(por AL em antecipação livresca) -
É amanhã que se “estreia” em Lisboa o livro mais recente de João Paulo Borges Coelho – O Olho de Hertzog. O lançamento é na Sociedade de Geografia (Rua das Portas de Santo Antão), às 18:00 horas.
“…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…” (R. Nassar)
Março 17th, 2010 — Arquivo, João Paulo Borges Coelho, Literatura Moçambique, Livros Moçambique
(por AL em antecipação livresca) -
É amanhã que se “estreia” em Lisboa o livro mais recente de João Paulo Borges Coelho – O Olho de Hertzog. O lançamento é na Sociedade de Geografia (Rua das Portas de Santo Antão), às 18:00 horas.
Março 14th, 2010 — Arquivo, Soltas
(por AL aérea) -
Gosto de ouvir rádio de manhã, enquanto me estou a arranjar na casa de banho. Tenho um velho rádio-despertador roufenho, empurrado para a reforma pelo telemóvel, mas que para o propósito funciona muito bem. Está sintonizado para a Antena 1, não por qualquer opção especial mas sim porque emperrou naquela estacão. Entretanto habituei-me a ouvir em pano de fundo os programas com intervenção popular.
Raramente retenho o que se vai passando. Além de meio ensonada, vou pensando no dia que começa e nas prioridades que vou estabelecendo ou revendo. De tal forma absorta que nem me irrito muito com as musiquinhas que passam. Se acordo bem disposta vou sorrindo com as inanidades que vou ouvindo; comovo-me com algumas intervenções; desculpo os disparates. Se acordo rabugenta não os ouço, escuto mas não ouço. Portanto, ouvir o meu rádio roufenho de manhã na casa de banho, é só lucro!
Muito raramente algo capta a minha atenção. Hoje, não sei bem a que horas, depois de andar a flanar pela casa numa preguiça sem hora enquanto bebia pausadamente a minha litrada de café, ouvi algo que me chamou a atenção. Trata-se da primeira tradução directa do latim para português (se bem entendi, pois só comecei a ouvir mais ou menos a meio) da primeira obra de Galileo Galilei. Sai esta semana que amanhã começa.
Tendo perdido metade da notícia, googlei e fiquei a saber que se vai chamar O Mensageiro das Estrelas e encerra o Ano Internacional da Astronomia, que esteve a cargo de Portugal, que comemorou os 500 anos das primeiras observações celestes feitas com um telescópio, precisamente por Galileu. É provavelmente notícia serôdia, mas para mim foi novidade e, sendo eu uma astrónoma diletante, apeteceu-me assinalar aqui esta publicação.
Março 13th, 2010 — Arquivo, Bloguismo, História, Mulher
(por AL alertada por Luís Galvão) -
Quem ouviu já falar de Irena Sendler? Confesso que eu desconhecia totalmente até um leitor amigo da maschamba me alertar para esta mulher notável, símbolo de coragem e de decência humana em pleno Holocausto. Irena Sendler foi uma polaca nascida em 1910 numa pequena cidade perto de Varsóvia, filha de um médico, cujos clientes eram principalmente judeus pobres. Quando a Alemanha nazi invadiu a Polónia em 1939, Irena trabalhava nos Serviços de Segurança Social de Varsóvia, responsável pelas cantinas e distribuição alimentar e de outros serviços a idosos, órfãos, pobres e destituídos. A estes serviços, Irena adicionou a distribuição de roupa, dinheiro e remédios a judeus que ela registava sob nomes cristãos fictícios, numa tentativa de evitar que fossem denunciados às autoridades nazis. Para evitar inspecções, Irena assinalava estas famílias como sofrendo de doenças altamente infecciosas.
Em 1942 os nazis confinaram milhares de judeus a uma área restrita de Varsóvia, devidamente murada e vedada, que ficou conhecida como o Gueto de Varsóvia. As condições em que estas famílias judias viviam eram de tal forma chocantes, que levaram Irena a juntar-se à organização clandestina polaca que prestava auxílio aos judeus. A partir deste momento dedicou a sua vida a salvar crianças judias dos maus tratos e da morte certa que as aguardava. Munida de um passe do Departamento de Controle de Epidemias, Irena visitava o gueto diariamente, com fornecimentos clandestinos de roupas, remédios e dinheiro. No gueto morriam cerca de 5.000 pessoas por mês de fome e de doença e Irena decidiu retirar de lá tantas crianças quantas lhe fosse possível retirar. Para isso, Irena tinha primeiro que convencer os pais a separarem-se dos seus filhos e depois encontrar famílias/instituições cristãs dispostas a arriscarem as suas vidas para aceitarem estas crianças clandestinas.
Irena conseguiu angariar apoiantes chave para a sua causa, capazes de forjarem documentos e assinaturas. Conseguiu assim retirar 2.500 crianças, escondidas na ambulância que ela usava para entrar no gueto – dentro de sacos de batatas, dentro de caixas de ferramentas, dentro de caixões. De forma a preservar a identidade destas crianças agora sob falsos documentos e identidades, Irena anotava cuidadosamente, sob um número de código, a origem de cada uma delas e guardava estes registos em boiões que enterrava no jardim de um vizinho. Foi assim que estas 2.500 crianças conseguiram, depois da guerra, traçar as suas origens.
Em Outubro de 1943 Irena foi descoberta e presa pelos nazis. Durante a tortura pela Gestapo partiram-lhe as pernas e os braços, o que a tornou deficiente para o resto da vida, mas Irena não revelou onde se encontravam as crianças, nem os nomes de quem a tinha ajudado. Foi condenada à morte, mas um agente da Gestapo, subornado pela resistência polaca, permitiu-lhe a fuga da prisão. Irena passou o resto da guerra em fuga e na clandestinidade.
Depois da guerra, Irena desenterrou os boiões com os registos das crianças que tinha salvo e tentou reuni-los com o que das suas famílias restava; a maioria tinha perdido toda a família durante o Holocausto. Até à sua morte em Maio de 2008 Irena Sendler levou uma vida modesta no seu apartamento de Varsóvia, apesar dos inúmeros prémios e medalhas que lhe foram atribuídas pelo seu valor e coragem. Em 2000 um professor e quatro alunas de uma pequena escola no Kansas, escreveram uma peça inspirada na sua vida – Life in a Jar, que veio a ganhar um prémio nacional. Em 2007 foi nomeada para o Prémio Nobel da Paz, que veio a perder em favor de Al Gore.
Exemplos (quase) anónimos de coragem e dignidade nesta época existem muitos, incluindo portugueses – Aristides de Sousa Mendes. Hoje falámos de Irena Sendler.
Março 13th, 2010 — AL, Diatribes
(por AL em plena frustração e armada em queixinhas) –
Por muito que viva e por muita experiência que vá acumulando, não deixo de me surpreender com a mentalidade retorcida que continua a prevalecer neste país. Isto vem a propósito desta nova fase da minha vida, que tento refazer aqui em Lisboa e, sabem que mais?, quanto mais tempo aqui passo, menos gosto de cá estar. Eu tento, mas desconsigo!
Estou aqui por um acto de vontade e não de devoção. Nada há em Portugal que eu goste verdadeiramente; nunca tive saudades enquanto lá fora. Nunca vim de bom grado e sempre saí com alegria. Mas depois de 15 anos perdida pelo mundo, sabe-me bem estar perto da família.
Claro que preferia ter a família em qualquer outro país – já nem sou esquisita, qualquer outro país servia (neste momento até a Albânia me parece invejável) – mas as filhas decidiram assentar arraiais em Portugal e é cá que tenho os netos.
Desenvolvi mecanismos de defesa. Evito o mais possível sair à rua; tenho TV cabo que me dá acesso ao que se passa nos centros onde se faz diferença; estou ligada ao mundo pela internet; uso o telefone para contactos frequentes. Tento manter a interacção geográfica e cultural com Portugal ao mínimo indispensável. Vou assim criando a ilusão de que estou algures que não onde estou; afinal somos livres de acreditar nas ilusões que escolhemos, verdade?
Mas há que ganhar para pagar estas pequenas mordomias, que me permitem manter a ilusão e ainda fazer umas viagens. Não tendo grandes oportunidades no meu métier normal e que regularmente tenho exercido ao longo da minha vida, virei-me novamente para as traduções. Gosto de fazer traduções; não de romances e textos anódinos, mas sim de livros técnicos, relatórios profissionais e quejandos. Tenho aprendido imenso a fazer traduções.
Recentemente, um contacto numa editora (digo-o com embaraço, sim; nepotismo…) tem-me dado para traduzir livros sobre grandes pensadores em economia e outras questões técnicas, o que me tem dado bastante gozo, para além de algum rendimento que me vai proporcionando. Gosto da actividade. Exercita-me a mente, leio livros interessantes, sou dona do meu tempo e permite-me ficar dentro de portas.
Deparo-me então com a mentalidade corporativa que não consigo entender. Este ano vou já no meu terceiro livro, ainda não me pagaram um cêntimo que fosse, cada vez que submeto uma factura “houve lamentavelmente um engano do nosso lado” e o valor nunca corresponde ao acordado previamente. E não estou a falar de peanuts; só nesta última factura estou a referir-me a mais de 2,000 euros a MENOS!
Aproveitam também, já agora, para acrescentar mais alguma condição pouco favorável para mim, como por exemplo, pagamento a 30 dias depois da publicação do livro, processo sobre o qual não tenho qualquer poder. E senão publicam?, pergunto eu. Isso nunca aconteceu, dizem eles. Sim, mas e se acontecer?, insisto eu. Propõem um contrato (neste processo que se arrasta desde Janeiro) com valores avançados por eles; eu aceito valores e revejo condições; faço algumas anotações para clarificações, por exemplo, quem paga o IVA; que se inclua a data da publicação e que se expresse que será essa a data para pagamento, quer o livro seja ou não publicado, etc. Num pais sem justiça, parece-me ajuizado que os contratos sejam o mais claros possível. Desde Janeiro que o contrato lá está, para ser corrigido e finalmente assinado.
Entretanto, “vá fazendo a tradução, que há alguma pressa“. Fiz, confiante nos valores avançados por email escrito e assinado. Afinal ainda existem valores como a honra e a palavra, ou não? Acabada a tradução, envio esta com a respectiva factura para duas semanas depois vir a saber, também por email assinado, que os valores expressos no contrato que, entretanto, continua por assinar “foram um lapso da administrativa. Junto anexamos contrato com valores corrigidos”. Os valores vinham de facto corrigidos (para menos 2,000 euros), mas as minhas condições contratuais continuam esquecidas!
