Passos Coelho e a emigração dos professores

Sururu em Portugal. O secretário-geral do Partido Socialista afirma-se “chocado”, o líder sindicalista dos professores apela à emigração do primeiro-ministro, meio mundo resmunga contra Passos Coelho, nos blogs, nos jornais, nas redes sociais. O primeiro-ministro, dizem, mandou os professores emigrar, uma espécie de “Arreda”, “ponham-se na rua”. Eu, professor emigrado, e que sei que se voltasse para Portugal nestes meus quase 50 anos estaria em maus lençóis (ou, para ser mais certeiro, em nenhuns lençóis), fico aturdido. Então o homem diz uma coisa dessas, desrespeitando a classe profissional? Dando trunfos destes aos adversários políticos, ainda para mais nesta altura de grande crise? É inacreditável.

Depois, e por culpa do Cachimbo de Magritte vou ler o que o primeiro-ministro disse [aqui]. Vou citar a parte que tanta celeuma provocou. Mas o contexto da entrevista é óbvio, colocam-lhe questões sobre a emigração para Angola e Brasil, e sobre a exportação de bens e serviços para esses países. Depois:

CM – Para já, estamos a exportar mão-de-obra, cérebros, massa cinzenta…
PPC- Mas bens e serviços também.

CM- É certo que sim. Mas esteve em Angola recentemente. É um país que pode receber portugueses para trabalhar essencialmente em que áreas? Na Educação, por exemplo?
PPC- Angola não é um destino de mão-de-obra portuguesa, excepto de mão-de-obra muito qualificada.

CM- Não é? 140 mil portugueses…
PPC- Já tem sido. É difícil que possa ser muito mais. Angola já foi, para muitas empresas portuguesas, uma oportunidade de crescimento alternativo ao mercado interno e ao mercado europeu. Tem sido assim, sobretudo nos últimos 5/7 anos. É muito pouco provável que haja capacidade em Angola para absorver muita mão-de-obra portuguesa. O que não quer dizer que não possa ainda vir a receber certo tipo de mão-de-obra muito qualificada em certos segmentos.

CM- Por exemplo?
PPC- Em tudo o que tem a ver com tecnologias de informação e do conhecimento, ainda em áreas muito relacionadas com a Saúde, com a Educação, com a área ambiental, com comunicações. Todas estas que referi, além das tradicionais, que já lá estão implantadas e que têm que ver com infra-estruturas nos mais diversificados domínios, infra-estruturas rodoviárias, marítimo-portuárias, ferroviárias, logísticas. Como sabem, as empresas portuguesas, desse ponto de vista, não ficam a dever nada às grandes empresas estrangeiras que estão implantadas em Angola.

CM- Por exemplo, aos professores excedentários que temos, e temos muitos, aconselharia a abandonarem a sua zona de conforto e a procurarem emprego noutro sítio?
PPC- Em Angola e não só. O Brasil também tem uma grande necessidade, ao nível do ensino básico e secundário, de mão–de-obra qualificada. Sabemos que há muitos professores em Portugal que não têm, nesta altura, ocupação. E o próprio sistema privado não consegue ter oferta para todos. Estamos com uma demografia decrescente, como todos sabem, e, portanto, nos próximos anos haverá muita gente em Portugal que, das duas uma, ou consegue nessa área fazer formação e estar disponível para outras áreas ou, querendo manter-se sobretudo como professores, podem olhar para todo o mercado de língua portuguesa e encontrar aí uma alternativa.

Ou seja, perguntam ao PM o que se pode exportar para Angola e Brasil, dada a crise na Europa, nosso grande mercado. Perguntam-lhe que áreas de actividade serão as melhores em Angola. E as mais chamativas para emigração. Ele refere algumas, em áreas determinadas e em trabalhadores de elevada formação. Perguntam-lhe se os professores excedentários poderão emigrar para  Angola. Passos Coelho já tinha referido (algo que todos sabem): a) há crise generalizada; b) há desemprego.  E sobre esta matéria do futuro profissional dos professores diz: c) há falta de alunos, há excesso de professores; d) há crise demográfica, o que torna o problema de longo prazo; e) não há mercado privado para substituir os empregos estatais. Pelo que os desempregados devem tentar alguma formação e de reconversão profissional (a crise no sector é, entenda-se, de longo prazo). Ou então em “querendo manter-se sobretudo como professores, podem olhar para todo o mercado de língua portuguesa e encontrar aí uma alternativa”. E mesmo neste caso tem a lucidez (raríssima em políticos de Lisboa) de remeter essa hipótese de uma emigração de docentes fundamentalmente para o Brasil, pois é óbvio que a integração de docentes portugueses nos sistemas educativos africanos levantam questões que muito ultrapassam a vontade migratória.

