O estertor do Acordo Ortográfico
Já tem alguns dias este texto de Pedro Correia no Delito de Opinião mas é de o referir. Debruçado sobre a situação em Portugal nele se referem as instituições culturais, uma mão-cheia de colunistas (re)conhecidos e os meios de comunicação social mais lidos (poder-se-ia juntar outros exemplos, em particular os próprios partidos políticos parlamentares) que não utilizam a ortografia produzida pelo Acordo Ortográfico. Contexto ao qual Pedro Correia soma um elenco de iniciativas de cidadania intentando a anulação do Acordo – que terão um poder limitado, mas denotam um esforço (raro em Portugal) de resistência ao monopólio estatal de violência legislativa. Sintomático de um mal-estar generalizado e transversal em Portugal face ao referido acordo. Tudo isto passadas duas décadas da sua elaboração, e obviamente vivendo hoje num contexto político (interno e internacional) bem diverso do que aquele que o induziu. Um ambiente que coexiste com o relativo silêncio dos seus defensores (alguém ouve o professor Carlos Reis injuriando os discordantes? E há bem pouco tempo ele se desdobrava nesse papel). Assim sendo denotando uma inexistência de consenso nacional sobre a matéria e, mais ainda, sobre os fundamentos políticos que estiveram na origem desta demanda “ortográfica”.
Nesta pluralidade de vozes discordantes surge com relevo o texto “Sobre o Acordo Ortográfico” de José Gil. Não apenas pelo que afirma, pois apesar do seu interesse não surge particularmente original. Mas pela personalidade. Sendo um intelectual muito lido e respeitado no país o perfil de José Gil impede que seja ele resumido pelos “acordistas” a um arauto de concepções ultramontanas, reaccionárias, sacralizadoras do real gráfico – uma lengalenga habitualmente utilizada, que durante anos agitou a ideia de que os “desacordistas” vegetariam numa “direita” salazarenta, essencialista, “orgulhosamente só”. Ou seja, a dicotomia esquerda/direita que foi sendo agitada para encobrir a verdadeira discussão (apesar do desacordo radical de pessoas como Maria Alzira Seixo) perde, e cada vez mais, a sua aparente realidade.
Tudo isto se soma, pelo menos, à inexistência de uma efectiva dinâmica “acordista” nos países continentais africanos de expressão oficial portuguesa.
No meio disto, da transversalidade da oposição, da inexistência de um verdadeiro movimento de opinião defensor, do desinteresse internacional no processo, resta(-nos) exigir ao governo que escute a sociedade. E que enfrente o retrocesso “ortográfico” progredindo para a “primeira forma”. Pois diante disto tudo o silêncio governamental é, já, tonitruante.
jpt





Balelas falaciosas. Nada mais.
A propósito, convém ler este artigo, no blogue A Lâmpada Mágica (http://lampadamagica.blogspot.com/2010/01/acordo-ortografico-o-asco-parvoice-os.html) onde todos os argumentos contra são rebatidos.
“Portugal tem uma ortografia unificada há cerca de dois séculos. Caso fosse a ortografia a determinar a pronúncia, todas as pessoas alfabetizadas pronunciariam as palavras da mesma forma, o que teria como consequência imediata o desaparecimento dos sotaques (ou melhor, a redução de todos eles a um sotaque padrão). Óbvio, não? Ora, como isso não acontece, como se comprova facilmente todos os dias, forçoso se torna concluir que a ortografia não determina a pronúncia. É simples lógica, meus caros amigos. A consequência que isto tem para o acordo ortográfico é que, ao contrário do que dizem os adversários do acordo em Portugal, a abolição das consoantes mudas não vai fechar as vogais que as antecediam, e ao contrário do que dizem os adversários do acordo no Brasil, a abolição do trema não vai fazer com que deixe de se pronunciar o u em palavras como frequência, como aliás nós, em Portugal, sabemos perfeitamente.”
