Facebook Forever?

Em Portugal são mais de 100 mil, no mundo 175 milhões, por dia 480 mil novas contas. Impressionante. A gente ouve falar, recebe convite, abre conta, entra e começa no bate-papo e a meter coisas (todos nós somos especiais e temos coisas e sentimentos únicos – até percebermos que temos ali 175 milhões de malucos ao mesmo). “Ninguém” ou quase-ninguém lerá os termos de utilização do Facebook.

Às vezes há um outro mais desconfiado. E desvenda assim: “By posting User Content to any part of the Site, you automatically grant, and you represent and warrant that you have the right to grant, to the Company an irrevocable, perpetual, non-exclusive, transferable, fully paid, worldwide license (with the right to sublicense) to use, copy, publicly perform, publicly display, reformat, translate, excerpt (in whole or in part) and distribute such User Content for any purpose, commercial, advertising, or otherwise, on or in connection with the Site or the promotion thereof, to prepare derivative works of, or incorporate into other works, such User Content, and to grant and authorize sublicenses of the foregoing.”. Tudo explicado aqui.

Sim, a cedência perpétua dos direitos de tudo o que lá se mete, mesmo que se apaguem a conta ou os conteúdos – e com aquelas aplicações todas o que se pretende é que se meta tudo, da vida pessoal, dos amigos e família, do lazer, do trabalho, das aspirações. Ainda só não vi coisas para cemitérios e cremações mas já deve haver.

Big Brother is catching you“! Sim, mas este é um mano velho virado para o taco, ali ao (muito)dolar – ok, partamos desse princípio nestas terras democráticas. E a gente (a meio milhão por dia) lá vai. Grandes otários. Nós.

Ee os tipos do Facebook? Geniais. Geniais filhos da puta. Mas a gente merece-os, não haja dúvida.


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20 Responses to “Facebook Forever?”

  1. diz:

    este blog começa a parecer um espaço associado do “certamente que sim”. quem diria, o JPT um tecnológo!

  2. diz:

    e vamos com calminha com essa do “a gente merece-os”, que aqui ainda há gente impoluta, ora essa.

  3. jpt diz:

    1. mas certamente que não ["tecnólogo"? - caramba tu tens boa blogomemória]

    2. já abaixo, no tuíto-post, referi que tu és verdadeiro precursor na recusa do FB. “a gente” refere-se a nós, seus (dele, FB) utentes – neste caso é mesmo utente, que a gente nem paga, deixa é o “corpinho” e a “alminha”

  4. diz:

    agradeço essa tua explicitação. tenho a certeza, pelas posições férreas que já ti vi tomar, que tu também serás capaz. anda JPT, cerremos fileiras, as pencas a quem as cultiva.
    viva a propriedade individual, viva!

  5. catarina diz:

    por acaso, para quem não gosta de tuítas e o caneco, é espantoso: este blog parece coisa de geek mesmo.

  6. TalvezTeEscreva diz:

    Brilhante! Simplesmente brilhante!
    Posso linkar lá no meu Facebook ?!

  7. jpt diz:

    Cat, até tive que ir ao google: “geek” “ligado a subculturas ligadas aos computadores e à internet.” – fantástico: um dia destes estou a escrever bem sobre o multiculturalismo, dado que próprio subcultural

    TTE – por quem sois: e já agora, qual é o seu FB?

  8. catarina diz:

    tiveste que ir ao google ver uma palavra que eu escrevi…tou sepichelésse! e contente!

  9. jpt diz:

    ora deixa lá ver, “sepichelésse”? … isso também é subcultura?

  10. catarina diz:

    Não, era mesmo um estado de aparvalhada.

  11. eliana simonetti diz:

    Ora, José, todos nós já nos apercebemos de que a privacidade desapareceu. Quando falamos ao telefone, enviamos um fax ou um e-mail, caminhamos nas tuas monitoradas por câmeras… não há como evitar os olhos e ouvidos que nos perseguem. Estamos a viver no Admirável Mundo Novo de Huxley, que de admirável tem muito pouco. Portanto, pelo menos aproveitemos os prazeres do Facebook. Assim não lhe parece?

