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Mugabe

nos ícones do Mail & Guardian: Zapiro e Madam & Eve (pressionar as imagens para as aumentar).

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Armas para Mugabe

Que farão os líderes da região nestes próximos dias? Que indicações sobre a forma como se conceptualiza o paradigma regional de multipartidarismo de partido único? Autocrático? Ou suicidário?“, perguntei aqui em 31 de Março. O transporte de armas chinesas para o Zimbabué, antevendo-se que para reforço da movimentação mugabiana é uma resposta. Esperada. Surpreendente.

Surpreendente. Esperada.

“Temor reverencial”

Pode-se gostar ou não gostar de José Eduardo Agualusa: o meu desgosto com a última mão cheia de livros (até ao “Zumbi”, livro que inacabei com isso finalmente acabando-me como seu leitor) é até bem menor do que o tido com a personagem. Lembro-o aqui em Maputo há já alguns anos quando havia o Festival de Teatro de Agosto, numa sessão na Associação de Escritores num ditirambo contra os intelectuais, editores e académicos portugueses que opinam sobre a literatura africana assim demarcando-a, uma coisa muito “a la carte” pensei (terá ele pensado também). Para acabar eu a beber cervejas na esplanada com alguns colegas locais dele a gozarem-me: “vocês promovem estes tipos e eles tratam-vos assim”, riam-se nada convencidos do menu apresentado. Resmunguei uns palavrões sobre a geneologia dele, guardei o saco de livros que levara para que ele os autografasse, ri-me com as “minhas” mulheres da ostensiva vaidade do homem (”tanta que o torna feio”, dizia-me uma admiradora, porventura despeitada com alguma desatenção), passei o naco de estante a ele dedicado para a segunda fila traseira (confesso esta minha fealdade) a dar espaço primaz a outros autores de apelido “A…” e segui. Tudo isso nada tem de relevante (diga-se que escritores medianos, homens vaidosos e conferencistas de cabotagem só ofendem quem não consegue escrever, é feio e não tem ninguém que o ouça). Relevante é o indecente torniquete que lhe propõem, o “temor reverencial” a que o querem obrigar. Que seria ridículo se não fosse perigoso. Está narrado aqui: I, II.

Mugabe e a África Austral

A Zimbabwe Shock: Mugabe Losing ou Mugabe Set To Claim Victory? Muito do que cá se vai pensando sobre Mugabe está aqui. Fora do Zimbabwe, por mais retórica que haja, o motor da solidariedade ou do apoio passivo com o velho ditador é “o mal que fez aos brancos”, a ideia que a oposição que lhe é movida é uma deriva ainda-colonial - em Maputo a satisfação burguesa que comentava a sua presença na cimeira Europa-África é nota disso. Que farão os líderes da região nestes próximos dias? Que indicações sobre a forma como se conceptualiza o paradigma regional de multipartidarismo de partido único? Autocrático? Ou suicidário? (numa determinada acepção de desenvolvimento a autocracia pode ser desenvolvimentista. O suicídio, por mais teorias de desenvolvimento que se explorem, não me parece que o seja). A seguir Zuma. “De esquerda”, dizem-no “críticos da corrupção” (que têm a santa qualidade de nada aprenderem com a história que vivem). As cores e os pólos, nada mais. Como se fossem muito…

Coisas que mudam

Esta interessante polémica recorda-me algo que me esqueci de anunciar com as fanfarras justificadamente devidas: é ir a Neilspruit, já é permitido vender bebidas alcoolicas no mall ao domingo! “Eppur si muevo“!

South Africa

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(Neilspruit, Marco 2008; um post de autoria conjugal)

(18.12.2007) Ainda a Cimeira Europa-África: “Nova Era” de relacionamento; respeito por “direitos humanos”, políticas de “desenvolvimento”, apoio à “transparência”, implementação da “boa governação” [aka “governância”]. Depois? Depois Zuma.
Enfim, a insustentável melodia retórica face ao ritmado do real.

(18.12.2007) “Zuma na Caneca“: - meu sms para amigos longínquos (desses incultos que não acham o desaparecimento da “pequena maddie” o acontecimento internacional do ano).

