“Depois da minha saída do Zimbabue, em 1993, a crença em raças assumiu a forma de um racismo governamental pouco disfarçado. O presidente Mugabe tomara atitudes fortemente xenófobas, sobretudo em relação à Grã-Bretanha. Ao abrir a Feira de Livros em Harare em 1993, lançou a sua primeira ofensiva. Referindo-se a um stand de livros organizado pelo movimento homossexual (Gays and Lesbians of Zimbabwe - GALZ), xingou os homossexuais de “pior que porcos” e acusou os colonialistas de terem trazido esse “mal” para a África. Em seguida, iniciou uma “reforma agraria” que consistiu na expulsão dos brancos das suas fazendas. Nisso ele foi abordado por bandos de soi-disant (antigos combatentes da guerra da independência - muitos nasceram depois do fim da guerra, em 1980), que expulsaram fisicamente os brancos das suas fazendas …

A maioria dos analistas da situação em Zimbabue sugere que Mugabe jogou a carta da raça (played the race card) como uma tatica cínica para se manter no poder. Não penso da mesma maneira. Entendo que ele, como a maioria dos zimbabuanos, acreditando em raças e na diferenca fundamental entre “africanos” e “europeus”, enxerga a sociedade através do prisma da raça e interpreta o que vê em função dela.”

(Peter Fry, A Persistência da Raça. Ensaios Antropológicos Sobre o Brasil e a África Austral, Rio de Janeiro, Civilização Editora, 2005, pp. 30-31)

(já agora)

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#1 Carlos Gil on 04.18.07 at 0:29

Mugabe é um peão bem posicionado, com visibilidade. ‘existe’, como Poder, exercendo assim a política concreta de tal ideologia e utlizando todas as capas que o ainda pouco maduro nacionalismo permite, mas há “pior” por trás dele: subsiste, existe enquanto Poder desestabilizador, pelo meio-silêncio cúmplice, os Pensadores do tabuleiro onde ele é o peão em momento de glória, as sanções que fazem recordar as à Rodésia, a Ian Smith, pois não foram elas que o convenceu de que “talvez as coisas não sejam bem assim, ó camarada”. Mugabe e a sua política têm simpatias secretas mas poderosas senão já tinha saltado do poleiro, se com ou sem exílio é pormenor. e não me refiro exclusivamente a vizinhos, que esses ou olham para o lado ou até telefonam, a perguntar como vão as coisas, etecétera e tal.
conforme a ocasião, o nacionalismo tanto pode ser revolucionário como reaccionário. a este, não acredito em ‘ocasião’ que o salve de trazer uma carga de problemas acrescidos a matéria/sensibilidades/equilíbrios que, em zona de recentes independências após longos períodos coloniais, nada ajudam e deles nada precisa.
aceito sem complexos o ‘tribalismo’ no sentido em que de tribo para tribo há diferenças culturais globais naturais, filhas de mínimos factores se ora olhados mas que na pirâmide da construção tribal deram-lhes diferenças, que são também afirmações, identidade. que em milénios esteve arrumado por raças, ainda hoje predominantemente mas num caminho natural e de fronteiras livres. o argumento polítco é, no caso, esgrimido com agressividade populista que busca apoio na reviravolta da sua História recente e suas razões base: o nacionalismo, e o racismo colonial que o impedia. Mugabe cairá quando alguma das estratégias decidir prescindir dele, sacrificar o Peão após ele ter feito o seu ‘job’, deixado(-lhes) rastro “útil” nas casas onde abancou.
(além da ideia pessoal que ele ‘flipou’, provavelmente coisa da idade)

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