Entries from Outubro 2009 ↓

O Meu Primeiro Halloween

lua-de-novembro

por ABM (Cascais, noite de Halloween, 31 de Outubro de 2009)

Quando em 1977 emigrei para os Estados Unidos da América, depois da sequência de eventos que levou ao que então eu me apercebia que iria ser um muito longo exílio de Moçambique (foi), saí da Estação B de Coimbra no dia 20 de Setembro no comboio Foguete com destino a Lisboa, em seguida voei para Ponta Delgada, onde tinha que cumprir algumas formalidades finais do processo de emigração junto do consulado norte-americano e aguardar luz verde para poder voar para a cidade de Boston. No dia 20 de Outubro ao fim da tarde – uma quinta-feira outonal – o voo TAP 312 aterrou no Aeroporto de Logan, repleto de emigrantes portugueses e açorianos, cheios de sacos com roupa, chouriços e agasalhos, provocando o desdenho das fleugmáticas hospedeiras.

Ao contrário da impossibilidade do regresso a Moçambique, algo involuntário mas sugestivo do fim de um capítulo, a ida para os Estados Unidos fora intencional, planeada e benvinda, pois, mais do que tudo, representava a possibilidade de retomar uma normalidade que já começava a parecer mítica. Em Portugal sentira-me um refugiado que não era benvindo nem assistido. Literalmente toda a agente que eu conhecera até então estava asilada, refugiada, pendurada e em parte incerta do planeta. Desenrascava-se e sobrevivia-se, sem qualquer perspectiva de futuro. Apesar do pronunciamento anti-comunista em Novembro de 75, quem fosse mais do que “socialista” era “fascista” e a liberdade adquirida era a liberdade de insultar tudo e todos e de poder ver um filme pornográfico num cinema perto de casa. Nessa altura até Sá Carneiro dizia que era socialista e que queria construir uma sociedade sem classes. Aquilo tudo parecia-me ser uma vasta, longa, chata, incompreensível anedota latina.

Cedo descobri que não gostava de revoluções de partir a loiça, com tropa fandanga na rua, gente rasca bem falante, oportunistas falhados em pontas de pés à busca de cunhas e favores, putas, peregrinos de Fátima em joelhos e revistas aos carros na EN1 à procura de armas, cartazes revolucionários e muito, muito sujo, tudo espapaçado nas paredes e nas ruas, comunistas de Mercedes Benz, frio, escuro e penumbra. Tudo à beira de um ataque de nervos, tudo à procura de algo em troco de nada, o povo, ainda algo macambúzio, expectante quanto às promessas da Nova Ordem, agora democrática, descolonizada, igualitária e “europeia”. Ah as promessas! pois não era que tudo o que havia de mau em Portugal fora culpa da longa noite salazarista.

Aprendi nessa altura especialmente a não gostar daquelas revoluções onde se fala muito e faz-se pouco, aquelas que nos deixavam no meio da rua à noite, à chuva, sós, a segurar na mão enregelada um saco de plástico contendo tudo o que nos pertence e que ainda nos desconfia de ladrões e ideologicamente polutos – o que no meu caso, com 15 anos, era ficção científica.

Nos EUA todos eram imigrantes ou filhos de imigrantes. Havia a promessa da inclusão, a garantia da oportunidade – e da estabilidade. Curiosamente, encontrei no ethos norte americano uma cultura de tratamento igual para todos. Lá não havia generais nem doutores nem empresários de sucesso, havia o igualitário you . Valorizava-se o mérito, a honestidade, a pontualidade, a disciplina, o dinheiro. Em média a diferença entre as pessoas era na quantia de dinheiro a que tinham acesso (cash – e em dívidas, o que foi uma novidade para mim). Havia de tudo e tudo me parecia ser barato e acessível sendo apenas necessário trabalhar e ganhar um salário. Havia casas para alugar, supermercados cheios de tudo e empregos para quem quisesse trabalhar. Em Portugal não havia.

Nos EUA de 1977 ninguém sabia que Portugal se havia separado de Espanha em 1640 – e ninguém parecia querer saber. África ficava em Marte, Moçambique em Saturno, e os negros americanos ainda não se rotulavam como african-americans. Eram apenas cidadãos americanos de pele mais escura que eram vergonhosamente discriminados pelos brancos numa espécie de apartheid com paredes invisíveis.

Nos EUA, as revoluções fazem-se todos os dias, entre o café da manhã e a hora de ir para a cama, pelas pessoas. Não havia “ismos”, nem militares a mandar, nem Conselhos da Revolução, nem constituições a dizer que todos tínhamos direito à saúde, paz, pão e habitação. Não havia canções revolucionárias (só para chatear, esta do Zéca Afonso transpira dos tempos que passou em Moçambique) nem slogans na rádio, nem jornais panfletários. Passavam a majestosa abertura de John Williams para o Episódio 3 de Star Wars e os sucessos dos Bee Gees.

Era outro mundo.

Uma semana depois de chegar aos EUA, quando a mãe BM chegou a Boston no mesmo voo dos Açores, já tinhamos arranjado emprego, escolas, carro, casa, mobília, até uma televisão a cores (uma RCA) e uma torradeira daquelas que só os americanos podiam inventar, que fazia 4 torradas ao mesmo tempo. Quando ela entrou no pequeno apartamento que já tínhamos decorado modestamente, ela chorou durante meia hora, pois depois de Moçambique, há dois anos que vivia acampada em quartos de casas de estranhos contrariados sem saber o dia de amanhã.

Na segunda-feira seguinte era dia 31 de Outubro. No liceu local eu re-iniciara os estudos (inacreditavelmente, começara quatro anos antes no Liceu António Enes, depois Liceu Salazar/5 de Outubro em Maputo e em Coimbra no Liceu Infanta Dona Maria – sem chumbar um ano). Aí avisaram-me que este era dia de Halloween e se eu me queria ir juntar aos colegas à tarde para fazer trick or treating . Trique ou triting? do que é que eles estavam a falar? claro que esta, que é a parte principal do Halloween, que hoje, um tanto enigmaticamente, se comemora em Portugal, não se faz, e que consiste em ir de porta a porta pela vizinhança, mascarado de bruxo ou de abóbora, a pedir um trick (uma habilidade, que ninguém fazia) ou treat (um rebuçado ou chocolate). As pessoas preparavam-se de antemão de forma a que nessa noite tenham em casa um caixote cheio de rebuçados e chocolates que dão aos míudos que batem incessantemente à porta. À noite a televisão passava uns velhos filmes estilo “sexta feira, dia 13″ com muito sangue, gritaria e facadas no peito, que os miúdos vêm juntos, também aos gritos. Nessa noite cheguei a casa com um enorme saco cheio de treats.

Confesso que na altura achei aquilo tudo completamente estranho. Mas com o tempo a tradição entrou na família, tal como o feriado do Thanksgiving, daqui a três semanas e meia.

Uns anos mais tarde passei a associar a noite de Halloween a um evento bem mais triste, pois foi nessa noite, em 1982, que o meu colega moçambicano, o Rui Abreu, se suicidou na cidade norte-americana de Cleveland, não muito longe de onde eu vivia. A mãe dele, Mercedes, de Tete, faz anos no dia seguinte, 1 de Novembro.

Vem a propósito

carver-calares

Raymond Carver, Queres Fazer o Favor de te Calares? (Teorema, 2004, tradução de Carlos Santos). Gente-de-nada em momentos-de-afinal-nada, o esqueleto da angústia. Queres fazer o favor de te calares?, calas-te?

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Na sequência do ABM: o velho do Restelo e o “fato”

Patrioteirismo, de António Gouvêa Lemos

Os familiares de António Gouvêa Lemos criaram aqui (Facebook) um local memorial desse jornalista, referência do pensamento e escrita das décadas finais do regime colonial em Moçambique. Presumo que a responsabilidade desse sítio seja, pelo menos parcialmente, do seu filho também ele bloguista José Paulo Gouvêa Lemos. Confesso que preferia que essa memória surgisse em terreno aberto (entenda-se, blog) pois nem todos aderiram (aderimos) a essa febre facebookista. Talvez um “interface” blog-facebook fosse a mais adequada intervenção, se me permite(m) o conselho.

Mas independentemente disso (afinal minudências) não consigo resistir a transcrever o texto de António Gouvêa Lemos que acabou de ser deixado nessa página: “Patrioteirismo“. Parece ter sido escrito hoje, certeiro o seu conteúdo, louvável (e tão fresca) a sua forma. Até espantosa se o pensarmos escrito no Lourenço Marques de 1957 …

E assenta que nem uma luva, perdoem a apropriação, talvez abusiva e arrogante, a este jpt que aqui bloga.

