Está disponível a última edição Gazeta do Departamento de Arqueologia e Antropologia da Universidade Eduardo Mondlane. Para além das informações contidas realce para uma interessante entrevista com Ana Loforte dedicada ao percurso da Antropologia no Moçambique independente.
Desde o início da minha puberdade, com o icónico Jonathan na Tintin semanal, que Cosey me acompanha – uma companhia ao ritmo das suas narrativas, lentas, pausadas, vivendo no espaço longo. Talvez por isso só agora compro e leio este Orchidea (Witloof, 2003 [1999]). Para ser surpreendido nisto de mais de três décadas depois Cosey continuar a tocar no que mais fundo me passa na vida, anseios, sonhos e medos. Assim mesmo. Isto exactamente no momento – juntos, a mão no ombro. Coincidência? Ou o coseyiano destino?
A propósito de uma reunião em prol do desenvolvimento Bono está nestes dias em Maputo. O muito oficioso jornal “Notícias” assim noticia o encontro do Presidente Guebuza com o milionário Mo Ibrahim (aqui celebrizado pelo prémio atribuído há anos ao ex-Presidente Joaquim Chissano) e o cantor dos U2, celebérrimo activista de causas desenvolvimentistas. Vai uma gargalhada por Maputo, tudo a rir da “ignorância” dos jornalistas que esquecem a super-estrela aqui deslocada, apagada do título e reduzida na pequena legenda a mero “acompanhante”.
Enganam-se. Não há qualquer ignorância. Há sim uma cosmologia a funcionar, uma explícita hierarquia. Está, literalmente, na cara. E não tem, rigorosamente, piada nenhuma.
AO, leitor veterano e silencioso do ma-schamba, enviou-me ligação para os dois primeiros números da revista Tempo (Setembro de 1970), inteiramente digitalizados. Aqui ficam as respectivas capas (com o particular interesse do segundo número ser encabeçado por Mário Barradas, então figura central do teatro local) e as ligações para quem queira ler (e ver) as revistas – uma preciosidade.
O mesmo Grão-Comentador do ma-schamba, Umbhalane, conhecedor da minha adesão ideológica ao mundo barbeiro e do meu apreço por barbearias populares, enviou-me excelentes fotografias que encontrou no blog Beijo-de-Mulata. As excepcionais características dessas imagens, publicadas na entrada “nomes que dizem tudo”, tornam obrigatória a sua reprodução. Aqui está uma barbearia num bairro de Nampula.
Nesta entrada falou-se de um monumento aos combatentes da I Guerra Mundial, sito na Ilha de Moçambique. O qual eu não recordei de imediato. Umbhalane, aqui comentador residente, aprestou-se então a enviar-me fotografias do referido monumento, ainda hoje colocado no jardim fronteiro à actual pousada. Bem como fotografia do padrão na ponta da ilha, pastiche mandado colocar por Sarmento Rodrigues no final do período colonial e eloquentemente retratado na referida exposição de Leitão Marques. Aqui ficam as fotografias e os agradecimentos ao emérito comentador cá de casa.
Bento XVI, topo da hierarquia da igreja católica apostólica romana e chefe de estado do Vaticano, desloca-se a Portugal este ano, também no intuito de ir em peregrinação a Fátima, local onde os crentes daquela congregação religiosa (e não só) acreditam terem acontecido aparições milagrosas. Do meu incómodo face a esta visita ao local dessa superstição politicamente induzida em pleno ano de comemoração do centenário da regime republicano português já aqui o explicitei. Sem radicalismos a República deveria ter intentado transferir a visita para o ano subsequente. O simbolismo pode não ser tudo … mas é quase tudo.
A propósito desta visita encontro um grupo no facebook: Nós, laicos, não queremos pagar a visita de Ratzinger a Portugal. Por lá gente (minha) conhecida, alguns até vivendo sob galões académicos muito justamente alcançados (e que, presumem e intentam significar, habilidades de reflexão). E por lá estão na habitual patusquice, mais ou menos truculenta. Começam por chamar Ratzinger a Bento XVI, uma torpe e ignara tentativa de desvalorização – que um antropólogo (ou historiador, ou sociólogo ou qualquer aparentado profissional) refute a realidade da mudança de nome individual aquando de uma particular mudança de estatuto deveria implicar um despedimento com justa causa. E não estou, por mais antipático que possa parecer, a ironizar. Mais, as bactérias ideológicas transbordam em feias borbulhas: nenhum desses patuscos chama Ulianov ao velho Lenine, ou refuta similares processos de auto-denominação ao panteão dos seus heróis (ainda que alguns matizados no célebre “apesar de …”). A denominação do grupo intenta ainda, num contexto de crise económica, deixar o subentendido que a visita será paga pelo erário público português – lá está a patusquice mentirosa, a manchar o CV público da rapaziada libertária. Finalmente, a verdadeira angústia e/ou repúdio é que Bento XVI vá a Portugal e opine sobre questões internas, as para eles verdadeiramente importantes, as “fracturantes” – avaliação que denota bem o “véu ideológico” que lhes cobre e colhe o pensar.