  12. jpt diz:

    bom dia: a discussão entre público/privado não cabe (fisicamente, até) nesta caixa de comentários. Mas não estou a afirmar uma dicotomia entre um antes do “privado” (falso, pelas concepções, pela interacção constante, pela regulação do “gossip”) e um terror do todo-público de agora (falso, mais que não seja dadas as diferentes formas de viver o privado – aqui como “íntimo”/pessoal/quase-exclusivo, como se quiser).
    Certo que a tecnologia – que é fantástica – permite vasculhar tudo [a primeira vez que vi o Google Earth em casa de um amigo em portugal eles mostravam-me a propriedade e nela a piscina com tal pormenor que eu não evitei, sem qualquer brejeirice, "bem, se estiverem a fazer amor na piscina são fotografados", o que é a mais pura das verdades - e por que é que o acto sexual deverá ser privado?, perguntarão os das questões radicais, e é certo, apenas um valor entre tantos]. Mas a minha questão não eh o que a tecnologia permite, eh o que nos queremos dela, que o relevante: os telefones podem ser escutados ha decadas e ha legislacao sobre isso (as cartas abertas, nao era?), porque nao defender limites estritos para as novas formas de comunicacao? porquê tanta distracção “bem disposta”? porquê o auto-abandono, a naturalização do “tem que ser assim”?

    eu nao fechei a conta do facebook (que aliás me parece ser, tal como outras redes, um desenvolvimento agradavel do email da década passada [e o chat que se lhe seguiu], esmagado pelo spam e pelas anedotas dos conhecidos – hoje chamados “amigos” e ainda muito dados às anedotas, chamadas Causas ou Presentes, com a inovação de trazerem o spam associado -, e com aplicações novas, seja para utilização pessoal, seja para comunicação conjunta.

    Espero para ver os resultados da discussão que segue, ha alguns indicios de recuo (explicitações, chama-lhe a empresa), sob a capa de incomprrensão – mas os juristas, em particular de uma empresa desta dimensão, não são ingenuos. O que la esta escrito (termos de uso) foi uma tentativa, talvez recuem. Caso não seja assim fecho. E fico com os prazeres do blog
    cumprimentos

  13. jpt diz:

    uma coisa – em XIX ou XX, com o boom tecnologico, as policias e os correios eram estatais (em alguns locais e/ou momentos) concessionados. E nisso acompanhados por um conjunto de regras (muitas vezes violadas, é certo, mas as regras existiam com força de lei e suportadas em valores e movimentos sociais que as defendiam) que delimitavam as formas de penetração nas esferas da comunicação inter-pessoal ou da vigilância.
    Agora os “correios” e as formas de vigilância são privados (no primeiro caso, transnacionais; a segurança privatizada de modo crescente, em particular a electronica e/ou visual) e os limites que se impõem à sua actividade intromissora muito menores. Sob a capa da adesão popular (nós tememos os assaltos, nos “gostamos dos prazeres do facebook”) naturaliza-se um novo modo de fazer, um novo modo de estar. Que de natural não tem nada (em Portugal discute-se a pertinência de um chip obrigatório nos carros para pagar as portagens – facilita a vida, é mais barato para as empresas de estradas, poupa tempo – tudo natural, como vê, tudo para o bem. Se alguém torce em nariz, em nome da minha liberdade de andar com o meu carro sem que ninguém saiba onde eu ando, logo naturalizam “daqui a alguns anos há-de ser assim em todo o lado”, “é imparável o “progresso”", coisas assim. Não é grave? as portagens não tanto, mas o pacote global pode ser, pelo menos, desnaturalizado

  14. eliana simonetti diz:

