Seminários do Departamento de Arqueologia e Antropologia: sessão com Danúbio Lihahe e Aaron Montoya
Depois de amanhã, quarta-feira de manhã. Uma sessão com o moçambicano Danúbio Lihahe e Aaron Montoya, americano em trabalho de campo no Maputo. Abaixo ficam os resumos, para quem estiver interessado em participar.
“A Indizível Cor da Dor“, Danúbio Lihahe
(Departamento de Arqueologia e a Antropologia, Universidade Eduardo Mondlane)«A morte, fisicamente, só atinge o outro, os outros. Mas o facto inexorável e iniludível, esse não sei quê que não tem nome em língua nenhuma, está carregado de significados sociais e culturais. A morte é, então, e antes de mais, um facto cultural, pelas representações que induz, quanto à sua natureza e origem, pelos fantasmas e imagens que suscita, pelos meios que mobiliza para se recusar ou para se ultrapassar. As sociedades querem reencontrar a paz e triunfar, idealmente, sobre a morte. Repousam, por isso, num desejo de imortalidade.»
Carlos Machado, “Cuidar dos Mortos” (1999:11).«A dor provocada por uma morte só existe se a individualidade do morto tiver sido presente e reconhecida: quanto mais o morto for chegado, íntimo, familiar, amado ou respeitado, isto é, «único», mais a dor é violenta; não há nenhumas ou há poucas perturbações por ocasião da morte do ser anónimo, que não era «insubstituível».
Edgar Morin, “O Homem e a Morte” (1988:31).Esta comunicação que me proponho apresentar trata do sofrimento, da dor e do luto que os trágicos acontecimentos de 22 de Março de 2007 ocorridos na Cidade de Maputo, capital Moçambicana, causaram a população de um bairro periférico desta cidade, onde a explosão de um paiol militar provocou a morte a mais de uma centena e meia de pessoas e mais de meio milhar de feridos, entre graves e ligeiros. Procura-se a partir deste acontecimento estudar a questão da morte incidindo sobre as vivências do luto, da dor e do sofrimento das pessoas que aqui perderam os seus parentes de forma violenta. Nela se aborda os mecanismos de reconstrução e reintegração na normalidade após estes acontecimentos.
O debate que procuro apresentar parte e assenta sobretudo na literatura antropológica que se debruça sobre a morte, o sofrimento e a dor. É sobretudo um convite, uma réplica para a discussão relativamente a estes temas tendo como ponto de partida o caso acima citado.
No caso vertente, a reintegração na normalidade da vida após tragédia foi e tem sido um processo complexo que passa pela intervenção de diversos agentes e instituições sociais. A pesquisa revela que este esforço por parte das vítimas é desencadeado aos mais variados níveis, com o recurso aos mais diversos mecanismos colectivos, mas simultaneamente individuais. A apropriação e vivência da dor e do sofrimento devem ser entendidas como colectivas se atendermos que a tragédia afectou-os de forma local, ferindo-os nas suas fibras. Mas a tragédia feriu também a sociedade. Constituiu um momento de dor colectiva a partir da qual se accionaram e se mobilizaram diversos mecanismos, agentes e instituições para a mitigar. Contudo, os processos individuais têm um papel central na forma como cada vítima viveu, assumiu e procurou reconstruir a normalidade da vida pós-tragédia. Individualmente, o impacto da perda e da dor que acompanhou essa perda deve ser visto à luz de factores como: quem se perdeu? Que lugar ocupava essa pessoa na sua estrutura de socialidade? Que grau que afectividade e de laços emocionais os ligavam. Estes elementos condicionam o impacto da perda em cada indivíduo, os graus da dor e as formas de superação ou não dessa perda.
“Arte, Pobreza e Escopofilia“, Aaron Montoya
(Doutorando em Antropologia, na Universidade de Santa Cruz, Califórnia, trabalhando sobre “Arte e Imaginários Sociais em Maputo, Moçambique”)Este texto estuda duas exposições que aconteceram na Baixa da cidade capital de Maputo em Fevereiro 2011 – fotografias de despejo de lixo em Hulene por Mário Macialau e instalações de arte acerca da Baixa da Cidade por estudantes da Escola Nacional de Artes (ENAV) com a curadoria de Luc Andrei. Ambas exposições abordaram o desafiante assunto de representar os contextos quotidianos de pobreza e miséria. A maioria do texto dedica a discussão de feiticismo e economias de prazer visual. Esta discussão esta colocado na exposição de Macilau, estudos de museus colónias e o discurso politico a cerca de prosperidade/pobreza. O argumento que está na base deste material, as representações de pobreza na cultura popular frequentemente fornecem prazer numa boa moda fetichista porque elas substituem o que os espectadores desejam (beleza estética, outras formas de vida, suas gloriosas fortunas) sem ver do que é que elas tem medo (a real história da violência que esta por de trás da criação de prosperidade, ressentimentos de racismo, a realidade contemporânea de desigualdade económica). Por conseguinte, representações de pobreza seja através de exposições de arte ou oratória oficial são frequentemente implicadas no desaparecimento do sujeito o qual eles tencionam representar. O texto termina com uma discussão da exposição da ENAV “Forografos Koloridos” para aprender de seus trabalhos uma diferente aproximação a documentação social e expressões quotidianas artísticas, pobreza, desapropriação e estética. Finalmente retornará ao trabalho fotográfico de Maiclau para revisar os vários olhares (de brilho, ameaçadores, rejeição) como uma tentativa para reconhecer as sensibilidades da qualidade da cultura do feiticismo moderno em vez de uma simples admoestação e rejeição.
jpt






Obrigado por me atualizar desse ciclo de seminários, onde me sinto parte da grande familia do DAA. GOSTARIA DE PARTICIPAR MAS NÃO POSSO POR MOTIVOS DE DISTÂNCIA. Gostaria de ver o meu saudaso Danúbio, poeta, pensador e Antropólogo a recitar as palavras de forma calma como sempre me habituou nos momentos em que me deu as aulas.
Também seria interessante ouvir Montoya, a falar sobre a arte pública em Maputo.
Um abraço.
Quando V. descer à “Nação” fará também a sua apresentação, que acha?