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O Contrato Social

Sexta-feira, Setembro 3rd, 2010

Paulo Granjo, antropólogo português que há muito vem trabalhando em Moçambique, publicou no jornal Público o artigo “A Razão e o Sentido de Dois Motins”, sobre a situação em Maputo. Para ler com atenção, em articulação com o texto que colocou no seu blog: “Novos Motins em Maputo e Maria Antonieta na Costa do Índico“. Face a este último texto, mais completo (o jornal tem limites de espaço), tenho duas notas: uma irritação profunda; e uma discordância.

A irritação. Ao saber da proposta da substituição do pão (base da alimentação urbana) pela batata-doce e outros produtos imediatamente me lembrei da história de Maria Antonieta. Para quem não a saiba aqui a resumo: diz a história, muito provavelmente apócrifa e que contra ela foi usada na altura, que esta rainha de França tendo sido defrontada pelos pobres com pedidos de pão lhes terá respondido “se não têm pão que comam brioches“. O dito, por mais falso que tenha sido, ficou como símbolo da insensibilidade governativa – até pelo triste fim que a rainha veio a ter (guilhotinada após a revolução de 1789). E Paulo Granjo antecipou-se na “postagem”, inutilizando-me um proto-post, coisa que os bloguistas encartados raramente perdoam.

A discordância. Granjo avança como explicação para os acontecimentos a ideia da existência de uma particular concepção de poder, “tradicional” e “africana” que ancora o contrato social [para interessados no texto tem uma ligação para um artigo académico em que desenvolve o tema]. Ou seja, considera que pela vigência dessa ideia de “poder” “só em casos extremos deverá ser posto em causa o poder instituído; mas pressupõem, também e em contrapartida, que quem ocupe esse poder tem a obrigação de salvaguardar um mínimo de bem-estar e de dignidade das pessoas que governa. Pode (e tem o direito de) «comer mais», mas não de «comer sozinho» e à custa da fome dos outros.”.

A minha discordância não se prende com questões sobre a hipotética especificidade (e como tal da sua dinâmica explicativa), da realidade ou abrangência dessa proposta concepção “tradicional” ou “africana” de poder. Num registo destes (in-blog) o que me parece é que esta proposta interpretativa está presa a discursos locais (não “aos” discursos locais) – não o digo como defeito, digo-o como característica. E se assim é, se estamos face a discursos locais [às vezes a gente chama-lhes émicos] permite uma resposta nos mesmos termos. Através do dito popular, tantas vezes repetido de norte a sul, e significando (criticamente) a prática do poder: “os cabritos comem onde estão amarrados“. Entenda-se, o voraz cabrito onde amarrado come, não contratualiza.

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Maputo

Sexta-feira, Setembro 3rd, 2010

O que é Maputo? Interessante a quantidade de pessoas – moçambicanas e estrangeiras - às quais ouvi dizer nestes últimos dias que a cidade está “sitiada”, “fechada”, “rodeada”. Isso de que as pessoas não conseguem entrar na “cidade”, etc. Hoje no telejornal da portuguesa SIC Notícias o meu bom amigo Pedro Monjardino foi entrevistado (por telefone) e descreveu bem os factos que aconteciam e, avisado, também referiu “a cidade, ou seja o que aqui chamamos Maputo-cimento”. Mas também ele (até ele) acabou, no correr das palavras e pela força do uso, por deslizar para o corrente “cidade” como sinónimo deste “cimento”, no fundo a velha Xilunguine – epíteto tão recordado na literatura moçambicana. Ora isto não corresponde à verdade. As pessoas podiam sair e entrar na cidade, a cidade não esteve cercada [sendo certo que não se podia transitar na via da Matola]. O que se passa é que os bairros, o “caniço”, são a cidade. E de lá se podia e pode sair – desde que não seja para o centro da cidade. E desde que não se venha do centro da cidade.

