COMO DISSE?



por ABM (19 de Março de 2010)

Lapso freudiano?
forças ocultas?
distracção?
conspiração?
oposição?
sentido de humor?
liberdade de expressão?
atentado ao estado de direito?
ou será apenas que o fulano das apresentações passou-se?

E quem inventou esta mirabulância de uma iniciativa energética para Portugal fosse rotulada com a sigla “re new able”? re, new, able?? “a inspirar Portugal”?

PORTUGUESE NATIONAL PORREIRISMO

por ABM (18 de Março de 2010)

Para além de ter que andar às voltas para arranjar o delapidado telhado do meu repositório de caixotes de livros em Alcoentre City, fui arredado dos meus deveres cívicos maschambianos por um interessante episódio que creio que transmite algo profundo sobre esta curiosa cultura portuguesa que nos imerge.

Em algures perdido na internet, desde Dezembro que mantenho um “blogue”,  primariamente sobre desporto moçambicano, que vou alimentando com o que tenho e mais umas esmolas fotográficas que mãos caridosas me vão enviando. Só que, mercê dos meus rodopios de globetrotter, as coisas que tenho estão algo caoticamente guardadas em caixotes um pouco por toda a parte.

Há poucos dias, ao levar um caixote para a arrecadação do prédio onde levo precária existência em Cascais City, dei com uma série de documentos que aproveitei para rever e seleccionar para colocar no tal de Delagoa Bay. Distraí-me com o tempo e acabei por ficar na tal arrecadação uns 40 minutos. E depois voltei para cima com uma pilha de papéis.

O apartamento de Cascais é um daqueles modernos, chiquérrimos, acabados de fazer e com todos os requintes de malvadez que se possam pensar, sistemas de alarme, de ventilação, videoporteiro, construção térmica da mais recente, antisísmica, elevadores, um bruto parque com piscina, court de ténis, clubhouse (em português diz-se … clubhouse) ligações de telefone, internet, televisão, fichas por todos os lados, tudo novo. A vizinhança é do mais in possível, e tirando os 30% que simplesmente não pagam as quotas do condomínio aparentemente porque não podem prescindir das férias de inverno na neve, é tudo do mais conceituado possível. Famílias brasonadas, novos ricos, carros do melhor. Até os seus cães são de raças catalogadas.

Voltando à história: depois de apanhar uns papéis e fotografias, subi para o meu apartamento. Eram cerca das 5 horas da tarde. Quando cheguei ao meu escritório, pousei os papéis e senti-me um pouco adoentado, de uma forma curiosa. Fiquei cansado, sonolento, com dores nos músculos e alguma dor de cabeça. Expedito, meti-me na cama e quase imediatamente adormeci.

Dormi 25 horas seguidas.

Enquanto estava na cama, a Patroa quase que entrou em pânico, pois alguém dormir de repente 25 horas seguidas sem comer e completamente fora da norma era preocupante, especialmente dado que eu dissera que me sentira mal.

Quando acordei, no dia seguinte às seis horas da tarde (dantes, após me tentarem acordar duas vezes, tinha ameaçado de morte quem me acordasse mais uma vez), tentei rever o que se tinha passado. A minha suspeita foi que algo acontecera quando eu estivera na arrecadação que fica na cave. A Patroa telefonou a uma coisa chamada Protecção Civil e aos Bombeiros de Cascais, para virem ver o que se passava.

Também me queria levar a um hospital para ser observado, o que recusei: estava vivo e não estava para estar sete horas sentado numa sala para aparecer um daqueles médicos estafados eslovaco-ucranianos dizer impacientemente que fosse para outro hospital, onde depois de mais sete horas me mandariam para casa tomar três comprimidos de não sei o quê que levaria mais uma hora de caça a uma farmácia aberta.

Gosto da ideia de que, já que tenho que morrer, ao menos que o faça em paz e nos meus termos.

Mas o que acontecera? Afinal, a cave do meu hipermoderno, chiquérrimo prédio, onde fica a arrecadação, tem extintores, sistemas de detecção de fogos, de detecção da presença excessiva de monóxido de carbono e sistemas automáticos de ventilação.

Só que, descobri depois, há mais que cinco anos que está tudo desligado.

Pura e simplesmente.

E ninguém sabe o que se passa e ninguém é responsável.

Os senhores da Protecção Civil, mediante um aparelhómetro que traziam com eles, fizeram uma medição dos níveis de monóxido de carbono presente na cave onde eu estivera, que indicou a presença desse gás tóxico várias vezes acima do nível considerado perigoso.

Ou seja, eu fora intoxicado com o gás monóxido de carbono.

Enquanto lá estavam, e antes de sair tudo a correr dali, inspeccionaram a cave do prédio e detectaram uma relativamente longa lista de infracções, qualquer delas susceptível de resultar em perigo, dano ou morte.

E aqui entra em acção o portuguese national-porreirismo.

O que é que fizeram estes senhores?

Rigorosamente, nada.

Disseram qualquer coisa como “olhe, sabe, a lei regula estas coisas todas e prescreve pesadas multas para estas infracções e de facto o senhor podia ter morrido aqui em baixo, mas por outro lado estas situações são comuns por todo o país e além disso não fazendo nada dá tempo ao seu condomínio de activar os sistemas e fazer com que sejam tomadas medidas correctivas por parte dos condóminos. E assim não pagam multas e resolve-se tudo na mesma, amigavelmente”.

Ou seja, não faziam nada e isso era na realidade fazer-me um favor.

E foram-se embora.

Ora, como é mais ou menos comum , e é de lei, o prédio tem um condomínio constituído. Como somos todos muito ricos e todos muito ocupados, ninguém quer tomar conta dos seus assuntos e por essa razão pagamos uma pequena fortuna para alguém de fora administrar os assuntos, o que basicamente se tem cingido a cobrar as quotas e tentar (infrutiferamente) cobrar as ditas aos tais 30 por cento de condóminos que nunca pagam nada. O que não é problema pois como somos todos ricos, subimos o valor das quotas e assim cobrimos os custos do prédio, pagando no processo os tais 30% dos que não pagam, mais uma senhora advogada para administrar o prédio (em resumo, para ir atrás deles) mais (este ano) 700 euros para calmamente ir empurrando as sucessivas e aparentemente falhadas acções de pagamento pelos tortuosos corredores dos tribunais aqui do burgo.

Anda-se nisto há anos.

Preocupada com a eminência gorada de uma viuvez e algo escandalizada, a Patroa mandou um e-mail à tal senhora doutora administradora do condomínio a dar conta do sucedido e a urgir a tomada de medidas imediatas para acautelar contra o que se estava a passar na cave.

E o que fez a senhora administradora?

Nada.

Nem se dignou responder a dizer qualquer coisa como “olhe,veja lá, li a mensagem, que chatice”, ou sequer tentar a cortesia de fingir que está preocupada, não tanto comigo, mas com o bem-estar e segurança de quem lhe paga umas massas precisamente para tratar destes assuntos.

Para a maior parte dos meus ilustres, ricos e ocupados vizinhos, neste momento o assunto nem sequer existe. E como as minhas relações com eles são as mais normais e correctas possíveis entre quaisquer vizinhos em Portugal – com uma excepção, metade não sei quem são e quanto à outra metade conheço-lhes todos os defeitos e nenhuma qualidade – o assunto fica no ar.

E o fantástico é que, em resumo, apesar do que aconteceu e do perigo que já se sabe estar ali em baixo, e de ter sido dado conhecimento aos directamente envolvidos e responsáveis, nada se fez, ninguém é responsável, e no fim eu vou ainda ser visto como o vizinho que veio da África e que anda a chatear os outros por causa destas coisas.

Afinal, quem me mandou estar na cave do meu prédio num fim de tarde?

Noutro sítio onde já vivi, um país anglo-saxónico imenso e com um oceano de cada lado cujo nome não vem para o caso, o Sr. da Protecção Civil local interditaria as caves imediatamente, fazia um aviso formal ao condomínio a dar conta do que tinha constatado e avisava que a cave ficaria fechada até se proceder à tomada de medidas para proteger as pessoas. E dava um prazo para se estar em conformidade.

Na bela e civilizadérrima Cascais, nada aconteceu e creio que vou ter que mandar outra mensagem à senhora doutora administradora a dizer qualquer coisa como “olhe, sôtora, desculpe lá qualquer coisa, e já agora, e se não se importa, mas a sra por acaso reparou num imeilezinho….?”.

Alternativamente, sempre posso ir à minha arrecadação com um escafandro de mergulhador.

DO QUE PORTUGAL PRECISA

Por ABM (12 de Março de 2010)

Segundo o chefe dos comunistas portugueses, citado pela SIC Notícias.

Aparte do bravado político, como não estou dentro dos meandros do novo e implementado Acordo Pornográfico para a Língua Portuguesa, fiquei na dúvida de o que é que realmente aqui se está a querer escrever:

Ruptura?

Rutura?

Rotura?

Ou será que a menina das legendas baldou-se (como infelizmente me acontece aqui) e ficou como está em cima?

HENRIQUE BANZE

por ABM (12 de Março de 2010)

Na altura da visita de José Sócrates a Maputo para firmar as relações com Moçambique e assinar uma resma de acordos, e de uma emissão especial ao vivo a partir de Maputo para o mundo via as cadeias da RTP (neste caso, visto no canal principal da RTP em Portugal continental), o actual vice-ministro dos Negócios Estrangeiros moçambicano, Henrique Banze, concedeu uma rara entrevista. Bem disposto, à vontade, sublimemente eloquente, o senhor vice-ministro mandou uma dose industrial de simpatia bem moçambicana, sem por um momento omitir o que de sério havia para dizer nesta ocasião. Em bom português, deu um baile.

Ao contrário do entrevistador, que bem se esforçou, mas que me pareceu um erro de casting.

A emissão foi feita a partir da velha estação de Caminhos de Ferro de Maputo, que este ano faz cem anos.

A RTP, essa celebrava os seus 53 anos.

SIDÓNIO PAIS E SAMORA MACHEL

Pintura de Sídonio Pais no Palácio de Belém

Samora Machel numa conferência. À sua direita, Joaquim Chissano, na altura MNE moçambicano

Samora Machel numa conferência. À sua direita, Joaquim Chissano, então MNE

Por ABM (11 de Março de 2010)

Pelas lacunas, este é apenas um esboço biográfico, resultante de umas breves notas que tomei a semana passada.

Sidónio Pais e Samora Machel nunca se conheceram, obviamente. Sidónio Pais faleceu em meados de Dezembro de 1918, assassinado em Lisboa por um tal Júlio Costa, que consta ser bisavô do actual político do PS português, António Costa, enquanto que Machel nasceu em Gaza em Setembro de 1933.

Mas há uma relação curiosa, se indirecta.

Sidónio Pais, que foi presidente de Portugal por pouco menos que oito meses em mais uma das emergências em que este país parece ser pródigo, é uma das figuras mais fascinantes da primeira parte do século XX português. Dos seus esboços biográficos sobressai uma figura absolutamente singular, intelectualmente em quase total desproporção com os que andavam pelos corredores do poder português na altura (e hoje) e com um percurso que deixa adivinhar uma mente particularmente superior e uma postura moral ímpar num Portugal em quase perpétua ebulição. Os paralelos com o que Samora tentou fazer em Moçambique numa parte do seu percurso, e a sua postura de um comportamento ético (em versão de ditadura comunista, naturalmente) são muito curiosos.

De certa forma, e à sua maneira, Sidónio tentou fazer o mesmo, e com o mesmo sucesso – alguém matou-o. Claramente, causou uma grande impressão na altura. Fernando Pessoa, que não é tido como um lírico nestas coisas da política, refere-se a ele em termos quase místicos, num conhecido poema.

O percurso de Sidónio Pais é o de algum conforto material num Portugal quase medieval no fim do século XIX e o seu génio (e beleza física, que terá usado liberalmente como um reputado – dir-se-ia hoje – womanizer, sempre impecavelmente vestido) contrasta perigosamente com várias incidências de loucura na sua família (nada menos que um tio e dois irmãos enlouqueceram). Em paralelo, fez carreira militar e académica, sendo em 1910 professor catedrático na Universidade de Coimbra, em matemática, e major do exército. Com algumas credenciais republicanas, uma adesão tardia a uma casa da maçonaria em Coimbra, e nenhum apreço pela monarquia, foi sugado para a política da nova república logo em 1910, tendo desempenhado funções nas Finanças e outras. Mas a maior parte do tempo passou-a em Berlim como embaixador, entre 1912 e Março de 1916, quando a república, emparedada pela sua relação longa e doentia (mas imprescindível) com a Grã-Bretanha e o autêntico terror de perder as suas colónias africanas a bem ou a mal, e ainda como uma fuga para a frente do autêntico descalabro doméstico, literalmente inventa um incidente com a Alemanha (o estúpido apresamento de todos os navios alemães fundeados em portos portugueses, o que basicamente constitui um acto de guerra) e depois gere as comunicações com a Alemanha (apesar dos repetidos avisos quanto às consequências do acto, que Sidónio enviava em telegramas a partir de Berlim) de tal forma que não deixou margem para outro resultado que não fosse uma declaração de guerra por parte da Alemanha.

Parte da paranóia portuguesa era que ambas Angola e Moçambique estiveram na altura a ser negociadas entre britânicos e alemães para serem as duas cortadas pelo meio, no caso de Moçambique o Sul do Save ficaria para a actual África do Sul e a região a Norte do Save ficaria para a actual Tanzânia, que ao tempo era uma colónia alemã. Se a Alemanha fosse victoriosa, Portugal perderia tudo. Aliás, desde 1914 que a Alemanha efectivamente tratava Portugal como um protectorado britânico – o que efectivamente era.

Portanto a aposta na Aliança era uma jogada lógica e até elementar.

Fruto da enorme borrasca política doméstica, Sidónio conjura um golpe de estado em final de 1917, elege-se presidente mas com poderes executivos em Abril de 1918 (a única vez que tal aconteceu) e foi assassinado em 14 de Dezembro desse ano, pouco mais que um mês depois de terminar a Guerra de 1914-1918.

Durante o seu curto mandato presidencial, a sua família – a sua mulher Maria dos Prazeres e cinco filhos Sidónio, António, Maria, Afonso e Pedro – permaneceram em Coimbra, onde a família sempre vivera, tendo Maria dos Prazeres, apesar de ser oficialmente a Primeira Dama da República, entrado uma única vez no palácio presidencial, no dia do funeral do marido. Depois voltou para sua casa em Coimbra.

Bem, e é aqui que entra a ligação indirecta entre Samora Machel e Sidónio Pais.

É que, uns anos depois, um dos seus filhos, Afonso, foi viver para Lourenço Marques (a actual Maputo) onde se estabeleceu como médico e cirurgião. Supostamente, foi um bom médico e era muito conhecido na cidade e arredores. Nas suas memórias, Raúl Honwana (pai de Luis Bernardo Honwana) relata um episódio ocorrido em 1932, quando contraíra uma grave doença, tendo-se deslocado da sua terra lá para os lados da Moamba, à capital, onde foi visto pelo Dr. Afonso Pais (e quando regressou levou uma rabecada do médico local, que não o tratara e que “não o autorizara” a ver outro médico. É preciso ter lata).

O Dr. Afonso Pais era uma figura notável da Lourenço Marques colonial, considerado, para além de um bom médico, irresistível pelas mulheres, sendo conhecido pelas suas conquistas e por ser um excelente cavaleiro e frequentador do Clube Hípico da cidade (no processo, danificou a coluna). Casou-se com uma bela sul-africana de origem britânica, Doris Mantle, também ela excelente cavaleira. Uma das memórias de Doris Mantle foi a da sua doação ao Clube Hípico de um belíssimo cavalo chamado Mist, que por ser muito dócil (excessivamente dócil para ela) durante vários anos foi o cavalo com que muitos jovens se iniciaram na prática da equitação no Clube. Em Fevereiro de 1940 tiveram a sua única filha, Maria Alice Mantle Pais.

O Dr. Afonso Pais, cuja famosa filiação de Sidónio era mais ou menos conhecida, viveu em Moçambique até pouco depois da independência em 1975. Doris morreu em Lisboa em Dezembro de 1994. Pais morreu uns meses depois, em 12 de Abril de 1995, em Joanesburgo, presumo que junto da filha Maria Alice, que entretanto se casara com um sul-africano (Martin Brooks) mas não sei.

E o Dr. Afonso Pais conhecia o então jovem Samora Machel perfeitamente.

A parte curiosa é esta: quase todas as notas biográficas acerca de Samora Machel, invariavelmente imbuídas de um certo (e infelizmente habitual) heroicismo a posteriori, o que se entende dado o seu percurso e enorme importância em termos do processo político do Moçambique actual, resumem o seu percurso a ter nascido em Gaza, descendente de guerreiros, e cursado enfermagem quase por acaso, enquanto conspirava activamente para libertar Moçambique.

A realidade não foi bem essa.

A primeira vez que Samora vai viver para Lourenço Marques, vindo do então lugarejo da Madragoa (hoje Chilembene), situado no meio do que a breve trecho se tornaria no epicentro do quase inacreditável experimento agrícola e social do Eng. Trigo de Morais no Vale do Limpopo, ele foi primeiro trabalhar para casa do Dr. Afonso Pais como seu empregado.

Terá sido o Dr. Afonso Pais, que tinha ligações muito boas com o aparato médico-hospitalar da cidade, que se terá apercebido das suas qualidades e o seu valor e terá encorajado o então jovem Samora a estudar enfermagem. E o levou para o Hospital Central.

Samora exerceu durante alguns anos a função de auxiliar de enfermagem.

A decisão de Samora, que então era um vulgar cidadão negro numa colónia onde as pequenas cidades que haviam eram dos brancos e a esmagadora maioria da população negra vivia no mato, e onde ainda haviam as regras dos “assimilados” e dos “outros”, era perfeitamente normal e aceitável num território onde então não havia universidades nem instituições de ensino superior ou especializadas. Quando muito havia a Escola Comercial, onde se formaram muitos moçambicanos e portugueses, brancos e das outras cores.

Fora de Lourenço Marques, até aos anos 60 praticamente não havia liceus. Quem quisesse estudar ou ia para a capital ou para fora.

A afirmação, repetida com frequência, de que aos negros moçambicanos (apenas por serem negros) eram negadas oportunidades educacionais, sendo correcta na generalidade até ao final dos anos 60, ao mesmo tempo doura a pílula colonial e ignora por completo o facto de que também para a esmagadora maioria dos filhos dos brancos que ali viviam o cenário educacional era quase exactamente o mesmo: uma minúscula minoria ia estudar para Portugal e uma minoria ainda mais pequena estudava em universidades na África do Sul. Uma super-minoria (como o Dr. Mondlane e o Dr. Mário Machungo, mais tarde e durante 11 anos primeiro-ministro de Moçambique) estudaram em universidades portuguesas e estrangeiras. A maioria dos “doutores” e técnicos especializados que trabalhavam em Moçambique até praticamente a independência, vinham todos de fora.

E a esmagadora maioria dos que viviam em Moçambique ficavam pelo liceu ou escola comercial – ou de enfermagem. E aprendiam ofícios a trabalhar nas lojas, oficinas e serviços públicos.

E se calhar não fosse o excelente trabalho do Dr. Veiga Simão, não teria havido a Universidade de Lourenço Marques em 1970. Em Portugal europeu, até 1974 havia meia dúzia de universidades.

Pouca gente hoje parece recordar-se do atraso que Portugal tinha em relação à Europa. Era quase abismal.

E esse foi o mundo que um inconformado e revoltado e jovem Samora encontrou. Só mais tarde, quando, sob pressão de Julius Nyerere, se unificou (mais ou menos à estalada) a resistência moçambicana numa única “frente” e se encontrou no relutante Dr. Eduardo Mondlane a figura carismática e catalisadora dos sentimentos dos nacionalistas moçambicanos, é que Samora, ainda auxiliar de enfermeiro mas já desinteressado da carreira e empolado pela electrizante visita a Lourenço Marques do Dr. Mondlane em 1961, se envolve mais activamente na conspiração pelo fim do domínio colonial português. Pouco tempo depois, após reprovar num curso de enfermagem, com mais alguns colegas (na altura vários enfermeiros negros de Lourenço Marques, que de certa forma eram uma elite na comunidade negra, eram abertamente partidários da recentemente criada Frente de Libertação de Moçambique) Samora decidiu rumar ao Norte e desempenhar um papel activo no esforço da Frelimo, que pouco depois passou por uma guerra de guerrilha.

Em quatro anos Samora tornou-se no senhor da guerra na Frelimo. Dois anos mais tarde, morto Mondlane e afastados outros líderes fundacionais, Machel tornou-se no Senhor da Frelimo.

Ainda assim, antes de rumar à Tanzania, com alguns colegas, cortesmente, foi-se pessoalmente despedir do Dr. Pais, de chefes e colegas, explicando o que ia fazer, o que diz algo das relações que tinha na altura.

Aparentemente, quando voltou para Maputo já como líder incontestado da Frelimo e presidente da república, Samora ainda manteve um relacionamento com o Dr. Afonso Pais durante alguns anos.

Mas sobre isso ainda sei pouco.