Conclusão dos seus oponentes, Tó-Zé Seguro à frente? O primeiro-ministro mandou os professores desempregados emigrar! Eu consigo perceber muitas das pessoas que escrevem na internet repetindo que o tipo é que devia emigrar. Qualquer tipo que tenha um blog e, principalmente, um mural de facebook sabe que há imensa gente que pura e simplesmente não lê o que clica (o célebre “like” do facebook) e o que comenta. É a urgência de ser, de existir, através do cliquismo, da assinatura na petição, no urro, no choro. Há imensa gente que vive no eco, nada mais.

Mas aqueles que têm algum tipo de responsabilidade, e nisso vai à frente o Tó-Zé Seguro, que tralha é esta? É pura desonestidade intelectual. E se nunca é altura para essa politiquice no estado em que as coisas andam muito menos o é. Este é aquele tipo de manipulação rasteira que deve ser cobrada. Com apupos. E, mais do que tudo, com votos.

jpt


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22 Comments

  1. Helena Dias diz:

    Obrigada pela transcrição!! Não sendo fã do PPC, eu ouvi e percebi o que ele disse. Como sempre os media, a oposição e alguns iluminados retiraram o que quiseram do contexto.

  2. jpt diz:

    Não tem que agradecer. Fan também não sou, como posso ser eu fan de um tipo que faz um governo com Daniel Campelo? Já o disse aqui, quando esse traste infecto foi chamado para o governo, não tenho qualquer esperança neste governo. Apenas uma, a de estar enganado. AGora isto é uma histeria completa.

  3. umBhalane diz:

    “E mesmo neste caso tem a lucidez (raríssima em políticos de Lisboa) de remeter essa hipótese de uma emigração de docentes fundamentalmente para o Brasil,
    pois é óbvio que a integração de docentes portugueses nos sistemas educativos africanos levantam questões que muito ultrapassam a vontade migratória.”

    Perfeitamente de acordo, e não vale a pena bater mais no ceguinho.
    Escrito / dito, e bem dito.

    Quanto ao que disse PPC, mesmo eu que não domino a Língua Portuguesa, percebi perfeitamente o contexto da entrevista, e o enquadramento das suas respostas.

    Como se diz na pérola do Índico, “eu explico, e você complica”.

  4. mvf diz:

    lamento JPT – e como sabes não alinho com o Seguro e nem perto destas oposições…- mas basta-me a pequena sugestão feita por qualquer 1ºministro que, para um gajo se safar, a procura de outras latitudes é uma alternativa, para o passar a olhar como incapaz de perceber que uma, ainda que leve alusão a esta possibilidade, pode, melhor, fere a sensibilidade de um povo que anda ansioso pelo presente, preocupado e/ ou ansioso pelo que aí vem que não se sabe ao certo o que será. É, no minímo, falta de senso e, sendo assim, não parece capaz de governar Portugal. A malta aqui precisa de ânimo, apoio, encorajamento e não de empurrões para fazer as malas e partir. É que a rapaziada gostava de opuvir qualquer coisa sobre desenvolvimento económico de vez em quando, que isto de impostos a mais e guito a menos na algibeira complica com os nervos do cidadão.

  5. jpt diz:

    MVF
    1. Vou deixar cópia de um comentário que deixei num mural de Facebook onde se discute o assunto, e onde tinha eu deixado após dezenas de comentários a ligação à entrevista de PPC e também a este postal, ligações que valeram da simpática dona do mural um re-comentário dizendo qualquer coisa, “ok, as declarações afinal são algo diferente do que pensava e PPC anuncia apoios à emigração” [ponho isso para contexto do que escrevi e porque se parece um pouco com o que aqui dizes]:

    “O PPC não só não aconselhou os professores a emigrarem como não disse que o Estado os ajudará na emigração (como se poderá depreender do seu comentário). Está cristalino no texto: a) há redução de postos de docência [e isso sim, pode ser assunto de discussão, mas não directamente retirado desta entrevista]; b) há uma quebra demográfica [o que deveria ser a grande questão política em Portugal mas que praticamente ninguém referiu, substantivamente, nas duas últimas décadas - é uma quebra anunciada, ainda para mais]; pelo que c) a redução dos postos de docência é a longo prazo. Daí que PPC diz (em resposta a quem lhe pergunta se devem os professores desempregados emigrar) d) que os professores devem fazer a reconversão profissional (e este é o verdadeiro argumento que é discutível – mas não vejo ninguém a perguntar se há políticas para esse sentido, no Estado, ou na articulação entre o Estado e o privado, e essa ausência de questionamento em favor do choradinho generalizado mostra a pobreza do debate em Portugal). E ainda e) caso não queiram reconverter-se (repare-se que o homem nem apela a isso, respeita a opção profissional, existencial, a resiliência) podem olhar o estrangeiro onde se fala português (e vai avisando que é melhor olhar o Brasil do que África, que neste campo é um universo bastante diferente).

