamente, uma família “moderna” – pais divorciados, o namorado da mãe a reboque, filhos parvinhos mimados e ressabiados) sucessivamente escapam por um triz à mais certa destruição. Na vida real, à primeira pedrada morremos. Mas aqui é umas atrás das outras e sempre tudo a andar. O que me surpreende, pois gastarem-se milhões e milhões em efeitos especiais para emprestar maior credibilibidade às cenas e depois fazer isto é deitar bom atrás de mau dinheiro.

Para os moçambicanófilos, há mesmo mesmo no fim do filme uma cena que não sei se devo rir ou chorar mas que é interessante. Depois de toda a hecatombe, a coisa acalma e os sobreviventes deste fim do mundo rumam, de barco, para o que consideram o lugar mais seguro e com mais chance de vida no que restou da Terra – nomeadamente, a cadeia de montanhas Drakensberg, que percorre a actual África do Sul e que acaba nos Libombos na parte Sul de Moçambique. Como o nível do oceano subiu algumas centenas de metros, no filme vê-se vagamente a maior parte do Sul de Moçambique…debaixo do mar.

Quando saí do cinema só me ria a pensar no que seria os Zulus e os Khosas, depois de aturarem 300 anos de guerras com os boers e lutarem para voltarem a ser os donos daquilo, e de sobreviverem um apocalipse…verem aparecer no horizonte três barcos cheios de gente para colonizar novamente a sua terra.

Seria Vasco da Gama all over again.

Claro que há um elemento interessante a meditar aqui. A julgar pelos apóstolos da desgraça, o mar vai subir uns cem metros nos próximos séculos. E, nesse caso, se se observar um mapa topográfico de Moçambique, o Sul do país literalmente desapareceria debaixo do mar. Para o exmo. leitor perceber o que isso significa, experimente subir ao topo do prédio de 33 andares na baixa de Maputo, que tem cerca de cem metros de altura. Olhe à sua volta e imagine o que é que significa o mar estar a essa altura.

Mas nem é preciso ir tão longe. Até ao fim deste século o mar deverá subir 1 a 2 metros. E se isso acontecer, a maior parte do caminho entre Maputo e a Ponta do Ouro – que já esteve debaixo do mar, pois aquilo é quase tudo areia da praia – será completamente inundada. A marginal de Maputo e toda a orla marítima até junto de Marracuene serão permanentemente inundadas.


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J&M Lazarus e Lisboa, Abril de 1915

Terça-feira, Outubro 13th, 2009

jmlazarus

por ABM

Dando uma achega à detalhada inserção do JPT, relativa aos primeiros fotógrafos a operar em Moçambique, acima reproduzo um anúncio publicitário de J & M Lazarus, que terão operado em Barberton no fim do século XIX mais ou menos na altura em que naquela vila da então República Sul Africana Meridional (mais tarde, Transvaal, a seguir Mpumalanga) ocorrera uma corrida ao ouro falsa, depois mudaram-se para Lourenço Marques (mais tarde, Maputo), onde operaram durante alguns anos e deixaram um interessante espólio fotográfico na forma de postais e trabalhos para a então edilidade. Os irmãos Lazarus depois mudaram-se para Lisboa, onde passaram a operar, sendo mencionados nomeadamente no espólio da colecção fotográfica da presidência da república portuguesa, donde se deduz serem então considerados entre os melhores fotógrafos da capital portuguesa.

Obtive o anúncio acima reproduzido numa interessantíssima revista lisboeta, dirigida à classe burguesa, que se chama Contemporanea (sem acento circunflexo), edição de Abril de 1915, página 13.

A Europa estava então nos primeiros seis meses da I Guerra Mundial (então conhecida apenas como a Grande Guerra) e Portugal na altura ainda não fazia parte do conflito. Entraria mais tarde para salvar as colónias e porque, quase caricatamente, os militares portugueses, com tesão de mijo porventura por causa do Gungunhana, achavam que podiam jogar a sério na Liga Principal. De uma Paris assediada pelos alemães a Leste, um correspondente da revista, Justino de Montalvão, redigira um sórdido e sombrio artigo, descrevendo as vicissitudes dos parisienses, a cidade silenciosa, às escuras, sem transportes e sem vida nocturna, sob a constante ameaça dos bombardeamentos pelos zeppelins alemães.

