(por AL lacrimosa) –
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LacriMozart
Terça-feira, Agosto 31st, 2010Luto
Segunda-feira, Agosto 30th, 2010Cromos Prováveis
Terça-feira, Agosto 24th, 2010(por AL em produção fictícia) –
AVISO: qualquer semelhança com pessoas ou acontecimentos reais será pura coincidência
Era um falhado! Estacionava a vida de escombros e fracassos num buraco a que chamava casa. Ocupava os dias a desenvolver projectos que não passavam dos sites e em folhetos que lhe consumiam o capital de arranque (pouco, muito pouco, quase sempre nada). Já entrado na meia idade vivia sustentado pela família, amigos e por aqueles com quem se ia endividando. Dizia-se sonhador e aos erros consecutivos chamava opção de vida; com esse mant(r)a tapava a avalanche de fracassos que o compunham. Pode mesmo dizer-se que era bem sucedido a fracassar.
Uma outra coisa conseguia fazer com sucesso: seduzir! Protagonizava na perfeição o papel de sedutor cinéfilo. Ah!, isso sim!, saía-lhe sempre bem. Pelo menos durante algumas semanas, ou dias. As deixas, essas, eram sempre as mesmas: os cabelos dela na almofada, o corpo enrolado no lençol e outros romantismos serôdios. Adoçava a conversa com citações de filmes ou livros, inseria referências a locais e gentes interessantes com quem se tinha cruzado; contava-lhes maus comportamentos passados. Deixava-as de manhã com bilhetes de amor e o pequeno almoço preparado. Ocupava-lhes o dia com SMS delicodoces e metafóricos. Gastava os tostões cravados em jantares e vinhos gourmet, num esbanjamento de indiferença pelos bens materiais. Assim as prendia e assim lhes vampirava os corações.
Depois, tal como nos filmes que acabam com o beijo, também a ele se lhe esgotava o script, falhava-lhe a continuidade. Consumidas as deixas não se conseguia reinventar. Chegara a hora de procurar outra protagonista para as mesmas linhas cansadas. Descartava-se então da mulher conquistada, agora desorientada com o Mr Hyde que de repente se lhe revelava. Empatava uns dias. Para dar tempo a que o amo-te passasse a amei-te e que o hei-de amar-te se convertesse em amo-te. O guião, esse, continuava a ser o mesmo: os cabelos na almofada, o corpo enrolado no lençol…
Era completamente bi-dimensional, com um trompe l’oeil de profundidade. Enfim, não passava de um palhaço! Um cromo!
Post dedicado aos nossos fotógrafos residentes
Sexta-feira, Agosto 20th, 2010(por AL em reacção retardada)
Celebrou-se ontem o Dia Mundial da Fotografia. Tendo nós dois fotógrafos residentes – o PSB e o MVF – aqui fica a nossa modesta homenagem: a re-reprodução de uma foto de cada um deles, ja publicadas aqui noutros posts. A selecção das fotos foi minha.
Do MVF escolhi a da sua estreia:
Apreciem!
Um Arco-íris no ar
Domingo, Agosto 8th, 2010(por AL a vadiar) –
Despertou o meu dia alegre e luminoso. Sem sombras. Fazemo-nos à estrada e rumamos para a Ericeira. No calor da conversa duas vezes nos perdemos e, rindo, duas vezes nos encontramos. Chegamos à praia já povoada de amizades consolidadas no tempo e na memória. Aí passamos o dia, trocando conversas e fazendo chalaças. Não fora o mar gelado e o dia teria sido perfeito.
Ao fim da tarde sacudimos a areia dos corpos e vamos até à exposição dos nossos Miguéis – Maresias. Nos quadros do Miguel Barros apreciamos uma Ericeira de tela, textura e cor; com o Miguel Valle de Figueiredo aprendemos como se fotografa o intangível. Como que num reverso das duas artes – o objecto marcante e definido na pintura e a ausência de objecto na fotografia. Vale a pena ir à Ericeira e visitar a exposição!
A cereja em cima do bolo foi o excelente vinho branco da Quinta das Carrafouchas, com que se regou a exposição e com que iniciámos as “hostilidades” fluidas. O jantar foi asiático, leve e divertido. Rematámos com um concerto de excelente música ao ar livre, que se prolongou noite fora noutros folguedos. Mesmo mesmo antes de adormecer chegam-me ecos de uma promessa. Foi um dia muito bom!