Com o texto traduzido já lá do outro lado o meu poder negocial, que já não é muito grande de início, fica reduzido a nada. Tenho falado com amigos com actividade semelhante e o panorama parece ser o mesmo e recorrente, não só no plano editorial, pelo que me contam, mas extensivo a todas as actividades que funcionem por tarefa e/ou recibo verde. E então, sem alternativas (fazer o quê? Ir a tribunal? Queixar a quem? E depois? Ficamos sem trabalho?) cerramos os dentes, engolimos a amargura da impotência e apertamos a mão ao diabo!
Em toda a minha vida profissional trabalhei somente para um patrão português. Foi no início da minha carreira e jurei para nunca mais. E assim tem sido até agora! Mais de vinte anos depois pensei que a mentalidade empresarial teria mudado; que as empresas portuguesas teriam percebido entretanto que um negócio bom não é aquele em que se engana (ou explora) o parceiro, mas sim aquele que é feito com transparência e com benefícios para ambas as partes. Que uma relação profissional se pauta pelo respeito mútuo; que um contrato se honra. Enganei-me redondamente!
Razão tinha eu já aos 4 anos de idade. Quando me perguntavam o que eu queria ser quando fosse grande, invariavelmente eu respondia: Estrangeira!
Um aparte: não tem nada a ver com nada, mas ando para dizer isto há imenso tempo e sistematicamente esqueço-me. O meu estado de espírito, que costumo por entre parêntesis no início dos meus posts foram ideia roubada ao ABM. Noto agora que sou a única a fazê-lo; mas a ele se deve o crédito da ideia…
Março 11th, 2010 — Viagens
(por AL em desejos de errância)
Acordei hoje com saudades do Sri Lanka. Assim, sem qualquer explicação. Abri o olho e lembrei-me do Sri Lanka e mais propriamente de Dambula e do maravilhoso templo budista na imensa caverna da montanha. E do Hotel Kandalama. Talvez porque tenhamos aqui recentemente falado de urbanismo e de arquitectura turística em Maputo e em Moçambique. Acordei hoje e lembrei-me do Kandalama que é um dos meus hotéis favoritos e um excelente exemplo de arquitectura turística amiga do ambiente onde (literalmente neste caso) se insere.
O hotel foi um projecto de Geoffrey Bawa, um arquitecto singalês e colorida personagem. Começou por ser advogado e acabou por ser um dos arquitectos mais interessantes (para mim, leiga que sou nestas questões) do seu tempo.
O Kandalama fica literalmente inserido na montanha, o que o torna praticamente invisível do cenário que o rodeia. A recepção fica no topo da montanha, isto é, no andar superior do hotel e os quartos serpenteiam montanha abaixo. Todos com um vista soberba sobre o vale e lago lá em baixo, onde ao por do sol os elefantes se vêm banhar, e todos com uma vista privilegiada sobre Sigiriya, uma fortaleza/palácio histórico.
Moçambique está em franco desenvolvimento turístico e urbanístico. Não sou moçambicana e não tenho qualquer influência sobre decisões que afectem os destinos do país, mas não é por isso que gosto menos dele. Acho o Kandalama um belo exemplo do rumo que o desenvolvimento turístico pode levar. Quem sabe? Talvez algum leitor maschambiano com algo a dizer sobre os destinos de Moçambique por ele se deixe inspirar…
Março 10th, 2010 — Arquivo, Bloguismo, Paternidade, Soltas
(por AL em êxtase avoengo) -
Chama-se Teresa, a minha neta, mas podia chamar-se Rosa de linda e perfumada que é! São três semanas de vida que cabem nas palmas das minhas duas mãos; quase três quilos de gente em 50 cm de presença. É ainda pequenina a minha neta, mas compensa em genica o que lhe falta em tamanho.
É delicada a minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é. Pigarreia duas vezes num “preparem-se” bem educado e só depois nos brinda com o pranto anunciado.
A minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é tem o rosto em forma de coração; acaba num queixinho que se adivinha voluntarioso e prenunciador de carácter. Os olhos são de um azul profundo, como os da tia-avó Jú; franze o sobrolho ao jeito da avó Antónia. As sobrancelhas e pestanas, foi buscá-las à tia Joana e o pescoço alto copiou da mãe. No equilíbrio dos genes revela bem ser filha de seu pai e a honra da sua mãe.
O cabelo da minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é, é claro e arruivado e remata numa madeixa branca enrolada em remoinho rebelde.
É pequenina a minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é, mas enche-nos a vida e deslumbra-nos o coração!
Março 8th, 2010 — Arquivo, Bloguismo, Mulher, Soltas
(por AL em homenagem da mulher) –
Mulher 1
Vejo-a ocasionalmente quando de manhã cedo vou passear a cadela, ou se, ao fim da tarde, vou à mercearia. Cruzamo-nos; eu no carro e ela a pé, com o filho nos braços. É nova, muito nova mesmo, aí pelos seus vinte anos mal medidos. O menino deve rondar os dois anos de idade. Mora ao fundo da rua íngreme que, a ocidente, ladeia a quinta que temos para os lados da Costa.
De manhã, vai ela subindo a ladeira com a mala a tiracolo, um saco na mão que, presumo, contenha a marmita com o almoço e lanche para o filho. Com o braço que lhe sobra abraça o filho que carrega ao colo. Ela franzina, cabelo comprido, rosto bonito e marcado já pela crueza da vida; o menino faz-me lembrar as ilustrações de um livro que tive na infância e que se chamava “O Pequeno Lorde”. Cabelos louros com ondulado de anjo, repousa a cabeça no ombro dela e olha o mundo com olhos inchados ainda pelo sono. As mãozinhas papudas rodeiam o pescoço da mãe, fazem-lhe uma festa ocasional no cabelo e movimentam-se a pontuar algo que lhe vai contando.
Sei que vão conversando um com o outro, não porque os ouça, mas porque lhes vejo o movimento dos gestos e o sorriso que lhe atravessa, a ela, o rosto cansado. Nada sei sobre eles, mas comovo-me sempre que me cruzo com a intimidade terna que, ladeira acima, ladeira abaixo, os une e envolve.
Mulher 2
Queria ser médica; a mãe era doente e o sonho dela era estudar muito e ser médica e descobrir um remédio que tirasse a mãe do sofrimento em que vivia.
Apurava-se nas aulas e veio um dia um senhor do Ministério da Educação que lhe falou da escola especial que havia lá na capital, para meninas como ela, que queriam ser médicas. Os pais desconfiaram de tanta esmola, mas ela insistia. Afinal o senhor não era um qualquer, era do Ministério da Educação, instituição idónea do governo que os libertara do jugo colonial. Os pais ainda renitentes quiseram conhecer o tal senhor. Sim, era verdade, tratava-se de um programa especial para jovens futuros quadros. Mostrou credencial e identificação. Ela chorou, insistiu, amuou, usou todas as armas que os catorze anos lhe punham à disposição até que, por fim, lá partiu rumo à capital embalada no sonho da escola de medicina pela voz do senhor do Ministério da Educação.
O edifício era grande, imponente, rodeado de altos muros. Para protecção, disseram-lhe, que o país ainda estava em guerra. Entrou. Era afinal um quartel, fez instrução militar e lutou durante 10 anos numa guerra que não entendia. Foi desmobilizada sem mais instrução que a que tinha aos catorze anos. Mas não desistiu. Afinal tinha agora 24 anos, era nova e tinha vontade.
Com mais instrução que a maioria das mulheres guerrilheiras, arregaçou as mangas e lutou pelos seus direitos e pelo reconhecimento do papel destas mulheres no destino do país. Matriculou-se no ensino à distância; aprendeu inglês; tirou um curso de assistência social. Casou e teve três filhos – dois meninos e uma menina, todos a estudarem. Aprendeu a escrever propostas de financiamento, a falar com doadores, a argumentar com políticos, a discursar em seminários e conferências. Aos fins-de-semana ainda se junta com as amigas no pátio das traseiras da sua casa, onde se enfeitam com tranças e penteados, enquanto desenrolam as histórias da vida que lhes aconteceu. Esta mulher eu conheço: é minha amiga!
Mulher 3
Vamos chamar-lhe Ana porque na realidade pode ter um nome qualquer. É surda-muda e nada sabe contar sobre si mesma. Teve sorte a Ana, vive num orfanato de meninas que se pauta pela dedicação de quem lá trabalha. Quem lhe preencheu a ficha de inscrição, foi quem a baptizou. Aqui baptizo-a eu com o meu nome.
Tinha onze anos quando a polícia a encontrou a vaguear sozinha pelas ruas. Não tinha papéis consigo; fizeram-se apelos na rádio e na televisão. Ninguém se apresentou a reclamá-la.
Tem um rosto alegre, olhos vivos e inteligentes, é uma criança feliz. Brinca com as outras e desenvolveu a sua linguagem gestual muito própria, que lhe permite alguma comunicação funcional; entendem-se nas coisas do quotidiano, mas faltam-lhe os gestos para emoções e conceitos abstractos. Vai com as amigas à escola, para que não se sinta ainda mais diferente. Não escreve, desenha palavras, pois desconhece o conceito da palavra que copiou do gesto das amigas. O país dela é pobre e não tem escolas de ensino especial.
Com o consolidar das novas vivências vai-se perdendo a sua identidade. Porque a Ana não consegue comunicar como foi a sua vida até ser apanhada pela polícia; nasceu aos 11 anos de idade.
Mulher 4
Chama-se Palmira Marques e escreveu este poema sobre as mulheres timorenses:
Carregas no olhar
os azuis das montanhas,
onde as lágrimas secaram
e esperas…
esperas que regressem
aqueles que pereceram
às mãos dos ocupantes.
Sentada no tear
teces a tais
e silenciosa continuas a aguardar
que o teu filho, o teu pai, o teu irmão
voltem para casa,
porque a libertação já chegou!
Mulher timorense
com muito carinho
ergues altares e acendes velas
levas flores aos teus mortos:
ao Manelito,
ao Adelino,
e a tantos outros que pereceram…
Mas tu MULHER Timorense
com tuas mãos vais construir uma Nação!!
Nota de pé de página
Hoje é dia 8 de Março de 2010 e faz hoje 100 anos que se celebra o Dia Mundial da Mulher.
Março 7th, 2010 — Aniversarios, Arquivo, Bloguismo, Soltas
(por AL em jeito de aniversário)
Um flashmob bollywoodesco ao MVF pelo seu aniversário! Parabéns Miguel!
Março 7th, 2010 — Arquivo, Arte
(por AL ainda embrulhada em mãe e avó)
Foi com uma colagem do meu amigo e pintor Miguel Barros que me estreei aqui no maschamba. Actualmente a morar em Angola o Miguel tem-se inspirado nas cores e nas paisagens angolanas, que lhe valeram quadros muito, muito belos. Estão agora expostos em Lisboa, na Fundação Sousa Pedro no Chiado ate dia 11 de Março. Não percam!
