O estertor do Acordo Ortográfico (2)
Há alguns dias aqui botei sobre o que me parece óbvio, vivemos o estertor do Acordo Ortográfico. Vejo agora as declarações de Francisco José Viegas, secretário de estado da cultura. E elas sublinham a minha sensação, no seu anúncio do propósito governamental de reformar o Acordo até 2015, o que obviamente implica uma desvalorização do seu conteúdo. Para além de levantar o problema internacional: se um dos países o vai refundir o que acontecerá nos processos de estudo e ratificação dos outros países? Como fazer a concordância de tudo isto? Isto não é atirar o acordo para as “calendas gregas”, é mesmo algo politicamente irrealizável.
Não há dúvida, o AO enquanto projecto político está exangue. Esta aparente marcha-atrás (“temos três anos para aperfeiçoar …”) diante de um malfadado processo, que já foi ratificado em 2010 em Portugal, apenas pode significar uma coisa. Ele, Acordo, é uma peça insuficiente. Melhor dizendo, menosprezível. Está em estertor, convém “desligar a máquina” e cremá-lo. Alguém tenha a coragem de carregar no botão.
Dois pontos de discordância com as declarações de Francisco José Viegas, blogo-confrade que muito prezo: não é verdade que o Acordo seja discutido na última hora, como ele lamenta nesta entrevista, apontando como causa desse facto uma qualquer característica cultural(ista) portuguesa. Desde o início o processo foi severamente criticado. Por especialistas. E por alguns cidadãos atentos. O que não impede, como é evidente, que em determinadas conjunturas a questão surja com mais veemência.
Mas outra questão é muito mais importante, relacionada com o exercício da cidadania, e que em muito ultrapassa a questão ortográfica. FJV concede a Graça Moura e a mais alguns o direito de discutirem o AO mas lamenta que aqueles que nada têm a ver com a língua e a escrita o façam. Isto é uma pura concepção tecnocrática do exercício da cidadania (e como tal da política), inesperada no secretário de estado da cultura, e nitidamente apenas um deslize em FJV (o fastio com os argumentos tonitruantes?). Pois se o seguirmos na vida nacional quem poderá falar sobre qualquer assunto público (os transgénicos, a poluição sonora, as touradas, os direitos homossexuais, a política financeira governamental, o plano nacional de educação, a preparação da representação olímpica portuguesa, o apoio ao cinema, etc.). Apenas os especialistas, os profissionais? Os técnicos? O cidadão assiste, as “ordens profissionais” opinam? Ou, pior ainda, fica para a câmara corporativa? Não gostei. A democracia é exactamente o direito de nós, medíocres, opinarmos sobre o que muito mal entendemos.
E não gostei, para além desta questão de fundo, por uma outra razão: o acordo ortográfico é um acordo político, com bases políticas e ideológicas, como muito bem António Guerreiro veio lembrar, e não apenas uma questão técnica (“da língua”). Quem são aqueles que não devem, por insuficiência pessoal e/ou profissional, opinar sobre acordos políticos? Enfim, tudo isto, se assim entendido, e apenas a propósito da mera grafia, torna-se um Jarro de Pândora … Ainda que sendo, estou certo, apenas um deslize na comunicação.
Finalmente, regresso ao meu problema. O AO não é suficiente e o governo anuncia que vai rever o seu conteúdo até 2015 (quem? como? urge saber). Mas eu tenho em casa uma filha no 5º ano, submetida às algemas da nova grafia. Como aprende? A grafia antiga (a minha), a actual (insuficiente e em transição até 2015)? Isto é inaceitável. Não será por isso que se torna iletrada, mas não é uma boa posição estatal.
Até porque isto nos leva de novo a FJV, ao afirmar que não há sanções para o uso da grafia, ao afirmar com óbvia ironia a liberdade ortográfica. Mas é uma ironia descabida. Não é verdade, os alunos não têm essa liberdade. E, mais profundamente, ao nível de uma sociologia da cultura, FJV sabe perfeitamente que há sanções sociais para as incorrecções ortográficas, sempre as houve. E que estas têm repercussões económicas, laborais, para além das estatutárias. Não há moldura penal mas há punições, intangíveis e tangíveis, para a desarmonia ortográfica.
Enfim, esteve bem FJV ao anunciar, na prática, o fim do AO. Não tanto no modo como o fez. Mas ficará na história com a bela e louvável imagem do governante que encerrou este triste episódio, algo apropriado ao homem de cultura que ele é. Bonito momento biográfico para ele. E p0r isso mesmo saem daqui as saudações deste seu leitor.
jpt





Esse pessoal devia ir mais além e derrotar os demais AOs. É mais giro escrever pharmacia!
Sempre recusei falar e escrever á brasuca, tb não estava no meu horizonte passar agora a falar e escrever. Vejam a discriminação que eles fazem até tem laivos racistas. Vamos todos os povos(Angola,Moçambique,Timor,Guiné,Cabo Verde,S.Tomé E Príncipe,Macau,Goa,Damão e Diu) que falam português, escrever e falar a língua de Camões.
Bem estará quem puser fim a este triste episódio – e fjv não só não fez, iludindo a questão com a falácia da liberdade de escolha aqui desmontada, como, ainda há bem pouco tempo, afirmava a bondade do «acordo» em termos desabridos -; e bem estará quem o fizer, porque porá fim a um tristíssimo episódio de construtivismo à revelia do admissível numa democracia moderna e em nome de interesses obscuros.
“…O AO não é suficiente e o governo anuncia que vai rever o seu conteúdo até 2015…” Mas estamos a brincar ou quê? Isto parece uma versão nova do Windows que leva anos de queixas dos usuários e consequentes updates e service packs até que se possa chegar a uma versão utilizável. É patético!
(quem? como? urge saber) exactamente! Uma revisão ortográfica teria sentido se fosse feita por especialistas e com o objectivo de enriquecer a nossa língua, tendo em conta questões etimológicas, o que não acontece com este Aborto Ortográfico proposto.
Amilcar Tavares: Os brasileiros e a gente não escrevemos pharmácia, porque somos um exemplo de evolução e modernidade. Em analgabetimos, na Europa ninguém nos bate e o Brasil tem um lugar de destaque a nível mundial.
Já os países atrasados, escrevem velharias, tipo “pharmaceutical industry” ou “pharmaceutical science”. É só ver nas bulas do medicamentos. Naqueles que os países atrasados vão descobrindo prós malacas e becharas tomarem.