PATRIOTEIRISMO

A consciência plena da nacionalidade que se tem, o orgulho inteligente de a ter, fundamentados ambos no verdadeiro conhecimento da História e na apreciação imparcial das realidades actuais; mais a preocupação sincera pelo futuro da Nação de que se é membro, com o desejo de colaborar na elevação do seu nível econômico, social e espiritual – tudo fundido na forma de uma personalidade vincada, que leva a guardar ciosamente o direito de ter opinião e participação no que é nacional e tudo realçado pelo amor à terra que é a nossa, a dos nossos antepassados e a dos nossos filhos e pela veneração das memórias daqueles que se ilustraram, de qualquer modo, ao serviço da Nação e ainda pelo respeito daqueles que abnegadamente a servem hoje – tudo isso se chama patriotismo.

É um sentimento antigo, cuja origem se perde nos séculos e tem raízes na própria natureza humana.

Não foi criada recentemente e não se manifesta por gritos, melindres histéricos, escrúpulos despropositados e receios de invasão por forças estrangeiras através de manifestações ligeiras e divertidas, de actividades inconsequentes e de factos, frases ou escritos sem qualquer significado especial.

Aí começa outro fenómeno e esse não tem nada a ver com o cérebro nem com o coração. Só terá a ver alguma coisa com o cérebro, em certos casos e isso mesmo, se considerarmos a esperteza uma qualidade intelectual. De resto, explica-se pela ignorância, pela estupidez ou pelo desequilibro nervoso. É o patrioteirismo.Encontra-se muito nos sujeitos que se arvoram – eles próprios – em pais da Pátria e que se sentem no dever de se ofenderem – por ele e pelos que julgam indiferentes – como tudo quanto se esforçam por considerar grave e não tem gravidade nenhuma. Indignam-se e pespegam lições de portuguesismo, sem cuidarem primeiro de saber se quem as recebe delas precisa ou as pode ministrar. Falam sempre na primeira pessoa. Porque eu, na minha qualidade de português, jamais consenti, não consinto nem hei-de consentir que, diante de mim, etc. e tal.

Há também os que se afligem, no seu portuguesismo de alfarrábio, porque se comparam em certos campos, realizações estrangeiras ou conquistas de outros povos, como o que nós fazemos, com o que nós temos. E não curam de explicar ou de justificar as diferenças, nem dão tempo a que o outro faça tal. Enfurecem-se patrioteiramente e, envergando a armadura, enfiando o elmo e de lança em riste, acometem o mouro, berrando sandices.

O patrioteiro – da família das sensitivas – dá-se muito bem em climas quentes.

(Notícias da Tarde, Lourenço Marques, ano VI, nº. 1705, em 27 de Dezembro de 1957, p. 1 e 5 na Col. Mesa Redonda.)

Da fala

Sair à noite na sexta-feira e encontrar as pessoas que vão lendo o ma-schamba. Mais os olhares do que as falas mas também estas: “falas demais“, “espalhas-te“, desbragado. Em olhares e até falas vou tentando responder, sem justificações, “para quê falar se não para ser eu próprio?”. Para quê o encapotar a minha verdade se falo gratuitamente, que ninguém me paga nem mesmo a conta da internet? Ou melhor, já noite larga, para quê fingir respeito por quem, a troco do não-tão-parco-soldo, destrói o meu país? “Filho-da-puta“, “imbecil“? Se é isso que realmente penso do patrício tonto ou traidor para quê evitar dizê-lo? Para quê o eufemismo “educado”? Por causa dos bons costumes? Ide …

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O Velho do Restelo?

por ABM (Cascais, 30 de Outubro de 2009)

Gostava que fosse. Mas talvez não seja. Mas para quem ama Portugal, aperte o cinto de segurança antes de ver isto, que é dedicado a quem viu o que se passa nos EUA e achar que Portugal está melhor.

Henrique Medina Carreira, no dia 9 de Março de 2009 fala com Mário Crespo, emissão da estação de televisão da Sociedade Independente de Comunicação.

Parte 1 de 3

Parte 2 de 3

Parte 3 de 3

Análise da situação do Sporting Clube de Portugal

No A Norte de Alvalade o jornalista José Goulão publicou uma excelente reflexão sobre o estado do Sporting Clube de Portugal, uma análise muito para além da mera discussão sobre os resultados futebolísticos. Direi que obrigatório para sportinguistas lerem – e muito para além do rame-rame dos habituais comentadores televisivos.

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10 de Junho de 1973

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(por ABM) Cascais, 30 de Outubro de 2009

Mão amiga me arranjou a fotografia acima, que me chamou a atenção porque parecia velha e porque tinha em segundo plano a estátua do enigmático Mouzinho de Albuquerque, nos tempos em que enfeitava a praça em frente do edifício do actual Conselho Municipal de Maputo até pouco antes da declaração de independência de Moçambique em 1975 (agora há lá uma obra de ferro um pouquinho menos…monumental).

No verso da fotografia vinha uma nota: “dia da Raça, 10 de Junho de 1973, desfile dos GEPs, Nilza”.

Em 1973 eu tinha 13 anos e vivia naquela dolce vita própria da idade, completamente alheado do que agora se revela como a Grande, Valorosa e Gloriosa Luta para a Libertação de Moçambique. Bem, para mim, que era um pouquinho menos ciente das coisas que a família Couto, a “guerra” era algo relativamente obscuro que acontecia lá longe no Norte, e é preciso ver que “lá no Norte” em Moçambique, dada a geografia, era mesmo muito, muito longe para quem vivia a mais que dois mil quilómetros ao Sul.

Para além do desporto, jogar ao berlinde e da escola, as maiores recordações que tenho desse ano foi o carnaval no Desportivo (choveu potes), que a canção Popcorn era o maior hit na cidade e ainda aquele dia em que o pai BM decidiu podar as gigantescas mangueiras no quintal da delapidada casa onde vivíamos, algo que levou o dia inteiro e deixou no quintal montanhas de ramos das ditas cujas. E o governador, que diziam que tinha a boca na forma do cu de uma galinha.

Aliás já nem me lembrava que se chamava ao dia 10 de Junho o “Dia da Raça”. Da raça? que raça? Hoje o 10 de Junho tem uma designação um nadinha mais prosaica e abrangente – acho que é “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”. Supostamente, 1′ de Junho é o dia em que o Luis Vaz morreu em 1580, pouco antes de o octagenário rei-cardeal, infalivelmente, falecer sem deixar descendência, passando a coroa portuguesa, depois de umas negociatas com a local nobreza, para as mãos da monarquia espanhola, iniciando-se assim a “grande noite” que durou até que, sessenta anos mais tarde, o então Duque de Bragança, quiçá mais apreensivo que a sua mulher (que terá proferido o famoso “antes rainha um dia que duquesa toda a vida”) apadrinhou a retoma da regência por nobreza made in Portugal e se seu o título de Dom João IV.

Para sorte do Duque, o rei espanhol andava tão ocupado a tentar não perder a cabeça na Holanda e arredores que em 28 anos nunca teve tempo nem recursos para vir dar uma valente tareia aos seus súbditos rebeldes. Estes entretanto deram o que tinham e não tinham para ter algum apoio dos ingleses e que incluiu efectivamente entregar toda Índia (menos Goa) e o Ceilão, mais uns naviozitos carregados de ouro e de electrodomésticos. Para selar o negócio, até casaram a filha de João, Catarina de Bragança, beata e estéril, a um indescritível Carlos II, que lhe pôs os cornos mais vezes do que há segundos numa hora. No fim, aquilo tudo funcionou mais ou menos e trezentos anos mais tarde fez-se uma curiosa praça em Lisboa no fim da Avenida da Liberdade, apropriadamente baptizada como a dos “Restauradores”, e instaurou-se um feriado. Em Portugal celebra-se esse evento todos os anos a 1 de Dezembro.

Portanto houve um desfile na baixa de Maputo (então LM) com os GEP’s a 10 de Junho de 1973. Como não sei o que eram os GEP’s fui ver. E fiquei surpreendido com o que encontrei aqui, aqui e aqui. Até encontrei um sítio com uma longa lista de emblemas que inclui alguns de Moçambique (do lado português, isto é).

Portanto os GEP’s eram compostos quase integralmente por moçambicanos que, do que depreendo, ou tinham sido da Frelimo ou que a ela se opunham.

