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ÁFRICA NO PORTO

Quinta-feira, Setembro 2nd, 2010

por ABM (2 de Setembro de 2010)

Entre 4 de Setembro e 1 de Outubro, o Grupo Musical de Miragaia (programação de José Maia, organização da Confederação Núcleo para a Investigação Teatral) vai levar a cabo um ciclo de cinema a que chamam África Já Ali.

Entre outros, será projectado o filme de 2004, da autoria da portuguesa Margarida Cardoso sobre a guerra colonial em Moçambique, de que se pode ver o excerto acima.

Do texto divulgado (e que pode ser descarregado PRESS_ciclo cinema_Africa) lê-se:

Pelo olhar e pensamento de realizadores europeus de diferentes gerações, com obras de
ficção, etno-ficção e documentais iremos ver, (re)conhecer e reflectir como o ocidente
representou e representa, pensou e pensa África.

As obras que serão apresentadas neste ciclo compreendem diferentes enquadramentos
históricos, políticos, sociais e culturais permitindo-nos pensar:

Nós, o Outro e a relação entre Ocidente e África na cultura ocidental e na cultura africana
pelas obras de Alain Resnais e Chris Marker, Werner Herzog, Pier Paolo Pasolini;

o ocidente em África no período de colonização de África pela primeira obra cinematográfica
de reflexão crítica ao colonialismo África 50 de René Vautier e pelas obras de Jean Rouch e Pier
Paolo Pasolini;

o confronto com o olhar africano sobre o europeu e como e quanto europeu é o africano
colonizado pela obra Jean Rouch;

a colonização portuguesa, a Guerra Colonial o fim do Império e descolonização pela obras de
Manoel de Oliveira, Manuel Santos Maia e Margarida Cardoso;

África Hoje, após independências e o surgimento das novas nações africanas numa viagem
falada em português de Moçambique à “Terra Sonâmbola” do escritor Moçambicano Mia
Couto com Teresa Prata e outra em crioulo, que também tem base lexical portuguesa, até
à “Casa de Lava” de Pedro Costa, em Cabo Verde;

os fluxos migratórios africanos do norte de África para a Europa e a emigração cabo-
verdiana para Portugal serão verificados por Frederico Lobo e de Pedro Pinho e por Pedro
Costa;

África em Portugal, Hoje verificada pela presença de africanos, de portugueses

africanos e de africanos portugueses, resultado dos vários processos de migração de
uma “Juventude em Marcha” para Portugal;

e por fim

quanto e como somos hoje mais africanos?

Se o exmo. Leitor andar pelos lados de Miragaia, este ciclo parece ser interessante e denso de conteúdos.


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AS GUERRAS DO PÃO

Quinta-feira, Setembro 2nd, 2010

por ABM (2 de Setembro de 2010)

A propósito do que se está a passar estes dias em Maputo.

Tenho vindo desde há uns meses, nesta casa, a realçar, por um lado, a periclitância, em aspectos cruciais, do “milagre económico” moçambicano, especialmente no que concerne o cidadão e consumidor médio moçambicano.

Por outro lado, tenho manifestado alguma estranheza pelo facto de, apesar de se prever e ser perfeitamente expectável um recrudescer na taxa de inflação – que tem um efeito económico corrosivo e um impacto político explosivo na população em geral – de facto a imprensa e os agentes políticos, em vez de dizer, preto no branco, que se avizinhava um período de dificuldades e de sacrifício, quer uma parte crítica da imprensa, quer o discurso oficial e oficioso, consistentemente focava na “história de sucesso” da economia moçambicana, com correspondentes associações à eliminação da pobreza e a um número quase infinito de investimentos (privado estrangeiro, governamental estrangeiro, governamental nacional, donativos, “cooperação” etc).

Ora, excluindo os chamados mega-investimentos, se até ao final do ano transacto se assistiu a uma crescente asfixia nos factores de base que definem a economia moçambicana, esse contexto agudizou-se muito significativamente no primeiro semestre do ano.

Como era de esperar, o metical desvalorizou significativamente, seguido por uma pressão insustentável nos preços dos alimentos e energia. O custo do dinheiro (na forma de taxas de juro) subiu e, mais grave no contexto actual, a menor liquidez na economia, quer em meticais (em pouco assistida pela recente emissão de obrigações do tesouro moçambicano) mas especialmente em dólares, coloca novos desafios aos agentes económicos, incluindo as instituições financeiras, neste momento na parte final da maior expansão creditícia da história económica do país.

No fim do dia, a equação macroeconómica é simples e conhecida de todos: 1) o país continua a importar muito mais do que exporta, 2) continuam a haver consideráveis obstáculos ao investimento privado estrangeiro, 3) permanecem os desafios enormes de se encontrar alimento e emprego para uma população pouco habilitada, rural ou recentemente urbanizada.

No entanto estas não foram causas directas das perturbações de ontem e de hoje em Maputo.

A maioria da população moçambicana, que vive nas zonas rurais e cultiva o que come, é relativamente imune a eventuais oscilações nos preços dos alimentos.

O mesmo não acontece com as populações urbanizadas, especialmente em Maputo, onde a maioria dos residentes da cidade e arredores não tem a possibilidade de, por exemplo, manter um emprego na cidade e uma machamba para obter alimento.

Como em qualquer cidade, têm que pagar renda, água, luz, comida e transporte.

Ora, como é sabido, o custo destes factores acabou de aumentar significativamente, sendo que, presume-se, os salários auferidos pela maioria da população não acompanharam a taxa da inflação.

De entre estes, o mais politicamente sensível é o preço do pão, que constitui um pilar da alimentação, especialmente entre os cidadãos mais pobres.

Especialmente os que vivem nas cidades e em seu redor.

Creio que é neste contexto global que se criaram as condições para que uma camada da população se sinta autorizada para agir da forma como se tem observado.

Este é um problema sério que vai ter que ser resolvido.

Gostava de recordar aos exmos leitores que infelizmente não há aqui novidade. Há precedentes para este tipo de situação. Um dos mais terríveis ocorreu na União Soviética nos anos 30, quando o ditador Estaline, para manter o pulso nas cidades, mandou brigadas para o mato que obrigavam os agricultores a entregarem-lhe as suas colheitas para alimentar as cidades, tendo milhões de agricultores morrido de fome como consequência.

E é interessante recordar as chamadas Lutas do Pão em Portugal continental nos anos 20 do século passado. Um interessante e elucidativo artigo de Jofre Alves sobre o assunto dá detalhes sobre como foi e permitirá ao exmo. Leitor estabelecer alguns paralelos com o que se passa em Maputo.

Esta não é a única leitura dos eventos de Maputo ontem e hoje, em que já se lamentam várias mortes e perto de uma centena de feridos.
Alguns jornais de Maputo hoje editorializavam furiosamente, apontando o dedo ao poder político (que por sua vez, reduz o fenómeno ao oportunismo de meia dúzia de mal intencionados) ou ainda às disparidades sócio-económicas visíveis em Maputo.

Não ajuda que a geografia da cidade de Maputo, na ausência de acções concertadas por parte das autoridades policiais, permita que literalmente meia dúzia de pessoas consigam fácil e rapidamente selar a cidade e colocá-la quase sob estado de sítio.