Não é meu preciosismo. Apenas a nota de que esta “distracção” – este cimentocentrismo - tem imensas implicações no olhar que se quer “analítico”. Comece-se por olhar o mapa acima. E perceber-se que é uma amputação da cidade. Ou, por outra, que é o mapa do velho Xilunguine. E a partir daí pense-se Maputo. Exagero meu? Googlem “maputo mapa” ou “maputo map”. E encontrem a cidade mapeada na internet. Vejam o quão difícil é encontrar a cartografia da verdadeira cidade de Maputo. Extensa, plana, urbana. Sociologicamente urbana e maputense. Economicamente urbana e maputense. Identitariamente urbana e maputense.

Também por isso se pode dizer que “em Maputo os brancos, os turistas e a classe média africana está fechada em casa“. Ou que estão (estamos, os maputenses) “sitiados”. Porque com esta “cartografia” amputada, e concomitante sociologia amputada, nem se vê que em Maputo a população tende(u) a fechar-se em casa. Falo da população do grande Maputo, aquele que não está nos mapas vulgares. E, acima de tudo, nas dicotomias. Ainda mais vulgares.

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Adenda sobre os moralismos que falam

Quinta-feira, Setembro 2nd, 2010

Com toda a certeza que neste momento o mais importante em Moçambique não é referir o que lá longe se diz sobre o país e sua situação. Mas abaixo deixei um suave resmungo sobre os moralismos, internos e externos. E logo me caem no ecrã alguns exemplos disso, tão ocos que não consigo evitar pontapeá-los – ainda que saiba ser fútil perda de energia. Mas o tom ufano das suas certezas é tão irritante que me exige as caneladas.

1. O 2+2=5 indexa textos sobre as manifestações de Maputo. Por aí chego à opinião de Francisco Louçã, o “coordenador” do Bloco de Esquerda. Os mais veteranos leitores do ma-schamba dirão que reajo à minha “bête noire”. Porventura sê-lo-à. Mas é inenarrável. Eis como termina o acórdão da sua sentença: “Quando visitei Maputo, há uns anos e na véspera de uma cimeira africana, encontrei logo ao sair do aeroporto a construção acelerada de um muro elevado, que bloqueava um grande bairro de barracas: era para que os delegados estrangeiros não vissem a miséria. Este é o retrato da pobreza e da prepotência: oculta-se a miséria porque não se acaba com a miséria.”

Sei que os comunistas têm um fetiche com muros e que, desde que alguns caíram, têm com eles uma relação edipiana. Mas lendo este naco de prosa avanço para o método comparativo – é legítimo, não está Louçã a parodiar o método indutivo? E lembro-me do grande Carlos Lopes. Sportinguista, campeão olímpico, várias vezes campeão europeu, três vezes campeão mundial de corta-mato. Em 1985 foi campeão mundial no vale do Jamor [acima o recorte recuperado aqui]. Ora para acolher esse mundial o governo português de então construíra um enorme muro (um tapume) para esconder o miserável amontoado de barracas de refugiados timorenses (sim, esse pelos quais quinze anos depois os portugueses se vestiram de branco e karaokaram o lânguido “ai timor”) ali plantado. Será esse episódio significativo para definir, explicar ou até apenas ilustrar o sistema político e suas articulações socioeconómicas no Portugal de então e subsequente? Não, não é, por mais ridículo e afrontoso que o episódio então tenha surgido.

Quer-se pegar num ponto e nele basear uma conclusão? Ok, pegue-se, mesmo. Conheça-se e entenda-se. Na praça do aeroporto de Mavalane (Maputo) um dos seus topos articula com a zona do caniço. Na sua extremidade estava até, se bem me lembro, uma lixeira. A zona foi tapada com cenários de grande dimensão, com dizeres em francês, para simular a Kinshasa de Mobutu. Eram os cenários de Ali, de Michael Mann, filme em grande parte rodado em Maputo. Os quais foram ficando após a conclusão dos trabalhos. Algum tempo depois foram retirados. E fez-se o pequeno muro, ao longo de uma curva, tentando manter alguma “estética” da praça, agora “habituada” a um outro visual (um visual de “cimento”, chamar-se-ia aqui), como se “hall” de entrada da cidade. É risível? Sim, um pouco. Mas é isso demonstrativo, denotativo, ilustrativo de uma situação política estrutural? Afirmar isso é uma pura demagogia, básica. E desmontada por qualquer corrida entre Mavalane e a drenagem (ou seja, a imediata continuação desse caminho principal de saída do aeroporto), feita numa paisagem similar, de caniço, e sem outros muros. Para que agita o coordenador a sua palavra leve e vã? Ou, como diz o outro, “porque não te calas?”.