    Com isto tudo criticá-lo porque diz às pessoas para emigrar ou, como também vejo neste mural, porque não anuncia os protocolos do Estado com outros países para apoiar essa emigração, é uma tresleitura. Em muitos casos “a quente” face às dificuldades que são sentidas [seja pelos próprios, seja pelos circundantes], noutros (dos políticos) meras estratégias ocas. E ocas porque desviam o debate de onde ele deveria estar: natalidade (a longo prazo), alterações no funcionamento docente e programático (o que vai sendo feito mas cheio de barricadas de todos os lados) e, já agora, aproveitando a deixa da entrevista, como reconverter os docentes que o queiram fazer. E finalmente, sim, já que está na praça pública, que tipos de enquadramentos de emigração poderão ser induzidos pelo Estado.

    [ ...] Somos, presumo, gente ligada, profissional ou afectivamente, à educação. Os textos são a nossa (uma das) matérias-primas. Deixemos as tresleituras e as manipulações para os meros politiqueiros.

    2. Francamente não sei mais o que te dizer. A questão não é se tu ou eu apoiamos a oposição socialista ou outra, se gostamos ou não deste governo (já o escrevi aqui, não posso esperar nada de um governo que chamou Daniel Campelo.) A questão está na forma de discutir o país e, nisso, de como é o debate político. O PM faz uma entrevista e tem declarações. As pessoas deturpam o sentido das declarações (está no meu postal, está neste meu primeiro ponto) e partem para conclusões idiotas. Foi-lhe perguntado se os professores devem emigrar. Ele respondeu o evidente, há uma crise de longo prazo, é uma profissão com excesso de praticantes, por razões demográficas (é discutível? discuta-se isso, mas não com os argumentos dos sindicalistas comunistas que dizem, há professores tem que haver emprego, por favor). E disse que se deve fazer uma reconversão profissional. E que aqueles que não o querem fazer podem olhar para fora. Tudo o resto é deturpação. E um debate público deturpado é, com toda a certeza, pior do que aquilo que tu pensas do PPC (e eu do Relvas, do Campelo e dos etcs)

    Repito até à exaustão, perguntaram-lhe se os professores deviam emigrar e ele respondeu: devem-se reconverter, os que não quiserem podem encarar a hipótese de emigrar, preferencialmente para Brasil (não acreditem em África, está implícito). Caramba, pá, como podes discordar disto? Como podes, cidadão interessado, evitar partir disto para um debate sobre modalidades de reconversão profissional, de reconversão institucional e, até, de estratégias estatais de indução de migrações (atenção às palavras que uso)? Preferes a atoarda contra “ele”, contra “eles”. Ok, lavas a alma, mas com água suja, não benta.

    3. Pior do que tudo é a ideia que tens do papel do governante. A gente está desanimada e ele tem que dar alento, tipo personal coach ou psicólogo. Tivemos o Guterres a dialogar e a distribuir e o Socrates a socratizar. Isso é um atestado de menoridade às pessoas.

    4. O que PPC fez que tanto te ofende ou desanima? Disse aos trabalhadores docentes, olhando o futuro, “reconvertam-se” E tu lês “emigrem”. Se até tu estás tão inquinado que lês isso o que se pode fazer? Constatar que será muito difícil actuar em Portugal, onde anda tudo (e levas também, que isto vai com a franqueza de sempre) a ler e a pensar como baratas tontas. A incompreender, a vociferar. E, no caso de muitos, a torpedear.

