
Poetisa publicada e artista plástica Sónia Sultuane apresenta a sua primeira individual, agora no “Camões”, dentro de algum tempo no “Camões” da Beira: “Palavras que andam“, um desenvolvimento de uma instalação que apresentou na recente oficina “Muyehlekete“, ocorrida em Abril no Museu Nacional de Arte.
Ora foi exactamente nessa oficina que a artista apresentou o seu trabalho plástico que mais me interessou: a instalação “Más-línguas“, uma série fotográfica sobre seu texto realizada conjuntamente com Mónica Miranda, onde com arreganho pontapeou a imagem hiper-lírica que a acompanha, construída sobre a sua poesia e a interacção que vem realizando desta com as expressões visuais. Foi um momento cujo vigor e radical auto-questionamento excitou a curiosidade para esta sua primeira aventura a solo.
O risco é louvável e o resultado colheu agrado geral. Mais, dizem-me que agita as consciências do meio local. Fá-lo-á com certeza até porque uma individual do género é ainda aqui raridade, mais ainda quando de alguém que não é consagrado - no caso até sendo uma “amadora” (no elevado sentido da palavra).
Ou incompreendo ou Sónia Sultuane propõe-nos uma adesão ao conjunto, uma conjugação que apela a uma fruição estética explicitamente intelectual. Bem para além da consideração peça-a-peça - esse um registo no qual uma obra como
[”Sou Poesia“, 2007, fotografias]
dificilmente sobreviveria. Pois se aparenta um jogo, até irónico, uma auto-”pin-upização” da poetisa plástica, essa aventura com múltiplos sentidos não surge nos passos seguintes da exposição, assim desiludindo as intenções analíticas, desnudando-se superficial.
Para mais - e a artista é inocente dessa intenção - a sua apresentação (por Calane da Silva, com concordância geral) invocou-lhe, como se antepassadas, outras figuras femininas do meio artístico moçambicano de meados de XX, desde então tutelares e entretanto ideologicamente apreendidas no processo de construção identitária nacional. O que, se não implica uma comparação valorativa imediata, incorre na valorização (na proposta para o a posteriori) do pacote de ideário veículado pelo meio artístico a que Sónia Sultuane vem pertencendo, e o qual me parece sumarizado nesta individual.
É neste registo que o resultado me é desconfortável, não só pelos trabalhos apresentados mas também pelas leituras alheias que adivinho em formação. Pois o conjunto sublinha questões que algumas das iniciativas da arte actual local me vêm suscitando.
A exposição tem o cunho da encomenda - é um desafio ao abrigo do “Ano do Multiculturalismo” (Ano Europeu do Diálogo Intercultural), algo porventura potenciado pela aparente tutela de um curador português, Pedro Campos. É legítima a opção da artista de não se interrogar sobre o que se lhe propõe como temática - encarando-a talvez como um mero “guarda-chuva”. Mas isso implica que o produto final não se esgota na visão pessoal do artista, de um momento da sua experiência (auto-)biográfica (se é que isso é alguma vez possível).
Assim, e para além da artista, encontro aqui a apologia plástica da ideologia actual, lisa de básica (”flat“) do multiculturalismo - ainda para mais institucionalmente induzida (em evidente djanovismo aprés la lettre, ainda que adocicado pelo pacifismo das “boas intenções” nem revolucionárias nem sanguinárias dos neo-djanovs). E questiono-me quanto ao sentido da aparente irreverência estética dos novos passos da arte moçambicana e, claro, dos de Sónia Sultuane.
[”Walking Words“, 2008; Ferro, Arame, Letras em Pasta de Papel]
“Palavras que andam” e que portanto dialogam, “palavras andantes” que multissignificam e pacificamente se traduzem, intercomunicam, matéria-prima da comunhão, ainda para mais no “inglês universal”? Será esse o teor da(s) instalação(ões) dominante(s)? - já agora, surpreendentemente modificadas por acção do pessoal técnico do instituição acolhedora, pequeno episódio que não traduz apenas alguma insensibilidade de quem o comete. Pois afirma as relações de poder institucional sobre o artista. E que este incompreende, ao pensar-se vítima particular e/ou atribuindo o facto a in-competência/des-conhecimento alheio, uma individualização, uma “pessoalização”, que assim atomiza o estruturante.
Perdendo assim o artista a visão do que é, afinal, item condicionante da sua actividade, tanto no que lhe baliza as temáticas como no que lhe secundariza as iniciativas. Tanto na acção dos especialistas (as críticas, as encomendas, as “curadorias”) como dos não-especialistas (a alimentação dos egos, os apoios mecenáticos, as “asneiras”). Porventura o incidente, aparente minudência, “natural” para quem anda (ou andou) nisto das exposições [em tempos eu terei feito asneiras similares, friso, não estou numa deriva “denuncionista”], pôs a nu as armadilhas do projecto ideológico a que Sultuane foi aderida.
Ou seja “Palavras que andam” são, afinal, ”palavras que se mudam”, na sua des-autorização?