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CONTROLO ANTI-DOPING

Quarta-feira, Setembro 1st, 2010

Kornelia Ender a sair da piscina

por ABM (1 de Setembro de 2010)

Um dos mistérios em redor dos eventos na Covilhã aquando da deslocacão da equipa de controlo anti-doping para atestar da condição da selecção nacional de futebol é que se sabe que o controlo foi feito.

E que o seleccionador, Carlos Queiroz, terá constestado as circunstâncias ou a perturbação causada pela referida visita.

Alguns dos exmos leitores e calhar não sabem do que se está a falar. Afinal, recolher umas amostras de urina não parece ser complicado à partida.

Talvez sim, talvez não.

Vou explicar.

Nos meus tempos de desportista de competição, há uns séculos atrás, apesar de agora se saber que havia em abundância aquilo que hoje se considera doping em quantidades apreciáveis – até na natação, o desporto que eu praticava – não havia nem organismos nem protocolos para o seu controlo a nível nacional. E mesmo a nível interncaional, era extremamente raro.

A piscina fica na estrutura situada em baixo à esquerda do estádio olímpico de Montréâl

A única vez que fui sujeito a um controlo anti-doping foi no verão de 1976, durante os jogos olímpicos de Montréal. Eu tinha 16 anos e, com quatro colegas, representava a natação portuguesa de então.

O que aconteceu foi que, de manhã disputavam-se as provas eliminatórias, e à tarde às provas finais.

Numa das eliminatórias, de manhã, logo após uma prova, apareceu um tipo à borda da piscina mal eu acabara de nadar, e mandou-me acompanhá-lo.

Pelo caminho, informou-se que eu seria sujeito a um controlo anti-doping.

Eu nem sabia do que ele estava a falar mas segui-o.

Levou-me para uma sala espaçosa e sem janelas, onde havia umas cadeiras e uma televisão a transmitir as provas na piscina ali ao lado, e fechou-me lá.

Indicou-me que o procedimento era que eu teria que urinar para uma pipeta em frente a ele e depois podia ir-me juntar de novo ao resto da equipa.

Dali a uns minutos, para minha surpresa, acompanhada por uma mulher, entrou na mesma sala a nadadora alemã-oriental Kornelia Ender (a menina na foto acima).

Eu sabia quem era Kornelia Ender pois vira fotos dela e lembro-me de a minha irmã Cló, que nadara também, falara sobre ela mais que uma vez. Era na altura uma legenda da natação mundial, com recordes mundiais batidos e parte daquela geração de atletas de craveira mundial que a RDA usava e abusava para puxar o lustre na podridão que era o seu regime. Posteriormente se comprovou que, como vários outros atletas, Kornelia Ender se dopou até dizer chega.

Mas na altura isso eram só rumores. Em parte por constatação visual simples. Ao pé das outras nadadoras, as atletas da RDA eram umas bestas humanas. Ao pé dos homens elas pareciam ser umas bestas.

E ali estávamos os dois, sentados, de fato de banho e toalha, sózinhos e vigiados pelos dois funcionários através de um vidro (eles estavam numa sala contígua).

Falámos pouco. O inglês dela era uma desgraça e eu não falava uma palavra de alemão.

Obviamente, ambos sofríamos do mesmo pequeno problema: antes de nadar nas provas, um dos rituais normais é ir ao quarto de banho e fazer-se chi-chi. Ora, tendo acabado as provas há minutos, não havia nada na bexiga para espremer para a pipeta que os diligentes funcionários tinham na mão à espera para fazer o seu trabalho.

Mas sem chi-chi na pipeta, não se saía dali.

Não que isso fosse um problema. Se fosse preciso ficávamos lá fechados o dia inteiro.

Para ajudar, os senhores da brigada anti-doping tinham disponibilizado um frigorífico cheio de águas, sumos e até cerveja.

Levou-me umas três horas para que a minha bexiga produzisse algo que se assemelhasse com a quantidade mínima para encher a pipeta. A Kornelia tinha o mesmo problema.

Mas quando fiz o sinal ao jovem para avançarmos com a colheita, ele explicou-me que eu teria que fazer o chi-chi directamente em frente a ele, eu de pé com a pipeta, e ele sentado à minha frente a olhar para a piloca.

Bem, eu não sei quantos exmos Leitores já passaram por uma destas, mas no momento crucial tive um bloqueio mental e passou-me a vontade de urinar (que para começar já era ténue).

Voltei para a sala, onde ainda estava a Kornelia e onde, já algo farto daquilo tudo, emborquei mais um sumo de laranja.

Passou mais uma hora, e finalmente, depois de um esforço hercúleo, lá enchi a pipeta, o fulano a olhar atentamente para o jorrozinho amarelo a encher a sua pipeta.

E me deixaram ir embora.

Nunca mais me disseram nada. Na vida, só vi a Kornelia Ender mais uma vez, um ano depois, quando ela veio com o Roland Mathes (campeão da RDA e mais tarde seu marido durante alguns anos) a Portugal inaugurar a piscina do SFUAP em Almada. Sendo Almada na altura uma espécie de reduto comunista no Novo Portugal, a inauguração foi uma daquelas festas com bandeiras vermelhas do PC, o hino da internacional comunista, montes de comida e, claro, a presença dos expoentes da RDA, o país socialista irmão da Cova da Piedade. Tanto Ender como Mathes estavam ambos fora de forma, mas deu para abrilhantar a festa.

Na altura, ela não me reconheceu e eu respirei de alívio por assim ser.

Voltando à questão do episódio do controlo anti-doping na Covilhã.

Se a equipa de controlo anti-doping aparecesse no começo de um treino, é de esperar que os meninos tivessem feito previamente os seus mundanos chi-chis antes de começar. Se lhes fizessem o que foi feito a mim em 1976, então não haveria treino.

Mas não sei. Ninguém explicou ainda.


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O LINCHAMENTO DE CARLOS QUEIROZ

Quarta-feira, Setembro 1st, 2010

por ABM (1 de Setembro de 2010)

Não entendo muito de futebol.

Mas não creio ser preciso ser especialista no assunto para apreender que o que se está a passar estes dias com o actual seleccionador do futebol português.

Do pouco a que assisti nalguns programas sobre o assunto (que em Portugal abundam ad nauseam) o que ainda não se sabe nalgum detalhe é o que foi que se passou exactamente.

Aparentemente, no decurso de um exercício comum de despistagem de substâncias ilegais nos corpos dos jogadores da selecção nacional de futebol, então em estágio na cidadezinha da Covilhã, antes do campeonato mundial de futebol, terá havido alguma altercação entre o seleccionador e o chefe da equipa encarregada de efectuar a despistagem.

Tudo indica que a despistagem se efectuou.

O assunto terá então ficado por ali, até que, várias semanas depois, ele surge na imprensa, um pouco como um coelho puxado de uma cartola, num contexto em que, a vários níveis (a FPF, o braço governamental no desporto, a tal da equipa de anti-doping) subitamente o comportamento do seleccionador surge como matéria de análise e susceptível de o afastar, apesar dos termos normais de uma rescisão contratual que atribuem-lhe um valor condicente com o valor presente do seu contributo para o período remanescente do seu contrato.