Fevereiro 17th, 2010 — Arte, Exposicoes, Malangatana, Reinata Sadimba
(por AL apressada)
Do nosso leitor Nuno Salgueiro Lobo vem-me a informação que a galeria lisboeta Influx Contemporary exibe actualmente uma exposição colectiva de artistas Africanos contemporâneos, oriundos de diversos países, incluindo Angola e Mocambique.
Pretende-se com esta exposição estimular um outro olhar sobre a Arte Africana:
Pelo que me foi dado ver no site da galeria, vale com certeza a pena dar um salto ao Lumiar.
Fevereiro 13th, 2010 — Arquivo, Fotografia, Soltas
(por AL em divagações distractivas)
Foram ontem atribuídos em Haia os tradicionais prémios da World Press Photo a imagens, consideradas por um júri, como representativas do ano de 2009 nas diversas categorias.
Joan Bardeletti, fotógrafo francês, ganhou o segundo prémio na categoria de Imagens da Vida Diária com esta fotografia chamada picnic de domingo, tirada em Moçambique.
Fevereiro 13th, 2010 — Aniversarios, Arquivo, Bloguismo, Soltas
(por AL em antecipação)
O nosso calendário encontra-se pejado de dias assinalados com festas e celebrações públicas e privadas. Algumas agradam-nos a todos cá em casa, outras somente a alguns do nós; há dias que nos deixam indiferentes e depois há aqueles dias que nenhum de nós gosta.
De longe, a celebração favorita cá de casa é o Natal. Neste pequeno agregado familiar de 8 pessoas e meia (incluindo o meu neto de dois meses e sendo a “meia”, a minha neta que nos bate à porta) alimentam-se os pequenos gestos tradicionais e consegue-se escapar, tanto quanto possível ao comercialismo vigente. Mas isto será matéria para outro post lá mais para o fim do ano.
Já o Ano Novo, tal como o Carnaval, encontra poucas simpatias por estas bandas; parece que nunca percebemos muito bem esta coisa da alegria com hora marcada e da folia por calendário.
A Páscoa é para nós um deleite de paganismo, com ovos pintados e grande refeição familiar de omelette em dias de pintura, e na confecção de amêndoas de chocolate, deliciosas e que a minha Mãe teima em manter como receita familiar exclusiva.
Algumas festas foram por nós importadas de outras partes e celebradas de forma intermitente, como as lanternas de S Martinho que deixámos em pousio quando as crianças cá de casa se tornaram adolescentes e que esperamos retomar quando na família tivermos novamente crianças que já não precisem de colo. Os magustos fazíamo-los quando vivíamos na província e caíram em desuso quando, depois de anos de diáspora, nos juntámos novamente por Lisboa. Outras festas deixaram de ser celebradas cá em casa por falta de quorum, como a festa das comadres e dos compadres e o Thanks Giving Day.
Um dia que nunca foi celebrado cá por casa foi o dia de hoje, o 13 de Fevereiro, pela simples razão de que nada havia para o assinalar. Mas uma mensagem que recebi hoje de manhã, suspeito, vai alterar para sempre a nossa relação com este dia. Chegou às 8:29. Dizia: “Já estamos no hospital e epidural já dada. Está tudo bem mas ainda demorado. Ligo quando houver mais novidades.” O remetente é o meu genro João. É a minha neta, ainda anónima, que nos bate à porta neste dia 13 de Fevereiro!
Fevereiro 11th, 2010 — Cooperação, Diatribes, Fotografia, Rankin
(por AL sem justificação)
Não tenho particular simpatia por agências internacionais de “apoio humanitário” ou de “auxílio ao desenvolvimento”. Tenho-as visto demasiadas vezes em acção em todo o seu esplendor, para ter por elas qualquer respeito. Uma que “desgosto” particularmente é a Oxfam. Hoje (quase) mudei de ideias.
Abri, como é usual todas as manhãs assim que acordo e enquanto bebo o meu café, o site do jornal Independent e dou com um artigo chamado Rankin in Africa: Images of love in a land of conflict.
Rankin, fotógrafo inglês famoso pelas suas fotos de celebridades, foi convidado pela Oxfam para ir até ao Congo (RDC) fotografar o povo na comunidade de Sange na região leste do país, onde o conflito ainda se mantém. Pretende a Oxfam, obviamente, angariar fundos para os projectos de sanidade e água limpa que tem na região. Pois!
Diz ainda o artigo que a estratégia de Rankin foi fotografar as gentes do Congo com o objecto do seu amor – um parceiro, um livro, um amigo… Pretendia Rankin retirar as pessoas ao miserabilismo das imagens de guerra e sofrimento e retratá-las como qualquer um de nós (nós no sentido do nosso relativo conforto), como seres humanos. Diz Rankin no artigo do Independent: “Queria que as pessoas [os espectadores] se identificassem com a sua [dos fotografados] humanidade, com as expressão dos seus olhos e dos seus rostos. Estas não são nem imagens feias de brutalidade, nem imagens sentimentais de sofrimento. Queria que fossem como que uma imagem do espelho”.
Não podia concordar mais! Já por várias vezes me tenho insurgido aqui no maschamba contra a forma miserabilista com que, particularmente, África e os africanos são retratados; contra a exploração quase pornográfica do sofrimento alheio e contra a falta de respeito e indignidade que tal representa. Alegrei-me por ver um fotógrafo famoso ter esta atitude.
Rankin fotografou uma avó com o neto ao colo, casais jovens, pares de amigos, um miúdo com o seu livro favorito, um homem com a sua viola, e muitos outros. A todos pediu que explicassem porque era aquele/a o objecto do seu amor. Entusiasmei-me com a ideia que me parece fantástica – a de se apresentar o outro que sofre, não no seu sofrimento, que esse a gente conhece por demais, mas sim naquilo que o iguala a nós, no conforto dos nossos amores e na ilusão dos nossos sonhos.
Fui imediatamente ao site correspondente da Oxfam, pronta a redimir-me por todas as minhas críticas passadas e dúvidas presentes. Logo ao abrir da página vejo algumas das fotos de Rankin, reconhecíveis pois ele fotografa toda a gente em frente de um écran branco. Clicam-se nas fotos e aparece o discurso dos retratados. Sim, a razão do amor pelo objecto com que se retratam está lá, mas, sabiamente tecido com o discurso individual, vem o habitual discurso do coitadinho. Pois!
Não mudei de opinião. Portanto!
Fevereiro 11th, 2010 — Che Guevara, Eduardo Mondlane, História Moçambique, João Cabrita
(por AL mera intermediária de João Cabrita) –
O meu amigo e leitor maschambiano João Cabrita enviou-me um artigo dele sobre as relações entre Guevara e Eduardo Mondlane, publicado aqui há uns anos no jornal Zambeze. O artigo foi despoletado pela polemica causada com a publicação das memorias de Hélder Martins num livro chamado Porquê Sakrani.
Aqui fica para vosso deleite:
DE HÉLDER MARTINS: “PORQUÊ SAKRANI?”
Livro de memórias suscita polémica
Hélder Martins, histórico da Frelimo, médico de profissão, pedagogo inovador, depois de Janet Mondlane e Nadja Manghezi com O meu coração está nas mãos de um negro, lançou-se na narrativa da gesta libertadora moçambicana, passando para o papel as suas memórias. Porquê Sakrani – Memórias dum médico duma guerrilha esquecida é o título de um exaustivo trabalho, de leitura fácil mas cativante, lançado o ano passado nas bancas nacionais e estrangeiras. Tal como o título sugere, o livro é o testemunho de Hélder Martins sobre a fase da luta armada contra o colonialismo. Um livro que promete ser polémico, pelo menos relativamente a um “grande tema”, como o autor lhe chama. Trata-se da visita de Che Guevara ao escritório da FRELIMO. Hélder Martins insistiu em contar essa apaixonante faceta da história recente de África pois que, como ele afirma no livro, “muitos anos mais tarde, ouvi e li versões disparatadas desse acontecimento, por pessoas, que não estiveram presentes.” E remata Martins: “Portanto, a minha versão é por testemunhas directas (primárias) e produzida pouco tempo depois dos factos.”
Recentemente, o director deste jornal teve oportunidade de entrevistar um outro autor moçambicano e um dos temas focados foi precisamente o encontro de Che Guevara com a direcção da Frente de Libertação de Moçambique. Trata-se João Cabrita, autor de Mozambique: The tortuous road to democracy, que apresentou na altura uma versão radicalmente oposta desse encontro; quiçá “disparatada”, na óptica de Martins. A pedido do ZAMBEZE, João Cabrita preparou o seguinte artigo, e nele reitera a posição anteriormente defendida, avançando com novos dados sobre o “grande tema”.
***
Num livro de memórias de publicação recente,[1] Hélder Martins referiu-se à disputa havida entre Cuba e a Frelimo no decurso dum encontro entre Eduardo Mondlane e Che Guevara, realizado em Dar-es-Salam em Fevereiro de 1965. O autor fez questão de deixar claro que decidira referir-se ao assunto dado que “anos mais tarde, tinha ouvido e lido versões disparatadas desse acontecimento, por pessoas que não estiveram presentes ao encontro”.
A versão de Hélder Martins, segundo ele conta, baseia-se em “testemunhas directas (primárias) e produzida pouco tempo depois dos factos.” Em suma, Hélder Martins refere que a disputa que opôs Eduardo Mondlane a Cuba centrou-se na rejeição de conceitos de luta de guerrilha defendidos pela delegação cubana, e no mal-estar causado por Che Guevara por ter levantado dúvidas quanto à autenticidade dos comunicados de guerra emitidos pela Frelimo.
Tal como outros membros da Frelimo, Hélder Martins incorre no erro de se atribuir a essa disputa questões de lana-caprina, tais como conceitos de luta de guerrilha e comunicados de guerra empolados, quando a causa fundamental gira em torno da recusa de Eduardo Mondlane em participar num ambicioso plano que Cuba pretendia executar na África Austral com o apoio dos movimentos de libertação. Tratava-se de um plano que, no fundo, punha em cheque os interesses dos Estados Unidos, país em relação ao qual Eduardo Mondlane era um fiel aliado.
O facto de não se ter assistido ao encontro de Dar-es-Salam, não impede, que na presença de documentos oficiais e do testemunho das partes intervenientes, se possa fazer um juízo da situação e avançar com conclusões que, até prova em contrário, não podem, do pé para a mão, ser rotuladas de “disparatadas”.