Em Abril de 1915 a república portuguesa existia há apenas cinco anos, desde que houvera umas escaramuças em Lisboa e o rei fugira e se procedera ao envio de telegramas para as províncias e colónias a avisar que fora instaurada uma – a -república. O novo regime era caracterizado por um optimismo quase fantasioso, uma instabilidade total e um anti-clericalismo sem precedente, mas já mostrava sinais claros de estar a perder o rumo e assustado pelos efeitos de uma potencialmente catastrófica participação no conflito mundial. Estupidamente, entrou 11 meses depois: La Lys foi infame; de resto foi apenas muito mau: um submarino (o U-155, que no fim roubou uns chicharros para um churrasco) mandou uns tiros contra Ponta Delgada, a cidade do Funchal foi atacada uma vez, Paul von Lettow-Vorbeck fez o que bem quis no Norte de Moçambique durante quatro anos e houve umas chaticezitas em Angola.

No cômputo geral, os 7500 soldados portugueses mortos num único dia em La Lys (9 de Abril de 1918) permitiram que a delegação portuguesa tomasse um lugar entre os vencedores em Versailles, pedisse umas massas valentes e mantivesse o Império.

Nas páginas da Contemporanea, surpreendentemente pelo menos para mim, que tinha a impressão que a melhoria nas relações entre a República e a Igreja Católica só ocorrera com a ditadura de Sidónio Pais, há um artigo acompanhado de fotografias, atestando parcialmente esse degêlo já em Abril de 1915, alternando fotografias do General Pimenta de Castro e do seu governo (caracteristicamente breve: nomeado a 28 de Janeiro, derrubado em 15 de Maio) com imagens das procissões e missas que decorriam na capital portuguesa durante a Páscoa Católica nesse mês: um mar negro de devotos à porta das igrejas.

Nesse ano de 1915, um obscuro tradutor de nome Fernando António Nogueira de Seabra Pessoa, anestesiado por doses consideráveis de aguardente Águia Real, escrevia confusos gatafunhos e deixava frases soltas sobre literatura, misticismo e astrologia no seu livro de notas e, assinando sob o então novel pseudónimo de Álvaro de Campos, enviava uma carta indignada ao Diário de Notícias, reclamando contra o tratamento feito nas suas páginas ao Nº1 da revista Orpheu, a um artigo ali contido e escrito por “um tal” de Fernando Pessoa, e ainda ao livro, então publicado, de Mário de Sá Carneiro. A carta termina assim: ” espero da lealdade jornalística de V.Exa a inserção desta carta em lugar onde pelo menos os jornalistas a leiam. Na impossibilidade de fazer os nossos críticos compreender, tentemos ao menos levá-los a fingir que compreendem.”

Que foi o que fiz.


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Política na África Austral

Quinta-feira, Julho 17th, 2008

A propósito de um ciclo eleitoral que incluía Botswana, Namíbia, Moçambique e Zimbabué aqui escrevi em 31 de Outubro de 2004:

“Em todos estes processos eleitorais se aplicará o código eleitoral adoptado pelos países da SADC, subscrito neste último Agosto na cimeira das Maurícias. Um tratado endógeno, a implicar profunda aceitação e aplicação, para lá das pressões internacionais. Um processo regional histórico. Um privilégio de assistir a tão rico período.”

Era uma elipse irónica? Já não me lembro. Mas olhando o desde então pode-se, em triste sorriso, considerar que o pós-colonialismo ainda aí está, substrato. Abrindo brechas geracionais – Botswana, Zâmbia. Mas resistente ainda.

Estou crente que, a haver obamismo, crescerá. Ressuscitando a múmia. Mesmo que apesar de Obama (haverá Obama? para além do afro-Obama, vera jarra de Pandora?) – aliás, estou crente que XXI será o século do racismo. “Luzes”? Absolutamente fundidas na demagogia populista. De todas as cores.