A percepção geral foi que a FPF procurava uma desculpa para despedir o seleccionador sem lhe pagar uma indemnização.

Após uma semana e pouco de especulações, a montanha pariu um rato: a “penalização” amontava a um mês de suspensão, que, erradamente a meio ver, Queiroz escolheu não contestar.

No entretanto, ao dar uma daquelas entrevistas da treta do futebol, Queroz aponta o dedo a um desses vice-presidentezecos que há pelo menos dez anos se esquecera de ir embora, e que pelos vistos nunca gostou dele. Este ofende-se e instaura-lhe um processo disciplinar – agora em curso.

Para variar, e em mais uma revelação dos bizantinos mecanismos do desporto português, o tal organismo do anti-doping, insatisfeito com a bofetada da FPF, arroga-se o direito de julgar em casa própria o assunto, e impõe, por unaninmidade, uma sanção se seis meses a Queiroz, pelo mesmíssimo caso já julgado pela FPF.

Apercebemo-nos, entretanto, que a lei desportiva portuguesa vive num mundo próprio, aparte do sistema legal português, com regras e protocolos próprios.

Convém recordar que Carlos Queiroz não é um tipo qualquer. Que eu saiba é uma pessoa decente, capaz e com provas dadas naquilo que faz.

É por demais óbvio que há gente que não o quer como seleccionador, que não gosta dele e que quase tudo fará para retirar das suas mãos a responsabilidade que até este momento é contratualmente sua.

Nem que, para tal, causem sério dano ao trabalho da selecção nacional de futebol.

Mas o que me parece é que, à falta de melhor informação, ao que se está a assistir neste momento é a uma perseguição pessoal qualquer sem mérito e sem justificação.

A uma tentativa reles de linchamento de Carlos Queiroz.

Carlos Queiroz merece, e nós todos, melhor do que isto.


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A ENTREVISTA

Domingo, Agosto 22nd, 2010

por ABM (21 de Agosto de 2010)

Confirmada a segunda derrota consecutiva do Sport Lisboa & Benfica no campeonato nacional de futebol português, e na face do cada vez mais complexo xadrez político nacional, o Maschamba captou mais uma gravação ilegal, esta em vídeo, de um encontro secreto de José Sócrates.

Contactado telefonicamente, o nosso comentador futebolístico, George Ribéro, na sua residência de férias em Pénis (ao pé de Óbides), ele sugeriu que o problema das águias encarnadas poderá estar localizado na baliza e sugere que, como complemento àquele senhor hespanhol que supostamente a defende, que o Benfica deveria talvez pedir à Federação Portuguesa de Futebol, autorização para, em vez de colocar a rede da baliza atrás, que lhes seja permitido colocar a rede à frente. E concluiu a sua breve análise com um comentário mistificante. Disse: “volta Quim, estás perdoado”.

Bom fim de semana.


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PLUS ÇA CHANGE

Quinta-feira, Agosto 19th, 2010

por ABM (19 de Agosto de 2010)

No actual contexto de aperto financeiro de muitos, e de resmas de demagogia balofa, a revista Visão da semana passada escalpeliza numa página sucinta os detalhes da maior transacção de sempre de uma empresa, a venda da Vivo à Telefónica pela PT.

Numa transacção de 7.500 milhões de euros, ninguém paga um cêntimo de impostos.

A ler, A PT e a Vivo, com vénia.


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MAPUTO-LISBOA, DESCONTO ATÉ 70%

Quinta-feira, Agosto 19th, 2010

por ABM (19 de Agosto de 2010)

Quando o meu amigo Carl me enviou uma mensagem inócua esta noite, os gigacomputadores da publicidade do Sr. Gúgele instaneamente colocaram uma série de anúncios pagos na barra situada do lado direito do écrã do meu computador.

Nada demais. Por vezes até acho interessante a pouco invisível ligação entre o título e o conteúdo das mensagens que recebo, e os anúncios que a mão invisível dos gúgeles ali colocam.

Esta gente para ganhar dinheiro vende a alma da mãe deles, certamente que vender a minha não é um grande passo em frente. Pelo contrário. Por outro lado, eu usufruo dos magníficos serviços da Gúgele praticamente de borla e não perco sono à noite com isso. A privacidade estes dias que correm é imensamente relativa e imensamente negociável. Eu tenho amigos que há meses que se entretêm a ler os malabrismos dos Srs do Feicebúke para lhes vender a vida inteira a retalho. O que me fascina é que quase ninguém quer saber. Anda tudo alegremente a encher os “seus” (deles) dados de manhã até à noite e contando aos seus “amigos” os dados mais infimérrimos das suas invariavelmente inóspidas vidas, como se não fosse nada. Como se agora fosse como antigamente, quando havia correios e leis draconianas contra a violação do sigilo (precariamente assegurado dentro de um envelope selado com uma mistura de cuspe e ranho).

Só que esta noite o tópico não era nada de especial, e os anúncios que apareceram também não. Um era sobre certtificação energética (de um tal Sr Jesus Ferreira), outro convidava-me a negociar petróleo online (de um tal www.plus500.com.pt) .

Mas o terceiro mistificou.me.

No visor apareceu o seguinte:

Maputo Lisboa
Descontos até 70%:
Reserve antes de 31 de Agosto!
www.eDreams.pt/Maputo-Lisboa

Hum.

Nunca ouvi falar desta gente.

À primeira vista pareceu-me bom demais. Toda a gente sabe que, pese a choradeira toda sobre a pobreza de África, tipicamente as carreiras de África são as cash cows das companhias aéreas de todo o mundo que para lá voam. Na portuguesa Tap esse deve ser o segredo mais mal guardado da companhia. Por comparação com um voo para África, a TAP cobra para aí metade para o voo mais ou menos semelhante para o Brasil.

Mas pensei cá para mim: “ABM, estes gajos não se vão dar a todo este trabalho para me encontrar para me enfiar um barrete destes.”

Ou então o barrete é daqueles bem fundos e leva algum tempo a perceber.

Ciente do pouco risco que adviria de ir ver o que a tal de eDreams estava a publicitar, procedi a visitar o seu sítio.

Não tinha nada a falar sobre promoção nenhuma a Maputo.

Hum.

Mas tinha um daqueles formulários electrónicos que se preenchem rapidamente, para em seguida aparecerem as indicações de preço.

Simulei então uma viagem Lisboa-Maputo por doze dias, de 8 a 20 de Setembro.

A cotação mais barata era cerca de 1.120 euros

Não me pareceu ser 70 por cento mais barato que o habitual.

Isto mais o novo custo do visto maputiano (82 paus) vai para os 1200 euros.

Mas então apercebi-me do meu equívoco: o anúncio dizia Maputo-Lisboa e não Lisboa-Maputo.

Ah, esta gente do marketing…

Será que ir no mesmo avião que liga as duas cidades em sentidos diferentes implica preços diferentes?