2. Henrique Fialho – que é dono de um excelente blog – cita (assim subscrevendo) outro naco moralista a explicar as coisas de Maputo (e com toda a certeza a receber a concordância da blogo-inteligência lusa left-wing e/ou conimbricense): “Por que não aumentam o preço dos veículos todo-o-terreno, das casas de alta cilindrada, desses artigos a que o povo não chega para conseguir comprar pão e pagar água, electricidade e transportes?”. Não me vou por a discutir a diferença entre preços tabelados e não tabelados, neste eixo de argumentação talvez fosse um sofisma. Nem a resmungar outra vez contra os textos medievais, mais ou menos cristãos, dos “ricos” vs “pobres”. Nem a argumentar sobre o peso simbólico dos “for-bai-for”, esse anti-cristo da esquerda parva europeia. Só vou lembrar a complexidade do mercado automóvel em Moçambique, a chegada dos recondicionados japoneses via Dubai (e como isso é ilustração das malhas que a economia global tece) e, já agora, do aumento dos preços dos carros novos. E do enorme aumento dos preços das casas em Maputo. Factos ambos que têm explicações e efeitos múltiplos, sociais e económicos e muito se articulam com as redes do poder político. Mas que servem para assinalar essa pequenina coisa da empiria que, chatice, torna mais complicadas as coisas. E nisso torna lixo a pompa das tiradas moralistas, cheias de invectivas e de si-mesmas. E ridículos os aplausos à missa.

Missa essa cheia de crentes. Muito comunitários, diga-se. Cheios de benzeduras e vade retros. E sermões entre-laudatórios.

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Reportagem fotográfica das manifestações de Maputo

Quinta-feira, Setembro 2nd, 2010

A reportagem fotográfica das manifestações realizada por António Silva (que também é confrade bloguista).


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Da sociologia apressada

Quinta-feira, Setembro 2nd, 2010

[Fotografia de Grant Lee Neuenburg]

Há e haverá imensa coisa a dizer sobre as manifestações de Maputo, as actuais e as similares ocorridas a 5 de Fevereiro de 2008. Cada cabeça sua sentença, com toda a certeza. Eu, um não-politólogo, boto a minha, de modesto alcance. Parte destas erupções provêm das modalidades de representação políticas existentes. Contrariamente ao que muitos afirmam o partido Frelimo não é um mero partido-Estado, aspira sim a ser um partido-sociedade. Com isto pretendo sublinhar que qualquer forma de organização é entendida como local de necessária penetração do partido, seja ela político-partidária, religiosa, económica, associativa, desportiva, sindical, ou de qualquer outra índole. Há quem invective de modo moralista esta prática, do que discordo. Pois não é um “mal”, trata-se sim do produto de uma específica concepção de poder, que o coisifica (este torna-se uma “coisa” a ter – e o mais possível – e não uma relação a dirimir). Isso tem um corolário na prática política, o objectivo de obter o máximo de “poder” possível, da forma como esse “poder” é entendido. Ou seja, de adquirir o máximo dos cargos políticos e similares, e de assim potenciar o controle das modalidades de organização social. Se é certo que este objectivo é inalcançável na totalidade (nenhum partido, por definição, pode agregar toda a sociedade, a sua multiplicidade) este modo de entender a prática política e partidária implica duas dimensões interligadas: uma constante insatisfação, pois há sempre algo mais a controlar e a dirigir, e uma constante mobilização e vigilância interna, exactamente porque há sempre algo mais a controlar, a dirigir. É um “modo de vida”, não no sentido (moralista) de apropriação mas sim de reprodução, de vivificação.