Copo em copo, nisto do rescaldo da cimeira África-Europa. E do Mugabe, claro. De como sai reforçado (mais tarde, na noite da rtp António Vitorino intervala a negociação pós-Cahora Bassa para os seus “quinze minutos de propaganda” e dirá que Mugabe saiu enfraquecido da cimeira. Claro que não, e Vitorino sabe-o, de parvo não tem um grama que seja) - Mugabe pôs os brancos no lugar, foi lá à cimeira e botou o que quis. Sai reforçado, até cair de velho e então se gerar o pós-ditaduras gerontocráticas de sempre. Apoiado por pares e elites políticas vizinhos, por elites intelectuais (até blogs moçambicanos de ilustres académicos lhe incensam ter feito mal aos brancos), por “gente comum” (que é uma coisa que somos todos, mas alguns não acreditam).

Copo em copo diz-me um amigo, conhecedor da minha terra: “isto de pôr a gente a dizer mal do Mugabe será como pôr os tipos do bloco de esquerda a dizerem mal do Fidel Castro“. No alvo …

Mugabe e a Cimeira

[bis de entrada colocada em Abril de 2007]


“Depois da minha saída do Zimbabue, em 1993, a crença em raças assumiu a forma de um racismo governamental pouco disfarçado. O presidente Mugabe tomara atitudes fortemente xenófobas, sobretudo em relação à Grã-Bretanha. Ao abrir a Feira de Livros em Harare em 1993, lançou a sua primeira ofensiva. Referindo-se a um stand de livros organizado pelo movimento homossexual (Gays and Lesbians of Zimbabwe - GALZ), xingou os homossexuais de “pior que porcos” e acusou os colonialistas de terem trazido esse “mal” para a África. Em seguida, iniciou uma “reforma agraria” que consistiu na expulsão dos brancos das suas fazendas. Nisso ele foi abordado por bandos de soi-disant (antigos combatentes da guerra da independência - muitos nasceram depois do fim da guerra, em 1980), que expulsaram fisicamente os brancos das suas fazendas …

A maioria dos analistas da situação em Zimbabue sugere que Mugabe jogou a carta da raça (played the race card) como uma tatica cínica para se manter no poder. Não penso da mesma maneira. Entendo que ele, como a maioria dos zimbabuanos, acreditando em raças e na diferenca fundamental entre “africanos” e “europeus”, enxerga a sociedade através do prisma da raça e interpreta o que vê em função dela.”

(Peter Fry, A Persistência da Raça. Ensaios Antropológicos Sobre o Brasil e a África Austral, Rio de Janeiro, Civilização Editora, 2005, pp. 30-31)

(já agora)

Costa do Marfim.


New Currency, Zimbabwe.

(o sarcasmo é o melhor remédio)

Está no Domingo de hoje o eco de um artigo no Guardian sobre as posições de Mbeki relativas ao Sida. Continua sendo, como refere o seu biógrafo oficial, um “dissidente do Sida”. Continua agitando e promovendo um documento por ele elaborado já nesta década no qual defende nada curiosas teses: o vírus HIV não é o causador da doença; os investigadores da doença são quais cientistas nazis dos campos de concentração; os africanos que aceitam a visão da ciência médica sobre a doença são vítimas de uma auto-infligida mentalidade de escravos.

Uma continuada visão em Mbeki e em vários dos seus seguidores sul-africanos, com eco em tantos membros das elites africanas (a Nobel da Paz Wangari Maathai, o cardeal de Maputo são sonantes exemplos) - representam uma transferência letrada das visões populares sobre o Sida (e a estas alimentam), mas não só. Nelas se reconhece um profundo anti-capitalismo confuso (pois brotado em políticos de acção pró-capitalista), traduzido em aparente recusa do capitalismo da indústria farmacêutica, sinal óbvio da confusão ideológica dessas elites políticas (dramático caso em Mbeki, ainda assim dos grandes líderes africanos actuais).