Clic, clic, clic, fiz o mesmo pedido de simulação, mas desta vez a sair de Maputo em direcção a Lisboa.

Surpresa. Desta vez a cotação mais barata era de 936 euros. Os residentes em Maputo têm desconto automático de 350 euros. Nada mau.

Mas …cadê o meu desconto de até 70 por cento?

Já agora, desconto de 70 por cento em relação ao quê? A quem?

Em ambos os casos, as viagens seriam autênticos filmes de terror. No caso do vôo a sair de Maputo, estamos a falar de classe turística, saída de Maputo às 9 da manhã de um dia, e chegada a Lisboa às 15 horas do dia seguinte, voando de Maputo para Joanesburgo, depois para Paris numa conhecida companhia áerea francesa, e depois a ligação a Lisboa.

Partido de Lisboa, é o mesmo horror épico, mas no reverso.

Trinta e duas horas de percurso, em que mais que metade é passada em salas de espera de aeroportos.

Em frente ao preço, premindo numa frasesinha que diz “detalhes do preço”, aparece uma janelinha a dizer que na realidade, dos 936 euros, o bilhete em si custa 441 euros. O resto – 502 euros – é descrito como “taxas”.

Lembrei-me que na página de entrada do sítio vira um número (707 782 829).

Liguei para lá.

Após um toque, surgiu na linha uma voz em português no melhor sotaque do Brasil, indicando que os serviços de atendimento só atendiam das 8 às 19 horas durante a semana. Azar.

Nunca tinha ouvido falar nesta eDreams, mas não é supresa. Estes dias pago para não viajar e empresas destas são mais que os peixes no mar. Mas, para minha surpresa, o sítio tinha uma outra frase que, clicando sobre ela, me deixava saber tudo sobre a eDreams.

E avisava que a explicação seria em hespanhol.

Hum, não sei se vou conseguir ler….

Premi com o rato e, após esperar uns cinco minutos, apareceu um extenso documento daqueles com doses industriais de charme a tentar explicar quem era el Grupo. Hespanhol, baseado em Barcelona, expandiu por aqui e por ali e agora até já tinha escritórios em Lisboa.

Eles obviamente acham que são a melhor coisa a aparecer na face da Tierra desde a passagem de Cristo por Jerusalém e arredores.

Menciona que em 2006, a data mais recente contida no relatório, que data de Junho de 2007, portanto antes do crash em cadeia de metade do mundo, tinha facturado 300 mijones de euros, o que achei curioso estando nós em Agosto de 2010.

Até tinha os nomes dos membros do Conselho de Administração e resumos dos seus currículos (que são, no mínimo, fabulosos). O Christian Grunwald, então, devia ser rei de Hespanha em vez do Juan. Sem menosprezar os outros, que são todos Mckinseys, Harvard Business School, carreiras fulgurantes desde o berço, etc etc.

E termina com números de telefone e os endereços de e-mail da Maria de Andrés e da Pilar Cueca, que são as meninas da empresa de comunicação da eDreams (se ainda lá estiverem, claro).

Fiquei com tudo impressionado.

Estes tipos parecem ser mesmo a sério.

Só mesmo uma coisa menor permaneceu na minha mente após a saturada viagem por esta empresa:

Cadê o bilhete de Maputo para Lisboa com desconto até 70 por cento se eu reservar até antes de 31 de Agosto, que alguém da eDreams cozinhou e me foi para à caixa do correio, ao lado da mensagem do meu querido amigo Carl?

Estou a pensar mandar este texto para o Christian Grunwald e para a Pilar Cueca para ver o que é que eles dizem.


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HABEMUS PETROLEUM ?

Terça-feira, Agosto 17th, 2010

Uma torre de petróleo no Texas dos bons velhos tempos

por ABM (17 de Agosto de 2010)

Durante todo o dia de hoje, fui electronicamente bombardeado com “notícia” da confirmação da descoberta de petróleo na região de Pemba.

Algumas agências noticiosas citavam como fonte a empresa texana Anadarko (que, de acordo com um recente comunicado de imprensa, is the operator with an approximate 43-percent paying interest in the well. Co-owners in the well are BPRL Ventures Mozambique B.V. (11.75 percent), Cove Energy Mozambique Rovuma Offshore, Ltd. (10 percent), Mitsui E&P Mozambique Area 1, Limited (23.5 percent) and Videocon Mozambique Rovuma 1 Limited (11.75 percent). Empresa Nacional de Hidrocarbonetos, ep’s 15-percent interest was carried through the exploration phase).

Mas outras notas de imprensa indicavam a fonte da informação como a actual ministra dos Recursos Minerais, Esperança Bias. Outras ainda indicavam que a Anadarko fez o anúncio e que a ministra confirmou.

Tendo ir ver o sítio das notas de empresa da Anadarko, confirmei que na realidade a Anadarko nada publicou desde o dia 9 de Agosto, dia em que comunicou o preço para uma emissão de papel comercial de 2 mil milhões de dólares.

De facto,o último comunicado da Anadarko relativo a Moçambique data de 18 de Fevereiro deste ano e diz mais ou menos o que agora terá sido “anunciado” ainda não sei bem por quem.

O ponto da questão desta minha nota era aferir em que consistia realmente esta “descoberta” de petróleo no mar ao largo de Pemba (na realidade, o furo Windjammer dista a 50 kms da costa moçambicana e o furo tem uns 3.5 kms de fundo, feito a uma profundidade de cerca de 1400 metros. Não fica exactamente na esquina ali ao lado).

Que há mais do que traços da presença de petróleo na região já se sabe há muito tempo. A questão é saber se as prospecções apontam para uma quantidade comercialmente apetecível face ao gigantesco investimento, ou não (e quanto a isso, fiquei na mesma).

Mas, em vez disso, a “história” para mim passou a ser esta confusão toda e este mistério de quem disse o quê e o que foi dito. Surpreendente, dada a gravidade do assunto e o elevado perfil das entidades envolvidas, e ainda a quantidade de agências noticiosas metidas.

Parece-me que este é um caso para chamar os senhores da Ferro & Ferro para tomarem conta da ocorrência.


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ARTE MOÇAMBICANA EM OURIQUE, PORTUGAL

Terça-feira, Agosto 17th, 2010

Butcheca no Restaurante da Costa do Sol

por ABM (17 de Agosto de 2010)

Noticia o sítio da Rádio Voz da Planície, que opera lá para os lados de Beja (104.5 MHZ na banda FM mas também emitem na internet) que decorre uma exposição de pintura dos artistas moçambicanos Butcheca e Clemente e Lucas Tsamba, na Biblioteca de Ourique, no deep Alentejo, até ao dia 8 de Setembro.

Segundo os srs da RVP, “Trata-se de uma mostra que retrata também a vida e a cultura das tribos do Sul de Moçambique, através de várias pinturas a óleo. As obras expostas misturam a técnica a óleo com elementos naturais, como a terra e a palha.”

PS – estive a escutar a emissão da Rádio Voz da Planície pela internet, a música é simplesmente espectacular. Eles dizem que são “a voz do Alentejo”.


