Ainda a propósito de livros

No seguimento da conversa sobre livros moçambicanos e a publicação de algumas obras em Portugal pela editora “Ela por Ela”, o visitante António Jacinto Pascoal aqui deixou em comentário um texto relativo à obra “As Clandestinas“, da autoria de Ana Barradas, uma publicação dessa editora.

Desconhecia a existência deste livro, aliás tal como a da editora (custos da emigração?). Por isso mesmo dobro os agradecimentos aos comentários a Ana Barradas (como editora) e a António Jacinto Pascoal. E trago o texto deste último para letra mais visível. Já agora, se tiverem imagem digitalizada do livro enviem que eu coloco. E a “Ela por Ela” tem sítio informático? Pode ser que passe por aqui alguém interessado no catálogo.

E aos agradecimentos junto o aviso: esta casa está aberta, estas ma-schamba precisam de quem venha por “ganho-ganho”.

As Clandestinas

Encontra-se à venda, a partir do dia 14 de Junho, o livro «As Clandestinas» (Ed. Ela por Ela), de Ana Barradas, obra essencial para a compreensão da dimensão oposicionista ao antigo regime salazarista e do fenómeno da clandestinidade.
O que é espantoso nesta obra é a virtude de cada parágrafo condensar uma enorme quantidade de informação, transmitida de forma simples, o que implica um significativo esforço de recolha e tratamento de dados, para além de uma sobriedade narrativa que quase atenua a dimensão vasta da informação, ainda que reportada a um período limitado. Fica-se com a sensação de uma leitura escorreita, sobre um tema que se poderia pensar, à partida, pouco produtivo, porque linear. Ao contrário, é-nos apresentada, sem concessões a liberdades emotivas ou a curiosidades exóticas, uma visão multifacetada (a mulher-mãe, a mulher e os filhos, a sexualidade e a moral comunista, a mulher-militante, a mulher-solteira, a mulher-não politizada, a redactora do 3 Páginas; e outras cambiantes) de uma realidade até aqui quase oculta: o envolvimento das mulheres nas actividades clandestinas e conspirativas da oposição ao Estado Novo, sobretudo na ligação ao Partido Comunista.

E é exactamente a vertente de «retaguarda» da clandestinidade que este livro, meritoriamente, desoculta, pois que trata duas formas de clandestinidade: a política e oposicionista, por um lado; a feminina e sustentacular, por outro. De facto, o papel destinado à mulher, designada como «camarada das casas do partido», tem sido subestimado (foi-o, em parte, naquela época) ao longo do tempo, mas verifica-se aqui como parte fundamental de uma empresa que o PC manteve durante décadas e sem o qual toda a estratégia do Partido seria impensável. Nomes como o de Aida Paulo, Odete Santos, Albina Pato, Maria Lamas, e tantas outras, saem de um anonimato e desenham a traços imperceptíveis o retrato de heroínas esquecidas.

A leitura parece-me obrigatória. A partir daqui estão traçados os caminhos para uma releitura dos tempos da clandestinidade e fundadas as bases para o surgimento de novos dados que a história teima em esconder.

António Jacinto Pascoal
Professor
Arronches

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