Li algures (ok, num livro do Jaime Nogueira Pinto que já referi antes) que em 1974, da força militar que combatia a Frelimo, 60% eram nativos de Moçambique. Pergunta estúpida: o que é que aconteceu a estes militares – de que o que está na foto acima é um deles? ficaram em Moçambique após a independência a prestar contas à Frelimo? vieram para Portugal? têm reforma nossa por prestação de serviços ao Estado português? foram integrados nas forças militares do Moçambique independente? imagino que na fase de transição alguém deve ter pensado nisto tudo. Mas não encontro referência escrita a este tópico.

Certamente um capítulo interessante da história de Moçambique (e de Portugal) sobre a qual seria interessante saber mais.

Entretanto aí fica a fotografia, com a Nilza a dar água a um militar GEP na parada deles no “dia da Raça” – o último que alguma vez se celebrou em Moçambique sob administração portuguesa.

George Bush e Barack Obama

(por ABM) Cascais, 28 de Outubro de 2009

Este é o segundo de dois programas que recomendo vivamente que veja.

O contexto é este: a maior parte de nós que assistimos à eleição histórica de Barack Hussein Obama para a presidência dos Estados Unidos da América associa a esse evento duas coisas: a saída de George Bush 2 da cena, uma maior moralização da política externa norte americana, e a promessa de uma saída mais limpa dos exércitos norte-americanos do Médio Oriente. Enquanto isso, a economia americana, dramaticamente nos últimos meses do segundo mandato de Bush, quase entrou em colapso – e com ela o resto do mundo.

Mas há uma muito mais importante história que aqui é escalpada: a do que aconteceu ao défice norte-americano. Como ele cresceu, onde ele está, e com o que é que os EUA e o resto do mundo se confrontam neste momento e no futuro. Isolado, só este tópico vai ser um dos maiores, senão o maior, desafio para Barack Obama – já o é. Ao ponto que, cedo no seu mandato, alguns assistiram com alguma surpresa a um presidente Obama a dizer na televisão que o maior problema de longe dos Estados Unidos era … a questão do sistema de saúde nos EUA.

O sistema de saúde?? então e as guerras, o Irão, Israel, etc?

Este programa indica-nos que, para além das demais prendinhas deixadas por Bush, foi uma quase incompreensível série de medidas de simultaneamente a) aumentar dramaticamente a despesa do governo com duas guerras (Iraque e Afeganistão) e um brutal aumento nas despesas do governo com um plano médico para a terceira idade e b) dois cortes muito significativos nos impostos. O buraco foi sendo pago pela compra de dívida do governo por estrangeiros, de que se destaca a … China (eu se tivesse que inventar isto não conseguia). Ou seja, os norte-americanos devem montanhas e montanhas de deinheiro ao estrangeiro. Por causa disso o mapa financeiro do mundo mudou radicalmente e o valor do dólar oscila como erva ao vento.

Acho que sem se entender esta dinâmica, não se conseguirá entender o que foi que Obama encontrou e com que tem que lidar nestes próximos tempos. Pois antes de ser líder mundial, ele é presidente dos EUA.

Conseguirá Barack Obama aligeirar os efeitos quase devastadores do que Bush fez? como dizem os árabés, inshallah. Ou nós, oxalá.

Este programa, da PBS, foi para o ar em 29 de Março de 2009, mas mantém toda a actualidade. Em inglês, dura 54 minutos. Veja enquanto bebe um cházinho de tília.

Dicionário Macua-Português (cont.)

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Em Novembro de 2007 aqui deixei uma entrada dedicada ao Dicionário Macua-Português, da autoria de A. Pires Prata (Instituto de Investigação Científica Tropical, 1990). Na sequência de questões deixadas nessa caixa de comentários vem agora o leitor Valeriano Maia simpaticamente informar-nos sobre a possibilidade de o adquirir em Portugal, bem como ao Dicionário Português-Macua.

jpt

O Segundo 11 de Setembro

por ABM (Cascais, 29 de Outubro de 2009)

Enquanto me vou aprendendo e surpreendendo com o que existe na internet, tento utilizar o que encontro para tentar melhor entender o mundo que nos rodeia, o que acontece e porquê.

Há cerca de um ano, pouca gente se apercebeu de que o mundo esteve a um fio de cabelo de uma catástrofe económica (e, logo, política e social, eventualmente militar) sem precedente na história da humanidade. Curiosamente, o início e o desenrolar desse desastre oribinou nos sagrados corredores do capitalismo norte-americano: Wall Street, Nova Iorque, e Washington, a capital federal dos Estados Unidos.

Alguns dos leitores do Maschamba, que tem uma firme “verve” cultural e histórica, poderão à primeira pensar que perceberam o que aconteceu, ou então que não perceberam mas não querem perceber, ou que não perceberam, ou que nem são capazes de o fazer.

Ou ainda que isto pode não interessar.

Deixem-me dizer o seguinte de forma clara: o que aconteceu nos sete meses entre Março e Outubro de 2008 – e cujos efeitos ainda nem de perto estão resolvidos em todos os cantos do mundo – vai ser tópico de conversa durante décadas. Os vossos filhos e netos um dia vão perguntar-vos o que é que aconteceu em 2008.

E nós estávamos cá.

Porque nunca na minha vida – e eu tenho quase 50 anos de idade e já assisti a guerras, descolonizações, recessões, todo o tipo de tragédias – estivemos todos nós tão perto, tão perto de, de um momento para o outro, passarmos de uma vida de relativo conforto e de expectativa de normalidade, para o maior caos, miséria e total desorientação.

Todos nós, onde quer que estivéssemos.

Talvez por isso valha a pena ver o que foi, e como foi, desde a falência da firma de investimento Bear Stearns, à falência da firma Lehman Brothers, e o que aconteceu logo a seguir.

O vídeo que está em cima, em inglês e que dura uns “meros” 56 minutos e 23 segundos, com a maior das clarezas, calmamente e com uma qualidade fenomenal, explica tudo. Foi produzido para a cadeia de televisão pública norte-americana PBS (sim, há uma nos EUA) e exibido no programa Frontline, um dos meus favoritos de sempre.

De vez em quando valer a pena tentar perceber o que se passa com a economia. A cultura enche-nos o espírito e a alma. A economia ajuda-nos a pôr o pão na mesa para nós e as nossas famílias.

Esta é uma lição de humildade e também de como todos dependemos uns dos outros. Frequentemente de formas que nem sonhamos.

Na realidade o título acima é apenas uma leve provocação. Na verdade, o ataque terrorista ocorrido no dia 11 de Setembro de 2001 foi um piquenique de crianças comparado com o que aconteceu em 2008.

Colectiva de Arte Infantil

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Na Fortaleza de Maputo, entre 29 de Outubro e 5 de Novembro.

jpt

World Press Photo 2009

[esta entrada foi ficando para trás, a exposição já foi retirada, mas como as fotografias são interessantes põe-se o rascunho visível]

Na Fortaleza de Maputo foi apresentada a exposição World Press Photo 2009. Como exposição tem alguns contras, tradicionais nesta iniciativa anual. Os critérios de selecção temática, e assim sendo também de premiação, têm algo a ver com um roteiro de desgraças do ano transacto, o que traduz uma ideia do que é “press” – mais do que a informação é o espectáculo (visual, estético) da desgraça que é procurado. Diga-se que “não há festa nem festança onde não vá a dona Constança“, não há desgraça para a qual não haja categoria de premiação da World Press Photo, tudo debruado com uma tempestade atmosférica ou um leopardo-das-neves, para “alargar” o âmbito. Não quero forçar a nota mas a representação do ano, todos os anos, inclina-se para essa dimensão do horror humano. Desiquilibra-se. Para quem discorde desta minha opinião apelo a que olhe para os prémios dados à fotografia sobre Natureza – aí apela-se à estética, não se integra nessa dimensão uma vontade de denúncia das maleitas e horrores. E se há horrores e maleitas na natureza. Ou seja, os valores que pretendem ser mostrados na parte fotografia de natureza são diferentes (aparentemente mais apolíticos, mas só na aparência, pois na prática é mesmo um discurso político articulado) do que os que procuram ser transmitidos na parte fotografia humana.

Enfim, tem esse conteúdo mental sobre o que é imprensa. E tem alguns critérios de valorização de fotos verdadeiramente surpreendentes, mas para isso cada juri é soberano.

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Yasuyoshi Chiba, fotógrafo japonês, sobre os conflitos no Quénia.

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Carlos Cazalis (México), um sem-abrigo na noite.

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Anthony Suau (EUA) sobre a crise económica americana e sua repercussão no imobiliário – Foto vencedora

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Tomasz Wiech (Polónia), sobre a vida quotidiana.

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Carlos Gutiérrez (Chile), vulcão de Chaitén na Patagónia.