O que estes patuscos querem esquecer é que o estado português terá despesas com esta visita como o tem com incontáveis visitas de chefes de estado a Portugal. E que estes lá chegam, quase sempre, para opinar e negociar sobre causas fracturantes (ou coaligantes) na sociedade portuguesa. Económicas, financeiras, políticas, sociais. Mas a isto dizem nada, pois nesses casos lhes falta o folclorismo que lhes anima o clicanço e, até por vezes, o teclanço. O que estes patuscos querem esquecer (pelos menos os académicos, vulgo intelectuais) é que todos os meses recebem salário em troca do seu pensamento. E que as invectivas de “conservadorismo” ou “reaccionarismo” sempre dedicadas a quem não encontra nenhuma piada nas suas constantes e exasperadas tentativas de torna-juventude só a eles fazem justiça. Pois vivem de pobres ideias-feitas. Apanhadas na “rave” em que julgam estar, entre “shots” de slogans.
E nestas palhaçadas o peso, estruturante ainda que sempre actualizável, da igreja católica apostólica romana na sociedade portuguesa vai-se mantendo. Muito para além do saracoteante engraçadismo dos “intelectuais” d’hoje.
Nota: a propósito de Alba Leonel Auxiliar chama a atenção para este local que lhe é dedicado, com textos de Teresa Lima, José Craveirinha, Machado da Graça, Glória de Sant’Anna e do próprio poeta.
Adenda: não tem nada a ver mas no mesmo blog uma bela nota a propósito da paternidade – “Diálogos Sobre Estética”.
Ao considerar eleitos autárquicos meros “boys” a quem não se deve dar “money”, e ao reduzir esta esclarecedora ”boca” a um fait-divers, o ministro Teixeira dos Santos não está apenas a demonstrar o – bem sabido – desprezo dos “socialistas” portugueses pela democracia e sua (deles) particular concepção de vida política. Está, acima de tudo, a denotar a sua imensa exaustão, “mãe de todas as gaffes”. Sairá no Verão boreal, está visto.
[Guillermo Fariñas, jornalista cubano em greve de fome]
Ao comparar presos políticos cubanos com bandidos o presidente brasileiro Lula não está a fazer “política real”, benfazeja aos interesses do Brasil. Está, pura e simplesmente, a mostrar a sua matriz intelectual – adversa às liberdades individuais e colectivas. O velho-marxismo totalitário. Assassino. Do racismo de Lula já se sabia, disto também, nada surpreende. O que também não surpreende é a simpatia que a personagem – e todo este repelente pacote de ideias – colhe junto desses europeus travestidos no pop-guevarismo, maquilhado em guantanamices falsas como Judas.
À tarde o Nuno telefonou-me: “O Kok está cercado no Savana …”. Meti-me logo no Musso. Lá chegado encontrei uns cento e tal exaltados. Da malta … o Jorge Ramos (e o Luis Sá, da Lusa, também como se a trabalhar). No portão, a representar os jornalistas e a apelar à calma popular, o Leandro Paul. Lá dentro, com o Kok, estava o Izidine. Depois, acalmada a cena, fomos beber uns copos aos CFM. Vou para lá agora, jô.
O discurso de Manuel Alegre na entrega do prémio Leya ao escritor João Paulo Borges Coelho, a propósito do livro “O Olho de Hertzog“. Sim, o culturalismo – mas aceitável, pois discursos protocolares não são os locais para problematizações. E, pelo menos, sem hífens. [Texto retirado da sua página pessoal]
Manuel Alegre na entrega do Prémio Leya em Maputo:
“A língua e a cultura é que fazem a alma de uma nação”
04-03-2010
O Presidente Samora Machel, pouco antes da sua visita a Portugal, disse a um jornalista português: “Camões não é só vosso, Camões também é nosso”. Esta frase, que profundamente sensibilizou o povo português, não foi só uma homenagem ao poeta que na Ilha de Moçambique acabou de escrever o poema que é, de certo modo, um acto de fundação poética de Portugal. O que o Presidente Samora Machel pretendeu significar foi que a língua portuguesa tinha deixado de ser língua de ocupação para passar a ser uma língua de liberdade, de independência e de partilha. Ou como diria Miguel Torga: “um traço de união”.