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“Temor reverencial”

Segunda-feira, Abril 7th, 2008

Pode-se gostar ou não gostar de José Eduardo Agualusa: o meu desgosto com a última mão cheia de livros (até ao “Zumbi”, livro que inacabei com isso finalmente acabando-me como seu leitor) é até bem menor do que o tido com a personagem. Lembro-o aqui em Maputo há já alguns anos quando havia o Festival de Teatro de Agosto, numa sessão na Associação de Escritores num ditirambo contra os intelectuais, editores e académicos portugueses que opinam sobre a literatura africana assim demarcando-a, uma coisa muito “a la carte” pensei (terá ele pensado também). Para acabar eu a beber cervejas na esplanada com alguns colegas locais dele a gozarem-me: “vocês promovem estes tipos e eles tratam-vos assim”, riam-se nada convencidos do menu apresentado. Resmunguei uns palavrões sobre a geneologia dele, guardei o saco de livros que levara para que ele os autografasse, ri-me com as “minhas” mulheres da ostensiva vaidade do homem (“tanta que o torna feio”, dizia-me uma admiradora, porventura despeitada com alguma desatenção), passei o naco de estante a ele dedicado para a segunda fila traseira (confesso esta minha fealdade) a dar espaço primaz a outros autores de apelido “A…” e segui. Tudo isso nada tem de relevante (diga-se que escritores medianos, homens vaidosos e conferencistas de cabotagem só ofendem quem não consegue escrever, é feio e não tem ninguém que o ouça). Relevante é o indecente torniquete que lhe propõem, o “temor reverencial” a que o querem obrigar. Que seria ridículo se não fosse perigoso. Está narrado aqui: I, II.


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Mugabe e a África Austral

Segunda-feira, Março 31st, 2008

A Zimbabwe Shock: Mugabe Losing ou Mugabe Set To Claim Victory? Muito do que cá se vai pensando sobre Mugabe está aqui. Fora do Zimbabwe, por mais retórica que haja, o motor da solidariedade ou do apoio passivo com o velho ditador é “o mal que fez aos brancos”, a ideia que a oposição que lhe é movida é uma deriva ainda-colonial – em Maputo a satisfação burguesa que comentava a sua presença na cimeira Europa-África é nota disso. Que farão os líderes da região nestes próximos dias? Que indicações sobre a forma como se conceptualiza o paradigma regional de multipartidarismo de partido único? Autocrático? Ou suicidário? (numa determinada acepção de desenvolvimento a autocracia pode ser desenvolvimentista. O suicídio, por mais teorias de desenvolvimento que se explorem, não me parece que o seja). A seguir Zuma. “De esquerda”, dizem-no “críticos da corrupção” (que têm a santa qualidade de nada aprenderem com a história que vivem). As cores e os pólos, nada mais. Como se fossem muito…


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As ideias de Mbeki sobre o Sida

Domingo, Novembro 11th, 2007

Está no Domingo de hoje o eco de um artigo no Guardian sobre as posições de Mbeki relativas ao Sida. Continua sendo, como refere o seu biógrafo oficial, um “dissidente do Sida”. Continua agitando e promovendo um documento por ele elaborado já nesta década no qual defende nada curiosas teses: o vírus HIV não é o causador da doença; os investigadores da doença são quais cientistas nazis dos campos de concentração; os africanos que aceitam a visão da ciência médica sobre a doença são vítimas de uma auto-infligida mentalidade de escravos.

Uma continuada visão em Mbeki e em vários dos seus seguidores sul-africanos, com eco em tantos membros das elites africanas (a Nobel da Paz Wangari Maathai, o cardeal de Maputo são sonantes exemplos) – representam uma transferência letrada das visões populares sobre o Sida (e a estas alimentam), mas não só. Nelas se reconhece um profundo anti-capitalismo confuso (pois brotado em políticos de acção pró-capitalista), traduzido em aparente recusa do capitalismo da indústria farmacêutica, sinal óbvio da confusão ideológica dessas elites políticas (dramático caso em Mbeki, ainda assim dos grandes líderes africanos actuais).