Retiradas daqui

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Chico Buarque, Leite Derramado

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[Chico Buarque, Leite Derramado, Dom Quixote, 2009]

Eulálio de Assumpção, centenário moribundo em hospital público, deixa as suas memórias em registo fragmentário e até balbuciante. Homem de velha estirpe, descendendo até de “um doutor Eulálio Ximenez d’Assumpção, alquimista e médico particular de D. Manuel I” (212), transposta para o Brasil na comitiva de D. João VI, aí originando uma linha de Eulálios de Assumpção grandes proprietários. Através deste Eulálio de Assumpção (com seus avatares geracionais) pode-se entrever certo percurso do Brasil, em particular do Rio de Janeiro – até mesmo sob o ponto de vista urbanístico – de XIX e XX. Mas mais do que referir a óbvia ligação ao registo das “Memórias Póstumas …” de Machado de Assis o que me chamou a atenção foi o fundo ideal do livro.

O protagonista é o verdadeiro Eulálio da Assumpção final, o da inversão de sentido, todos os que se lhe seguem (mas que morrerão antes dele) são tristes sequelas. Com ele, assassinado que foi seu pai em finais dos anos 20, se inicia um longo e doloroso processo de decadência. Económica, social, territorial (as deslocações das suas residências acompanham a geografia histórica do Rio). Mas onde está a força motriz dessa decadência? Na sua fragilidade pessoal, desprovido da verdadeira energia dos Assumpções, do encanto estratégico de seu pai. Mas bem mais do que isso, radica a decadência na incapacidade de resistir ao simples carnal. A morte do pai, o desaparecimento do seu viril controle civilizacional, deixa de imediato o jovem Eulálio à mercê da natureza desbragada, inconsequente, irracional - em pleno funeral de seu pai descontrola-se com a visão de sua futura mulher Matilde, e tem que se retirar, incumprindo a sua função social.

Nesse sentido a morte do pai empurra-o para uma distraída miscigenação: “Mas ora, ora, papai, disse Maria Eulália, está na cara que esse aí puxou a minha mãe mulata. Não sei quem abastecia minha filha com tantas maledicências, Matilde tinha a pele quase castanha, mas nunca foi mulata. Teria quanto muito uma ascendência mourisca, por via de seus ancestrais ibéricos, talvez algum longínquo sangue indígena.” (172). Meio século depois, já avô empobrecido, continuava incapaz de reconhecer o que a sua mãe (e afinal todos os outros) identificara: “Minha mãe era de outro século, em certa ocasião chegou a me perguntar se Matilde não tinha cheiro de corpo. Só porque Matilde era de pele quase castanha, era a mais moreninha de sete irmãs, filhas de um deputado correligionário de meu pai.” (39). Distracção feita de falta de preconceitos com a qual crescera: “No entanto garanto que a convivência com Balbino [com quem também desejou relações sexuais] fez de mim um adulto sem preconceitos de cor. Nisso não puxei ao meu pai, que só apreciava as louras e as ruivas, de preferência sardentas. Nem à minha mãe, que ao me ver arrastando a asa para Matilde, de saída me perguntou se por acaso a menina não tinha cheiro de corpo.” (27). – [esta repetição, até estilisticamente deselegante, do episódio do "cheiro de corpo" inquirido pela mãe salienta a sua importância na economia da narrativa].

Todo o percurso deste Eulálio de Assumpção se marca na desgraçada relação conjugal com esta, afinal, mulata. Que o trairá e abandonará, assim reforçando-lhe o imobilismo existencial, condenando-o ao imobilismo afectivo. E que marcará racicamente os seguintes Eulálios de Assumpção, cada vez mais negros, por herança genética e hipotéticos cruzamentos, cada vez mais inconsequentes e falidos, mais descentrados, culminando no último dos seus descendentes, o gigolo-traficante já negão.

Este típico evolucionismo decadentista brasileiro de XIX, o da miscigenação como factor “natural” obstáculo à civilização, causa de decadência, surpreendeu-me em Chico Buarque. Será que tresli? Ou é mesmo um manifesto antropológico em forma de ficção?

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Bloguismo político português

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Convém não esquecer que no seio da “esquerda” bloguista portuguesa – socialista ou gay friendly ou mugabe friendly – nenhum desses filhos-da-puta se lembra do Sahara ocidental (O que é isso?). Depois querem respeito. Ou, mesmo, tristes escroques desvalidos, serem tratados de “esquerda”, para se verem ao espelho. Merda são, merda serão. É bíblico.

Observação Eleitoral

São quase 16 horas e levanto-me, alquebrado, da mesa do Rodízio, a maminha, o ananás, a picanha, ainda que no decadente serviço da Visabeira, estão a dar cabo mim. Enquanto caminho(amos) para o local de entrada cruzo uma mesa de “observadores eleitorais”, fardados com dísticos a propósito. Enrolo os palavrões de quem já o foi, e com directas seguidas e perigos assumidos, resmungando um “não deviam estes filhos-da-puta (europeus, diga-se) estar no terreno, de sanduíches no bornal?!”.

Quem me acompanha, patrícios nada desqualificados, ri-se diz: “E onde pensas que andam os teus diplomatas?” E sei, ali, ainda envergonhado, que os diplomatas portugueses andam a almoçar enquanto são, como é possível?, observadores: como é possível tamanha incompetência na Julius Nyerere, 720 (mesmo que seja sob o miserável governo de Amado e Cravinho?). E, até apita, até “a embaixatriz da Irlanda é observadora“. Vá lá, a imbecilidade não é só nossa – mas como é possível que uma missão diplomática participe numa missão de observação eleitoral, que independência, vá lá, que autonomia poderão vir a ter face aos resultados dessa missão? Que visão estratégica subjaz isto? Que gabarito político-diplomático têm os responsáveis desta paródia (e quem escreve isto é quem já acompanhou inteligente que soube em tempos apartar as águas, não é um mero mal-disposto)?

Incompreendo os donos da terra. Eu, se em tal caso, metia patrícios, irlandeses (o parvo do embaixador à frente mais a missionária que com ele dorme logo atrás) e quejandos no primeiro avião.

Uma vergonha militante. Anos a fio.

(Há algum tempo os embaixadores da União Europeia exigiram uma reunião com o presidente da Comissão Nacional de Eleições. Ele recebeu-os para ouvir as zangas da “comunidade internacional”. Entraram na sala e, à sua revelia, foram conduzidos para uma sala onde estava a imprensa. “Digam lá, então“. Calaram-se, atrapalhados, que, afinal, a imprensa ali … . Quem lá estava, e meu amigo, ri-se “o teu embaixador até tremia“. O país ainda anda a rir dessa cena. O embaixador de Portugal, pobre imbecil de corpo inteiro, ainda por aí anda, desrespeitado por todos, os seus, os patrícios, os nacionais daqui, ainda que carregue a bandeira no carro quando sai à rua. Os seus, mais seus, pobre gente MNE ainda por aí anda para gáudio geral, pobre – ou maquiavélico ”Almeida Santos”? – Luís Amado que para África manda os imbecis do MNE.

Nós … não pagamos impostos para não alimentar estas alimárias. E, de quando em vez, um dos bloguistas, muito raramente lembra-se do Sahara Ocidental. E cospe, é o termo, nas palavras “Luís Amado”. Conhecendo-o de puta ginjeira …)

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Dia de eleições moçambicanas

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[Maputo, 2009 - inscrição aqui muito original]

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[Beira, 2007 - inscrição muito cinéfila]

Dia de eleições. Presidenciais, legislativas, provinciais. Não me parece que venha a ocorrer alguma surpresa.

Nota: Na internet a fazer uma cobertura constante está o jornal “A Verdade” no facebook. E vários blogs (visíveis, para quem os não tem nos favoritos, aqui).

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Richard Zimler

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Saramago e a Insustentável Leveza da Ignorância, de Richard Zimler. A ler este excelente texto sobre a Bíblia e sua tradição. E, também, sobre Portugal e seu “estado da arte”.

O Bravo Novo Mundo

(por ABM) Cascais, 28 de Outubro de 2009

Confesso aos exmos leitores que ia pôr um título diferente e mais brejeiro, qualquer coisa como “estamos todos f—-os”. Mas como o Maschamba de vez em quando invoca a obrigatoriedade moral de manter, quando possível, elevados padrões linguísticos e comportamentais, tirei atrás o “odid” e mudei acima o título.

Mas vejam o vídeo, da autoria de Karl Fisch, Scott McLood e Jeff Brodman, e irão perceber do que falo. É qualquer coisa que dá para pensar. Essencialmente, da progressão da informação, do mercado e da tecnologia nestes últimos anos, e a que se prevê venha a acontecer.