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SOBRE A CULTURA DE TRABALHO AFRICANA

Sexta-feira, Agosto 13th, 2010

por ABM (Sexta-feira, 13 de Agosto de 2010)

Na edição de Agosto da revista Prestígio, que por estas alturas já deve estar a circular em Maputo, li um interessante comentário feito por Rui Guerra, despoletado por uma afirmação de Mo Ibrahim, empresário sudanês (e uma espécie de estrela depois de instituir um prémio que já beneficiou Joaquim Chissano) que, num discurso que fez numa visita recente a Maputo, fez uma daquelas declarações arrebatadoras e abrangentes que todos costumamos fazer sentados à volta dum café em privado, mas que na realidade dificilmente resistem uma análise ponderada.

Este tipo de análise é muito comum na cultura portuguesa. Invariavelmente começa mais ou menos assim: “o problema de Portugal é….”. E disparam em todas as direcções, no espaço, no modo e no tempo, desde a permanência exagerada do predilecto ditador do século XX, até ao assassínio dos Távoras, o derrube da monarquia, o extremismo de Afonso Costa, a manutenção extemporânea das colónias e a fixação no futebol (entre outras).

A minha favorita é que o problema de Portugal é estar no seu DNA a mania das elites vigentes em Lisboa alegremente alternarem-se ou derrubarem-se impenitentemente, não em defesa dos interesses dos que lá vivem, mas dos seus próprios interesses, fazendo uma pirueta desssa realidade e vendendo-a como uma qualquer gloriosa revolução imparável, moderna e civilizadora que a todos beneficiará e que perpetuará a existência da nação – até que mais uma crise qualquer faça surgir os senhores que se seguem. É uma espécie de nacionalismo feito à medida. Não aconetce nada durante quarenta anos, e de repente um terramoto 8.0 na escala de Richter.

É a história vista um pouco como as sucessivas camadas de uma cebola, com uma pitada de marxismo atirada ao barulho.

Mas voltando ao Rui Guerra e ao Mo.

Segundo o Rui, a afirmação da hora de Mo foi que o problema de África era que “os africanos não têm uma cultura de trabalho”.

Se calhar acertadamente, mas só parcialmente assim.

Rui Guerra não concorda e rebate Mo, em três frentes. Refere os milhões de mamanas e os agricultores no mato que trabalham que nem cães e de sol a sol.

Refere ainda que o fazem, apesar de na maioria dos casos não terem minimamente condições para o fazerem e ainda menos para prosperarem.

E refere que se calhar (e a meu ver, o que se esperaria precisamente de Mo Ibrahim) o dedo se devia ser apontado às elites locais e à sua deficiente liderança.

Rui Guerra conclui referindo que, não havendo nem condições nem recompensa adequada pelo trabalho, que não existe motivação para trabalhar – donde se conclui que, por outros caminhos, ele “afenal” concorda com a aferição do Sr. Ibrahim.

O que Rui Guerra está a dizer corresponde àquele velho ditado africano, segundo o qual se não há banana, não há macaco.

Com base na minha alguma experiência na área do trabalho, em Moçambique, em Portugal, em Angola e nos estados Unidos, este tópico dava para escrever um livro.

Mas como aqui no Maschamba o nosso Senador urge-nos para nos deixarmos de discursos e ir directo aos assuntos (a sua razão principal é que defende que os Maschambianos não têm pachorra para andar a ler textos demasiadamente espessos) farei apenas algumas anotações.

E referirei, por maioria de razão, apenas Moçambique.

Primeiramente, há que ver que – e já referi esse tema nesta casa mais que uma vez – que há dois Moçambiques, o das cidades e o do mato.

Focarei apenas na cidade, que conheço melhor.

A vida em cidades como Maputo, apesar de oferecerem oportunidades (e por isso atraem crescentes multidões vindas do mato, onde ainda está a viver Deus sabe como a esmagadora maioria da população), apesar de tudo ainda constitui um enorme desafio. Em geral, há infelizmente muito menos oportunidades de trabalho do que a procura. Permanecem enormes disparidades nas diferentes esferas de actividade, excesso de procura nos trabalhos menos qualificados e falta de quadros em muitas outras áreas.

Isso significa que há gente muito bem paga pelo que faz, e gente estupidamente mal paga. Por exemplo os empregados domésticos, onde os salários são uma anedota em termos do que proporcionam em termos de condições de vida aos trabalhadores. Viver com menos de cem dólares por mês em Maputo é menos que sobreviver.

Ou esperar que um caixa de um banco que ganha 300 dólares por mês e que vive com a mulher e três filhos numa palhota no outro extremo do Zimpeto, apareça todos os dias às sete e meia da manhã no local de trabalho com um fato impecável, sorridente e pronto para uma jorna (mas- tiro o chapéu a Rui Guerra – a minha experiência é que eles e elas apareciam, e faziam o seu trabalho, condignamente).

Mas esta é a lei da oferta e da procura. Não há como dar a volta ao assunto e por isso a situação persiste. E vai durar muito tempo ainda antes que o cenário se altere.

E segundo, apontarei dois aspectos relativamente claros que nem por isso são “africanos” per se mas que creio têm relevância.

O primeiro aspecto tem que ver com o equilíbrio da relação que as pessoas com a  empresa onde trabalham (e o trabalho que faz) e com a sua vida pessoal e familiar. Na África do Sul, na Europa (Portugal mais ou menos) e nos Estados Unidos, pareceu-me haver uma maior dedicação das pessoas em relação às empresas onde trabalham, muito frequentemente em detrimento da sua vida pessoal e familiar.

O que é relativamente fácil: são relativamente bem pagas, têm boas condições de vida, os países onde vivem têm toda uma infra-estrutura desenvolvida e estão bem treinadas. Têm água e electricidade 24/24 horas em casa, não falta gasolina, a comida está no supermercado, coisas desses género.

Em Moçambique, apesar daquela deliciosa relação de trabalho instituída pela legislação de origem portuguesa a qual, por exemplo, os empresários sul-africanos nunca jamais irão entender, nem sempre é assim. Pelo contrário. As dificuldades são significativas, quer para as pessoas que trabalham, quer para o seu círculo familiar alargado e rede de amigos. E as pessoas nem sempre estão bem formadas para as funções que desempenham ou têm condições de trabalho. Ou para aprenderem.

Isto de o emprego não ser a religião número um de cada um não é necessariamente mau (e se calhar é mais saudável a longo prazo que a paranóia induzida que se vê no mundo mais industrializado).

Mas para os Mo Ibrahims deste mundo, cuja vida é quase singularmente medida pelo que fazem no emprego, essa percepção de um maior distanciamento é logo convertido em falta de cultura de trabalho.

O que me traz ao segundo aspecto, que está relacionado com o primeiro.

Em Moçambique, regra geral, a família e os amigos importam. E as redes de amizades e de familiares são muito mais extensas que as unidades familiares nucleares que se vêm na Europa e noutros países, onde a “família” (como todas as empresas se espremem para promover, em seu interesse) é a imediata (pais, filhos e irmãos) mais a empresa onde trabalham e quem lá trabalha. Uma morte, uma doença, um problema, despoleta muito mais depressa uma ausência (física ou virtual) em Moçambique, do que o que, regra geral, se vê nuns EUA e na Europa.