Elogio da Tecnologia
Quinta-feira, Julho 29th, 2010(por AL virtual) –
Que fazer insone, em Lisboa, às 3 da madrugada?, pergunto-me eu às voltas na cama. Levanto-me e vou até à janela ver o silêncio das ruas. Vou à cozinha, bebo água, agarro nas bolachas e largo-as enfastiada. “Apetecia-me caminhar”, penso e não faço. Vou até ao computador. Ligo-o e ligo-me à internet. Vejo online um amigo igualmente insone. Encontramo-nos. Com a conversa na ponta dos dedos passeamos os dois pela nossa amizade virtual. Finda a cavaqueira desligo o computador e volto para a cama, agradada com o passeio. E enquanto me interrogo: “Como é que se vivia antes da internet?”, chega-me o sono de mansinho e deixo-me dormir consolada. Que a vida é feita de pequenos nadas…
Ao Vivo e em Technicolor (com uma ou outra a preto e branco)
Terça-feira, Julho 27th, 2010(por AL nepotista) -
O nosso maschambeiro fotógrafo MVF e o nosso maschambiano pintor (e contribuinte por procuração) – o Miguel Barros – juntaram cumplicidade e memórias da Ericeira para partilharem connosco. Eles, melhor que eu, se explicam:
MARESIAS
Para o Miguel Barros, pintor, e para o Miguel Valle de Figueiredo, fotógrafo, a vontade de fazer uma exposição conjunta não é nova, mas por voltas da vida, só recentemente foi encarada como possível. Questões várias se levantaram, e a primeira delas – a mais importante – prendia-se com a escolha de um tema que fosse comum aos dois amigos e em que as imagens de um e outro fossem de algum modo complementares. E que tema? Goa? Era possível… Ou Índia mais genericamente? Mais complicado mas ainda assim… E Brasil? Mas qual? Lisboa? Talvez um dia…Portugal das pedras antigas ou o quê afinal? Um tema desligado de geografias? Mar, retratos? Afinal a escolha era tão mais fácil quanto óbvia: Ericeira. A Ericeira desta e de outras amizades, das praias e dos mergulhos revigorantes naquele mar bravo e franco, a Ericeira das cumplicidades e de lugares que se conhecem de cor, a Ericeira das mil e uma noites e das manhãs de névoa, a Ericeira que vai mudando com o tempo do mundo e com as vontades dos homens, a Ericeira que trazemos na memória, dos alvos telhados e das rochas nas Furnas, dos gelados da UCAL e dos queques da Gama, do pão quente a horas pouco cristãs lá no Norte depois das danças no “Ouriço”. A Ericeira dos antigos “banheiros” que nos ensinaram que o mar não é para se ter medo mas que temos de o respeitar, das batatas fritas e dos bolinhos quentinhos na Praia do Sul, dos patins em Santa Marta e da esplanada do “Xico”. A Ericeira de tantos outros sítios, de tantas histórias, aventuras e paixões e à qual se volta sempre nem que seja numa conversa.
De tudo o que lembramos e de tudo o que se foi e vai transformando, há, no entanto, uma coisa única e imutável, bem conhecida de todos os devotos da Ericeira e que, finalmente, serviu de título a esta mostra:
O “cheirinho a maresia”
Miguel Valle de Figueiredo
Lisboa, Julho de 2010
Aqui fica o convite para os leitores maschambianos
e mais umas fotos das obras que irão estar expostas – dois olhares e duas artes. Vamos então à Praia do Peixe. Primeiro, com o Barros dos Miguéis….
… e agora com o nosso MVF
Estreia
Segunda-feira, Julho 26th, 2010(por AL em jeito de estreia)
O meu neto Benjamim que é tão lindo que até dói, adora a água e o banho. Agitam-se-lhe as mãos num frenesim de splashes, que nem maestro em delírio de Valquírias, e abre-se-lhe o rosto num sorriso já povoado com dois dentes. Ihhhhhh, guincha numa orgia de agudos; pá-pá-pá-pá-pá, alegra-se ele numa onomatopeia de proto-linguagem; Neptuno reencarnado e reinando na sua porção de mar. Sem tritão, mas de igual fúria, revelada em protestos gritados quando o banho chega ao fim. No deleite do meu neto aprendo o prazer das coisas simples da vida.
A minha neta Teresa, que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é, deslumbra-se com os jogos de sombra e luz que dançam nas folhas das árvores do quintal. Observa silenciosa e atenta, como quem escuta um segredo. Fshhhhhhh, agitam-se as folhas ao vento. Guuuu-gáááá, responde a Teresa em jeito de conversa. Fshhhhhhh, insistem as folhas e Teresa solta uma gargalhada cúmplice de cavaqueira privada. No deslumbramento da minha neta aprendo a beleza da luz.
Os meus netos ensinam-me a vida!
Hoje estreei o meu primeiro Dia Mundial dos Avós.
Luzes na madrugada
Sexta-feira, Julho 23rd, 2010(por AL desperta) –
Acordo em sobressalto com o galope do peito. No silêncio da madrugada só a minha dor grita. Calada. Vou até à varanda do meu refúgio ver o mundo que começa a colorir-se de luz e de cores que não chegam ao mundo de cinzentos que me habita. Daqui não se vê a esquina onde dei um primeiro beijo. Fica já ali a esquina. Perto, muito perto, mas tão perdida agora para mim quanto o amor que lá estreei.
Postal da Rua da Paz
Quinta-feira, Julho 22nd, 2010(por AL refugiada) –
Da varanda do meu refúgio olho para as vidas que na rua se tecem. No rés-do-chão do prédio de esguelha, uma janela aberta, vestida de cortinas de linho com entremeios de renda. Bonitas. Ela, já idosa, vai desfiando as horas do dia a costurar roupa e cansaço no parapeito. Ao fim da tarde junta-se-lhe a amiga. Mais nova, chega a cabo-verdiana ajoujada de sacos e de um dia de trabalho. Pegam-se de conversa. Do lado de dentro relatam-se os dramas diários da rua. “Foi um AVC!”, anuncia-se com espanto; ”Só um filho e um neto e veja lá a desgraça”, comisera-se; “É uma vida madrasta”, apoia-se. Do lado de fora chegam notícias das Avenidas Novas, das patroas que se prolongam em extensões de cabelos e unhas e se seduzem em carros de luxo. Trocam-se as amigas nos quotidianos e juntam-se nos insultos às vizinhas. Mastronça!, vem gritado lá de dentro; Mastronça!, ecoa gritado do lado de fora, em invectiva apontada a uma janela que permanece fechada. É uma amizade improvável debruada a mexerico e rematada em harmonia racial. Despedem-se: Até amanha!, Até amanha!. E fico eu, sozinha na varanda do meu refúgio, agradeço a serenata dos canários do prédio mais adiante, viro as costas à Rua da Paz e volto ao turbilhão da minha alma.
