Águas Correntes

(por AL em parceria com Angela McIntyre e apoiada pela WaterAid) -

Na passada quinta-feira, 19 de Novembro, celebrou-se o Dia Mundial da Retrete sob o auspício da ONG internacional – WaterAid. Ridículo? Absurdo? Pensemos primeiro nisto:

  • 2,5 bilhões de pessoas não dispõem de um local seguro, privado ou higiénico para a importante função vital de defecar
  • 1 grama de fezes contem 10 milhões de vírus, um milhão e bactérias, 1.000 parasitas enquistados e 100 ovos de parasitas
  • O saneamento adequado dos resíduos fecais e a lavagem das mãos depois do acto podem reduzir em 40% as diarreias infantis, responsáveis pela morte de 1,8 milhões de crianças por ano

Pessoalmente tenho que admitir que quando parto para trabalho de campo o que mais me custa é a perspectiva das casas de banho sem água e das latrinas. A imagem da casa de banho pública do Xai-Xai há-de acompanhar-me até ao fim da minha vida! Não me importam os ossos doridos por dias de solavancos em picadas; passo por cima dos insectos e moscas peganhentas; confio no Baygon verde para tratar dos colchões com vida interior; conformo-me com um chão de palhota para passar a noite; aceito o desjejum com mandioca cozida temperada de fumo; tolero o fato de suor e pó que habitualmente me cobre e que uma mão cheia de água não chega para remover; mas a latrina? A latrina? Confesso: tenho PAVOR da latrina! Aquele buraco escuro que eu suspeito estar cheio de coisas vivas; o oscilar das tábuas quando a terra está ensopada das chuvas; a privacidade questionável; a vulnerabilidade da posição e o cheiro mais ou menos pungente… Tudo na latrina me confrange!

É este meu pavor partilhado pela minha amiga Angela McIntyre, companheira de muitos anos de desconforto latrinal e a única com quem costumo ter estas conversas de m…a. Enviou-me ela, no Dia Mundial da Retrete, um email recordando as piores retretes da sua vida. Apesar de ser em inglês, por termos partilhado tantas delas e pela graça com que ela as descreve, acho que merece reprodução aqui na maschamba:

Toilets Without Borders (by Angela McIntyre)Today is World Toilet Day, and so I pay tribute to the humble loo. There is a spotless, perfectly flushing loo, stocked with ludicrously soft 3-ply, next to a sink with hot running water, a mere 5 meters away from me. In fact, hang on just a second while I, um, powder my nose…Much better. Ok. Where were we? Nampula, Mozambique 1994, the town water supply has been off for 2 weeks and you have to drive 20 or so km to a reservoir with buckets if you want some. Here you flush sparingly, once a day, it is your bath, cooking and drinking water you are pouring down there, and you’ve lugged it up 3 flights of stairs to boot. Everyone else flushes their loo once a day too, and the whole town is positively aromatic. Better to have a hole in the ground when the modcons are unreliable. If you have a place to dig one, that is. Mozambique Island, 1993: one side you can swim on, the other side is the communal toilet, flushed by the tide. Water is just too scarce – it comes from a large communal rainwater cistern at a 300 year old fortress. You wait in the queue til it is your turn to lower your bucket in. You lug it home and boil, literally, the LIVING SHIT out of it, and still get giardia, unmistakable for the tectonic rumble it produces in your intestines and sulfurous breath. I digress. Maputo, 1995: there is an old-fashioned tank with a chain up on the wall, which might actually work if there was water in it, but at least you can fill buckets from the standpipe in the street. Little consolation when you live in a crumbling apartment block with a broken elevator, on the 10th floor. What on earth were those Soviets thinking? Let’s travel a ways north on the public bus – the Machimbombo – as it is fondly called – to Xai Xai, where there is a public loo at the bus station. Its state of perpetual overuse and overflow has compelled someone to simply build a low brick walla cross the doorway to contain the horror, in which there are things swimming, visible to the naked eye. There are new species evolving in there, worthy of a Discovery Channel Documentary. Inhassoro, 2006: I arrive at my new digs, where I will live for 2 years, on the beach, in a thatch-roofed hut. It is charming and typical, waterproof, lit by kerosene lamps at night. Then there is the loo. It is about 20 meters from the hut, 40 at night in the pitch dark. A deep, murky hole with a skimpy wall of reeds around it and a thatched roof. There is a bat nesting in the thatch, which swoops down disconcertingly while you are at your most vulnerable, trousers down around ankles trying not to slip into the HOLE. Some months later I suggest to the UNDP Evaluation Mission, come to look at my community vegetable garden project, that the sanitation here is less than satisfactory. There is no functioning water system in the village and we could use an Improved Latrine Program so we don’t get stinky, messy backups and cholera during the rainy season when the water table rises. They recoil in horror at my loo setup and vow to Do Something About It. Several months later, there is a UN truck spinning its tires in the beach sand outside my hut, villagers diligently trying to push it out. I see they have unloaded a shining, new, modern sparkling bathroom suite. Sink, tub, toilet, and yes, that mysterious other thing known as a ‘bidet’. The villagers gather round, gaping and whispering to one another. The white lady really is mad, it is now official. My village-cred has gone down the hole, but they are kind, charitable people and someone humors me, “Dona Angela, you have the nicest bathroom in all of Inhassoro!” Later we grow tomato plants in the bathtub and water the goats from the bidet. The toilet is cemented over the HOLE, allowing one to launch one’s self more easily to safety and avoid losing a flipflop to the abyss when the bat is startled. It was the nicest toilet in Inhassoro.