Mas mais do que isso, dois outros vectores a sustentarem esta “teoria conspiratória do Sida”, avatar contemporâneo da “teoria conspiratória da história”: por um lado, um óbvio, profundo, dramático, ressentimento com o “ocidente”, com o “homem branco” - aqui anunciado como genocida perene, autor da epidemia que dizima as populações do continente. Há uma doença avassaladora em África? Pois a responsabilidade, autoria e gestão, é dos brancos. Esta é uma constatação constante. E, por muito que seja historicamente compreensível tal angústia com os antigos colonos, ela é no caso presente patética (e pateta). E, para além da questão do Sida, este fundo moral e ideológico dificilmente será constitutivo de algo positivo - o “inimigo externo” como culpável de tudo não me parece grande argumento de desenvolvimento e de justiça social. E, neste caso, de saúde pública. Mas esta culpabilização rácica apela ainda a outra consideração, a de um actual e futuro espartilho para aqueles que recusam as categorias raciais como explicativas da acção humana: incrustados que parecem estar entre os racistas de várias cores, propondo estes supremacias racionais e civilizacionais (como acontece entre o trogloditismo de tez branca) e supremacias “históricas” e morais (como agita o trogloditismo de tez negra) [e aqui nem refiro outros locais do espectro de cores].

Finalmente, esta concepção constante de que os fenómenos têm uma “mão visível” subjacente, que a desordem (a doença mortal, neste caso a pandemia) é originada por uma vontade humana malévola, é a constante de uma cosmovisão feitícica, a sua actual demonstração religiosa, essa que elege o feitiço esconso como motor da acção social (muitos há, e até antropólogos encartados que chamam a isto fatalismo - e daí ao postular de um atavismo apenas lhes custa um dos seus pequenos passos -, símbolo de que não percebem nada disto). Ou seja, um entendimento geral subordinado a um extremo homocentrismo, em que as causas dos fenómenos têm que ser os indivíduos, mortos ou vivos, na sua constante e imortal interacção.

Por esta mesmo tão interessante - apesar do drama do Sida, apesar da tristeza racista - é ver as elites mais “modernizadoras” (como Mbeki) e mais cristãs (como os representantes do Vaticano) actuarem no quadro cosmológico tão perseguido pela actual revolução religiosa em África. Interessante de olhar enquanto se espera um novo Copérnico que aqui descentre o universo deste pobre pó que são os homens - não tão omnipotentes assim, nem quando vivos nem quando espíritos.

Transcrevo do Canal de Moçambique este artigo sobre Mugabe e o Zimbabwé. Um pouco destinado não tanto aos defensores do regime de Harare (que fazer com tal gente?) mas mais aos “contextualizadores”. A ver se lhes cai o relativismo …
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Kader Asmal, membro do comité executivo do ANC e ex-ministro do governo de Nelson Mandela, lançou um vigoroso ataque contra o regime despótico instalado em Harare. Asmal acusou o governo liderado por Robert Mugabe de “mover uma guerra tirânica contra o povo zimbabweano”. Advogado dos direitos e membro do Parlamento sul-africano, Asmal questionou a política de apaziguamento seguida pelo actual governo sul-africano em relação ao regime de Harare.
Kader Asmal falava durante o lançamento do livro “Zimbabwe – Through the Darkness” da autoria da activista zimbabweana, Judith Todd, presentemente exilada na África do Sul. Todd é filha do antigo governador colonial da Rodésia do Sul, Garfield Todd, tendo-se destacado pela sua oposição ao regime de Ian Smith, apoiando a luta do povo do Zimbabwe pela conquista da independência.
Asmal lamentou que não tivesse condenado há mais tempo o regime despótico de Robert Mugabe, reconhecendo que o seu “silêncio havia feito dele um cúmplice das atrocidades cometidas contra o povo do Zimbabwe.” O mesmo membro do comité executivo do ANC acrescentou que “como internacionalista, que no passado moveu uma campanha contra o regime do apartheid, devia ter feito o mesmo em relação a um regime que colocou o Zimbabwe de rastos.”
Prosseguindo, Kader Asmal disse que “devia ter falado na década de 80, quando milhares de pessoas foram assassinadas pela famigerada 5ª Brigada na Província de Matabeleland. A Igreja Católica falou, mas eu não o fiz. E também não o fiz no decurso da Operação Murambatsvina” no quadro da qual o regime da ZANU-PF, no melhor estilo pol potiano, procedeu à destruição de casas, clínicas e empresas, forçando os cidadãos zimbabueanos a abandonarem as zonas urbanas do país em direcção ao campo.
O presidente sul-africano, Thabo Mbeki, e outros membros do seu governo insistem que apenas os zimbabueanos poderão decidir sobre o seu próprio futuro. Dias antes das declarações de Kader Asmal, o ministro das finanças sul-africano, Trevor Manuel, havia afirmado que os zimbabueanos deviam ser “encorajados a resolver os seus próprios problemas.”
(Redacção / Cape Times)
2007-10-09 06:19:00