Uma dor de alma
Quarta-feira, Julho 21st, 2010Sabedoria Popular
Quarta-feira, Junho 9th, 2010(por AL desatenta) –
Se há sabedoria popular que me é particularmente antipática, o mote do “não deixes para amanhã” figura com certeza no top-10. Hedonista por excelência e adepta ferrenha da gratificação instantânea, nem podia ser de outra forma. No meu léxico figura como “não faças hoje o que podes deixar para amanhã, ou depois” o que, perante a precariedade da vida, me parece bem mais sábio. Não admira portanto que tenha sido (e continue a ser) o trecho de sabedoria popular que mais me tem atormentado por via da sua invocação por terceiros (se já sabias que hoje ias sair, porque é que não preparaste logo tudo?). Mas se na grande maioria das vezes a procrastinação me tem vindicado, outras há em que tal não acontece. Principalmente quando são coisas que me agradam.
Vem isto a propósito dos jacarandás de Lisboa. Sou por natureza desatenta, mas confesso que só este ano me apercebi do meu grau de desatenção. Nunca tinha reparado que Lisboa tinha jacarandás! Ia, aqui há dias, caminhando desatenta da minha vida pelas ruas de Lisboa quando tive o meu momento Twilight Zone – por um breve instante senti-me teletransportada para Pretória: uma imensa mancha púrpura brilhava por entre os verdes do Parque.
Ahhh, ohhh disse nos primeiros momentos de confusão. Mas, mas, sao jacarandas! a destacar o obvio… Hmmm, pensei, tenho que tirar uma fotografia a isto e fazer um post para o maschamba; amanhã passo cá outra vez. E assim alegremente fui adiando a tarefa – hoje não trouxe a máquina; ontem não tinha bateria na máquina; no outro dia já era escuro; antes disso havia demasiada luz… enfim… lá fui alegremente procrastinando, aumentando a urgência da tarefa na proporção da mancha púrpura no chão.
Finalmente ontem fui derrotada pela chuva: começou ao fim da tarde e prolongou-se por quase toda a noite, com a fúria de uma vingança. Não fui ainda ver, mas acredito que a devastação nos jacarandás tenha sido total. Armei-me em navegadora (referência de pretensão humorístico-invocadora) procurei na internet – o último reduto da aflição. Encontrei esta foto que aqui fica postada. Não faz jus à beleza dos jacarandás mas…. quem dá o que tem…. fica sem nada! Para fechar com mais uma bela sabedoria popular.
Zeitgeist
Domingo, Junho 6th, 2010(por AL em dinavegações)
Tenho andado arredada da maschamba, embalada nas ondas de um amor marinheiro com mãos de seda e de vento, mas não totalmente alheada do que me rodeia. Algumas coisas me ocorreram:
1. A capacidade que o conflito israelo-árabe parece ter em trazer ao de cima o pior que há nas pessoas. Vem isto a propósito do barco turco a caminho da Palestina. Gente que tinha por sensata e “compaixonada” desata-me a espumar pela boca impropérios de uma desumanidade confrangedora. Qual humanitário qual quê? Deitem-nos mas é ao fundo que é para saberem! – como senão fosse de pessoas, de gente de carne e osso, que sangra, e sofre, e tem fome, e tem frio, e sonha, e tem família, e tem amigos… enfim tal e qual como nós, de que se tratasse; nem tampouco de ideais como respeito pela vida, mas sim de um mero jogo de batalha naval povoada com uns entes abstractos, sem rosto e sem alma, mas que dão mais piada ao jogo: 1A, 1B e 1C – navio ao fundo, em versão Nintendo.
Humanitários sim senhora, dizem outros, estes agora acometidos de uma cegueira escolhida e de uma caridadezinha de cariz cristão (?) e ideologias remanescentes de esquerda europeia enquistada. Como se o Hamas fosse uma organização de heróis, merecedores de todo o nosso apoio e como se os barqueiros turcos fossem GreenPeaces a protegerem golfinhos, ou baleias. Ignorando ou esquecendo que o barco foi sempre referido como sendo de “apoio ao Hamas” e nalguns casos, quiçá mais piedosos, “de apoiantes do Hamas e do Povo da Palestina” como se as duas coisas fossem indissociáveis, como se o Hamas não fosse uma organização politica de comportamento altamente questionável, na melhor da hipóteses!
Em minha humilde opinião, que os Hamases e os Arafates da Palestina não sejam flores que se cheirem só me parece que seja defensável por anti-semitas explícitos ou implícitos; que o Estado de Israel não tenha embarcado numa verdadeira paranóia com a defesa, escolhendo acções extremas e humanitariamente condenáveis só me parece que seja defensável por anti-anti-semitas básicos.