É feito por e para americanos, mas nós aqui nas periferias europeia e africana aprendemos alguma coisa a ver a crista da onda. É estonteante, perturbador, avassalador, quase cataclísmico.

Refiro apenas duas estatísticas mencionadas na apresentação:

1. O vocabulário da língua inglesa actualmente – 540 mil palavras – contém cinco vezes mais palavras do que existiam no tempo da maior figura da literatura em língua inglesa, William Shakespeare.

2. estima-se que uma semana de notícias do The New York Times contém mais informação que uma pessoa média tinha acesso durante toda a sua vida no século XVIII.

O que é que isto tudo quer dizer?

Bem, se se assumir que mais de metade da internet é chat chat, spam, bullshit e pornografia, se calhar estamos na mesma só que tecnologicamente mais dextros.

Mas como não sei, registei este texto sob “globalização”.

O New York Times, sobre Moçambique

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(por ABM)  Cascais, 27 de Outubro de 2009 -

Adoro Nova Iorque e recordo-me com saudades dos tempos em que, quando vivia nos EUA, um miúdo de bicicleta às sete horas da manhã atirava, com dúbia pontaria, um exemplar fresquinho do The New York Times para a porta da casa onde eu vivia.

Para Nova Iorque, que é um mundo à parte, o mundo real é um palco. E algumas publicações, tais como The New Yorker – e o NYT – simbolizam essa perspectiva.

Sendo uma versão peculiar dos EUA, é sempre refrescante e por vezes particularmente desconcertante, ver o que é que se diz e pensa nessa mega-cidade.

Sendo assim, e mantendo o Maschamba a sua linha partidária de se manter fora da linha partidária moçambicana, vale a pena ver o que disse o NYT hoje sobre Moçambique a eleição em Moçambique, que se realiza na 4ª feira, dia 28 de Outubro. A peça, assinada por Barry Bearak com o apoio de um tal de Charles Mangwiro, pode ser lida aqui. Em inglês.

Não sei se hei-de rir ou chorar com as directas e as indirectas.

“Uma Maitê Proença com Piada”

Via Daedalus: “Uma Maitê Proença com piada”

Steve Coogan

Blogos(fera)

A 15 de Abril de 2009 deixei aqui: “Em Portugal três eleições neste ano – com efeitos no bloguismo, já e daqui em diante. A uma crescente industrialização bloguística (cada vez mais blogs colectivos, principalmente de jornalistas) soma-se a concentração “capitalista” – suprablogs dedicados à “questão política” (o blog de direita, o blog de esquerda, o blog das eleições, etc.), na prática uma despolitização da política. (…) se até a (…) lhe puxa o pé para a chinela desta forma realmente que grande desatino aí vem no bloguismo lusopolítico. O escarro. Burguês.

É evitá-lo até lá para a quadra natalícia. E então, se ainda houver blogs (S. Twitter o permita), refazer as listas de favoritos.”.

Aproximando-se o Natal Luis Novaes Tito lamenta agora o estado das coisas; Joana Lopes reconhece-o, e lamenta a virulência. Mas atenção, desatino sempre houve nisto bloguismo, em particular no político. O que cansa, o que afasta, neste desatino de agora é ser eco desta vontade missionária, aparelhística.

Enfim, estará na altura de reordenar as listas de favoritos. Para constatar que alguns dos velhos estão bem alquebrados por aquela partidite pandémica. Que lhes deixou chagas a teclado aberto.

Ainda Saramago. E Pulido Valente. E Lobo Antunes. Portugal.

1. A propósito da sequência das declarações “bíblicas” de José Saramago uma insistência no tema, talvez a aborrecer os visitantes. Mas é uma sequência de dizeres tão sintomáticos sobre Portugal que se tornam irresistíveis.

No Mar Salgado Vasco Lobo Xavier ecoa que Saramago defende que Deus devia ter vedado a macieira com rede. É uma afirmação deliciosa, levando a matéria para onde ela realmente pertence. Tal como o nosso ABM lembrou nestas declarações do que se trata é de um conflito ideológico-político com a Igreja Católica, nada reduzíveis às furibundas invectivas de publicidade ou senilidade. Pois torna-se óbvio que para Saramago é possível o paraíso, nos seus avatares que foram correntes: sociedade de lazer, sem exploração, sem escassez, de “homem novo”. O que para isso é necessário é que alguém, alguns, construa(m) a cerca (e por ela velem) que defenda os homens da “natureza humana”. À “incompetência” (aliás, inexistência) da divindade suceder-se-á a competente tutela do partido, em particular a dos seus intelectuais.

2. Ficou (algum?) Portugal aos gritos com o assunto (mesmo os que se aprestaram a dizer que não havia nada a dizer), uns vociferando contra o herege, outros lamentando-lhe a incapacidade de crítica literária, a falta de profundidade hermenêutica.

Finalmente chegou-me às mãos um jornal Público da semana passada. Onde diz Vasco Pulido Valente: “O problema com o furor que provocaram os comentários de Saramago sobre a Bíblia (mais precisamente sobre o Antigo Testamento) é que não devia ter existido furor algum.” Como é óbvio, e não só porque velhas como a própria Bíblia são as invectivas a Deus.

Mas logo avança Pulido Valente: “Não assiste a Saramago a mais remota autoridade para dar a sua opinião sobre a Bíblia ou sobre qualquer outro assunto, excepto sobre os produtos que ele fabrica, à maneira latino-americana, de acordo com o tradição epigonal indígena.” Entenda-se, Saramago pode falar do que faz, do seu artesanato, do seu ofício. Sobre outros assuntos não tem autoridade, “a mais remota”. Depreendo, até porque condiz com o locutor, que para falar de assuntos abrangentes, fora da vidinha de cada um, há apenas alguns com autoridade, os especialistas. É uma explícita divisão social do trabalho (intelectual). À “incompetência” (aliás, inexistência) da racionalidade geral suceder-se-á a competente tutela do partido, perdão, das elites, em particular a dos seus intelectuais.

Para culminar com o gráfico de Portugal no mesmo jornal diz Lobo Antunes: [os populares] “É óptimo. Uma pessoa não tem guarda-chuva e eles emprestam.” 

Olhando para o agregado de locutores está bem marcado o quadro. As três ordens de Dumézil trazidas até quase-nós por Duby: 1. os sábios/intelectuais (com estudos) que têm autoridade abrangente; 2. os arrivistas (escritores que não pensam como os sábios, jornalistas, bloguistas, lumpen-burguesia, sindicalistas ex-aristocracia do ex-proletariado) que querem falar mais do que da sua vidinha; 3. os populares, porreiros porque emprestam o guarda-chuva. Modelo agora em aparência (pós)moderna, mas bem, bem, antigo. Foi feudal, antes indo-ariano. E ainda hoje vigora.

Isto são só coincidências. Releio o artigo “Indústria e Repressão Sexual numa Sociedade da Planície do Pó” e umas páginas antes diz assim (minha versão do francês): “Tem uma sincera e primitiva admiração por aquele que sabe. Desse sempre sublinha as suas qualidades manuais, a memória, a metodologia evidente e elementar: tornamo-nos cultos lendo muitos livros e retendo o que eles dizem. A suspeita que a cultura possa ter uma função crítica e criadora não lhe surge. À cultura julga-a segundo um critério puramente quantitativo. Nesse sentido (o de que para ser culto é necessário ter lido muitos livros durantes muitos anos) é natural que o homem que não é predestinado renuncie a qualquer tentativa“. (Umberto Eco, “Phénoménologie de Mike Bongiorno“, Pastiches et Postiches, 1992, p. 63). Ou seja, que emprestemos os nossos guarda-chuvas.

É óbvio que nada disto tem a ver com as insistentes considerações sobre “onde está” a direita ou a esquerda, característica questão da topologia portuguesa. É muito mais perene. O tal modelo trifuncional nas mentes de alguns. E sempre associado com a apropriação sociológica do discurso. No fundo com quem pode (e deve) vedar a macieira. Ou levar-nos até ela.

Chove! Vou ali emprestar o meu chapéu-de-chuva.

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Sátira a Um Burro, de Arménio Vieira

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[Arménio Vieira, Mitografias, Ilhéu Editora, 2006]

 

Sátira a Um Burro

Ser homem e ser burro,
ambos (o homem e o burro),
num só corpo fundidos,
não quer dizer que a besta,
que ao mesmo tempo
fala e zurra,
não seja asno
que preste e sirva.