    É, José. Acho tudo isso muito grave. Muitíssimo. A invasão da privacidade – ou pior, o prazer das pessoas em exibir o que deveria lhes ser íntimo. Assim como é grave que já não haja ideologias e que os moços não sonhem com um mundo melhor e não lutem por seus ideais. Ou que as grandes empresas, hoje, tenham mais poder e dinheiro do que os governos – mesmo dos países mais ricos.
    Tudo isso é grave. Mas podemos pensar, como o velho e sábio Carlos Marx, que o capitalismo traz em si o germe de sua própria destruição. Ou como outro sábio, Confúcio, que ensinava que em todas as situações existem dois lados.
    Podemos desligar os computadores, deixar de enviar emails e falar ao telefone, vivermos sob as árvores numa floresta cerrada – mas isso não mudará grande coisa.
    Penso que quando uso as ferramentas que estão à minha disposição posso levar pessoas a pensar na desigualdade social que existe no mundo. Por isso ponho fotos da África que conheço em minha página no facebook e apóio causas que me parecem úteis para que os jovens que estão em minha rede se dêm conta de problemas como o racismo.
    Não me importa se há quem ganhe dinheiro com meus movimentos – esta não é minha preocupação. Assim como não defendo patentes e direitos autorais – gosto de publicar o que fotografo e escrevo e espero com isso contribuir, na medida do meu insignificante tamanho, para que brote o germe da destruição.
    Aos 52 anos ainda tenho ideais. E acredito que a internet pode ser uma forma de democratizar não apenas o acesso ao conhecimento mas também à política e às decisões que afetam a vida de todos nós.
    Se os acionistas do Facebook, do Google ou do que seja crêem que controlam o que pensamos e fazemos, bem. Mas estamos aqui a nos comunicar, trocar idéias, criticá-los, buscar formas de alcançar a independência que desejamos. Com as ferramentas DELES.
    Sim, porque o fato de estarmos num blog não nos safa do controlo externo.
    Desculpe se me inflamo, mas diante de questões de tal porte, uma fotografia de um casal fazendo sexo na piscina parece-me como um grão de areia no Saara.

  15. jpt diz:

    Vamos la, eu não quero destruir nenhum capitalismo, nem tampouco queimar os meus computadores. A questão é menor, mas fundamental: ha formas de controlar o acesso à informação [basta ver as formas diversas de codificar os termos de utilização dos mecanismos electronicos que temos a disposição]. E parece-me que ha uma distracção naturalizadora, em que vamos aceitando as modalidades impostas.

    Quanto a propriedade – esta aqui um blog carregado de (mas) fotografias. Quem sabe se alguem ja “picou” alguma? [pelo menos uma barbearia de inhambane ja estava num sitio brasileiro sem indicacao da fonte] Nao estou particularmente preocupado – mas eh uma opcao consciente, nao algo que me eh imposto sem que eu note

    (a hipotese do casal na piscina eh apenas uma ilustracao disso – o espanto divertido com as disponibilidades tecnologicas sem atentar no que elas implicitam)

  16. eliana simonetti diz:

    ok
    você venceu
    não devemos, mesmo, nos distrair
    (des) trair

    engolir sapos não tem graça alguma

    percebo que você é mais construtivo do que eu ao apresentar um problema que a maior parte das pessoas não havia sequer notado

    também não quero que nada me seja imposto:
    gosto de pensar que tenho nas mãos as rédeas de minha vida – um ledo engano, ontem e hoje

    então vejamos: qual é sua proposta?
    criptografar mensagens, como fazem meus filhos, dá-me a impressão de estar a fazer algo de proibido
    talvez fosse uma saída divertida, se nos dispuséssemos a criar códigos e divulgá-los secretamente
    um retorno aos velhos tempos de repressão – desta vez com menos riscos

    a vez é sua: ponha as cartas na mesa

  17. jpt diz:

    0. em termos globais, nada de esconder, quando mais se esconde mais nos vasculham – nao e assim em tudo?. Alias em querendo esconder nem blog nem nada (tambem creio que ninguem se preocupara a vasculhar as minhas miudezas, eh mais uma questao de principio)
    1. no post em cima avisam que ja mudaram os termos de uso, regressaram aos anteriores, mais suaves e compreensiveis. Basta isso
    2. no post acima o comentdor F. deixou ligação para um texto que ajuda a manter a privacidade dos conteúdos, neste caso contra invectivas de outros utilizadores. Acho conveniente ler

    e parece ser o fim do facebookgate …

  18. eliana simonetti diz:

    hehe
    bem em tempo
    estou quase a adolescer novamente
    basta
    passei a noite no computador
    expondo minhas individualidades ao grande irmão
    agora são 7 horas da manhã e preciso dormir um pouco, ou não consigo trabalhar ainda hoje
    adorei a conversa
    e seu blog
    muito obrigada pelo convite
    e pelo exercício de argumentação, que há tempos andava enferrujado
    forte abraço
    eliana
    (ah, quando acordar quero ver sua nova relação de escritores com obras imperdíveis)
    eliana

  19. [...] dos conteúdos do seu autor para o Facebook, parece-me natural e pertinente. A explicar isso, cito um outro blog que assim retratou o [...]

  20. [...] alguns dias abordei a questão dos termos de utilização, a qual teve desenvolvimentos positivos. Agora o Programas Livres dedica um texto a esta [...]

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