Transcrição de texto de Alexandre Monteiro colocado hoje no Naufragios
A Arqueonautas avant la lettre.
A 18 de Janeiro de 1972 desembarca no aeroporto das Lajes, ilha Terceira, Açores, o inglês Sidney Wignall. O seu propósito confesso é o de procurar o navio Revenge, afundado na costa da ilha em 1591. Tencionando encontrá-lo num prazo de 5 meses, Wignall, devidamente autorizado pelo Ministério da Educação Nacional, bem pode gabar-se de ter obtido a primeira licença para pesquisas subaquáticas concedida no âmbito da legislação então em vigor sobre os achados no mar.
A 4 de Fevereiro sabe-se pelo Diário Popular que Wignall tenciona passar os próximos cinco a dez anos na Terceira, em escavações. Sabe-se também que o custo da expedição rondará os 4.000 contos e que esta será em parte custeada por canais de televisão britânicos. Wignall deixa a entender que será benéfica para a Terceira toda a publicidade gerada pela sua expedição.
A 12 de Abril chegam os primeiros onze elementos da expedição conjuntamente com o arquitecto Jorge Albuquerque, do Centro Português de Actividades Subaquáticas. A expedição, denominada Azores International Marine Archaeological Expedition terá o seu centro operacional em São Carlos, na quinta Jesus Maria José.
A segunda expedição.
A 20 de Abril eis que surge o primeiro golpe de teatro: uma segunda expedição, de cariz pretensamente arqueológico, chega a Angra do Heroísmo.
A vedeta T.S.R. Preston é comandada por Michael Stewart, ex-oficial mergulhador da Royal Navy e ex-braço direito de Wignall. O navio conta na sua tripulação com o comandante da Royal Navy, John Grattan - que participou em explorações na Irlanda com o mesmo Wignall - e com três irmãos de apelido McCormack: John, caixeiro-viajante; Terrence, empreiteiro e Joseph, mergulhador profissional. Este último, com 6 anos de pena cumprida em Hong-Kong por crime violento, para além de ser suspeito de um tiroteio em Liverpool foi também levado por Wignall a comparecer perante a justiça irlandesa por se ter tentado apoderar dos locais por este pesquisados no mesmo país - mais interessante ainda, havia suspeitas de que o barco Grey Dove, que Joseph McCormack comandava na altura, juntamente com o seu irmão Terry, participava em operações de tráfico de armas para o IRA.
Em todo o caso, os recém-chegados invadiram a Quinta Jesus Maria José, logo na noite em que desembarcaram na Terceira, e ameaçaram verbalmente os membros da equipa de Wignall. Este apresentou queixa em tribunal e pressionou os seus contactos em Portugal e em Inglaterra com o fim de se desembaraçar de tão incómodo concorrente.
A equipa de Grattan, que se autodenominava Expedição Arqueológica Submarina Britânica, começou a trabalhar numa zona diametralmente oposta à de Wignall, que operava na Vila Nova. Toda a costa sul, desde a Ponta das Contendas até para além da Serreta, foi pesquisada pela equipa de Grattan tendo este, no dia 9 de Maio, declarado oficialmente o primeiro destroço.
A 19 de Maio a imprensa local, fazendo eco dos jornais ingleses e continentais, começa a interrogar-se sobre a idoneidade das expedições. Aventa-se, finalmente, a hipótese da existência de caçadores de tesouros nas águas terceirenses.
Zangam-se as comadres…
… sabem-se as verdades. A 28 de Maio e em desespero de causa, Wignall presta uma declaração à imprensa. Diz que sua expedição fora planeada há mais de dois anos e que tinha conhecimento de 31 navios afundados nas costas da Ilha Terceira. Confirma a existência de dois galeões na baía de Angra e de um outro, descoberto a 15 de Maio, na baía das Águas durante uma sessão de treino.
Prossegue na sua declaração, qualificando a expedição de Grattan como uma equipa de caçadores de tesouros, por detrás da qual estaria um grupo de investidores de Liverpool. Afirma que os achados noticiados por Grattan já estariam definidos num documento que teria circulado por possíveis investidores seus há cerca de 18 meses atrás. Afirma também que Stewart esteve para ser o seu director de mergulho mas que este teria abandonado o projecto três semanas antes de Wignall ter partido para os Açores. Queixa-se, assim, de fuga de informações e de deslealdade por parte do seu antigo colaborador.
