Archive for Outubro, 2009

O Meu Primeiro Halloween

Sábado, Outubro 31st, 2009

lua-de-novembro

por ABM (Cascais, noite de Halloween, 31 de Outubro de 2009)

Quando em 1977 emigrei para os Estados Unidos da América, depois da sequência de eventos que levou ao que então eu me apercebia que iria ser um muito longo exílio de Moçambique (foi), saí da Estação B de Coimbra no dia 20 de Setembro no comboio Foguete com destino a Lisboa, em seguida voei para Ponta Delgada, onde tinha que cumprir algumas formalidades finais do processo de emigração junto do consulado norte-americano e aguardar luz verde para poder voar para a cidade de Boston. No dia 20 de Outubro ao fim da tarde – uma quinta-feira outonal – o voo TAP 312 aterrou no Aeroporto de Logan, repleto de emigrantes portugueses e açorianos, cheios de sacos com roupa, chouriços e agasalhos, provocando o desdenho das fleugmáticas hospedeiras.

Ao contrário da impossibilidade do regresso a Moçambique, algo involuntário mas sugestivo do fim de um capítulo, a ida para os Estados Unidos fora intencional, planeada e benvinda, pois, mais do que tudo, representava a possibilidade de retomar uma normalidade que já começava a parecer mítica. Em Portugal sentira-me um refugiado que não era benvindo nem assistido. Literalmente toda a agente que eu conhecera até então estava asilada, refugiada, pendurada e em parte incerta do planeta. Desenrascava-se e sobrevivia-se, sem qualquer perspectiva de futuro. Apesar do pronunciamento anti-comunista em Novembro de 75, quem fosse mais do que “socialista” era “fascista” e a liberdade adquirida era a liberdade de insultar tudo e todos e de poder ver um filme pornográfico num cinema perto de casa. Nessa altura até Sá Carneiro dizia que era socialista e que queria construir uma sociedade sem classes. Aquilo tudo parecia-me ser uma vasta, longa, chata, incompreensível anedota latina.

Cedo descobri que não gostava de revoluções de partir a loiça, com tropa fandanga na rua, gente rasca bem falante, oportunistas falhados em pontas de pés à busca de cunhas e favores, putas, peregrinos de Fátima em joelhos e revistas aos carros na EN1 à procura de armas, cartazes revolucionários e muito, muito sujo, tudo espapaçado nas paredes e nas ruas, comunistas de Mercedes Benz, frio, escuro e penumbra. Tudo à beira de um ataque de nervos, tudo à procura de algo em troco de nada, o povo, ainda algo macambúzio, expectante quanto às promessas da Nova Ordem, agora democrática, descolonizada, igualitária e “europeia”. Ah as promessas! pois não era que tudo o que havia de mau em Portugal fora culpa da longa noite salazarista.

Aprendi nessa altura especialmente a não gostar daquelas revoluções onde se fala muito e faz-se pouco, aquelas que nos deixavam no meio da rua à noite, à chuva, sós, a segurar na mão enregelada um saco de plástico contendo tudo o que nos pertence e que ainda nos desconfia de ladrões e ideologicamente polutos – o que no meu caso, com 15 anos, era ficção científica.

Nos EUA todos eram imigrantes ou filhos de imigrantes. Havia a promessa da inclusão, a garantia da oportunidade – e da estabilidade. Curiosamente, encontrei no ethos norte americano uma cultura de tratamento igual para todos. Lá não havia generais nem doutores nem empresários de sucesso, havia o igualitário you . Valorizava-se o mérito, a honestidade, a pontualidade, a disciplina, o dinheiro. Em média a diferença entre as pessoas era na quantia de dinheiro a que tinham acesso (cash – e em dívidas, o que foi uma novidade para mim). Havia de tudo e tudo me parecia ser barato e acessível sendo apenas necessário trabalhar e ganhar um salário. Havia casas para alugar, supermercados cheios de tudo e empregos para quem quisesse trabalhar. Em Portugal não havia.

Nos EUA de 1977 ninguém sabia que Portugal se havia separado de Espanha em 1640 – e ninguém parecia querer saber. África ficava em Marte, Moçambique em Saturno, e os negros americanos ainda não se rotulavam como african-americans. Eram apenas cidadãos americanos de pele mais escura que eram vergonhosamente discriminados pelos brancos numa espécie de apartheid com paredes invisíveis.