E faz algum sentido que assim seja. Em África, muito mais que em países com perfis muito diferentes devido à sua muito maior riqueza, natureza dos mercados de trabalho e hábitos e estruturas de apoio sociais, hoje em dia há muito menos necessidade, e, logo, dependência, das redes familiar e de amigos como sustentáculos de sobrevivência de última instância. Numa aflição, numa situação de desemprego, em África, são a família e os amigos que nos valem antes que tudo o mais. Ignorar isso é brincar com o fogo.

A meu ver a maneira adequada de lidar com isto é entender o contexto, dialogar com as pessoas com respeito e tentar reconciliar os interesses das partes. Às vezes é delicado, às vezes é exequível, e às vezes é ridículo (por exemplo, o pai do trabalhador não pode morrer três vezes num ano, isso é batota).

Moçambique está a passar por uma fase muito acelerada de mudança, de transição de uma sociedade agrária e pouco qualificada, para uma sociedade moderna, em que convivem bolsas de modernidade com bolsas tradicionais de onde as primeiras emergiram. Se calhar mais do que noventa por cento de quem vive numa cidade moçambicana hoje tem pelo menos avós que viviam no mato e eram analfabetos. Os poucos que adquiriam autonomia e conforto financeiro fazem-no há relativamente pouco tempo. Os laços tradicionais e familiares estão presentes.

Portanto a evolução de valores faz-se gradualmente. As tradições importam. Têm uma razão de ser. Uma lógica concreta.

Mas no fim do dia, concordo com o argumento final do Rui: se houver um trabalhador qualificado (ou qualificável via programas credíveis de capacitação, o que permanece um enorme desafio a todos os níveis), trabalho aliciante e um salário que suporte uma vida decente, há cultura de trabalho. Não me venham lá com tretas. Nisso, África não difere do resto do mundo.

Pelo contrário, para certas funções o trabalho deve e tem que ser mais remunerado às vezes que em outros países. É mais uma vez a regra da procura e da oferta.

Rui Guerra tem razão em ruminar: Mo Ibrahim poderia ter sido mais generoso no comentário que fez. Aquilo é quase fazer pouco dos pobres.

Decerto devem ter sido todas essas centenas de milhões dólares que Mo tem na sua conta bancária que, momentaneamente, obscureceram a sua conhecida e, creio, genuína empatia para com os seus irmãos africanos.


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VAIPRAKONADATUATIAMEUKABRÃO

Quarta-feira, Agosto 11th, 2010

Carlos Queiroz e Eusébio da Silva Pereira

por George Ribéro, título e edição por ABM (11 de Agosto de 2010)

Definitivamente, Carlos Queiroz e a Federação Portuguesa de Futebol não se têm dado bem.

Penso que será tudo uma questão de mentalidades.

Recapitulemos um pouco.

Em 1989 e 1991, Portugal foi campeão do Mundo de Juniores (Sub-20) ao vencer na primeira final, na Arábia Saudita, a Nigéria por 2-0, tendo em 1991, em Lisboa, vencido o Brasil nas grandes penalidades.

Em ambos os Mundiais, o treinador de Portugal foi Carlos Queiroz.

Ficou então provado que Carlos Queiroz era excelente a formar jovens jogadores de craveira mundial.

Mas muitos torceram o nariz quando Queiroz foi o eleito para treinar a equipa principal de Portugal. Afinal, ia lidar com adultos. Portugal perdeu com a Itália e não foi apurado para o Mundial 94 nos EUA. Na altura, Queiroz disse em alto e bom som que a FPF precisava de uma vassourada para tirar de lá os podres do futebol Português.

Logo a seguir, e até 1996, treinou o Sporting Clube de Portugal, tendo ganho uma Taça de Portugal.

Partiu depois para o estrangeiro, onde treinou várias equipas, como a selecção dos EUA em 1997, os Emiratos Árabes Unidos em 1998, a selecção da África do Sul de 2000 a 2002, tendo apurado a selecção africana para o Mundial 2002, e equipas como o Nagoya do Japão, os MetroStars dos EUA e, finalmente, como adjunto de Sir Ferguson no Manchester United, com um intervalo de um ano para treinar o Real Madrid, em 2003.

Ou seja, experiência “adulta” não lhe falta, sendo sobejamente conhecido e respeitado a nível mundial.

Estava Queiroz tão bem em Manchester, quando em 2008 aceita o convite para treinar a selecção nacional, para mim um desafio enorme, não pelo valor dos jogadores portugueses, mas pelos tais podres que ainda existem na Federação Portuguesa de Futebol. Cá para nós, os tugas só gostam de complicar e gostam de se pôr em bicos de pés quando a coisa corre bem e assobiar para o ar quando acontece … borrada. Lembram-se de Saltillo e Coreia? Pois…

A ideia inicial era apurar Portugal para o Mundial de 2010 na África do Sul e Queiroz fez a vontade. Pelo meio, aconteceram coisas estranhas, como a lesão de Nani, que viajou para a África do Sul e depois regressou a Portugal. Uma escassa semana depois, já estava fino e pronto para outra. Estranho. Mas quem sou eu para duvidar da lesão do jogador, penso que no ombro?

Obscuro para quase todos nós na altura, emerge há dias que, durante o estágio na Covilhã, uns senhores do CNAD – Concelho Nacional Anti Dopagem, decidiram fazer umas análises a alguns jogadores portugueses. Os relatos indicam que Carlos Queiroz não ficou agradado com a visita desses senhores. Afinal, estavam em pleno estágio e a concentração é muito importante. Por sua vez, o CNAD tem o direito e dever de fazer o seu trabalho para prevenir possíveis escândalos durante o Mundial. Então, ao que tudo indica, Carlos Queiroz terá dito algo como “Vai mas é fazer análises para a c… da tua mãe”, uma linguagem escandalosa enquanto cabeçalho de jornal, mas, para quem acompanha o futebol, perfeitamente normal no quotidiano do mundo futebolístico.

Penso que a FPF, sentindo os ventos internos, e mortinha por despedir o treinador (sem pagar) decidiu abrir um inquérito aos acontecimentos, entretanto relatados pelos profissionais do CNAD, cuja versão foi a divulgada. Assim, caso Queiroz fosse considerado culpado, por conduta imprópria, não haveria lugar a uma indemnização que se diz rondar os 3.5 milhões de euros.

Muita massa.

Queiroz, moçambicano de Nampula (o Super Macua) não é propriamente mentecapto e contra atacou com testemunhas de peso como, entre outros, Pinto da Costa, Alex Ferguson, Figo e Filipe Vieira. Já estou a ver o Figo a dizer quantas vezes já lhe chamaram filho da puta, cabrão e outras coisas piores, mesmo entre colegas. Seria bonito afinar cada vez que lhe chamavam um desses nomes mais “floridos” por falhar um penalty ou um passe.

Moral da história: Quem está ligado ao futebol sabe que todo o impropério que vai de filho da puta para baixo, não é verdadeiro, não há comunicação.