    Finalmente, esta porrada nos meus argumentos tinha mais piada em regime postal

  6. FF diz:

    Não sei se estou a chegar atrasado ao debate, e não percebi a última resposta do jpt sobre responder em regime postal, por isso participo aqui. O que me estranha nas declarações do PM na tal entrevista não é o teor, e que tem um fundo de verdade, isso é inegável. Que sejam deturpadas também não me estranha nada. Se as declarações fossem proferidas pelo PPC seria normal, e até poderiam ser entendidas como um alerta avisado aos seus conterrâneos. A questão é que ele é o PM. O PPC poderia dizer o mesmo num contexto de conversa de café e de amigos. O PM não pode dizer as coisas assim, no meu entender. Primeiro porque também lhe cabe a responsabilidade, como PM, de mudar o sistema de ensino e desalavancar (esta está na moda) a excessiva formação profissional de professores das nossas universidades e definir políticas de formação prioritária no ensino universitário. Segundo porque levianamente está a enganar o pagode, o problema maior não é, neste momento, o da demografia, mas sim os cortes/poupanças no ensino, as turmas foram aumentadas em média em mais 4 alunos. Neste momento temos no secundário uma média de 28 alunos por turma, bem acima da média europeia que é de 20. Para não falar dos nórdicos que é de 15, em média. Ou seja, não há excesso de profs, há é falta de dinheiro, ou falta de prioridades e, já agora, deficiente qualidade na formação dos profs, e isso é culpa de um PM, este e de todos os anteriores. Mas ainda mais grave é enquadrar essas declarações num plano mais geral, a saber: o ministro Relvas explica hoje que as declarações do PM foram justas e naturais num país de emigração e de carácter universalista e que quando os portugueses se tornam universalistas o país foi sempre um sucesso. Hein? Universalistas? Mundos ao mundo? I, II ou III impérios? E a Caixa Geral de Depósitos anuncia hoje que vai fechar na Madeira, o offshore deixou de ser rentável por causa dos impostos a partir de 2012, e vai abrir nas ilhas Caimão. Será esta a visão universalista que o Relvas defende para a banca estatal? Fugas dos cérebros de Portugal, fuga das poupanças e fuga dos impostos. É a visão universalista, os tugas em fuga?

  7. jpt diz:

    Regime postal? Fazer “posts”, pá, botar no blog

  8. jpt diz:

    Ok, o meu comentário anterior foi logo à entrada, antes de ler o teu comentário. Repito, agora depois de ler: “regime postal” fazer postais, fazer “posts”, escrever no blog, porra. E por maioria de razão quando apresentas o que apresentas.

    Eu repito. Está tudo aos urros por causa da entrevista. Não lhe vejo mal nenhum, nem mesmo naquilo que o MVF e tu dizem, que o PM “não pode dizer”, não pode desiludir as pessoas – de certa forma o PM deve mesmo des-iludir as pessoas. Por outras palavras o Manuel Pinho ou o mário lino ou lá quem foi também veio dizer que acabou a crise, não foi. Veio dar alento às pessoas [e "dar confiança", aquela coisa produtiva que afinal os economistas descobriram como item (quantificável?)]. E depois veio o que veio.

    Agora quanto ao que dizes, faz-me o favor. Lê as declarações do homem. Lê, já agora, o meu postal. Há uma crise. Não há dinheiro. Redução de custos. Redução de postos. Redução natalidade (e é falso que esse não seja básico, o nosso olhar “policocentrado”, viciado na política de cabotagem é que recusa a importância de há vinte anos estarmos entre os países com menor taxa de fecundidade. E continua-se a dizer que não é questão). O problema maior é mesmo esse. Mas o de curto prazo não serã, claro, estou contigo. É a redução de custos, que será economicistas como dizem, mas num momento de ruptura, caramba. TErá a ver, acima de tudo, como bem dizes [e já isso é um postal], “mudar o sistema de ensino e desalavancar (esta está na moda) a excessiva formação profissional de professores das nossas universidades e definir políticas de formação prioritária no ensino universitário.” Óptimo, estamos a discutir o futuro, os que vêm aí. E para os que já estão no mercado de trabalho? Fazer o mesmo, reconverterem-se profissionalmente. E se não se querem reconverter procurar novos mercados (diga-se, o mesmo que se diz às empresas, mas enfim, é politicamente incorrecto analisar sociologicamente as realidades, não é assim?). Só me ocorre, FF, dizer no nosso registo privado, “caralho, pá!”, não é isso o que homem disse? Não está lá por outras palavras e focado no presente e não no futuro a que tu aludes a necessidade de descentrar a formação na docência.

    Quanto à “Ou seja, não há excesso de profs, há é falta de dinheiro, ou falta de prioridades e, já agora, deficiente qualidade na formação dos profs, e isso é culpa de um PM, este e de todos os anteriores.” não, não, não. Isso é demagogia. Podes criticar a política deste governo relativamente à educação, as medidas do Crato, que por importantes que sejam não são, pelo tempo que têm, estruturalmente definidoras. Mas não podes assacar ao PPC (por pior que seja) responsabilidades no “falta de prioridades e, já agora, deficiente qualidade na formação dos profs,” pois neste momento as prioridades estão bem espartilhadas e, acima de tudo, não é aceitável por num gajo que está no poder há meia dúzia de meses (e que meses) as responsabilidades na deficiente qualidade de formação de profs. Isso é mero pejo de evitar críticas ao governo. É demagogo, desculpa lá a franqueza.