Nenhum homem quer ser burro,
nem aceita que o é,
mesmo quando o que se vê
é um jumento
de sela e cabresto.

Sendo jerico o homem, aos pinotes
e coices, sem a inteligência,
que é o que falta aos burros,
mesmo assim é relevante o burro,
pois que ser asno, mesmo homem também
(embora não o seja inteiro e completo),
é ser diferente de outro homem
que é homem somente, sendo que este,
ao contrário do burro,
só fala, não zurra.

Ser jerico, asno ou jumento
não é diferente de ser burro.
No entanto, o burro (este burro
apenas e não outro burro qualquer)
é um burro importante,
dado que, a um tempo, ser homem e burro
é um modo de ser diferente,
é ser outra coisa.
Mal por mal, é melhor ser outra coisa
do que ser coisa nenhuma.

E, fazendo assim justiça ao burro,
mais não digo, ponto final.

LM Radio

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por ABM  (Alcoentre, domigo, 25 de Outubro de 2009) -

Ao referir a rádio em duas recentes crónicas, e ainda nomes e a psicose de mudar os nomes e o que isso significa e implica, descobri umas coisas interessantes que gostava de explanar aqui.

A primeira é que tenho poucas dúvidas que, pese a ditadura, o colonialismo, a opressão e essa desgraça toda (ainda é muito politicamente incorrecto falar das muitas coisas boas que faziam a vida de muitos dos que ali viveram)  eu creio que da melhor rádio que se fazia em língua portuguesa em qualquer parte do mundo nos anos 60 e 70 era em Moçambique. Constatei isso facilmente quando anos depois comecei a vaguear pelo mundo. Retrospectivamente, podemos dizer que foi uma irónica benesse do sistema. Hoje há teses inteiras sobre o papel da rádio no sistema, na colonização, etc – até tentei descarregar uma há bocado mas como tinha que pagar eu….preferi poupar e permanecer ignorante. É assunto para blogue mas não está nos top 20 da minha atenção cosmológica, confesso.

Eu refiro-me à qualidade do que eu ouvia quando miúdo, nada mais. Hoje já sei que havia lá gente muito boa e que as instalações são excelentes, ainda hoje são espectaculares. Eu se mandasse punha já o pessoal da RM num edificio novo, restaurava o edifico e fazia daquilo um hotel de charme, com useu da rádio e tudo. Os terrenos das antenas de onda curta parece que já foram despachados para um mega-centro comercial, apartamentos, etc. É o progresso, presume-se.

O Rádio Clube de Moçambique tem uma longa e interessante história, que se pode encontrar um pouco por aqui e ali na internet, desde os seus primórdios até ao seu sucedâneo (apesar do corte radical) a actual Rádio Moçambique, que há já algum tempo transmite uma programação meio chôcha na internet, ou melhor, em vez de transmitir para os moçambicanos cá fora e o pessoal que quer coisas moçambicanas, re-transmite alguma da programação local, o que dá um efeito um pouco deslocado. Mas hão-de lá chegar quando perceberem que a rádio pela internet é onde está o negócio.

Talvez mais interessante seja o caso peculiar da LM Radio, que segundo os registos que li trasnmitiu de 1966 ate 12 de Outubro de 1975. Diga-se em bom rigor aquilo quase nada tinha que ver com Moçambique por assim dizer, para além de transmitir de Lourenço Marques para todo o Sul da África e cujo mercado alvo era o segmento jovem do mercado sul-africano. Isto porque a pelos vistos muito mais careta SABC, tão governamentalizada então como hoje, só transmitia uma estranha dieta boer conservadora que pelos vistos as pessoas pagavam para não ouvir. A LM Radio transmitia 24 horas por dia, sete dias por semana, em onda média, o que significa que à noite podia escutar-se com qualidade (in)decente desde Cape Town até à vizinha Joanesburgo. A estação A de Lourenço Marques saia do ar antes da uma hora da manhã e a partir daí só se podia ouvir a estação B, que transmitia em inglês e afrikaans (ou africânder, no AO), com os intervalos de uma senhora a dizer em português (com um daqueles vigorosos fados atrás) a dizer que aquilo estava a transmitir de “aqui Portugal Moçambique”.

Pelas minhas experiências pessoais mais recentes de escutar os testemunhos de toda uma geração de brancos sul-africanos que hoje estão na casa dos 40 aos 60 anos de idade, aquilo era um caso sério de popularidade. No entanto, a única coisa que aquilo tinha de “moçambicano” (na versão antes da independência) era que a sigla da estação traduzia as iniciais da capital moçambicana, que transmitia a partir dessa cidade e que era talvez o segmento de negócio mais rentável do Rádio Clube. O que não era de descurar: Lourenço Marques (para os Maschambianos incautos, re-baptizada hoje de Maputo) era um dos destinos favoritos dos turistas sul-africanos e uma importantíssima fonte de receita e do desenvolvimento da então nascente indústria turísitca moçambicana. Moçambique estava a construir uma marca forte neste negócio de lazer e passeio, sendo os turistas sul-africanos (como hoje) o mercado mais próximo, mais cativo e mais natural para Moçambique. O facto do nome da estação ser o que era, transmitir de onde transmitia, e o seu conteúdo, dava uma certa aura mágica e de prazer nas mentes dos sul-africanos – pois não consigo arranjar outra explicação para a impressão que permaneceu nas memórias de tanta gente, que viam em LM uma espécie de Las Vegas europeia perto das suas fronteiras, radicalmente diferente das suas vidas plácidas nas zonas “brancas” onde viviam em relativo conforto. Ainda hoje todos falam das LM prawns – e eu que vivia lá devo ter comido camarões não mais que meia dúzia de vezes até chegar aos 15 anos…

Naturalmente que, para os revolucionários da Frelimo recentemente chegados de Dar-es-Salaam em 1975, com bazookas e Ak47 e de fato militar verde escuro, imagino que a presença nos estúdios da nascente RM de meia dúzia de jovens locutores sul-africanos a transmitir rock and roll para os meninos e as meninas teenagers da Joanesburgo do famigerado apartheid devia dar um episódio digno de um filme do Cantinflas. Misericórdia e revolucionariamente, o novo Departamento de Trabalho Ideológico da Frelimo, pela pena do seu expoente, Jorge Rebelo, rapidamente  “orientou” que eles se pirassem dali para fora. A última emissão, com uma fleugmática  despedida de Peter da Nóbrega, ocorreu em 12 de Outubro de 1975, já com o caminho preparado para a inauguração de uma estação semelhante em território sul-africano, a Radio Five, que começou a transmitir o mesmo tipo de programação às 5 da manhã do dia seguinte, nas mesmas frequências de onda média anteriormente utilizadas pela defunda LM Radio.

Para minha surpresa – ou talvez não – recentemente um grupo de investidores creio que sul africanos, olhando desta vez para o muito lucrativo segmento de mercado sul africano branco que escutava a velha LM Radio, e que agora tem entre 45 e 65 anos de idade, repescou de alguma forma a marca e a aura anterior. Formou uma nova LM Radio, desta vez significando uma menos abrasiva  Living Memory Radio, (sim porque saudosismo naquelas paragens ainda suscita suspeitas de reaccionarismo colonial racista fascista) que – surpresa – já está a transmitir o que agora são canções antigas, dos anos 60 e 70, a partir de Maputo, em FM na cidade mas trambém através da internet.

Não sei até que ponto este projecto terá sucesso, nem o que quer dizer isto de a estação se basear em Maputo. Maputo já não é Lourenço Marques, a África do Sul já não é o que era. E aparentemente muita da aura associada à velha estação derivava da popularidade dos seus locutores, cujos nomes (John Berks, David Davies, Gary Edwards, Frank Sanders, Robin Alexander, George Wayne, David Gresham e outros) eram bem conhecidos na África do Sul. E que já morreram ou estão noutra.

Mas pode ser que vingue. Pela a minha parte, desejo-lhes muita sorte.

Três ligações a propósito do carácter visionário do ma-schamba

No ma-schamba, 13 de Fevereiro de 2009: O Futuro Treinador do Sporting.

No André Benjamim, “No comments”:

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No Antologia do Esquecimento, “Jesus, entre os seus”:

2001: Uma Odisseia no Espaço


por ABM -

Desde criança, e ao contrário dos meus sete irmãos, sempre fui apreciador de música clássica, o que não era coisa fácil pois, para além de estranho e suspeito – estávamos em plena era dos Beatles e de Mick Jagger – em casa o único rádio acessível era um velho Telefunken com caixa de madeira e válvulas (demorava cinco minutos a aquecer) com um som espectacular mas que só apanhava estações em onda média e onda curta.