Tentar afastar o Queiroz com uma desculpa dessas é no mínimo ridículo. É querer maliciosamente envenenar a imagem do homem e tentar escapar de pagar o que contratualmente lhe é devido.

Queiroz pode não ser um Mourinho. Há quem diga que é melhor como director técnico que como treinador de campo e aí posso até concordar mas, caramba, o homem apurou Portugal para o Mundial 2010, apurou a África do Sul para o Mundial de 2002, deu DOIS títulos mundiais a Portugal (Sub-20), treinou grandes equipas e afinal, não presta para Portugal?

Mostrem-me lá esse caixote do lixo.

Vamos ver no que dá este inquérito. Mas cá para mim, Queiroz na selecção, só por birra ou para obrigar a Federação a pagar a tal pipa de massa. Esse dinheiro até dá para comprar uma ilha em Moçambique (em concessão devidamente autorizada, entenda-se), porque não?

Uma coisa é certa: Carlos Queiroz não ficará desempregado por muito tempo.

Pergunto: Se Portugal tem ido mais longe no Mundial da África do Sul, estaríamos nós agora a assistir a esta patética novela ou estariam a esta hora os senhores do CNAD a fazer análises … noutro “sitio” qualquer?


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ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO 2009

Quarta-feira, Agosto 11th, 2010

O Reverendo Martin Luther King, Jr.

por ABM (11 de Agosto de 2010)

Na sua edição de hoje, o diário maputense Correio da Manhã (editor Refinaldo Xilengue, prémio CNN há uns anos) focou na classificação de Moçambique – 172º num total de 182 países, ou seja, 10º a contar do fim – num relatório anual, que já vai na 20ª edição,e que é publicado por uma das organizações da ONU chamada UNDP (em bom português, PDNU – Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas. Hum, a organização é um programa…).

Na verdade, e só para baralhar as tropas, segundo uma notinha de rodapé no fundo da página do sítio do tal Programa, o relatório é de 2009 e reporta-se a dados de 2007.

A peça que saiu no Correio da Manhã, pela mão de Filimão Saveca, refere o seguinte em relação a Moçambique: que se assiste a “uma deterioração significativa da distribuição do rendimento ao longo do tempo”.

No relatório que li e que contém alguns dados que transmitem uma radiografia preocupante sobre os moçambicanos, vai-se mais longe. Esses dados podem ser consultados aqui.

E aqui reside alguma da perplexidade: se se ler quotidianamente a imprensa moçambicana, ela está absolutamente cheia de notícias de milhões doados, milhões investidos, obras por toda a parte, postes de electricidade, redes de comunicações, estradas, pontes, mega-projectos sem fim em quase todas as áreas e mais alguma, negociatas disto e daquilo, hotéis, aeroportos, etc etc etc.

E depois lê-se este relatório, que fala num outro Moçambique que por vezes aparenta que só aparece quando chega a hora de negociar (pedir? exigir?) donativos de toda a forma de um conjunto de países que fazem questão disso.

O Moçambique onde em média se morre antes dos 48 anos de idade.

O Moçambique onde menos de 45% das pessoas sabe ler.

O Moçambique com um Produto Nacional Bruto per capita anual de 802 dólares (que dá 2.2 dólares por dia).

O Moçambique onde 58% das pessoas não têm acesso a água potável.

O Moçambique onde 24% das crianças estão cronicamente mal-nutridas.

O Moçambique em que o analfabetismo atinge as mulheres muito mais que os homens.

É um convívio pouco fácil, este entre o Moçambique que leio nos jornais todos os dias, o das negociatas e do desenvolvimento, e o Moçambique que os senhores do PDNU relatam, que é de uma miséria desoladora, avassaladora.

Talvez seja assim porque esta maioria não compra nem lê estes jornais.

Porque são pobres e são analfabetos.

E assim, como na obra de Charles Dickens, os dois mundos convivem.

Finalmente, para ilustração e algum enquadramento, indico alguns países que constam na classificação do relatório:

1º – Noruega
2º – Austrália
3º – Islândia (ah ah ah)
12º – EUA
15º – Espanha
27º – Israel (ver abaixo os territórios palestinianos ocupados)
34º – Portugal, entre o Quatar e os Emirados Árabes Unidos
75º – Brasil
92º – China
110º – territórios palestinianos ocupados
121º – Cabo Verde
128º – Namíbia
129º África do Sul
131º – São Tomé e Príncipe
134º – Índia
142º – Suazilândia
143º – Angola
151º – Tanzânia
160º – Malawi
162º – Timor-Leste
172º – Moçambique
173º – Guiné-Bissau
181º (e penúltimo) – Afeganistão
182º – Níger


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A TEORIA DO COPO MEIO CHEIO

Terça-feira, Agosto 10th, 2010

por ABM (10 de Agosto de 2010)

Quer o Diário de Notícias de Maputo, quer, o Canalmoz, que se publica naquela cidade, publicaram artigos hoje reflectindo análises feitas pela área de investimento do BPI (que opera em Moçambique via a sua participação no BCI) e pelo estudo Doing Business, indicando que o crescimento económico é excelente e que o clima de negócios ainda é melhor. O mesmo referiu o sítio Macauhub.

Pena é que, para quem vive em Maputo e arredores, com a inflação, a desvalorização do metical, a subida no custo do crédito e a subida excepcional de alguns dos elementos que constituem as componentes da inflação (água, luz, etc) tal não seja tão aparente. Digamos que, apesar de tudo, os salários não estão a acompanhar a rósea imagem.

Mas não haja dúvidas quanto à melhoria do clima de negócios. Que o diga a CTA e o CPI (agora com novo boss): segundo o survey Doing Business, dos 183 países analisados, Moçambique este ano melhorou nada menos do que cinco lugares na tabela.

Fantástico.

Passou de 140º para 135º na tabela.


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MOÇAMBIQUE PARA OS RICOS

Segunda-feira, Agosto 9th, 2010

por ABM (9 de Agosto de 2010)

Segundo o sítio Panrotas, dedicado ao negócio do turismo, “o governo de Moçambique anunciou um aumento na taxa dos vistos para turista. Agora, as liberações passam a custar US$ 82 por pessoa no Aeroporto Internacional de Maputo e na fronteira de Komatipoort – as principais portas de entrada do país. A recomendação é para que todos os turistas, com viagem marcada para Moçambique, estejam cientes do aumento da taxa de visto antes da chegada.”

Sendo, supostamente, o turismo uma área crítica para o desenvolvimento do país, e a competitividade dos países feroz pela atracção dos turistas para visitarem as suas estâncias, é no mínimo curioso o anúncio desta medida, que deve ser das mais anti-turismo estrangeiro que eu já vi em muitos anos em qualquer parte do mundo.

Especialmente numa fase de recessão mundial e em que o produto turístico moçambicano ainda busca alguma definição e qualidade (a qualidade que há é ainda excessivamente cara, ou seja, pelo mesmo preço compra-se muito melhor noutros mercados.

Nomeadamente para o mercado português, que é um desses países ainda de alguma expressão e dos que ainda tem voos directos regulares para a capital moçambicana, exigir 82 dólares por um visto de entrada (que é meramente, admita-se, uma medida administrativa, agora com um cariz algo extorsionista), em cima do que já é exigido para viagem e estadia, este valor apenas vai tornar óbvio que o melhor é ir para outro lado qualquer.