    Relvas, impérios, universalismo, ainda não vi. (apenas um excerto a louvar os emigrados para Moçambique, sem dizerem isso). Mais um postal. Eu já botei a semana passada vs o Relvas, e as suas quintoimperiadas aquando em maputo. [Isto de me ter irritado com o trauliteirismo acerca desta entrevista deve fazer-me passar por um passoscoelhista na mente dos topógrafos daí] Seria engraçado que mais alguém daqui pontapeasse. Mas insisto, nada do que PPC disse naquele entrevista implica esta maluquice generalizada. Apenas o desvario que reina nesse país e nas mentes, iluminadas ou não

  9. Jorge Nunes diz:

    Caro JPT

    Podia concretizar melhor esta parte por favor. Gostava de perceber quais são essas questões.

    “..uma emigração de docentes fundamentalmente para o Brasil, pois é óbvio que a integração de docentes portugueses nos sistemas educativos africanos levantam questões que muito ultrapassam a vontade migratória.”

    Desculpe lá esta, mas a minha curiosidade em perceber contextos é aguda

  10. jpt diz:

    Para além de tudo o que tem a ver com a aceitação política de uma massa de emigrantes portugueses em países cujos nacionais têm dificuldades extremas em emigrar para Portugal, e para além das questões que têm a ver com a vontade (ou falta) de acolher alguns milhares de estrangeiros no seu país; para além dos diferentes contextos pedagógicos, que exigiriam uma formação específica para quem vem de uma escola portuguesa dar aulas para outro país? PAra além disso tudo, enorme tudo?

    V. faz a mínima ideia de quanto ganha um professor moçambicano ou angolano do ensino básico ou secundário? Acha que algum português professor desempregado emigraria para ganhar isso? Pois entenda-se que estamos a falar de emigração e não de projectos de cooperação, pagos pelo Estado derivados de acordos entre Estados (isso seria ridículo, em larga massa, então o EStado portugues a reduzir lugares em Portugal e a contratar para ir para o estrangeiro?, que política de poupança seria essa – o que digo não implica, claro, que não possa haver casos desses, mas que não têm ligação com esta questão de um processo migratório).

    Mas, para sublinhar, alguém imagina quanto se ganha nas escolas?

    Também por isso, pois não é apenas salarial a questão, é política, pedagógica, científica, logística, mas também por isso, as palavras do PPC me parecem absolutamente cristalinas. E ou repugnantes ou ignaras as lamentáveis reacções que por aí vejo

  11. jpt diz:

    FF e Jorge Nunes (que referiu as declarações no comentário que fez ao postal acima deste), fui ao Publico e copiei as declarações do Miguel Relvas. É isto que conheço, nada mais, aceito que o teor seja outro. Mas se for este gostava, se tiverem paciência, que esmiucem e me expliquem onde está a afronta, o erro político, o desrespeito? [Ainda para mais num país que embarcou no discurso da "gesta migratória" (ou diáspora, se quiserem) alguns anos depois do 25 de Abril] Sendo verdadeiramente analítico, onde está o problema?

    No ênfase? Adianto eu. Talvez. Mas não será o ênfase também provocado por toda estes trocadilhos da tanga. E adianto que falo no ênfase apenas para ter assunto, pois honestamente nem isso vejo de mal. Fica a transcrição do pùblico para as almas mais sensíveis verem como Miguel Relvas apela a que todos emigrem para África e abandonem o país pois o seu governo não consegue governar o país nem vê mais hipóteses:

    *********************

    O ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, afirmou hoje o seu “orgulho” nos portugueses que “em dificuldades” partiram para Moçambique e “agora estão a ter sucesso na construção do país”, comentando as declarações do primeiro-ministro publicadas no domingo.

    Em entrevista ao “Correio da Manhã” publicada no domingo, Pedro Passos Coelho admitiu que os professores portugueses podem olhar para o mercado da língua portuguesa, principalmente para o Brasil e Angola, como uma alternativa ao desemprego que afeta a classe em Portugal.

    Instigado pelos jornalistas a comentar estas declarações, Miguel Relvas disse que “as declarações do primeiro-ministro são muito claras e objetivas”, criticando que “quem tem uma visão conservadora e desadequada da realidade não consegue acompanhar aquele que é o sinal dos tempos”.

    O ministro dos Assuntos Parlamentares confessou hoje um “grande orgulho” por ter visto, na sua última viagem a Moçambique, “jovens portugueses com formação superior que estão a ter sucesso na construção daquele país”.

