Se há algum génio nas artes plásticas em Moçambique (e dado que Shikhani não esculpe, desesperemos pois) então será Reinata, tradicionalizando tudo o que nos inova, regesticulando um monstruário que só alguns poderão achar lá do Cabo Delgado, mas que é mesmo dela. Às vezes um grotesco máximo, um horror e humor a pedir alguém que mexa o suficiente nas palavras para que o possa definir.
Vem esta breve nota por causa da última exposição individual dela, “Rumo a Nova Descoberta” assim chamada, à qual ainda cheguei a tempo. Dezenas eram as obras, mas coisa suave, como se a velha atravessasse agora período de calmaria nas inquietações que lhe moldam a olaria. Será tal possível? Abundantes mulheres, um zoológico em crescendo, mas, perdoe-se-me, este assim tipo bric-a-brac.
Em suma, Reinata é Reinata, mas não saí com o deslumbre a que me habituei quando a cruzo.
Ainda assim, e fosse eu expatriado bem-pago não lhe deixaria em mãos um delicioso (pobre palavra, outra vez) auto-retrato “A Dona da Exposição”, um realismo etnográfico “Mulher pilando mapira” que está extraordinário, e o mais significante de tudo o que ali se apresentou, um “Procurando Água” que é a única peça que me lembrou com vigor a sua cosmologia.
Vêm estas reproduções para ilustrar a adenda. Reinata é nome grande. Já viajou muito, expôs, foi catalogada e fotografada. Porventura até filmada. Não é pois lamento de falta de documentação para o futuro, este que se segue. Mas Reinata é mesmo nome grande. Como é possível expôr em Maputo, terra dos poucos mecenas e decerto distraídos, nesta pobreza? E ainda para mais numa instituição estrangeira, o Centro de Estudos Brasileiros, com perfil de cooperação e divulgação. Como é possível deixar esta artista expôr acompanhada apenas de um desdobrável que nada mais é do que uma fotocópia ali impressa a pedido do visitante. Sem roteiro, sem documentação. Sem publicidade que se veja. Um desinteresse, um abandono. Assim a parecer nada mais do que uma linha no relatório de actividades lá para o fim do ano. Mas que actividade? Ligar a luz?
Dir-se-á que o que interessa são as obras. Mas, e quem não compra? E quem compra mas quer saber o mais possível. Acompanhar o mais possível. E, já agora, se o que interessa são as obras então é ir ao Museu, visitar a artista. Nada! Até dói ver uma artista destas ser assim desacarinhada. Sem miserabilismos, sem coitadismos. Mas sim porque quem expõe Reinata expõe. Como deve ser. E quem não patrocina Reinata não patrocina ninguém.



8 comments ↓
Adoro o trabalho de Reinata. É fácil adquirir os seus trabalhos aí em Moçambique? Se calhar é um pedido pouco ortodoxo mas, haveria forma de me enviar por correio alguns desses trabalhos? Pagar-lhe-ia obviamente todos os custos de envio.
Publicado por: Paula às dezembro 4, 2005 09:42 PM
pelo correio? ó minha cara chegava-lhe tudo em cacos …
há reinata em Portugal [antes houve uma galeria de flibusteiros, a Perve em Alfama (agora ponham-me em tribunal, aldrabões) que aqui veio com o apoio do extraordinário Instituto Camões que carregou peças à consignação. Talvez haja alguma ainda]. MAs ela tem exposto por aí, é possível que haja peças em armazém
Era precisamente para não adquirir as peças nessa galeria…De resto é praticamente impossível de encontrar obras de alguns artistas moçambicanos de renome por aqui. Não haveria hipotese de mandar por correio expresso, tipo DHL? Bem aconchegadinho…Nem que fosse uma das peças mais pequenas. Ando há procura há que tempos de obras dela e do Shikhani.
Publicado por: Paula às dezembro 5, 2005 12:15 PM
compreendo o seu desejo e até lamento o meu egoísmo. mas não vou fazer isso. v. não compra nada por menos de 100 ou 150 dolares, e no dominio do bric-a-brac, 200/300 se peças mais peças. e o “aconchegadinho” que refere já é responsabilidade.
mas passo pelo atelier dela e pergunta se e onde há coisas em portugal. logo botarei. quanto a shikani idem, mas há alguns anos havia acrílicos não caros um pouco esquecidos na galeria barata, lisboa. seria de tentar.
Ok. Em relação à Barata, já não existe a galeria. Fechou. Ainda consegui comprar uns desenhos. Mas quanto ao Shikhani seria mais fácil enviar. Seria possível?
temos peças da Reinata na nossa casa em Portugal. E a Reinata vem là este verrao
Quem quiser pode contactar-nos pelo email.
cumprimentos. e verdade que a Reinata tinha problemas con a galeria perve, e melhor nao comprar la.
Publicado por: barbara buser às janeiro 23, 2006 12:35 AM
Olá. Gostaria imenso de a contactar mas não “apanhei” o seu email.
Publicado por: Nuno às fevereiro 8, 2006 09:42 PM
Gostaria de contactar a Sra. Barbara Buser por causa das peças da Reinata mas não tenho o seu email. Se fizer o favor de me contactar para ardefunk@yahoo.com , agradeço.
Leave a Comment