Mas eles lá sabem.


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JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA

Sexta-feira, Agosto 6th, 2010

Edward R Murrow, um ícone do jornalismo norte-americano

por ABM (6 de Agosto de 2010)

A morte de Mário Bettencourt Resendes veio salientar a minha constatação quanto à crescente precariedade e preciosidade, no actual jornalismo português, daquela mistura de qualidade, experiência, perspectiva, objectividade, independência e honestidade frontal que faz desta actividade profissional uma das mais nobres e quiçá importantes da vida social e política modernas. Mário Crespo também está lá. E também uma jornalista da SIC que tem enorme potencial (não sei o nome dela).

Mas pouco mais. Pelo menos mais um.

A entrevista que deu na estação por cabo TVI24 na madrugada de 6 de Agosto (programa Livraria Ideal, excelentemente apresentado por João Paulo Sacadura), veio recordar-me que esses elevados padrões de jornalismo existem e estão de saúde na pessoa de José Pedro Castanheira (JPC).

Para quem tem o azar de não saber, JPC faz jornalismo há uns 40 anos e há 20 que é jornalista (sob a designação de “repórter principal”, que espero queira dizer que receba mais umas massas no fim do mês) no semanário Expresso, de Lisboa, sendo a meu ver uma das suas maiores valias, ainda que algo sub-aproveitado, pois se JPC fosse americano ele hoje já estaria na equipa do 60 Minutes e teria uma bruta equipa e orçamento para fazer aquilo que eu acho que seria um serviço crítico a Portugal, seguindo os passos do grande Edward R Murrow (o senhor que está lá em cima a ler uma revista e que é um ícone do jornalismo norte americano e uma inspiração para mim e mais algumas pessoas, espero).

Na breve entrevista, José Pedro Castanheira explicou o problema da sua área de especialidade, que é simples.

Sobre isso, falo mais abaixo.

A sua presença no programa foi a propósito de um estudo que fez e agora publicou, sobre um tal José Aires de Azevedo, sob o título Um cientista português no coração da Alemanha Nazi, que à partida parece ser uma versão portuguesa do Dr. Mengele e que fez pesquisa clínica sobre “higiene” racial, a pureza da raça e essas coisas exóticas, muito na moda nos círculos de Hitler e em muitas partes da Europa nos anos 30 do século passado, onde se buscavam bases científicas para justificar porque é que as pessoas de raça branca estavam, e deviam estar, no topo da cadeia alimentar humana. Em 1943 Azevedo regressa a Portugal e basicamente é ostracizado e desaparece do mapa, queixando-se JPC que a família dele, que ainda anda por aí, fugiu dele (de JPC) aceleradamente, sabe-se lá porquê, deixando a história mais ou menos a meio (se calhar não acham lá muita piada ao que o seu antepassado andou a fazer, pois o tema estes dias é políticamente incorrecto).

JPC referiu ainda um assunto, uma outra história quase inacreditável, que tem vindo a analisar, sobre Annie, que, revela, foi a única filha do conhecido major Fernando Silva Pais, o número um da Pide nos últimos tempos da II República (aka “Estado Novo”) que às tantas casou-se com um diplomata suíço, que entretanto foi transferido para Cuba em 1959 e que, só para chatear, apaixona-se assolapadamente pelo liricismo da revolução comunista ocorrida então naquela ilha, e ficou lá a viver, participando alegremente nos seus rituais, desde andar em comícios fardada de verde à Fidel, a, de rabo para o ar, apanhar cana de açúcar de catana na mão na altura das colheitas, para ajudar la Révolución. Entretanto Silva Pais estava em Lisboa em cima da Pide a proteger a ditadura liderada sucessivamente pelos dois professores e a dar porrada em tudo o que estivesse à esquerda da direita, que, a acreditar no que se lê, era o país inteiro. Ela só vem a Portugal em 1974, depois do 25 de Abril. Foi ver o pai na prisão de Peniche, onde ocorreu um reencontro emocional. Ela aparentemente adorava o pai mas não a mãe.

Para saber mais, o exmo leitor vai ter que se comprar o livrinho de JPC.

Mas a parte da curta entrevista que me fez pousar a chávena de chá (o João Paulo Sacadura bem tentou mas com meia hora para incendiar e deitar os foguetes fez o que pôde, eu podia ficar a ouvi-los mais três horas) foi quando JPC falou da sua actividade profissional e proferiu uma frase quase murrowiana: referindo-se ao jornalismo actual em Portugal, disse qualquer coisa como “o estado da imprensa é o melhor termómetro do estado da democracia” – sugerindo em seguida que algo anda mal em Portugal.

E referiu fenómenos e tendências que infelizmente são facilmente constatáveis aqui do lado de quem consume o seu produto; a rápida tabloidização da grande imprensa portuguesa, o reforço do jornalismo sensacionalista e popular(ucho) – que ainda por cima tem a vantagem de ser muito mais barato e, pelo sensacionalismo (rasca) que lhe está associado, tem mais impacto. Diz ainda que o tempo presente é um desafio para o jornalismo de investigação, que é muito mais caro, e requer um tipo de abordagem que exige muito mais dos seus profissionais, pois não permite abordar os temas apenas pela rama, abordagem que estes dias é o pai nosso de cada dia.

Na televisão então é uma praga.

O que ele não disse, mas que para mim decorre, é que o negócio do jornalismo português, sendo cada vez mais corporativo e empresarial (já lá vão os tempos em que os jornais e as estações de televisão tinham um patrão e dono, que, bem ou mal, decidiam os seus alinhamentos) procura originar o produto o mais barato possível e que gere a maior receita possível (custo do programa a dividir por share de audiência mais receita publicitária agregada igual a lucro) sendo que, como membro da comunidade empresarial, terá assim a tendência de mais facilmente procurar consensos com a restante comunidade empresarial e os governos da casa. Os resultados directos são a prostituição da actividade, o debilitar do debate público e o enfraquecimento da vivência democrática.

Nos últimos quinze meses tem-se assistido a claros indícios desta tendência.

No caso da TVI, tudo indica que foi uma negociata: o negociar da conveniência editorial à conveniência política, com umas trocas de participações pelo meio e o expelir do casal Moura Guedes/Moniz de uma organização.

E não só aqui. Na mitológica CPLP (Brasil e Cabo Verde excluídos), onde imperam regimes que um estudo publicado a semana passada no Economist classificava como (em inglês, sorry) authoritarian ou flawed democracies, com poucas excepções, a tendência é ainda mais acentuada para se praticar um jornalismo mais cor de rosa, positivista, desenvolvimentalista, situacionista. Quantas Prisas e TVI’s há por lá.

Mas isto é apenas um pensamento.

Apesar de apenas ter tido tempo de referir apenas alguns tópicos, o que JPC abordou esta noite merece séria reflexão.

Por exemplo, imagine o exmo Leitor Edward R Murrow a investigar o chamado Caso Freeport.

Seria uma festa.

E para variar, por uma vez, credível.


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