E entre um anti e o outro anti está um povo tiranizado pelo vizinho e martirizado por quem diz representá-lo; um povo privado de tudo o que é básico para a mera sobrevivência – comida, medicamentos, água, electricidade, combustível e outras necessidades afins. Um povo que vê as escolas fecharem-se porque o vizinho cortou o fornecimento de água; ou vê as escolas abrirem-se porque os seus líderes precisam dos seus filhos em congregações de escudos humanos; onde abastecimentos básicos se fazem por túneis vitais à sobrevivência civil, que os Hamases rapidamente transformam em rotas subterrâneas de armamento, marimbando-se para quem morre de fome, de dor e de doenças curáveis; um povo cujo sofrimento continua ignorado, talvez porque não caiba entre os antis.
Ahhhh, diz a esquerda caviar, mas o Hamas “ganhou” as eleições! Pois ganhou!, digo eu, e o Mugabe também, e o Sadam lá naquele tempo, e o Bush para mal dos nossos pecados. E depois? Um erro deixa de ser erro quando é “legitimado” por eleições? E entre acusações mútuas dos antis e discursos patetas da comunidade internacional, a “situação” lá se vai mantendo, uns dias melhor, uns dias pior, com a desilusão a alimentar as fileiras dos Hamases e dos Arafates. Como se dois errados dessem um certo, como se o sofrimento fosse mutuamente exclusivo e a violência mutuamente justificadora…
2. Naveguei à bolina até ao Algarve. Constatei o que já de há muito desconfiava: Portugal é muito mais bonito visto de longe.
3. O meu neto Benjamim que é tão lindo que até dói iniciou-se na alimentação sólida. Para trás fica a dieta aborrecida de só-leite e abriu a nova ementa com papas, frutas e sopas. Adorou e para mostrar a sua aprovação brindou a nova gerência com um festival de nódoas!
4. A minha neta Teresa que se podia chamar de Rosa de linda e perfumada que é tem um riso gordo que não é de ficar guardado e amplamente se prodigaliza por quem dela se aproxima. Começa nos lábios, estende-se aos olhos, ilumina-lhe o semblante e solta-lhe um guuu, gaaa por vezes dobrado em alegria.
5. Há coisas que por mais que viva não entendo. Questões de opinião, dizem-me. Serão, mas alguém me explica como é que uma homenagem a Jaime Neves faz correr rios controversos de tinta e a morte de Rosa Coutinho parece receber ovação unânime de primeira página nos jornais? Terá sido porque o mundo ficou melhor? perguntei eu em jeito de quem cospe fininho para o ar. Não, querida, diz-me o meu amor marinheiro, é simplesmente o zeitgeist…
Rounds de Ternura
Sábado, Maio 15th, 2010(por AL “condecorada”) –
Passei ontem o dia com o meu neto Benjamim, que é tão lindo que até dói e com a minha neta Teresa, que podia chamar-se Rosa de linda e perfumada que é.
Quando saíram tinha eu medalhas de todo o tipo de fluido vital passível de ser expelido por bebés daquela idade! A roupa foi para a máquina; eu para a banheira.
Adormeci KO nas ondas do meu mar. Foi um dia em cheio!
Freirices
Segunda-feira, Maio 3rd, 2010(por AL relativamente contente)
Já referi aqui no comentário a um post do ABM que a visita do Presidente Guebuza a Portugal me passou (literalmente) ao lado. Não que, comigo, tal coisa seja difícil de acontecer, mas foi assim mesmo. Vejo hoje na página do Facebook do clube de fãs de Moçambique, que a visita já deu frutos na forma de acordos de cooperação assinados entre os dois países e muito do agrado de todos.
Em relação à cooperação portuguesa tenho sempre sentimentos mistos. Quando em reuniões internacionais, as propostas portuguesas eram-me embaraçosas e acolhiam geralmente olhares depreciativos. Embaraço meu devido não tanto aos programas e projectos apresentados, mas sim pela forma como eles eram propostos. As raízes do luso-tropicalismo parecem calar fundo na nossa alma lusa! Lembro-me de um ‘plano de desenvolvimento nacional’ totalmente elaborado nos gabinetes em Lisboa por ‘técnicos e peritos’ que nem um pé puseram no país que pretendiam ‘desenvolver’ e que o representante da cooperação portuguesa teimava em defender com o argumento que ‘ele gostam de nós e nós entendemo-nos. Não há necessidade de deslocar equipas até cá, nem de fazer consultas, porque nós sabemos o que eles querem’. O plano era de tal forma detalhado que incluía mesmo pormenores de carácter político, tais como a forma de descentralização e composição do governo local, a língua nacional, lei eleitoral, etc!
Outro tesourinho deprimente foi uma conferência em Chatham House em Londres, onde o orador português defendia a ‘relação especial’ de Portugal com as suas ex-colónias, tendo mesmo chegado a invocar o tal dito de que Deus fez o branco e preto e o português fez o mulato, para justificar essa relação especial. O chibalo, o xamboco e outros mimos afins do regime colonial tapados assim pela proezas do macho luso e do ‘somos marinheiros, somos albuquerques’.
