Traduzir ícones. Leio Astérix desde antes de saber ler. Praticando a constante revisita. É-me encantadora esta recente jóia,

“Astérix e o Regresso dos Gauleses” promove-me feliz, pela leitura e por todo o vago antes que me devolve. Um extra-colecção assumido, pequenas histórias algumas ainda do tempo de Goscinny, outras do período (menor, é certo) de Uderzo solitário. Mas, atenção, é da lavra deste último uma Torre Eiffel afinal torre pombal de comunicações em Lutécia, digna de uma selecção asterixiana.


No mínimo são-me 35 anos, também de comunhão colectiva. Dezenas de livros, reedições e reedições, vários fascículos nas revistas semanais. Gerações de leitores apaixonados. Astérix é não só bigger than life, é bigger than history. Crenças e preces nesse panteão irmanado por Obelix, encantado por Panoramix, assustado por Assurancetourix, liderado por Abraracourcix, alimentado por Ordralfabétix, tutelado por Agecanonix. Todos estes sob o olhar de Toutatis.

Por tudo isso tanto me irrita esta desconsideração das Edições Asa, a falta de respeito pelos leitores amantes, esses seus clientes, seus viabilizadores. Com que direito a Asa entrega a tradução de um novo Astérix às senhoras Catherine Labey e Maria José Magalhães Pereira, as quais decidem, à revelia de uma tradição construída de leitura, re-nomear os heróis, veros ícones? Quem serão elas, de que alto nos olham, para nos impingir o chefe Matasétix, o bardo Cacofonix, o deus Tutatis, o peixeiro Oftalmologix, o velho Decanonix?

Está tão medíocre a Asa para querer, anacrónica, regressar aos tempos do Mosquito e do Papagaio? Dignissimos, mas no seu tempo! Vai-nos também oferecer o Tim-Tim com seu professor Girassol [seria Ventoínha? a memória trai-me], e um Milou de estranho nome [que também não me ocorre]?

Não tem a Asa ninguém capaz de tratar com a dignidade necessária um produto monstro como Astérix e os seus inúmeros leitores? Condenando a obra aos tratos poluentes de um saber suburbano, cujo espectro de humor se acantona no baixo nível televisivo?

Certo, tradução tem contexto, tempo e local. Mas já não é tempo disto. Nem local. Abaixo as Edições Asa.

Que o céu lhes caia na cabeça. Por Toutatis!!!

18 comments ↓

#1 jpt on 05.28.08 at 12:41

subscrevo Zé, foi das prendas das piquenas que eu e o pai mais curtimos, lemo-lo primeiro q ela…e eis senão quando….mas quem são estes gauleses de nomes tão estupidos! devem ser romanos….e estes romanos devem estar loucos. Beijos

Publicado por: Luna às janeiro 13, 2005 01:32 PM

#2 jpt on 05.28.08 at 12:42

Nem mais: falta de respeito total!!

Qualquer dia, decidem criar o Ideia-fixe, não?!
Enfim…

Saudações

Publicado por: Carriço às janeiro 13, 2005 01:35 PM
http://fragmagens.blog.simplesnet.pt/

#3 jpt on 05.28.08 at 12:43

Esta foi das notícias que por aqui puseste que mais me chocou !!! e obviamente, não estou a brincar

Publicado por: Eufigénio às janeiro 13, 2005 03:44 PM
http://www.apenasmaisum.weblog.com.pt/

#4 jpt on 05.28.08 at 12:43

Em bom português diria: “Puseram umas bimbas a traduzir o Asterix!”

Publicado por: Marco Oliveira às janeiro 13, 2005 03:50 PM
http://povodebaha.blogspot.com/

#5 jpt on 05.28.08 at 12:44

Não se faz…mas que ideia!

Publicado por: L. às janeiro 13, 2005 07:22 PM
http://www.fazendocaminho.blogspot.com/

#6 jpt on 05.28.08 at 12:44

Já tinha visto, e não gostei. Estão a destruir-nos as nossas memórias em nome duma idiotix injustificada.

Publicado por: cap às janeiro 13, 2005 10:16 PM
http://primadesblog.blogspot.com/

#7 jpt on 05.28.08 at 12:45

Subscrevo! Inteiramente. A Asa mudou. Até na m* de manuais escolares que agora edita. Quanto ao Tintin, é o professor Girassol, claro! Ventoinha? :-))))

Publicado por: Soledade às janeiro 14, 2005 01:05 AM
http://nocturnocomgatos.weblog.com.pt/

#8 jpt on 05.28.08 at 12:45

Soledade, neste blog não só se usam como se defende o direito ao palavrão: “Blog free of asteriscos”. Mas não de Astérix, claro. O Prof. Girassol existiu e muito, mas julgo haver uma versão mais antiga do nome, infelizmente não me recordo.

Publicado por: jpt às janeiro 14, 2005 01:11 AM

#9 jpt on 05.28.08 at 12:46

Por coisas destas é que se vê como tudo desmorona.

