Tudo isso vem a cabeca quando Nelson Evora ganha o ouro no triplo-salto dos Jogos Olimpicos e o jornal Publico - o “jornal de referencia” ao que sempre ouvi dizer - tem um enviado a Pequim chamado Hugo Daniel Sousa, de profissao jornalista, a escrever (duas vezes) que para que Evora chegasse a campeao olimpico foi necessario “delapidar o diamante”. Paulo Querido, a um profissional da palavra escrita que bota isto a gente chama-lhe o que? “Lumpen”?
Lumpen, jornais e blogs, acordo ortografico e coisas assim …
22 de Agosto de 2008 | arquivo

9 comments ↓
Não. Simplesmente asneira.
(Historicamente, são aceites — ou fecha-se os olhos — figuras de estilo nas coberturas desportivas, em especial as de carácter festivo, que se proibem severamente nos outros sectores. Não estou a defender isto, mas a constatar. Pessoalmente, apontaria aí o dedo não apenas ao jornalista, mas também ao editor. E uso o tempo certo do verbo.
Outra observação: comecei em redacções desportivas. Tenho dos jornalistas ditos “desportivos” a melhor das impressões. Seja em termos de profissionalismo, culturais, etc, tive excelentes camaradas. Sorte minha, dirá? O jornalismo português do século passado desmente.)
Pardon!
Nao. Simplesmente asneira.
(Historicamente, sao aceites — ou fecha-se os olhos — figuras de estilo nas coberturas desportivas, em especial as de caracter festivo, que se proibem severamente nos outros sectores. Não estou a defender isto, mas a constatar. Pessoalmente, apontaria ai o dedo nao apenas ao jornalista, mas tambem ao editor. E uso o tempo certo do verbo.
Outra observacao: comecei em redaccoes desportivas. Tenho dos jornalistas ditos “desportivos” a melhor das impressoes. Seja em termos de profissionalismo, culturais, etc, tive excelentes camaradas. Sorte minha, dira? O jornalismo portugues do seculo passado desmente.)
(gostei da ironia - nao anunciada). Aqui vai sem acentos
Comecei a ler revistas antes de saber ler - o tintin de semana. comecei a ler jornais aos oito anos - a bola (que ninguem lia em minha casa) por causa do ciclismo, a volta a franca. A gente usava as equipas para montar as camisolas das caricas para a temporada do verao - ainda me lembro do cheiro e da tinta nas maos que o jornal tinha/deixava. Donde … nada me move contra os jornalismo desportivo:
mas tem toda a razao, a questao nao tem a ver com a “asneira” de alguem (ma categoria Ma-schamba la estara decerto o historial dos erros ortograficos deste blog e das polemicas que originaram). A questao tem a ver com a ignorancia “rampante” num meio profissional (e portanto com quem controla os textos, nao so de quem os escreve) que ainda para mais se desdobra em ataques ah perversao etica, psicologica, social, politica e cultural de quem escreve publicamente em muito menor escala de audiencia (os bloguistas)
Os exemplos estao ai e retirados apenas em diagonal: o grande e secular Diario de noticias a dar as centrais a uma tonta que nem percebe o que quer dizer (literalmente, nem falo dos conteudos sociologicos e historicos) “hispanicos” e portanto a considerar a populacao portuguesa nao-branca. Um tonto enviado pelo referencial Publico que nem sabe qual a diferenca entre “lapidar” e “delapidar” - estamos no dominio do controle muito incipiente da lingua e dos fenomenos que ela aborda
Como voce sabe os jornalistas (como tantas outras corporacoes) nao se entre-atacam (em publico, pelo menos) - tenho uma velhas discussoes em comentarios aqui com bloguistas jornalistas que isso explicitavam. Sao lestos em dar porrada em quem (um quem caricaturado como abaixo referi, um quem mitificado ou mentificado, melhor dizendo, como abaixo referi) lhes retira o oligopolio da palavra internetica, da manipulacao dos factos do presente-presente. Mas incapazes de tentar explicitar a superficialidade pessoalizada e institucional (empresarial) que segue no dominio jornalistico
Por favor um tipo que nao sabe o que eh “delapidar” e “lapidar” pode incorrer em asneira. Mas um tipo que o envia para cobrir os jogos olimpicos eh um miseravel cultural
Só queria dizer que o jornalista Hugo Daniel Sousa sabe bem qual a diferença entre lapidar e delapidar. O erro (que não quero desculpabilizar) aconteceu devido às circunstâncias em que o texto foi escrito (de madrugada, à pressa, sem ser devidamente revisto). Reconheço que é uma gralha grave, que devia ter sido corrigida pelos editores, mas também acho lamentável que se façam avaliações de carácter com base num simples erro ortográfico. Talvez os senhores sejam perfeitos, pessoas perfeitas, escritores perfeitos, mesmo que escrevam as vossas críticas sem acentos.