(Quase) Uma semana de Pretória.

1. Das medicinas privada e pública. Na privada (sul-africana) douta opinião do tira-tudo, acompanhada da lista de honorários - nem grande coisa diga-se. Na pública (santa terrinha) douta (e fraterna) opinão do espera-e-não-tira, sem honorários claro. Os óbvios malefícios do Serviço Nacional de Saúde. [O casal paterno, talvez porque óbvio socialista, tira nada.]

2. A Exclusive Books [entenda-se, a hiper-FNAC lá do sítio] de Neilspruit é melhor do que a Brooklyn Mall (Pretoria) e quase do que a de Sandton (JHB).


Onde vive a “elite” de lá, afinal em Trás-os-Montes?

3. Decadência sul-africana.

Não há novo livro de Madam & Eve.

4. Qualquer coisa sul-africana.

Cheira a Zuma.

5. Maputo (no regresso, mas antes também). No BB (belo blog) Solvstag cita-se Miguel Esteves Cardoso. Ler e comprovar que no Shamwari (ao talho Polana) se serve a melhor cerveja de pressão (aka “imperial”) da cidade.

6.
Maputo (no regresso, a ler e ouvir de Portugal). O meu ex-Presidente (e por isso sempre respeitado) Pedro Santana Lopes muito bem, baldando-se por ter sido trocado pelas malas da família Mourinho. E a minha surpresa com alguma da muito minha gente a não perceber, tamanha lhe é a clubite rosa, de que se trata mesmo da “a infantilização assassina que nos assola como uma praga …”, diga-se neste caso a futebolização.

7. Maputo (no regresso, a ler e ouvir de Portugal). Por falar em bola, eis o sossego da sociedade civil, a “auto-estima” lusa, a exigir outro Trapattoni “campeão”. O apito rubro? Sócrates (o inventor dos dez estádios do Europeu, então o arauto da sociedade [da construção] civil]) agradecerá.

8. Maputo (no regresso, a ler e ouvir de Portugal). Mentira pura nas palavras de Ruben A. Há imensa gente que atende o telefone. Portanto, pois

9. Maputo. E então, muito caro leitor frequente, deseja algum comentário face à polémica relativa às afirmações do arcebispo de Maputo sobre o Sida e suas origens? Menezes, meu caro leitor, Menezes …

[ainda que … em estando gravado se poderá dizer “nada de novo sob este céu” - os brancos de tudo têm culpa (sua condição semi-divina, dir-se-ia); e o preservativo como a arma do deboche não-marital. É o pacote habitual, amancebando-se (não sacramentalmente, já agora) com as ideias populares, de que é na camisinha que mora a doença e que são os brancos que a trouxeram para ficarem com estas belas terras. Contudo a Terra move-se, ainda que a Igreja Católica se atrase.]

10. E falando de coisas bem importantes. “Old age”, diz-me o mecânico, meneando a cabeça até pesaroso, face às múltiplas mazelas do meu

Musso. O nosso fim avizinha-se? Que será de mim?