[Sei que a referência aos factos “privados”, não publicitados, surge sempre como deselegante, inapropriada, até antipática. Mas estou certo de que é a compreensão “etnográfica” dos eventos, artísticos neste caso, extensiva e intensiva, que permite a sua real elucidação. E que é exactamente por isso que o silêncio sobre eles é exigido pelas “normas de conduta”, “de boa-educação”. E que o seu ocasional expressar é intelectualmente desvalorizado pela sua redução a ”má-língua”.]
Em suma, nesta ”Palavras que andam” encontro afirmada a naturalidade da pacificidade dialogante. E logo me lembro, em paráfrase, da célebre frase: “com as palavras nos entendemos, com as palavras nos desentendemos“.* Assim significando que andar com palavras é uma coisa, comunhão é bem outra, e que esta é alimentada até mais pelo silêncio. Esse silêncio que o aparente palavrear produz. E esconde.
[”Mandala poética“, 2008, Prato de cerâmica, tinta acrílica, marcador permanente]
[”Misbaha/Tashib” (Terço), 2008, Esferovite, Tinta metálica de água, fio de nylon]
É neste registo que a proposta de conjugação de abordagens religiosas, sua mera justaposição, - esteticamente apetitosa, em particular o “Terço” -, a confluência das obras acima reproduzidas, me é antipática. Não por negar a óbvia autonomia da artista em reflectir-se e ao seu processo de constituição espiritual. E também não por a reduzir a uma importação do “new age” “lá de fora”. Mas porque a entendo como uma visão acrítica da compita religiosa - nos contextos pessoais, não me estou a referir aos “conflitos geoestratégicos” que nos enchem ecrãs e jornais. Uma confluência de linhas religiosas que será, na actualidade, o grande fenómeno ideal, o grande conflito pessoal, do real circundante, nacional - o grande palco da questão “multicultural”. A qual é dirimida em termos muito próprios, em que as espiritualidades (e seus espíritos) tanto confluem como conflituam em cada um dos crentes.. E que nesta placidez, de legitimação aparentemente autobiográfica mas também de cariz ideológico, se apaga.
Entenda-se, não exijo da artista (ou de qualquer outro) que reflicta sobre o “social”, contemporâneo ou passado ou futuro, que saia do seu “eu” real ou onírico. Mas se a(s) artista(s) me diz(em) que é sobre esse “nós” que reflecte(m), que procura(m) ilustrar mesmo que por indução …

[”Cocktail dos Sangues“, 2008, Taça de vidro, espuma, arame, pano, esponja, meia de seda]
Corolário de tudo isso é esta peça, “Cocktail dos Sangues”, deixada como símbolo da multiculturalidade moçambicana. Não posso, olhando-a, deixar de reconhecer a presença de itens de um capital cultural muito específico, e de sorrir à sua reinvenção. É um “kitsch” proposto, um transporte, uma invasão da loja de decoração étnico-pequeno-burguesa, aqui prenhe de uma outra intenção. Mas qual intenção?
A de dirimir a conjugação das diferenças através da constante e malfadada metáfora do “sangue”, a raça, sem mesmo a questionar. E a de afirmar a bondade da sua mistura, uma “mulatice” ideológica que é tão perniciosa ao entendimento (que não às “boas intenções”) como o é a defesa da “pureza” “sanguínea/rácica”: o “somos todos crioulos” que pode parecer muito bem mas que trabalha com categorias que não o são (”raças”), com metáforas infecundas (”sangue”) e se presta à tresleitura acrítica (a “mistura” enquanto tal).
Mais do que isso a afirmação do “cocktail de sangues” moçambicano, como se este um específico positivo, implica um desvio ao real empírico: que sociedade nacional não é hoje um “cocktail de sangues”? Mas que “sangues”, que grupos, se misturam (ou batem) no shaker histórico? Num país com a multiplicidade religiosa, social, linguística como o é Moçambique, foco das migrações históricas como o foi e é, claro que houve “cocktail de sangues”. Mas não são esses os sangues que aqui são decorados com fita amarela. Mais uma vez estamos na mera importação da ideologia actual, o que ali se refere - e foi verbalmente explícito na apresentação - é a mistura do “sangue” local (esse não cocktailizado, afinal) com os transoceânicos.
E é essa homogeneização do “africano”, constante nas formas de construção nacional, “patriocêntrica”, e também constante na construções transnacionais actuais, ditas do “multiculturalismo”, que esta ária do “cocktail de sangues” nos traz. E mais, esquecendo, ou melhor capeando, o facto crucial, de que se há especificidade em Moçambique é o facto de que o cocktail dos sangues - esses assim identificados - ser tão reduzido. Que há tão mais aguardente e cerveja. A beber em copos largos. Tão largos como os muros entre-”sangues”.
Na sua energia entusiasmada, na sua beleza, na sua extrema sensibilidade, na sua irredutibilidade lírica, Sónia Sultuane sumariza, simboliza e até extrema algumas das características dos movimentos inovadores na arte plástica moçambicana. É nisso apetecível. Mas também armadilhável. Apreensível. Aliás, apreendida. Como os seus colegas. A ver vamos. Se não se deixam apreender. Pelos ideólogos. E por nós, deles empregados em full ou part-time.
*”em português nos entendemos, em português nos desentendemos”.



0 comments ↓
There are no comments yet...Kick things off by filling out the form below.
Leave a Comment