A NOVA MAPUTO DOS RICOS

por ABM (9 de Março de 2010)

Se alguém tiver dúvidas quanto à pobreza ou riqueza, à ambição ou negociatas, ou ainda à sul-africanização, ou melhor, a Joanesburguização ou Durbanização da cidade de Maputo, observe apenas as visualizações, em baixo, do que se planeia (mais ou menos) para a marginal e os terrenos da defunta Feira Agrícola, Comercial e Industrial de Moçambique (FACIM) cuja pertença ignoro.

As maquetes foram-me enviadas pelo amigo do amigo do amigo. O que, se não me engano, significa que a esta hora metade de Maputo e arredores já as viu.

Longe de mim questionar o progresso e o crescimento da cidade, que não se soube libertar a tempo de ficar ensanduichada nos anos 60 e 70 pelos terrenos circundantes difíceis, pelo desafio de rasgar auto-estradas para Norte e uma ponte para Sul (a atempada libertação da longa noite colonial não deu tempo para isso, presume-se, e a pancadaria que veio a seguir também não deu tempo para mais).

Mas fazer ali uma espécie de Bairro da Coop 2 em estilo Noveau Sandton em frente à nesga da Baía é, enfim, algo menos do que eu esperava.

Eu sei que, ao preço que comanda o metro quadrado de terreno e de construção na cidade, surpreende-me que não apareça algum a fazer uma torre de 110 andares como aquelas no Dubai. É negócio, se calhar bom negócio, e se houver quem pague isto tudo, ainda melhor.

As minhas dúvidas existenciais, aliás, são outras. Fazer prédios ali se calhar até é a parte fácil. Mais duvidoso é saber como vai ser com coisas mais mundanas, tais como a infra-estrutura de água, electricidade e esgotos necessárias para suportar este projecto. Não havendo caves (a quota de água ali é elevada) onde vão parar os carros todos, e se os esgotos vão cair todos directamente na Baía ou se o projecto inclui a colocação de uma estação de tratamento de resíduos para a cidade. Finalmente, impermeabilizando-se uma área tão sensível e com uma enorme barreira atrás a qual não tem qualquer sistema formal de escoamento de águas pluviais, para onde é que vão escoar as águas quando cair uma daquelas chuvas a à antiga sobre Maputo?

Isto para não mencionar o facto elementar que aqueles terrenos não são terrenos normais: há cem anos, foram aterros feitos sobre uma praia, ou seja, não são à partida os melhores para se construirem sobre eles dezenas de prédios (razão pela qual nada se construiu ali durante mais que sessenta anos e aquilo era um parque verde da cidade, para quem não se lembra, com eucaliptos para suporte e drenagem). Na eventualidade de um tremor de terra mais estranho, as construções aí correrão o risco decorrente da liquefacção dos terrenos.

Já o referi antes e não sou o primeiro a dizê-lo: acho que é altura de se fazer uma ponte para a Catembe e expandir a cidade para Sul. E uma auto-estrada para Norte

E começar a pensar nos investimentos em infra-estrutura de base.

E em reabilitar e manter o que já existe.

E criar mais parques e zonas verdes para a cidade.

Mas isto é só uma opinião minha.

O PRIMEIRO CAPÍTULO DE “O OLHO DE HERTZOG”

O navio "Beira" Nº Oficial : 377-C, Iic.: H.B.N.G., Registo : Lisboa Cttor.: Blohm & Voss, Steinwerder, Alemanha, 04.07.1896 ex "Herzog", Deutsche Ost-Afrika Linien, Hamburgo, 1896-1911 Tonelagens : Tab 4.976,83 to, Tal 3.059,97 to Comprimentos : Pp 122,00 mt, Boca 14,38 mt, Pontal 13,60 mt Máquina : Blohm & Voss, Hamburgo, 1896, 2:Te, 11 m/h Vendido para demolição em Itália, finais de 1925


por ABM (9 de Março de 2010)

Ainda não tive chance de comprar O Olho de Herzog do João Paulo Borges Coelho, mas já fiz duas coisas que partilho com os exmos leitores por aquele preço imbatível só para Clientes do Maschamba:

1) arranjei uma fotografia original do bicho (“afenal” o Herzog é o navio com os dois matros altos na fotografia que se encontra acima, tirada numa enseada na antiga colónia alemã do Tanganyka aí para o ano de 1896. Não sei onde o JPBC foi buscar o “t” nem o que é que o navio tem que ver com a história mas hei-de perceber certamente). O navio mais tarde passou para mãos portuguesas e mudou o nome para Beira.

2) já li o primeiro capítulo do livro, que é delicioso e que abaixo de reproduz, cortesia do …. Diário Digital.

Então vamos lá:

Capítulo 1, Acto 1, Cena 1, de O Olho de Hertzog:

Não fosse o calor nem esta vegetação tão particular, não trouxesse o ar este vago cheiro a queimado, e Hans Mahrenholz dir-se-ia de volta a uma sua muito antiga vida. Hamburgo talvez, quando era criança e cruzou as desconhecidas praças dessa cidade levado pela mão grossa do pai, fustigados ambos por uma chuva miúda mas inclemente. Hamburgo, desta vez sem a mão que lhe abria os caminhos. Hamburgo às cegas. Não fosse esta luz crua que subsiste apesar da chuva e lhe castiga os olhos.
Recua ligeiramente para se proteger debaixo do avançado de lona riscada – velha e quebradiça, coçada pelo sol e pelo sal – e continua a observar com atenção a linha de costa. A maresia inchou-lhe os dedos, a ondulação provocou nele uma náusea leve e persistente.
A chuva desaba agora com fragor, formando manchas eriçadas na pele do mar (pequenas ilhas de inquietude na ampla superfície). Tem sido assim desde ontem, estes soluços molhados do tempo. Mais perto, a nova descarga salpica a balaustrada, as gotas escorrem como um óleo espesso no metal rugoso da amurada, alastram pelo convés.
A galera entra na barra, devagar. Chama-se Ferreira e ninguém tem razões para suspeitar de que esta será a sua última viagem à baía de Lourenço Marques. Para trás ficaram dias gloriosos em que, com o nome de Cutty Sark, foi a embarcação mais veloz a sulcar os mares do mundo, isso antes de ser adquirida pela firma Joaquim Antunes Ferreira & Cia., da cidade do Porto, e se tornar naquilo que é: uma embarcação cansada, merecedora das águas paradas de algum cais, enquanto peça de museu, mais que de confrontar assim o irascível mar Índico.
Mas não é por causa dessa glória – porventura inútil, neste momento nem sequer notada – que os burgueses encasacados acorrem ao cais apesar da chuva e do calor, unindo-se aos estivadores, marinheiros e vendedores que ali passam a vida, para formarem todos juntos a pequena multidão que espera; nem sequer pela imponência dos seus três mastros ou pela elegância do seu casco de madeira com mais de 90 metros de comprimento fora-a-fora. Estariam aqui mesmo que fosse outra embarcação qualquer, fazem-no sempre que uma vela ou um mastro assomam no horizonte, promessa de excitação trazida a uma cidade que no resto dos dias permanece modorrenta.
Por ora a Ferreira apalpa atentamente o canal que leva ao porto, passando não muito longe de um punhado de navios quietos, fundeados. Da amurada, o comandante Vieira de Sousa, há quatro anos no governo da galera, vai explicando aos seus cinco passageiros o historial de cada um desses navios: o Niassa, que foi Bulow antes de ser há dois anos capturado pelas autoridades portuguesas; o velho Admiral, glória da German East Africa Line, também ele obrigado a ser Lourenço Marques; e finalmente o Beira, nome pintado de fresco por cima de outro nome que ainda se consegue ler, por estar marcado em relevo leve na chapa negra do casco.
Herzog é o nome, e Hans Mahrenholz é percorrido por um estremecimento quando o consegue ler. Herzog. Não por causa da história que este velho navio também terá, as rotas que percorreu, os passageiros que transportou (entre eles um jovem de nome Fernando Pessoa em solitária viagem de regresso a uma pátria desconhecida). Herzog é o nome, palavra ducal que igualmente pode ser Herzig, Gertzog, Hertogs – e também Hertzog, como se verá – a raiz é sempre a mesma, a utilização é que foi variando, são as mesmas as armas com as cores amarela, azul e negra, as três estrelas, o elmo guerreiro e as asas imperiais. Herzog. E escurece ainda mais o humor de si já melancólico de Hans Mahrenholz, trazendo-lhe à ideia um outro tempo que vai ter de convocar.
Ondulam levemente, dóceis animais de carga retemperando forças gastas em intermináveis viagens. Herzog, murmura Hans Mahrenholz agora que o tem perto. Massa enorme projectando escura sombra sobre um mar de si já escuro.

Felizmente que tudo se torna mais leve com o lento avanço da galera, com as explicações do comandante e as exclamações dos restantes passageiros. São quatro: um jovem casal de missionários americanos e duas senhoras que o referido casal trataria com muito mais circunspecção se soubesse que não são quem dizem ser, esposas vindas para se juntar a supostos maridos, um deles engenheiro do caminho-de-ferro, o outro representante de uma companhia de recrutamento de indígenas.
Ira Edmond Gillet, o missionário, mal consegue represar a curiosidade, e o comandante passa à descrição do arvoredo cerrado e escuro lá em cima, ponteado de casinhas (o arrabalde novo da cidade), da ferida de terra vermelha aberta na encosta e que a chuva fez tornar a sangrar; de mais arvoredo junto à linha de água, envolvendo o edifício alvo do Grémio Náutico, na praia da Polana; e finalmente, mais para a esquerda, que é para onde lentamente se dirigem, o imponente edifício Capitania Buildings cercado de um casario denso que corresponde à cidade propriamente dita: Lourenço Marques. Mais uma vez a sirene anuncia a presença da galera na barra; no cais, um frisson percorre a pequena multidão.
A viagem foi muito acidentada: após uma calmaria que durava desde a largada, o vento rondou subitamente a sudeste por alturas de Richards Bay e, conquanto agilizasse o andamento, veio a fustigá-los sem tréguas, sobretudo ao largo de um lugar da costa chamado Milibangalala, de tal modo que Edith Riggs, a esposa do missionário, fez o resto da viagem encerrada no camarote, sofrendo de enjoos que as atenções dos restantes passageiros – chá preto, álcool nas têmporas, vinagre no nariz e lascas de bacalhau bem salgado – não conseguiam aplacar.
Felizmente que a ondulação acalmou assim que rondaram a ilha da Inhaca pelo norte, apesar dos perigos das baixas profundidades e fortes correntes que ali há, após o que passaram a poder respirar com mais alívio. E este súbito interesse pelos sinais que se descortinam na costa, este esmiuçar das casinhas e das minúsculas criaturas (da inquietante agitação para lá dos limites da cidade), além de ser o interesse normal de quem se aproxima do destino é também uma maneira de expressar o dito alívio.
Chega enfim o momento de lançar âncora. A chalupa que vem em busca dos passageiros vence o tortuoso percurso até se encostar à galera, ondulando muito mais do que ela.
Sobe o oficial de polícia a verificar os passaportes dos estrangeiros. O casal de missionários vem do distante Ohio e vai para a missão de Kambine em trabalho de evangelização. Olham o oficial com desconfiança, último obstáculo entre si e o cumprimento de um desígnio desde há muito estabelecido. O oficial, por seu turno, retorque com um franzir do sobrolho, suspeitando de um Deus que não fala o português. Mas tudo está em regra, não há como não carimbar os documentos e desejar-lhes as boas-vindas da praxe. Quanto às duas senhoras (que já se sabe não virem ao que dizem vir), cerca-as uma luminosidade tal que por si só obriga a aligeirar os procedimentos.
Finalmente, Hans Mahrenholz. Nos documentos, Henry Miller, súbdito inglês embarcado na cidade de Durban, viajando para Lourenço Marques em sondagem de oportunidades de negócio. E que negócio seria esse? Aquele que desse mais garantias de sucesso: minérios, comércio geral, mão-de-obra, difícil de precisar antes que seja levada a cabo a referida sondagem.

O polícia volta a franzir o sobrolho, afaga o espesso bigode. A água escorre-lhe pela capa de oleado. Felizmente que não pergunta que contactos tem o recém-chegado na cidade para o ajudar nessa tarefa, felizmente que se contenta com o que tem na frente: um nome estampado num documento de viagem e a revelação de um propósito. Se cofia o bigode é apenas para dar tempo a que um inesperado acaso revele mais qualquer coisa que acaba por não vir. Talvez porque não haja, pensa ele, apegado desde há muito ao ópio da rotina.
Uma rabanada de vento agita os papéis, quase os faz voar. Seria embaraçoso para todos que voassem para o mar. Parece que vai voltar a chover. Carimba.
As senhoras mostram receio em descer pela escada de cordame, em trocar um espaço a que apesar de tudo já se haviam habituado por esta insegura promessa de chegar a terra firme. Embora a costa esteja próxima, o mar é aqui mais escuro e oleoso, de certa forma mais sinistro.
Sorri o comandante, segurando-lhes o braço para que ganhem confiança; riem mais abertamente os marinheiros que, em baixo e segurando o corrimão, as incentivam com gestos a que desçam sem temor. Elas temem o mar e os sorrisos destes homens rudes.
Descem por fim os dois estrangeiros e o polícia, descem as malas e os baús (um quase se perde, o seu peso surpreendeu quem o transportava), e a chalupa solta-se do casco da galera e larga a braço vigoroso dos remadores, lutando com as piores ondas, aquelas que já bateram no muro do cais e voltam sem tino, enfurecidas pela descoberta de um limite.
Cantam os marinheiros, uma toada que incute neles a força de remar e que os recém-chegados não sabem distinguir se é alegre, se um lamento. Sobe e desce o cais de pedra a uma certa distância, o mesmo cais onde, da mancha que era a multidão, vão surgindo agora largos acenos e cada vez mais nítidas feições, chapéus e bengalas, bigodes, oleados para proteger da chuva à mistura com os troncos húmidos e nus de mais marinheiros que, de mãos esticadas, aguardam que lhes sejam atiradas as cordas para prender a chalupa às grossas argolas de ferro do paredão.
Com o ondular da terra firme na visão, volta a Edith Riggs a indisposição, nela mais forte ainda do que o medo. Segura o braço do marido com a mão enclavinhada.
Ao lado, Hans Mahrenholz, aliás Henry Miller, perscruta uma a uma as fisionomias do cais procurando descobrir um olhar particular de quem o espere.
Passam às escadas de pedra, sobem-nas e internam-se na multidão tacteando com estranheza a terra firme, quase sem se despedirem uns dos outros. Facto lamentável, tanto mais que uma viagem assim costuma criar nos passageiros uma especial intimidade.
Um homem magro, de chapéu na mão, leva o casal de missionários. As duas mulheres, seguidas por um enxame de crianças, desaparecem sem deixar rasto. Hans torna a olhar em volta, mas não há ninguém que se aproxime e apresente.
Felizmente que era rebate falso, que desta vez a chuva não voltou. Resignado, avança titubeante pela Praça 7 de Março arrastando o malão atrás de si. Finge que não escuta os homens que o seguem, pedindo-lhe com insistência que os deixe arcar com esse peso a troco de uma moeda.
O sol rompeu por entre as nuvens, é agora claro que não vai voltar a chover. E com ele um calor feroz que se junta ao peso da mala para o fazer derreter dentro da casaca ainda húmida da chuva, e agora do suor.
Olha esta praça, afinal distante de Hamburgo, povoada de gentes tão distintas, moldada pelos caprichos de quem a foi edificando, que a salpicou de pequenos quiosques, estranhas construções encimadas por minaretes de ferro forjado, chinesices. Leão d´Ouro, de João da Silva Alcobia, Servem-se bebidas e refeições, Asseio e prontidão.

As pessoas passam apressadas; os eléctricos, vagarosos, tilintam. À vozearia junta-se o som ritmado dos calceteiros malhando nos passeios. Oriental Kiosk, Bebidas espirituosas e sorvetes, Servem-se refeições para fora. Cheiros fortes e desconhecidos sobrevoam a praça: do querosene dos motores, da água da chuva secando ao sol, da serapilheira húmida que os marinheiros da chalupa envergavam (um cheiro que ainda o persegue), das cozinhas dos quiosques.
Continua a vaguear por ali até acabar por escolher um desses quiosques, que por qualquer razão lhe pareceu conveniente. Pavillion Kiosk de Cândido de Sousa Teixeira e dona Carlota Fornazini de Sousa Teixeira, Bebidas geladas nacionais e importadas da Metrópole, do Transval e das principais capitais europeias, Tremoços e pipis, Refeições ao gosto do cliente, Almoços elegantes. Senta-se a uma das mesas da esplanada e pede uma cerveja. Precisa de aplacar a sede que o assola, e também de pensar no que fazer.
As coisas começam mal. Glück garantiu-lhe que estava tudo arranjado, que iriam esperá-lo, que lhe dava um endereço apenas para o caso improvável de as coisas correrem mal.
Pois bem, é isso mesmo que acontece: as coisas correm mal. Passam dois polícias anafados, com grandes bigodes, olhando em volta e girando na mão os cassetetes. Na praça tornam-se todos menos veementes: esperam talvez que os polícias se afastem.
Hans fixa os olhos nos rebordos curiosos dos telhados dos quiosques, nas delirantes estalagmites, flores-de-lis, dragões, parras e perversos anjos; depois, na cerveja que tem na frente. Imagina e lembra, faz as suas contas. Amaldiçoa Glück.
O tempo que passou no mato foi demasiado para que pudesse agora olhar em volta e ver simplesmente uma cidade. Os arbustos da savana espalhavam vultos e ameaças; os charcos, sempre que chovia, traziam mil olhos à superfície; a luz da lua lambia os canos das espingardas. É isso ainda que vê nestes edifícios, nos postes, nos sofridos corpos que são as árvores urbanas, no inquietante padrão repetitivo das cercas de ferro forjado e da calçada, nas mensagens ocultas que os dizeres dos anúncios e dos cartazes calam: perversidade, dissimulação.
Em frente, um deles anuncia em grossas letras vermelhas e negras: Teatro Varietá (African Theatres), Repetição das melhores películas da semana em matinée especial: «Sylvia do Serviço Secreto» (fita policial em 5 partes), «Testemunha Silenciosa» (drama em 5 partes), «Quando as más-línguas falam» (drama em 5 partes).
Tudo o que é anunciado lhe parece de duplo sentido, as pessoas movem-se com inconfessados propósitos, a cidade é um prolongamento do mato. F. Bridler & Cia Lda, Vendas por atacado de toda a espécie de fazendas, Artigos diversos, Bebidas, Géneros de mercearia e confeitaria, Vinhos, Charutos, Licores, Bon-bons das mais acreditadas marcas nacionais e estrangeiras, Telefones 230 e 139.
Faz um sinal ao ardina que passa, compra-lhe um jornal. Quer ver confirmada em letra de imprensa a notícia que o comandante da galera, alegremente lhes transmitira, acabada de chegar: o general Lettow-Vorbeck rendera-se!
Procurou na altura saber de pormenores, mas as notícias eram lacónicas. Aparentemente a rendição dera-se em Abercorn, na Rodésia do Norte, assim que Lettow tivera conhecimento do armistício na Europa. A resistência perdera o sentido, se é que ainda tinha algum. O comandante abrira uma garrafa de champanhe para celebrar com os passageiros, e Hans fora obrigado a beber um gole a contragosto. O gole que simbolizava a traição.
Sorri amargamente. Folheia o jornal. Segundo um despacho da Agência Havas, o presidente da República Portuguesa, doutor Sidónio Pais, foi assassinado com três tiros quando embarcava para o Porto. Ao lado, enquadrado por dois filetes grossos, um anúncio dos milagrosos produtos Melcin. Curam-se todas as doenças secretas e doenças de pele, o nosso maravilhoso tratamento nunca falha, mesmo nos casos desesperados, Melcin é um purificador de sangue de força dupla que pode curar V. Excia rápida e permanentemente de doenças embora de longa data, Quer padeça de dores na garganta ou em qualquer outra parte do corpo, de manchas da cor de cobre ou escamas, de sífilis ou de eczemas, o nosso preparado Melcin curá-lo-á, A garrafa incluindo porte custa 21 xelins, Pedidos a Treye Pharmacy, Commissioner & Treye Street, Box 5595 Joanesburgo, A Tintura Melcin cura as manchas na cara, sarna e qualquer doença de pele, custa 3 xelins e 6 pences cada boião.