Telejornal estatal português (RTP), ontem 20 de Setembro de 2007. Noticia-se a posição do primeiro-ministro britânico sobre a conferência União Europeia-África e a presença nesta de Robert Mugabe (esse cujo grande baluarte no poder é exactamente essa oposição do ex-colono, obrigando à (re)união da velha “Linha da Frente”).

E a esse propósito informa-nos a funcionária da RTP que o problema no Zimbabwe passou pela expropriação dos “agricultores britânicos“. Fico na dúvida, é só tolice ou será a posição do dono do canal (o Estado)? Não sendo a segunda opção não deveria haver desmentido no dia seguinte (hoje)? Em sendo não deveria haver sublinhado e explicação desta posição política?

Ok, parece que os vizinhos têm um novo presidente.

Amigo que lê o ma-schamba envia-me, recomendada, uma crónica de Miguel Sousa Tavares, uma “Triste Africa” a propósito do Congo, do Zimbabwe. E também da política externa portuguesa.

Muito discordo do truculento MST, e não só no seu aberrante portismo (uma berrada e nada irónica filiação à mafia que, sem engraçadismos, desvaloriza radicalmente, aplaina mesmo, qualquer intenção de cidadania que o plumitivo tenha erguido. Entenda-se, a não-brincadeira fascistoide da bola sousatavarista é, in loco, o similar ao bembismo ou outro ismo qualquer na torpe africa que ele denuncia). Discordo deste texto acima de tudo pela critica à política externa portuguesa (é porreiro dizer mal do governo): uma república que envia o seu Presidente à colonialista China não tem ética diplomática, não vale a pena chover no molhado, segue o primado da política real. E quem não se exaltou na altura não me venha com merdas vs mugabes e bembas.

(paragrafo amansado: Já agora, Sampaio veio cá há pouco, falar da tuberculose. Havia duas hipóteses, ou ir lá exigir-lhe o meu voto de volta, vociferando contra a pro-chinesice por ele cometida. Ou esquecer, enjoado com o velho lider das lutas académicas de 61 feito aquela ruína colonialista, servil. Deixei passar, claro, as pessoas acham “maluquinho” o tipo que fala.)

O texto do clarividente MST, que vê corações por via das caras, tem piada e por isso o reproduzo aqui. Tem piada porque me lembra de alguém que foi observar as eleições ao Congo, e às 8 da noite já blogava que tudo “tinha sido free and fair“. “Partir a loiça da política”, diz o alguém ser a sua missão? Antes os seguidistas que esta gente, dantesca, se de dantas ou dante já nem sei.

E la vai o texto de Miguel Sousa Tavares.

Triste África

Olhem para a cara de Jean-Pierre Bemba, o líder da oposição congolesa. Eu sempre acreditei que olhar para a cara das pessoas ajuda muito a perceber quem são. Concordo que a receita é falível: há gente com aspecto de boa pessoa e que, afinal, não é recomendável e vice-versa. E há caras que não dizem tudo, de bom ou de mau, acerca do seu portador. Mas, para quem conhece um bocadinho a África Negra e a sua classe política, a cara do sr. Bemba diz tudo ou quase tudo sobre o que há a esperar dele no dia em que conseguir chegar à presidência da República Democrática do Congo. A menos que estejamos perante uma notável excepção ao meu critério de adivinhar carácteres a partir das caras, a do sr. Bemba traz as marcas inconfundíveis da generalidade dos políticos negros africanos da última geração. Um catálogo de horrores: nepotismo, prepotência, violência, cupidez e, fatalmente, corrupção.

Agora, olhem para a cara do sr. Joseph Kabila, o seu rival e actual Presidente da RDC: a outra face da mesma moeda. O Presidente Joseph Kabila sucedeu a seu pai — coisa habitual nestas paragens —, o distinto Laurent-Desiré Kabila, cuja presidência será sobretudo recordada pela ruína do país e o estendal de cadáveres deixados para trás. Kabila-pai tinha sucedido ao imortal Mobutu Sese Zeko, uma espécie de estereótipo de ditador africano, de quem Bemba e o pai foram estreitos aliados. Dois clãs em luta pelos despojos do país, coisa comum na África Negra. Depois de vinte anos de guerras, golpes e contragolpes, o ex-Zaire e ex-Congo Belga, um dos mais ricos países africanos, está reduzido à miséria, à ineficácia e à corrupção e exposto às intromissões e cobiças do seu poderoso vizinho angolano.