Sabe o que é falacioso? É a arrogância da cagança. E o que é cagança?, convém explicar antes que V. se ofenda a pensar-se insultado. A cagança, arrogante e palhaça, é um pató qualquer deturpar o que os outros dizem e por-se a cagar d’alto dizendo-os errados (já que lhes pôs argumentos estapafúrdios na boca). E veja só, estou a citar o imbecil com que V. teve a delicadez de conspurcar o blog: “como se comprova facilmente todos os dias, forçoso se torna concluir que a ortografia não determina a pronúncia. É simples lógica, meus caros amigos.” Lógica? É a lógica da mais básica das desonestidades, deturpar a argumentação alheia para poder brilhar lá na tasca entre os boçais que aplaudem. A grafia determina a pronúncia? A grafia influencia a pronúncia, e influencia, sublinha as particularidades das variadas pronúncias. V. acompanha-me nisto, e sobre isto dialogamos há bastante tempo, para não poder concordar que – pelo menos aqui – é isto que se vai dizendo. E a diferença entre o tipo que aventa a hipótese de numa sociedade letrada, industrializada e pejada de meios de comunicação de massa a grafia influenciar as pronúncias e o tipo que diz que a grafia determina a pronúncia é a mesma que entre um ser humano porventura errado e um vegetal apodrecido.
E sabe ainda mais o que é cagança? É um lanterna mágica a pensar que alumia duas vezes botar sobre o acordo ortográfico e arrotar ideias exemplares porque exemplificativas sobre Brasil e Portugal, porque lhe falta pensar mais, mais abrangentemente sobre a matéria.
Balelas? Balelas é esta mediocridade encartada.
Não me sinto insultado. Até porque, apesar de ser a favor do acordo, discordo de algumas coisas. Com a sua permissao, vou conspurcar mais um pouco o blogue e depois, se for caso disso, manda-me a conta da mulher da limpeza.
“Por último, essa história do facto que passa a fato é a maior treta de todas. Em primeiro lugar, porque o «c» só cai quando é mudo – não é o nosso caso, pois dizemos facto e não fato. Ainda assim, quem ouve este pessoal falar em «vestir factos» julga que foi este acordo ortográfico a introduzir na nossa língua as palavras homónimas, ou seja, palavras que se escrevem e pronunciam da mesma maneira, mas têm significados diferentes.”
“http://bitaites.org/porreiro-pa/acordo-ortografico-contra-fatos-nao-ha-alfaiates/”
E há estudos, sobre o potencial económico do português, que estão na base da ideia deste Acordo. E olhe que as vantagens, pelos gráficos lá inseridos, não são nada de ignorar.
Por ultimo, com toda a cagança de um filólogo da lábia menor, deixo-lhe uma pergunta: porque será que, com todos os acentos e consoantes, na Madeira e sobretudo nos Açores, as palavras sempre foram pronunciadas fechadas?
Eu, à sua última e interessante pergunta, responder-lhe-ia com a minha mui menor lábia: não será devido ao facto dos falantes serem (terem sido na sua esmagadora maioria ao longo dos tais dois séculos de ortografia unificada que o lanternista lembra) analfabetos e falarem – e ensinarem a falar – independentemente da grafia?
Quanto à economia, essa ciência social em vasta crise quanto às suas possibilidades divinatórias, vou ali e já volto, se me dá licença
‘I rest my case!’
Um grande e sonoro não ao Acordo Ortográfico!
NÂO!
Lamentável, depois tanto esforço.
O ESSENCIAL NÃO O QUE FEITO DO HOMEM.
MAS AQUILO QUE ELE FEZ ERAM DELE”. (SATRE)
AO LIXO
machamba, mano
Diz lá ao pessoal como é que tu soma um + um mais depressa numa efectiva dinâmica, pá, com os dedos da mão esquerda ou com os dedos da mão direita, pá?
chikuti bahula, mano.
Seria interessante ler “O fim da ortografia” do Prof. António Emiliano, para ter uma visão moderna e para perceber bem a complexidade da correspondência entre ortografia e fonética, já que ortografia não é uma transcrição fonética.
Seria interessante ainda que tentassem explicar o porquê de os brasileiros pronunciarem anistia e indenização, caso inédito no mundo inteiro. Já agora, o mesmo para fato e contato…