Habitualmente, o rádio ou estava sintonizado para a Estação A quando o pai BM estava em casa, ou na estação B (a LM Radio, em inglês e que só passava música pop) quando ele saía e as irmãs tomavam conta da casa, ou na Emissora Nacional, de Lisboa, em onda curta aos domingos, à tarde, quando, de entre assobios e trovoadas, mal se ouviam os relatos de futebol emitidos a partir de Portugal e que para mim eram um absoluto mistério (quer Portugal, que eu não percebia o que era nem onde ficava, quer os relatos de futebol, que só mais tarde percebi o que eram ao ver o João de Sousa sentado à beira dos campos de futebol a emitir os relatos locais para as Produções Golo via o Rádio Clube).

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Com a retirada estratégica e acelerada da família face a um ambiente visivelmente mais hostil, e como aconteceu com tanta outra coisa, o velho rádio desapareceu misteriosamente, provavelmente despachado para alguém como lastro inútil num futuro que se augurava instável e totalmente imprevisível (e se foi).

Mas eu tinha e mantenho boas memórias desses tempos e por coincidência eventualmente recolhi uma simpática colecção de rádios. Trinta e dois anos mais tarde inquiri junto de uns antiquários nos arredores de Berlim e eis que hoje sou o feliz proprietário de um rádio igualzinho ao que a família BM usava e que funciona ainda melhor que o outro.

Naqueles tempos Maputo não tinha televisão, internet e a alternativa era ouvir discos, privilégio que obviamente o orçamento familiar não extendia aos membros da família com menos de 10 anos de idade como eu.

Mas o Rádio Clube tinha uma estação – a estção D, creio – que passava música clássica. Em frequência modulada – ou FM – que na altura era uma espécie de último grito da tecnologia. O meu pai tinha no quarto dele um então moderno Zenith Transoceanic 7000 (que, inacreditavelmente eu ainda tenho na minha colecção e que funciona perfeitamente) que apanhava emissões em FM. Então o meu grande desafio era de vez em quando surripiar-me para o quarto dele quando ele estava fora e, no maior secretismo, escutar as emissões de música clássica da Estação D. Era um prazer quase único.

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Mas onde é que eu ouvi pela primeira vez música clássica? recordo-me vividamente das duas ocasiões em que gostei do que ouvi e onde. Curiosamente as duas foram no mesmo sítio: o actual Teatro África, que nos tempos da outra dama dava pelo nome de Manuel Rodrigues. Aí, em meados dos anos 60, um domingo à tarde a minha mãe levou-me a uma apresentação de ópera, encenada uma uma troupe sul-africana em digressão por ali. Nesse dia ouvi pela primeira vez partes da ópera Carmen, de George Bizet, berradas por uma sul africana (branca) com um vestido vermelho de onde se podiam ver as mais do que óbvias. Neste sentido, era uma espécie de programa duplo.

A segunda vez foi absolutamente mágica e é por isso que o exmo leitor Maschambiano tem no topo desta nota uma inserção do Youtube (esta coisa da internet é indescritível). Foi em 1968 ou 1969. Em cartaz no Manuel Rodrigues estava o filme 2001 Uma Odisséia no Espaço, a legendária criação de Stanley Kubrick e a meu ver o primeiro filme de ficção científica que parecia mais do que um filme de desenhos animados – e um dos grandes filmes de todos os tempos – e que na altura não percebi patavina do que se tratava, confesso. Ora, quem já viu o filme sabe que ele inicia com cenas dos primórdios da raça humana, e salta de seguida para uma nave a ascender no espaço. Nessa cena, é passada integralmente o que mais tarde vim a saber ser a valsa O Danúbio Azul, do austríaco Johan Strauss. Foi absolutamente sublime e uma revelação.

Se o exmo. leitor premir a imagem em cima, verá exactamente o que eu vi há …40 anos: do osso do nosso antepassado atirado ao ar, a nave espacial a dirigir-se para a Lua. Ao som da mais sublime valsa de Strauss.

Nesse dia fiquei convertido.

Viva Nelspruit

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por ABM -

Eu sempre tive alguma dificuldade em explicar aos meus irmãos moçambicanos a ligeira confusão na minha cabeça quando, acho que em 1976, num rasgo de fervor revolucionário e acto de exorcização dos fantasmas coloniais – ou talvez apenas para mostrar ao mundo quem é que mandava ali agora – Samora Machel mandou mudar o nome da capital de Lourenço Marques para Maputo.  Acho que disse que esse tal de LM era nome de colonialista imperialista e isso tinha, depois de 500 anos, acabado. Os residentes prévios interrogavam-se onde é que ele fora buscar o nome, os fabricantes de mapas apressaram-se a confirmar se era mesmo assim para alterar a topografia oficial. Toda a gente achou fantástico.

Eu hoje não ligo ao assunto. Mas na altura confesso que achei estranho quando eu dizia para mim próprio em voz baixa “eu sou filho do Maputo”. Aquilo soava mesmo maningue estranho. E durante algum tempo dançava com os dois termos. A quem era dos tempos eu dizia LM, quando era outras pessoas eu dizia Maputo. Quando anos mais tarde visitei Maputo pela primeira vez desde que saira para ir estudar em Coimbra, em fins de Novembro de 1984, a cidade já uma sombra ferida do que fora há menos de dez anos, digna e limpa mas morta e à beira de um ataque de nervos, cheia de regras esquisitas como as de não poder andar nos passeios em frente a uma série de edifícios e de tirar fotografias na via pública. As pessoas falavam baixo comigo para não se ouvir o que diziam.

Quando no fim dos anos 90 regressei para lá viver e trabalhar, o efeito dissipou-se e a cidade foi-se metamorfoseando para o que é hoje: Maputo, capital de Moçambique moçambicano. Mas ainda vi muita gente na cidade que quase se ofendia quando aparecia o ocasional portuga mais distraído que chamava à LM à cidade – como se houvesse ali algum resquício de atitude “colonial” ou saudosismo – ou falta de respeito.

O mais provável é que velhos hábitos, como chamar os nomes às coisas que se conhecem, custam a mudar. No fundo no fundo as pessoas não gostam de mudança. Nem mesmo os moçambicanos. É provavelmente por isso que há nomes que nunca foram tocados, como 2M, Zambi, Costa do Sol, Sommerschield, Polana, Laurentina Piri-Piri, etc. São patrimónios colectivos, referências que transvazam em muito a intenção original, símbolos mais de familiaridade quotidiana do que expressões culturais que “dizem” algo. Ninguém se lembrou de mudar o nome a Ressano Garcia (o portuga que fez a Avenida da Liberdade em Lisboa). mas ninguém se lembraria de o mudar hoje, creio. É apenas mais uma toponímia, moçambicanizada.

Esta propensidade não é exclusiva dos marxistas (se bem que estes adoram fazê-lo), dos moçambicanos e muito menos dos africanos. Os portugueses fartaram-se de o fazer depois da sua “revolução” em 1974. Tudo o que era Salazar e Caetano levou uma imediata e valente machadada. Os recantos mais patéticos do pequeno Portugal encheram-se de “Avenidas 25 de Abril”, “Rua General Humberto Delgado”, “Praça da Liberdade”, etc. Mas não sei bem porquê os portugueses não mudaram o nome às cidades, nem aos aeroportos (excepto o do Porto quando o Sá Carneiro foi assassinado) . A minha quinta ribatejana fica perto de Alcoentre, uma pequena vila que mantém o mesmo nome sem qualquer alteração desde a colonização árabe, há mais do que mil anos. Mas em Alcoentre a maior revolução que houve em 50 anos foi a colocação de um semáforo no cruzamento principal da vila (informalmente descrito como “os quatro ventos”), onde a brigada do reumático senta-se em dias de sol, como lagartos, a ver os carros a passar.

Na vizinha África do Sul, cujas zonas urbanas eram a coutada exclusiva da civilização branca naquele país (protegidas pelas pass laws do apartheid) e tal como no resto de África, a toponímia era tipicamente boer-anglo-saxónica. Logo após a passagem do testemunho em 1994, houve pressões no sentido de “africanizar” os nomes. Durante uns anos, andou tudo à estalada sobre o assunto, os brancos a dizer que aquilo era tudo só para chatear branco, os negros para mostarem que aquela merda já não era o que era.

Mas eis que agora o governo do Senhor Zuma passou um decreto a mudar as coisas. Para quem não leu, copio em seguida os novos nomes das cidades sul-africanas, cortesia da Lusa, lembrando que a partir de agora quem for fazer compras de fim de semana a Nelspruit já não vai a Nelspruit: vai a “Mbombela”.