    Miguel Relvas afirmou que “todos os dias se encontram homens e mulheres portugueses que tiveram dificuldades perante as atuais circunstâncias de viver em Portugal e partiram para outros países”.

    O governante considerou que estes emigrantes “são uma fonte de orgulho” e “demonstram que sempre que os portugueses têm uma visão universalista têm sempre sucesso”.

    Questionado sobre se estava a sugerir a emigração para Moçambique, depois da sugestão feita por Passos Coelho para o Brasil e para Angola, o ministro negou a sugestão e recusou-se a prestar mais declarações aos jornalistas.

  12. VA diz:

    Pois é, jpt…creio que Portugal inteiro ainda não percebeu a necessidade de ‘reconversão’ tanto profissional como pessoal…a questão é de facto estrutural e transversal (esta também está muito na moda)…trata-se de pensar que as economias, as relações sociais, as administrações internas e externas, a educação, a saúde, etc,etc não mais terão a mesma medida… Fala-se muito na falência do capitalismo como nós sempre o conhecemos, mas também se trata da falência do indivíduo…um indivíduo que tem necessariamente de saber reposicionar-se e ‘reconverter-se’…Não haverá mais direitos adquiridos (as reformas por exemplo não mais serão um porto seguro)e a criatividade (ou o caos, é idêntico)imperará.
    Este é um momento histórico em que o individuo pode ter a possibilidade de conferir um pouco de sentido à sua existência.
    PPC tem consciência da necessidade de um novo posicionamente individual a nível mundial, só isso! Mas as gentes de Portugal estão em pânico e urram…o prior é que só urram para Lua, nada mais!!!

  13. VA diz:

    Errata: o pior…

    Também é o momento para, solidamente, construir o futuro…Daí as tuas questões serem prementes e, obviamente, certeiras…urge massa crítica, não nos moldes que conhecemos mas a partir de uma reflexão profunda sobre como o fizemos até aqui…
    Mas ainda não perceberam que o mundo mudou à brava???

  14. umBhalane diz:

    “Mas as gentes de Portugal estão em pânico e urram…o pior é que só urram para Lua, nada mais!!!”

    Vénia.

    Tirando as exclamações, pois não constitui surpresa, admiração, não é nada de novo!!!

    As gentes, bem dito, estão à espera de uns quaisquer D. Sebastião, a sair de uns quaisquer quartéis para “resolver” o assunto.
    E no dia seguinte à consolidação, é preciso cuidado, aos milhões estarão a ovacionar o caudilho com toda a força pulmonar, e a abjurar o passado recente.
    Típico.

    Gentes.

  15. jpt diz:

    Estou com o 1B, essa dos patrícios a urrar para a Lua está no alvo.
    1B o caudilho já estaria (rotativo?) por aí não fosse a famigerada Senhora Mérkél

  16. mvf diz:

    Quanto à reconversão estamos, estaremos de acordo. É aliás coisa humana a adaptabilidade às circunstâncias mutantes, não excluindo o luso, evidentemente. A minha questão não é (nem poderia ser por natureza minha)essa. Ora, o 1ºministro sugeriu a saída de Portugal como escape e, ao que vemos não está só. Já antesum Sec de Estado tinha vindo com ideia parecida em relação aos jovens. Será neo-proto-programática a ideia de emigração? O gordo Paulo Rangel, euro-deputado-emigrante temporário, adianta mesmo uma agência nacional para ajudar o desempregado a fazer-se à vida fora de Portugal. Claro que para montar o dispositivo teria de se meter lá uns quantos boys que não vai havendo lugar para todos nas admnistrações hospitalares.
    Aqui fica transcrito do “Publico”:

    “Às tantas, nós até devemos pensar, se houver essas oportunidades, em, de alguma maneira, gerirmos esse processo. Talvez fosse uma forma de controlar os danos. Era ter, no fundo, uma agência nacional que pudesse eventualmente identificar necessidades e procurar ajustar as pessoas que tivessem vontade – não é forçar ninguém a emigrar, não se trata disso – e canalizar isso”, afirmou Paulo Rangel.

    Questionado pelos jornalistas, à entrada para uma reunião do Conselho Nacional do PSD, num hotel de Lisboa, Paulo Rangel disse não ver “motivo para escândalo” nas declarações do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, sobre a emigração dos professores que não conseguem colocação nas escolas portuguesas.

    No entender do ex-líder parlamentar do PSD, a posição assumida pelo primeiro-ministro, apontando a emigração como uma opção para essas pessoas, não devia suscitar escândalo: “Pelo contrário, ela devia suscitar um debate sério na sociedade portuguesa, para tentarmos, na medida do possível, acomodar as necessidades do País em termos de mercado de trabalho no exterior”.