Estranha contradição e, ao mesmo tempo, soberbo privilégio de uma língua que tendo sido a do sistema colonial, foi também a língua em que os povos começaram a pensar e procurar poética e politicamente as suas raízes e a sua identidade. Nos poemas, nas revistas, nos textos fundadores, mais tarde na luta de libertação e finalmente na proclamação da independência.
Língua de luta e poesia. Angola independente já estava nos poemas e nos textos em que Agostinho Neto, Viriato da Cruz e Mário de Andrade afirmaram a sua angolanidade e proclamaram: “Vamos redescobrir Angola, vamos a ser nós mesmos”. E o mesmo aconteceu em Moçambique com os poemas de Craveirinha, Marcelino dos Santos, Jorge Rebelo e as palavras inspiradas e proféticas de Samora Machel. E também em S. Tomé e Príncipe, com os poemas de Alda Espírito Santo. E na Guiné e Cabo Verde com a escrita e a palavra de Amílcar Cabral. E depois em Timor com os poemas e as armas de Xanana Gusmão. As armas e a poesia andaram juntas. Na mesma língua.
Já no século XIX Almeida Garrett tinha escrito um ode que saudava a independência do Brasil, sublinhando que ela acrescentava a “lusa liberdade”. E Portugal existiu sempre naquela “lusitana antiga liberdade” de que falava Camões e que os seus poetas sempre cantaram mesmo quando o povo português era também um povo oprimido.
Língua de múltiplas resistências. Língua de ocupação colonial mas também de libertação nacional. Língua de ditadura sobre o povo português mas também de liberdade resgatada a 25 de Abril de 1974.
Língua de fraternidade entre os combatentes de um e outro lado. E entre resistentes que se encontraram nas mesmas prisões e nos mesmos exílios. Língua dos nossos encontros, desencontros e reencontros. E hoje, sobretudo, língua de amizade, de construção e de futuro.
Esta é a língua que o Prémio Leya pretende divulgar e celebrar.
Como Presidente do Júri, e também como escritor português, é para mim uma honra e um motivo de alegria estar aqui a participar nesta celebração simbólica com o Presidente Armando Guebuza, também ele um confrade da escrita e com o Primeiro Ministro José Sócrates, com quem às vezes converso sobre o papel da língua portuguesa e a necessidade de a trazermos para a linha da frente da acção política na cena internacional.
Porque esta é uma arma que nós temos: a língua como instrumento de cultura, de partilha e desenvolvimento. E como factor de unidade e afirmação internacional da Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa. Temos uma das línguas mais faladas do mundo. É uma grande riqueza para quem não é rico. E se as relações económicas têm cada vez mais um papel essencial, não esquecemos que a língua e a cultura é que fazem a alma de uma nação.
O Prémio Leya de 2009 foi atribuído ao escritor moçambicano João Paulo Borges Coelho pelo seu romance “O Olho de Hertzog”, um livro surpreendente que vem enriquecer a literatura de língua portuguesa. Pela originalidade da narrativa, que nos restitui, com grande mestria, esta velha cidade e um contexto histórico em que se conjugam os combates das tropas alemãs contra as tropas portuguesas e inglesas na Primeira Guerra Mundial, o confronto entre africânderes e ingleses, a emigração moçambicana para a África do Sul, as primeiras greves dos trabalhadores africanos, a riquíssima personagem do jornalista João Albasini, pioneiro do nacionalismo moçambicano, e a busca do Olho de Hertzog, que é uma metáfora da demanda do destino individual e colectivo.
Em nome do júri, quero felicitar João Paulo Borges Coelho e agradecer-lhe a qualidade da sua escrita e a beleza de um romance que nos inquieta, nos reconforta e nos faz acompanhá-lo na procura do mistério do ser que é, ao fim e ao cabo, o próprio mistério de “O Olho de Hertzog”.