Mas por outro lado, pondo de lado o discurso luso-tropical, as propostas da cooperação portuguesa pareciam-me bem mais honestas que a maioria. Apresentavam-se nuas, despidas de hipocrisias e chavões (ditos) humanitários; não se escondiam atrás de putativos ideais de desenvolvimento; não invocavam as altas esferas morais que se usam para tapar preconceitos; não disfarçavam o interesse de promover empresários portugueses ( ainda que de dúbia reputação) e as tecnologias portuguesas (sejam elas quais forem). Parecia-me, que a diferença fundamental entre a cooperação portuguesa e a dos outros países residia sobretudo no grau de sofisticação do discurso; na capa de verniz; no menor grau de exigências feitas ao país receptor. O paternalismo condescendente estava ali, sem subterfúgios de cariz moral tão típicos de muitos ditos programas de desenvolvimento ou cooperação. Assim um bocado como a China, só que com menos dinheiro.
Neste caso particular, agrada-me que se estreitem os laços entre os dois países; gosto muito de Moçambique e agrada-me pensar que o país e as suas gentes podem beneficiar com estes acordos. Espero que beneficiem com eles!
Convite
Segunda-feira, Maio 3rd, 2010(por AL em nepotismo admitido e auto-promoção sem disfarce)
Soe dizer-se que a auto-promoção não é coisa bonita de se fazer, mas não me parece que aqui na maschamba se receie quebrar convenções. Portanto aqui fica um convite aos nossos leitores maschambianos para este “evento” do nosso maschambeiro MVF.
Pena tenho eu de não estar no Porto; mas daqui segue já ‘aquele abraço’!
Celebrações do 25 de Abril
Domingo, Abril 25th, 2010(por AL em zona livre) –
A piada era costumeira quando por lá vivia, em África. Vinha em jeito de adivinha, armada em pergunta malandra aos recém-chegados: qual é o animal que mais mata em África? O leão, diziam uns; o hipopótamo, aventavam outros; o homem, exclamavam ainda muitos, como que adivinhando que tal pergunta traria armadilha. Poucos, muito poucos se lembravam do humilde mosquito.
Mas este humilde mosquito, ou mais propriamente a fêmea do mosquito Anopheles de sua graça, mata cerca de 1 milhão de pessoas por ano na África sub-sahariana e é uma das principais causas de anemias graves, de nasciturnos com pouco peso à nascença, de partos prematuros e de mortalidade infantil e maternal. A sua picada e a doença a ela associada – a malária - aflige entre 350 e 500 mil milhões de pessoas a nível mundial, 86% das quais vivem em África.
Em termos económicos, calcula-se que o Anopheles (ou melhor, da sua senhora) cause uma perda média de 1,3% do crescimento económico anual nos países afectados e chega a representar 40% das despesas com saúde pública.
Hoje é o dia 25 de Abril e celebra-se o Dia Mundial contra a Malária!
Quando a saudade aperta …
Domingo, Abril 11th, 2010(por AL em ondas de nostalgia) -
Não sou grande fã das máquinas fotográficas, embora a quantidade de fotos que aqui tenho postado possa ter levantado suspeitas do contrário. Tenho para mim que enquanto perco tempo com lentes, máquinas e equipamentos, me escapam pormenores mais interessantes. Costumo dizer que aquilo que queremos mesmo recordar fica gravado na nossa memória sem necessidade de adereços (e muitas vezes o que não queremos também, mas isso é outra história). Enfim, manias!
Foi somente com o advento das máquinas digitais que eu comecei a tirar mais fotografias. Acho descomplicado e rápido – disparo aqui e ali sem grandes preocupações e nunca se acaba o filme. Se sair bem, fica; se sair mal, dilita-se. E a única preocupação é recarregar a bateria à noite. Quando há electricidade, claro! Para os sítios onde vou sem electricidade, compro geralmente daquelas máquinas descartáveis. Problema mesmo, é quando se extravia o computador e, com ele, as nossas memórias…
Mas divago. Afinal estava errada e percebo hoje que as fotografias são um excelente auxiliar de memória e que o tempo que se “perde” a tirá-las se ganha quiçá mais tarde no pormenor da recordação. E assim, quando a nostalgia me assola, lá vou eu para os álbuns que tenho na minha hard-drive e revivo cheiros, sabores e amores conforme as fotos vão desfilando. Hoje deixo aqui três, do meu país de adopção e de locais onde fui feliz.
Sem palavras
Sábado, Abril 10th, 2010(por AL em roubo declarado a MVF) -
O nosso co-bloguista MVF, ilustre fotógrafo da praça e viajante inveterado, colocou há pouco esta foto no facebook.
A legenda diz:
Casa do Passal
Cabanas de Viriato
Casa de Aristides de Sousa Mendes, classificada Monumento Nacional.
Será preciso comentar?
Fim da legenda
Porque aqui há umas semanas referi Aristides de Sousa Mendes num outro post, desconsegui de resistir à tentação de pôr também aqui a foto com o breve comentário. Uma imagem vale realmente muitas palavras…
Páscoa Feliz
Sábado, Abril 3rd, 2010(por AL em tradicionais reminiscências)
Cá em casa gostamos de tradições; são assim como uma espécie de cola familiar. Vão-se alterando, acrescentando aqui e tirando dali; internacionalizam-se por força da geografia familiar; são intervaladas por vezes por falta de quórum ou por causa da composição etária dos presentes. Umas caem em desuso durante uns anos e algumas retomam-se mais tarde. Mas acho que posso dizer que todas estão presentes, pois senão se fazem naquele dia em particular, são lembradas vezes sem conta as vezes anteriores em que a tradição foi cumprida.
