Sobre o Ma-blog

Algum tempo depois de começar a blogar contactei com o Frescos, um sítio onde se estabelecera uma selecção (uma selecção!) de blogs, predominantemente portugueses – mas não só pois incluía estrangeiros residentes (tal como portugueses no estrangeiro) -, e onde eram constantemente anunciadas as suas actualizações. Era muito útil, mas como tudo o que é bom desapareceu. Confesso que não sei se alguma vez os autores do Frescos esclareceram os critérios pelos quais se guiaram na sua selecção. Nem se foram criticados por tal – honestamente, nem sei quem eram. Depois da sua paragem contactei com outros sistemas de “rações” (feeds, dizem os do jargão), de construção individual (o Bloglines, o Kinja), úteis para a leitura dos nossos preferidos mas que são algo restritivos para uma visão mais abrangente – exactamente porque são de construção individual permitirão a leitura em “bola-de-neve” mas obscurecem bastante outros contextos. A ideia do Ma-blog é exactamente a de constituir uma visão abrangente do bloguismo em torno de Moçambique, à imagem do velho Frescos – mas dada a dimensão humanamente apreensível deste meio bloguístico, ainda que em crescendo, retirando qualquer selecção “por (meu) gosto” e apresentando-o do modo mais exaustivo possível.

Os critérios por mim propostos para este recenseamento foram os seguintes: todos os blogs escritos por moçambicanos; todos os blogs escritos em Moçambique; todos os blogs escritos no estrangeiro dedicados a questões moçambicanas. São critérios falíveis, porosos. São critérios, nada mais, a procurarem algo o mais inclusivo possível. Mas que estabeleça um quadro do bloguismo centrado em Moçambique – com tudo o que de fluído isto tem: um hipotético blog de um moçambicano exclusivamente dedicado à astronomia está “centrado em Moçambique”?

Pedi divulgação aos co-bloguistas (e não só) e ainda a sua opinião, esta sobre o como desenvolver este instrumento (ou brinquedo, depende do como se considera o bloguismo). Nas primeiras horas recebi quatro respostas: duas de bloguistas incluídos no Ma-blog, saudando a iniciativa ambos, opinando um e outro prometendo opinião para muito em breve.

E outras duas opiniões, em sentido contrário. Uma cortês, a outra desagradabilíssima. Em ambas a mesma questão, identitária: portugueses, com laços biográficos, de parentela e afectivos com Moçambique, com blogs que dedicam atenção também a matérias moçambicanas. E a reclamarem a sua integração.

Para mim isto surge num registo muito para além do bloguismo, no registo identitário. Questão recorrentemente surgida noutros contextos, em particular o literário ou artístico: quem é ou não poeta moçambicano, é assunto que já apaixonou tertúlias ou seminários. E também no âmbito político, mas aí com diferentes tons, dada a formalização institucionalizada que tal assume, toda a discussão sobre “moçambicanidade” e “cidadania” que existiu e existe. A questão identitária interessa-me imenso, enquanto matéria profissional. As (auto)reclamações, as imputações, as porosidades, as transferências, as contextualizações estratégicas, etc, etc., tudo isso me é assunto, e também quando respeita à questão nacional. Mas profissionalmente interessa-me enquanto processo, não enquanto juiz de causa ou enquanto censor. Por infinita maioria de razão muito menos me dá para tal função de atribuição ou recusa de “moçambicanidade” aos co-bloguistas. Nem o Ma-blog nem o jpt distribuem DIREs ou BIs, físicos ou espirituais – não têm vontade, nunca teriam legitimidade. O Ma-blog quer ser apenas um facilitador de conhecimento do que se faz com o bloguismo em Moçambique, com algum tipo de coerência – a qual pode ser encontrada com outros critérios, claro. O jpt quer apenas, pelos vistos, colher lenha para se queimar (ou chatear).

Ou seja, faça-se esta congregação e divulgação com os estrangeiros que cá estão ou não. Com os estrangeiros que estão “lá” ou não. Basta dizerem … mas o próximo tipo que me apareça a dizer que ele sim, merece estar no Ma-blog porque é de cá,  casou com de cá, bebeu da água do chiveve ou do coco, e não porque é um desses que estão cá (Moçambique) a “melhorar as condições de vida” – como se fosse desonestidade ou crime – saiba que lhe resmungo insulto. Sem mais argumentos. Muito menos sobre se é legítimo eu fazer um agregador de blogs e colocar o meu lá – isto são blogs. Só blogs. E, neste caso, apenas ligações a blogs.

Enfim, “cenas entre tugas”, dirão alguns, sorriso aberto. Pois, quem me dera ter o Frescos

11 comments ↓

#1 Marta on 03.03.08 at 10:44


O jpt quer apenas, pelos vistos, colher lenha para se queimar (ou chatear).

Finamente encontro resposta para uma dúvida que últimamente me tem surgido.

E já agora? O tal arquivo? Isso dava lenha para mais de um ano.

Brincadeiras à parte, essa também me pareceu uma excelente ideia.

#2 jpt on 03.03.08 at 11:40


Obrigado pelo comentário – e por me dar a conhecer o seu blog

#3 Mário on 03.03.08 at 17:03


Caro Jpt, há algumas ferramentas que pode usar de uma forma simples, mas a questão que coloca tem a ver com psicologia e não com tecnologia. Para mim a questão é simples, o blog é seu e por isso os critérios também, quem não concorda que meta mãos à obra e faça outro repositório (geralmente apenas 0,1% dos reclamadores é capaz disso e mesmo assim acaba por desistir ao fim de um período de tempo muito curto).

#4 Antóno P. on 03.03.08 at 19:18


Boa tarde JPT,
Parabéns pela iniciativa. Entre hoje e amnhã será divulgada lá no meu tasco.
Um abraço

#5 Dra. Georgina on 03.04.08 at 0:14


Quem terão sido os malandrecos JPT?
O seu novo blogue está o máximo.
Um must.
5 Estrelas.
Como dizem os mais novos Baril.
Só lhe faltam as flores de acácia.
Votos de sucesso…
E não ligue amigo JPT.

#6 Dra. Georgina on 03.04.08 at 0:15


Se calhar levou a sério?

#7 jpt on 03.04.08 at 0:26


Dra., uma pena, li ao mesmo tempo, não fui enganado. Mas já estava todo pimpão, confesso. AP, grato. Mário idem. Mas o problema é também tecnológico – sou leigo, vale a paciência (pró-infinita) do PQ. Mais ainda, aquilo será interessante para uso comum, para ser “meu” de pouco interesse servirá, daí a unilateralide de critérios ser contraproducente – é-o sempre, já agora.cumprimentos a todos

#8 Mário Nunes on 03.04.08 at 0:33


Votos de sucesso.
É importante dar voz aos moçambicanos!

#9 Antóno P. on 03.04.08 at 17:20


Também sou leigo JPT.
O link e post já lá estão.
Abraço

#10 Pedro Neves on 04.09.08 at 21:38


Boa tarde JPT,

Os Frescos eram o hobby de dois irmãos, Ana e Pedro, este último também conhecido como icosaedro e Posto de Escuta :)

Não havia propriamente critérios, era mesmo uma lista de recomendações baseadas nos nossos gostos e leituras.

Felicidades para o projecto e boa continuação no ma-schamba!

Pedro

#11 Frescos | ma-schamba on 04.10.08 at 18:08


[...] Aqui lembrei a existência do serviço Frescos (lamentando-lhe o desaparecimento). Agora um dos seus criadores [...]

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