Mas mais do que isso, dois outros vectores a sustentarem esta “teoria conspiratória do Sida”, avatar contemporâneo da “teoria conspiratória da história”: por um lado, um óbvio, profundo, dramático, ressentimento com o “ocidente”, com o “homem branco” – aqui anunciado como genocida perene, autor da epidemia que dizima as populações do continente. Há uma doença avassaladora em África? Pois a responsabilidade, autoria e gestão, é dos brancos. Esta é uma constatação constante. E, por muito que seja historicamente compreensível tal angústia com os antigos colonos, ela é no caso presente patética (e pateta). E, para além da questão do Sida, este fundo moral e ideológico dificilmente será constitutivo de algo positivo – o “inimigo externo” como culpável de tudo não me parece grande argumento de desenvolvimento e de justiça social. E, neste caso, de saúde pública. Mas esta culpabilização rácica apela ainda a outra consideração, a de um actual e futuro espartilho para aqueles que recusam as categorias raciais como explicativas da acção humana: incrustados que parecem estar entre os racistas de várias cores, propondo estes supremacias racionais e civilizacionais (como acontece entre o trogloditismo de tez branca) e supremacias “históricas” e morais (como agita o trogloditismo de tez negra) [e aqui nem refiro outros locais do espectro de cores].

Finalmente, esta concepção constante de que os fenómenos têm uma “mão visível” subjacente, que a desordem (a doença mortal, neste caso a pandemia) é originada por uma vontade humana malévola, é a constante de uma cosmovisão feitícica, a sua actual demonstração religiosa, essa que elege o feitiço esconso como motor da acção social (muitos há, e até antropólogos encartados que chamam a isto fatalismo – e daí ao postular de um atavismo apenas lhes custa um dos seus pequenos passos -, símbolo de que não percebem nada disto). Ou seja, um entendimento geral subordinado a um extremo homocentrismo, em que as causas dos fenómenos têm que ser os indivíduos, mortos ou vivos, na sua constante e imortal interacção.

Por esta mesmo tão interessante – apesar do drama do Sida, apesar da tristeza racista – é ver as elites mais “modernizadoras” (como Mbeki) e mais cristãs (como os representantes do Vaticano) actuarem no quadro cosmológico tão perseguido pela actual revolução religiosa em África. Interessante de olhar enquanto se espera um novo Copérnico que aqui descentre o universo deste pobre pó que são os homens – não tão omnipotentes assim, nem quando vivos nem quando espíritos.

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Quarta-feira, Outubro 10th, 2007

Transcrevo do Canal de Moçambique este artigo sobre Mugabe e o Zimbabwé. Um pouco destinado não tanto aos defensores do regime de Harare (que fazer com tal gente?) mas mais aos “contextualizadores”. A ver se lhes cai o relativismo …

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Kader Asmal, membro do comité executivo do ANC e ex-ministro do governo de Nelson Mandela, lançou um vigoroso ataque contra o regime despótico instalado em Harare. Asmal acusou o governo liderado por Robert Mugabe de “mover uma guerra tirânica contra o povo zimbabweano”. Advogado dos direitos e membro do Parlamento sul-africano, Asmal questionou a política de apaziguamento seguida pelo actual governo sul-africano em relação ao regime de Harare.

Kader Asmal falava durante o lançamento do livro “Zimbabwe – Through the Darkness” da autoria da activista zimbabweana, Judith Todd, presentemente exilada na África do Sul. Todd é filha do antigo governador colonial da Rodésia do Sul, Garfield Todd, tendo-se destacado pela sua oposição ao regime de Ian Smith, apoiando a luta do povo do Zimbabwe pela conquista da independência.

Asmal lamentou que não tivesse condenado há mais tempo o regime despótico de Robert Mugabe, reconhecendo que o seu “silêncio havia feito dele um cúmplice das atrocidades cometidas contra o povo do Zimbabwe.” O mesmo membro do comité executivo do ANC acrescentou que “como internacionalista, que no passado moveu uma campanha contra o regime do apartheid, devia ter feito o mesmo em relação a um regime que colocou o Zimbabwe de rastos.”