É interessante saber o arquitecto Pancho Miranda Guedes de visita ao Maputo de hoje, cidade em profunda transformação, tanto pela explosão imobiliária no Maputo-cimento dos últimos dois anos como pelo crescimento exponencial do Maputo-caniço, ocorrido nas últimas décadas, esse que menos chama a atenção dos mídia tradicionais e dos neo-meios informáticos. Para muitos o arquitecto será já um desconhecido e talvez por isso será conveniente lembrá-lo e lê-lo:
“Ulli Beier: Quantos edifícios construíu em Lourenço Marques? Pancho Guedes: Não sei, ainda estou a organizar o meu arquivo. Parece que há trezentos ou quatrocentos edifícios em Moçambique. (…) mas ao todo desenhei mais de seiscentos, talvez setecentos edifícios.” (23-24) Olhá-lo não deverá ser num sentido museológico, conservacionista que seja, e ele próprio sabe-o: “A maior parte das minhas obras está agora morta ou ferida, vítima de acidentes e revoluções.” (31). Pelo contrário olhar a sua obra é, para arquitectos porventura mas com toda a certeza para cidadãos, uma aprendizagem das exigências, do que é a exigência de quem vive, agora que, e não só em Maputo, ”Em toda a parte as cidades estão a perder as suas personalidades e começam a parecer-se umas com as outras, quase como os aeroportos. Não é através de regras, dogmas, ditames, piruetas ou assassinatos que a cidade será devolvida aos seus cidadãos. Só através do poder da imaginação a cidade se tornará maravilhosa.” (75) Uma imaginação que terá que ser um questionamento: o do grão-edifício padronizado – cuja inevitabilidade/obrigatoriedade a sociedade urbana moçambicana parece aceitar sem angústia e, até, com orgulho, altaneira e com indiferença diante de “edifícios propositadamente estranhos, que têm a qualidade das aparições. Há algo de extraordinários neles, são desiquilibrados …” (20); o da planeamento “racionalista” – “Quando voltei a Lourenço Marques em 1950 (…) a câmara tinha imposto um plano à cidade propriamente dita, através do qual, à autoritária maneira pombalina tentava determinar a título definitivo o que poderia vir a ser construído em cada local. Felizmente, Fernando Mesquita, um conselheiro municipal iluminado, desenvolveu algumas alternativas dissidentes das quais beneficiei…” (75); e o da arrogância sociológica – “… os urbanistas seguintes … foram, na sua maioria, indiferentes ao que se passava no caniço.” (75).
Ler (e ver) Miranda Guedes é aprender também a como a tal “cidade maravilhosa” imaginada na prática se faz não na manutenção de uma qualquer “identidade” pré-determinada, em purismos sempre legitimados pelo sufixo “idade”. Sabê-la como produzida, imaginada na mistura, arrojada mas nunca auto-complacente, de referências. A tal imaginação, o tal arrojo, não como um acantonamento, sim como uma viagem: “Ulli Beier: E quando começou a fazer o tipo de edifícios a que chama Stiloguedes? Pancho Guedes: Logo no início. (…) Ulli Beier: Quando desenha edifícios que têm esses elementos estranhos, como chega até eles? (…) A imagem surge primeiro, então? Pancho Guedes: A imagem – não sei de onde vem. Neste caso em particular, chamei-lhes dedos, picos. Será uma reinterpretação de um edifício que sempre teve importância para mim? É uma casa em Lisboa, a Casa dos Bicos, que picos piramidais em toda a fachada e arcos góticos. Quase toda a superfície da parede tem estas pirâmidade salientes, em ângulos rectos. Lembro-me desta casa de quando era pequeno, e vou vê-la sempre que volto a Portugal.” (20-21-22). Enfim, conjugar para além do óbvio. Do grande. E do “cimento”. E é nisso que radica a “ident – idade”.
Deixo as imagens. Para um “quem diria?!” que venha a ser “dizer que”.
["A Ribeira Velha antes de 1755", a Casa dos Bicos é o segundo edifício desde a esquerda, com a forma aproximada da actual]
["Fachada da rua dos Bacalhoeiros, primeira metade do séc. XX"]
Nota: imagens da Casa dos Bicos reproduzidas do livro Maria da Conceição Amaral e Tiago Miranda (coords.) De Olisipo a Lisboa. A Casa dos Bicos (Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2002)
A visita de Pancho Miranda Guedes a Maputo é uma ocasião única, arquitecto mítico desta cidade que é. Amanhã (4.3) o Consulado de Portugal (Av. Mao-Tsé-Tung) inaugurará uma exposição sobre o seu trabalho, que traz o título “Pancho Guedes- a aventura da arquitectura, o desafio ao formalismo” e que estará disponível durante um mês e meio. Para quem é da cidade, para quem gosta da cidade, torna-se obrigatório ir ver.
Entretanto Miranda Guedes falará na Faculdade de Arquitectura duas vezes, hoje (3.3: 17 h.) e depois de amanhã (4.3: 10 h.). As conferências serão abertas ao público.
Abre hoje, 3.3., no Instituto Camões uma exposição do fotógrafo português – oriundo de Moçambique – António Leitão Marques, intitulada “Moçambique, Labirinto da Saudade“. Nada mais sei sobre o que integra (nem quanto tempo estará disponível). Mas posso presumir que valerá visitá-la. Aqui deixo duas belissimas e já antigas fotografias suas (empobrecidas nas reproduções) que possuo em livro publicado em 1997.