Hugo Daniel Sousa: um erro ortográfico não é grave? Pode não o ser. Eu cometo erros ortográficos (este blog teve uma radical discussão sobre erros aqui cometidos, já agora) e saúdo quem nunca os comete. Mas não é disso que se trata.
O grave? Duas coisas:
1. a geral: um jornal do qual se diz “de referência” deve controlar os erros (revisão - editor ou revisor) que todos os seus profissionais podem cometer. O estado do jornalismo português (e, já agora, do Público) também, sublinho que é do “também” que falo, se mede por essa abstenção [um “delapidar” era subtítulo, não se compreende que possa ter passado despercebido a quem monta o jornal]
2.
a) a particular: Isto não é um erro ortográfico, é um desconhecimento, um défice do uso da língua. Acontece? Sim. Partilho-o, noutros casos? Sim. Mas permite-me insistir em questionar que tipo de jornalismo (De novo, “de referência”) entrega trabalhos importantes a quem tem tamanha deficiência na utilização da língua - esta não como forma mas como instrumento de reflexão.
A V. desagrada-lhe esta nota, esta abordagem? Então veja o quão real ela é, retirada apenas de um comentário num pequeno post de um mero blog:
a. o erro “que não quero desculpabilizar” (como diz) é imputado ao cansaço e à pressa, uma desresponsabilização autoral, uma desculpabilização pura. Contradição radical, um défice (estratégico, claro) na utilização do instrumento.
b. “gralha grave”: não é uma gralha, é um erro. Ou seja, um duplo erro - o apontado; e aquele em que incorre considerando como “gralha” (uma falha “mecânica”, de composição) aquilo que é um erro (humano, claro, como a todos nós acontece, mas pessoalizado, autoral). Claro se torna que esta nada neutral tentativa de confusão de termos é mais uma manobra de “desculpabilização”, algo que V. imediatamente antes refere não ser o seu objectivo.
c. “lamentável que se façam avaliações de carácter com base num simples erro ortográfico” - avaliações de carácter? A questão levantada foi a de como se admite que um jornal de referência entregue a quem pouco domina a escrita um trabalho deste relevo. Nesta sua pequena frase permite a extrapolação - não é um problema de capacidade de escrita, é mesmo um problema de capacidade de leitura. Onde encontra algo que se refira ao seu carácter? Não está lá nada referente ao seu carácter. 7 linhas de texto meu e V. incompreende - quer maior sublinhado para o espanto face à utilização de agentes com este capital linguístico por instituições/ empresas que se afirmam ou desejam de qualidade?
(também sei que é recorrente transportar o campo de uma crítica recebida para o gemido do “assassinato de carácter”, injustificado. Truque lamuriento, artifício retórico nascido do “coitadismo”. Vale nada, diga-se)
d. Para culminar a inenarrável pobreza da sua intervenção aqui não poderia escolher melhor do que a birrazita dos acentos - talvez um dia venha a aprender que há teclados de computadores por esse mundo fora que estão desprovidos da nossa (portuguesa) acentuação. Se nem isso sabe não deixo de me interrogar sobre o faço eu aqui a responder-lhe.
Finalmente, para o PQ se ainda vier a esta caixa de comentários: “Lumpen”? Não é claro?
[…] pequena nota Lumpen, jornais e blogs … teve evolução, acho que cristalina, na caixa de […]
Não, não é claro. não vi fraqueza de espírito nem ausência de princípios no Daniel, prosa ou comentário. Não vi ali nada que me permita rebaixar dessa forma o autor, e até o seu jornal. Fosga-se, chame-me marxista no uso da palavra, se quiser.