Prosseguindo, Kader Asmal disse que “devia ter falado na década de 80, quando milhares de pessoas foram assassinadas pela famigerada 5ª Brigada na Província de Matabeleland. A Igreja Católica falou, mas eu não o fiz. E também não o fiz no decurso da Operação Murambatsvina” no quadro da qual o regime da ZANU-PF, no melhor estilo pol potiano, procedeu à destruição de casas, clínicas e empresas, forçando os cidadãos zimbabueanos a abandonarem as zonas urbanas do país em direcção ao campo.

O presidente sul-africano, Thabo Mbeki, e outros membros do seu governo insistem que apenas os zimbabueanos poderão decidir sobre o seu próprio futuro. Dias antes das declarações de Kader Asmal, o ministro das finanças sul-africano, Trevor Manuel, havia afirmado que os zimbabueanos deviam ser “encorajados a resolver os seus próprios problemas.”

(Redacção / Cape Times)
2007-10-09 06:19:00


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Domingo, Maio 6th, 2007

Ok, parece que os vizinhos têm um novo presidente.


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Quarta-feira, Abril 18th, 2007

Amigo que lê o ma-schamba envia-me, recomendada, uma crónica de Miguel Sousa Tavares, uma “Triste Africa” a propósito do Congo, do Zimbabwe. E também da política externa portuguesa.Muito discordo do truculento MST, e não só no seu aberrante portismo (uma berrada e nada irónica filiação à mafia que, sem engraçadismos, desvaloriza radicalmente, aplaina mesmo, qualquer intenção de cidadania que o plumitivo tenha erguido. Entenda-se, a não-brincadeira fascistoide da bola sousatavarista é, in loco, o similar ao bembismo ou outro ismo qualquer na torpe africa que ele denuncia). Discordo deste texto acima de tudo pela critica à política externa portuguesa (é porreiro dizer mal do governo): uma república que envia o seu Presidente à colonialista China não tem ética diplomática, não vale a pena chover no molhado, segue o primado da política real. E quem não se exaltou na altura não me venha com merdas vs mugabes e bembas.

(paragrafo amansado: Já agora, Sampaio veio cá há pouco, falar da tuberculose. Havia duas hipóteses, ou ir lá exigir-lhe o meu voto de volta, vociferando contra a pro-chinesice por ele cometida. Ou esquecer, enjoado com o velho lider das lutas académicas de 61 feito aquela ruína colonialista, servil. Deixei passar, claro, as pessoas acham “maluquinho” o tipo que fala.)

O texto do clarividente MST, que vê corações por via das caras, tem piada e por isso o reproduzo aqui. Tem piada porque me lembra de alguém que foi observar as eleições ao Congo, e às 8 da noite já blogava que tudo “tinha sido free and fair“. “Partir a loiça da política”, diz o alguém ser a sua missão? Antes os seguidistas que esta gente, dantesca, se de dantas ou dante já nem sei.

E la vai o texto de Miguel Sousa Tavares.

Triste África

Olhem para a cara de Jean-Pierre Bemba, o líder da oposição congolesa. Eu sempre acreditei que olhar para a cara das pessoas ajuda muito a perceber quem são. Concordo que a receita é falível: há gente com aspecto de boa pessoa e que, afinal, não é recomendável e vice-versa. E há caras que não dizem tudo, de bom ou de mau, acerca do seu portador. Mas, para quem conhece um bocadinho a África Negra e a sua classe política, a cara do sr. Bemba diz tudo ou quase tudo sobre o que há a esperar dele no dia em que conseguir chegar à presidência da República Democrática do Congo. A menos que estejamos perante uma notável excepção ao meu critério de adivinhar carácteres a partir das caras, a do sr. Bemba traz as marcas inconfundíveis da generalidade dos políticos negros africanos da última geração. Um catálogo de horrores: nepotismo, prepotência, violência, cupidez e, fatalmente, corrupção.