A 12 de Junho, pelas 20 horas, um cargueiro de cor negra passou ao largo do pesqueiro Pedra Velha, a 2 ou 3 milhas do Monte Brasil. Foi abordado pela vedeta de John Grattan, tendo-se mantido as duas embarcações lado a lado durante cerca de 10 minutos. A 16 de Junho, alguns mergulhadores da equipa de Grattan emergiram na baía do Fanal e içaram para o barco pneumático um volume aparentemente pesado. Soube-se ainda que a mesma equipa procedeu a uma hipotética recuperação na baía da Salga, utilizando para tal o guincho que se encontrava instalado na embarcação. No mesmo dia procederam à colocação de pequenas bóias pretas nas águas de uma baía junto de São Mateus.
A 21 de Junho sabia-se que tinha sido recentemente vendido em Madrid um crucifixo em ouro da época filipina. Daí a se chegar à sua provável proveniência foi um passo: acusou-se imediatamente a equipagem do T.S.R Preston e procedeu-se à vistoria da embarcação. Como é óbvio, nada de suspeito foi encontrado. Fazem-se referências a anéis e moedas de ouro supostamente encontrados na baía das Águas.
A 25 de Junho parte definitivamente a vedeta de John Grattan em direcção à Corunha. A 8 de Agosto foi recuperada aquela que viria a ser a única recordação material, deixada nos Açores, da expedição de Wignall: uma meia-colubrina de bronze içada com a ajuda do Destacamento Norte-Americano estacionado na Terceira.
Wignall informa que Grattan terá feito circular em Inglaterra uma carta reservada nela informando possíveis investidores de que a sua expedição descobrira onze destroços nas costas da ilha Terceira e que um deles poderia conter materiais no valor de 6 milhões de libras. A 9 de Maio, o comandante John Grattan é condenado pela justiça portuguesa a 25 dias de prisão, remíveis a multa. Para responder ao processo contra si instaurado encontravam-se apenas John e Terry McCormack. Estes, em declarações à imprensa, declararam estar dispostos a regressar em 1974…
24 anos depois.
Vinte e quatro anos depois, ao abrigo da legislação criada para a exploração dos tesouros submersos, uma nova empresa de caça ao tesouro quis ir operar para as águas da Terceira.
A Arqueonautas, SA tinha como director de operações o mesmíssimo John Grattan, que regressava duas décadas depois ao local do crime. A empresa, que tinha (tem ainda?) como accionistas, entre outros, membros do Grupo Espírito Santo, Francisco Pinto Balsemão e José Manuel de Mello, opera actualmente em Moçambique com o beneplácito do governo moçambicano.
Uma das suas arqueólogas contratadas, Margareth Rule, declarou que não se responsabilizava pelos trabalhos da empresa senão como consultora e que não assumia qualquer responsabilidade se a administração da empresa não seguisse os seus conselhos.
O que é mais grave é que pessoas e entidades - como a Fundação Ricardo Espírito Santo e a Faculdade de Letras de Lisboa, com grandes responsabilidades a nível de imagem pública, se associaram a em 1995 a esta empresa com intuitos muito pouco honestos e lesivos do património nacional.
Entre as individualidades referidas contavam-se José Hermano Saraiva, consultor cultural da empresa, e Dom Duarte de Bragança, presidente do conselho de acompanhamento da Arqueonautas, SA. Este último, segundo as suas declarações à agência Lusa aquando da sua estadia no arquipélago cabo-verdiano em Julho de 1995, onde operava a Arqueonautas, teria usado a sua influência para sensibilizar as autoridades locais para a recuperação de cascos abandonados num projecto que envolvia milhões de dólares.
O gabinete de Dom Duarte admitiu mesmo ao jornal Público que o pretendente ao trono participara na reunião havida entre a Arqueonautas e o Governo local, em que foi negociada a concessão de exploração de uma zona marítima junto à ilha do Fogo.
É lamentável que uma personalidade que se quer representativa de uma certa maneira de estar, na cultura e na sociedade, apoie uma empresa que desenvolve uma actividade que vai contra tudo o que se encontra internacionalmente consagrado, no domínio da protecção do património, por organismos tão insuspeitos como a UNESCO.
(Confrontado, aliás, com as posições desta instituição no que toca à exploração selvagem do património subaquático, o presidente do Instituto Nacional de Cultura de Cabo Verde e interlocutor do Governo com a Arqueonautas, SA, à altura afirmou textualmente, a UNESCO não aprova este tipo de operação porque tem uma visão meramente cultural e entende que todos os achados arqueológicos devem ser património da Humanidade. Só que a UNESCO não tem meios para constituir uma alternativa a países pobres como Cabo Verde, obrigados a procurar os meios para restaurar o património”).
Vinte e quatro anos após a caça ao tesouro nas águas açorianas, dois anos após a pilhagem de Cabo Verde, o Rei vai nu para quem o quer ver e Moçambique vai atrás, cantando e rindo.

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