Nos EUA, as revoluções fazem-se todos os dias, entre o café da manhã e a hora de ir para a cama, pelas pessoas. Não havia “ismos”, nem militares a mandar, nem Conselhos da Revolução, nem constituições a dizer que todos tínhamos direito à saúde, paz, pão e habitação. Não havia canções revolucionárias (só para chatear, esta do Zéca Afonso transpira dos tempos que passou em Moçambique) nem slogans na rádio, nem jornais panfletários. Passavam a majestosa abertura de John Williams para o Episódio 3 de Star Wars e os sucessos dos Bee Gees.

Era outro mundo.

Uma semana depois de chegar aos EUA, quando a mãe BM chegou a Boston no mesmo voo dos Açores, já tinhamos arranjado emprego, escolas, carro, casa, mobília, até uma televisão a cores (uma RCA) e uma torradeira daquelas que só os americanos podiam inventar, que fazia 4 torradas ao mesmo tempo. Quando ela entrou no pequeno apartamento que já tínhamos decorado modestamente, ela chorou durante meia hora, pois depois de Moçambique, há dois anos que vivia acampada em quartos de casas de estranhos contrariados sem saber o dia de amanhã.

Na segunda-feira seguinte era dia 31 de Outubro. No liceu local eu re-iniciara os estudos (inacreditavelmente, começara quatro anos antes no Liceu António Enes, depois Liceu Salazar/5 de Outubro em Maputo e em Coimbra no Liceu Infanta Dona Maria – sem chumbar um ano). Aí avisaram-me que este era dia de Halloween e se eu me queria ir juntar aos colegas à tarde para fazer trick or treating . Trique ou triting? do que é que eles estavam a falar? claro que esta, que é a parte principal do Halloween, que hoje, um tanto enigmaticamente, se comemora em Portugal, não se faz, e que consiste em ir de porta a porta pela vizinhança, mascarado de bruxo ou de abóbora, a pedir um trick (uma habilidade, que ninguém fazia) ou treat (um rebuçado ou chocolate). As pessoas preparavam-se de antemão de forma a que nessa noite tenham em casa um caixote cheio de rebuçados e chocolates que dão aos míudos que batem incessantemente à porta. À noite a televisão passava uns velhos filmes estilo “sexta feira, dia 13″ com muito sangue, gritaria e facadas no peito, que os miúdos vêm juntos, também aos gritos. Nessa noite cheguei a casa com um enorme saco cheio de treats.

Confesso que na altura achei aquilo tudo completamente estranho. Mas com o tempo a tradição entrou na família, tal como o feriado do Thanksgiving, daqui a três semanas e meia.

Uns anos mais tarde passei a associar a noite de Halloween a um evento bem mais triste, pois foi nessa noite, em 1982, que o meu colega moçambicano, o Rui Abreu, se suicidou na cidade norte-americana de Cleveland, não muito longe de onde eu vivia. A mãe dele, Mercedes, de Tete, faz anos no dia seguinte, 1 de Novembro.


  • Share/Bookmark

Vem a propósito

Sábado, Outubro 31st, 2009

carver-calares

Raymond Carver, Queres Fazer o Favor de te Calares? (Teorema, 2004, tradução de Carlos Santos). Gente-de-nada em momentos-de-afinal-nada, o esqueleto da angústia. Queres fazer o favor de te calares?, calas-te?

jpt


  • Share/Bookmark

Na sequência do ABM: o velho do Restelo e o “fato”

Sábado, Outubro 31st, 2009


  • Share/Bookmark

Patrioteirismo, de António Gouvêa Lemos

Sábado, Outubro 31st, 2009

Os familiares de António Gouvêa Lemos criaram aqui (Facebook) um local memorial desse jornalista, referência do pensamento e escrita das décadas finais do regime colonial em Moçambique. Presumo que a responsabilidade desse sítio seja, pelo menos parcialmente, do seu filho também ele bloguista José Paulo Gouvêa Lemos. Confesso que preferia que essa memória surgisse em terreno aberto (entenda-se, blog) pois nem todos aderiram (aderimos) a essa febre facebookista. Talvez um “interface” blog-facebook fosse a mais adequada intervenção, se me permite(m) o conselho.