Agora, olhem para a cara do sr. Joseph Kabila, o seu rival e actual Presidente da RDC: a outra face da mesma moeda. O Presidente Joseph Kabila sucedeu a seu pai — coisa habitual nestas paragens —, o distinto Laurent-Desiré Kabila, cuja presidência será sobretudo recordada pela ruína do país e o estendal de cadáveres deixados para trás. Kabila-pai tinha sucedido ao imortal Mobutu Sese Zeko, uma espécie de estereótipo de ditador africano, de quem Bemba e o pai foram estreitos aliados. Dois clãs em luta pelos despojos do país, coisa comum na África Negra. Depois de vinte anos de guerras, golpes e contragolpes, o ex-Zaire e ex-Congo Belga, um dos mais ricos países africanos, está reduzido à miséria, à ineficácia e à corrupção e exposto às intromissões e cobiças do seu poderoso vizinho angolano.Voltemos ao sr. Bemba, herdeiro de uma colossal fortuna deixada por seu pai e empresário cujos exemplos mais admirados são o marselhês Bernard Tapie e o milanês Silvio Berlusconi, dois príncipes da alta finança europeia que a Justiça perseguiu e condenou por toda a espécie de falcatruas possíveis no ramo. No final de 2006, Bemba regressou do exílio para fundar o MLC e concorrer às eleições. Derrotado por Kabila, gritou à fraude (o que, mais do que provavelmente, é verdade) e transformou o MLC numa milícia militar, apoiada pela Líbia e outros países africanos e acusada pela ONU de práticas de canibalismo. Em Março passado, o MLC saiu do mato e desceu às ruas de Kinshasa, tentando tomar o poder pela mais antiga das formas locais de o fazer. Derrotado também nas ruas, Bemba refugiou-se na Embaixada da África do Sul, e a situação caiu num impasse. Foi então que a diplomacia portuguesa teve uma ideia luminosa: mediar a saída negociada (e necessariamente provisória) de Bemba do país e da cena política. Aproveitar o passaporte português da mulher, uma luso-brasileira filha de um emigrante português, e dos filhos e aproveitar o facto de o sr. Bemba ser proprietário de uma casa na Quinta do Lago, no Algarve (como já sucedia com o seu ‘padrinho’ Mobutu), assim proporcionando uma saída airosa a ambas as partes. Se os esforços do embaixador Alfredo Duarte Costa tiverem sucesso, a nossa diplomacia consegue, de facto, uma lança em África: proporciona uma saída para a crise, que Kabila tem de agradecer, e fica nas boas graças do sr. Bemba, para o dia em que este, milhar de mortos a mais ou a menos, consiga enfim sentar-se no trono do Leopardo. O desfecho diplomático está iminente e apenas aguarda que Kabila resista à tentação de tentar deitar a mão ao seu rival para o cortar às postas e se decida a assinar um papel, deixando-o sair.

Como se pode imaginar, aos congoleses, à excepção dos milicianos e arregimentados de ambos os lados, tanto se lhes faz Kabila como Bemba. Quem ficar com o poder enriquecerá — ele e a sua corte; o resto da população continuará na miséria, à espera do milagre impossível do dia em que o Congo, como o resto da África Negra, seja governado por homens sérios, competentes e com vontade de servir o seu país.
Desçamos um pouco mais abaixo e a leste, onde temos o caso-limite do Zimbabwe, desse louco criminoso que é Robert Mugabe. Como escreveu há dias a Conferência Episcopal do Zimbabwe, ali o poder perdeu já qualquer resquício de vergonha, de pudor, de condescendência para com a miséria do povo ou de respeito pelos direitos humanos mais elementares. A oposição é espancada, presa e torturada à vista de todos, os jornalistas estrangeiros são expulsos, o desemprego atinge os 80%, e a fantástica Reforma Agrária de Mugabe, que correu com os melhores agricultores africanos, que eram os rodesianos brancos, trouxe a fome aos campos e às cidades superlotadas. No seu delírio de psicopata, Mugabe não encontrou melhor plano do que mandar o Exército desterrar da capital, Harare, centenas de milhares de pessoas que não tinham para onde ir.