É interessante referir que Hélder Martins também não esteve presente ao encontro de Dar-es-Salam pois segundo relata no livro apenas chegou à Tanzânia em Março de 1965. O que não deixa ser caricato, é que, no seu livro de memórias, Hélder Martins fez questão de frisar que a sua versão sobre a disputa entre Mondlane e Cuba se fundamentou naquilo a que ele próprio referiu como “fofocas” contadas por pessoas que acidentalmente iam a Dar-es-Salam, mas que ele se sentiu à-vontade em descrever como fontes “primárias”, não identificando, todavia, nenhuma delas. Qualquer investigador concordará que no campo da pesquisa, as “fofocas” não colhem.
A intervenção militar cubana em África não se tratou de uma iniciativa pessoal de Che Guevara. Ela obedecia a um plano concebido ao mais alto nível pelo governo de Cuba e que contava com o apoio da China, da União Soviética e de outros países do chamado bloco de Leste. Em África, Cuba dispunha do apoio da Argélia, do Gana e da Tanzânia, entre outros países.
O objectivo cubano consistia em servir-se da luta que vinha sendo travada no Congo-Kinshasa, na sequência do assassinato de Patrice Lumumba, para promover um conflito de grandes proporções na região austral do continente, em particular nos territórios ainda sob dominação colonial (Angola, Moçambique, Rodésia do Sul e Namíbia) e, numa fase posterior, na África do Sul. Em última instância, pretendiam os dirigentes cubanos atrair os Estados Unidos a mais uma zona de conflito, para além dos que já se desenrolavam no sudoeste asiático e começavam a ganhar forma na América Latina. Tal como afirmou Che Guevara ao presidente egípcio, Abdel Nasser, em Abril de 1965:
“Creio que irei para o Congo pois neste momento é a zona mais quente do mundo. Com o apoio dos africanos, através do Comité [de Libertação da OUA] na Tanzânia, e com dois batalhões de cubanos, acredito que podemos desferir um golpe contra os imperialistas no coração dos seus interesses no Katanga.”[2]
Che Guevara viria a entrar no Congo-Kinshasa, através da Tanzânia, em Abril de 1965. Liderava um contingente militar de cerca de 200 homens, com a particularidade de todos eles serem cubanos de origem negra. Uma outra coluna de efectivos cubanos de idêntico número, liderada por Jorge Risquet, foi desdobrada no Congo-Brazzaville. Segundo o já citado estudo de Piero Gleijeses sobre a intervenção militar cubana em África, a missão da coluna de Risquet era prestar apoio à guerrilha do MPLA, defender Brazzaville na eventualidade dum ataque a partir do Congo-Kinshasa, e actuar como força de reserva de apoio à coluna de Che Guevara.
Para além das forças de guerrilha opostas ao regime de Kinshasa, o plano cubano apresentado por Che Guevara aos movimentos de libertação em Dar-es-Salam em Fevereiro de 1965, teve a aprovação do MPLA, do ANC da África do Sul, assim como da guerrilha ruandesa liderada por Joseph Mundandi, e de forças opostas aos regimes da Guiné-Equatorial e dos Camarões. O apoio subsequente de Cuba ao PAIGC viria a revelar-se de particular importância para os avanços na luta contra a ocupação colonial portuguesa na Guiné-Bissau.
A Frelimo de Eduardo Mondlane opôs-se a esse plano, o que aliás não constituía novidade para Che Guevara. Segundo Juan Benemelis, ex-funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros cubano, aquando da sua passagem por Accra em Janeiro de 1965, o presidente Kwame Nkrumah transmitiu a Che Guevara “as suas reservas sobre Eduardo Mondlane”.[3] Idêntica advertência foi feita a Che Guevara por Pablo Rivalta, embaixador cubano em Dar-es-Salam. Ainda de acordo com Benemelis, que foi o primeiro encarregado de negócios na embaixada cubana em Dar-es-Salam, o embaixador Rivalta advertiu Che Guevara de que os acampamentos de treino de guerrilheiros da FRELIMO na Tanzânia, estavam ‘contaminados’ por membros do ‘Corpo da Paz’. No entanto, Rivalta informa Che Guevara que dentro da Frelimo poderia contar com “Marcelino dos Santos, como um elemento de toda a confiança.” Rivalta havia conhecido Marcelino dos Santos durante um encontro da União Internacional de Estudantes em Praga.
Não era apenas o Gana e o governo de Cuba que viam Eduardo Mondlane como revolucionário pouco consequente. Já em Outubro de 1964, Noureddine Djoudi, embaixador da Argélia na Tanzânia e representante do seu país no Comité de Libertação da OUA em Dar-es-Salam, se havia referido ao primeiro presidente da Frelimo como “um fantoche americano, a quem faltava espírito de militância, e era incapaz de liderar um movimento revolucionário.”[4]
Mondlane não só se recusa a apoiar a intervenção militar cubana no Congo-Kinsahasa, como também rejeita o apoio de Cuba para a prossecução da luta armada em Moçambique, não obstante a escassez de meios materiais com que a Frelimo se vinha debatendo desde a sua fundação em 1962. Pablo Rivalta, numa mensagem expedida de Dar-es-Salam para Che Guevara no Congo-Kinshasa a 19 de Agosto de 1965, fala da necessidade de se alterar o plano sobre o uso de instrutores militares cubanos que a pedido de Julius Nyerere haviam chegado à Tanzânia para o treino de guerrilheiros da Frelimo em Tabora.[5]
Rivalta viria a clarificar o teor da sua mensagem em declarações prestadas a três autores cubanos que integraram o contingente de Che Guevara no Congo-Kinshasa. Rivalta é citado pelos autores como tendo dito que
“alguns companheiros que o Che pensava enviar para Moçambique não puderam ir porque os contactos que tínhamos estabelecido com o governo da Tanzânia e com os moçambicanos disseram que não era ainda o momento, e o Che deu-me ·instruções para que fossem para o Congo e para o Congo os enviei.”[6]
Uma outra prova da recusa sistemática de Eduardo Mondlane em alinhar com o plano cubano, surge em Outubro de 1965. Numa derradeira tentativa de salvar do colapso o contingente militar cubano destacado no Congo-Kinshasa, o próprio Fidel Castro deu instruções a Jorge Risquet para promover um encontro com os dirigentes da Frelimo e do MPLA em Brazzaville, durante o qual devia voltar a insistir junto da Frelimo para que apoiasse o plano. Segundo Benemelis:
“Na reunião de 8 de Outubro (de 1965) com os movimentos de libertação das colónias portuguesas, Castro faz um último esforço para salvar o foco africano. A delegação cubana compromete-se a ajudar o MPLA e a Frelimo, com a condição de as mesmas se unirem ao Che, no Congo. Não obstante, a FRELIMO moçambicana, na pessoa de Eduardo Mondlane, evita o compromisso. A anterior disputa Guevara-Mondlane, meses antes, centrou-se no mesmo dilema: Mondlane negou-se a colocar a FRELIMO como fonte de abastecimento do comando guerrilheiro de Che.”[7]
A posição irredutível de Eduardo Mondlane foi transmitida por Marcelino dos Santos que participou no encontro de Brazzaville.
A intervenção militar cubana nos dois congos em 1965 coincide com uma série de acções que os Estados Unidos vêm desenvolvendo no campo militar, político e diplomático no sentido de manter a sua influência na região. Mondlane é um elo importante nos esforços diplomáticos encetados por Washington.
O estudo de Piero Gleijeses revela que em finais de 1964, a Administração Johnson, promoveu o recrutamento de forças mercenárias na Rodésia e na África do Sul, assim como na Bélgica e na França, as quais, sob o comando de Mike Hoare, foram enviadas para o Congo-Kinshasa a fim de salvarem o regime de Moses Tshombe da derrocada face aos avanços da guerrilha simba e à impotência das forças governamentais. A acção das forças mercenárias, segundo demonstra Gleijesses, citando documentos oficiais norte-americanos obtidos ao abrigo da Lei de Liberdade de Informação, foi de primordial importância para a derrota da guerrilha simba e o colapso da intervenção militar cubana no Congo-Kinshasa. Entre outros factores que contribuíram para o fracasso da intervenção cubana incluem-se as profundas divisões no seio do movimento de guerrilha congolês, a decisão do governo tanzaniano em retirar o apoio à rebelião congolesa, e o golpe de estado ocorrido na Argélia em Junho de 1965.
O contingente cubano viria a abandonar o Congo Kinshasa em Novembro de 1965, cerca de 7 meses após ter infiltrado o território congolês. Aviões soviéticos da Aeroflot procederam ao transporte do contingente de Dar-es-Salam para Havana.
Paralelamente à acção militar no Congo-Kinshasa, os Estados Unidos desenvolvem, em parceria com Eduardo Mondlane, uma iniciativa diplomática tendente a levar Portugal a solucionar o problema de Moçambique pela via pacífica. Em Julho de 1965, por ocasião da visita de Robert Kennedy à África Austral e Oriental, Mondlane discutiu a situação em Moçambique com o antigo ministro da Justiça americano e outros dirigentes norte-americanos em Dar-es-Salam. Mondlane confidenciou a Wayne Fredericks, subsecretário de Estado para os assuntos africanos, que caso Portugal concordasse com um plebiscito sobre o futuro das colónias, os termos desse plebiscito seriam menos importantes do que o processo político que ele iria despoletar. Efectivamente, Mondlane admitia que uma eventual independência de Moçambique não necessitaria de fazer parte do plebiscito. Para Mondlane, uma escolha simples entre Moçambique permanecer como província ultramarina portuguesa ou como membro duma comunidade Lusófona era por si só um significativo passo em frente.
Na sequência deste encontro, o Departamento de Estado apresentou uma proposta a Salazar em Agosto de 1965. O embaixador norte-americano em Lisboa, George Anderson, é quem entrega a proposta concertada na base no encontro de Dar-es-Salam no mês anterior. Salazar mantém a mesma posição irredutível.[8]
Em face do que acaba de ser exposto, torna-se óbvio e claro que seria um contra-senso o presidente da Frelimo apoiar a intervenção militar cubana no Congo-Kinshasa. E se não apoiou, não foi por questões de lana-caprina atrás mencionadas, mas sim por que uma aliança com Cuba não condizia com a maneira de ser de um dirigente que desde a sua subida ao poder se havia demarcado dos desígnios do bloco comunista em relação ao continente africano.
E a prova de que o distanciamento de Eduardo Mondlane era em relação a Cuba e não a Che Guevara propriamente dito, foi que mesmo depois da sua morte na Bolívia, o presidente da Frelimo continuou a manifestar a mesma posição, nomeadamente em conferências na Universidade de Dar-es-Salam e em entrevistas com correspondentes estrangeiros.