Simbólicas desta noção particular de poder foram as não tão antigas declarações de dirigentes partidários que anunciavam a crença em que o partido Frelimo estaria no poder por mil anos e, ainda, que desejava 100% dos cargos elegíveis numa das últimas eleições. Ou seja, a vontade de democraticamente apagar – no momento e para o futuro – as oposições organizadas, cuja existência é sempre vista como sinal de fraqueza do poder vigente. Esta vertigem de esvaziar a oposição tem este corolário – em dias como hoje surgem os vários “experts” referindo o facto de que estes movimentos contestatários são acéfalos, desorganizados, mero banditismo, manipulações (“o inimigo externo” ainda surge). No fundo significando que são ilegítimos, tanto quanto a práticas como a causas. Mas também referindo a inexistência de interlocutores (organizações) com quem dialogar (exercer o poder)

Mas no “fim do dia” o que tudo isto significa é que esvaziando de representatividade, fazendo desaparecer, as organizações das oposições fica-se diante das manifestações. Apenas. E diante destas, seus excessos e dos excessos reactivos que provocam ficamos diante de uma vasta panóplia de discursos moralistas: os adversos aos “bandidos” manifestantes, os adversos aos “corruptos” governantes. Ambas vão mal, em minha opinião. Ou seja, ambas inexplicam.

Outro exemplo de explicações moralistas, de sociologias apressadas vêm de longe, tudo reduzindo à luta entre “pobres” e “ricos”, como se estivéssemos a ler textos multisseculares. Em Portugal o muito lido Eduardo Pitta reduz assim (deixando presente o perene incómodo pós-colonial, a constante agitação com os “brancos em África”): “A comunidade branca e a classe média negra estão trancados em casa. Os turistas fechados nos hotéis.”. Esta pressa (e esta identificação por um lado muito particularizada, por outros lados completamente a traço muito grosso) é de quem obviamente não sabe quem e quantos se fecham em casa. Entenda-se, a velha dicotomia (polvilhada de racialismo resmungão) tão simplificadora nada explica. Nem a empiria do dia, nem o sistema que a engloba. Explicará apenas, talvez, quem a escreve.

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Moçambique-Nigéria na TVM

Quarta-feira, Setembro 1st, 2010

[Fotografia colhida aqui]

São 14 horas e a TVM inicia a transmissão em diferido do jogo de futebol Moçambique-Nigéria, realizado em Março de 2010 para o apuramento para o CAN.

Entretanto continua a tocar-me o telefone, gente a saber o que se passa, como estamos, o que penso. Tudo bem com a família, afianço. Quanto ao resto, e diante desta espantosa transmissão, avanço que há dois anos e meio, a propósito das manifestações de 5 de Fevereiro, deixei aqui o A neo-jacquerie de Maputo. Não tenho nada a acrescentar. Transcrevo o final desse texto, que me parece actual. Apenas frisando que as minhas esperanças de então continuam assim, meras esperanças.

4. Compete, com primazia, aos teclistas moçambicanos a análise dos acontecimentos que se vêm sucedendo. Este residente apenas pode transpirar o que vem inalando: há um hiato entre o real e a compreensão que os poderes dele têm. A vulcanização urbana (e aqui estou de acordo com [Carlos] Serra) e o receio rural – pois se há episódicos movimentos reactivos nas cidades no campo o Estado é temido, tal como os seus agentes (mesmo sendo um mero antropólogo estrangeiro), um silêncio que pode ser tomado como adesão mas não a é. Tudo isto aponta para novas formas de diálogo social. Resta saber se intra-partidárias se trans-partidárias. Esperemos (um “nós” de gradualistas) que das primeiras.

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Segunda-feira, Agosto 30th, 2010

[Fotografia de Luís Abelard]

mas porque é que me ensinaste a clareza da vista / Se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver clara … Porque é que me acordaste para a sensação e a nova alma / Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de sempre a minha.”

jpt (interrompendo)


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O Patriotismo segundo Eça de Queiroz

Sábado, Agosto 28th, 2010

[Eça de Queiroz, Por Obséquio Retire-se do Meu Personagem, Babel, 2010]

Uma “Carta a Pinheiro Chagas”, datada de 14.12.1880 – destrutiva do destinatário – que é um verdadeiro manifesto. De uma actualidade radical, apesar do tom de optimismo pedagógico da época.