Publicado por: sara monteiro às janeiro 14, 2005 11:01 AM

#10 jpt on 05.28.08 at 12:47

Já no meu post n.º 324
(http://arqueoblogo.blogspot.com/2004_10_01_arqueoblogo_archive.html#109881412998150377)
escrevi sobre esta mudança de nomes.
É lamentável.
Mas não será somente para nós os ‘cotas’?
Não será melhor para uma criança que começa agora a lê-los, entender a chalaça Ordemalfabétix, em vez de Ordralfabetix; ou Ideiafix em vez de Idéfix? Pensem por eles…

Publicado por: marcos osório às janeiro 14, 2005 04:51 PM
http://www.arqueoblogo.blogspot.com/

#11 jpt on 05.28.08 at 12:47

Meu caro Arq. já lá fui ler, tinha-me então escapado. Mas discordo deste teu comentário:
a. porque (ainda que apenas implicitamente) valoriza os leitores-crianças face aos outros. Resquícios de uma velha ideia de que Asterix e a BD são para crianças? (repito, resquícios, não te estou a imputar argumento explícito)
b. porque acriança as crianças, como se estas fossem imbecis para quem tudo tem que ser trocado por miúdos. como se não fossem para além do literal
c. porque sou contra a tradução dos nomes próprios na literatura, o que aliás é um ideia condutora relativamente pacífica. Mas nem sempre o foi, basta ver tantas edições das primeiras décadas de XX com tanto nome traduzido e depois o seu abandono.
d. porque não quero ver Corto Maltês, Poeira Vermelha, Homem-Morcego, Espírito, o Sortudo Luke, Bernardo Principe (estou-me a referir a velhos heróis, claro)
e. e, finalmente, porque Asterisco e Obelisco não estão lá, o que significa que não há critérios.
Abraço

Em resumo, acho que é uma ideotix (como diz o cap), o primado das bimbas (como diz o Marco)

Publicado por: jpt às janeiro 15, 2005 12:51 PM

#12 jpt on 05.28.08 at 12:48

Concordo com os argumentos inventariados. Apenas queria reflectir sobre a questão de que quando começámos a ler, de pequenos, aprendemos os seus nomes assim, e agora atordoa-nos a mudança, mas para quem comece a lê-los agora, talvez não faça tanta confusão e tenha até mais sentido.

Publicado por: marcos osório às janeiro 17, 2005 11:44 AM
Concordo com os argumentos inventariados. Apenas queria reflectir sobre a questão de que quando começámos a ler, de pequenos, aprendemos os seus nomes assim, e agora atordoa-nos a mudança, mas para quem comece a lê-los agora, talvez não faça tanta confusão e tenha até mais sentido.

Publicado por: marcos osório às janeiro 17, 2005 11:44 AM
http://www.arqueoblogo.blogspot.com/

#13 jpt on 05.28.08 at 12:49

Uma perguntinha só (armando-me em advogada do diabo já que, também, me faz uma certa confusão ver os novos nomes das personagens): qtos leitores dos livros do Asterix dominam suficientemente a língua francesa para conseguirem perceber a “origem” (e a ironia… e as nuances) de muitos dos nomes? Reconheça-se q a mudança pode não agradar a toda a gente (e a quem, como eu, q começou a ler Asterix há umas décadas não agrada, não senhor), mas daí até considerar os tradutores como mentecaptos vai uma grande distância já q estes, ao contrário dos das outras edições, tentaram seguir a “lógica” original dos criadores das personagens.

Publicado por: Shyznogud às janeiro 17, 2005 05:45 PM

#14 jpt on 05.28.08 at 12:49

Cara Advogada do Diabo (Mui Ilustre Missão, diga-se) não afirmei “mentecaptas” as tradutoras. Critiquei a atitude de ultrapassarem uma tradição de leitura, considerei-a sobranceira, afirmei-a anacrónica. Já nos comentários elenquei alguns argumentos suplementares. Mas ainda repito um que acho crucial - tivessem chamado “Asterisquix” e “Obelisquix” e seriam coerentes.
Repito, não as afirmei mentecaptas, critiquei a opção (que até pode baser-se no que V. diz, mas não chega em meu entender). E, mesmo com as cautelas referidas, não hesito: “alcatrão e penas” para essas pezinhas-mole

Publicado por: jpt às janeiro 17, 2005 06:41 PM

#15 jpt on 05.28.08 at 12:50

o “mentecaptas” das tradutoras não tinha a ver com o post em si, mas com certas opiniões q transpareciam nos comentários como esta “Em bom português diria: “Puseram umas bimbas a traduzir o Asterix!”. Isto de estar a tentar defender uma coisa q também a mim me faz cócegas é complicado, mas se se quiser ser objectivo os novos nomes têm muito mais lógica… e é com mágoa que o afirmo (snif! é que o meu imaginário asterixiano está indissociavelmente ligado aos antigos nomezitos)

Publicado por: Shyznogud às janeiro 18, 2005 11:34 AM

#16 jpt on 05.28.08 at 12:51

Não concordo com a tal lógica que refere. V. acha correcto traduzir os nomes das personagens de Flaubert, Bulgakov, Junger, Bellow? Se reparar bem isso já foi costume, nas velhas edições portuguesas acontecia amíude. Então porque considera aceitável traduzir aqui, tem menos dignidade? Os nomes têm um sentido? Também o têm em muita outra literatura. E além disso inserir uma pequena nota de tradutor nos livros (início ou fim) estará contratualmente proibido? Peço desculpa mas, desta vez, não cedo ao Diabo

Publicado por: jpt às janeiro 18, 2005 02:30 PM

#17 jpt on 05.28.08 at 12:51

Ainda outro ponto. Quem põe Obelix a exclamar, qual Herman José, “Resmas! Paletes de romanos!” não merece que o Diabo acorra em sua defesa por ter sido chamado “bimbo”. Repito: “alcatrão e penas”

Publicado por: jpt às janeiro 18, 2005 02:35 PM

#18 Evolução da Língua 6 | ma-schamba on 05.28.08 at 12:57

[…] he, eu já tinha lhe adevisado. E lhe xovando mais os saberes do hoje agora então us tugas num disem “turismo” na […]

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