Quando na família ainda matávamos o porco (1990 foi o último ano em que o fizemos) tínhamos por costume fazer o jogo dos compadres e das comadres, que era assim. No Domingo Gordo, antes da terça-feira de carnaval, juntava-se a família alargada, com os amigos “cá de casa” e quem mais calhasse ser convidado nesse ano, para uma grande almoçarada. Nesse dia almoçava-se o bucho do porco. Para quem não saiba, o bucho é o estômago do porco recheado com carnes, sangue e miúdos diversos do porco, muito bem temperados com cominhos e vinha d’alhos e é uma absoluta delicia beirã. Fazia-se na altura da matação (como dizem lá na Beira) e secava-se no fumeiro até ao Domingo Gordo, quanto era baixado, preparado e comido. Cozia-se em água abundante e acompanhava-se com batatas, nabos, ovos, couves e mais enchido cozido. Há quem faça o bucho também com arroz, mas na minha família era assim que o fazíamos. Tudo isto, claro, regado com muito vinho e ainda mais alegria.
Depois do café fazíamos então as comadres e os compadres. Cada um escrevia o seu nome num pedaço de papel e os nomes dos homens iam para um recipiente e os das mulheres para outro. Tiravam-se então nomes aos pares e quem saísse par, ficava comadre e compadre durante esse ano. No Domingo de Páscoa, as comadres ofereciam amêndoas que os compadres reciprocavam com flores. Era coisa séria cá em casa! Havia até quem não pudesse comparecer ao almoço de Domingo Gordo, mas tivesse o cuidado de avisar que pusessem o nome dele/dela para o jogo dos compadres. Deixámos de jogar quando deixámos de ter bucho para inaugurar. Não porque a refeição não se possa fazer com qualquer outro menu, mas apenas porque não nos deu ainda para isso. Não deixa porém de nos acompanhar, pois não há almoço de Domingo de Páscoa em que não lembremos o jogo dos compadres, não comiseremos não o ter feito e não relembremos os equívocos e anedotas que quase sempre acompanham estes acontecimentos – quesílias familiares mitigadas, recados enviados subtilmente…
A Sexta-Feira Santa acolheu na minha família a tradição alemã dos ovos pintados e das omeletas. Penso que é também tradição em Portugal, mas confesso que até me casar com um alemão não foi coisa cá de casa. Aliás, ainda hoje tenho que mandar vir de lá as tintas e corantes que usamos para os ovos. Fazemos de duas maneiras: com ovos cozidos e com cascas vazias.
Os ovos são cozidos em água colorida com corantes especiais (os tais que ainda não consegui encontrar cá em Lisboa) de diversas cores fortes. Depois de cozidos e arrefecidos, temos então canetas da mesma tinta e cores diferentes, com as quais podemos desenhar ou contrastar as decorações exteriores. Os outros ovos são retirados da casca por via de dois furinhos e nestas cascas utilizamos canetas de feltro, guaches, aguarelas e qualquer tinta que nos apeteça, bem como estrelinhas, brilhantes, corações e qualquer coisa que sirva para adornar. Juntamo-nos todos durante uma tarde inteira a pintar e a decorar ovos, numa galhofa constante. Ao fim do dia comemos uma enorme refeição de omeleta. Bem bom! Antes de importarmos a tradição dos ovos, a Sexta Feira Santa era passada em oração e sussurros; as tias velhotas na Igreja e nós sob ralhos constantes devido ao barulho que fazíamos. À uma da tarde soava a sirene dos bombeiros a assinalar a morte do Senhor e nós dizíamos uma oração. Não é por nada, mas gosto mais da tradição dos ovos!
No Domingo de Páscoa, depois do almoço do cabrito (obrigatório cá em casa) um ou dois de nós escondem os ovos pintados e coloridos pela casa, jardim, quintal, ou mesmo parque público e depois os outros vão procurar até os ovos todos terem sido encontrados. Não parece ter graça, mas nós divertimo-nos imenso com isto! Os ovos que aqui mostro, foram pintados numa das Páscoas que passei em Timor Leste. A minha filha mais nova que foi lá ter comigo levou as tintas e eu mobilizei os amigos “desfamiliados” para uma Sexta-Feira Santa de tintas e ovos. Comemos um bruta omeleta ao fim do dia e ainda hoje falamos disso sempre que, embora espalhados pelo mundos, nos encontramos.
Outra tradição cá de casa são as amêndoas de chocolate feitas por nós e os pães da Páscoa. Estes são assim estilo folares, mas completamente ao contrário. Não levam ovos em cima, não têm erva doce, nem nunca comi a não ser na Beira Baixa. São amassados com fermento de padeiro, levam ovos, azeite, aguardente, vinho do Porto e muito pouco sumo de laranja. Amassam-se, fintam-se e depois divide-se a massa em “pães” grandes que vão ao forno a cozer. Ficam altos, fofos e são uma perdição!