Em nós outros não é por gorjeios de rouxinol parlamentar, por apóstrofes balbuciadas aos pés das Molucas, por soluços de um peito sufocado de êxtase, por serenadas e endechas, que se traduz o amor do país; é por emoções pequeninas, triviais e caseiras, que pouca relação têm com a estrondosa tomada de Ormuz: emoções de burguês que vive no estrangeiro, ao canto solitário do seu lume solteirão.” (45)

É que há duas espécies de patriotismo, meu caro Chagas.

Há em primeiro lugar o nobre patriotismo dos patriotas: esses amam a pátria, não dedicando-lhe estrofes, mas com a serenidade grave e profunda dos corações fortes. Respeitam a tradição, mas o seu esforço vai todo para a nação viva, a que em torno deles trabalha, produz, pensa e sofre: e, deixando para trás as glórias que ganhámos nas Molucas ocupam-se da pátria contemporânea, cujo coração bate ao mesmo tempo que o seu, procurando perceber-lhe as aspirações, dirigir-lhe as forças, torná-la mais livre, mais forte, mais culta, mais sábia, mais próspera, e por todas estas nobres qualidades elevá-la entre as nações. Nada do que pertence à pátria lhes é estranho: admiram decerto Afonso Henriques, mas não ficam para todo o sempre petrificados nessa admiração: vão por entre o povo, educando-o e melhorando-o, procurando-lhe mais trabalho e organizando-lhe mais instrução, promovendo sem descanso os dois bens supremos – ciência e justiça.

(…)

Dão-lhe [à pátria] sobretudo o que as nações necessitam mais, e o que só as faz grandes: dão-lhe a verdade. A verdade em tudo, em história, em arte, em política, nos costumes. Não a adulam, não a iludem: não lhe dizem que ela é grande porque tomou Calecut, dizem-lhe que é pequena porque não tem escolas. Gritam-lhe sem cessar a verdade rude e brutal. (…) Eis o nobre patriotismo dos patriotas.

O outro patriotismo é diferente: para quem o sente, a pátria não é a multidão que em torno dele palpita na luta da vida moderna – mas a outra pátria, a que há trezentos anos embarcou para a Índia, ao repicar dos sinos, entre as bênçãos dos frades, a ir arrasar aldeias de mouros e traficar em pimenta. Esse, a sua maneira de amar a pátria é tomar a lira e dar-lhe lânguidas serenadas. Esse sobe à tribuna de Parlamento ou ao artigo de fundo, e de lá exclama, com os olhos em alvo e o lábio em luxúria (…) – Deixa lá … Tu tomaste Cochim.

É esse patriotismo que, quando alguém salta uma verdade, acode de mão à cinta (…) - Olá, que injúria é essa à pátria? Pois não sabes tu, ignorante, que nós somos ainda temidos na Índia?

(…)

Este patriotismo (…) eu chamar-lhe-ia entre nós patriotice.” (32-35)

Essa patriotice tem no ma-schamba levado este nome.

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The Clash

Sexta-feira, Agosto 27th, 2010

Na passada semana aqui ficou um texto sobre o bloguismo português que correspondeu a um simpático convite do Pedro Correia, do Delito de Opinão para colocar naquele blog um texto. Trago-o agora para aqui, mania de ter arquivo próprio e também para que alguém hipoteticamente interessado e a quem tivesse escapado o possa ler:

Agradecer ao Pedro Correia este convite para escrever para o Delito de Opinião não é protocolo. É contexto do que se segue. Pois mesmo que blogo-veterano isto de meter algo num grão-blog, como o DO se tornou – o único dessa mole que consumo diariamente -, levanta logo aquela velha questão, até de algum stress, do “o que dizer a estes tipos?” – os muitos, e nisso louváveis, aqui leitores. Um imigrado treme nessas coisas, devo meter um requebro semi-tropical?, uma ponte inter-continental?, um daqui “estamos juntos”? um voo rasante sobre o onde vivo?. Ou restrinjo-me à parca política lusa, também ela habitual no DO ainda que felizmente nada monopolista? E nessa hesitação, até pobreza, é o cidadão que convoco, sai-me texto sobre o aí, o aí da política. Esse aí que há anos vou sabendo fundamentalmente por via dos blogs – se exceptuarmos a fértil actividade futebolística. Então boto sobre blogs, esse “espelho da nação”, pelo menos para alguns – que nesse blogocentrismo não serei o único emigrante, sei-o bem por anos de entre-bloguismo.