    Segundo Paulo Rangel, a emigração pode ser, não “uma primeira solução”, mas “uma segunda solução” para “pessoas que têm condições para isso, que ainda não têm a sua vida montada, que são mais jovens, mais ligados à aventura”, porque “pode ser uma forma de as pessoas terem rendimento, de terem uma experiência, de terem uma ligação ao País feita de outra maneira, de servirem também o País”.

    Isto não se aplica a “profissionais que já estão na casa dos 40 anos, que já têm as suas famílias formadas, que têm filhos em idade escolar”, ressalvou, insistindo que não se deve “diabolizar a emigração, especialmente de quadros qualificados, como uma saída provisória, como uma má saída, mas uma saída para a crise”.

    O eurodeputado do PSD argumentou que “é uma evidência” que “no caso da educação, com a baixa da taxa demográfica, não há lugar para todos os professores” e que é preciso “encontrar saídas para as pessoas” desempregadas.

    “Ou os senhores querem que as pessoas fiquem em casa à fome e a viver do fundo de desemprego, é isso que querem?”, questionou, dirigindo-se para os jornalistas.

    Paulo Rangel recusou que seja um sinal de derrotismo um primeiro-ministro apontar a emigração como uma opção: “Eu acho que não é. Nós não podemos estar sempre a dizer que queremos que os portugueses estejam em grande cooperação no Brasil, em Angola e Moçambique, que queremos ter pontos de contacto espalhados pelo globo, que os portugueses têm uma diáspora muito ativa, e depois achar que isto é uma coisa terrível e tenebrosa”.

    Tem razão, no entanto, o gordo: é terrível e tenebroso. Ele, quero dizer.

  17. Jorge Nunes diz:

    O JPT referiu num dos seus postais mais recuados, que isto dos blogs era como uma conversa à mesa do café. O problema é que uma pessoa levanta-se da mesa para fazer uma necessidade (regressar a casa; dar de comer aos filhos pois aos dias de semana é pai “solteiro”; tratar da vida doméstica; etc.) e quando regressa à mesa do café já é um novo dia, a conversa já vai longa e se calhar a nossa reentrada já vai um pouco a destempo, mas tem se fazer o gosto ao dedo.

    JPT, no postal «O “coachismo”, novo sistema de governo», não sou eu quem refere as declarações do Miguel Relvas é outro Jorge.

    Quanto à sua resposta à minha questão, que muito agradeço, veio confirmar a informação que me foi dada por um brasileiro, por alturas do referendo de Timor, sobre o desagrado demonstrado por Moçambique face a uma hipotética, na altura mesmo só hipotética, emigração maciça para aí. Em Angola as razões serão as mesmas, agravadas por alguma sobrecarga da nova emigração lusa. Quanto aos salários dos docentes não faço de facto a menor ideia, calculo que sejam baixos, mas depois lemos na nossa imprensa sobre o custo de vida em Angola (Luanda) e ficamos perplexos, a menos que os preços para os nacioanais esejam diferentes.

    Quanto à gincana com as apalvras do PPC estamos de acordo, conforme se viu no postal acima

  18. [...] 1. Abaixo já abordei a falsidade das interpretações da entrevista de Passos Coelho (umas resmungonas, muitas paroquiais, algumas malevolamente estratégicas e até algumas lamentavelmente pungentes [roda na internet uma carta aberta ao primeiro ministro que é uma peça inadjectivável, e que deveria envergonhar quem a reproduz, salivando]). Voltei ao assunto aqui (irritado com os que querem a infantilização dos cidadãos) e aqui (já a ver-me a votar nas próximas presidenciais em Ferro Rodrigues ou Guterres: o “pequeno Marcelo” nunca!). [...]

  19. jpt diz:

    Jorge Nunes, há muitos Jorges (e Josés) sob este céu …

    Quanto ao resto, não foi num postal mais recuado, é mesmo sempre, isto não passa de um conversa de café. E, quando está melhor, a gente prolonga-a até a um bar mais porreiro.

