Sobre o Valor do Dinheiro ou Um Acto de Fé

(por AL em 17 Nov 2009) -

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Aqui há muitos, muitos anos, estava eu de passagem por Genebra quando me vem parar às mãos uma revista, cujo nome já esqueci, que tinha um artigo que me prendeu a atenção. Falava de um pintor norte-americano que pintava dinheiro; pintava notas de dólar com as quais transaccionava bens e serviços. Tudo teria começado por um serendipismo, quando uma empregada de café propôs ao nosso artista trocar o café e o donut que ele acabara de consumir pela nota de 1 dólar que ele tinha acabado de pintar na toalha de papel. O total da conta eram 99 cêntimos e o nosso artista, James Stephen George Boggs de sua graça, recebeu ainda 10 cêntimos de troco.

Foi este o primeiro dia do resto da sua vida. Passou a pintar notas de dólar, francos, marcos, pesetas… Ou seja, passou a “imprimir” a sua própria moeda com a qual tem pago bens e serviços, numa completa subversão do establishment monetário. As suas notas não eram vendidas (por si) a coleccionadores mas tão somente transaccionadas e Boggs encorajava as pessoas a fazerem-nas circular, pagando com elas outros bens ou serviços adquiridos a terceiros. Tentativas de o processar por falsificação têm sido inúmeras mas vãs, uma vez que não havia pretensão de falsificar moeda internacionalmente reconhecida e ambas as partes envolvidas na transacção estavam cientes do que se estava a trocar: uma pintura de dinheiro pelo bem consumido ou serviço prestado. Apesar disto Boggs viu toda a sua arte e bens serem penhorados pela United States Secret Service Counterfeiting Division em 1990 e tem-se debatido desde então para que esta o processe, ou lhe devolva os bens.

Diz Boggs que uma nota mais não é que uma pintura num pedaço de papel e que o seu valor não passa de um acto de fé: acreditamos que a nota realmente vale o que diz valer. Como a recente crise financeiro veio demonstrar, Boggs não está provavelmente longe da verdade. Resta-me dizer que Boggs não parece ter conquistado grande notoriedade como artista excepto, oh ironia das ironias!, na Suíça!

Sobre Boggs e sua Arte ver:

As Boggs’ Bills
Consumer Mutineers (movimento inspirado em Boggs)
Biografia de Boggs
Exemplo de uma transaccao Boggs
Literatura inspirada por Boggs
Boggs e a Crise Financeira

5 comments ↓

#1 Fernanda Angius on 11.17.09 at 20:36


Ironia do destino ou não, o certo é que ninguém melhor que os Suíssos tem a noção do valor relativo do dinheiro … Ou não fosse a Suiça o primeiro «paraíso fiscal» procurado pelo resto do mundo…Que o digam Mugabi, e muitos outros que lá acumularam as suas fortunas… Porém, é também de notar como o dinheiro do sr. Boggs, como verdadeira obra de arte (ou artezanato) é trocada pelo seu real valor, ou seja, o valor que lhe atribui quem compra; senão pensemos porque é que uma pintura abstracta constituída por apenas dois traços brancos sobre um fundo azul, que, para muita gente nada significa e nem dez cêntimos daria por ela, se tiver a assinatura de um famoso como Picasso pode ser vendida por mais de 1 milhão de dollars?

#2 AL on 11.17.09 at 20:45


Cara FA, e isso mesmo! E tal como dizia ABM num post aqui na maschamba, as coisas tem o valor que lhes quisermos dar. So faco uma ressalva: o que Mugabe e quejandos acumularam na Suica nao foram fortunas, mas sim pilhagens :) … Quanto a Boggs a sua subversao vem exactamente do facto de a pintura valer o seu valor facial (veja a nota de 5,000 dolares!), de pagar um bem ou servico e de ele receber somente o troco. Como demonstracao da (absurda) abstraccao que e o dinheiro, nao podia ser melhor

#3 ABM on 11.18.09 at 1:20


Deixem contar uma história rápida que me lembro na altura ter achado imensa piada.

Ao pé da Universidade de Brown, na (então) cidadezinha de Providence, nos EUA, onde estudei, há uma escola de artes, chamada Rhode Island School of Design, a que na altura eu não ligava muito mas que, do que tenho ouvido e lido, é das melhores dos EUA e bastante difícil de ingressar, dado o interesse dos muitos potenciais alunos. O processo da candidatura é puxado e obviamente focado nas artes e desenho.

Um dos candidatos enviou a sua candidatura pelo correio, que foi recebida pelo Gabinete de Admissões, que analisava os vários pedidos de ingresso. Para além das notas da escola e resultados de testes, havia um questionário, a que todos tinham que responder.

Nesse questionário, uma das perguntas era se o candidato tinha alguma aptidão especial que gostaria de referir. Este aluno indicou que era muito bom a pintar reproduções e que tinha muita atenção ao detalhe.

A pergunta imediatamente a seguir era se o candidato tinha alguma obra ou trabalho feito que gostaria de mencionar ou apresentar ao Comité de Admissões. O jovem respondeu: “Sim. Os sêlos do envelope contendo o processo da minha candidatura ao RISD foram pintados por mim”.

Ele foi aceite.

#4 juan re on 11.18.09 at 9:47


Un articulo muy inspirador
un saludo
juan re from Barcelona

#5 AL on 11.19.09 at 3:37


Gracias Juan, bona nit i tapa’t

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