Cuba não perdoaria Mondlane por ter proferido “declarações injuriosas” contra Che Guevara numa entrevista concedida a jornalistas norte-americanos do «Liberation News Service». Foi por intermédio da agência noticiosa estatal, Prensa Latina, que as autoridades cubanas acertariam contas. Num extenso artigo sugestivamente intitulado “Presidente da Frelimo desmascarado”, e posteriormente publicado no «Juventud Rebelde» e transmitido pela Rádio Havana Cuba, a Prensa Latina começa por se referir a Mondlane como alguém “que viaja aos Estados Unidos com mais frequência do que um embaixador do Departamento de Estado”. Depois, estabelece uma diferença entre Che Guevara e Mondlane:
“O Che e o Senhor Mondlane realmente diferem em tudo. Em primeiro lugar, o senhor jamais entrou em Moçambique para combater junto da guerrilha a cuja formação ofereceu obstinada resistência após a fundação da Frelimo. O senhor escolheu Washington e outras grandes capitais como ‘campo de batalha’ enquanto o Comandante Guevara seleccionou a Sierra Maestra primeiro, e depois as montanhas bolivianas, onde combateu até à morte.”[9]
Segundo Fidel Castro, Eduardo Mondlane viria a retractar-se, se bem que as relações entre o primeiro presidente da Frelimo e Cuba permanecessem sempre distantes. De passagem por Berlin Oriental a 3 de Abril de 1977, Castro manteve um encontro com Erich Honecker, no decurso do qual informa o dirigente da antiga RDA sobre as conversações que acabara de manter com Samora Machel na cidade da Beira. As palavras proferidas por Fidel Castro provam uma vez mais que a disputa entre Cuba e Eduardo Mondlane tem causas muito mais profundas do que a versão de Hélder Martins, apoiada em “fofocas”:
“Havia diferenças entre nós e a Frelimo, que datavam do tempo em que a Frelimo estava baseada na Tanzânia, e onde o Che Guevara conversou com Mondlane. Nessa altura, Mondlane não concordou com o Che, e disse-o publicamente. Posteriormente, publicaram-se em Cuba artigos de imprensa contra Mondlane. Mais tarde, Mondlane retractou-se, mas apenas a nível interno pelo que as coisas permaneceram mais ou menos no ar.”[10]
Mas já em relação a Samora Machel, Castro tinha uma outra opinião, em tudo diferente daquela que o governo cubano havia manifestado em relação a Eduardo Mondlane por intermédio do jornal «Juventud Rebelde», órgão oficial da União da Juventude Comunista de Cuba:
“Na realidade, Samora Machel foi para mim uma surpresa. Passei a considerá-lo com um revolucionário inteligente que tomava posições claras e mantinha um bom relacionamento com as massas. Ele causou-me muito boa impressão. Conversámos durante dia e meio. (…) Antes disso não sabíamos ao certo qual a influência que os chineses exerciam sobre ele. Ele agora está mais próximo da União Soviética e de outros países socialistas.”[11]
[2] Piero Gleijeses, Conflicting Missions: Havana, Washington, and Africa, 1959-1976, The University of North Caroline Press, 2002.
[3] Juan F. Benemelis, Castro – Subversão e terrorismo em África, Europress, Odivelas 1986
[4] “Telegrama Confidencial” expedido pela Embaixada dos Estados Unidos em Dar-es-Salam a 15 de Outubro de 1964. (Documento obtido ao abrigo da Lei de Liberdade de Informação e citado em João M Cabrita, Mozambique – The Tortuous road to democracy, Palgrave, 2000.)
[5] Ernesto Che Guevara, The African Dream – The diaries of the revolutionary war in the Congo, The Harvill Press, Londres 2000.
[6] Paco Ignacio Taibo II, Froilán Escobar, Félix Guerra, O ano em que estivemos em parte nenhuma – A guerrilha africana de Ernesto Che Guevara, Campo da História, Porto 1995.
[7] Benemelis, op cit
[8] “Telegrama Secreto” expedido da Embaixada dos Estados Unidos, Dar-es-Salam, 29 de Julho de 1965; “Memorando Secreto” relativo à conversa entre o embaixador Anderson e Salazar, 22 de Outubro de 1965, citados em Cabrita, op cit
[9] Teofilo Acosta, Desenmascarado el presidente del Frelimo, Juventud Rebelde, Havana 21 de Maio de 1968 p3
[10] A transcrição do discurso de Fidel Castro foi encontrada nos arquivos do antigo Partido Unificado da Alemanha. Está disponível na Internet : http://cwihp.si.edu
[11] Ibid
Fevereiro 6th, 2010 — AL, Soltas
(por AL avó babada)
Queixam-se os meus co-maschambeiros dos meus posts de viagens e outras parvoíces afins, em detrimento de posts potencialmente mais interessantes sobre o que é ser avó. Insinuam mesmo que estarei eu, quiçá, numa fase de negação da provecta idade avoenga que me vai corroendo as juntas e as cruzes. Vou hoje falar do meu neto.
O Benjamim chegou dia 17 de Novembro de 2009 ao seio de uma família em êxtase com o acontecimento. Devidamente registado para se firmar bem na sua cepa; passou com nota máxima no teste do pézinho; já levou dois furos nos pneus, que o inocularam contra diversas doenças manhosas. Tem o sono dos justos e o feitio manso de alguém da família que não a avó. De Cascão não tem nada; adora o banho, onde aproveita para bicicletar com tal vigor que já andamos a pensar em adquirir aventais de plástico. Gosta da água bem quentinha e de tomar banho com vagar. Quando lhe apetece saborear melhor o seu banho, lambe as mãozinhas e alterna expressões de riso e alegria com a pura concentração do exercício físico extenuante que é, para ele (e para nós), o banho.
Não foi circuncidado. Não por qualquer razão ideológica ou religiosa, mas simplesmente porque não. De bens possui uma família babada e um guarda-roupa esmerado ainda que sem grifes ou marcas. Cá em casa não gostamos de fazer de bilboards para ninguém, ainda por mais pagando por isso! Era o que faltava!
É a cara da mãe, embora sendo eu a avó materna tal afirmação possa parecer suspeita. Mas se se vier a parecer com o pai, também não fica mal, pois é o pai dele um homem muito bem apessoado.
É tão lindo o meu neto Benjamim que até dói! São 60 cm de alegria pura e sem malícia, com um cheiro doce a leite. Duas amêndoas negras abrem-se para um mundo cheio de coisas novas a descobrir. Palra e ri-se agora, do alto dos seus 2 meses de vida. Olha-nos com a confiança de quem ainda só foi amado.
Gosto de empiná-lo ao meu ombro, por sobre o qual ele pode ver o globo terrestre com África estrategicamente posicionada no seu campo de visão. E conto-lhe então como vai ser quando fugirmos os dois para África, onde o vou deixar correr nu pela praia. Guuu, diz ele. Na maré baixa, vamos os dois apanhar amêijoas, digo-lhe baixinho. Grrrr responde ele em de-leite. Quando tiveres cinco anos já hás-de saber cortar cocos com uma catana, para a Avó beber coco lenho como ela tanto gosta. Guuu-grrrr ri ele na cumplicidade da pilhéria. Rimos os dois.
Depois conto-lhe que em Dezembro havemos de ir a Tete ver os embondeiros floridos e provar do seu fruto; vamos também ao Niassa para veres como é um mar de água doce. Chama-se lago. Guuuu responde ele já em planos de viagem. Em Nampula, havemos de aterrar por entre cabeços redondos e depois vamos para a Ilha. Aaaaaa, palreia ele. Havemos também de ir à Zambézia! Tantos coqueiros como nunca viste e colinas e um rio imenso que agora já tem ponte mas que a Avó ainda atravessou de batelão. Aaaaaa continua ele extasiadamente. E eu continuo a viajar na memória, agora por ele acompanhada, e conto-lhe do Tofo e da Barra, de Inhambane e do Morrungulo, de Magaruque, Benguerua, Sta Carolina e Bazaruto, subimos ao Ibo, passamos por Zanzibar e pernoitamos em Mombassa.
Juntos atravessamos a baía de Luanda e vamos banhar-nos no Mussulo. Quando tiveres seis anos hás-de começar a surfar; vamos até Cabo Ledo, para aí te iniciarmos. Depois subimos por aí fora e vamos a Timbuctu, compramos peixe em Mopti. Grrrr gaaaaa…. Havemos de ir ao Kruger cheirar o mato e ver os animais. Conto-lhe a história do cão do macaco e da vaca, que vão passear de machibombo.
E vão-se-lhe fechando os olhos no cansaço da viagem, até que adormece encostado no meu ombro. E nesse momento, também eu fico em paz.
É tão lindo o meu neto Benjamim que até dói!
Janeiro 28th, 2010 — Arquivo, Soltas
(por AL à procura de equilibrio)
Têm sido diversas as reacções à abertura do grupo maschamba no facebook, mas uma delas, bastante gratificante por acaso, tem sido a quantidade de sugestões que tenho recebido de amigos. Hoje foi a minha amiga Docha que me enviou fotos de táxis renováveis nas Filipinas com a legenda “era giro pores no maschamba“. São giros os veículos, com a carroçaria inteiramente construída em bambu num esqueleto de metal, montada num motoreco alimentado a óleo de coco!
Sendo de bambu, que volta a crescer depois de cortado, e alimentados a biodiesel produzido a partir do óleo de coco, produtos autóctones, não põem pressão acrescida no ambiente nem tampouco interferem com terras de cultivo. Além de que abrem espaço para a abertura de pequenas unidades industriais nas zona rurais onde a matéria prima abunda, apoiando ainda o desenvolvimento de artes tradicionais como as esteiras.
Como o bambu é leve e extremamente resistente, consomem relativamente pouco combustível e oferecem relativa segurança, embora dificilmente passassem os testes de segurança exigidos no mundo ocidental. Mas, hei!, que eu saiba as Filipinas não têm uma indústria automóvel a proteger, ou têm? Sendo leves, não necessitam de motores de grande cilindrada, pelo que nunca atingem velocidades que façam perigar a integridade dos passageiros. Dizem os entendidos que são ideais para estradas rurais e pequenos percursos em cidades congestionadas e poluídas.
Enfim, e só lucro! Uma boa ideia cheia de potencial.
Janeiro 26th, 2010 — Arquivo, Viagens
(por AL em colaboração com Zé João e Micas)
Na Índia são as estradas tão vivas quanto os mercados – abundam rickshaws com taxímetro, sem taxímetro, com buzina de corneta, com colunas de alumínio, com flores, dobrando como transporte escolar, mas sempre, sempre agradáveis e arejados, permitindo cheiros, cores e sons, que entram desimpedidos; camiões pintados num requinte de enfeite; automóveis de que já só temos recordações; motas que só conhecemos de filmes… Junto ainda uma aqui da yours truly encaixada por entre as muitas compras que pelo caminho se foram fazendo. E, como não podia deixar de ser, nem falta o elefante trabalhador!
