O Vinho chileno e a Água do Luso
À Mtomoni, o meu dealer habitual. Na entrada anunciam-me um carregamento de vinho chileno. Impingem-mo, diga-se. Uma marca em particular, ao que parece mui louvada pelos clientes chilenos que ali têm acorrido. Torço o nariz pois com aquele preço até o BomBarril deve brilhar na comparação. Vence-me a curiosidade folclórica, escolho uma outra de tinto. Junto-lhe meia dúzia de cervejas (está um calor de abacaxis) e uma caixote (18 litros) da melhor água do mundo. Avanço para a caixa registadora e, em sorriso, aviso “espero que o vinho seja bom, custa-me o mesmo que 18 litros de água“, 10 euros a garrafa, 10 euros a caixa. Risos do outro lado, “mais vale beber o vinho“, estamos de acordo …
Avanço para o carro, já estou a telefonar, desafio amigos para nos sentarmos diante de um queijo a experimentar este vinhol e a associá-lo a outros, se para isso avançar o palato. Mas deixo-me pensar, gasto – e sem qualquer problema moral, diga-se – num garrafa de vinho (e barata, relativamente barata) o mesmo que em 18 litros de água importada. Sei lá porquê lembro que tanto trabalho com gente sem água, que se borra até ao sangue com a merda da água que bebe, que calcorreia kms diários para o bidon de água, crianças esmagadas sob litros desse barro, velhas a tropegarem nisso, e eu anteontem com Manjate em Cafumbe, nem a 10 kms da capital de distrito, em entrevista matinal com 8 mulheres e uma outra a entrar aos gritos no quintal, vem agora do curandeiro, do citewe dela só percebo o pranto desabrido, o “maman” tão repetido, roja-se no chão desalvorada, a dor desarticulando-a, vem agora do curandeiro, que o menino dela já não é de oiro, o intérprete interpreta, ela arrepanha-se em gritos (“fatalismo”? não me venham com “fatalismos” caralho!!), lamenta, lamenta, lamenta ”era o meu filho, era o meu filho, com quem vou brincar agora?!”, que tinha começado com diarreia na véspera e agora, agora mesmo, logo pela manhã, sem avisar nem se esperar morrera-se na cabana do curandeiro. Saio da machessa, do quintal, os intérpretes preocupados, “a entrevista está estragada!?” e eu “que se foda a entrevista!”, vou andar a fumar, andar no falso mato até me virem chamar, que não gosto que me vejam assim, e mais a puta da cólera, a merda da água, por todo o lado a merda da água.
Estou aqui, fumo também, o vinho chileno será uma zurrapa, 370 paus, os 18 litros de água nem tanto. Enquanto já guio para casa e vou a pensar nos luckys lukes da imputação, franciscanos latinos vermelhos, puritanos escandinavos rosas, entristecidos austrais já sem cor, todos esses que vêm o mal nas diferenças, não me vou por a falar de Veblen, nem da economia política da corrupção do Elísio Macamo – com o qual não concordo em muito, mas pelo menos está a pensar para além da moralzita da catequese. Repito, estou farto de lucky lukes da crítica – dedo em riste no mal dos outros, no mal do Belo Horizonte, no mal do 4X4, no mal do Bilene, no mal das barrigas lustrosas, no mal de tudo o que não têm e até teriam e, tantas vezes, no mal do que também têm. Enquanto bebem água (até a porcaria da Namaacha, se for preciso), enquanto bebem vinho (se o pastor deixar, claro). Assim entreparentizando-se do mundo – pois o mal é dos outros, o corrupto é o Outro, o barrigudo é o Outro, o bom é o povo do chapa, pobrezinho coitadinho, quase como eles – que também não são má gente – se não fossem tão desinstruídos.
Lucky Lukes entreparentizando-se do mundo para não acertarem na própria sombra. Que ao mal chamam Neilspruit ou Sommerschild B porque para eles é essa a fronteira, porque para eles é essa a diferença. Que ao mal resolvem como distinção – nem percebem que a distinção é outra, a “villa” é não se cagarem de sangue, e mesmo quando cagam é do hemorroidal ou do cancro do cólon. Que são eles os ricos, que têm água, mesmo da mineral – e vinho, até. São eles a fronteira, estão eles para além da fronteira, já milionários.
Há ricos e pobres? Há. Há “corruptos”? Há. A riqueza é má? Não (ai, ai, por muito que custe aos não absolutamente ricos). A “corrupção” é má? Não.
Alcatrão e penas … em cima de um carril. Para mim, claro.




obviamente que linkei. até me apetecia ‘linkar’ mais – Mugabe’s – mas está calor e sou um preguiçoso. quem vier à boleia que vá ler, querendo
É, andas desaparecido. Abraço
mas, jpt, a minha crítica ao discurso anti-corrupcao (nao consigo meter a acentuacao de há alguns dias para cá…) é também uma “moralzita da catequese”…
cá no brasil, por 10 euros, só o vinho chileno. água nem a nacional.
abçs.
Bem-vindo Filho, gosto sempre de o saber por aqui (cara a água por aí, não é assim?).
EM sê-lo-á, sê-lo-á (ainda por cima se o reclama). Mas tem um seu quê de satânico que me agrada. (não preciso de me justificar reclamando a impossibilidade, óbvia, do discurso desprovido de fundamentos éticos, espero …) Cumprimentos. E, claro, também gosto sempre de o saber por aqui.