Longe vão os anos 2003-4 onde a gente apareceu desatinada a botar opiniões, frenética nas teclas, cada um pontapeando ou beijando o que que lhe ia na alma, tempos onde se afirmaram alguns manitus da opinão livre, desassombrada (idólatra que sou fiquei-me romeiro do jaquinzinho jcd, Lucky Luke do bloguismo, genial destruidor do anacletismo nacional). Os tempos foram passando e o colectivismo (nada liberal, diga-se) veio a impor-se no bloguismo, as grandes congregações bloguistas tornaram-se um must, na dita “esquerda” e na neo-dita “direita”. Então o motor dessa agregação chamava-se blogómetro, que os sonhos de teclistas lisboetas (e, vá lá, portuenses) eram o de destronar, abruptamente, José Pacheco Pereira do papado bloguista. Formaram-se e reformaram-se ene blogs evangelistas, de porta em porta, arengando os respectivos profetas. Era engraçado, naveguei então nesse encapelado mar de links, sentindo-me em casa – entenda-se, vivo num país [Moçambique] cuja grande revolução da actualidade é a monoteísta, são omnipresentes os profetas e profetismos, as igrejas e correntes “africanas”, a evangelização e a coranização (coisas de que não se fala na RTP-África, mas do que se poderia esperar daqueles funcionários públicos tão dependentes do senhor secretário de estado do momento?). In-blog, chegado a casa, era quase como estar lá na rua, nos distritos (no mato, dizem os de fora), ouvindo o “alá é grande” “deus nosso senhor tudo pode” e essas coisas. Claro que aí Zizek ou Hayek (ou Hayeck?, para recordar a mais profunda discussão teórica de quase uma década de bloguismo em Portugal) eram os profetas ministrados – enquanto uma minoria, aquela burguesia que vive nas vilórias, libertada do jugo das machambas e já em casas de alvenaria, falava em Blair como reencarnação do bem.

Entretanto o Paulo Querido vendeu o weblog.com.pt e o blogómetro perdeu alguma panache. Ainda por cima ninguém – nem mesmo os jornalistas lisboetas, frutos do caldeirão Frágil-Jamaica/Tokyo  - conseguia deitar abaixo o jpp do pedestal quantitativo. Adivinhava-se a crise, um desgaste do ânimo. Mas alguma blogo-esperança renasceu quando Vasco Pulido Valente e Constança Cunha e Sá irromperam, imperiais até, no bloguismo. Para se retirarem – num dos mais (ou mesmo “o mais”?) ridículos episódios dos anos 00 lusos, uma pequenez medonha – no dia seguinte a ultrapassarem o sitemeter abruptal. Mas pelo menos tiveram o efeito (o mérito?) de apear o blogo-top como meta-mor.

A partir daí, e enquanto o próprio país ia deslizando, e talvez também por isso, algo foi mudando. Alguns raros individuais encanecidos continuaram, adaptando-se ao tom da época, cada vez mais beligerantes ao serviço da “sua majestade” de cada qual. Os super-blogs mantiveram-se, algo voláteis pois mutantes de nome, com transferências até sonantes qual mundo da bola e, de quando em vez, entrezangas prenhes de inter-links, cheias de sub-textos e private angers, tudo isso em crescendo de alinhamento que neles cada vez mais suava o agendismo. O bloguismo-punk morrera há muito, o blogo-rock envelhecia em espasmos e fomos nós, incautos (?!) leitores, sendo encerrados no top of the pops. Com os ciclos eleitorais a indústria desceu à rua e tomou, definitivamente, conta do assunto e no pacote de gabinetes do pró e do contra se foi formando um regime profissionalizado, penteado, no qual ao clic-clic de entrada já se sabe o que esperar, vai-se à missa in-blog para se reafirmar as certezas quais escalfetas. O actual Festival da Eurovisão parece não perder audiências [fui ver o velho blogómetro antes de botar isto, confere ...] mas é óbvio que os maestros, cantores e jurados [e até o Eládio Clímaco e a Ana Zanatti] não percebem que a obesidade advém via google search: quanto mais “arquivos” tens para trás mais gente te chega ao engano, é o verdadeiro teorema bloguístico.

