(por AL avó babada)
Queixam-se os meus co-maschambeiros dos meus posts de viagens e outras parvoíces afins, em detrimento de posts potencialmente mais interessantes sobre o que é ser avó. Insinuam mesmo que estarei eu, quiçá, numa fase de negação da provecta idade avoenga que me vai corroendo as juntas e as cruzes. Vou hoje falar do meu neto.
O Benjamim chegou dia 17 de Novembro de 2009 ao seio de uma família em êxtase com o acontecimento. Devidamente registado para se firmar bem na sua cepa; passou com nota máxima no teste do pézinho; já levou dois furos nos pneus, que o inocularam contra diversas doenças manhosas. Tem o sono dos justos e o feitio manso de alguém da família que não a avó. De Cascão não tem nada; adora o banho, onde aproveita para bicicletar com tal vigor que já andamos a pensar em adquirir aventais de plástico. Gosta da água bem quentinha e de tomar banho com vagar. Quando lhe apetece saborear melhor o seu banho, lambe as mãozinhas e alterna expressões de riso e alegria com a pura concentração do exercício físico extenuante que é, para ele (e para nós), o banho.
Não foi circuncidado. Não por qualquer razão ideológica ou religiosa, mas simplesmente porque não. De bens possui uma família babada e um guarda-roupa esmerado ainda que sem grifes ou marcas. Cá em casa não gostamos de fazer de bilboards para ninguém, ainda por mais pagando por isso! Era o que faltava!
É a cara da mãe, embora sendo eu a avó materna tal afirmação possa parecer suspeita. Mas se se vier a parecer com o pai, também não fica mal, pois é o pai dele um homem muito bem apessoado.
É tão lindo o meu neto Benjamim que até dói! São 60 cm de alegria pura e sem malícia, com um cheiro doce a leite. Duas amêndoas negras abrem-se para um mundo cheio de coisas novas a descobrir. Palra e ri-se agora, do alto dos seus 2 meses de vida. Olha-nos com a confiança de quem ainda só foi amado.
Gosto de empiná-lo ao meu ombro, por sobre o qual ele pode ver o globo terrestre com África estrategicamente posicionada no seu campo de visão. E conto-lhe então como vai ser quando fugirmos os dois para África, onde o vou deixar correr nu pela praia. Guuu, diz ele. Na maré baixa, vamos os dois apanhar amêijoas, digo-lhe baixinho. Grrrr responde ele em de-leite. Quando tiveres cinco anos já hás-de saber cortar cocos com uma catana, para a Avó beber coco lenho como ela tanto gosta. Guuu-grrrr ri ele na cumplicidade da pilhéria. Rimos os dois.
Depois conto-lhe que em Dezembro havemos de ir a Tete ver os embondeiros floridos e provar do seu fruto; vamos também ao Niassa para veres como é um mar de água doce. Chama-se lago. Guuuu responde ele já em planos de viagem. Em Nampula, havemos de aterrar por entre cabeços redondos e depois vamos para a Ilha. Aaaaaa, palreia ele. Havemos também de ir à Zambézia! Tantos coqueiros como nunca viste e colinas e um rio imenso que agora já tem ponte mas que a Avó ainda atravessou de batelão. Aaaaaa continua ele extasiadamente. E eu continuo a viajar na memória, agora por ele acompanhada, e conto-lhe do Tofo e da Barra, de Inhambane e do Morrungulo, de Magaruque, Benguerua, Sta Carolina e Bazaruto, subimos ao Ibo, passamos por Zanzibar e pernoitamos em Mombassa.
Juntos atravessamos a baía de Luanda e vamos banhar-nos no Mussulo. Quando tiveres seis anos hás-de começar a surfar; vamos até Cabo Ledo, para aí te iniciarmos. Depois subimos por aí fora e vamos a Timbuctu, compramos peixe em Mopti. Grrrr gaaaaa…. Havemos de ir ao Kruger cheirar o mato e ver os animais. Conto-lhe a história do cão do macaco e da vaca, que vão passear de machibombo.
E vão-se-lhe fechando os olhos no cansaço da viagem, até que adormece encostado no meu ombro. E nesse momento, também eu fico em paz.
É tão lindo o meu neto Benjamim que até dói!


5 comments ↓
AL
E este post é tão lindo que até dói.
Mas é uma dor prazenteira, daquelas que nos emocionam pela generosidade que imprimes ao futuro, ao mesmo tempo que contigo percorremos os trilhos de Moçambique.
Sra Baronesa
Curvo-me perante a tanta felicidade que constato desta tocante escrita e os doces tons rosa e azul-claro que enquadram essa felicidade familiar. Um valioso tesouro que espero perdure. Ele tem sorte de ter uma avó assim: inteligente, doce, paciente, dedicada.
E que ainda por cima escreve no Maschamba! Quero ver a cara dele daqui a quinze anos quando abrir a sua primeira continha no Facebook-Magalhães IV e ler o que está em cima.
Estou comovido. …
ABM estás bem enganado. O rapaz terá o seu FB-Mag a funcionar ainda no tempo do seu financiador, dentro de seis ou sete anos portanto
comovidíssima. Uma belíssima carta de amor a um neto e a um continente. Parece que estou a ouvir as memórias da minha Mãe…muito muito obrigada! Desejo-lhe as maiores felicidades nessa aventura de ser Avó.
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