Morreu Abel Nhantumbo

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É possível que o nome de Abel Nhantumbo nada diga a quantos lerem este texto. Seu rosto talvez fale um pouco mais. Mas mais, muito mais certamente, dirão as muitas obras que, quase incógnito, discretamente deixou por inúmeras casas e, sobretudo, dispersas aqui e ali, por vários cantos do mundo.

Abel Nhantumbo era um dos nossos “meninos” do Psikhelekedana, do Bairro de São Dâmaso, da feira do artesanato, do mercado em frente ao Piripiri, das ruas da cidade de Maputo. Sobre ele, e na primeira pessoa, ficou registado o seguinte no catálogo de uma exposição em que participou:

Eu vivia em São Dâmaso e frequentava a escola na zona de Dlhavela, que ficava a um quilómetro e meio de minha casa, mais ou menos. Naquela altura, estudei só até à terceira classe, por causa da guerra. Juntamente com toda a minha família, fui viver para o Bairro Patrice Lumumba, em casa do meu avô. Voltei para Dlhavela em 1992, quando a guerra terminou, matriculei-me na 4ª classe e passei. Frequentei a 5ª classe e passei.

Em criança, eu brincava com o Dino. Ele começou a esculpir muito cedo, quando eu estava a estudar. Em 1998, comecei a trabalhar com ele. Eu fazia as minhas peças e ele ajudava-me nas partes difíceis. No início, eu só fazia 4 peças: Refugiados, Aniversário, Igreja e Depósito de Pão, mas, uma vez, encomendaram-me o PMA (Programa Mundial de Alimentação) e uma sala de estar, e verifiquei que era capaz de fazer. Senti-me mais motivado e confiante para tentar fazer novas peças. Agora sinto-me à-vontade para fazer qualquer coisa.

Em 1999, pensei emigrar para a África do Sul, mas devido à morte dos meus pais acabei por ficar em Moçambique. Ainda não me foi possível continuar a estudar porque tenho de sustentar uma família numerosa.”

Humilde, muito humilde, mas confiante nas suas capacidades, determinado, e sempre de largo e fácil sorriso. Jovem, de 27 anos apenas, mas adulto em engenho e arte. Carente e merecedor de auxílio, porém praticamente abandonado à miséria, e até, posso dizê-lo, explorado.

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Foi ao regressar de férias fora do país que tive a triste notícia da sua morte, por malária simples, no passado dia 19 de Julho. É com profunda tristeza, indignação e, confesso, algum remorso – por mais não feito por ele – que aqui a anuncio.

De Abel Nhantumbo, foram em 2003 oferecidas 10 peças ao Museu Nacional de Arte, que ficou seu fiel depositário. Todas elas representam aspectos da vida e da história do nosso país. Uma é a conhecida representação do Julgamento de Carlos Cardoso, um dos maiores marcos na luta pela justiça em Moçambique.

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Que justiça se faça, mesmo póstuma, a Abel Nhantumbo. Sua esposa e duas filhas – uma das quais recém-nascida – aí estão para receber o que ainda lhes é devido por alguns clientes de seu pai e marido. E que esta triste perda sirva de exemplo para o reconhecimento e apoio urgente de que necessitam, e merecem verdadeiramente, alguns grandes artistas de Moçambique.

Fátima Ribeiro

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Fátima Ribeiro, apaixonada por esta via do artesanato do sul de Moçambique, idealizou, produziu, ajudou e financiou a realização das obras que vieram a ser apresentadas na exposição colectiva

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Moçambique: vida e história em Psikhelekedana“, a qual continha peças de cinco jovens artistas. Apresentada em 2003 com enorme sucesso público, esse foi o momento alto da breve carreira de Abel Nhamtumbo.

5 comments ↓

#1 jpt on 06.20.08 at 15:39


Estou maravilhada com as ‘figurinhas’, que pena se tenha perdido um autor assim!…

Publicado por: IO às agosto 25, 2005 07:19 PM
http://chuinga2.blogs.sapo.pt/

#2 jpt on 06.20.08 at 15:39


Cada vez faz menos sentido, para mim, saber de mortes tão sem sentido! Ficarão as figurinhas a lembrá-lo e o teu tributo!
Um abraço!

Publicado por: madalena às agosto 25, 2005 07:30 PM
http://www.textosreunidos.blogspot.com/

#3 jpt on 06.20.08 at 15:40


O melhor que se pode fazer agora é recordar e dar a conhecer a arte de Abel Nhantumbo. Nesse sentido, é uma bela homenagem.

Publicado por: Carlos Azevedo às agosto 25, 2005 07:31 PM
http://thecatscats.blogspot.com/

#4 jpt on 06.20.08 at 15:40


Nâo estive em Moçambique,mas quase dois anos nos Camarôes!De onde trouxe varias obras locais ,algumas feitas por os proprios operarios, quase todas expostas na minha casa,e amigos Canadianos.
Foi uma experiença unica mesmo ,se falhou pouco deixar a minha péle, como um amigo com a variola. De norte a sul d’oeste a este,encontrei artistas,dialectos,costumes que se se perdem, que como artistas como ele so as suas obras ficam,tal o aleixadinho no Brazil, Bem hajam

Publicado por: apache às setembro 4, 2005 02:41 AM

#5 jpt on 06.20.08 at 15:41


Desculpem ,malaria..so vou ajutar um feito que ainda hoje,as lagrimas aparecem-me quando me lembro.Estavamos pérto lo lago Tchad.Joe éra o nosso companheiro.Eu Jacques e René os quais tinham voltado ao Canada,foi néssa altura que a filha de Joe que estava no colo de sua maê,saltou-me ao pescoço e disse-me a chorar, nâo te vas embora papa blanc. Ele éra uma JOIA

Publicado por: apache às setembro 4, 2005 02:56 AM

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