E ficou um mundo de gente trabalhando in-blog, uns cara destapada outros nem tanto, não lhes vão cair os patrões na lama. Dos pacotes de assessores ou não, proto ou ex, brotaram alguns. Assim feitos “Lisboa” muitos discutem, veementes, quem é quem, de onde vêm, com quem jantam (“eu jantei com A, ele existe” “eu ensinei X a blogar, e em minha casa” e, um must, “eu tirei esta foto a V que por acaso se percebe mal na foto mas – estão a ver? – ele existe“), um “quem” “são” “esses” “alguns” que é forma, ladainha, de ir tentando comprovar que o tudo isso, a tal “Lisboa”, sempre vai existindo. No fundo, no debate pró ou inpró-nomeação julgam-se nomenclatura. Entretanto, lá longe, a gente da net, essa que em tempos alimentou via clic-clic a quantidade de blogs que foram florindo, já lá não está. Pois encontra-se, noite fora, nestes pós-bloguismos do youtube/facebook, gente com nome e de fotografia espetada no “perfil”. Enquanto o tal pacote “convicto” não imigra para cá, trazendo o “remoquismo” que lhe é alma, andamos noutra, a “gostarmos” uns dos outros, Uns a ler. A ver. A ouvir. Outros a meter. The Clash, hoje:

(um filme precioso dedicado aos premiados dos prémios Gandula Blog 2004 e Gandula Blog 2005, atribuídos pelo ma-schamba – então blog individual. Aqui ficam as ligações para quem os quiser recordar.)

Entretanto depois de escrever o texto reli este “O Fim da Blogosfera”, de Paulo Querido, já velho texto (tem dois anos, nestes tempos isso é fóssil). Tem o interesse de ali referir o grupo “A” de blogs portugueses (uma elite – ao nível do seu reconhecimento, não estou a valorizar ou desvalorizar -interactuante), grosso modo é sobre esse meio de bloguismo político que acima falo.

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A tripartição

Sexta-feira, Agosto 27th, 2010

[G. Steiner, Nostalgia do Absoluto, Gradiva (2003 [1974])]

Devo sugerir, com hesitação, mas, espero, alguma seriedade, que a famosa divisão da consciência psicológica humana – id, ego, superego – deve muito à divisão em cave, quartos e sotão da casa da classe média vienense na viragem do século XIX para o XX.” (25).

(muito a propósito, ver a entrada anterior)

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Song Dance – Pavlov’s Dog

Quinta-feira, Agosto 26th, 2010

Escrevo “burguesia” um outro escriba lê “luta de classes”. Obviamente que me lembro deste velho grupo – e descubro que ainda anda por aí. Como os tresleitores – sempre impantes.

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Tráfico de Pessoas

Quarta-feira, Agosto 25th, 2010

Simpático material de WLSA Moçambique, em formato postal, divulgando a Lei nº 6/2008 (prevenção e e combate ao tráfico de pessoas) e os Gabinetes de Atendimento às Mulheres e Crianças Vítimas da Violência e a Linha Fala Criança.

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Sobre o Petróleo e Outras Fontes Energéticas em Moçambique

Quarta-feira, Agosto 25th, 2010

[imagem encontrada aqui]

No PembaAtolL um muito interessante texto sobre as múltiplas dimensões desta supra-actual questão. A ler. Mesmo.

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Sociedade de Protecção de Animais de Moçambique

Terça-feira, Agosto 24th, 2010

[Pedro]

Abaixo fui informado da existência desta Mozambique Animal Protection Society. Para quem quiser colaborar aqui fica a ligação ao sítio. (A causa é mais-do-que-justa donde não elaboro sobre a língua da organização ou, pelo menos, do seu sítio).

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Última contratação do Sporting

Terça-feira, Agosto 24th, 2010

Este é que era bem-vindo. Internacional AA.

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