Vira a página, suspirando. Será que o Melcin serviria para lhe limpar a alma? Dá enfim com uma notícia curta.
Nota Oficiosa. A Nossa Acção Contra os Alemães em África. Telegrama recebido de Sua Excelência o Comandante em Chefe das forças aliadas operando contra a África Oriental Alemã, General Van Deventer: «Na conclusão das operações na África Oriental agradeço muito sinceramente a V. Excia pelo pronto auxílio que V. Excia sempre me concedeu de bom grado. Lembrar-me-ei sempre com orgulho que tive a honra de comandar tropas portuguesas cooperando com as minhas na campanha. Rogo aceite felicitações pela gloriosa vitória das armas aliadas sobre um inimigo comum, vitória que estou certo estreitará ainda mais os laços que sempre nos ligaram à nossa mais velha aliada, e transmiti os meus melhores agradecimentos aos comandantes, tropas e funcionários civis portugueses, na África Oriental Portuguesa, pelo seu valioso trabalho na Campanha de 1918.»
E, em seguida, a resposta do Governador-Geral:
«Agradeço a V. Excia seu amável telegrama. É meu desejo significar V. Excia neste momento a satisfação e orgulho sentidos pelos resultados conseguidos pelas tropas inglesas e portuguesas sob o enérgico e inteligente comando de V. Excia na Campanha agora terminada.»
Fecha o jornal e perde-se em divagações. Por isso quase não sentia o homem magro que se aproxima, de calções e pés descalços. Por um momento convence-se de que é quem o vem buscar. Mas não, trata-se apenas de um simples condutor de riquexó.
´Patrão, posso levá-lo onde quiser.´
Com a mão direita, Hans faz que não e finge concentrar- se na cerveja. O homem não insiste. Mantém-se porém por perto, na esperança de que o estrangeiro reconsidere.
Hans olha-o de soslaio. Realmente magro, um nariz aquilino, como se no seu sangue africano houvesse vestígios árabes ou indianos, embora remotos. Talvez mesmo chineses, a deduzir da curiosidade semicerrada com que o observa. Como confiar num homem assim?
Todavia, por algum motivo – talvez pela sua discreta atitude –, o homem desperta nele uma certa simpatia. Já viu muita gente assim. No início pareciam-lhe figuras de cartão movendo-se num cenário, figuras sem qualquer relevância. Só mais tarde, muito mais tarde, houve alguns a quem pediu protecção.
´Como te chamas?´
´O meu nome é Obede.´
´Obede, queres uma cerveja?´
Obede não parece perceber a oferta. O fosso que existe entre os dois é demasiado fundo para que ele de imediato a percebesse. Todavia, assim a que entende recusa com uma espécie de reverência. Mais por respeito do que propriamente por gratidão; pelo esforço feito pelo estrangeiro para cobrir esse tal fosso que os separa.
Volta o silêncio entre os dois. Mas por pouco tempo, dado que Obede não se satisfaz com uma única recusa.
´O patrão quer vender ouro? ´
Explora caminhos alternativos que conduzam aonde quer chegar.
´Ouro?´
Hans surpreende-se.
Obede explica que desde que a guerra acabou vêm aqui muitos estrangeiros, grande parte deles tentando vender ouro. Ele sabe de bons preços, melhores ainda se o negócio for feito com uns certos compradores que só ele conhece.
O oficial de polícia, de carimbo na mão, teria agora mais qualquer coisa a perguntar-lhe, isso se Hans trouxesse ouro para uma primeira oportunidade de negócio.

Quem será este Obede?, pergunta-se. E responde-lhe que não.
A menção à guerra inquietou-o. Ela e os dois polícias anafados que voltam a passar, girando sempre nas mãos os cassetetes. Tenta concentrar-se na cerveja.
Obede também não parece interessado em atrair a atenção da autoridade. Afasta os olhos de Hans. Mas, assim que sente a costa livre, volta a cravá-los nele.
´Se o patrão quiser ir a algum lado é só dizer. Conheço bem a cidade, não encontra um riquexó mais barato do que o meu.´
Hans fica um momento pensativo. Depois, puxa da carteira e tira de dentro dela um papel. Estende-lho.
´Conheces este lugar?´
Obede olha o papel, interessado, após o que abana a cabeça em desalento.
´Não sei ler.´
Hans volta a pegar no papel e lê em voz alta:
´Escritório de Joaquim Pereira, Rua Araújo 101, Lourenço Marques.´
O olhar de Obede ilumina-se.
´É muito perto. Posso levá-lo lá.´
´Se é assim tão perto, não preciso que me leves. Basta que me indiques o caminho.´
Obede simula um ar de espanto. É matreiro.
´Não fica bem a um branco andar pelas ruas a arrastar uma mala. Toda a gente vai olhar e achar estranho.´
O par de polícias barrigudos refugia-se agora na sombra rala da Casa Amarela, de onde lobriga a praça. Um par de pastores cuidando do seu rebanho. Hans acaba por ceder.
´Leva-me então a mala. Mas eu vou a pé.´
Obede coloca a mala no riquexó e põe-se a caminho, assobiando alegremente. Hans vai atrás dele. Deixam a praça, evitando um eléctrico que passa devagar, e internam-se numa rua estreita e movimentada. Manuel de Abreu, Comissões e consignações, Negócios por grosso e a retalho, Especialidades em bebidas tais como cognacs e whisky, Licores nacionais e estrangeiros, Vinhos verdes e maduros engarrafados ou em garrafões de 5 litros importados directamente de Portugal, Farinha de milho, luzerna, capim, farelo, etc., Oficinas de serralharia e carpintaria, Executam-se reparações e consertos em carroças e carros com a máxima perfeição para o que se possuem bons mestres, Venda de gado muar e cavalar sempre em stock.
O chão empedrado está transformado num lamaçal, as poças de água revelam o quanto choveu; em cima, pequenas sacadas de madeira e ferro forjado recortam-se contra um céu de um azul outra vez tão intenso que quase cega. Gente por toda a parte, uma verdadeira multidão caminhando em todos os sentidos e que eles têm de vencer como a um mar rebelde. Moçambique Agencies Lda, Negociantes, Expedições, desembarques, Comissões, Representantes de T. W. Beckett & Co. Ltd, Pretoria, Joanesburgo e Durban. Pelo ar voam os pregões, cristalinos e cortantes, anunciando pequenas coisas na esperança de que quem os ouça possa afinal vir a precisar delas. Jolanda, Fábrica de gelo, Águas minerais, Frigorífico, Proprietário Giuseppe Cavallari.
Obede pára o riquexó em frente a uma porta escura.

´É aqui.´
´Podias ter-me dito que era assim tão perto.´
´Eu disse que era perto.´
Hans encolhe os ombros, pede-lhe que aguarde, empurra a porta e entra. Lá dentro, pisca os olhos para se habituar à escuridão. Sobe umas escadas íngremes que desembocam num pequeno patamar para o qual dão três portas. Três possibilidades envoltas num intenso cheiro a desinfectante. Uma delas ostenta um letreiro austero: Dr Palma Callado, Sífilis e doenças venéreas, Doenças das senhoras, Clínica geral, Consultório. Das outras duas, uma está entreaberta. Bate nela ligeiramente, com os nós dos dedos. Ninguém responde. Está aqui mais fresco.
Espreita. Dá para uma sala comprida que termina em novas portas, estas com gelosias de madeira. Calcula que abram para a varanda de ferro forjado que se via lá de baixo. Dentro, três escrivaninhas desarrumadas, alguns armários encostados às paredes, tudo mal iluminado por uma luz crua retalhada pelas gelosias. No interior das tiras de luz, pequenas partículas de pó vogam lentas como minúsculos peixes num aquário. Há também um cheiro indistinto do qual fazem parte velharias, madeira escura, humidade, verniz e algum tabaco.
Apenas uma das escrivaninhas está ocupada, por um homenzinho entroncado, em mangas de camisa protegidas por essas braçadeiras de alpaca negra tão ao gosto dos amanuenses. Tem o chapéu de feltro descaído para a nuca, está concentrado nuns papéis que lê e risca e escreve.
Hans pigarreia para se anunciar. O homem vira-se, surpreendido. Talvez também um pouco receoso.
´Que deseja?´
´É aqui o escritório de Joaquim Pereira?´
´Sim, é aqui.´
´Procuro o senhor João Albasini.´
´Sou eu. O que me quer?´
´Trago instruções para o procurar. O meu nome é Henry Miller.´
O homem ouve aquele nome e parece indeciso, tomado de um certo embaraço. Levanta-se e arrasta outra cadeira para junto de si.
´Henry Miller, claro! Sente-se aqui. Não me diga que já chegou?! Claro, claro que chegou, que estupidez a minha! Estava aqui a fazer horas para o ir esperar ao barco e acabei por distrair-me. Desculpe.´
´Não tem importância.´
O homem põe-se subitamente muito sério.
´Alguém o viu entrar?´
E vira-lhe as costas para ir à varanda espreitar. Assim que escancara as gelosias a luz inunda a sala de um jorro só. É mais que entroncado, quase gordo. É mestiço. Debruça-se e examina atentamente a rua, como se procurasse algo por baixo dos sons que pairam sobre ela. Está agitado. Hans procura tranquilizá-lo.
´Não se preocupe, não vi nada de suspeito, ninguém me seguiu.´
O homem vira-se, mais calmo.
Ah, antes assim. E mais uma vez, desculpe. Perdi-me na escrita de um editorial, não dei pelo passar das horas. É para o meu novo jornal, chamado O Brado Africano, que sai daqui a dias. Leia-o e diga-me o que acha.´
Estende a Hans uma das folhas de papel. Este, surpreso com o gesto, não tem outro remédio senão pegar nas folhas e começar a ler. O título, Assestando Baterias, parece-lhe algo belicoso. O texto começa no mesmo tom.
Todo aquele que não luta pelo seu Direito condena-se voluntariamente a ser capacho dos outros. Parar é morrer. Aos povos subjugados, então, mais do que aos outros, esse dever é uma religião. Ante o Altar do Dever prostremo-nos pois e façamos por nos fazer ouvir nas nossas queixas, nos nossos brados, nas nossas súplicas! Programa..
. Para quê a explanação aqui de um programa, se todos sabem ao que vimos e o que queremos? Vamos seguir a mesmíssima senda que encetámos ao fundar O Africano em 1908.

Em seguida, o tom radical atenua-se um pouco, oferecendo uma mão a um entendimento social adequado à quadra que se vive.
Por uma curiosa coincidência este «número programa» também sai em dia de Natal – aquele em que a cristandade celebra o Advento do Justo e o calendário da República Portuguesa nos aponta para nele celebrarmos a Festa da Família – o dia da Fraternidade Humana.
Aos poucos, porém, volta o tom crispado.
Uma e outra vez nos curvamos pois ante o Presépio a pedir, para nós também, a parcela dessa Justiça, dessa Verdade e dessa Igualdade; e, como cidadãos de uma mesma Pátria, depois de beijar os emblemas sagrados nos templos, fazendo uso da Consciência – dom magnânimo de Deus – saímos destes para a vida larga da rua livre a pelejar pela doutrina igualitária de Cristo, pelo emblema da República, a pugnar pelo direito das gentes, a exigir – com correcção, com ordem, sim, mas com firmeza – o cumprimento da Lei. A Lei igual para todos é um princípio que não queremos ver traído. E por isso, e só para isso, a açodada pressa com que novamente se cerram fileiras à roda da nossa já muito gasta energia, da nossa abalada e magoada fé! É que áspera foi a caminhada até aqui e curtas as vidas para jornada tão longa. Mas… avante, e que O Brado Africano penetre em todas as frinchas das portas dos poderosos a gritar pela Santa Causa da Justiça; que nas mansardas dos pobres e palhotas desmanteladas dos contribuintes do Estado dê notícias, lhes diga que viva quem pela Justiça se deixará matar – porque não se deixar pisar é dever de todo o homem que tem noção da sua dignidade… É assim mesmo e assim esperamos que será sempre, custe o que custar!
Finda a leitura, Hans fica sem saber o que dizer. Escapou-lhe metade do sentido do texto. Quanto à outra metade, parece toda ela um desafio. Sente os olhos do homem cravados em si e não ousa levantar os seus.
´Então, o que acha? ´
Hans coça a cabeça, procurando desesperadamente ganhar tempo até que lhe chegue uma ideia.
´Não sei bem… Talvez o final esteja um pouco agressivo…´
João Albasini parece surpreso, depois pensativo.
´Acha mesmo?´
Arranca-lhe os papéis das mãos e volta a sentar-se à secretária, onde de imediato se põe a escrever. Escreve intercalando tiradas furiosas com curtas suspensões passadas a olhar o tecto, como se lá houvesse uma reserva de palavras penduradas para escolher. Esqueceu completamente o visitante. Por vezes retoma tão rápido uma frase que vêm de arrasto palavras indesejáveis, que risca com a mesma fúria com que as escreveu. O bico da pena mergulha de quando em quando no tinteiro com movimentos bruscos de ave de rapina. Ao mesmo tempo vai murmurando essas palavras como uma espécie de reza com múltiplas entoações, em busca de uma que lhe agrade a ponto de a deixar sobreviver na forma escrita. Quando as ideias se esgotam, escarafuncha as pilhas de papel que tem em volta para achar alimento com que prosseguir. Finalmente, com uma última mirada, parece dar-se por satisfeito. Passa o mata-borrão em cima da folha, como que para amansar o texto, levanta-se e estende-a a Hans.
´Veja agora.´
Hans não tem outro remédio senão voltar a ler.
Mas hoje é dia de Natal… Haja fraternidade… Boas-Festas e abracemo-nos, portugueses, num grande amplexo neste Natal doloroso, triste, pesado de negras sombras, em que estoiram tiros fratricidas e se jogam os nossos destinos numa Grande Conferência… na qual, pela certa, só será salvo, e ficará evidente e triunfante, o velho aforismo de que lobo não come lobo..
. E então, que acha agora?´
´Parece-me bem, embora termine de um modo um pouco enigmático.´
João Albasini sorri.
´É para os manter entretidos a imaginar onde raio quero chegar.´
´Ah.´

Depois, arranca subitamente as mangas de alpaca dos braços, atira-as para cima da secretária e estende a mão na direcção do bengaleiro, em busca de um casaco de linho imaculadamente branco. Veste-o, ao mesmo tempo que procura mais qualquer coisa em volta.
´Ora esta!?´
´Que foi?´
´Pocuro o meu chapéu, não sei onde o deixei.´
´Tm-no na cabeça.´
João Albasini leva a mão à cabeça.
´Tem razão, que estupidez a minha! Vamos então. Eu levo-o ao hotel e aproveito para deixar o texto na tipografia.´
Abandonam o escritório. João Albasini vai na frente, descendo os degraus com uma agilidade surpreendente. Falando e gesticulando sempre.
´Não tem bagagem?´
´Deixei-a aqui à porta, com um condutor de riquexó.´
Saem para a rua, onde Obede aguarda sorridente. João Albasini olha-o com certa surpresa, após o que lhe atira uma moeda.
´Leva a bagagem do senhor ao Hotel Clube. Já lá vamos ter.´
E fica pensativo a vê-lo partir. Depois, põe-se subitamente a caminhar num sentido diverso, com tal resolução que Hans tem dificuldade em segui-lo. De quando em quando leva a mão à cabeça, a certificar-se de que não esqueceu o chapéu. Caminham pelas ruas agitadas desta cidade brilhante como se o fizessem pelos carreiros do mato: os edifícios, árvores; os transeuntes, capim. Hans vai no entanto mais tranquilo, por não ter de ser ele a escolher, em cada cruzamento, uma alternativa. É reconfortante limitar-se a seguir aquele apressado casaco branco, entregar-se nas suas mãos. Ouve os nomes das ruas, palavras opacas sem nada que o ajude a desvendá-las; vê passar uma mesquita. Atravessam uma rua larga. António José Escudeiro, Importador e exportador de géneros nacionais e estrangeiros, Comércio geral, Especialidade em bebidas engarrafadas, Prontidão e seriedade. Saltitam entre as poças de chuva. João Albasini pragueja para os automóveis e caleches que descuidadamente as pisam, salpicando de lama os transeuntes. Zela pelo seu casaco branco.
Nova avenida larga, que cruzam, e entram enfim num edifício amplo, o Mercado Municipal. Percorrem os húmidos caminhos de pedra entre as bancas de produtos que João Albasini vai inspeccionando atentamente, sem no entanto abrandar o passo. É como se os vendedores, organizados por raças, tomassem parte no empreendimento colectivo de revelar as cores que existem na paleta da natureza. Os europeus propondo uma vasta gama desde os verdes dos legumes aos vermelhos das carnes, os indianos ripostando com a gradação completa dos temperos, do amarelo ao castanho passando pelo laranja vivo e por um vermelho de fogo. Lugar Económico de Pedro de Melo no Mercado Municipal, Chouriço de carne, morcela, farinheira, mouro e sangue, Carne salgada, Feijão de todas as qualidades, Azeitonas do Douro e Elvas, Frutas verdes, secas e cristalizadas, Leite fresco para doentes e crianças a 500 réis o litro, Leite do Umbelúzi a 400 réis o litro, Encarregam-se de levar as compras a casa dos fregueses.
Ao mesmo tempo, de costas, Albasini vai falando sem cessar, o que incute em Hans, para além do referido conforto, um difuso sentimento de inferioridade. Refere querelas municipais, amaldiçoa portarias a seu ver completamente injustificadas, desnuda intrigas com um trejeito irónico, convida o interlocutor a tomar partido. E Hans sempre sem saber o que dizer.
O homem voa sobre os assuntos como uma águia, embora com inflexões súbitas de passarinho. José de Carvalho Junior, Negociante de carnes verdes, Carne do Transval, Prontidão, asseio e correcção, Talho do Mercado, Lojas 17 e 18. Estão já nas traseiras do mercado, às quais se segue um baldio pejado de vendedeiras negras sentadas no chão enlameado, expondo os seus produtos sobre esteiras de palha semiapodrecida ou pequenas caixas de madeira, desta feita sem quaisquer anúncios que os nomeiem – montículos de frutas, legumes e folhagens, muitas delas desconhecidas, pequenos potes de barro com um arroz amarelo, milho grosso, gergelim, amendoim, piripiri. Aqui, porque mais desordenadas, as cores parecem traduzir com rigor a espontaneidade da natureza.

Evitando cuidadosamente as poças de água do chão, João Albasini prossegue a sua inspecção.
´Explique-me então qual é exactamente o objectivo da sua visita. É que a mensagem que o nosso amigo me enviou, anunciando a sua vinda, não era inteiramente clara…´
Debruça-se para pegar numa manga, apalpa-a, leva-a ao nariz e devolve-a ao monte, decepcionado.
´Vê-se que foi colhida antes do tempo. Ainda faltam umas semanas para a altura delas. Mas, ia dizendo?!…´
Tal como o polícia na galera, também Albasini quer saber das suas intenções. Ao que veio. Muitas vezes Hans reviu com Glück estes momentos, o que lhe perguntavam, como respondia. As traseiras confusas do mercado – onde se torna impossível encontrar um padrão simples que seja – fazem lembrar a maneira como as tropas estacionavam após os rigores do combate. Como se à meticulosa organização devesse seguir-se o caos para ficar reposto o equilíbrio. Esforça-se por expulsar estes pensamentos, a fim de ser capaz de responder.
´Oficialmente sou um empresário em sondagem de oportunidades de negócio, mas na verdade venho ao serviço de um jornal sul-africano, o Rand Daily Mail. Pretendo escrever uma reportagem sobre as condições de recrutamento dos trabalhadores das minas.´
Assim mesmo, tal como Glück lhe sugerira que dissesse.
´Ah, interessante. Estamos entre jornalistas, portanto. Entre jornalistas com uma causa, o que torna as coisas bem mais fáceis. Esta parece boa, não acha?´
E estende a Hans uma enorme papaia ainda esverdeada. Hans segura-a, sem saber o que dizer. Leva-a ao nariz, fazendo um ar entendido.
João Albasini larga uma sonora gargalhada.
´As papaias não cheiram, meu amigo. A elas há que apalpá-las, descobrir-lhes pelo peso e pela cor se estão no ponto. Acho bem que faça esse trabalho, e que o faça desta maneira, vendo de perto como vivem as pessoas. É preciso cheirar o suor do medo e da miséria, conhecer-lhes a cor, para sabermos do que falamos.´
E devolve a papaia à vendedeira, insatisfeito. Talvez por estar demasiado apalpada.
A mulher encolhe os ombros, resignada. O dia está no fim, falta-lhe vigor para argumentar. Atrás dela pulsa um pequeno volume envolto num pano velho, depositado sobre uma esteira no chão. Pelo calor e leve tremor que dele emana, adivinha-se ali uma criança. A mulher baixa-se e embala-a levemente, sem deixar com isso de ter o caixote com os seus produtos debaixo de olho.
Ao lado, mais mulheres fazem o mesmo: vendem as suas coisas enquanto embalam também as respectivas crianças, todas elas enroladas em panos velhos; montículos de frutas ou legumes, brilhantes de uma água suspeita com que constantemente os aspergem para que ao menos a aparência do viço não se perca. Compra-se pouco, a avaliar pelo que está ainda envelhecendo nos improvisados mostruários. Algumas iniciam a recolha dos seus produtos, que depositam em grandes cestas que levarão à cabeça (às crianças, levá-las-ão às costas). Fazem-no com muito cuidado, para amanhã os poderem voltar a mostrar com o aspecto que têm hoje. Como se fossem imunes ao passar do tempo.
Por toda a parte fumegam panelas amolgadas e negras de fuligem em fogos feitos no chão, panelas que elas espreitam sempre que as crianças lhes dão descanso. Há também outros fumos de origem mais difusa, todos eles soltando os respectivos cheiros acres. Fumos do calor que se acumulou no chão e agora se escapa, primeiras manchas da noite que desce.
´Compre-me a papaia, patrão. Para ajudar a criança.´
Hans surpreende-se com a serenidade com que estas palavras são sopradas, com a firmeza com que o atraem para um mundo que desconhece. Com este derradeiro esforço da mulher: Compra-me a papaia e revelar-te-ei o segredo destas panelas fervendo a nossa sobrevivência, o segredo destes pequenos volumes enrolados em panos velhos por cima de uma qualquer esteira, desafiando, obstinados, o destino.