Eu sou contra o coitadismo, nisso estou consigo e digo ao Daniel para seguir em frente, cabeça erguida — e esforço para menos erros.
Não quero, nem vou, eternizar esta discussão. Este é o último comentário que acrescentarei a este post, mas estarei disponível para continuar a conversa com jpt por email (hsousa@gmail.com) ou até pessoalmente, se quiser visitar-me na redacção do Público (enviar-lhe-ei os meus contactos por email).
1- Concordo plenamente com a primeira crítica. O erro deveria ter sido detectado na edição e é um excelente motivo de reflexão sobre a forma como os jornais (os de referência e os outros) fazem a revisão dos textos publicados. Obviamente, que o primeiro responsável é o autor do texto – e, por isso, me penitencio –, sabendo que uma releitura atenta do texto permitiria detectar o erro.
2. Já tentei explicar que a troca de palavras (absurda e revoltante, principalmente para quem a originou) não ocorreu por desconhecimento ou défice do uso da língua, mas sim pelas circunstâncias de produção do texto. O recurso a estas circunstâncias no meu anterior comentário visava explicar (a quem está fora do jornalismo) que estes erros podem ocorrer, mesmo a quem está na posse dos conhecimentos. Não que eu saiba tudo (porque não sei, e cometi, cometo e cometerei erros), mas porque neste caso particular não foi o desconhecimento que esteve na origem do erro. Por isso, lhe chamei gralha, porque o vi (e senti) precisamente como uma deficiência mecânica, um erro de digitação, uma distracção de alguém que escrevia um texto no final de um longo dia de trabalho, ao fim de quase duas semanas ininterruptas de trabalho, dormindo três ou quatro horas por noite.
3. Quanto à avaliação de carácter e ao “coitadismo”, reproduzo algumas frases escritas no post original e nos comentários de jpt:
-“A um profissional da palavra escrita que bota isto a gente chama-lhe o que? “Lumpen”?””
- “Um tonto enviado pelo referencial Publico que nem sabe qual a diferenca entre “lapidar” e “delapidar” - estamos no dominio do controle muito incipiente da lingua e dos fenomenos que ela aborda
- “Mas um tipo que o envia para cobrir os jogos olimpicos eh um miseravel cultural”
- “Finalmente, para o PQ se ainda vier a esta caixa de comentários: “Lumpen”? Não é claro?”
Se estas (lumpen, tonto, miserável) não são avaliações de carácter, são o quê? A tudo o resto, nem vale a pena responder. Se quiser discutir o essencial (sem recurso ao ataque pessoal), faça o favor: hsousa@gmail.com
1. “lumpen” não tem rigorosamente nada a ver com o carácter pessoal de alguém, está como uma descrição / definição sociológica. “Miserável cultural”, por mais rude que possa parecer, remete exactamente para esse registo.
Muito me penitencio pelo “tonto”, um qualificativo não descritivo perfeitamente preconceituoso e descabido. Uma ligeireza em tom de comentário mas que ainda assim não é admissível
2. Erros ortográficos todos o fazem. A existência de alguns erros já foi motivo de polémica, a mais longa existente em cinco anos de maschamba - http://ma-schamba.com/imprensa-portuguesa/535/ - com um comentador desesperado (desesperante?) invectivando-me durante meses por causa de um “cajú” [erro] e de uma “doacção” [gralha]. “Por causa” não, “a propósito” melhor dizendo …
É injusto extrapolar por causa de um erro? Talvez. Mas “lapidar” e “delapidar” é um erro recorrente (na prática sobre Nelson Évora v/li-o e ouvi-o pelo menos com três autores), deriva de um uso social da língua, e é isso que assombra no caso específico.
3. (E sobre isto o jornalista em casa nada tem a ver) Na sequência de posts destes dias explicito um espanto, não monográfico, de quem visita Portugal e se defronta com a quantidade de jornais legíveis. E que nela se confronta com a mediocridade mais radical - temas, tons, formas -, algo menos apreensível nas rápidas diagonais nos sítios informáticos desses jornais, visitados regularmente ao longo do ano.
Por isso a profunda irritação com estas formas colectivas de utilização da língua? Também por isso. Pelas formas descuidadas de edição? Exactamente.
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