Já as amêndoas começamos a fazê-las aí uma semana antes da semana da Páscoa, porque por mais que façamos nunca temos excedente. Os amigos que já as provaram todos os anos reforçam pedidos e cá em casa ninguém levanta mão delas. Temos mesmo um tacho que é conhecido como o “tacho das amêndoas” e que é disputado entre nós rotativamente. Não é que o tacho seja especial, mas tem o tamanho ideal para as fazermos e nunca agarra. Já tentámos outros, mas não eram a mesma coisa…
Quando vivíamos na Beira Baixa e sem a tradição dos ovos escondidos, depois do almoço do Domingo de Páscoa, nós, os mais pequenos íamos desfolhar flores com cujas pétalas adornávamos o passeio em frente da casa do meu Avô, onde geralmente se almoçava nesse dia. Era para indicar ao Senhor Padre que devia entrar ali em casa, para benzer a família, tomar um café e uma fatia de pão da Páscoa ou umas amêndoas. Como nós, também as outras famílias enfeitavam os passeios em frente das suas casas. Ficava a rua bonita, mas acho que hoje isto caiu em desuso.
Quer se cumpram todos os anos ou só de vez em quando, são estas as tradições cá de casa!
Da utilidade das acácias
Quinta-feira, Abril 1st, 2010Equívocos
Terça-feira, Março 23rd, 2010(por AL em reminiscências) -
O jornal The Independent de ontem trazia uma notícia sob o título (tradução minha) “Como o Ocidente envenenou o Bangladesh”.
De acordo com o artigo, cerca de 20 milhões de pessoas no Bangladesh correm o risco de morte prematura devido a um projecto de água limpa, bem intencionado mas mal planeado. Resumindo muito brevemente, na década de 1970 as Nações Unidas e o Banco Mundial, numa tentativa de melhorarem a qualidade da água potável responsável pela morte prematura de 250.000 crianças por ano devido a diarreias e outras doenças associadas a águas inquinadas, enveredou num projecto de investimento em massa na abertura de furos para água potável. Embora tendo realizado toda uma série de testes para verificar a qualidade da água e os níveis de diversas substâncias contaminantes, não foi realizado qualquer teste para verificar os níveis de arsénico que, nesta região, ocorre naturalmente. Vinte anos depois verificou-se que cerca de metade dos 10 milhões de furos estavam contaminados com altos níveis de arsénico. Calcula-se agora que 1 em cada 10 pessoas que consomem água destes furos corre o risco de morte prematura devido a cancros de pulmão, bexiga e pele. Apesar dos esforços entretanto despendidos para controlar esta catástrofe, calcula-se que cerca de 20 milhões de pessoas dependam ainda do consumo da água destes furos contaminados. A contaminação estende-se ainda às culturas irrigadas com esta água.
Aparentemente, a contaminação dos lençóis de água com arsénico ocorre naturalmente nesta região e, embora as Nações Unidas e outras agências de desenvolvimento argumentem terem sido realizados todos os testes que, na época, correspondiam aos padrões internacionalmente estabelecidos, grupos activistas no Bangladesh contrapõem que se deveria ter tido mais cuidado com a geologia e topografia locais. Entre argumentos e contra-argumentos não se apuram responsabilidades.
Embora este caso seja dramático e de terríveis consequências, este parece-me a mim um problema comum e recorrente do “desenvolvimento internacional”: cumprem-se os padrões internacionalmente estabelecidos e reconhecidos e ignoram-se demasiadas vezes as especificidades locais. Ao longo de muitos anos de trabalho nesta área, tenho algumas histórias deste género que posso partilhar. Felizmente sem as consequências devastadores do Bangladesh, mas que ilustram bem o impacto das condições endógenas nas melhores das intenções exógenas.
Lembro-me de um projecto de um poço numa tabanca da Guiné-Bissau, em que as mulheres tinham que andar cerca de 2 km até à fonte de água mais próxima. Veio uma ONG com fundos para a abertura de um poço. O chefe da tabanca gostou e aprovou; reuniu-se a tabanca e a população alinhou; as mulheres mostraram agrado. E assim se fez e se inaugurou com pompa e alegria o dito poço. Nos primeiros dias foi um corrupio ao poço, mas com as semanas foi abrandando o ritmo da frequência e passado alguns meses o poço não era mais usado e as mulheres iam novamente duas vezes por dia ao rio, a 2 km de distância. Tinha sido feito o melhor dos planeamentos, tinha-se obtido o apoio dos utentes, tinham trabalhado no projecto gentes empenhadas. O que ninguém tinha percebido e que as mulheres não contaram, talvez porque isto não são coisas que se contem de ânimo leve a quem connosco pouco convive, é que era quando iam buscar água ao rio, longe da aldeia, que elas partilhavam as suas histórias e experiências; que as mais velhas aconselhavam as recém-casadas ou as casadoiras; que as adolescentes ouviam dos factos da vida; que o ir buscar água ao rio representava para elas momentos de intimidade feminina partilhada, que o poço, estando no meio da aldeia, não conseguia proporcionar. Era lá no rio, longe dos ouvidos dos homens que as mulheres tinham criado o seu espaço.