Em Harare esteve há duas semanas o ministro dos Estrangeiros de Angola, que lá foi oferecer apoio militar a Mugabe e proclamar a solidariedade ‘anticolonialista’ do regime de José Eduardo dos Santos. Depois, o ministro veio a Lisboa e sentou-se numa mesa ao lado do nosso MNE, Luís Amado. Perguntaram a Amado se, perante a situação no Zimbabwe e o isolamento a que o regime foi votado pela União Europeia, ele ponderava a possibilidade de não convidar Mugabe para a Cimeira Europa-África, prevista para a presidência portuguesa da UE. O MNE deve ter estremecido, antes de responder convictamente que não: imaginar que Portugal pudesse comprometer aquilo que está previsto ser o «achievement» da nossa presidência, arriscando-se a que os países africanos boicotassem a Cimeira por ‘solidariedade anticolonialista’ com o Zimbabwe, é simplesmente antipatriótico. Seria o mesmo que convidar o Governo português, por exemplo, a perguntar a Luanda para onde vão as receitas do petróleo angolano que não entram no Orçamento do Estado.

‘Provocações’ dessas não se fazem aos africanos. Eles são muito sensíveis às intromissões ‘colonialistas’ dos brancos nos seus assuntos: em especial se forem europeus e, pior ainda, antigas potências coloniais em África. Eles não se importam de ser neocolonizados pelos indianos e agora pelos chineses, que estão a tomar conta de África em busca de energia e terras cultiváveis. Como antes não se importavam com os negócios ruinosos feitos com russos ou americanos, desde que as ‘nomenclaturas’ locais, bem entendido, fossem devidamente recompensadas. Mas, para os europeus, as regras são muito mais duras e exigem, como ponto prévio, que só há negócios em África se se seguir estritamente a diplomacia dos interesses e jamais a dos valores. É preciso ficar muito calado, olhar para o lado, fingir que não se vê e não se sabe e, sendo possível, como fazem Portugal e França, conseguir que os seus dirigentes tenham sempre um «pied à terre» na Côte d’Azur ou no Algarve, para criarem laços de afinidade e cumplicidade connosco.

Um dia, quando se fizer a história da África desaparecida, haveremos de chegar à conclusão de que, muito pior e muito mais imperdoável do que os cinco séculos de colonialismo europeu, foram estas cinco décadas de cumplicidade com o que há de pior em África.

Miguel Sousa Tavares
Publicado segunda-feira, 9 de Abril de 2007


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Quinta-feira, Março 29th, 2007

Angola apoiando com homens o regime de Mugabe. Tsvangirai (simbolicamente uma mescla de Walesa e Lula. Simbolicamente, repito) preso e agredido. O silêncio dos regimes vizinhos, total negação das suas auto-legitimações retóricas.Ainda assim Angola apoiando o regime de Mugabe. Angola intervindo no Congo. Zâmbia reclamando de um titanic mugabesco. Moçambique suave e diplomaticamente alheado do velho de Harare. África do Sul, entre-Zuma, oscilando. Ainda assim Commonwealth. A “região”, essa mítica entidade da moda, move-se. Cinde-se?


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Terça-feira, Agosto 22nd, 2006
Barack Obama, the only black United States senator, criticised South African leaders on Monday for their slow response to HIV/Aids, saying they were wrong to contrast “African science and Western science.” Aids activists say Health Minister Manto Tshabalala-Msimang is creating deadly confusion by pushing traditional medicines and a recipe of garlic, beetroot, lemon and African potatoes to combat HIV/Aids while underplaying the role of anti-retrovirals (ARVs). “The minister of health here has tended to equate traditional medicines to anti-retrovirals, so on the treatment side the information being provided by the minister of health is not accurate,” he said. “It is not an issue of Western science versus African science, it is just science and it’s not right,” Obama told reporters outside an HIV/Aids clinic in Cape Town’s Khayelitsha township.”

Uma das mais enigmáticas questões na vizinha África do Sul é a retórica (e a prática?) do seu governo face ao sida. A consideração da pobreza como causa da doença – o que sendo, em determinado registo, uma verdade é absolutamente letal em termos de campanha de prevenção. E a valorização da dieta “africana” como curativa – mais uma vez, é uma verdade relativa, mas suicidário em termos de estratégias dilatórias do inimigo principal, a morte.

