
[Joana Pimentel Teixeira na sua elegante residência]
Nas últimas semanas tenho ouvido, por repetidas vezes, amigos e conhecidos resmungarem contra o hábito que se vai generalizando de colocar fotografias de colectivos no facebook, sem qualquer limitação. Logo que alguém mostra uma máquina (ou um telefone) logo surge o enfadado “não vais meter isto no facebook“. Não se trata de ter algo a esconder, é mais um enfado, por que raio toda a gente que tem ligação (“é amigo”) com alguém que tem ligação com este vizinho de bar, restaurante, festa, vai saber que se esteve neste bar, nesta festa, neste restaurante, com quem, como, com que dança ou esgar sorridente. Não é um “direito à privacidade” nem um “direito à intimidade” reclamado, nem chega a tanto. É apenas um cansaço, que partilho totalmente, com a falta de charme que acompanha esta total falta de discrição. Pelo menos isto, quer mostrar aos seus amigos com quem esteve? Se acha isso realmente importante pelo menos tranque o acesso às fotografias apenas para os seus amigos. Tenho a decência mínima de cuidar das imagens que usa. É o mínimo “B”, como se diz quanto ao acesso às competições desportivas.
Por tanto ter ouvido, e por achar isto uma bimbalhice, pus um desabafo na minha conta facebook. Foi um ai-jesus de irritações: amigos e fb-amigos apareceram a acusar-me de recusar a democracia, de querer impor regras onde elas não existem (nem devem existir, quarentões agora-anarcas mas não antes), mandaram-me ler o Barthes, foi visto como um mariola a querer evitar que as pessoas sejam felizes, etc. e tal. Surpreende-me sempre a incapacidade de compreender os textos, principalmente aqueles curtos, sem arabescos e de vontade explícita, que o sistema de facebook permite.
Para que algum visitante menos constante não pense que isto é sisudez ideológica lembro o apontamento que fiz aquando do meu “cume biográfico”. E para alguns que fazem do FB um sítio porreiro de memorial, com fotos dos bons velhos tempos e dos actuais, e que aparecem agora a resmungar, como são meus amigos mesmo só dá vontade de lhes perguntar – o que é que é tão difícil de entender? Como é que nós, que fomos educados mais ou menos da mesma maneira (aquando éramos “cromos”), ficámos tão diferentes? Ou não ficámos, e é só uma questão de ler devagar e passar a mão sete vezes pelo teclado antes de começar a espingardar?
jpt

12 comments ↓
JFF Gosta
… disto
«[...] passar a mão sete vezes pelo teclado antes de começar a espingardar». Hahaha. Muito bom!
KCM gosta disto
KCM comentou a ligação de JPT
KCM é fã de ‘ma-schamba’
Tive uma curta experiência com o Facebook e não gostei. É demasiado superficial, demasiado público, e demasiado intrusivo.
KCM parece uma marca de cigarros
Subscrevo totalmente a tua irritacao e percebo a tua frustracao com a incapacidade de compreenderem onde quiseste chegar. Enquanto que num blog temos espaco para reflectir e ler, no fb parece que tudo se quer rapido e superficial; pensar 10 vezes e acariciar as teclas parece-me assim contrasenso. Mas a esta “conversa-fb” falta quase tudo aquilo que da sentido a uma conversa real – o tom de voz, a linguagem gestual, o olhar… Dai os mal entendidos e arrelias, acho eu. Para alem de que me parece que ha algo que cada vez esta mais em desuso e se encontra altamente sub-valorizado: o pudor!
Também me irritam o sem fim de fotografias (até fotos das vacas do farmville afixam) que entope o mural que partilho com os meus amigos. Não tenho esse problema das fotografias de grupo, ou tiradas por amigos, porque sou um pouco mais caseira e porque os amigos próximos sabem o que penso do assunto. Da filha não aparece nem o nome (é paranóia? prefiro prevenir).
Agora que o facebook é um bom sítio para reencontrar amigos com quem perdemos o contacto, para saber como vai a família e amigos (O tudo bem por telefone não me diz nada. Visitando o perfil sei qual o “comprimento de onda”) e para ter umas conversas, umas larachas, alguma partilha do que se vai vendo/sabendo por aí … eu acho que pende para o positivo.
Aliás, esses comentários a que te referes, poderiam ter sido proferidos numa cozinha atravancada de gente, à beira de um frigorifico, com um estupidamente gelada na mão e os desentendimentos seriam os mesmos. A tal “falta aquilo que dá sentido a uma conversa real – o tom de voz, a linguagem gestual, o olhar” mas tem lá quase todos os personagens que uma festa exige.
Não vale a pena, nem tentar, comparar o facebook com um blog (se alguém o fez). Este é pessoal. Permitimos os comentários, se quisermos e se não gostarmos, apagamos. O facebook é uma salada partilhada (dependendo da quantidade de amigos).
O que me leva a outra coisa que também me deveria irritar mas que até acho piada. A capacidade criativa para inventar os grupos mais estapafúrdios. Pode criar-se o “grupo das pessoas que não querem aparecer estampadas nas fotografias dos amigos” ou qualquer coisa que o valha.
O facebook – as redes sociais, neste caso aquela onde se acotovelam os meus amigos e conhecidos – é porreiro. Dá para muita coisa, como dizes. Tem um clube de leitura, uma aplicação que gosto bastante mas que no meu círculo não é infelizmente animada. Tem uns tipos porreiros que sacam umas youtubadas musicais fantásticas. Permite encontrar gente do antigamente, às vezes verdadeiramente uma arqueologia dos afectos. E, ainda para mais para um imigrado como eu, permite um contacto (há quem insista em chamar-lhe virtual como se isso não fosse tão óbvio como o telefónico) com as pessoas longínquas que me interessam. E também serve para conhecer gente (acabo de ler a notícia no jornal do britânico que engravidou 12 mulheres que conheceu nas redes sociais, coisas da pérfida Albion, só pode).
É óbvio que é diferente de um blog. Mas eu uso-o também como articulação do blog – quem quiser fazer dali trampolim para vir aqui. Mas claro, é diverso.
Nada do que escrevi é vs facebook (que também tem o lado negativo de ser uma maluquice, que é exactamente o seu lado positivo). É mesmo sobre a falta de controle de privacidade própria e alheia, coisa que as opções do sistema permitem fazer, e com a ligeireza do bom senso. Mas parece que é difícil perceber isso, até há gente que cortou a “amizade” comigo devido a ofensa sofrida. Cada um como cada qual.
JPT
Efeito Dupont & Dupont: Ditto.
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