No mato da sua lembrança estes vultos eram meros adereços dos combates, aqui deixa-se prender pelo fogo do seu olhar. Não tem pois como não levar a mão à carteira, para pagar. Houve alturas recentes da sua vida em que uma papaia destas seria uma preciosidade. É nisso que pensa para justificar o gesto. Suspeitasse disso a mulher e sem dúvida pediria três vezes o que pede por ela.
Entretanto, João Albasini já vai longe. Inspecciona os produtos de uma outra mulher, encarando duvidoso um pequeno monte de folhas verdes. São folhas de cacana, e a infusão que a partir delas se faz vai atenuar-lhe a dor que sente nos rins de quando em quando, sobretudo depois de longas horas sentado à secretária a escrever. Parecem-lhe bem, pois com um gesto seco indica à vendedeira que as embrulhe, levando, também ele, a mão ao bolso.
Sem dúvida que o mercado é um lugar de encontro entre dois mundos, um deles repetindo sem cessar o gesto de tirar a carteira, o outro embrulhando e despedindo-se de pequenas coisas trazidas sabe-se lá de onde.
´Quer então ver como se tratam aqui os pretos…´
Vira-se, levemente intrigado com a falta de resposta.
Hans não o ouviu, está ainda lá atrás acertando as contas da papaia. João Albasini aguarda que ele se aproxime, observa sem comentar uma papaia que quase foi sua, despropositada nas mãos do estrangeiro. No seu silêncio talvez haja algum despeito, uma surda irritação por Hans não ter seguido o seu conselho. Há por ali papaias bem melhores que aquela. Em seguida, dirige-se para os limites daquele emaranhado de gente onde tudo cabe menos os diálogos cristalinos (o som que dele emana é apenas um leve murmúrio indistinto, a reza baixa das transacções).
Chega à rua e entra nela. E. Nichols, Único agente para toda a Província de Moçambique dos Automóveis Ford, Carros de 5 assentos e camiões, Extraordinária redução de preços. Caminha depressa, sem se certificar se Hans o segue. Caminha e vai falando.
´Amanhã é um bom dia, dia de chamada. Eu venho buscá-lo para o levar lá.´
´Chamada?´
´Sim, dia de virem buscar quem precisam, de selecção daqueles cujos braços parecem mais fortes, cujos peitos musculados maiores garantias dão de albergarem pulmões sãos.´
´E os restantes?’
´Quem?´
´Aqueles que não são recrutados?´
Albasini ri da ingenuidade do estrangeiro. Intimamente, agradece-lhe porém esta ideia dos indígenas recusados, excelente tema para um futuro editorial. Vai até imaginando o respectivo texto, enquanto caminham.

Para onde são então precipitados os milhares de indígenas que não reunem as condições exigidas? Precipitados ao vão e vazio da Era inicial, protoplasmas que depois se aderirão e agregarão e formarão o protoplasto da nova humanidade que irrompe do tumulto belicoso empunhando os estandartes da libertação, caminhando triunfante e seguro sob a cadência estridente da Internacional?
E sorri da força do texto.
Mudam de rua. Na Avenida Arriaga o movimento de pessoas é bem menor, talvez por o dia estar chegando ao fim. Simão & Paizana, de José Dias Simão & Cia, Especialidade em carnes de porco, azeite e toda a qualidade de legumes recebidos directamente da Província, Sola, cabedal e pelicas recebidas directamente das fábricas, Armazém na Av. Central (antigos escritórios de Pinho, Santos & Cia, e Ribeiro e Levy). Em cima deles, o céu é uma violenta mancha cor de sangue. Apesar de ser mais alto, Hans tem de fazer um esforço para acompanhar a passada do homenzinho. ‘Diga-me, porque não comprámos dentro do Mercado? As coisas pareciam ali tão mais limpas, tão mais bem apresentadas…’ ‘Não comprámos lá porque é preciso dar uma oportunidade aos de fora, àqueles que não têm licença de vender lá dentro.’ A distância não é grande, depressa chegam à entrada do hotel. Em cima, um grande cartaz anuncia: Clube Hotel, de Lage & Selig, Um dos melhores edifícios da cidade com fundas vistas para o mar, Próximo dos jardins e repartições públicas, Carros eléctricos à porta constantemente, Fornece em condições económicas, Serviço de cozinha à portuguesa e inglesa, Todo o pessoal europeu completamente habilitado, As mais higiénicas instalações de luxo e óptimas casas de banho.
Sobem os onze degraus e, na varanda, João Albasini estende-lhe a mão num gesto de despedida.
´Está entregue. Desculpe a pressa, mas tenho de passar ainda pela tipografia. Amanhã venho buscá-lo.´
Num impulso, Hans estende-lhe a papaia.
´Leve-a, dê-a às crianças lá em casa. Estarei amanhã à sua espera.´
João Albasini recebe a papaia sem uma palavra. Revira-a, observa as manchas e pisadelas que o levaram a recusá-la. Encolhe os ombros. Vira as costas e desce os degraus saltitando, pondo-se a caminhar velozmente pela avenida abaixo. É uma figura alegre e ágil, uma mão segurando a papaia e as folhas, a outra aconchegando o bolso dentro do qual leva o editorial.
* * *
Arruma as suas coisas no quarto, toma um banho e desce para jantar. Segue absorto os gestos dos criados que acendem, um a um, os candeeiros das mesas e das paredes. Inspira fundo. Sente no ar um leve cheiro a petróleo, acre.
São múltiplos os caminhos que tem na frente, o problema é que não consegue ver aonde vão dar. Glück sugeriu-lhe que começasse por um certo Rapsides, e que tivesse muito cuidado com ele. Todavia, para ter cuidado com ele, terá primeiro de o encontrar, o que sabe ser muito difícil!
Enrola pequenas migalhas de pão entre os dedos, sobre a toalha de linho, imune ao som dos talheres que começam a ouvir-se em volta, à agitação das primeiras mesas e ao passar atarefado dos criados com as bandejas ao ombro.
Pela descrição, Rapsides terá uma grossa cicatriz desde a orelha até à boca, uma cicatriz que lhe distorce e congela a expressão. Embora não o impedisse de manifestar as disposições mais gerais – se estava alegre ou irado, por exemplo – essa cicatriz tornava impossível saber de estados de alma mais finos como a ironia ou o sarcasmo. Difícil, portanto, pormo-nos em guarda. Hans que tivesse muito cuidado com esse tal Rapsides!
Manda retirar a sopa quase sem lhe tocar, mordisca o bife com as palavras de Glück a rondar-lhe as ideias. Acaba por desistir de comer. Está exausto. Pede um brandy. Pede também um fósforo para o charuto, que o criado, pressuroso, acende. Agradece e levanta-se, de cálice na mão, e é nessa altura que nota um aceno vindo de outra mesa, perto da janela.
Tal como haviam desaparecido no nada, do nada reaparecem as suas duas companheiras de viagem na Ferreira. Não tem pois como evitar dirigir-se-lhes.
A mais nova, Florence Greeff, é também a mais extrovertida. No barco, imitava as indisposições da esposa do pastor Gillet, interpelava o comandante segurando-lhe o braço com desconcertante intimidade e cercava o próprio Hans com embaraçantes jogos de palavras. Aqui, foi ela que acenou e é ela que, sem pejo, encara Hans de cima a baixo, como se procurasse avaliar que marcas um dia nesta cidade deixara na sua figura.
A seu lado, Natalie Korenico, mais marcada (conquanto se vejam nela traços de algum fulgor), é o símbolo da polida e conveniente distância.
Hans não vê naquela mesa o engenheiro do caminho-de-ferro e o recrutador de indígenas que, no barco, elas tão pomposamente anunciavam. Duvida agora que estes tenham alguma vez existido e suspeita que outra história correrá atrás daquelas belas máscaras. Por outro lado, a sua desconfiança leva-o a dar-se conta de que elas poderão vê-lo da mesma maneira. Também ele tem outra história correndo atrás da sua própria máscara, embora não saiba ainda bem qual seja. Albasini, Rapsides e, por detrás deles, Sebastian Glück. Não ousa, portanto, perguntar.
No sorriso irónico que não larga nunca os lábios de Florence Greeff, Hans vê confirmada a sua suposição: não há engenheiro algum, nem tão-pouco um recrutador de indígenas. Ela pergunta-lhe se já achou alguma possibilidade de negócio. Mas, como responder com a verdade a quem parece sustentar tão bem mentiras, ironias, duplos significados? Sobretudo depois de Florence, em resposta à sua anunciada intenção de dar um passeio, lhe dizer que tivesse cuidado com a noite; que aqui as ruas, por detrás da sua placidez, escondem muitas armadilhas.

Hans desvia o olhar por um momento, seguindo com ele um dos criados que tropeçou e quase deixava cair a bandeja. Acaba por responder que não, que não há ainda qualquer negócio em vista, que continua em sondagem, não sabe por quanto tempo. Afinal, um dia é muito pouco para se descobrirem os segredos de uma cidade; as possibilidades que, como ela própria deu a entender, as suas ruas encerram.
Cansa-se dos jogos de palavras, levanta-se. Precisa de ar. Pede licença às duas para se retirar. Chega à varanda e fica ali um tempo ouvindo os grilos e esperando uma lufada de ar fresco que não chega. O tempo abafado e os sons da noite trazem-lhe à lembrança um outro tempo, tão distante e ao mesmo tempo tão recente. Leva o cálice aos lábios, dá um trago fundo e sente um fogo alastrando velozmente pelas veias.
Larga o cálice no parapeito, desce os degraus e segue pela berma da avenida como se sentisse necessidade de fugir às casas e às luzes numa urgência de escuridão. Noutras circunstâncias, seria numa altura como esta que alguém se aproximava para lhe transmitir uma versão fantasiosa do passado de Glück. Versão que ele encararia com profundo cepticismo. Passa junto de dois ou três riquexós estacionados, cujos condutores, cansados de esperar um estrangeiro caprichoso que deles precisasse àquela hora, dormitam. De longe, um deles parecia Obede. A mesma silhueta. Mas é afinal mais gordo e velho. Hans transforma o gesto que quase ia fazendo num cumprimento impessoal.
´Boa noite.´
Estremunhados, os homens surpreendem-se. É natural que pensem ser alguém necessitado dos seus serviços. Que branco se daria ao trabalho de uma tal atenção a não ser que tivesse em vista uma corrida? Levantam-se, atabalhoados, cada qual querendo ser o primeiro a servir. Mas, para surpresa geral, Hans já vai adiante, sinal de que cumprimentou por cumprimentar.
Caminha depressa. No chão, um som cavo e uma ligeira vibração anunciam a passagem de um último eléctrico a recolher, vazio. Volta novamente a chuva, uma chuva miudinha que ora não se vê, ora – se lhe bate a luz de um candeeiro – é um pó de ouro descendo lentamente até ao chão. Na sua frente surge um muro caiado que lhe chega pelo ombro. Segue a eu lado até que este se interrompe, deixando ver, do outro lado de um velho portão enferrujado, um mato com cheiros ue fazem lembrar os cheiros que traz no pesadelo. Põe-lhe as mãos e o portão cede com um ruído de gonzos que fere o silêncio. Deixa a rua e penetra no capinzal, sem saber se é um amplo jardim maltratado, se o início do mato (não consegue ver-lhe os limites). Aqui e além, algumas árvores, mais capim. Caminha sempre, sentindo em volta uma natureza cada vez mais altiva e desgrenhada. Por vezes sobrevoam-no as copas negras das árvores e, perdido nesse labirinto alto, um morcego de voo cego e desvairado; outras, é simplesmente o céu húmido e quente. Esforça os olhos para não perder o caminho que pisa, cheio de curvas, mas sente um chão fofo debaixo dos pés, enlameado, sinal de que já o perdeu.
E se encontrasse o tal Rapsides nesta altura, o que lhe diria? Boa noite, o coronel Sebastian Glück sugeriu-me que falasse consigo? Um absurdo. Antes de o procurar terá portanto de saber bem o que quer dele, com que tom lhe falará.
Leva o resto do charuto aos lábios e sente-o molhado. Deita-o fora. Estranha cidade esta, onde a chuva vai e vem sem se fazer anunciar e que se deixa atravessar assim, até ao âmago, por um mato quase virgem (fortaleza recente mas já com fundas brechas). Sente, contudo, neste mato uma diferença em relação ao outro que ainda não consegue precisar. Será das luzes que por vezes descortina entre as árvores, mantendo a noite em respeito? Será dos sons, aqui mais delicados, distintos dos sons roucos e repentinos das feras, dos gritos agudos das aves de voo longo? Será do sopro constante de um vento que lá desconhecia limites e que aqui não passa de um suspiro?
Aguça o ouvido, à procura dessas diferenças, e é então que nota um estalido de ramos que não vê, um ofegar que não é o seu, um vulto que não sabe se é uma árvore retorcida.
´Quem está aí?´
Mas o único movimento é o das folhas vergadas pelo peso da chuva miúda, o único som é o do ranger dessas folhas quando se vergam. Logo em seguida chega-lhe um novo som, cortante, de vidros partidos a seus pés. Baixa-se, tacteia o chão e encontra, entre esses restos de garrafa, um bocado de papel. Desdobra-o. Quer lê-lo mas não tem fósforos. Olha em volta.
´Quem está aí?´
Outra vez o movimento das folhas e o som do seu farfalhar. O sopro do vento num capim que não se vê. No mato os acontecimentos eram repentinos e brutais; aqui, os mistérios são mais leves, mais rendilhados. Parece que vai voltar a chover.
Procura regressar por onde veio mas não dá com o caminho. Quase corre sobre o chão enlameado até descortinar o vulto comprido do muro. Segue ao longo dele, ofegante, parece-lhe que não acaba nunca. Dá enfim com o portão, fechado. Não se lembra de o ter fechado quando entrou. Será o mesmo portão? Empurra-o e ele não se move, sólido como uma rocha. Sente uma necessidade imperiosa de deixar aquele lugar. Trepa pelo muro, passa as pernas para o outro lado e, com um salto, está novamente na avenida. A chuva é já forte, embora quase silenciosa.
Volta-lhe a sensação de segurança. Examina os sapatos em baixo de um candeeiro, completamente enlameados. Aproveita a luz para ler o papel, onde está escrita uma única palavra:
´WENELA.´
Está encharcado. Pragueja, retomando apressadamente o caminho do hotel. Chega aos degraus e sente, mais do que vê, uma presença. Do outro lado da rua os condutores dormitam por baixo dos riquexós. Nenhum daqueles vultos parece ter acabado de chegar, em nenhum nota o ar ofegante de quem tivesse corrido atrás de si para lhe atirar uma garrafa com uma mensagem dentro. Levanta a cabeça para olhar uma janela vazia do primeiro andar.
Será que foi impressão sua ou estava ali, recortada contra a luz trémula do quarto, a silhueta de Florence Greeff? Será que imaginou, ou também ela está sofrendo o calor infernal deste Dezembro?
Entra, fingindo que não a viu.

(fim do 1º Capítulo)

Para ler o resto, compre-se o livro. 15 euros e já está na rua em Portugal. No resto da Lusospeak não sei.

ÁFRICA E O JOGO DA CHONCA EM MACAU

Vestígios do jogo na Etiópia

por ABM (4 de Março de 2010)

Tenho andado a fazer alguma pesquisa sobre Macau e curiosamente, encontrei algumas referências a um jogo chamado Chonca, que naquela minúscula antiga ponta de Portugal num lado da foz do Rio das Pérolas na China, é tido como vinda de África, provavelmente pelas mãos dos ma-rongas e ma-changanas que por lá nadaram como tropas de elite coloniais durante mais de sessenta anos. Uma académica, Ana Maria Amaro, terá escrito uma pequena obra sobre o assunto.

Este tema, sob outra roupagem, já foi referido aqui nesta Casa. Aliás, quando eu era criança em Maputo via muita gente a jogar este jogo um pouco por toda a parte, nomeadamente os homens das obras daqueles hediondos prédios todos na Polana, na Avenida 24 de Julho e na Avenida Julius Nyerere, no intervalo de almoço e antes de voltar à jorna. Era tão comum como o xadrez na Europa, presumo.

Para minha surpresa – uma surpresa derivada do desconhecimento abjecto, naturalmente – “descubro” agora que o jogo é conhecido há muitas centenas de anos por toda a África, Médio Oriente e Ásia, sendo que nas peças que li os autores apostam que provavelmente veio da parte norte da costa oriental de África e/ou do Médio Oriente, onde há vestígios dos seus característicos tabuleiros que datam do século VI da Era Moderna (na zona da Eritreia e Etiópia).

Apesar de o que me parece uma base comum, o jogo tem vários nomes e variantes nas regras, consoante a região onde está mais implantado. Parece que internacionalmente o nome por que é mais conhecido é Mancala, mas tem muitos outros nomes, como Bao, Halah, Sungka (Ilhas Filipinas), Omweso, Ayo, Gebeta, Naranj (Maldivas), Dakon (Java), Congka (Malásia, Singapura, Indonésia), Chongka (Ilhas Marianas), Ohare, Warri, Awari, Oware, Wari, Solo, Bau, Mbau, etc.

E em Macau é Chonca.

Como não podia deixar de ser, a Wikipédia tem uma profusão de dados de arranque para quem queira analisar melhor o tema.

Quanto a mim, da próxima vez que estiver em Moçambique (inshallah) vou ver se o aprendo a jogar, pois das descrições do jogo é absolutamente fascinante, um jogo que supostamente puxa pelo intelecto e pela estratégia.

MOUSINHO E GUNGUNHANA, 1891, 1896

Na varanda da residência do Comissário Régio. Sentados da esq p/dir: Vieira da Rocha, Baltazar Cabral; Luiz Gaivão; Maria José Mouzinho de Albuquerque e Joaquim Mouzinho de Albuquerque. De pé: Conde da Fonte; Aires de Ornelas; ordenanças e criados

Gungunhana e sete mulheres, após detenção

Gungunhana, 1891

Mousinho de Albiquerque posa com um civil

por ABM (1 de Março de 2010)

Pensei que os exmos leitores haveriam de gostar de ver a cara dos respectivos e das respectivas.

fonte: IICT, com vénia

O NUNO, O ZÉ, A CNN E O GOOGLE

por ABM(28 de Fevereiro de 2010)

Isto é apenas uma memória domingueira.

Quando em 1990 vim viver temporariamente para Portugal (mais uma vez), mas desta vez dos Estados Unidos, em termos comunicacionais Portugal ainda estava, comparativamente falando, na idade média.

Já nessa altura, em Cambridge, uma cidadezinha vizinha de Boston, eu tinha em casa televisão por cabo com acesso a uns cem canais, incluindo a CNN. A internet ainda era ficção científica para a quase totalidade da humanidade e o melhor que havia para enviar informações era um aparelho de fax, que eu de facto tinha em casa desde 1988 (pago a peso de ouro) para enviar semanalmente as crónicas que eu escrevia para um pequeno jornal local, que preparava num computador Apple e imprimia numa impressora laser (dantes, escrevia numa máquina de dactilografar e mandava os textos pelos correios).

Em Portugal nessa altura quase ninguém tinha aparelhos de fax em casa, quando muito surripiavam uns aos amigos às escondidas, no emprego. Quase ninguém tinha um computador em casa e mesmo no emprego ainda era uma coisa muito rara. Impressoras laser, nem pensar. Não havia televisão por cabo e as notícias eram aquilo que a RTP decidia que eram notícias e o que os jornais publicavam, com imagens a preto e branco, consoante o partido ou a tendência ideológica dos seus patocinadores.

Meia dúzia de privilegiados (eu incluído, num decrépito apartamento na baixa de Lisboa) possuiam um gigantesco prato no telhado, de onde, com considerável dificuldade técnica, sintonizavam meia dúzia de canais por satélite, entre as quais a CNN. Apesar das minhas explicações, as minhas vizinhas octagenárias com bigode receavam ser afectadas pelos raios de micro-ondas emitidos pela antena e discutiam se eu obtivera uma autorização do governo para meter aquilo ali.

Na televisão portuguesa, o José Rodrigues dos Santos iniciava com alguma dificuldade a sua carreira como jornalista televisivo, depois de uns tempos como correspondente da BBC e fazendo uns biscates para a RTP e a CNN.

Na altura, em média, a população portuguesa via a RTP, ouvia a Rádio Renascença e lia o Diário de Notícias. Tudo num vago manto de cinzentismo em que se destacavam a erudição arrogante do Expresso e o espalhafato gozão do Independente. Aníbal Cavaco Silva há poucos anos surgira do nada e em breve terminava o seu segundo mandato como primeiro ministro e com uma maioria absoluta.

Em Portugal nessa altura choviam diariamente milhões de contos (na altura eram contos) da CEE e uns dias antes da segunda eleição parlamentar no fim de 1991, Portugal inaugurava aquilo que eu chamaria – citando a legendária frase de Alan Greenspan, então chairman do Federal Reserve Board norte-americano – a sua fase inenarrável de irrational exuberance – preparando a fase seguinte do desastre socialista e da longa estagnação da economia portuguesa. Pouco depois houve o orgasmo celebratório nacional prematuro chamado Expo 98, em que os portugueses decidiram que finalmente valia a pena mesmo ser-se português.