Voltemos ao sr. Bemba, herdeiro de uma colossal fortuna deixada por seu pai e empresário cujos exemplos mais admirados são o marselhês Bernard Tapie e o milanês Silvio Berlusconi, dois príncipes da alta finança europeia que a Justiça perseguiu e condenou por toda a espécie de falcatruas possíveis no ramo. No final de 2006, Bemba regressou do exílio para fundar o MLC e concorrer às eleições. Derrotado por Kabila, gritou à fraude (o que, mais do que provavelmente, é verdade) e transformou o MLC numa milícia militar, apoiada pela Líbia e outros países africanos e acusada pela ONU de práticas de canibalismo. Em Março passado, o MLC saiu do mato e desceu às ruas de Kinshasa, tentando tomar o poder pela mais antiga das formas locais de o fazer. Derrotado também nas ruas, Bemba refugiou-se na Embaixada da África do Sul, e a situação caiu num impasse. Foi então que a diplomacia portuguesa teve uma ideia luminosa: mediar a saída negociada (e necessariamente provisória) de Bemba do país e da cena política. Aproveitar o passaporte português da mulher, uma luso-brasileira filha de um emigrante português, e dos filhos e aproveitar o facto de o sr. Bemba ser proprietário de uma casa na Quinta do Lago, no Algarve (como já sucedia com o seu ‘padrinho’ Mobutu), assim proporcionando uma saída airosa a ambas as partes. Se os esforços do embaixador Alfredo Duarte Costa tiverem sucesso, a nossa diplomacia consegue, de facto, uma lança em África: proporciona uma saída para a crise, que Kabila tem de agradecer, e fica nas boas graças do sr. Bemba, para o dia em que este, milhar de mortos a mais ou a menos, consiga enfim sentar-se no trono do Leopardo. O desfecho diplomático está iminente e apenas aguarda que Kabila resista à tentação de tentar deitar a mão ao seu rival para o cortar às postas e se decida a assinar um papel, deixando-o sair.

Como se pode imaginar, aos congoleses, à excepção dos milicianos e arregimentados de ambos os lados, tanto se lhes faz Kabila como Bemba. Quem ficar com o poder enriquecerá — ele e a sua corte; o resto da população continuará na miséria, à espera do milagre impossível do dia em que o Congo, como o resto da África Negra, seja governado por homens sérios, competentes e com vontade de servir o seu país.
Desçamos um pouco mais abaixo e a leste, onde temos o caso-limite do Zimbabwe, desse louco criminoso que é Robert Mugabe. Como escreveu há dias a Conferência Episcopal do Zimbabwe, ali o poder perdeu já qualquer resquício de vergonha, de pudor, de condescendência para com a miséria do povo ou de respeito pelos direitos humanos mais elementares. A oposição é espancada, presa e torturada à vista de todos, os jornalistas estrangeiros são expulsos, o desemprego atinge os 80%, e a fantástica Reforma Agrária de Mugabe, que correu com os melhores agricultores africanos, que eram os rodesianos brancos, trouxe a fome aos campos e às cidades superlotadas. No seu delírio de psicopata, Mugabe não encontrou melhor plano do que mandar o Exército desterrar da capital, Harare, centenas de milhares de pessoas que não tinham para onde ir.