    Quanto à sua questão – uma das questões que não abordei nesta parvoíce sobre a entrevista do PM, e que de certa forma seria a mais importante (e quem lê o ma-schamba e já me viu escrever sobre o chapéu-de-chuva “lusofonia” pode deduzir do meu interesse e mal-estar) é a estupidez colectiva que grassa no seio dos comentadores, a de que há países esperando professores ou emigrantes portugueses como de pão para a boca. É a tal “lusofonia” (falamos a mesma língua, somos amigos irmaõs, vocÊs precisam da nossa “ajuda” e nós vamos para aí – então e logo professores, não há falta?, claro que há, nós vamos ajudar). Isto não é infantilidade, é mesmo senilidade intelectual. Mas enfim, passando. Não é só o a logística (já viu aquela jornalista doutoranda que sempre foi muito inteligente que ganha pouco e tem dois filhos e precisa do apoio dos pais e que quer que o governo emigre porque o PM a mandou emigrar e que tem amigos bloguistas e facebookistas e na televisão e que escreveu uma palhaçada aberta ao PM? já viu aquela troncha metida a dar aulas em Sussundenga com os dois filhotes? a casa, o taco, as viagnes, o carro (que afinal a tv diz que ainda tem) tudo aquilo? Pois não é isso, a questão é que não pode dar aulas … mesmo que quisesse trazer o coiro para aqui mais os little bastards atrás, para o meio da malária e dos 200 euros por mês tinha que se formar para dar aulas. Burocracia, restrições? Não apenas. Mas porque acima de tudo os programas são diferentes, as pedagogias são diferentes. E porque ninguém a compreende, que naó vai para o meio da tralha facebookista bloquista feminista que se lhe alapou. É esse o ponto, que essa tropa fandanga nem imagina, entre os xópings e as concentrações de indignados. São desempregados? São indignados? Talvez. Mas o pior é que o mundo se está a cagar neles. E merecem-no.

  20. Jorge Nunes diz:

    Cá volto eu mais uma vez à mesa do café para dar mais uma achega (espero que última) à conversa dos professores emigrantes.

    Como diz o JPT e bem, a treta da lusofonia esconde muita ignorância de todos nós, e principalmente dos mais responsáveis, pois isto de sermos todos lusofalantes é uma grande mistificação. A este propósito, lembrei-me da experiência de uma amiga da área da produção animal, que há uns 10 anos ou mais esteve em Moçambique, numa zona junto à fronteira com um dos 3 -Malawi, Zâmbia ou Zimbabwe- não me recordo agora qual deles, numa acção de cooperação da FAO na sua área de especialidade. Ela contou-me que tinha um tradutor nas aulas, mas o mais interessante era que o tradutor falava muito mais do que ela. Curiosa perguntou-lhe a razão dessa discrepância. Ele respondeu que para conseguir explicar, aquela população específica, os conceitos que ela dava, ele tinha sempre de elaborar uma história exemplificativa para conseguir passar a mensagem, pelo que ele tinha de falar muito mais tempo do que ela.
    A maioria de nós não tem noção desta realidade, pensamos “Eles falam Português e pronto”.
    Através de um blogue pró governo, o Forte Apache http://forteapache.blogs.sapo.pt/227736.html e num postal usado para criticar o distinto Sr. Engenheiro e defender PPC, saltei para um postal do Crónicas de Além Tejo, que embora tresleia as declarações de PPC pois ele até nem sugere Angola como destino preferencial, http://cronicasdealemtejo.blogspot.com/2011/12/passos-coelho-quer-professores.html
    tem um link para esta notícia, que embora já com um ano, dá um exemplo das condições de ensino que iriam encontrar os nosso supostos emigrantes http://www.opais.net/pt/opais/?id=1657&det=17649&ss=escolas%20inundadas
    De facto o desconhecimento da realidade leva-nos a falar de cor. Tanto do lado que critica como do lado que é criticado.

  21. jpt diz:

    Mais do que o desconhecimento da realidade, que até certo ponto é algo normal, o que custa ver é a espantosa quantidade de umbiguismo que grassa nesse nosso país. Repara bem, JN, que em todo o estapafúrdio bruááá que a entrevista de PPC provocou (e para além de outras questões que procurei abordar, ainda que en passant, em postal ou em comentário) um único teclista dos que interpretam PPC como mandando emigrar os desvalidos professores – desde os mais nacionalistas direitistas, que já andam a facebookar sobre a necessidade de expulsar os imigrantes em Portugal, até aos mais amantes dos terroristas de extrema-esquerda – não houve, dizia eu, um único desses teclistas que perguntasse (invectivando, claro) ao PM se os respectivos países para os quais ele está a mandar emigrar estariam na disposição de os receber [partindo da óbvia constatação que caso isso não acontecesse tal significaria a total incompetência de PPC, o desvario do seu discuros]. E é óbvio porquê, porque acham que seriam certamente bem-vindos. E, também, porque não é claramente essa a questão mas apenas a resmunguice, tresloucada.

  22. [...] da polémica em torno da entrevista de Pedro Passos Coelho [ler aqui; sobre isso já escrevei 1, 2 3] em que o primeiro ministro terá mandado emigrar os professores desempregados. Esta [...]

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