As ratazanas do regime refastelavam-se e enchiam as barrigas e as contas offshore.

E logo a seguir começou a lenta, penosa, dolorosa travessia do deserto moral, social, fiscal e económico. Na verdade, na altura ninguém deu por nada, pois estava-se a entrar na Era dourada do Euro, das taxas baixas, das casas compradas com um telefonema ao amigo no banco, dos carros bons ao preço da uva mijona, da gasolina a metade do preço da Coca-Cola . Inflamado com o sucesso da nova auto-estrada A1 (wow, Lisboa ao Porto em duas horas em vez de seis horas num caminho de cabras) e com a novidade do acesso aos mercados de capitais estrangeiros, o governo decidira que a coisa decente a fazer a seguir era construir mais auto-estradas para tudo quanto é de sítio, de Bragança para Beja, de Viseu para Aveiro. E mais um aeroporto. E mais pontes, e mais, e mais.

Tudo concessionado, tudo em parcerias público-privadas, tudo em regime de gasta-agora-paga-depois.

Tudo e todos, governos, pessoas, empresas, recorrendo alegremente ao crédito, desta vez o estrangeiro. Foi o novo Brasil, a nova África. Passou a ser normal o até o braquicéfalo do vizinho atrasado mental brogesso que não pagava o condomínio ir fazer férias na neve em Março e apanhar banhos em Cuba em Maio. Passou a ser normal falar-se em projectos de milhões como se fosse a coisa mais natural do mundo. A propaganda socialista, alternada com a complacência da oposição, declamava a chegada da nova era de prosperidade e justiça social. Bairros da lata inteiros eram demolidos e nas televisões via-se a senhora cigana ressabiada a receber as chaves para o seu apartamento novinho em folha, pago pela generosa partilha da prosperidade apercebida dos contribuintes. Sócrates até inventou mais tarde regras para dar aos pobres dinheiro dos nossos impostos só por o serem.

Pois afinal nós éramos ricos. Não?

Foi uma festa.

Só que ninguém estava a pagar a conta.

Em Moçambique, a Renamo e o que restava da Frelimo ainda se tentavam decapitar, apesar dos ventos de 1989 soprarem fortemente. Num subúrbio de Roma, em breve, sem ninguém reparar, a liderança da Frelimo, muito mais bem preparada e conectada, negociaria a sua vitória.

A modernidade comunicacional portuguesa começou na madrugada de 16 de Janeiro de 1991, quando, a propósito da decisão do ditador iraquiano Saddam Hussein de invadir a obscura e medieval ex-colónia do Kuwait uns meses antes, os Estados Unidos decidem ripostar com uma formidável “Coligação dos Justos” e um ataque directo ao Iraque, antes que este invadisse a Arábia Saudita e nos tivesse a todos bem agarrados pelos petrolíferos tomates.

Os locais comentaristas da treta, futuros quadros dos blocos da esquerda, acusavam isto de ser uma nova manifestação do neo-imperialismo americano. Estúpidos, declamavam sem saber: “nós portugueses não precisamos do petróleo para ter democracia e prosperidade”. Nessa noite a RTP interrompe a sua emissão regular e começa a passar dez horas seguidas de imagens do bombardeamento aéreo dos Estados Unidos a Bagdad feita pela CNN.

Para a CNN, do meu colega de faculdade Ted Turner, a cobertura da guerra do Iraque foi a coroação da sua estratégia de globalização. Fundada em meados de 1980 a partir de uma obscura e medíocre “super-estação” meio pirosa do estado norte-americano da Geórgia, a WTBS, que era do pai e que fora a primeira estação a emitir por satélite para todos os Estados Unidos, através das crescentes redes de satélites e de cabo que proliferavam pelos EUA, a CNN inaugurava a era das notícias internacionais por televisão, 24 horas por dia.

Em Portugal, cujos hábitos noticiosos televisivos eram mais do que questionáveis, duma formalidade doentia e de conteúdos quase estritamente governamentalizados, geridos por profissionais feitos a pulso (ainda não ocorrera a explosão de cursos de “comunicação social”) o súbito surgimento do novo formato foi um choque.

Claramente, as pessoas reagiram ao imediatismo fulgurante das bombas a caírem no terreno do Senhor Saddam ao vivo nas suas salas de visita e colavam-se horas a fio a tentar perceber o que é que o senhor da CNN dizia, no que o jovem jornalista José Rodrigues dos Santos assistia, traduzindo isto e aquilo.

Mas rapidamente, e face ao feed constante das imagens e das informações vindas de todas as capitais relevantes do mundo, tornou-se necessário haver algum debate e contextualização feitos em casa e em língua portuguesa. E é aí que surge do nada um novo herói da televisão portuguesa: Nuno Rogeiro.

Em 1991, Nuno Rogeiro era, por falta de melhor definição, uma espécie de equivalente televisivo da máquina de pesquisa Google. De fato e gravata e com uma trunfa característica, o então professor, cronista e comentador (não haviam então sites, nem blogues nem redes sociais nem jornais online) surgia sempre oportunamente nas câmaras da RTP (a SIC e a TVI ainda estavam na fase de planeamento e não havia Zon TV Cabo nem telemóveis populares nem nada disso) e cobria a ignorância mentacapta de quase todos os jornalistas a soldo da estação, discorrendo longa e livremente sobre tudo: onde ficava o Iraque, quem era Saddam, o que dizia Bush pai, porque é que os americanos atacavam pelo Sul e não pelo Norte, quantos aviões estavam envolvidos nos raids aéreos, o que é que a Turquia iria fazer. Tornou-se inesquecível nessa altura quando, a propósito de ter dado a Saddam para atirar uns mísseis de médio alcance chamados Scud para dentro do território de Israel, faz na televisão descrições detalhadas do que eram os Scud, para que serviam os Scud, quais eram as suas atribuições técnicas e alcance, que tipo de carga podiam levar.

Isto hoje é tudo pré-história. Rogeiro evoluiu, cortou o cabelo e tem um programa de entrevistas muito interessante na SIC e escreve umas coisas na Sábado. Toda gente em Portugal hoje tem telefones móveis, televisão por cabo em casa, computadores, internet e canais de notícias nacionais e estrangeiros à distância de um toque no aparelhinho de controlo remoto. José Rodrigues dos Santos consagrou-se e continua a ler as notícias enquanto vende livros sobre mega-conspirações. Como Santana Lopes, a CNN ainda anda por aí.

Nós temos o Maschamba.

Desses tempos, só fica a asfixia da vasta dívida acumulada, da quase falência do governo, das decisões que vão ter que ser tomadas e agora o poder executivo nas mãos periclitantes do governante mais mediático-dependente de toda a história de Portugal.

Para acompanhar os próximos episódios e o desfecho desta saga, agora podemos, a partir do sofá em casa e no computador, ver tudo a cores e ao vivo, e ler as opiniões e aferir os factos.

Só nos falta fazer isso com uma boa dose de desassombro, e de bom senso. Para o futuro que se avizinha, estes serão atributos para os quais não há tecnologias e nem riqueza que valham.

Um bom domingo a todos.

FADO LISBOETA POR EDU MIRANDA TRIO

por ABM (24 de Fevereiro de 2010)

Fado “fusão”? não percebo muito disto mas gostei.

VOLANTE À DIREITA EM MOÇAMBIQUE

Jorge Vara exibe o seu primeiro carro em Lourenço Marques, 1 de Setembro de 1938

por ABM (23 de Fevereiro de 2010)

Tendo crescido em Moçambique, como toda a gente ali, habituei-me a viajar em automóveis com volante à direita e com o trânsito pela esquerda.

Uns anos mais tarde, descobri que a maior parte do resto do mundo, incluindo na “metrópole” (Portugal) se conduzia pelo lado direito da estrada. O que era curioso mas nada de especial.

Em 1978, por dez dólares e com a ajuda do pai BM, que me deu umas lições básicas, tirei a minha carta de condução nos Estados Unidos da América, onde vivia, e onde se conduzia pela direita, as ruas eram largas e bem sinalizadas e as regras muito simples.

Nunca tive problemas nenhuns até voltar a Moçambique na segunda metade dos anos 90 e me sentei pela primeira vez a conduzir pela esquerda. O problema era com os meus reflexos: quando vinha de férias ou de serviço a Portugal, por mais que uma vez, sem pensar duas vezes, quando dava por mim estava a conduzir  no lado esquerdo da estrada, para desespero dos sempre tão corteses motoristas portugueses, que aproveitavam logo para fazer comentários à minha ascendência feminina em termos pouco laudatórios.

Como passageiro, ainda hoje quando estou mais distraído, é comum, querendo eu entrar num carro quando estou fora de Moçambique, dirigir-me para o lado…do condutor.

Porque é que se conduz em Moçambique pelo lado esquerdo? a resposta é fácil: porque se conduzia à esquerda em todos os países com que faz fronteira, cujas regras de condução derivam dos padrões estabelecidos pela Grã-Bretanha.

Em Portugal europeu conduzia-se pelo lado esquerdo da estrada. Segundo um interessantíssimo historial deste tema num blogue brasileiro, foram os franceses no tempo da sua revolução que inventaram o padrão da condução pelo lado direito, cerca de 1794. Como a seguir invadiram quase tudo à sua volta, levaram essa regra com eles. Depois das guerras napoleónicas, a regra da condução pela esquerda na Europa permaneceu nos países que mais resistiram a tirania francesa; o Reino Unido, o império austro-húngaro e … Portugal. Claro que ajudou que na realidade, para ajudar os portugueses a organizarem-se contra os franceses, a Inglaterra naquela altura praticamente ocupou Portugal, o que durou uns anos. E o costume ficou.

Foi só após a primeira república ter caído de podre e ter sido instaurada a Ditadura (na altura só, e com “D” maiúsculo, Salazar sendo ainda uma incógnita), é que, de uma assentada, tudo mudou. Em meados de 1928, um ano após criada a Junta Autónoma de Estradas, foi legislado o primeiro código da estrada português e, pelo decreto n.º 18.406, de 31 de Maio de 1928, estabalecida a circulação pela direita nas estradas. Até então, a circulação automóvel em Portugal e nas suas colónias era feita pela esquerda, copiando a prática britânica.

Assim, a partir das 5 horas da manhã de 1 de Junho de 1928 em Lisboa, e à meia noite no resto de Portugal continental, para os cerca de 31 mil condutores com carta de condução e cerca de 28.000 automóveis então existentes, passou a ser obrigatória a circulação rodoviária pelo lado direito das estradas. O mesmo aconteceu na Guiné, em Angola e Timor e, presume-se, na Fortaleza de São João Baptista de Ajudá.

Mas em Macau, Goa e Moçambique, tendo em atenção as suas situações específicas, manteve-se a condução pelo lado esquerdo das estradas.

Em 1975, na sequência da anexação de Timor pela Indonésia – onde se conduz pela esquerda, o sentido da condução foi alterado. Não sei como ficaram as coisas em Dili e arredores depois da independência.

O OURO DE MOÇAMBIQUE

por ABM (20 de Fevereiro de 2010)

A ministra Esperança Bias fez notícia este fim de semana ao expressar a sua preocupação com a forma desregrada como se estão a extrair ouro e pedras preciosas do território moçambicano, sem rei nem roque.

Isto depois de uma reunião do sector em Nampula, em que a tónica foi que eram os “estrangeiros”, com conivências internas, que estavam a fazer o servicinho.

No entretanto, aparentemente, o espólio da mineração das preciosidades moçambicanas, esfuma-se.

De facto, como originário de Moçambique, sempre tive a vaga vontade – chamem-lhe curiosidade – de um dia poder comprar uma moeda moçambicana, feita com ouro moçambicano, feita em Moçambique ou pelo menos na África do Sul mas com um tema moçambicano (a cara de Mondlane, o nome do país, a certificação de que foi de ouro extaído em Moçambique).

Mas não há. A contrastar com as recorrentes notícias de que andam milhares de garimperios a trabalhar pelo país fora, o produto não se encontra.

Evapora-se.

E é uma pena. Pois para além de um produto de prestígio e muito bem vindo na área do coleccionismo, e ainda algo de valor acrescentado, se calhar seria um passo interessante no caminho da organização deste sector.

E há uma certa tradição neste país. A moeda actual de Moçambique – o Metical – tem uma denominação que vem de um meio de troca centenário que era feito de ouro.

Existe outra situação semelhante à do ouro.

Há poucos anos atrás, se um consumidor digitasse o nome “Mozambique” no sítio da Ebay, na internet, apareceriam centenas de turmalinas, de todas a cores, formas e feitios, a preços de saldo, para quem quisesse comprar. Paga-se com um cartão de crédito e uma semana depois as pedras chegam pelo correio a minha casa em Portugal.

As turmalinas, uma pedra semi-preciosa, vinham quase todas de Moçambique.

Mas se eu quisesse comprar uma turmalina em Maputo, era quase como procurar uma agulha no palheiro. Simplesmente, não havia.

Esta situação não é única ao caso de Moçambique. Angola é dos maiores produtores do mundo em diamantes, mas quando eu (que vivi lá dois anos) uma vez perguntei onde é que se podia comprar (legalmente) um diamante angolano, basicamente não havia a não ser meia dúzia de obras no duty free do aeroporto de Luanda, a preços mais caros que em Nova Iorque.

Talvez comece a fazer sentido de facto impor alguma ordem neste sector e fazer com que ele traga divisas e algum prestígio ao país.

GRANDES DISCURSOS DA HISTÓRIA

por ABM (Alcoentre, 19 de Fevereiro de 2010)

O “Prémio Maschamba 2010″ para os melhores excertos de discursos feitos por grandes líderes mundiais nos últimos 50 anos vai para o último discurso.


JOHN FITZGERALD KENNEDY, 27 de Janeiro de 1961

(dirigido aos jornalistas e à imprensa em Washington. Kennedy foi assassinado em 22 de Novembro de 1963)


RICHARD MILHOUSE NIXON, 17 de Novembro de 1973

(defendendo-se em relação ao escândalo de Watergate. Nixon demitiu-se da presidência dos EUA em 9 de Agosto de 1974)

BILL CLINTON, 26 de Janeiro de 1998

(defendendo-se de acusações de que teria tido relações sexuais na Casa Branca com uma jovem de 25 anos, Monica Lewinski. Apesar do desgaste, concluiu o segundo mandato)

JOSÉ SÓCRATES, 18 de Fevereiro de 2010

(defendendo-se de persistentes indícios, baseados em gravações captadas pela polícia, de que engendrou uma conspiração contra meios de comunicação social portugueses para eliminar opiniões contrárias às suas)

NAÇÃO DA VALENTE E IMORTAL CUNHA



por ABM (Cascais, 17 de Fevereiro de 2010)

Para o exmo. leitor que quer ver em que é que os portugueses são mesmo mesmo (mesmo mesmo) muito bons, o semanário Economist de ontem tem um rebuçado para si.

Olhe para o quadro em cima, preparado a partir de dados compilados e trabalhados pela OCDE, com base em dados para 2005, e preste atenção.

A barra azul mostra a (maior probabilidade) que o filho de um pai com uma educação superior tem de, ele também, obter uma educação superior, comparado com as mesmas probabilidades do filho de um pai que não tenha uma educação superior.

A barra amarela mostra a probabilidade (independentemente da educação) que o filho de um pai com educação superior tem de assegurar um emprego com um salário mais elevado, comparado com as mesmas probabilidades no caso do filho de um pai que não tenha uma educação superior.

Conclusão? cito um leitor da revista que viu o mesmo quadro: “o Reino Unido e Portugal são nepotismos oligárquicos onde uma pessoa nem sequer precisa da fachada de um grau académico [...] para arranjar um emprego confortável e bem pago”.

E o meu remate: “porque tem um papázinho muito bem educado e muito bem conectado que ajuda a arranjar um empregozinho bom para o filho, independentemente de o filho ser ter uma educação universitária ou não”.

Regra geral isso chamamos em Portugal uma “cunha”, neste caso intergerações.

No que os portugueses são os campeões nesta lista de países.

THE RAIN IN SPAIN

por ABM (Cascais, 17 de Fevereiro de 2010)

A genial Audrey Hepburn enganou-se ao cantar que the rain in Spain stays mainly in the plain. A canção é engraçada e na (maior parte da) verdade. Mas a chuva em Espanha também escorre quase sempre para Portugal.

E política e economicamente, sempre foi e cada vez mais é assim. Foi por isso que, por curiosidade, para tentar estabelecer um contraste com o que se passa em Portugal e também para entender a dinâmica da interdependência entre as economias espanhola e portuguesa, fui ler um pouco sobre o que lá se passa.

Os paralelos são evidentes. Mercê de um lastimável atentado terrorista por uns talibãs marroquinos em 2003 (os exmos leitores devem-se recordar disso), ocorrido escassos dias antes duma eleição parlamentar, os eleitores espanhóis votaram para o poder o actual primeiro ministro, o alto e pouco sorridente José Luiz Zapatero. Que é socialista e em vários aspectos uma espécie de versão local de José Sócrates, menos umas minudências como esta entre Sócrates e a imprensa.

Em 2003, recorde-se, Sócrates era pouco mais que ninguém fora do PS. Mas uma série de trambolhões imprevisíveis na política portuguesa criaram-lhe a oportunidade de ser primeiro-ministro. Ferro Rodrigues, o então secretário Geral do PS, deu-lhe uma dor de cabeça por causa da história da Casa Pia e saiu; Durão Barroso recebeu um convite para ser presidente da Comissão Europeia e saíu; Santana Lopes levou com a “bomba atómica” de José Sampaio e eis que, após uma eleição, surgiu a Era do Socialismo Socratiano.

A memória é curta. Pouca gente hoje se recorda que os primeiros anos de Sócrates foram dedicados a – supostamente – controlar o “monstro” que erra o défice público. Desde que Cavaco Silva tinha saído do poder em 1995, as finanças públicas portuguesas estavam a degradar-se à medida que as transferências da União Europeia secavam mas ermaneciam todos os vícios inerentes.

Estrutralmente, quase nada mudou na economia excepto uma maior eficiência na colecta dos impostos pela mão de Paulo Macedo, um quadro do BCP pago a peso de ouro. Para contrariar os índices, não se cortou nas despesas: aumentaram-se as despesas e aumentaram-se muito mais os impostos em quase todas as áreas. Sócrates tentou, em nome de uma série de profssões de fé socialistas, fazer tudo: reformas contra os lobbies da praxe, obras públicas à fartazana, ajuda aos pobres, manutenção do “estado social”, e os programas com nomes sonantes que eram a marca desta era, desde o Magalhães até ao Rendimento Mínimo Garantido. A economia portuguesa continuou estagnada.

Em Espanha a história era algo diferente. Nos anos 90, Aznar, que era um bocadinho mais de direita, criou um gigantesco boom económico que assentou na especulação imobiliária, apoiado pela enorme baixa nas taxas de juro resultantes da adesão daquele país ao euro. Quando eleito em 2003, Zapatero fez um pouco como Sócrates: deixou tudo mais ou menos na mesma, aumentou os impostos, aumentou as despesas sociais e proclamou que o Socialismo era mais justo e mais Humano. A economia espanhola crescia mais robustamente, mas já se viam as rachas no verniz.

Ambos países sofrem de males crónicos e dramáticos: têm excessiva rigidez nas leis laborais e empresariais, têm populações excessivamente envelhecidas, têm aquele pequeno problema de importarem sempre muito mais do que exportam. Têm burocracias irredutíveis.

A Espanha é importante para Portugal pois é o principal exportador de bens e serviços para Portugal, é o principal importador de bens e serviços portugueses e é dos principais investidores em Portugal. Não foi surpresa quando, logo após eleito, e meteram um microfone à frente de Sócrates, ele só soube dizer “Espanha, Espanha, Espanha”.

E ficou por ali, ficou por ali, ficou por ali.

Em fins de Setembro de 2008, na sequência de uma preocupante subida no preço dos combustíveis, seguida pela falência do Lehman Brothers e o quase colapso dos mercados financeiros internacionais, quase todos os países se ressentiram. O pânico fazia-se sentir nas ruas, nas empresas e em casa das pessoas.

Em ambos os países, liderados por forças socialistas, a reacção foi de suster o pânico nos mercados financeiros locais inundando o sistema com milhares de milhões de euros em liquidez e manter e expandir o nível de apoios sociais, na face de um brusco declínio na actividade macroeconómica. Nisso copiaram os ingleses e os americanos, que mostraram o caminho.

Mesmo assim, o embate foi terrível. Rapidamente, a taxa de desemprego subiu para 10% em Portugal e 19% em Espanha. A actividade económica caiu bruscamente bem como as exportações. Em Portugal, o BPP e o BPN basicamente faliram, custando milhares de milhões de euros aos contribuintes (a contabilidade ainda não está feita). O défice do orçamento em 2009 em Portugal é estimado em 9.5% e em Espanha 11.4% do PIB, sem fim à vista. No caso espanhol, a “bolha” de especulação imobiliária (iniciada por Aznar em 1998) estoirou estrondosamente e os seus efeitos ainda não se fizeram sentir em toda a economia, se bem que o que já se sentiu já teve um efeito arrasador.

