(por AL com encenação da amiga Ana Lisa em 24 Nov 2009) –
Durante anos e anos, consultores de nacionalidades ocidentais diversas com quem tive o prazer (ou desprazer) de me cruzar em Africa acabavam invariavelmente por me perguntar que obsessão seria esta que os Africanos tinham pela posse da terra. De início pensei estarem eles a referir-se à acumulação de terra por parte de elites, como se tem assistido em diversos países da África Austral. Mas não, incluídos nesta “obsessão pela posse da terra” estariam igualmente incluídos os milhões de agricultores de subsistência que pelo continente abundam. A mim, que até penso conhecer alguma da cultura africana e que nunca me tinha ocorrido classificar como obsessão o desejo legítimo de querer possuir o garante da nossa sobrevivência, esta pergunta sempre me inquietou. E durante anos me perguntei porque razão continuávamos nós na Europa a produzir arroz ou beterraba açucareira, competindo assim com países em vias de desenvolvimento cuja vantagem comparativa seria exactamente essa – a capacidade de produzir estes mesmos produtos em excedente, permitindo assim a exportação dos mesmos e a geração de rendimentos nacionais. Porque inundávamos nós – ocidentais ricos – o mercado do açúcar ou do algodão, cuja produção mecanizada nos nossos países poucos empregos criava, fazendo assim baixar os preços mundiais e, consequentemente, o rendimento de colheitas que nos países em desenvolvimento tanto emprego criavam? Porque subsidiávamos nós a exportação de leite em pó para países como o Ghana ou o Mali, onde este acabava por ser mais barato que o bom leite da vaquinha que o pobre do produtor local até tinha comprado com um subsídiozito ocidental, inserido num qualquer esquema de combate à pobreza e de “empowerment” local, acabando assim por roubar o magro mercado ao homem, levando-o à falência?
Até que aqui há uns dois ou três anos uma qualquer greve em França, creio, criou um bloqueio tal na Europa que em Portugal começaram a faltar alimentos básicos. Foi então que a ficha caiu e o conceito de segurança alimentar, que até ali usara tão abundantemente num contexto de desenvolvimento, se iluminou nestes meus neurónios deformados por uma vida de relativo conforto e abundância. E foi esta a minha epifania da auto-suficiência alimentar.
Temos falado aqui na maschamba sobre as guerras do futuro, como se lutarão, o que as despoletará e se a corrida ao armamento teria ou não sido já iniciada. O artigo que despoletou este post parece-me bem ilustrativo do que aqui temos vindo a discutir. Talvez a terra, os alimentos transgénicos, as sementes melhoradas e afins sejam algumas dessas armas e, se assim for, a corrida ao armamento há já muito que se iniciou!

2 comments ↓
Cara AL,
O PAC (Plano Agricola Comum) e uma criacao do pos-guerra Europeu mas que rapidamente gerou medidas de efeito similar no resto das nacoes industrializadas e ao qual muitas dessas distorcoes de mercado que menciona sao sub-produtos.
O objectivo fundamental do PAC foi, desde o primordio, a garantia da auto-suficiencia alimentar Europeia. Seguranca alimentar neste contexto e um termo inexacto.
A lingua inglesa tem 2 termos distintos e muito uteis para clarificar estas discussoes: “food security” que se refere precisamente a isto de que falamos, seguranca de abastecimento da populacao, e “food safety”, isso sim equivalente ao portugues seguranca alimentar que se refere a salubridade dos alimentos (e que se tornou de muito maior importancia na decada de 90 depois da PAC se ter revelado um sucesso tremendo a garantir a food security).
O PAC teve tudo a ver com food security e sempre com vista a por um lado assegurar que a Europa nao caia com um bloqueio comercial em caso de guerra(ambiente de Guerra Fria) e por outro lado fazer com que os paises da entao CEE dependessem todos uns dos outros e assim prevenir conflitos armados dentro da Europa.
Como diriamos entao food security em portugues? Garantia alimentar? Confesso que tenho sempre tive dificuldades neste genero de coisas pois nunca trabalhei em portugues e desconheco os termos apropriados. E’ como empowerment, por exemplo, ou inputs que em Mocambique e Angola traduzem por insumos; ou taking ownership… Quanto ao PAC nao o referi de proposito pois nao queria levar o post por ai. Mas uma vez postado este fica com vida propria e o PAC aqui esta e e’ bem vindo
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