["Cantina no Chiúre"]
["O Padrão e o Fortim da Ilha de Moçambique"]
As fotografias foram retiradas deste livro, que contém trabalhos de vários autores entre os quais, dedicados a Moçambique, os de António Leitão Marques, Sérgio Santimano e Faizal Sheikh.
O escultor e pintor Malenga avisa que expõe em Lisboa. De 2 (hoje) a 30 de Março terá apresentará as suas pinturas no “Pois Café” [na rua S. João da Praça, nº 93-95], num conjunto que intitula “Auge Latente“. Quem tiver disponibilidade poderá ir lá hoje, às 18 h., para a inauguração.
O contacto do artista é: [e-mail:artemakonde@yahoo.com.br]
É já noite, e 2 de Março, que descubro via MVF (que está no facebook e ainda no 1 de Março a comemorar a efeméride) que Chopin terá nascido a 1 de Março de 1810. 200 anos de Chopin então. Do festival que o MVF nos está a oferecer deixo este episódio.
O sítio PNetMoçambique agrega actualizações de imprensa moçambicana e ligações a mais de 200 blogs sobre Moçambique. Foi hoje enriquecido com mais 35 blogs. Alguns deles estão descontinuados. Ainda assim são integrados - não só porque há sempre o risco de um blog renascer do silêncio como também porque o PNetMoçambique procura ir sendo um arquivo disto do bloguismo sobre Moçambique. Amanhã a secção central (“Destaque” de blogs) será algo alterada, no sentido de dar maior visibilidade a blogs mais activos.
Entretanto continuo a solicitar a quem conheça blogs relacionados com Moçambique que o informe para que o elenco seja o mais completo possível. Como digo, seja para ecoar o que vai sendo escrito seja para enriquecer o arquivo do bloguismo moçambicano e sobre Moçambique.
Na sequência da entrada “A propósito da Madeira“, relativa às enxurradas que vitimazaram a população da ilha, um amigo enviou-me este artigo do “Diário de Notícias“ do Funchal, publicado a 13 de Janeiro de 1985, da autoria do engenheiro silvicultor Cecílio Gomes da Silva. Não é engano, o texto tem 25 anos! O autor é, obviamente, um exemplo daquilo a que os carreiristas chamam “apóstolos da desgraça” – expressão que serviu para o Nelson Saúte titular um dos seus livros. Mas, como abaixo diz (disse) Cecílio Gomes da Silva “Oxalá que nunca se diga que sou profeta.” … “Dei o alarme – pensem nele.”. Não pensaram. Nada. E preparam-se agora para, como se nada fosse com eles, gerirem a “reconstrução”. É o meu país. Continente e Ilhas.
Eu tive um sonho
Traumatizado pelo estado de desertificação das serras do interior da Ilha da Madeira, muito especialmente da região a Norte do Funchal e que constitui as bacias hidrográficas das três ribeiras que confluem para o Funchal, dando-lhe aquela fisiografia de perfeito anfiteatro, aliado a recordações da infância passada junto à margem de uma das mais torrenciais dessas ribeiras – a de Santa Luzia – o mundo dos meus sonhos é frequentemente tomado por pesadelos sempre ligados às enxurradas invernais e infernais dessa ribeira. Tive um sonho.
Adormecendo ao som do vento e da chuva fustigando o arvoredo do exemplar Bairro dos Olivais Sul onde resido, subia a escadaria do Pico das Pedras, sobranceiro ao Funchal. Nuvens negras apareceram a Sudoeste da cidade, fazendo desaparecer o largo e profundo horizonte, ligando o mar ao céu. Acompanhavam-me dois dos meus irmãos – memórias do tempo da Juventude – em que nós, depois do almoço, íamos a pé, subindo a Ribeira de Santa Luzia e trepando até à Alegria por alturas da Fundoa, até ao Pico das Pedras, Esteias e Pico Escalvado. Mas no sonho, a meio da escadaria de lascas de pedra, o vento fez-nos parar, obrigando-nos a agarrarmo-nos a uns pinheiros que ladeavam a pequena levada que corria ao lado da escadaria. Lembro-me que corria água em supetões, devido ao grande declive, como nesses velhos tempos. De repente, tudo escureceu. Cordas de água desabaram sobre toda a paisagem que desaparecia rapidamente à nossa volta. O tempo passava e um ruído ensurdecedor, semelhante a uma trovoada, enchia todo o espaço. Quanto durou, é difícil calcular em sonhos. Repentinamente, como começou, tudo parou; as nuvens dissiparam-se, o vento amainou e a luz voltou. Só o ruído continuava cada vez mais cavo e assustador. Olhei para o Sul e qualquer coisa de terrível, dantesco e caótico se me deparou. A Ribeira