Numa Europa enfastiada, surgiu o espectro dos PIGS (abreviatura para Portugal, Italy, Spain and Greece) a afundarem-se e a ameaçarem afundar o experimento europeu com eles. A Grécia, com o problema fiscal mais grave, já está a braços com a necessidade imediata de fazer alguma coisa para equilibrar as suas contas. A Irlanda, igualmente afectada, tomou medidas radicais: cortes imediatos em todos os sectores, começando pelos gastos públicos, o que incluiu os sálários dos funcionários governamentais até ai mais alto nível. A pequena Islândia faliu.

Em Portugal, as informações já publicadas em termos do orçamento aprovado este ano indicam que nada se vai fazer de especial. Prevê-se aumentos significativos nos impostos nos próximos 18 meses e um aumento na tensão social, pois todos vão querer comer e não há pão para todos.

No contexto de nada se fazer de significativo na frente doméstica, e aparte da resolução do enorme buraco fiscal, obviamente, a recuperação da economia portuguesa só poderá assentar em mais exportações, em menos importações, em mais investimento estrangeiro em Portugal e, domesticamente, no corte das despesas públicas.

Só que o principal parceiro para que tal supostamente suceda, continua a ser a Espanha, que tem quase exactamente os mesmos problemas que Portugal.

Portanto, por força das circunstâncias, nos próximos um a dois anos iremos ter a oportunidade de aferir os verdadeiros limites dos paradigmas “socialista” ou “capitalista” dos ibéricos: mais governo e mais impostos, ou mais mercado e mais desregulamentação?

VAMOS LÁ SER TUGAS À FORÇA

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por ABM (Cascais, 16 de Fevereiro de 2010)

Gostava de explicar aos exmos leitores que geralmente não gosto de ouvir música no rádio. Tirando as estações de música clássica, desde sempre. Tolero o ocasional devaneio musical mas muito pouco, O que gosto de ouvir na rádio é gente a falar: jornalistas, entrevistados, comentadores, escritores, pessoas que telefonam, debates, etc.

Nos Estados Unidos existe um formato de estação de rádio para isto: chama-se talk radio. Dão notícias, entrevistas, programas em que as pessoas telefonam, programa da manhã com notícias e anedotas para quem está a ir no carro para o emprego, a mesma coisa quando estão a regressar a casa, programas para depois do jantar, conversas a meio da noite. Hoje pouca gente sabe que o Sr. Larry King, que mundialmente é conhecido por fazer entrevistas de meia hora ou uma hora na CNN, tornou-se conhecido nos EUA porque durante anos e anos e anos ele fazia todas as noites da semana, com repetição do melhor programa no sábado à noite, numa cadeia de estações chamada Mutual Broadcasting Network, da meia noite e seis minutos até às cinco da manhã um programa ao vivo. Eram magníficos e muito, muito maus, para o meu sono. Só anos mais tarde é que ele passou para a televisão com a CNN.

Em Portugal, só a estação TSF se aproxima vagamente desse formato (e por isso a escuto mais que as outras todas juntas) e mesmo assim, tirando raras excepções, não é uma estação de talk radio. Nem sequer de notícias é: quando houve um tremor de terra de 6.0 na escala Richter há umas semanas no continente português, eles continuaram a transmitir música gravada como se nada se tivesse passado até ao cimo da hora, quase meia hora depois do safanão. E quando dão notícias, repetem a mesma lenga-lenga ad aeternum, que deve ser para os que tinham os ouvidos entupidos há cinco minutos atrás. As entrevistas são pouquíssimas para o que podiam fazer e demasiado curtas.

Mas o que me irrita mais é que passam música. E com que critérios não sei. Tanto se lhes dá para uma balada dum roqueiro qualquer, como uma salsada moderna que eu não conheço e que, sinceramente, pagaria para não ouvir. Quando começa aquela mistórdia musical sem eira nem beira, tenho o problema adicional que é que o meu velho e delapidado carro tem um rádio que não muda de estação facilmente. Tenho que andar aos murros nos teclados até me aparecer outra estação, e em geral as escolhas são de fugir. Outro dia apanhei umas beatas a rezar o terço vez após vez na Rádio Renascença.

O que me surpreende (e já volto à música). Qualquer vertebrado pensante já se deve ter apercebido do que aconteceu ao mundo nos últimos dez anos. Toda a gente praticamente tem acesso quase gratuito exactamente, precisamente, aos tipos de música que gosta de ouvir. Poder gravá-la via computador ou por uma variedade de meios, e estar uma vida a ouvir Amália, o Frank, o Puccini ou lá o que quiserem é uma banalidade da vida actual. As audiências fragmentaram-se e portanto quem continua a apostar em programação generalista está a dar – na minha humilde opinião – tiros para o ar.  A vantagem de uma talk radio é que é barata, tragável se bem gerida e eu acho que muita gente havia de gostar de ouvir programas interessantes.

E note-se – surpresa – é em português. Feita por portugueses. Como este blogue.

Claro que há uma coisa que em Portugal não funcionaria – e eu suspeito que é por isso que verdadeiramente não há talk radio em Portugal. É que para se ter bom talk radio tem que haver lá gente com cor e com cabeça. E em Portugal regra geral quem tem cor não tem cabeça, e quem tem cabeça não tem cor (nenhuma). É qualquer coisa étnico-cultural daqui. E  em Portugal quase todos vivem para pretender que têm cabeça, mesmo que não tenham. Por exemplo, nunca vi país na terra com mais carros pretos, cinzentos escuros e azuis escuros como este.  Se se for a um centro comercial num domingo numa tarde de inverno, presume-se que todos vieram de um funeral, quer pela cor sorumbática da roupa, quer pela atitude sério-sorumbática das multidões. O português não consegue rir para quem não conhece à sua volta. Deve ter medo que lhe levem os dentes.

Pior ainda, nenhum meio de comunicação social em Portugal regra geral aposta em “personalidades” – a não ser que sejam cómicos gays (na base de que é impossível serem levados a sério) pois que essas são para matar na primeira oportunidade.

A verdade é que, para se ser personalidade, um requisito básico é que tem que se a ter. E tê-la, neste país, significa que, mais cedo ou mais tarde, tem que se dizer esta ou aquela verdadinha que vai infalivelmente seriously piss off o sôr ministro ou o rei da batata frita, que telefona ao patrão da estação a insultar o gajo ou então, como agora está na moda, telefona a uma qualquer holding chamada  Going On, que compra a estação (como faz o patego estúpido do anúncio do Euromilhões) e mete lá um mentecapto a fazer relatos de touradas. Como os portugueses individualmente são seres humanos sublimes mas no agregado são um fenómeno keynesiano de estupidez colectiva induzida exponencial, comem, comem e calam.

Aliás, regra geral o consumidor e o cidadão aqui quase sempre come e cala. Com tudo. Os professores são incompetentes? come e cala. O supermercado vende batatas que apodrecem em dois dias? nimguém vai andar de carro 20 minutos em bichas até ao supermercado fazer o gerente comer as batatas que vendeu. O médico não parece saber o que faz? paga-se e não se bufa. O défice este ano vai estoirar? para o ano há-de ser melhor, alguém que resolva. O vizinho do lado não paga as cotas do condomínio há três anos e comprou um carro novo há dois meses? não esquecer de fazer sempre aquele estranho (e unicamente português) cumprimento simpático mudo à saída no corredor a dizer “olá!” mas que na realidade significa “ó meu grandessíssimo filho da puta como estás tu?”

Por tudo isso, frequentemente sinto que, como os meus concidadãos, o colectivo português vive um quotidiano de entrelinhas acinzentadas, sempre resguardado, sempre à espera da próxima catanada, da próxima sacanice, ou da próxima oportunidade de obter algo em troca de nada, sendo a base da felicidade quando não se leva com ela mais vezes do que é normal, ou quando se constata que os outros (e os outros são todos os outros menos os “amigos”) estão pior que nós. Sendo que o normal é levar com as desgraças em cima. Aí, tem-se pena.

Ah, adoro estas generalizações. É tudo mentira, não é? ok.

E nesta questão da desgraça, o país tornou-se num esquema de pirâmide: a sujeira estes dias democratizou-se, vai do mais baixo ao mais alto nível da sociedade.

Voltando ao rádio, o tema que gostava de fechar aqui. De há uns meses para cá, nas vezes quando me deu para escutar a tal de TSF, comecei a reparar em três coisas.

A primeira, foi que começaram a passar música portuguesa com uma frequência suspeita. Ao princípio pensei que se tinham enganado, que tinham posto a senhora da limpeza a tomar conta da estação, ou que tinham ficado estúpidos e não tinham reparado no ecletismo das suas audiências. Em Alcoentre toda a gente sabe que o que vende é música pimba, fados e a as canções da Ágata a chorar o milésimo desgosto de amor sobre o homem da vida dela que (para variar) se pirou pela vigésima vez com a empregada ucraniana. Em Cascais e Lisboa já não é bem assim. Ainda por cima, as músicas que tocam, que são medíocres quase sem excepção, são de gente que não conheço, cujo estilo não gosto e cujas mensagens nada me dizem.

A segunda coisa que reparei, e que me deixou ainda mais apreensivo, foi que, mesmo quando mudava de estação, acontecia o mesmo, ou seja, levava com uma espécie de música pimba de vanguarda, e habitualmente a mesma que estava a dar na TSF.

A terceira, e de longe a mais desconcertante, foi quando me apercebi que, juntamente com a música pimba de vanguarda portuguesa, começaram a juntar-lhe a mesma gente, mas desta vez ou a tocar em ou em inglês, ou ainda mais surpreendemente, começaram a passar músicas americanas e inglesas, tocadas em inglês, mas por portugueses (!).

Não sei como explicar ao exmo leitor o que é ouvir o these boots are made for walking (a grande canção de Nancy Sinatra, sff de ver em cima) cantados vinte vezes na TSF, pela actriz Maria de Medeiros, irmã da agora deputada socialista residente em Paris e que vem a Lisboa de vez em quando receber o taco e atender as sessões do parlamento. Ou as baladas britânicas do jovem David Fonseca, simpático e esforçado mas para mim uma versão cultural do que é o milho transgénico para a alimentação.

Pois só a noite passada é que esclareci este mistério. Afinal eu não estava a alucinar. É que os poderes constituídos aqui do burgo, em 2006, passaram uma lei qualquer a obrigar as estações de rádio portuguesa a passar 25 a 40 por cento da música que vai para o ar por….. leia-se (decalco de uma peça da RTP):

A lei da Rádio determina que as rádios estão sujeitas ao cumprimento de quotas no que respeita à programação de música portuguesa, que uma portaria de Abril de 2007 fixou em 25 por cento.

O cálculo das percentagens é apurado mensalmente e tem como base o número de composições difundidas por serviço de programas no mês anterior.

A lei estabelece ainda que 60% da emissão de música nacional deve ser preenchida por música composta ou interpretada em língua portuguesa por cidadãos dos Estados membros da União Europeia.

A lei prevê o pagamento de coimas entre os 3 e os 15 mil euros para as estações locais e entre 30 e 50 mil euros nas estações nacionais.

Quando eu vivia fora de Portugal, achava alguma piada e respeitava o facto de que as estações que emitiam para as comunidades portuguesas, quase só passavam fados, música pimba e aqueles clássicos do tempo da Maria Cachucha. Pois era aquilo ou o vasto mar estrangeiro que nos rodeava. Agora, que se tenha importado o costume e que se tenha dele feito lei em Portugal é que foi novidade. Ou seja, em vez dos artistas daqui competirem honestamente pelo privilégio de me tentarem impingir a sua arte, o governo da república socialista portuguesa espeta-nos como uma espécie de IVA cultural em cima e somos obrigados a comer o que nos servem.

Mas como gente como eu não aguenta aquilo, e usando as regras impostas, inventou a música estrangeira, cantada em língua inglesa, por portugueses.

Já não bastava a porcaria do acordo ortográfico e os subsídios aos famosos filmes nacionais que rigorosamente ninguém vê. Esta liberdade socratiana está-se a revelar um verdadeiro assombro cultural.

Felizmente, há a minha teimosia em fazer o que me apetece e a tecnologia. Imitei o que qualquer teenager português hoje faz sem sequer pensar. Por cinco euros e 99 cêntimos, recentemente comprei uma espécie duma cassete com um fiozinho, que liga o meu velho rádio a um aparelhinho que cá se chama um MP3 (mas que na realidade é um MP4), onde gravei na internet não sei quantos gigabytes de: Sinatra, Nat King Cole, Chico Buarque, Óscar Peterson, Walter Wonderley, The Beatles, Mozart, etc etc etc. Até lá tenho o Poker Face da Lady Gágá.

E agora, quando acabam as notícias da TSF no meu carro, a programação passou a ser a minha. Em casa, pela internet e o computador, oiço a LM Radio a partir de Maputo.

Isto antes que eu comece a ouvir a Maria de Medeiros a arranhar o My Way do Frank numa estação portuguesa.

Bie, bie, TSF.

CITAÇÃO DE MARCUS TULLIUS CICERO

por ABM (Cascais, 16 de Fevereiro de 2010)

A POLANA E O HOTEL POLANA

Construções na praia da Polana há cem anos. Ao fundo a colina da Ponta Vermelha. Note-se que a actual marginal foi roubada às colinas e que naquela altura não era possível vir da baixa para a praia da Polana a não ser a pé pela praia ou, mais tarde, pela Estrada do Caracol e pelo eléctrico que descia uma rampa atrás do Clube Naval que hoje creio que está fechada.

por ABM (Cascais, 15 de Fevereiro de 2010)

Na noite em que o Senador JPT nos brindou com a periclitâncias do termo machimbombo, eu coloquei uma outra questão: e de onde veio o nome “Polana”?

Sendo que eu nasci, cresci e vivi na Polana (bem, no dia em que nasci meus pais estavam acampados no aquartelamento de Boane, onde o pai BM era um tenente miliciano. Mas a mãe BM tinha vindo à cidade ver o filme Casablanca com uma amiga e já não foi para o cinema, foi directa para o Hospital Miguel Bombarda onde nasci às 20 horas de 30 de Janeiro de 1960).

Primeiro, um ponto de ordem. Antes da independência, aquilo a que se chamava Polana era uma área geográfica muito específica da cidade, circunscrita (e escrevo isto de cabeça) a Norte pelo Hotel Polana e pela chamada Carreira de Tiro (ainda hoje há uma farmácia com esse nome, é para aí), a nascente pelas barreiras e a Rua Friedrich Engels (acho antigamente se chamava a Rua dos Duques de Connaught mas não tenho a certeza, é aquela onde fica o Miradouro), a Sul pela Ponta Vermelha (que era literalmente uma língua de terra, do Palácio até às barreiras) e a Poente pela Maxaquene, que era mais ou menos na rua onde fica a Pastelaria Princesa.

Hoje não percebo nada. Fala-se em Polana Cimento, em Polana Caniço, não entendo muito bem a razão para o realinhamento dos bairros mas também não interessa.

O importante é que o nome está lá há muitios anos.

Mas então, de onde vem?

“Polana” não é um termo ou um nome português. Nem é referenciado em parte nenhuma na história dos portugueses.

Uma consulta na internet indica que em polaco, “polana” é o nome dado a uma clareira numa floresta – sendo que “polanski” é o nome de alguém que vive nessa clareira. Em grego, supostamente, deriva de Apollina, nome feminino do nome de (por exemplo) o deus grego Apollo, significando “sol”.

Mas poderá ser um nome africano? mais precisamente, houve um régulo chamado Polana? Numa peça publicada pelo inolvidável João Craveirinha sobre Maputo (na qual conclui que a capital de Moçambique devia ser mudada para o centro do país), o sobrinho do Sr. José Craveirinha a certa altura escreveu o seguinte:

O mesmo Lobato fazia alusão às invasões vindas do norte, dos grandes Lagos, foz do rio Nilo Branco, de que nos falaria outro grande historiador de Moçambique, Caetano Montez quando referia que: “(…) a gente do Tembe foi invasora como também o foi a de Mpfumo (…) Maputo é um ramo da dinastia do Tembe: Matola é um ramo da dinastia de Mpfumo (…)” Caetano Montez, ainda na sua obra “Os Indígenas de Moçambique”, diz (…) A casa da Matola (Matsolo) provinha de In-lha-rúti (Mpfumo), o invasor das terras da margem norte da baía, vindo com a sua gente de Psatine (Suazilândia). Seus filhos Mpfumo, Polana, Massinga e nuá-Intiuane repartiram as terras como vassalos do pai. Nuá-Intiuane (deu Tivane) ficou com as que denominariam Matola.

Segundo estas indicações, é então plausível que os terrenos onde dantes se situava a “velha” Polana, poderão ter pertencido ao tal Polana, filho do tal invasor que que veio da Suazilândia não se sabe bem quando. Mas então, cadê do Sr. Polana? Haverá registos de transacções imobiliárias dessa altura?

Na sua dissertação para o grau de Doutora pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1979, Maria Clara Mendes a certa altura refere a compra, em 1914, pelo Estado, dos terrenos compreendidos entre “a Rua de Nevala, a praia da Polana e a Rua Bérrio, que compreendem actualmente a Polana e a Sommerschield”.

Num detalhado relato sobre a construção, concluída em 1922, do Hotel Polana, a que tive acesso, é de facto referida a aquisição dos terrenos onde o hotel hoje se situa ao Estado pela Delagoa Bay Lands Syndicate, a empresa que ganhou o contrato para a sua construção.

Só que, que eu saiba, o nome Polana não é nada comum nos grupos étnicos que entravam e saiam da região da Baía – nem me parece ser particularmente “suázi”. Mas apelo aos exmos leitores que saibam alguma coisa que ajudem a fechar este puzzle.

O HOTEL POLANA

Hotel Polana, imagem de um postal da época

Sobre este tema, não vou inventar a roda, pois, enterrado algures na Geocities há um excelente artigo de José Maria Mesquitela que, com profunda vénia, cujo texto transcrevo em baixo. De notar que este texto deve datar cerca dos anos 90, antes da concessão do Hotel Polana ter sido cedida à organização Aga Khan e o seu nome ter sido alterado para Polana Serena Hotel (e lamentávelmente, o edifício pela primeira vez ter sido pintado de creme em vez do habitual branco).

O texto:

“A construção de um grande e luxuoso hotel para servir o turismo rico foi ideia que nasceu cerca de 1917 em Lourenço Marques.Como todas as iniciativas audaciosas, teve defensores e detractores. Havia altos interesses em jogo.

Longa fora a jornada, primeiro que a ideia se concretizasse e ao fazer a história do empreendimento de forma alguma se pode esquecer o nome do coronel Alexandre Lopes Galvão que por ela se bateu. Ele próprio se referiria mais tarde, a esses tempos difíceis, em carta de 26 de dezembro de 1950, que escreveu a um amigo de Lourenço Marques :

…” Chego a Lourenço Marques em 1917, verifiquei que não havia ainda um hotel para receber ´pessoas de categoria, que nos visitavam. Passei a fazer parte do Conselho de turismo, onde pontificava o comandante Augusto Cardoso, dono do Cardoso Hotel.

De variadíssimas inssistências para que o Conselho tratasse de arranjar para Lourenço Marques um hotel decente, cheguei à conclusão que o assunto não interessava ao Conselho.

Apareceu-me nessa altura Adriano Maia, que me disse que os seus amigos do Transvaal estavam dispostos a fazer um grande hotel em Lourenço Marques, em determinadas condições. Ouvi-o, ouvi as condições, que me pareceram aceitáveis e levei o caso ao conhecimento do Massano de Amorim. Este achou bem e autorizou-me a negociar.

O Comandante Cardoso, ouvindo falar do caso, foi para o Conselho de Turismo, e diz: Ouvi dizer que há negociações para se fazer um hotel. E, olhando para mim, acrescentou: Alguém sabe dizer alguma coisa do que se passa? Resposta minha: Eu sei, mas não estou autorizado a dizê-lo. Mas como o Conselho despacha directamente com o Governador-Geral, é-lhe fácil saber o que há.

Na noite desse dia recebo no Hotel Cardoso uma carta do Comandante Cardoso dizendo cobras e Lagartos ! e cortando as relações comigo.

Mostrei a carta ao Mariano Machado e este pediu-me autorização para ir falar no assunto ao Comandante. E foi. Vem com a resposta de que jamais reataria relações comigo.

Levadas as negociações a bom termo, os capitalistas foram a Lourenço Marques e o Inspector Góis Pinto foi autorizado a lavrar o contrato.

O Comandante Cardoso perde a cabeça e faz um manifesto patriótico ap povo de Lourenço Marques, assinado por ele e pelo arrendatário Luís Boschian, Italiano.

O Massano, nessa altura, foi para o Norte da Colónia e ao chegar a Inhambane recebe um telegrama assinado pelo comandante Cardoso e creio que pelo Boscgian, protestando contra a construção do hotel. O Chefe de gabinete foi quem lhe deu conhecimento e o Massano de Amorim disse-lhe: “responda-lhe dizendo que vá ver da…”

Em resumo: se Lourenço Marques passou a ter um belo hotel, inaugurado em Março de 1922, a mim o deve.