Janeiro 26th, 2010 — Música Moçambique
(por AL em veia hip-hop)
Não é a primeira vez que aqui falo da nova música que se vai fazendo pelas ex-colónias portuguesas, nem dos contornos de intervenção social e política que o hip hop dessas paragens tem vindo a tomar. Hoje deixo aqui dois jovens moçambicanos, 2 caras e 100 paus de sua graça. Foram-me apresentados pela Vera via facebook e gostei o suficiente para os ir youtubar. Neste tema que aqui deixo e que se chama Pais da Marrabenta dizem coisas como Foram 16 anos de uma guerra civil/ Só de orelhas decepadas foram mais de mil/ Ainda querem que o povo lhes de ouvidos/ Dam! filhos da mãe desses políticos!! Reconhecem que Injustiça! palavra mais comum entre nós/ Tanto se reclama quase que se perde a voz … E acrescentam Deram liberdade de imprensa ao jornalista/ O carlos teve azar foi o primeiro da lista/ Pois é o mano esqueceu-se da lei da floresta meu/ Antes que abrisse a boca tiro na testa … E o assassino com certeza foi ao enterro/ Abraçou a viúva e disse: meu companheiro!
Num outro tema chamado Africa cantam Eu sou preto, como as noites sem luar/ Eu sou os lábios de um homem que fuma sem parar/ Eu, trago na alma a essência do carvão/ O luto das viúvas, eu sou a escuridão … O céu numa noite sem luar e sem estrelas/ o sinónimo de sofrimento e de guerras/ África é um livro não aberto com/ titulo escuro e conteúdo incerto…
Janeiro 25th, 2010 — AL, Filmes, África do Sul
(por AL ainda constipada, afónica e farta do Inverno)
Não tenho ido muito ao cinema, mas vi recentemente um filme que me agradou particularmente e que me remeteu para um outro de há uns anos atrás. Sao dois filmes sul-africanos; ambos abordam a exclusão social e neles se assiste ao processo de humanização dos protagonistas, se assim posso dizer, ainda que de perspectivas e com abordagens completamente diferentes.
Tsotsi, baseia-se numa novela de Atol Fugard, adaptada para o cinema por Gavin Hood e ganhou em 2006 o Oscar para Melhor Filme em Língua Estrangeira. A novela de Fugard passa-se em Sophiatown, uma township destruída nos anos 50 para dar lugar a um subúrbio branco. A acção desenrola-se no ambiente de opressão do apartheid e ilustra o racismo, a terrível pobreza da maioria da população negra e a violência da época. O primeiro rascunho da novela foi escrito nos anos 60, mas a novela acabou por ser publicada somente nos anos 80. Transposto para a África do Sul dos dias de hoje, pós-apartheid, o filme continua tão actual como o era a novela na altura em que foi escrita, mostrando a terrível pobreza em que a maioria da população negra continua a viver na África do Sul e a violência que parece não ter diminuído, bem como a exclusão social gerada pela política do apartheid, na novela e pela pobreza e pela violência, no filme.
Na novela Tsotsi, o protagonista, é um jovem sem memória do passado; no filme é um jovem gangster do Soweto, igualmente sem passado e sem memória. A violência é para Tsotsi (na novela e no filme) o motor da sua vida e um simples mecanismo de sobrevivência, para quem, como ele, vive num presente permanente – senão tem passado não tem também qualquer futuro, nem sonhos, nem ambições.
A vida de Tsotsi muda radicalmente no dia em que encontra um bebé abandonado, na novela; no filme, raptado juntamente com um carro de luxo. O processo de humanização de Tsotsi começa com a confusão que o avassala quando ele não consegue simplesmente matar o bebé e com ele se identifica – ambos vulneráveis e ambos sem história. E protegendo o bebé Tsotsi vê-se de repente “vítima” de empatia (um sentimento até aí seu desconhecido), forçado a confiar e a ligar-se a outros e vê abrir-se-lhe um mundo de alternativas, de futuro. Tudo isto sem melodramas açucarados e de lágrima fácil, numa acção pontuada por uma banda sonora fenomenal. No filme, claro; para ler a novela recomenda-se o silêncio requerido por um bom livro.
O filme que recentemente vi e que me remeteu para Tsotsi tem um registo completamente diferente e chama-se Distrito 9. É um filme de ficção científica.
Uma nave espacial avariada imobiliza-se por cima de Joanesburgo. Vinte e oito anos depois do primeiro contacto, os extraterrestres, umas criaturas bizarras a quem os humanos chamam Prawns (camarões), foram tratados como refugiados e confinados a um acampamento, a que o governo da África do Sul chamou Distrito 9, enquanto os líderes mundiais debatem como abordar a situação. Mas os humanos não vêem com bons olhos esta acomodação e conforme a tensão vai subindo, o governo atribui a tarefa de controlar os extra-terrestres a uma empresa privada, a Multi-National United. O interesse da MNU, no entanto, centra-se no armamento que os extraterrestres trazem consigo e que os humanos não sabem como utilizar.
O protagonista é um funcionário do MNU – Wikus van der Merwe – que sofre um acidente que lhe provoca uma mutação no seu ADN, mutação essa que lhe permite o uso das armas extraterrestres. Wikus torna-se assim na chave que poderia desvendar o segredo dessas armas. Funcionário zeloso e orgulhoso do seu trabalho até à data do acidente, olhando para os extraterrestres com uma mistura de fascínio, paternalismo e desprezo, Wikus vê-se de repente confrontado com os preconceitos que anteriormente personificara. Ostracizado e isolado Wikus refugia-se no Distrito 9 onde se completa o seu processo de identificação com o “outro”, iniciado com o acidente que lhe causou a mutação do ADN.
Dois filmes notáveis, ambos sobre redenção sem heroísmos e sem choradinhos, e que recomendo vivamente aos leitores maschambianos.
Janeiro 20th, 2010 — AL, Arquivo, Mulher, Soltas
(por AL a especular ligeiramente assustada)
Ah como eu gostava delas! Como me revia nas suas conversas! Como se pareciam comigo e com as minhas amigas quando em conversas de mulherio nos juntávamos…
Elas, claro, em Manhattan, com Starbucks nas mãos e Blahnicks nos pés; nós, na Benard, com calçado anónimo, bebíamos chávenas de Tetley (era o que havia, era o que havia). Mas falávamos todas do mesmo: homens, amor e sexo. Quem eles eram; onde paravam e o que faziam; como beijavam; eram bons na…? Sim, admito que trocávamos notas e que passávamos, a elas notas e a eles homens, umas às outras.
Ai, com esse não que andas a perder tempo; é só fachada! Esse? Hmmm, dei-lhe uma vez um beijo e não foi nada de especial… Aquele ainda tem muito que aprender; se tiveres pachorra… Tem cuidado que esse é um predador emocional! Não posso acreditar que ele te disse isso! Não vão acreditar com quem eu estive ontem e no que trago para contar!
E misturavam-se as ansiedades das etiquetas com o telefone e do que faço quando o vir outra vez?; do que acham que ele quis dizer quando…?; e das interrogações confudidas do já alguma vez estiveram com um que…
Continuávamos pela tarde fora em conversas de bravata a desfolhar proezas; ou em conversas de desgostos amargos, a sarar feridas com a raiva vingadora das amigas; ou em conversas de sonhos de vida eterna que nem as certezas delas conseguiam resguardar do descalabro que aí vinha. E todas nós nos revíamos na Carrie, na Miranda, na Charlotte e na Samantha. E tínhamos também o nosso Mr Right para mal dos nossos pecados; cada uma o seu, claro! Eu deleitava-me nessa cumplicidade que me acolhia depois das prolongadas ausências por terras alheias, onde via a série por atacado e com a qualidade dúbia dos videoclubes. Reconfortavam-me, davam-me um sentido de pertença depois de meses a ser estrangeira em mim. Deixavam-me entrar de mansinho no quotidiano não partilhado das outras e afastavam-me do que com elas não conseguia partilhar. Assim, estilo calçadeira de sapato para amizades interrompidas.
Cada uma tinha também a sua favorita e eu venerava a Samantha e os seus toy-boys! A verve com que ela os agarrava, usava e descartava! Aquilo sim é que era pinta! E ainda por cima era desbocada:
My name’s Samantha and I’m a loveaholic.
Well, I don’t know how you people do it. All that emotional chow-chow. It’s exhausting.
If we could perpetually do blowjobs to every guy on earth, we would own the world. And at the same time have our hands free.
Nós, e penso que muitas outras como nós, adorávamos o Sex and the City. Era como que uma afirmação da nossa emancipação e da nossa sexualidade; assim estilo flower-power finalmente casa com o Faubourg de Saint-Honoré. Para nós, foi o corte final com o mito da imagem em proporção inversa ao intelecto. Agora podíamos ser inteligentes, cultas e profissionais, mas também bonitas, depiladas, arranjadas e fúteis. Quase chorámos quando a série acabou! Chorámos pelo fim e por causa do fim. Onde é que já se viu! Não nos caíu bem que a palonça da Carrie andasse feita dama das camélias por Paris (embora o cenário fosse o adequado); que o palerma do Mr Right, depois de tudo o que lhe fez, fosse a correr com um ramo de flores (digam lá se há cliché mais piroso!) e a atolantada derrete-se que nem rebuçado em boca de bébé a começar a dentição! Valha-nos deus! Arruinaram anos, ouviram?, anos fabulosos com este fim serôdio!
Depois apareceu o filme. Fomos todas ver! Juntas novamente! Mais maduras agora, estabelecidas noutros sonhos e noutras heroínas. Com outras guerras para lutar. Mas unidas pela cumplicidade desses anos, lá nos metemos na calçada da memória e aí fomos nós. A desilusão do último episódio sagrou-se com o filme. Não que fossemos à espera de um fino recorte cinematográfico, mas ao menos UMA, UMA daquelas conversas fabulosas do estilo da Charlotte a descrever um loverboy não circuncidado: Tinha tanta pele que parecia shar-pei!
Não, o filme tinha sido depurado, sanitizado. O factor “mulher independente, desbocada e assertiva” tinha desaparecido e as nossas “meninas” nao passavam de donas de casa desesperadas em roupas de assinatura! Fomos defraudadas! E agora, juntando insulto a injúria, vem aí a sequela!
Falava aqui há dias o JPT nos Xutos para crianças na infantilização duma rebeldia geracional em favor da mercantilização de um produto com mercado descendente (quiçá esgotado?). Pus-me a pensar e agora pergunto-me, será que no Natal de 2020 a minha neta vai receber o Sex and the City 47, em versão capa rija?