de Santa Luzia, a Ribeira de S. João e a Ribeira de João Gomes eram três grandes rios, monstruosamente caudalosos e arrasadores. De onde me encontrava via-os transformarem-se numa só torrente de lama, pedras e detritos de toda a ordem. A Ribeira de Santa Luzia, bloqueada por alturas da Ponte Nova – um elevado monturo de pedras, plantas, arames e toda a ordem de entulho fez de tampão ao reduzido canal formado pelas muralhas da Rua 31 de Janeiro e da Rua 5 de Outubro – galgou para um e outro lado em ondas alterosas vermelho acastanhadas, arrasando todos os quarteirões entre a Rua dos Ferreiros na margem direita e a Rua das Hortas na margem esquerda. As águas efervescentes, engrossando cada vez mais em montanhas de vagas espessas, tudo cobriram até à Sé – único edifício de pé. Toda a velha baixa tinha desaparecido debaixo de um fervedouro de água e lama. A Ribeira de João Gomes quase não saiu do seu leito até alturas do Campo da Barca; aí, porém, chocando com as águas vindas da Ribeira de Santa Luzia, soltou pela margem esquerda formando um vasto leito que ia desaguar no Campo Almirante Reis junto ao Forte de S. Tiago. A Ribeira de S. João, interrompida por alturas da Cabouqueira fez da Rua da Carreira o seu novo leito que, transbordando, tudo arrasou até à Avenida Arriaga. Um tumultuoso lençol espumante de lama ia dos pés do Infante D. Henrique à muralha do Forte de S. Tiago. O mar em fúria disputava a terra com as ribeiras. Recordo-me de ver três ilhas no meio daquele turbilhão imenso: o Palácio de S. Lourenço, A torre da Sé e a fortaleza de S. Tiago. Tudo o mais tinha desaparecido – só água lamacenta em turbilhões devastadores.
Acordei encharcado. Não era água, mas suor. Não consegui voltar a adormecer. Acordado o resto da noite por tremenda insónia, resolvi arborizar toda a serra que forma as bacias dessas ribeiras. Continuei a sonhar, desta vez acordado. Quase materializei a imaginação; via-me por aquelas chapas nuas e erosionadas, com batalhões de homens, mulheres e máquinas, semeando urze e louro, plantando castanheiros, nogueiras, pau-branco e vinháticos; corrigindo as barrocas com pequenas barragens de correcção torrencial, canalizando talvegues, desobstruindo canais. E vi a serra verdejante; a água cristalina deslizar lentamente pelos relvados, saltitando pelos córregos enchendo levadas. Voltei a ouvir os cantares dolentes dos regantes pelos socalcos ubérrimos das vertentes. Foram dois sonhos. Nenhum deles era real; felizmente para o primeiro; infelizmente para o segundo.
Oxalá que nunca se diga que sou profeta. Mas as condições para a concretização do pesadelo existem em grau mais do que suficiente.
Os grandes aluviões são cíclicos na Madeira. Basta lembrar o da Ribeira da Madalena e mais recentemente o da Ribeira de Machico. Aqui, porém, já não é uma ribeira, mas três, qualquer delas com bacias hidrográficas mais amplas e totalmente desarborizadas. Os canais de dejecção praticamente não existem nestas ribeiras e os cones de dejecção etão a níveis mais elevados do que a baixa da cidade. As margens estão obstruídas por vegetação e nalguns troços estão cobertas por arames e trepadeiras. Agradável à vista mas preocupante se as águas as atingirem. Estão criadas todas as condições, a montante e a jusante para uma tragédia de dimensões imprevisíveis (só em sonhos).
Não sei como me classificaria Freud se ouvisse este sonho. Apenas posso afirmar sem necessidade de demonstrações matemáticas que 1 mais 1 são 2, com ou sem computador. O que me deprime, porém, é pensar que o segundo sonho é menos provável de acontecer do que o primeiro. Dei o alarme – pensem nele.
Chega-nos no Natal, oferta de como se compadres assim a fazerem-nos família. E os livros também são a sua origem. A Inês (que está farta de não ser explicitada no blog) logo o lê e ordena-me que avance, “gostei muito” algo que eu já percebera, que por ele fora trocado durante dois dias em Inhambane. E isto não sendo ela muito dada a enredos policiais - certo que o livro disso não é exemplo, deixando até dois assassinatos por desvendar, virei a descobrir. Enfim, tamanhas as recomendações que interrompo a pilha ali ao lado e avanço, afã também reforçado por leituras anteriores, livros e blogs do autor.