Em Harare esteve há duas semanas o ministro dos Estrangeiros de Angola, que lá foi oferecer apoio militar a Mugabe e proclamar a solidariedade ‘anticolonialista’ do regime de José Eduardo dos Santos. Depois, o ministro veio a Lisboa e sentou-se numa mesa ao lado do nosso MNE, Luís Amado. Perguntaram a Amado se, perante a situação no Zimbabwe e o isolamento a que o regime foi votado pela União Europeia, ele ponderava a possibilidade de não convidar Mugabe para a Cimeira Europa-África, prevista para a presidência portuguesa da UE. O MNE deve ter estremecido, antes de responder convictamente que não: imaginar que Portugal pudesse comprometer aquilo que está previsto ser o «achievement» da nossa presidência, arriscando-se a que os países africanos boicotassem a Cimeira por ‘solidariedade anticolonialista’ com o Zimbabwe, é simplesmente antipatriótico. Seria o mesmo que convidar o Governo português, por exemplo, a perguntar a Luanda para onde vão as receitas do petróleo angolano que não entram no Orçamento do Estado.

‘Provocações’ dessas não se fazem aos africanos. Eles são muito sensíveis às intromissões ‘colonialistas’ dos brancos nos seus assuntos: em especial se forem europeus e, pior ainda, antigas potências coloniais em África. Eles não se importam de ser neocolonizados pelos indianos e agora pelos chineses, que estão a tomar conta de África em busca de energia e terras cultiváveis. Como antes não se importavam com os negócios ruinosos feitos com russos ou americanos, desde que as ‘nomenclaturas’ locais, bem entendido, fossem devidamente recompensadas. Mas, para os europeus, as regras são muito mais duras e exigem, como ponto prévio, que só há negócios em África se se seguir estritamente a diplomacia dos interesses e jamais a dos valores. É preciso ficar muito calado, olhar para o lado, fingir que não se vê e não se sabe e, sendo possível, como fazem Portugal e França, conseguir que os seus dirigentes tenham sempre um «pied à terre» na Côte d’Azur ou no Algarve, para criarem laços de afinidade e cumplicidade connosco.

Um dia, quando se fizer a história da África desaparecida, haveremos de chegar à conclusão de que, muito pior e muito mais imperdoável do que os cinco séculos de colonialismo europeu, foram estas cinco décadas de cumplicidade com o que há de pior em África.

Miguel Sousa Tavares
Publicado segunda-feira, 9 de Abril de 2007


“Depois da minha saída do Zimbabue, em 1993, a crença em raças assumiu a forma de um racismo governamental pouco disfarçado. O presidente Mugabe tomara atitudes fortemente xenófobas, sobretudo em relação à Grã-Bretanha. Ao abrir a Feira de Livros em Harare em 1993, lançou a sua primeira ofensiva. Referindo-se a um stand de livros organizado pelo movimento homossexual (Gays and Lesbians of Zimbabwe - GALZ), xingou os homossexuais de “pior que porcos” e acusou os colonialistas de terem trazido esse “mal” para a África. Em seguida, iniciou uma “reforma agraria” que consistiu na expulsão dos brancos das suas fazendas. Nisso ele foi abordado por bandos de soi-disant (antigos combatentes da guerra da independência - muitos nasceram depois do fim da guerra, em 1980), que expulsaram fisicamente os brancos das suas fazendas …

A maioria dos analistas da situação em Zimbabue sugere que Mugabe jogou a carta da raça (played the race card) como uma tatica cínica para se manter no poder. Não penso da mesma maneira. Entendo que ele, como a maioria dos zimbabuanos, acreditando em raças e na diferenca fundamental entre “africanos” e “europeus”, enxerga a sociedade através do prisma da raça e interpreta o que vê em função dela.”

(Peter Fry, A Persistência da Raça. Ensaios Antropológicos Sobre o Brasil e a África Austral, Rio de Janeiro, Civilização Editora, 2005, pp. 30-31)

(já agora)

Angola apoiando com homens o regime de Mugabe. Tsvangirai (simbolicamente uma mescla de Walesa e Lula. Simbolicamente, repito) preso e agredido. O silencio dos regimes vizinhos, total negacao das suas auto-legitimacoes retoricas.

Ainda assim Angola apoiando o regime de Mugabe. Angola intervindo no Congo. Zambia reclamando de um titanic mugabesco. Mocambique suave e diplomaticamente alheado do velho de Harare. Africa do Sul, entre-Zuma, oscilando. Ainda assim Commonwealth. A “regiao”, essa mitica entidade da moda, move-se. Cinde-se?