Janeiro 18th, 2010 — AL, Soltas
(por AL auto-nomeada em Porta Voz) –
…. hei-de levar Moçambique pela minha vida afora!
É este o convite que acaba de chegar à minha parede do facebook e que aqui divulgo. Eis o que diz a organização:
Estamos todos tão perto, mas tão longe, que resolvemos promover um reencontro de malta de Moçambique, numa “Mistura de Sabores”, identidades, memórias, passados e presentes… Apareçam! Divulguem! Colaborem! Para que este seja o primeiro de muitos momentos futuros de partilha. Famílias e simpatizantes “coca-cola” são obviamente bem vindos. Aliás, decidimo-nos por um almoço pensando precisamente nos descendentes, pequenos demais para sairem à noite.
O repasto decorrerá no restaurante “Mistura de Sabores“, em Sintra – R. D. António Correia de Sá, nº2, Várzea de Sintra. Sugiro que consultem o link, mas deixamos desde já os detalhes de maior importância: 18.50 Euros, por adulto; crianças até os 10 anos pagam metade, crianças até os 4, não pagam nada. O menu é composto por entradas, grelhado de carnes variadas, sobremesa, e bebidas à descrição.
Para quaisquer outros esclarecimentos, questões, informações e outros ões semelhantes, não hesitem em contactar o restaurante, no link aqui indicado.
Agradecíamos que confirmassem presença até o dia 5 de Fevereiro e a não comparência após confirmação, implica o pagamento obrigatório do elemento em falta, pelo que levem isso em atenção por favor.
Aguardamos Vossa resposta,
Beijinhos e abraços,
Teresa e Katija
Acrescento somente que podem consultar a pagina que as organizadoras abriram no facebook e verem quem vai, quem não vai, quem não sabe ainda se vai. Ah, e também que o site do restaurante tem uma musiquinha irritante que só se fina quando clicamos no fundo da página, do lado direito, numa nota musical que lá está, mas mal se vê.
Por um lapso meu, a data do almoço não foi incluída. Aqui fica então: Sábado, 13 de Fevereiro - 13:00 horas no restaurante indicado
Janeiro 17th, 2010 — AL, Diatribes
(por AL muito constipada) –
Tenho andado desarticulada! Fruto talvez da falta de irrigação cerebral provocada pela batalha insana contra a tremenda constipação que me assola. Tanta coisa a passar-se na maschamba… E eu nesta crise de desarticulação que não me deixa juntar dois pensamentos numa frase coerente!
Refugio-me no facebook, esse espaço cibernético para quando não quero, ou não consigo, pensar nem estou muito disposta a alto voos intelectuais. E entre espirros e assoadelas lá me vou entretendo com mais um bocadinho de farmville, ou passeio até ao cafeworld, visitando de caminho o happyaquarium e as minhas manas da sororitylife. Sim, admito que sou uma tonta por este joguinhos palermas. Todos temos idiossincrasias e eu tenho muitas; chamem-me excêntrica!
Tenho também andado às voltas com um post aqui para a maschamba. Arrumando, devagarinho, as quase 2,000 fotografias que recolhi na Índia deparei-me com estas duas pérolas. Foi em Cochim, ao fim da tarde, junto ao porto e ao mercado do peixe. Dois cegos num tuc-tuc armadilhado com dois gigantes altifalantes roufenhos. Ela (en)canta com a sua voz e ele lá vai, literalmente com tacto, dominando a estática. Quem passeia agradece e deixa a sua homenagem na forma de umas rupias. Quem guia o tuc tuc foi mistério que ficou por esclarecer!
São pobres e vivem de esmolas, mas não enganam ninguém; fazem a oferta de um serviço que, não tendo sido solicitado, não deixa por isso de ser agradável ou pitoresco. É honesto! E, por uma estranha associação, vêm-me estes dois cegos à mente enquanto vejo as imagens chocantes da destruição no Haiti.
Comecei interessada em ver e saber mais e acabei enjoada com a pornografia da miséria que prolifera por essa televisão fora. E desarticulada como me sinto, nem consigo explicar bem porque me incomodam tanto os apelos por fundos para grandes (des)organizações humanitárias que devem ir ajudar os aflitos e de quem parece depender a salvação. Ou as imagens e conversas com jovens ainda semi-enterrados, desesperadamente esperando por equipamento retido sabe-se lá onde, que dali os desenterre.
Não me interpretem mal. Estivesse eu assim enterrada, aqueles jornalistas e aquelas câmaras seriam como que um fio a ligar-me à vida; uma quase garantia de que nada de pior me iria acontecer; certamente não me deixariam morrer assim debaixo dos projectores. Mas daqui, deste lado, incomoda-me o que me parece ser uma exploração desmesurada da dor e da miséria e pergunto-me porque não largam eles as câmaras e os microfones e não dão uma ajuda aos voluntários que, desesperadamente tentam, com mãos nuas e míseras barras de ferro, ir deslocando as placas de cimento que soterram, ainda, a vítima que acabou de ser entrevistada. E penso no aumento das audiências e dos fundos para as (des)organizações humanitárias que estão a deslocar-se em massa para o Haiti.
E enquanto navego nos meus jogos insanos do facebook vou pensando nisto e vou sendo bombardeada com mensagens da miséria e de como posso contribuir com fundos. A bem da facilidade e da comodidade as (des)organizações humanitárias foram mais rápidas a abrirem um site no facebook do que o tempo que demora a dizer Haiti. Acreditem ou não, num ápice se abriu uma giftshop, onde posso adquirir uns bonequinhos idiotas e virtuais que simbolizam o meu “gift” ao Haiti e que, depois de por mim comprados, serão postados na minha wall e na wall dos meus amigos. Senti-me afrontada com a imbecilização da ideia e da giftshop. Estarão a fazer troça? E imediatamente me senti mal e culpada de maus pensamentos. Afinal não posso ficar indiferente a um horror tão grande! E se fosse comigo e com a minha família?
Num esforço resolvo então visitar os sites das organizações envolvidas na giftshop. Pelo menos ver onde pensam gastar o dinheiro que angariam. Nada! É para o Haiti e pronto! Desconfio. Depois de muita pesquisa encontrei UM financial statement, referente ao ano de 2007. Fiquei a saber que dos mais de 8 milhões de dólares que a Oxfam recebeu em 2007 ($8.283.401 mais propriamente) somente $752.854 foram gastos em coordenação humanitária, isto é, menos de 10%. Advocacia e campanhas (penso que para angariar os tais fundos) usaram $2.936.878; $1.870.682 ficaram em caixa e os restantes milhões de dólares encontram-se distribuídos por Governação, Desenvolvimento de Afiliação, Comunicações (mais de 1 milhão de dólares), Desenvolvimento e Planeamento de Programas (não implementação, notem), tudo categorias tão obscuras para mim como serão certamente para quem me lê. Ou 2007 foi um ano pobre em calamidades, ou então, estamos a ajudar quem?
E lembrei-me outra vez dos cegos de Cochim, que me pareceram ainda mais limpinhos e honestos! E fiquei outra vez zangada comigo. Porque nesta minha diatribe pareço esquecer-me de tantas organizações meritoriamente desinteressadas. Lembrei-me dos médicos sem fronteiras, da AMI e outras, todas elas meritórias de apreço e que, sem embandeirarem em arco e sem alarde, tanto têm feito. Também têm sites, também usam o espaço cibernético mas, parece-me a mim, fogem da indigência high-tech.
Janeiro 11th, 2010 — Bloguismo
(por AL em franca procrastinação novamente) –
Fiz ontem um post a queixar-me da chuva invernosa que lá fora caía e que me obstruía os pensamentos. Hoje, dois comentários juntaram-se e inspiraram-me para o que aqui fica. Ahhh (digo eu em suspiro deliciado) o Bom nunca perde qualidade!
Janeiro 11th, 2010 — Bloguismo
(por AL entediadamente arrepiada) –
DESTESTO O INVERNO!
Se eu mandasse no tempo, o Inverno eram duas semanas com neve para brincadeiras e para todos conhecermos o conforto de um chocolate quente à beira de uma lareira com cheiro de lenha. E chegava e acabava-se o frio.
Dizem-nos que havemos de arder no Inferno, mas no meu imaginário o Inferno é um mar de gelo e não de fogo. Um gelo que nem me permite pensar!
Chove lá fora e cá dentro, na minha cabeça, uma vez e outra, num mantra perpétuo, só ouço os velhinhos Supertramp. E porque mais nada me ocorre, mais vale então descarregá-los aqui….
Janeiro 8th, 2010 — Maputografia, Radio
(por AL em ondas radiofónicas) –
Não vai provavelmente ser novidade para a maioria dos leitores maschambianos, mas para mim foi e é. Nem fazia ideia que existia, quanto mais que tinha reaberto!
Foi fundada em 1936 e parece que influenciou o estilo de toda uma região. Deixo aqui o link para a sua história, bem como dois jingles que muitos reconhecerão. Fica ainda um kanimambo maningue big ao meu amigo Rui Monteiro, que me alertou para a novidade da sua re-abertura. Apanha-se em Maputo, em 107.4 FM. Como diz o Rui, e muito bem, não se trata de saudosismo mas sim de uma rádio fabulástica!! E no mundo visual de hoje as rádios fabulásticas não me parece que abundem.
Assim, senhoras e senhores, é com prazer que anuncio e vos peço uma calorosa ovação para a LM Radio! LINDO!
Jingle with Clarke McKay
Jingle Station ID D Emilia
Janeiro 7th, 2010 — Bloguismo
(por AL em confusões mil)
Olha lá, um billion em inglês é quanto em português? Um bilião, um milhar de milhão ou um milhão de milhões?, pergunta-me a voz aflita do outro lado do fio telefónico. Numa tentativa de dissipar a confusão que me invadia perguntei hesitante – Já foste ao google? Já, mas não ajuda! vem a resposta pronta e ainda mais aflita.
Aviso já que eu, que até dou opiniões sobre assuntos que desconheço quase na totalidade, não gosto de não saber. E ainda gosto menos de o admitir! Digo então do alto da minha prosápia, Espera aí que já te ligo; agora assim de repente, não me lembro. Pouso o telefone e ataco furiosamente o teclado do computador para ver se consigo finalmente clarificar o que tem andado tão nebuloso há já longos anos. Esta dúvida que me chegou via Marconi não é nova; há mais de uma década que me debato com ela e tinha somente uma vaga ideia de que significava coisas diferentes mais ou menos indiscriminadamente.