Para logo ser surpreendido com a insídia, tanta e tão infundamentada, até disfarçada, que me interroga sobre os limites que devemos colocar às liberdades literárias: “A que horas saiu da sala de jantar?” “Eu?” “Não. O administrador.” “Por volta das três, um pouco antes. Um jogo de futebol, havia um jogo de futebol ontem à noite, e ele queria saber o resultado. Por princípio perguntaria a um empregado, a alguém que andasse ali, mas ele é muito cioso quando se trata de futebol. É sportinguista”, explicou, pedindo: “Compreenda”. (31). Hesito, resmungo a estes implícitos, mas continuo: agora num “é preciso conhecer o inimigo”. Para depois, e logo, me deixar conquistar por completo. Sei que o autor é premiado e elogiado, daí que (já) lhe serão menos simpáticas comparações elogiosas mas mesmo assim não deixo de confessar: dei comigo a sentir-me como nos grandes Le Carré – ok, para meu gosto o “O Espião Perfeito” é uma obra-prima -, imersão minha até ao final. A seguir o protagonista, tão denso que até arrisca a ser dessas personagens-eucalipto, que tudo esbatem em volta. Mas não aqui, sorte dele pois narrado por alguém que se engana quando quer confessar “Sou um biógrafo sem sorte” (87), pois não o seria se o fosse. Sigo-o talvez por identificação, por bem saber (e querer) que “Um homem a caminho de velho tem de ter vida, mesmo se não é uma vida heróica, cheia de glórias e de benefícios para a carreira.” (55), assim dele companheiro.
Sigo este nosso polícia guardião que sempre nos é desagradável pois ”A burguesia gosta de segurança, da tranquilidade dos seus bairros – mas detesta falar do assunto …” (88), sigo-o no seu método absolutamente científico, um Holmes das ciências de hoje, “… não escrevia ou raramente escrevia as suas notas. No seu gabinete, limitava-se a encostar-se na cadeira … e a semicerrar os olhos na direcção da janela, como se olhasse realmente o fio de telhados desalinhados. O resto era imaginação, uma espécie de exercício a que se entregava para não ter de preencher impressos ou elaborar relatórios ...” (88). Sigo-o a desembrulhar tramas vindas do passado que é presente, mesmo que o queiramos esquecer, negar, um homem como tantos outros pois de um “Pobre país que se interessa pelo seu passado, e vive pendurado numa parede como um quadro velho e impopular que as visitas têm de ver. Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor, Macau, pobre memória, pobre país que vive suspenso da aprovação dos outros, com medo de ter falhado onde falhou. O império, o coração do império. ( … ) tu próprio queres regressar à Guiné, onde a morte esteve próxima de ti, adormecendo no teu ombro, muito amiguinha, onde a vida estava suspensa de um fio, onde havia o cheiro que não esqueces. Fugiste da Guiné e olha o que te acontece: (…) cada inquérito persegue-te com o cheiro de África e os que dizem “ah, o cheiro de África”, mas nunca estiveram diante dos teus cheiros de África – o da merda, o da pobreza, o do lixo, o das coisas apodrecendo ao ar livre nos subúrbios, o dos mortos acumulados no mato, esquecidos, rendidos. Merda para África ...” (119-120).
Deixa-nos uma história africana que portuguesa é. Uma dessas que “a burguesia [que] gosta de segurança (…) detesta falar do assunto”. Deixa-nos o “homem a caminho de velho” assim foco (grão-exemplo?): “Em certas alturas só podemos imaginar, é o que nos resta. Esta é uma história de portugueses que nunca completaram a sua vida, que deixaram episódios por contar e que são portugueses de um império desaparecido. Nós somos os que vêm a seguir, para contar a história completa, mesmo que não seja a verdadeira.” (228).
Não há livros obrigatórios, nem imperdíveis. Isso são hipérboles mentirosas. Mas há livros bons. E este é um livro muito bom. Mais do que o recomendo.
[Francisco José Viegas, O Mar em Casablanca, Porto Editora, 2009]
jpt [que em nome da família agradece ao PSB e à CA a oferta do livro]
Na próxima semana Manuel Alegre estará em Maputo em actividade literária. Ao que me dizem de Lisboa aqui vem hifenizar* a literatura – pois assim pensa. A tresleitura que Manuel Alegre assim fará da realidade literária e histórica não será muito importante, não é isso que conta quando lemos os livros. Mas é interessante, e sonoro, sob outro ponto de vista. O hifenismo denotará o pensamento político, sob retórica cultural, do poeta e ficcionista. A incompreensão da multiplicidade dos processos históricos, da acção individual e colectiva. O hifenismo transpirará uma velha ideia de comunhão identitária trans-individual e trans-social, autónoma dos indivíduos, “naturalizadora” pelo que obrigatória, mas também moralizadora, porque assente na “tradição”, na “descendência” consideradas indiscutíveis. Este hífen, que Alegre trará na comitiva, é um “dado”, não literário mas ideológico.