É muito reduzido o que conheço do “ambiente moral” do poder ANC, esse que implica a recorrente afirmação destes argumentos, e a recusa em matizar as declarações públicas. É pois nesse registo de superficialidade de conhecimento (e de rapidez de escrita e reflexão) que associo estes discursos a alguns factores ideológicos, que não se encontrarão apenas na RAS mas que ali assumem particular visibilidade.

Por um lado o anti-ocidentalismo/anti-americanismo, produzindo o mito da doença como causada pelos ocidentais, para destruição de África. Ainda recentemente, e para espanto geral, ecoado pela Nobel da Paz, a queniana Wangari Maathai, e algo que tantas vezes se ouve no seio das populações. Como seu corolário a desvalorização (prática) das causas efectivas da transmissão da doença, assim obscurendo os métodos de prevenção. Associando-se-lhe um anti-capitalismo (e até, por vezes, uma ideologia anti-industrialista, confusamente ligado a um necessário “regresso às origens” auto-valorizador, auto-indutor de desenvolvimento), talvez algo retórico, mas que conjuntamente com o factor anterior se prende com o profundo mal-estar com as questões da notória dependência político-económica de África (e o regresso, nada encapotado, das teorias dependentistas – essas que, paradoxalmente, esvaziam de humanidade “agencial” os próprios africanos, no fundo um reaccionarismo ocidentalocêntrico, um altercentrismo, que escapa aos seus locutores). Anti-capitalismo/industrialismo esse que, neste caso, implica a desvalorização dos medicamentos em prol dos produtos biológicos (a dieta).

E, sem de tudo isso estar desligado, um endogenismo, a reclamação do primado das forças próprias. Um paradigma, claro que válido para tantas dimensões da realidade, mas que submerso neste caldeirão ideológico surge como valorizando a (certo que benéfica) batata-”africana”, et al, contra os anti-retrovirais químicos-”ultramarinos”. Um endogenismo que, amíude, alimenta um, surpreendente (?) regresso do “nativismo“, a valorização dos saberes locais, indígenas. Mais uma vez uma verdade relativa, uma ideologização do reconhecimento, utilização (e salvaguarda, já agora) da pluralidade cognitiva. Assim substituindo uma histórica subvalorização (e perseguição) por uma desejada sobrevalorização, de contornos muito dúbios. E muito do discurso público (e até académico) sobre as relações entre a medicina formal (dita biomedicina) e medicina(s) tradicional(ais) encerra-se neste amplexo esganador.

Um outro (e aqui último) ponto, também ideologicamente ligado. A afirmação do ocidentalocentrismo da(s) ciência(s) e da necessidade de erigir conceitos, problemáticas (metodologias) africanas. Reconhecido o carácter histórico, social, contextual da produção científica, das relações de poder que esta encerra, que as constituem (e poluem) reclama-se ciência local – a medicina africana, a sociologia africana, os etcs africanos. E quem reclama da universalidade (tendencial) do discurso científico, localmente aplicável, localmente reformulável, sempre actualizável, afronta-se com o muro de beco constítuido pela afirmação (acusação) da característica também ocidentalocêntrica desse universalismo pretendido.

Enigmática questão, iniciei eu, esta a da conceptualização do poder sul-africano sobre o sida, esse que vai devastando o país e o continente. E das similitudes que se encontram no discurso público alhures – entenda-se que um discurso sobre o sida com estes contornos não se encontra nas altas esferas políticas moçambicanas (e se, por mera hipótese, existir pelo menos não tem expressão pública). Enigmática questão pois parece-me que a conjugação de um conjunto de questões todas elas válidas (entenda-se, questionáveis, discutíveis), acima elencadas, se torna húmus para um inconceptualização. E que, ainda por cima, não parece corresponder a qualquer interesse passível de ser confrontado, associado, com o drama da sida.

Entretanto neste caso como em tantos outros, na África do Sul muitos destoam destas posições afinal simplistas (ainda que não simples). Com eles, claro, Nelson Mandela. O Homem…


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