Ficou a representar os capitalistas o velho Leão Cohen. Eu estava na África do Sul, nessa ocasião, onde tinha ido com Freire de andrade na Missão Diplomática que havia de negociar uma nova convenção. Pois ninguém se lembrou de me convidar para a inauguração, que se fez com um certo aparato. E nem ao menos o meu nome foi lembrado nos discursos laudatórios, então pronunciados.”

Alexandre Lopes Galvão

Em outubro de 1918, foi aberto um concurso pela Delagoa Bay Lands Syndicate , apresentado pelos Senhores A.W.Reid & Delbridge, arquitectos de Johannesburg e Cidade do Cabo, para a construção do Hotel Polana, ao qual concorreram sete firmas construtoras, das quais, apenas uma era Portuguesa, conforme abaixo:

- Hill Mictchelson, de Johannesburg, classificado em segundo lugar.

- Ferreira da Costa, de Lourenço Marques

- Philip Treeby, de Johannesburg

- Herbert Baker & amp; Fleming, de Johannesburg

- H.W.Spicer, de Johannesburg

- R.L.McCowat, de Johannesburg

Os planos foram postos em exposição no Conselho de Turismo, e aprovada pelo Governo a construção do novo Hotel na Polana pela Delagoa Bay Lands Syndicate, por ser a proposta mais barata apresentada. Ficou o compromisso que o Hotel seria construido em 19 meses. Os proprietários do hotel instalarão uma planta para fornecimento de luz elétrica e um frigorífico.Com isto, com mobília, ascensor para a Polana, e direitos, etc, o custo total do Hotel ficou estimado em 200 000 Libras.

O Governo garantiu ao Sindicato 6% anuais sobre o capital empregado durante dez anos, assim como garante algumas concessões.

Projecto de um arquitecto famoso

O projecto desse hotel em estilo “Palace” foi de autoria de um não menos famoso arquitecto inglês, Sir Herbert Baker, autor do projecto do majestoso edificio da “Union Buildings”, em Pretória. A sua construção foi dirigida pelo engenheiro Hugh Le May.

Inauguração

Iniciada a sua construção, devido à iniciativa do Coronel Lopes Galvão, que foi sem dúvida alguma a alma deste notável empreendimento turístico e que no governador-geral, general Massano de Amorim, encontrara sólido apoio, o Hotel Polana inaugurou-se no dia 1 de Julho de 1922.

Foi um acontecimento de grande relevo na vida da cidade. A assinalar a data, a Delagoa Bay Lands Syndicate, que se fez representar por Leão Cohen, ofereceu nesse dia um almoço solene.

Na mesa em U armada na elegante sala de jantar do Hotel Polana, sentaram-se 131 convidados. Na presidência, à cabeceira da mesa, Leão Cohen, dava a direita ao Alto Comissário, Dr. Brito Camacho, ao cônsul de Sua Majestade Britânica, Hall , e ao secretário-geral, Dr Mário Malheiros. À sua esquerda sentavam-se o inspector das Obras públicas, Eng. Monteiro de Macedo, o cônsul da França, G.Savoye, o chefe do Estado-Maior, coronel Santana Cabrita e o cônsul dos Estados Unidos, Hazeltine.

A construção acabou beirando o valor de 300.000 Libras, mas foi considerado na época uma das construções mais perfeitas e modernas e sem rival nos portos do Sul, havendo muito poucos hotéis na Europa semelhantes.

Ele tinha vida própria para a sua laboração: máquinas geradoras de electricidade e aquecimento, Frigorífico, Lavandaria eléctica, Fábrica de sodas, Telefones e água quente em todos os quartos, e para tudo ser completo, estava programado para questão de dias um serviço permanente de correios e telégrafos, permitindo assim aos seus visitantes expedir cartas, telegramas, radiogramas e até encomendas postais para todas as terras e navegação.

A inauguração do Hotel, também mexeu significativamente no movimento da cidade, pois um mês e meio depois da inauguração, os carros elétricos começaram a transitar até ao bairro da polana, com uma paragem obrigatória no Hotel.

Na área externa do hotel, tinha um lindo campo de golfe , quadras de ténis e jardim que o embelezavam.

Assumiu a gerência do hotel, o Sr. Kershaw, auxiliado por sua esposa.

O hotel deu ênfase ainda ao turismo na cidade de Lourenço Marques, que assim passava a contar com um ponto de super luxo, e delegações de vários paises, tais como a própria África do sul e países vizinhos, ou de Italianos e até Brasileiros que começaram a ser trabalhadas as excursões a Moçambique.

O Hotel muda de mãos

Em junho de 1936 o hotel mudou de mãos pela primeira vez. Tendo a Delagoa Bay Lands Syndicate posto o imóvel à venda, a oportunidade foi aproveitada pelo milionário I.W.Schlesinger, que o adquiriu pela importância de 400.000 Libras. Pouco depois a empresa foi registada sob a designação de “Polana Hotel, Lda”, sociedade com o capital de um milhão de libras.

Tempos passados, a African Consolidated Investments Corporation, uma das muitas organizações de Schlesinger, passou a ser a maior accionista da empresa exploradora do hotel, que pouco depois passou para a African Caterers, também importante organização do grupo de companhias Schlesinger.

No periodo que precedeu a II Guerra Mundial conheceu anos de prosperidade, projectanto-se internacionalmente nos mapas turísticos como um dos mais importantes de toda a Àfrica, depois de Cairo e do Carlton, de Johannesburg.

Nos seus salões se realizou o banquete de gala que as Forças Vivas de Moçambique ofereceram em honra do presidente da República Portuguesa, Marechal António Óscar de Fragoso Carmona, o primeiro Chefe de Estado que visitou oficialmente Moçambique, em 1939.

Durante a II Guerra

Quando a 1 de setembro de 1939, com a invasão da Polónia pelo exercito alemão, rebentou a II Grande Guerra, ao Hotel Polana, pela sua privilegiada situação de hotel de luxo e ponto de reunião da nata da sociedade lourenço-marquina, coube desempenhar, pela força das circunstâncias, outro curioso papel: o de centro elegante de espionagem e de intriga Internacional.

Durante a II Guerra, o Hotel Polana gozou de reputação internacional porque, tendo Portugal proclamado a neutralidade, os agentes secretos tanto dos Aliados como das potências do Eixo (Alemanha e Itália) Puderam ali dedicar-se com certo à-vontade a práticas de espionagem e de contra-espionagem. Os espiões dos dois lados, passaram naturalmente a servir-se desse luxuoso hotel de uma cidade portuária para campo de sua acção.

Assim, agentes secretos Sul-Africanos, Ingleses, Americanos, alemães e Italianos, cumprimentavam-se cerimoniosamente quando se cruzavam nos seus longos corredores, nos seus salões ou no “Bar”.

Um dos agentes mais notáveis que por ali passou foi o tenente-coronel J. Stevenson-Hamilton, então fiscal de caça do Kruger Park. Em suas memórias, descreve a missão mais agradável, quando teve que se infiltrar em Lourenço Marques, instalado no Hotel Polana, quando descobriu que, em principio de Junho de 1940, quando correu um boato que os Alemães haviam invadido e tomado Lourenço Marques e se preparavam para invadir a África do Sul via Komatipoort, que se tratava de um boato propositadamente implantado por agentes alemães que operavam em Lourenço Marques, numa rede de espionagem bastante eficiente. possuiam emissoras clandestinas que mantinham os submarinos nazis que operavam no Canal de Moçambique bem informados dos movimentos dos navios aliados no porto de Lourenço Marques.

O chefe dos espiões era um importante membro da Gestapo. O “Quartel-General “era o Hotel Polana.

O Hotel na mão dos Portugueses

Em 1963, John Schlesinger, filho e herdeiro do milionário que havia adquirido em 1936 o famoso estabelecimento hoteleiro, vendeu-o a uma empresa onde os capitais Portugueses eram solidamente presentes, entre eles um dos dos acionistas era o Eng. Manuel Arouzo, que foi o braço forte do Hotel durante anos, até que um problema com o seu procurador o fez sair da sociedade.

Nesta fase foi ampliado e construída a sua piscina tão tradicional e ainda um novo anexo, o Polana-Mar, que assim atendia à demanda que cada vez mais se avolumava

O Hotel manteve o seu glamour, sempre foi frequentado pela nata da Sociedade Lourenço-Marquina, assim como por todos os turistas de peso que visitavam constantemente Lourenço Marques.

O Hotel Polana confundia sua Imagem com a da Capital de Moçambique.

O Hotel e a Independência

Com a Independência de Moçambique, após 1975, o Hotel entrou em declínio,por falta de clientes e pela degradação pela óbvia falta de pessoal e respectiva manutenção, permanecendo durante 20 anos praticamente abandonado.

Em 1994, um grupo Sul-Africano adquire o Hotel, remontando às suas origens de fundação, e com as melhoras que já sinalizava Moçambique, deu continuidade ao seu estatuto de um dos melhores hotéis de cinco estrelas do continente africano. Desde o hall, revestido a mármore, aos jardins generosos em estrelícias e coqueiros, nada é deixado ao acaso neste escaninho luxuoso, que se prepara para nova reestruturação. Curiosamente, não é apenas procurado por viajantes exigentes, mas também pelos próprios maputenses, devido à cozinha requintada e à pastelaria – o chá com scones e o cozido ao domingo são dois clássicos –, à piscina – a mais cobiçada de Maputo – e até ao ginásio. É ainda um dos lugares da cidade que são frequentados para ver e ser visto.

A IPE -Investimentos e Participações Empresariais está, em parceria com o Grupo Pestana, a negociar a compra do Hotel Polana. O grupo que detém a maioria do capital do prestigiado Hotel Moçambicano encontra-se com sérias dificuldades financeiras e pretende vender a sua participação. Caso o negócio se concretize, o Grupo Hoteleiro Português, que tem já vários empreendimentos turísticos em Moçambique, será responsável pela gestão e o controlo do Hotel Polana.

A holding do Estado português tem cerca de 1,6 milhões de contos investidos em Moçambique, nomeadamente nos sectores agro-industrial, ambiente, financeiro e em infra-estruturas industriais. Caso a co-aquisição do Polana venha a concretizar-se, o investimento do IPE deverá subir para cerca de 2,4 milhões de contos.”

E aqui está mais uma “maschambada”.

O MASCHAMBA ESTAVA LÁ HOJE

Aspecto de uma das t-shirts exibidas na manifestação em frente à Assembleia da República

por ABM no texto e MVF nas fotos (São Bento, Lisboa, 11 de Fevereiro de 2010)

Pelo menos cinco Maschambeiros compareceram ao princípio da tarde para participar na manifestação, para que foram convocados os signatários de um grupo onde já pontificam cerca de vinte mil nomes, em sinal de preocupação com as alegadas esforços de violação ao direito à liberdade de expressão.

ABM, Pedro S, Jaime S, Marta R e Miguel VF aproveitaram o lindo sol (o astro, não o jornal) que se fazia sentir à hora de almoço para se juntarem aos cerca de cem manifestantes e um número considerável de profissionais da comunicação social, para criarem o que foi um evento algo mediático, dado não só o tópico, mas a tensão daquele momento, sendo que por essa hora já se sabia de uma decisão de um tribunal local de procurar impedir o Sol (o jornal, não o astro) de amanhã publicar uma segunda série de revelações relacionadas com supostos esforços do actual executivo de influenciar o que sai nas notícias em Portugal.

A decisão do tribunal foi solicitada por um administrador do Grupo PT com ligações ao PS, com vista a proteger o sigilo do conteúdo das conversas havidas em torno dos esforços do executivo de Sócrates de afectar o tratamento das notícias na estação de televisão da TVI. Recorde-se (já mencionado neste blogue) que desses esforços resultou a saída de José Eduardo Moniz e a extinção de um programa de notícias da responsabilidade da jornalista Manuela Moura Guedes, ambos ostensivamente hostis ao governo do dia e em particular ao PM.

O esforço, primariamente dos organizadores do grupo de apoiantes de Mário Crespo do Facebook, resultou, na medida em que os media reproduziram as preocupações expressas pelos presentes com a liberdade de expressão.

Houve algumas desinteligências na missão Maschambiana. Miguel VF não conhecia ninguém, que não o conhecia a ele (a nossa prezada initimidade é prezada mas é recente), Marta R veio sem avisar e estava do outro lado da manifestação, ABM, Pedro e Jaime enganaram nas horas e chegaram cedo uma hora, pelo que decidiram passar essa hora a comer rissóis e sandes de peixe espada com Coca Cola numa tasca boa e baratinha mais acima na rua de São Bento,  mesmo em frente à casa onde viveu Amália Rodrigues, e depois ficaram sentados mais ou menos à frente da Fundação Mário Soares, a banharem-se no sol (o astro) enquanto os manifestantes se iam congregando.

O aparato de carros-satélite de televisão e de polícia e de barreiras era quase caricato para um grupo eminentemente pacífico e erudito. A manifestação acabou por ser uma pacata conversa entre jornalistas, os líderes da pandilha e o ocasional político ou activista que produziu meia dúzia de sound e video bytes para as cadeias.

Por volta das 14 horas todos arrumaram as botas e foram para casa ou de volta para o trabalho.

Entretanto é meia-noite e o Sol está nas bancas com mais revelações.

As fotos:

A manifestante número 1 (foi a primeira a chegar)

A peitção do grupo em defesa da liberdade de expressão

Aspecto dos manifestantes em frente à Assembleia da República

Mais um aspecto da manifestação

Dentro da AR, o parlamento debatia e aprovava o orçamento de Estado para 2010, que foi aprovado e o tal que é suposto "baixar" o défice para 8.5%

As carrinhas das estações de televisão em frente ao edifício parlamentar (foto ABM)

As carrinhas das estações de televisão estavam em peso em frente à AR

ABM bebe água do Luso e posa em frente à Fundação Mário Soares, em frente à AR (foto JS)

Adenda de jpt: quem quiser ver a “nossa” Marta na manifestação é espiar aqui.

O PORTO DE LOURENÇO MARQUES

por ABM (Cascais, 11 de Fevereiro de 2010)

Pouca gente que visita Maputo hoje vislumbra que toda a gente que rumava à então capital da colónia no princípio do século XX, entrava ou pelo comboio que vinha de Pretória ou então desembarcava pelo Cais de Passageiros, retratado em parte na imagem acima (o resto fica à esquerda da fotografia).

A experiência de entrar em Lourenço Marques pela baixa da cidade é quase incompreensível para mim e para muitos que, como eu, sempre usaram o aeroporto, que hoje fica no extremo Norte da cidade.  A vida comercial e boémia da cidade centrava-se entre o porto e a actual Avenida 25 de Setembro.

Não é por acaso que a Rua Araújo (actualmente do Bagamoyo) e a Rua Consiglieri Pedroso eram o que eram. Nem que a Avenida Samora Machel (não sei o nome anterior mas é a que liga a Praça 25 de Junho – ant. Praça 7 de Março – à praça onde está o edifício municipal da cidade), vista da saída deste porto, oferece das mais lindas perspectivas da urbe. Felizmente, essa beleza permanece e é apreciada pelos Maputenses.

Duas curiosidades: 1. a casota que se vê à esquerda contém um enorme relógio exibindo a “hora legal” e ainda está no mesmo lugar hoje, apesar de estar agora meio perdido no meio dum parque de estacionamento. Em Lisboa, no Cais do Sodré há um igualzinho; 2. o edifício à direita era o Capitania Buildings, uma lindíssima obra de arquitectura colonial derrubada ainda antes dos anos 60 e que, com a destruição do Teatro Varietá na Rua Araújo (que ainda frequentei) foram dois dos grandes crimes arquitectónicos cometidos contra o património da cidade.

Esta foto é na verdade retirada de uma foto tipo stereoscópio (muito apreciada há cem anos que está agora à venda por uns modestos 20 dólares na Ebay (o exmo leitor vá ao sítio e coloque no espaço de procura a referência 370333218539). Boa sorte.

BICÓZE DIZE ÉCTE

ABM (Cascais, 11 de Fevereiro de 2010)

Dos arquivos, 45 segundos da oratória do Grande Comunicador.

Repare o exmo leitor num detalhe precioso: ao contrário daquela gente toda que está atrás do PM, a senhora que faz a versão gestual do discurso no quadradinho em baixo à direita não se partiu a rir.

MANDELA FOREVER

por ABM (Cascais, aos 11 de Fevereiro de 2010)

Como o tempo passa. Faz hoje 20 anos que o Dr. Nelson Mandela saiu em liberdade formal depois de décadas na prisão. Foi o princípio do fim – ou o fim do princípio – de uma aventura.

ALGUMAS CANÇÕES CHOPES

por ABM (Cascais, 10 de Fevereiro de 2010)

Colecta de canções feitas pelo legendário maestro Artur Fonseca, 1958, 107 págs. Ilustrado ao longo do texto, nomeadamente com facsimile de alguns fragmentos musicais.

À venda em Coimbra pelo meu prezado Miguel de Carvalho pela pechincha de twenty-five euros. Como eu não sou assim musicalmente inclinado passo apenas a publicidade.

O elegante site do jovem é Miguel de Carvalho – Livreiro Antiquário.

GUEVARA E A FRELIMO, 1965

Guevara despede-se de Marcelino dos Santos

Eduardo Mondlane com Ernesto Guevara

por ABM (Cascais, 9 de Fevereiro de 2010)

Dos anais da história: fotos da visita do revolucionário de Cuba à sede da Frelimo, em Dar-es-Salaam, capital da Tanzânia, no dia 14 de Fevereiro de 1965.

Para a semana faz 45 anos que aconteceu.

Tanto quanto se soube, nada resultou desta visita.

OPENING VAN DEN DELAGOABAAI SPOORWEG


por ABM (Cascais, 9 de Fevereiro de 2010)

Se eu fosse rico, tinha comprado na semana passada o medalhão que se retrata em cima, da autoria de um tal Johan Philip Mathias Menger, o artista principal do Royal Mint em Utrecht, Holanda.e que foi feita para comemorar a abertura em 1895 da linha de caminho de ferro que passou a ligar Lourenço Marques a Pretória, então capital da Zuid-Afrikaanse Republik.

Quem o pôs à venda foi um senhor de Durban, na África do Sul, em leilão que começou a 90 dólares. Mas quando subiu rapidamente desisti.

Existem duas variedades desta moeda.

Neste caso, numa face vê-se a efígie de Paul Kruger, o então presidente da República Sul-Africana e pode-se ler a frase em africaanse, “OPENING VAN DEN DELAGOABAAI SPOORWEG” (abertura do caminho de ferro da Baía de Delagoa).

Do outro lado, vê-se o símbolo da companhia de caminhos de ferro daquela república boer e a frase “NEDERLANDSCHE ZUID-AFRIKAANCHE SPOORWEG – MAATSCHAPPIJ” (Companhia dos Caminhos de Ferro da África do Sul Holandesa).

As iniciais do Senhor Johan Menger aparecem em baixo: J.P.M.M.F.

A medalha é de bronze, tem um diâmetro de 44 milímetros e um peso de 38.3 gramas.

Estas moedas de bronze aparecem de vez em quando. Muito mais raras são as feitas em prata: apenas foram produzidas vinte.

O GRANDE PATRÃO

por ABM (Cascais, 9 de Fevereiro de 2010)

Há uns tempos atrás expressei alguma preocupação com algumas ocorrências visíveis na vida desta república portuguesa.

Nomeadamente, questionei-me, em voz alta, porque é que um juiz em Aveiro, que estava a gerir um processo judicial com o fim de apreender factos que confirmassem as suspeitas de negócios sujos, envolvendo pessoas que à partida deveríamos presumir estarem a agir de forma insuspeita, apanha, através desse trabalho, o que na altura apelidou, num requerimento, de “crime contra o estado de direito”.

Isto a menos de três meses de uma eleição com desfecho imprevisível (apesar de uma oposição reconhecidamente incapaz), no meio de uma crise económica sem precedente recente, e pouco depois de uma longa sequência de passos legais que mais uma vez deixaram no ar o que foi que aconteceu há uns anos atrás com a aprovação pelo governo de um grande centro comercial na margem sul do rio Tejo, chamado Freeport.

No entretanto, entre outros episódios algo rocambolescos, rolam as cabeças do Administrador de uma estação privada, da sua algo sonora mulher, que patrocinava um mordaz noticiário nas sextas-feiras à noite, e do respeitado director de um jornal de Lisboa que pertence à insuspeita Sonae. Surgem notícias de que uma companhia de telefones com sede em Lisboa expressa um súbito interesse “estratégico” pela compra da referida estação. Não aconteceria, mas a inexplicada decisão foi tomada de rescindir com o Administrador e marginalizar a senhora. Lentamente, alguma imprensa vai providenciando detalhes de todas estas operações, evidenciando longos tentáculos e milhões de euros na mesa, o que é curioso dada a clara crise que assola o sector da comunicação social portuguesa.

E, há pouco mais que uma semana, um jornalista que considero credenciado malgré os suados esforços de intoxicação ideológica por parte de um poeta equivocado e já relevado nesta casa, tomou a extraordinária iniciativa de, na primeira voz, basicamente tentar denunciar que havia uma “lista de abate” e que ele era o alvo a seguir. Para variar, o jornal onde esse libelo (um artigo de opinião assinado) era para sair, declinou a sua publicação.