E fica aqui já revelada uma das minhas muitas idiossincrasias – não gosto de não saber, mas co-habito muito bem com a dúvida. Em minha defesa digo, porém, que para quem como eu tem dificuldade em conceber quantidades, a enormidade destas ordens de grandeza pouco significa. Quero eu dizer tanto não consigo conceber a grandeza de um milhar de milhão como a de um milhão de milhões. Enfim, coisas de menina …
Finalmente hoje percebi que não estava sozinha! Porque na realidade ninguém parece saber muito bem de que falamos quando encontramos um número expresso em billions. Senão vejamos:
Acrescendo a esta confusão milionária, temos ainda os diferentes sistemas de medição. Há pouco tempo quis comprar um suporte para o laptop, para poder trabalhar com ele no colo. Pergunta-me o vendedor com um ar entendido e eficiente E de quantas polegadas deseja? Ah, isto vende-se ao metro? arremesso eu em tentativa de humor para disfarçar a minha ignorância. Temos de 12, 13, 15 e 17 polegadas, responde ele sem sorrir. Ahhh, digo eu com cara de loura burra (geralmente resulta! Não percebo o fascínio pelas mulheres patetas, mas às vezes dá um jeitão) e isso é quanto em centímetros? Bem, apruma-se a postura do vendedor, isso já não sei! Acaba-se-me a presunção de burrice e riposto Mas pode saber não pode? Não tem ligação à internet aqui? Indica-me, com um breve aceno de cabeça, os computadores ligados à rede num dos lados da loja. E eu armada em exigente Então é só ir ver, não é? Do que é que está à espera? E lá foi ele, relutante (de certeza que não ganha à comissão!) indagar ao google os equivalentes métricos das polegadas (2.54 cm).
Mas se pensam os leitores maschambianos que estas coisas só se passam comigo em coisas triviais, enganam-se! Em 1999, uma sonda da NASA enviada a Marte despenhou-se porque uma das tabelas de dados para um componente essencial da sonda tinha os valores indicados em newtons (a unidade métrica de força), mas foram interpretados em libras-força (a unidade inglesa equivalente). O erro foi detectado demasiado tarde; ainda tentaram corrigi-lo, mas a sonda acabou por se despenhar, causando billions de prejuízos e um embaraço sem preço. Enfim, um verdadeiro momento Mastercard – Valor da sonda a Marte: 125 milhões de dólares. Queda da sonda em Marte: x billions de dólares. Embaraço causado: priceless!
Janeiro 6th, 2010 — Viagens
(por AL em sonhos tropicais) –
Quando regressei da Índia a frase que mais ouvi foi talvez “então e as praias de Goa?”. E eu, um pouco perplexa com este mantra, vejo-me aflita para explicar que para mim as praias de Goa não foram as do postal ilustrado, protagonistas das varandas dos hotéis e resorts de luxo, ou das loucas rave-parties dos ingleses.
As praias que visitei e fotografei foram as praias dos pescadores e dos mercados; as praias percorridas pelos vendedores de artigos variados e onde também as vacas se passeiam; as praias onde as crianças brincam e os adolescentes namoram; as praias onde as tias combinam casamentos e discutem alianças. Quase desertas durante as horas de calor, enchem-se de gentes ao pôr-do-sol num ritual diário de uso e costume; num prolongamento dos alpendres domésticos. Praias onde a luz e a areia se combinam para melhor realçar as cores dos shalwar kameez e dos saris e onde as ondas se quebram no tilintar das pulseiras. Onde as dunas são (realmente) como divãs. Foram essas as praias que vi e cujas imagens aqui vos deixo.
Janeiro 4th, 2010 — Racismo
(por AL em tempo de chuva) –
Hoje vou falar de cremes, mais propriamente, de cremes para a pele. Durante a minha recente viagem pela Índia precisei de comprar creme hidratante para a cara. Desconsegui! Desconsegui de encontrar um simples creme hidratante para a cara, que não contivesse agentes branqueadores. Passei a usar um óleo que levava e fique a pensar que fenómeno é este, o dos cremes branqueadores? De onde vem? Serão heranças do colonialismo? Alguém sabe? Pergunto-me de onde virá esta associação perversa entre o tom de pele com o êxito na vida…
A grande maioria dos cremes para as mulheres africanas contêm agentes branqueadores e conhecem-se histórias terríveis dos abusos de tais cremes. Quando estive em Timor Leste verifiquei exactamente o mesmo – quase todos os cremes continham agentes branqueadores. E por aí fora por toda a Ásia, incluindo, pelo que vejo, a Índia. Acresço ainda que também no dito Mundo Ocidental as mulheres de pele mais escura , ou de herança étnica como soe dizer-se em politicamente correcto, procuram e usam afincadamente estes produtos. Experimentem fazer um google com “skin whitening” (ou skin lightening, ou skin bleaching – nomes alternativos) e vão ver!
Será que ninguém vê que a mulher branca passa literalmente horas e horas a torrar ao sol, arriscando um cancro de pele, somente para ter nem que seja uma pequena fracção do tom de caramelo que a maioria destas mulheres já tem naturalmente? “Ah, mas vocês só são escuras quando querem; quando querem podem ser brancas e não ter esse bronzeado e nós não!”, dizia-me uma amiga timorense com quem tive esta conversa, depois de ela me confessar que não ia à praia para não ficar mais escura, pois queria arranjar um namorado.
A entrada para skin whitening na Wikipedia relaciona o uso destes cremes com questões de identidade, auto-imagem, supremacia racial e mentalidade colonial. Não disputo tal asserção, mas depois de saber que o mercado dos cremes branqueadores representa qualquer coisa como 13 biliões de euros a nível mundial, resolvi fazer uma busca no youtube. E Bingo!
Existem milhares e milhares de anúncios que não só propagam como cimentam a percepção que o êxito na vida depende do tom de pele. Aliás, explicitam muito bem esta associação, fazendo histórias de relação directa. A publicidade destes produtos é de um racismo totalmente inaceitável. Mas aparentemente o mercado continua a crescer e está a alargar-se aos chamados “produtos naturais”, com direito a insurgirem-se contra os branqueadores químicos (imaginem!) e aos comprimidos – skin whitening pills. Nem mais!
Numa época em que tanto de se fala de capitalismo responsável, tolerância e aceitação, parece-me que está neste tema uma fonte inesgotável de acção para grupos de pressão e quejandos. Com tanta sociedade civil envolvida em tanta questão social, parece não existir ainda um único grupo que sistematicamente combata esta percepção, ou se insurja contra este tipo de mensagens com que milhões de jovens são bombardeados diariamente. Sim, porque os rapazes também não estão imunes, existindo cremes também especificamente para eles. O que nos daria mangas para mais um post aqui na maschamba sobre a sociedade civil e o que lhe subjaz, mas isso não é para agora. Para agora deixo aqui dois exemplo desses anúncios, um para meninos e um para meninas, para venda de mais um crime branco. Perdão, crEme, crEme!
Janeiro 2nd, 2010 — Al Bowlly, Música, Música Moçambique
(por AL em buscas youtubinas)
Estava eu calmamente surfando no youtube por música moçambicana quando dou com este Moçambicano (que penso) desconhecido – Al Bowlly.
Albert Alick Bowlly, mundialmente conhecido por Al Bowlly foi um dos cantores de jazz mais famosos do Reino Unido e não só, contemporâneo de Glenn Miller que escolheu ele mesmo em 1934 uma orquestra para Al Bowlly cantar em New York, e de Bing Crosby, Dean Martin, Frank Sinatra e Carlos Gardel. Nem mais!
Al Bowlly nasceu em Lourenço Marques em 1899, filho de costela grega e libanesa. Quando tinha 4 anos de idade a família mudou-se para Johannesburg, onde ele viveu até 1923-24.
Personagem colorido e viajado o nosso Al sai da escola aos 14 anos para trabalhar como barbeiro, tendo também começado nesta altura a dar os seus concertos de banjo e uke. Em 1923-24 junta-se à orquestra de Edgar Adeler numa tournée que o leva a Rhodesia, East Africa, India, Malaya, e Java.
Irrequieto Al pega-se com o maestro e abandona a orquestra e 1925 apanha-o nas corridas de cavalos em Calcutá, onde conhece Jimmy Lequime com cuja orquestra ruma até Singapura, iniciando nova tournée mundial que, depois do Oriente, o levaria a Berlim onde gravou o seu primeiro disco como vocalista em 1927.
Em 1930 em Londres, Al assina um contrato com Noble que o leva para New York, onde gravou 500 músicas nos quatro anos seguintes. O sucesso de Blue Moon, I’ve Got You Under My Skin e outras foi tal que Bowlly teve direito ao seu programa de rádio na NBC e viajou para Hollywood onde contracenou num filme chamado the The Big Broadcast em 1936.
Al Bowlly foi creditado como o pai do crooning, que se pode traduzir livremente por baladeiro, iniciando assim uma escola que viria a dar frutos de nome como Nat King Cole, Frank Sinatra, Dean Martin, Bing Crosby e Andy Williams.
Morreu em Londres em 1941, vítima de uma bomba alemã que explodiu à porta da casa onde vivia e foi enterrado no cemitério de Westminster juntamente com as outras vítimas da bomba.
Ouçamo-lo então num dos seus grandes êxitos!
Janeiro 1st, 2010 — Arquivo
(por AL em lirismos de anos novos passados) -
Aqui há uns anos fui com a família passar o Natal e o Ano Novo a Veneza. Foi um mês maravilhoso de passeios pelas lindíssimas cidades medievais do Vale do Pó, de estreita co-habitação com história e cultura, igrejas, capelas, museus, músicas e concertos e também de um memorável almoço de Natal em Turim, com a família da minha amiga Clara. A título de curiosidade refiro somente que o dito pranzo constava de 14 pratos – 7 entradas e 7 pratos principais e assistimos a todos!
A noite de fim de ano foi em Verona e o 1 de Janeiro foi passado em Veneza, de concerto em concerto, seguindo a tradição italiana dos concertos de Ano Novo. Com o La Fenice fechado para obras, passaram-se os concertos desse ano para capelas e igrejas espalhadas pelas praças e ruelas de Veneza. Encheram-se as ruas (e os concertos) de famílias italianas em espírito festivo e com a cumplicidade que o hábito soe criar e que consigo carregavam copos, termos com vinho quente de especiarias ou champagne (sumos e chá para os mais novos ou mais velhos), em jeito de piquenique invernoso e nevado. Perdemos o esplendor do La Fenice mas ganhámos em ambiance!
No final do primeiro concerto percebemos a razão dos copos e bebidas: os concertos fechavam com a ária Brindisi da Traviata de Verdi e eram rematados com um brinde global de músicos e espectadores. E é assim que saúdo também aqui na maschamba o ano de 2010. Aqui o temos, pequenino ainda e novinho em folha, a estrear; agora vejam lá o que fazem com ele!
Libiamo ne’dolci fremiti
che suscita l’amore …
Ahhhh che bello!