Mas o hífen de Alegre não se esgota nisso. Tem subjacente, mas muito muito à flor da pele, um notório racismo.
E tudo isto é típico da vulgata para literatos a que chamam “lusofonia”. Manuel Alegre, e os que como ele pensam, nunca compreenderá isso. Porque são temáticas que lhes ultrapassam o património intelectual. E porque são questionamentos que lhes põem em causa o património político.
Como ele diz “a mim ninguém me cala” resta esperar que a segurança do aeroporto da Portela lhe apreenda o hífen.
*Se o hifenismo se soltar eu trarei aqui transcrição. Se se perder no caminho assim ficará
Um resumo de cinco minutos de uma reportagem (repórter Sílvia Camarinha; coordenação Arminda Deusdado) apresentada em 2008 na RTP-2 (programa Biosfera). Quem quiser ver a totalidade do programa ele está disponível no youtube. Está lá tudo anunciado – genial (e assim rara) perspicácia de repórter e dos entrevistados? desleixo dos responsáveis urbanos? Agora dezenas de mortos. Prejuízos materiais enormes – leio algures que serão necessários mil milhões de euros para a reconstrução.
Passados estes dias, cumprido algum nojo, é tempo de questionar. Há alguns anos caíu a ponte de Entre-os-Rios. De imediato o então ministro Jorge Coelho invocou a sua responsabilidade política e demitiu-se. Lembro bem do efeito que isso teve – alguns anos depois estourou o paiol de Maputo e jornais e vozes populares aqui se encheram com referências a essa atitude de Jorge Coelho, louvando-a. Quantas vezes pessoas se me dirigiriam num “Ao menos lá em Portugal os vossos políticos assumem as responsabilidades”.
Podem agora esses meus tantos interlocutores desiludir-se. Porque a anunciada catástrofe da Madeira é vista como uma “calamidade natural”, assim uma irresponsabilidade causal. Ninguém tem nada para assumir. Nem no continente (a Madeira é uma república, tem uma capital e uma sede de governo: Portugal, Lisboa, São Bento) nem na ilha (região com governo regional). É inacreditável.
Morreu o cidadão cubano Orlando Zapata Tamayo, preso político. V. dirá que não o conhecia, que nunca dele tinha ouvido ou lido. E eu acredito. V. dirá que não é nisto em que acredita, nem isso que sonha. E eu acredito. Mas quando V. me entra sala de aula dentro, carregando a efígie de Ernesto Guevara, na t-shirt, no emblema, na boina, até – por raras vezes - tatuada, eu encho-me de repugnância. Perceba V., talvez agora, quando lhe peço para ir ler sobre Guevara, sobre os guevaristas, sobre o que logo fizeram, sobre o que continuam a fazer. Perceba V. que essa t-shirt, esse emblema, essa tatuagem, querem dizer e disseram exactamente o contrário do que V. pensa. Perceba V. que esses guevaristas que V. ouve, que V. respeita, o tratarão, se V. continuar a ser o que parece ser, como trataram todos os que antecederam este Orlando Zapata Tamayo e todos os que lhe sucederão. Perceba V., e isso perceba bem, que também tem um guevara dentro de si. Pois todos temos a besta dentro de nós. Só precisamos de com ela ter cuidado, controlá-la. Assassiná-la.
Por falar nisso, caro aluno, rasgue essa merda de t-shirt. Não vá algum pobre miserável recuperá-la do lixo quando dela V. se libertar. Quando V. crescer. Livre. E rasgue, de vez, o respeito que possa ter por quem lhe canta guevarismos.
Para quem não teve oportunidade de ver aqui fica a sinopse (dita “trailer”) do belíssimo documentário produzido pelo canal National Geographic, para que atente em futuras reposições – enquanto não perco a esperança de aqui ter mais entradas dedicadas ao Parque.
Aqui está o “O Olho de Hertzog“, o último livro de João Paulo Borges Coelho, obra pela qual lhe foi atribuído o Prémio Leya. A entrega do prémio e o lançamento do livro decorrerão na próxima semana em Maputo, onde será apresentado por Gilberto Matusse. Presumo que nessa mesma altura será colocado à venda em Portugal. Dentro de alguns meses serão lançadas as edições angolana e brasileira. O livro – sobre o qual deixei aqui um breve parágrafo – é apaixonante. Para os habituais leitores de jpbc será obrigatório. E espero que venha a criar mais habituados.