Por coincidência, durante o fim de semana passado, o Sol, um semanário de Lisboa, seguido pelo mais popular Correio da Manhã, dão os detalhes ínfimos do que é que foi que o tal Senhor juíz de Aveiro ouviu e disse, que o levou a achar que estava a assistir ao que só poderei chamar uma conspiração, orquestrada a partir dos mais altos níveis do actual governo, de condicionar a imprensa portuguesa e o presidente de Portugal, em defesa dos seus interesses apercebidos.

Num sábado à noite, dois dos mais altos magistrados do país disseram que afinal estas provas não evidenciavam crime. E mandaram destruir os dados recolhidos – principalmente, registos telefónicos e e-mails.

A particularidade deste ambiente é que todo ele tem apenas um e o mesmo epicentro: a pessoa do actual primeiro-ministro de Portugal. José Sócrates.

Os seus detractores fazem-lhe várias acusações. Que é medíocre, falso, ditatorial, manipulador, apegado ao poder. Que não gosta de uma imprensa livre. No limite, que é criminoso. Por tabela, a mesma acusação pesa sobre os seus associados políticos.

Há algo no entanto que se torna evidente ao observador casual: a forma do exercício do poder depende de facto muito da personalidade daquele que o exerce.

Mas também depende de sobre quem ele é exercido e dos mecanismos (em inglês diria checks and balances) através dos quais é exercido.

E isso neste caso são todos os portugueses que o rodeiam e o sistema que emergiu após o pronunciamento militar feito em Abril de 1974.

Por três razões muito simples.

1. Tirando a perversãozinha operada por Oliveira Salazar durante mais que quarenta anos, o sistema constitucional e político que emergiu em 1974 é na verdade bastante semelhante ao que o precedeu, com raízes que remontam até 1820. Um parlamento é eleito que elege líderes que formam governos, os chefes de Estado (reis e presidentes) exercem um magistério de “moderação” perante os governos que lhes são apresentados. Ora isso significa que, não havendo uma maioria absoluta parlamentar, o exercício do poder é extremamente mitigado pela sua efectiva fragmentação e pela capacidade das oposições de bloquearem os programas. O mais que um presidente – qualquer presidente – pode fazer é pronunciar vagos apelos ao bom senso e ao “sentido de estado” – ou tornar-se ditador. D. Carlos e Sidónio foram assassinados com essa desculpa;

2. Portugal é totalmente viciado na governamentalização e burocratização de todos os aspectos da sua vida. Os portugueses dizem que não gostam mas no fundo gostam, adoram, a “mama” do Estado. Desde a mama das caravelas na Índia, à mama do Brasil, à mama de África e à mais recente mama dos fundos europeus. O negócio é o Estado e o Estado acaba por ser o negócio. Gostam de ver o estado metido em tudo, que o Estado decida tudo, que o Estado autorize tudo, que o Estado legisle tudo. Que o Estado pague tudo. Os resultados desta atitude são que o Estado em tudo está presente, em tudo decide, em tudo legisla, e, mais importante, desta atitude decorre que a quem gere o Estado são conferidos os mais extraordinários poderes que dilaceram qualquer hipótese de uma gravitação da vida nacional para as mãos dos cidadãos e das empresas e organizações que não são do Estado. Que por sua vez e por falta de melhor, optam por viver à sua sombra. Como corolário desta afirmação, aqui estamos em 2010 com um Estado que devassa e avassala e que está arruinado e ameaça arruinar, dando em troca aeroportos que não vai haver dinheiro para pagar, caminhos de ferro que não vão ser usados, auto-estradas que se calhar não são precisas agora, subsídios com dinheiro que não há, reformas que se calhar não foram merecidas e que de qualquer maneira não vão dar para a maioria dos que as recebem, viverem decentemente;

3. Decorrente do ponto anterior, existe a gestão de uma imensidão de entidades públicas, privadas e semi-públicas que são do Estado. Por razões ideológicas de sinal perfeitamente oposto, fez-se isso nos 35 anos antes de 1974 e nos 35 anos que se seguiram, o que diz muito. Inclusivé muitas das privatizações que se fizeram foram feitas a entidades escolhidas a dedo, com compadrios ou participações indirectas do Estado ou, como é o caso com, por exemplo, a PT, que, com umas mistificantes 500 golden shares, lhe conferem efectivamente o poder de fazer o que se quer quando se trata do governante. A companhia aérea portuguesa já custou centenas e centenas de milhões de euros aos contribuintes e a sangria continua. A RTP custa centenas de milhões de euros aos contribuintes mas ninguém protesta. Economicamente, Portugal sempre conviveu muito mal com o capitalismo liberal e a resposta sempre foi com mais intervenção estatal.

E quem manda nisso tudo?

Manda quem manda no Estado.

E é precisamente este o Portugal que o Sr. Sócrates, um seu filho pródigo, formado nas catacumbas de um PS que disputa o poder há 35 anos seguidos, herdou quando o Sr José Barroso arranjou um emprego melhor em Bruxelas e o Sr. Santana Lopes….nem sei bem o que Santana Lopes fez.

Sócrates herdou este Portugal com todos os instrumentos, todos os mecanismos, todos os vícios, todas as atitudes, todas as expectativas, todos os compadrios que vinham de trás. Ele é o patrão da TAP, da Caixa Geral, da EDP, da RTP, da Carris, ele é o adjudicador de todas as grandes obras de regime, o supremo legislador, o grande Decisor.

O Grande Patrão.

E as pessoas no fundo gostaram. O exmo leitor não se lembra? Estavam todas fartas de vários anos de falinhas mansas do Sr. Guterres mas principalmente da sua indesculpável indecisão. Este Sócrates decidia. Este sabia que tinha que decidir. E assim fez. O socialismo socratiano foi sempre, tem sido, uma vigorosa marcha em frente, mesmo que em direcção ao abismo, acompanhada de enorme aparato mediático, com nomes geniais como “programa de estabilidade e crescimento”, “novas oportunidades”, “plano tecnológico”, os ministros feitos vendedores de emplastros milagrosos em tempo nobre de televisão.

Em 2005, recorde.se, Portugal já estava em declínio há dez anos seguidos e com défices já considerados inaceitáveis. Cortou Sócrates as despesas? Não. Aumentou-as e subiu ainda mais os impostos, no que foi ajudado pela equipa de Paulo Macedo nos impostos. O povo, esse embebedava-se com dívidas e mais dívidas e o habitual mesmismo.

A seguir, em 2008, o mundo abanou devido à estupidez americana e o que fez Sócrates? Aumentou ainda mais as despesas e manteve os impostos. Havia eleições. O pais aproximou-se de uma situação insustentável. Mas não faz mal: os outros também estavam mal e por isso estava tudo bem.

Não havia oposição. Sentido o caos total no principal partido da oposição, o PSD, as hostes dividiram-se para um lado e para o outro. Na eleição de 27 de Setembro, o PP recebeu uns votos do lado direito e do outro lado apareceu, emparedado pelo inamovível PCP, mais uma esquerda chique, uma coisa chamada Bloco de Esquerda, dez por cento do voto nacional mas nem uma câmara municipal trinta dias mais tarde. Milagrosamente, certamente fruto da sua impenitente generosidade para com os funcionários públicos e toda a demagogia na face de tempos muito incertos, o partido socratiano ganhou a eleição mas perdeu a maioria absoluta no parlamento.

Ou melhor, havia alguma oposição. Mais ou menos. A oposição aparecia avulsamente em artigos de jornais, em programas de televisão, em debates, através de pessoas quase improváveis, como Medina Carreira, Rebelo de Sousa, Moura Guedes e Mário Crespo e uma pequena legião de jornalistas que tentavam seguir histórias como a tal do centro comercial Freeport, contra a mais fantástica resistência que já se viu ao apuramento da verdade, a justiça portuguesa quase a arrebentar pelas costuras devido às pressões. A atenção centrava-se em Sócrates himself.

Ora o Grande Patrão, o grande decisor que sabia agir, agiu tal e qual como o sistema era e lhe permitia. Ele não gostava de ser criticado desta forma na imprensa. E assim, munido de todos os instrumentos que o sistema lhe disponibiliza e dos poderes que o cargo lhe confere, ele não reconhece legitimidade a esse tipo de oposição e pelos vistos manifestou-se disposto a eliminá-la administrativa e discretamente.

Só se reparou porque, de imprevisto,no meio do verão,  um juiz em Aveiro que estava a investigar uns vulgares crimes de corrupção começou a escutar uma sequência de conversas telefónicas que indicaram os vastos e subterrâneos tentáculos do poder em Portugal.

De quem é a responsabilidade disto tudo?

Para mim esta questão não se coloca.

Sócrates está feito para Portugal como Portugal está feito para ele.

São duas faces da mesma moeda.

O SEGREDO DE CONSTÂNCIA

por ABM (Alcoentre, Sábado, 6 de Fevereiro de 2010)

A confirmação chegou num banal e-mail de um primo nos Açores à uma hora e quarenta minutos da madrugada do passado dia 14 de Janeiro de 2010 e concluiu um processo que eu começara muitos anos antes: a confirmação absoluta de quem era Constância, a jovem e elegante senhora cuja imagem aparece no topo deste texto, e que foi tirada em Agosto de 1892.

Há cerca de 118 anos, portanto.

De entre as informações sobre a genealogia familiar que obtive há quase trinta e cinco anos dos meus avós açorianos (bem, aquilo foi mais “extrair” que “obter”) e que visitei algumas vezes quando ainda vivia em Moçambique, há já algum tempo atrás referi aos exmos leitores uns detalhes curiosos sobre um tal Manuel Jacinto Lopes, que é meu tio-bisavô. Como referi na altura, do que descobri, o que me surpreendeu foi a mulher dele.

Mas confesso que, das pesquisas familiares que efectuei, a seguir a descobrir que os meus avós maternos se haviam conhecido e casado nos Estados Unidos da América nos anos 20 do século passado, onde estiveram emigrados alguns anos antes de regressarem a São Miguel, a descoberta mais fascinante de todas foi no que concerne a enigmática Constância.

Por três razões.

A primeira, foi que a minha avó paterna me ofereceu a fotografia de (então) uma tal “tia” Constância – a que está lá em cima – juntamente com algumas outras velhas fotos de família.

A segunda, foi que a minha mãe chegou a conhecer a senhora quando era menina nos anos 30. Lembrava-se dela perfeitamente. De tudo, desde a cor dos olhos, o sotaque, o sentido de humor, a cultura, etc. E que nunca se casara. Nessa altura Constância já era velhinha e morreria poucos anos depois.

A terceira foi que, confirmado pela minha mãe, a minha avó e agora pela minha tia paterna, Constância era mulata e falava com sotaque brasileiro.

Ora, para quem supunha ter sólidas raízes açorianas até aos primeiros colonos (estes, colonos mesmo) das ilhas açorianas no século XVI, e antes destes até obscura fidalguia do reino de Leão e Castela no Século XI, antes de Portugal existir como nação independente, a notícia de haver a possibilidade de uma raiz africana negra na família BM foi uma surpresa – uma grande surpresa. Uma total surpresa. Pois à partida não ocorria. Nada o aparentava e não havia registos que tal indicassem.

A primeira vez que ouvi dizer que Constância era mulata foi por puro acaso. Veio da boca de uma velha prima da minha avó paterna, que por acaso estava de visita a sua casa num sábado em fins de Agosto de 1975. Tinha eu 15 anos de idade e estava de férias no delapidado casarão de verão dos meus avós em Vila Franca do Campo, que fica perto do porto situado em frente ao Ilhéu da Vila. Esse casarão fora dos meus bisavós paternos, pais da mãe do pai BM.

Nessa tarde, lembrei-me de mostrar-lhe as fotografias que a minha avó tinha acabado de me dar, inocentemente, para ver se ela, sendo kokuana e portanto desses tempos, conhecia as pessoas ali retratadas. Quando eventualmente lhe exibi a fotografia da Constância, ela imediatamente disse que a conhecera muito bem, sim, que fora uma senhora muito culta, muito prendada, muito simpática, muito engraçada. E, mais baixinho, inclinando-se levemente na minha direcção, disse, “e, sabes, ela era mulata”. Quando ela me faz esta revelação, fiquei literalmente de boca aberta. Não era possível. Como era possível?! Uma mulata nos Açores naquela altura?

Olhei novamente para a fotografia. Olhei de seguida para os olhos azuis claros e cristalinos que brilhavam na face fina, rosada e elegante da velha prima Ernestina, agora mais sorridente pois via nos meus olhos arregalados a surpresa e a curiosidade suscitada pela sua revelação.

Confesso que não sou assim grande perito em termos de analisar os traços finos no que concerne a classificação das raças. Já em Moçambique, tendia a distinguir quatro ou cinco raças e fazia muito poucas distinções a partir daí. E, neste caso, a senhora na fotografia não me parecia nada de especial. Parecia-me, naquela pose rígida e distante, ser branca. Quero dizer, a foto está um pouco para o escuro e velha.

Mas a prima da minha avó foi categórica; “olha bem para o cabelo dela. O cabelo era carapinha”. E inclinou-se, segredando-me no ouvido novamente, baixinho, como que para ninguém ouvir, apesar de não estar rigorosamente ninguém na enorme sala de música naquele terceiro andar do poeirento palacete dos meus bisavós: “como os pretos.” (ela dizia a palavra no sotaque de São Miguel: “prâtos”).

Dei um salto e fui ter com a minha avó na cozinha, que ficava situada um andar abaixo e mais uma corrida por um longo corredor para as traseiras da casa. “Ò avó, a prima Ernestina (ah estes nomes antigos) diz que a tia Constância era mulata!”. A minha avó, que era enorme e tinha o porte de um lutador de sumo, e que era muito ciosa do seu estatuto de senhora na então sociedade açoriana, virou-se lentamente e fitou-me, silenciosa durante uns segundos. E após uma pausa, disse-me apenas: “sim, é verdade. Mas – ò rapazinho – aqui não se fala disso”.

Mas…então…ahh…mas…se a Constância era “tia” (minha não era) e era mulata, então isso significava que temos “prâtos” na família?! Então, ela era tia de quem? A minha avó deu-me uma resposta meio esfarrapada e fiquei na mesma. Pois nos Açores “não se falava disso”.

Pelos vistos estas questões de raça nos Açores do século XIX e XX eram assunto que não se discutia – mesmo. Não sei bem como era possível, dado que raça não é coisa que se esconde debaixo da cama, mas foi ao que assisti.

A resposta em maior detalhe, levei trinta e três anos para confirmar. E aponta para a existência de uma raiz africana na genealogia dos BM.

Ei-la.

A história é verdadeiramente fascinante.

De seu nome completo Constância Sinclética Botelho de Mendonça, ela era irmã do meu bisavô paterno, Francisco Botelho de Mendonça (pai da mãe do meu pai BM – a minha avó Clotilde) – que portanto também era mulato.

Recuemos uma geração. O pai de Constância – um meu trisavô – foi um açoriano que emigrou para o Brasil nas primeiras décadas do século XIX. Terá feito bom dinheiro no negócio de peles em Pernambuco, assim reza a lenda familiar.

Em meados do século, ele casou-se com uma senhora mulata, filha de uma escrava africana e de um branco, cujas identidades se desconhecem, em Pernambuco. Ali tiveram duas filhas, uma tal Gonegundes (de quem perdi o rasto) e Constância Sinclética.

Poucos anos mais tarde, subitamente, o meu trisavô açoriano contraiu tifo, doença que na altura invariavelmente era fatal. Doente, resolveu regressar aos Açores com a sua jovem família. Vendeu tudo o que tinha e fez-se aos Açores de barco, levando com ele baús cheios de haveres, prata e dinheiro. Quando embarcaram, a mulher dele (a minha trisavó) já estava grávida de um terceiro filho – o meu bisavô.

Durante a viagem, o meu trisavô morreu de tifo. Pelo que a Ponta Delgada chegaram a minha trisavó brasileira, já viúva, com duas filhas, e ainda grávida. Já em terra, ela deu à luz um bebé rapaz – o meu bisavô, a quem deu o nome de Francisco Botelho de Mendonça. Quando se confirmou que era um rapaz, e de acordo com a lei naquele tempo, parte dos bens que vieram do Brasil foram constituídos em herança do bebé e os baús contendo esses bens foram selados até que o jovem atingisse os 21 anos.

Ainda hoje, dado pela mãe BM, eu tenho um pequeno paliteiro de prata, que fazia parte da herança de Francisco, que viera do Brasil nessa viagem de barco e que esperou selada nos baús até ele ter idade para dela tomar posse.

Sendo jovem, a mãe de Sinclética, uma viúva com alguns bens, casou-se uma segunda vez em São Miguel com um membro da família Félix Machado e teve mais quatro filhos. Assim, os descendentes da família Félix Machado partilham este património genético com os BM.

Quando Francisco, que, como Constância e Gonugundes, já era filho de uma mulata com um branco, portanto um mulato “diluído” (não sei se há nomes especiais para estas coisas) atingiu a maioridade, casou com uma senhora cuja nome era, depois de casarem – e lá vamos nós outra vez com os nomes – a encantadora e culta Ludovina Amélia Lopes Botelho de Mendonça. Os apelidos já vieram depois do casamento.

Constância era, portanto, cunhada de Ludovina (irmã do Sr. Visconde da Palmeira) e viveu nos Açores, solteira, até à sua morte. Com o seu humor e distinto sotaque brasileiro.

Francisco e Ludovina tiveram duas filhas, Margarida e Clotilde, esta última a mãe do pai BM.

O meu pai.

E que viveram toda a vida no enorme e poeirento palacete em Vila Franca do Campo onde eu, num dia de verão em Agosto de 1975, me sentei na sala de música com a prima Ernestina e lhe mostrei uma velha foto.

Que me revelaram o segredo de Constância.

Churchill e Quental na Parede numa Sexta-Feira

por ABM (Alcoentre, sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2010)

Foto tirada há momentos de duas imagens penduradas no centro de operações do Maschamba da Região Não Autónoma do Ribatejo.

Winston Churchill é para mim uma figura genial e tragicomédica, incontornável para o século XX e uma figura que viveu como poucos a sua era. A imagem de Churchill achei interessante porque o apanha (na Florida, princípios dos anos 60 no iate de um amigo ricaço americano) de chapéu à cowboy e a ler uma cópia da revista Time. Passou por Lourenço Marques aquando da guerra anglo-boer em 1900 e no fim da vida passava férias numa Ilha da Madeira avant AJJ.

A imagem de Quental trouxe-a de Ponta Delgada (comprada numa loja de velharias) uma vez que fui lá há alguns vinte anos, para um “encontro de escritores açorianos” – encontro em que eu era o único presente que para variar não era nem açoriano nem escritor. Mas como o meu avô MIM era um poeta e figura castiça local, e era bom rapaz e filho assumido de açorianos, fui aceite como membro incondicional da confraria com um vago estatuto de “observador”.

Para além das suas crises de neurastenia (agora diz-se “bipolar”) e de alguns exotismos e namoros socialistas (os de então) Antero de Quental foi alguém que, de quase lado nenhum, surgiu nas letras portuguesas nos anos 60 do século XIX e foi dos primeiros que, sem aprumos, diagnosticou de forma inequívoca aquilo que até hoje considero o discurso mais verdadeiro e perturbador sobre a cultura e civilização portuguesas – as herdadas. Isto numa altura em que, como posteriormente se veio a repetir, o sistema político do seu tempo apostava numa entente cordiale entre oponentes políticos que se revesavam na disposição do espólio nacional. Chamaram-lhe, na propaganda daqueles tempos, “regeneração”. Tirando o Fontes (e mesmo assim), aquilo foi mais uma pulhice feita em Lisboa.

Mas ao menos naquele tempo o António José da Vila (Marquês de Ávila) assinou a portaria de interdição publicamente e fechou as conferências, não é bem o mesmo que se faz agora, que é mandar um recado à Prisa por interposta pessoa, dizer à PT para comprar um grupo de comunicação e ainda subterraneamente despachar as vozes que incomodam.

Houve uma altura em que eu rotineiramente oferecia às pessoas com quem me dava, cópias do texto da sua conferência (do Casino) intitulada Causas da Decadência dos Povos da Península Ibérica. Que li pela primeira vez em 1980 nos EUA numa cadeira na Universidade Brown, dada pelo Onésimo Teotónio Almeida. Tinha a dupla vantagem de dizer o que havia a dizer em poucas páginas e de custar só cinco euros. Cento e cinquenta anos depois de escrito, como muito do que disseram a seguir os seus amigos Eça e o Oliveira Martins (e outros), mantém uma actualidade perturbadora. José Bruno Carreiro e a sua (de Antero) namorada (post mortem) Ana Maria Almeida Martins escreveram ampla e brilhantemente sobre ele.

Dessa viagem, tenho uma fotografia exorcizante de eu a acenar em cima do banco do jardim em Ponta Delgada onde em Setembro de 1891 o Antero deu (sem pontaria) o tiro que acabou por o matar.

Bem, isto tudo a propósito da interessante citação feita pelo JPT de um comentário do Ruy Cinnati sobre uma estátua que ele tinha em casa de São João Baptista com um tomahawk na mão.

Portugal, por Eça, 1867

por ABM (Alcoentre, 6 de Fevereiro de 2010)

Nestes dias, por alguma razão, citações como esta andam nas cabeças de muitos.