Lembro-me da minha juventude e de ouvir meus pais e seus amigos expressarem a sua perplexidade perante a geração do flower-power, dos Beatles e da mini-saia, dos cabelos compridos e da pouca higiene, dos lassos costumes e actos imorais. Diziam-nos idealistas, de protesto fácil e apalermado, de subversão na arte e ignorância na cultura. Diziam-nos que a Vida nos havia de ensinar… E nós, metidos na nossa arrogância juvenil continuávamos a ouvir os Beatles, a usar mini-saias, a brincar à pedrada com a polícia… até que a Vida nos ensinou!
Hoje fala-se da geração hip-hop (acho eu), critica-se o “englamouramento” da cultura de gangs urbanos, receiam-se os role-models catalogados de pouco edificantes, ridiculariza-se o traje. Em 2005 andava eu por uma Angola ainda a curar feridas da guerra quando ouvi, vindo da janela de um carro preso no caos infernal do trânsito de Luanda, um hip-hop limpinho a sublinhar um poema belo e pertinente. Quem são? Como se chama a música?, pergunto eu pela janela do meu carro. Tia, são os Kalibrados, dizem-me, e a música é os “Soldados Civis”. Não descansei enquanto não comprei o CD Negócio Fechado e tive ainda o privilégio de os ver ao vivo num concerto em Luanda. Fiquei fã para a vida!
Confesso que o hip-hop não é a minha música favorita, mas como posso não gostar de uma banda que tem músicas chamadas “O Limite é o Chão” e que cantam “não usamos fardas mas lutamos pelo país, guerrilheiros fora da mata, soldados civis”? São miúdos, começaram por fazer mixes numa qualquer garagem, gerem-se a si mesmos, usam calças abaixo do rabo (as nossas calças largas é questão de identificação) e bandanas nas cabeças. Enfeitam-se de bling. Mas falam por uma geração que luta por um lugar ao sol e mostram uma consciência social e política que o seu aspecto parece contrariar. Tal e qual como nós. E até que a Vida os ensine…
Soldados Civis
Hip-Hop,
andamos dia e noite contigo,
Hip-Hop,
vivemos e morremos por ti,
Hip-Hop
Nós somos os soldados civis,
Hip Hip Hip-Hop Hip Hip Hip-Hop
Mc’s, Mc’s, soldados civis,
confundidos com drogados,
infiltrados num país,
o invejoso diz que a malta só não cai por um triz,
que a nossa árvore não dá frutos se não tem raiz,
luta árdua, sacrifício e dor,
pra suportar o Hip-Hop é preciso muito amor,
flor, moldada no interior,
só quem sente a corrente vai em frente
o fim vencedor,
ainda vejo Whack’s,
muitas amostras,
muitas máscaras,
milhões de cínicos hipócritas,
Sabes que assim não vamos a lado nenhum,
vão acabar em click axes cra crás e bumbuns,
(muitos)
por esta arte já se sacrificaram,
(muitos)
já desistiram porque não aguentaram,
(muitos)
criticaram mas nunca apoiaram,
kalibrados e inovação já vez a saga não pára
100 bucks,
é mais sixteen bars,
se te sentes hip-hop é pa comemorares,
parte dois, soldados civis,
hip-hop raiz,
kalibrados tão na casa,
rebentar com país,
produtoras, produtores, novos compositores,
o hip-hop é um jardim e nós somos as flores,
vamos embora, man,
ninguém nos pode deter,
tu cantas samba, eu canto rap,
cada canta o que quer,
é sempre aquele black,
humilde e com respect,
laton, mad, essa cena é muito fat,
lançar é difícil mas pior é não tentar,
depois de muita chuva,
um dia o sol há de brilhar,
anda, mostra lança o teu talento,
grava cenas novas,
é chegado o teu momento,
ficam as novas,
deita fora as velhas,
só chega até ao mel,
quem passar pelas abelhas.
estando errados ou certos,
ouvidos ou não,
lançamos pa people que nos vem no coração,
sem complexos,
sem vergonhas,
sem tretas,
o que acontece nas ruas encontras nas letras,
nós temos bué de skills,
temos milhões de flows,
vamos arrastar people,
rebentar com shows,
força de vontade rompe obstáculos
vamos promover a cena com espectáculos,
RAP é atitude,
apresenta maquetes,
rimas potentes
por cima de beats fats,
esperámos muito tempo
agora é a nossa vez,
vamos calibrar o mercado com bué de cds,
esse é o nosso amor,
e nós levamos a peito,
queremos ouvidos,
queremos vosso respeito,
criticamos o país pro bem da nação,
as nossas calças largas é questão de identificação,
não usamos fardas
mas lutamos pelo país,
guerrilheiros fora da mata,
soldados civis,
guerrilheiros fora da mata,
soldados civis.
AL

5 comments ↓
Hip-hop no ma-schamba? Como disse, nas vascas da agonia, o simbólico Kurtz: “O Horror, o horror!!”
O Ma-Schamba é muito poroso, infiltrável, permeável…
Yo man, Yo!
Proponho que se mudem os temros de referência do Maschamba para se proibir, para além do Benfica e do Porto, qualquer referência ao hip hop. Bolas, tem que haver alguns princípios aqui.
Yo. Tchau. Yo
ABM; yu orgh 2cioe9 re!!etqaj+ $Fajfica, yeye, qopue urgacno
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