Talvez agora, por apenas uns dias, os meus amigos moçambicanos que fazem as romarias a Nelspruit vão entender um pouco melhor a confusão que senti quando Lourenço Marques passou a chamar-se Maputo.

E boas compras em … “Mbombela”!

PS – o Fórmula 1 mantém o nome.

______

Lusa – 21 de Outubro de 2009 :

Nelspruit, a cidade mais próxima da fronteira de Ressano Garcia com Moçambique, e Machadodorp, uma vila baptizada no séc. XIX com o nome de um português, são algumas das cidades e vilas sul-africanas que mudaram de nome por decreto.Outras localidades da mesma província (Mpumalanga), que foram re-baptizadas por decreto assinado pela ministra das Artes e Cultura, Lulu Xingwana, são Belfast, agora chamada eMakhazeni, e Waterval Boven, re-baptizada Emgwenya.

Nelpsruit, conhecida por muitos moçambicanos que desde sempre ali se deslocam para fazer compras ou para consultas médicas, passou a chamar-se Mbombela, enquanto Machadodorp, que tinha o nome do engenheiro português Joaquim Machado, que realizou o levantamento topográfico da zona antes da construção da linha de caminhos-de-ferro para Moçambique, em 1894, tem o nome oficial de eNtokozewni.


Desde que assumiu o poder, em 1994, que o Congresso Nacional Africano, apoiado pelos Governos provinciais e nacional, alterou centenas de nomes da toponímia sul-africana, desde estradas e aeroportos a edifícios públicos de natureza vária, apesar dos protestos, em muitos dos casos, de organizações e associações cívicas de afrikaners e sul-africanos brancos de outras origens, que acusam o partido no poder de pretender eliminar por completo a sua herança histórica.

Algumas cidades importantes cujos nomes foram já alterados são Port Elizabeth (para Nelson Mandela Bay), Bloemfontein (para Mangaung), e Durban (para eThekwini), enquanto outras, como a capital, Pretória, mantêm o nome antigo apenas como referência do centro da cidade apesar da municipalidade ter sido re-baptizada (Tshwane no caso de Pretória).

Em todos os casos as autoridades permitem que as cidades e vilas mantenham o nome anterior durante um período transitório de cerca de três anos.

(fim)

Rilke, a propósito do padre Carreira das Neves e de José Saramago

Acabo de ver na SIC o “debate” entre o padre Carreira das Neves, professor da Universidade Católica, e José Saramago, acolhido por Mário Crespo. Morno, desinteressante. O escritor algo defensivo e pouco convincente [talvez suspeitando que, como diz Eduardo Pitta (que agora leio) "Infelizmente, Saramago dá um passo maior que a perna."] . O padre explicitando o carácter histórico-cultural da Bíblia, a sua dimensão literária – visão com a qual é fácil concordar, mas se assim é então porquê tanta azáfama na contra-crítica? E, mesmo, porquê o inusitado debate “literário” (!?)? Se alguém disser que Marco Polo era uma aldrabão, Dante um mitómano, Virgílio um chato, Heródoto um falsário, haverá tanta irritação, tamanha ofensa? Mas não são estes textos compreensíveis no seu contexto histórico, literários, metafóricos, etc e tal? Tenho, temos, alguma obrigação moral ou política de dizer bem de Marco Polo? Algum impedimento social de o refutar ou, até mesmo, insultar?

Mas para além disso ao ouvir o bom padre (grosso modo: a Bíblia é simbólica, é literatura, são imagens, e nós estamos lá com as nossas notas de rodapé para guiarmos os leitores – ali no Mário Crespo a história do catolicismo debitada) logo me lembrei de Rilke

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[Rainer Maria Rilke, Histórias do Bom Deus, Quasi, 2008, tradução de Sandra Filipe]

Está o narrador de Rilke contando uma história centrada no facto de que “Deus, devido a uma feia desobediência das Suas mãos, não sabe qual é o aspecto final do homem” (20) pelo que engendra forma de o conhecer. Logo as crianças ouvem essa narração e …

A história anterior espalhou-se de tal modo que o senhor professor passeia pela travessa com um ar profundamente ofendido. Compreendo-o. É sempre desagradável para um professor as crianças saberem de repente qualquer coisa que ele não lhes contou. O professor deve ser, por assim dizer, o único buraco no tapume através do qual se pode ver o pomar; há no entanto outros buracos, por isso as crianças todos os dias se empurram para a frente de outro, mas em geral ficam logo fartas do panorama. (…)

Ele [o professor] estava de pé, à minha frente, a puxar os óculos para cima, vezes sem conta, e dizia: “Não sei quem contou esta história às crianças, mas, seja como for, é injusto sobrecarregar-lhes e exacerbar-lhes a imaginação com invenções tão extravagantes como esta. É uma espécie de conto de fadas …” (…) continuou muito apressado “Primeiro parece-me mal que se utilizem livre e arbitrariamente temas religiosos e sobretudo bíblicos. É que tudo isso foi descrito de tal forma na catequese que se torna impossível contá-lo melhor.” (…) “E finalmente (…) afigura-se-me que o assunto não está suficientemente aprofundado e visto sob todos os aspectos.” (…) “Sim, dou pela falta de muitas [coisas]. Do ponto de vista de crítica literária, maioritariamente.” (22-24)

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Um delícia. Não fosse a tristeza de ver a paróquia tão paroquial.

jpt

O Caminho de Ferro de Lourenço Marques

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por ABM -

Esta inserção de hoje é mais fotográfica do que escrita – penso eu.

Na história das relações diplomáticas e de negócio do Portugal pré-colonial em Moçambique, poucos projectos terão tido maior protagonismo e impacto do que a construção da linha de caminho de ferro que ligou a Baía da Lagoa ao hinterland da República Sul Africana, então liderada pelo Oom Paul Kruger, arqui-inimigo das pretensões imperialistas de Cecil Rhodes. A sua construção era uma absoluta obsessão de Kruger, que via na intenção britânica de ligar Pretória (e Joanesburgo) ao mar através da linha férrea que subia a partir da Colónia do Cabo, uma ferramenta imperial para esmagar as repúblicas boer e as submeter. Para além de uma distância muito mais curta para a então pindérica vila de Lourenço Marques (uma verdade até estes dias) havia a vantagem de, sendo esse percurso feito através de território português – apesar de Portugal ser de várias formas uma espécie de coutada do Império Britânico (foi-o até ao momento daquela visitinha que os americanos fizeram a um Salazar em choque em 1942)- o mero facto de ser um estado soberano e fora das garras de Rhodes era mais do que vantagem para os Afrikaners.

A construção da linha foi uma verdadeira aventura. Parou, arrancou, acabou-se o dinheiro, foi nacionalizada, etc.

Mais interessante para mim foi que esta semana adquiri, num muito obscuro antiquário em Nova Iorque, uma peça de memorabilia histórica desses tempos.

De entre a multiplicidade de peripécias em redor do projecto, incluiu-se, naturalmente, a constituição de empresas internacionais para financiar e administrar a concessão da linha, cuja conclusão (porque é que eu não estou surpreendido? ficou empanada do lado português.

O que adquiri, e se segue, é um prospecto, com data de 7 de Março de 1887, a anunciar a subscrição pública de dívida no montante de 400.000 libras estrelinas, sendo os fundos para serem utilizados pela The Delagoa Bay and East African Railway Limited.  Obviamente a colocação das obrigações era para sere feita em Londres e inclui um exaltante (e falso) relatório do famoso Major Machado (Joaquim José Machado, um grande amigalhaço de Kruger, que lhe deu o nome a uma das paragens no seu lado da linha, Machadodorp, há dias rebaptizada de -segurem-se – eNtokozewni!) dizendo que em duas penadas a linha estava feita e os accionistas a regorgitarem-se em lucros.

Na verdade correu tudo mal. Pelo meio meteu-se um americano, desapareceu material, os portugueses nacionalizaram o projecto, a Inglaterra rosnou uma dez vezes seguidas e depois vieram os americanos ameaçar dar uma valente tareia se os portugueses não pagassem (os portugueses pagaram, com indemnização e juros).

Mas em 1 de Julho de 1895 a vida em Lourenço Marques mudou para sempre.

O prospecto inclui um mapa onde se pode ver a república boer ainda separadas das colónias britânicas.

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(Eu estava a ver isso agora e estou-me a rir para mim próprio pois quando eventualmente eu morrer, espero que de velho, e vierem os abutres dos herdeiros à procura de taco e coisas valiosas para venderem, em vez disso vão encontrar destas coisas. Ah ah ah!!)