Outro projecto, num outro país africano, pretendia conter a degradação ambiental devida ao abate de lenha para consumo doméstico. Introduziram-se uns fogões ecológicos, muito giros e económicos, feitos de materiais locais. Organizaram-se workshops, fizeram-se charts, as mulheres gostaram dos fogões, houve distribuição e… os fogões não eram usados e a lenha continuava a ser abatida para cozinhar. O primeiro consultor avaliador do projecto, acabado de chegar lá do Canadá, constatou que os fogões não eram usados porque as mulheres quando cozinhavam se sentavam no chão e os fogões, mais altos que o lume de lenha, impediam que elas vissem o que mexiam dentro dos tachos e não eram cómodos. Como disse? Então o senhor quando chegou à aldeia não lhe trouxeram um banquinho, ou uma pedra para se sentar? Vai segundo consultor, consultora neste caso, mais sábia das condições locais e a quem contam a mesma história – os fogões são altos… Oh irmãs, tenham lá paciência, mas essa história não pega! Então vocês não se sentam em banquinhos e pedras para outras tarefas? Não podem fazer buracos no chão e assim reduzir a altura do fogão? Risos e entreolhados, tapares de cara com as capulanas, enfim, sinais evidentes que havia mais nesta história. Até que uma mais velha lá explica, com paciência para que a ignorante consultora perceba bem, que os maridos não gostam do sabor da comida dos fogões porque não sabe a fumo; e como não gostam da comida dos fogões em que elas cozinham, procuram namoradas que cozinham para eles com lenha. Então, a bem da paz doméstica, lá voltaram elas também à lenha, que o caminho para o coração dos homens pelos vistos passa mesmo pelo estômago. Ainda que para tal tenham que todos os dias ir um pouco mais longe para trazer a quantidade de lenha que necessitam.
Não pretende este post ser uma diatribe contra o desenvolvimento. Ambos os projectos protagonistas destas duas pequenas historias, tinham sido bem pensados e foram planeados cuidadosamente por gente muito empenhada no que fazia. Tiveram o cuidado de visitar os utentes dos projectos que estavam a conceber e fizeram o melhor que podiam dentro dos limites que tinham. Mas o “contexto local” não se fica a conhecer com duas ou três visitas e a confiança dos utentes não se ganha com uma workshop e um grupo focal. O “contexto local” é muito mais rico e variado do que se pensa geralmente à partida, mesmo quando se trata da nossa própria cultura, tal como ilustra a história que deixo a terminar este post.
A aldeia da minha mãe, a meia dúzia de quilómetros de Beja, é parca em habitantes mas fértil em histórias. Havia por lá um homem que teve um arremedo de trombose e teve que ir a Beja ver um “Sr. Dr. que veio de Lisboa”. Feitas as análises confirma-se o risco de doença cardio-vascular e detecta-se um nível altíssimo de colesterol. O Sr. Dr. lá de Lisboa recomenda uma dieta rigorosa ao doente, alentejano de cepa que da terra nunca saiu nem sequer para ir ao Barreiro (era para onde emigravam os da aldeia), explicando que, entre outras restrições, “agora carne, o senhor só pode comer carne branca, e volte cá para o mês que vem depois de repetir as análises”. Lá veio o nosso homem de volta à aldeia, com a mulher a reboque e determinada a fazê-lo cumprir a dieta. Passado o mês e repetidas as análises, a situação do doente tinha piorada com níveis de colesterol visivelmente superiores aos da análise anterior. Faz o Sr. Dr. lá de Lisboa inquérito rigoroso aos hábitos alimentares do doente, com este a jurar que carne só tinha comido branca. “Mas que raio de carne branca é que o senhor afinal tem comido?”. “Atão dótori? Qual havia de ser? Toicinho!”
A mim contaram-ma como verídica e até me apontaram o bom do senhor doente e de alto colesterol, mas quem sou eu? Eu vim lá da cidade, de Lisboa e embora filha de filha da terra, ainda me falta muito para conhecer o “contexto local”.
Vai formosa e… segura
Segunda-feira, Março 22nd, 2010(por AL insone)
Um dos tema em destaque no recente congresso da CPLP em Lisboa foi o HIV/SIDA. Lembrei-me de um pequeno filme de Rogério Manjate, que ganhou o prémio de 2009 do festival Africa in Motion, que aborda exactamente o tema da prevenção contra o HIV/SIDA.
Googlei, youtubei, mas não consegui o link ao vídeo. Pode, no entanto, ser visto nesta página da UNESCO, ou nesta do site Jamati, que inclui uma entrevista com o realizador. Vale a pena clicar; são somente 3 minutos.
Adenda: O nosso comendador JPT conseguiu postar aqui o filme. Aqui fica com os meus (nossos) agradecimentos. Não é em vão que se é comendador…
África brilha em Lisboa
Domingo, Março 21st, 2010(por AL a correr… para ir almoçar!) -
A vigésima meia maratona de Lisboa foi ganha por Zersenay Tadese da Eritreia, que bateu um novo recorde mundial.
Lançamento de peso
Quarta-feira, Março 17th, 2010(por AL em antecipação livresca) -
É amanhã que se “estreia” em Lisboa o livro mais recente de João Paulo Borges Coelho – O Olho de Hertzog. O lançamento é na Sociedade de Geografia (Rua das Portas de Santo Antão), às 18:00 horas.