11 comments ↓

#1 jpt on 11.21.09 at 14:04


Belo texto, excelente opção bloguística. Confesso partilhar contigo (e com a tua amiga) algum desconforto com o locus d’obrar. Coisa que confesso ultrapasso após algumas obras. Nos primeiros dias regulo-me para as noites. E, cobarde, bebo umas cervejas ou whiskies (quando o levo) para amainar a impressão (preconceito).

Estou-me a referir às latrinas públicas. Convém, no elogio da retrete (ou sanita), nunca esquecer que as latrinas privadas (de residÈncias familiares) são táo nojentas como a casa-de-banho do nosso vizinho ou amigo. Apenas não nos podemos sentar – e aí ler o livrito ou escrever o diário de campo.

Não quero parecer blasé, mas nestas coisas considero que há, para os urbanos aburguesados, uma vantagem masculina. A gente preocupa-se menos …

#2 candida on 11.21.09 at 18:06


dia mundial da retrete, isso existe mesmo ?

:)
Não posso acreditar!!!

#3 AL on 11.21.09 at 18:22


Existe sim Candida e sorte a sua nao perceber imediatamente a relevancia do dito!

JPT tens toda a razao: voces homens tem a vida mais facilitada. Nos momentos de maior desespero em que resmungo para mim “porque raio de coisa fui nascer mulher?” consolo-me com o “pelo menos nao tenho que fazer a barba todos o dias”. Nesses momentos excluo, obviamente, os barbudos do meu universo…. :)

#4 David Eveleigh e a historiografia da higiene | ma-schamba on 11.21.09 at 19:27


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#5 ABM on 11.22.09 at 8:05


Tendo já construído duas do modelo “tradicional”, posso referir que não é ciência oculta. No entanto, há que ter em conta que o segredo da “retraite” está nas cidades. Desde a Cloaca Máxima romana até ao sistema de esgotos de Londres e Paris levaram quase dois mil anos. Um dos comentários comuns sobre Lisboa até há cerca de cento e vinte anos era como cheirava a …fezes. Luanda tem mais ou menos o mesmo problema.

#6 Lowlander on 11.23.09 at 11:27


Por acaso penso que e mais ao contrario caro ABM.
O segredo das cidades esta precisamente nas retretes. Depois de Roma, foram precisos quase 2000 anos e a (re)invencao do sistema de esgotos no Reino Unido Victoriano para que uma cidade voltasse a ter mais de 1 milhao de habitantes.
Roma no seu auge teve 2 milhoes.

#7 ABM on 11.23.09 at 11:50


Bom dia Sr LL

Ao contrário de quê? acho que dissemos exactamente a mesma coisa. Aliás, não se pode separar o saneamento do fornecimento de água potável numa base permanente. A verdadeira razão porque Roma cresceu como cresceu era o fabuloso sistema de fornecimento permanente de água. O golpe que destruiu Roma não foram as invasões bárbaras mas sim que como parte do ataque destruiram o seu sistema de aquedutos. Em dez anos depois disso, Roma passou de um milhão para cerca de 12 mil habitantes.

#8 Lowlander on 11.23.09 at 12:10


Ao contrario no sentido em que voce diz que o segredo da retrete esta na cidade ao passo que eu digo que o segredo da cidade esta na retrete…
Se bem que me dou agora conta que esta conversa alem do potencial humoristico sera talvez um pouco futil no mesmo sentido em que e absurdo tentar descobrir se foi o ovo ou o galinaceo quem primeiro surgiu.
Quanto a razao para o sucesso de Roma a razao que aponta nao conta a historia toda porque alem da quantidade (sem duvida indispensavel) era tambem indispensavel agua de qualidade, e para isso voce tem de ter as suas fontes de captacao nao poluidas pelos dejectos da cidade. Impossivel sem um sistema de esgotos decente.
O saneamento basico e a segunda mais importante medida de saude publica alguma vez implementada pelas sociedades, logo a seguir ao mundano acto de cozinhar alimentos.

#9 Lowlander on 11.23.09 at 12:21


Nao me diga que tambem tem interesse pela historia da Republica e Imperio romano… estou tramado consigo, vai-me entreter com um tema de conversa fascinante quando eu deveria estar a rever as tediosas minutas de uma reuniao!

#10 AL on 11.23.09 at 23:19


As conversas que a humilde retrete despoleta…Ahhh nada como as aguas correntes! Um dia destes vou fazer uma elogia ao papel higienico, outra invencao absolutamente fantastica e que todos tomamos como certa…

#11 ABM on 11.24.09 at 16:05


Boa tarde Sr LL

Acho que nos perdemos um pouco na semântica ou em me explicar mal. O ter escrito que “o segredo da retrete está nas cidades” não estou a estabelecer uma relação causal, estilo “a retrete deu nas cidades”. O “segredo” aqui é no sentido em que este objecto e o mecanismo subjacente representou para a viabilização das cidades enquanto mecanismos viáveis em termos económicos e de saúde, de aglomerações de pessoas (no campo faz-se có-có atrás da árvore e já está). Creio que isto se aproxima do que estava a dizer.

Por favor faça bem as minutas da sua reunião e tudo o resto no seu trabalho pois é o o trabalho geralmente que apoia os nossos vícios e prazeres, de que espero este seja um – e baratinho, importante nos dias que correm.

Sim, quase toda a história me seduz e naturalmente que a história da República e Império Romanos é uma peça absolutamente seminal e incontornável de quase tudo o que veio a seguir, especialmente na Europa. Frequentemente, penso que ainda hoje, em muitos e muito profundos aspectos, nós descendemos de, e vivemos, nas ruínas do que aquilo tudo foi. Sendo o Sr português ou conhecedor das coisas português, vê nesta cultura vestígios dessa “sombra” todos os dias – a começar por esta língua malandra que nós usamos aqui, a religião católica, as leis, etc.

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