
Celebra-se hoje o Dia do Armistício, marcando o início do fim da Primeira Guerra Mundial. Dir-se-ia que terá isto pouco a ver com África e quase nada com Portugal, onde acho que a data nem é assinalada. E no entanto, Portugal participou nesta guerra e lá deixou os seus mortos, merecedores de muito mais que monumentos semi-escondidos e hoje ignorados. Mais ainda, foi em África que se verificou grande parte do envolvimento de Portugal nas hostilidades da Primeira Guerra Mundial – em Angola e, principalmente, no norte de Moçambique, onde morreram milhares de soldados, porteiros e carregadores Africanos.
Lamento que este dia não seja assinalado em Portugal com a dignidade que merece. Que sejamos um país onde as datas se comemoram com desfiles e arraiais, sem que haja uma reflexão mais profunda. Que a nossa História pouco mais seja que um eterno louvor ao “somos marinheiros, somos Albuquerques”. No resto da Europa recorda-se o dia de hoje na primeira página dos jornais, na abertura dos noticiários, nos programas de fundo, nas escolas. Nas ruas este dia é celebrado com uma papoila que se põe na lapela, se usa no cabelo, se entala num livro, ou que simplesmente se carrega na mão. Gestos simples mas simbólicos de uma memória que não se quer perdida.
Robert Fisk escreveu um artigo brilhante que abre a primeira página de um dos jornais diários de maior tiragem em Inglaterra e que, à falta de equivalente luso, aqui vos deixo. Para que não esqueçamos…
AL

5 comments ↓
AL
E Portugal entrou nessa guerra para…
Amnésia.
P.f. podia dizer porquê, já agora.
De forma simplistica pode-se dizer que a intervencao de portugal se prende com a defesa dos territorios ultramarinos. Angola e Mocambique faziam fronteira com territorios alemaes em Africa – Tanzania e a hoje Namibia. Alem da velha alianca com os ingleses (embora estes nao tivessem visto com agrado a participacao de Portugal na guerra, talvez com esperancas de virem a poder anexar colonias portuguesas), que naturalmente nos colocavam do lado dos aliados. E os ideais da primeira republica (acho eu que era a primeira) se identificavam com os ideais dos Aliados. Mas esperemos que alguem mais habilitado que eu possa contribuir com melhor e mais informacao sobre este assunto.
AL
Não sou habilitado mas isso não me parou anteriormente…
A participação portuguesa na Grande Guerra tinha como objectivo estratégico principal o governo poder mais tarde sentar-se entre os que iriam ganhar a guerra e que se pressuponha serem os britânicos e os franceses. Se se tiver em conta que isto ocorre em Março de 1916 e ainda por cima por o que basicamente constituiu uma provocação portuguesa aos alemães (formalmente, foram eles que declaram guerra primeiro, despachando o então embaixador em Berlim de volta para Lisboa, que pouco depois faz um golpe de Estado e se torna ditador. Chamava-se Sidónio Pais) este fim “feliz” não era seguro de forma alguma pois basicamente em 1916 a Alemanha estava a ganhar a guerra e só quando os EUA entraram no conflito em Abril de 1917 é que a coisa melhorou ligeiramente. Tirando La Lys em Abril de 1918 e que foi um desastre, e a vergonha que foi depois (não havia dinheiro para alimentar as tropas estacionadas em França e para os repatriar) foi uma coisa tépida, ou seja de derrota em derrota, rumo à vitória. Como quem foi para a França morrer era o povão miserável e ignorante de pé descalço, depois fez-se uns monumentozitos e prontamente esqueceu-se todo o assunto, até porque, para além de não haver nada mas derrotas para celebrar, havia coisas mais importantes a resolver, como a autêntica guerra civil que se desenrolou logo após o assassínio de Sidónio e o (onde é que já ouvi isto antes?) completamente delapidado estado das finanças portuguesas.
Não foi o mesmo no Reino Unido. Para além da guerra ter depauperado o que até então tinha sido o maior e mais poderoso império na face da Terra, a guerra aniquilou quase toda uma geração de homens de todas as classes (ao contrário dos portugueses, até os mais nobres britânicos mandavam os seus filhos para a guerra). Os efeitos e o trauma dessa hecatombe humana marcou profundamente a cultura e a psique da sociedade britânica durante décadas, como me lembro está bem detalhado num livrinho escrito por Roland Stromberg que li nos meus tempos de estudante universitário pelintra, chamado “After Everything: Western Intelectual History since 1945″. Foi uma mortandade à escala industrial e tanto mais uma surpresa e um choque pois então se achava que, com a industrialização da guerra (uma novidade então) que os conflitos seriam rápidos e cirúrgicos. E com este conflito esfumou-se o conceito da guerra como algo nobre e cavalheiresco que os homens bons da sociedade podiam fazer e assim cobrir-se de glória. Cedo se descobriu nas trincheiras o nojo daquilo tudo – a mensagem espelhada, por exemplo, na inesquecível obra “Os três Soldados” de John dos Passos. Versão americana da Guerra, mas suficientemente explícito do que pensava toda uma geração então.
Pessoalmente, acho que a participação portuguesa na Guerra foi um – mais um – estúpido marialvismo de uma elite lisboeta armada em chico-esperta, pois tirando as guerrilhas em Angola e Moçambique, que não valeram um chavo, o interesse nacional não estava então em causa.
O episódio teve o benefício de ensinar uma importante lição a um jovem aspirante político católico chamado Oliveira Salazar o que não fazer anos mais tarde quando a guerra voltou em 1939. Fugiu dela como o diabo da cruz.
AL,
Excelente post. Gosto tanto do Robert Fisk!
País sem memória não é uma tendência portuguesa, o problema é que Portugal nunca se esforçou por construir alguma.
Muito bem dito VA. Quanto ao Fisk, e o meu heroi. Por causa dele fui ao Libano, por causa dele visitei Sabra e Shatila. Em ferias, entenda-se, pois apesar dos meus esforcos nao consegui ainda trabalhar no Medio Oriente…
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