Mas independentemente disso (afinal minudências) não consigo resistir a transcrever o texto de António Gouvêa Lemos que acabou de ser deixado nessa página: “Patrioteirismo“. Parece ter sido escrito hoje, certeiro o seu conteúdo, louvável (e tão fresca) a sua forma. Até espantosa se o pensarmos escrito no Lourenço Marques de 1957 …

E assenta que nem uma luva, perdoem a apropriação, talvez abusiva e arrogante, a este jpt que aqui bloga.

PATRIOTEIRISMO

A consciência plena da nacionalidade que se tem, o orgulho inteligente de a ter, fundamentados ambos no verdadeiro conhecimento da História e na apreciação imparcial das realidades actuais; mais a preocupação sincera pelo futuro da Nação de que se é membro, com o desejo de colaborar na elevação do seu nível econômico, social e espiritual – tudo fundido na forma de uma personalidade vincada, que leva a guardar ciosamente o direito de ter opinião e participação no que é nacional e tudo realçado pelo amor à terra que é a nossa, a dos nossos antepassados e a dos nossos filhos e pela veneração das memórias daqueles que se ilustraram, de qualquer modo, ao serviço da Nação e ainda pelo respeito daqueles que abnegadamente a servem hoje – tudo isso se chama patriotismo.

É um sentimento antigo, cuja origem se perde nos séculos e tem raízes na própria natureza humana.

Não foi criada recentemente e não se manifesta por gritos, melindres histéricos, escrúpulos despropositados e receios de invasão por forças estrangeiras através de manifestações ligeiras e divertidas, de actividades inconsequentes e de factos, frases ou escritos sem qualquer significado especial.

Aí começa outro fenómeno e esse não tem nada a ver com o cérebro nem com o coração. Só terá a ver alguma coisa com o cérebro, em certos casos e isso mesmo, se considerarmos a esperteza uma qualidade intelectual. De resto, explica-se pela ignorância, pela estupidez ou pelo desequilibro nervoso. É o patrioteirismo.Encontra-se muito nos sujeitos que se arvoram – eles próprios – em pais da Pátria e que se sentem no dever de se ofenderem – por ele e pelos que julgam indiferentes – como tudo quanto se esforçam por considerar grave e não tem gravidade nenhuma. Indignam-se e pespegam lições de portuguesismo, sem cuidarem primeiro de saber se quem as recebe delas precisa ou as pode ministrar. Falam sempre na primeira pessoa. Porque eu, na minha qualidade de português, jamais consenti, não consinto nem hei-de consentir que, diante de mim, etc. e tal.

Há também os que se afligem, no seu portuguesismo de alfarrábio, porque se comparam em certos campos, realizações estrangeiras ou conquistas de outros povos, como o que nós fazemos, com o que nós temos. E não curam de explicar ou de justificar as diferenças, nem dão tempo a que o outro faça tal. Enfurecem-se patrioteiramente e, envergando a armadura, enfiando o elmo e de lança em riste, acometem o mouro, berrando sandices.

O patrioteiro – da família das sensitivas – dá-se muito bem em climas quentes.

(Notícias da Tarde, Lourenço Marques, ano VI, nº. 1705, em 27 de Dezembro de 1957, p. 1 e 5 na Col. Mesa Redonda.)


  • Share/Bookmark

Da fala

Sábado, Outubro 31st, 2009

Sair à noite na sexta-feira e encontrar as pessoas que vão lendo o ma-schamba. Mais os olhares do que as falas mas também estas: “falas demais“, “espalhas-te“, desbragado. Em olhares e até falas vou tentando responder, sem justificações, “para quê falar se não para ser eu próprio?”. Para quê o encapotar a minha verdade se falo gratuitamente, que ninguém me paga nem mesmo a conta da internet? Ou melhor, já noite larga, para quê fingir respeito por quem, a troco do não-tão-parco-soldo, destrói o meu país? “Filho-da-puta“, “imbecil“? Se é isso que realmente penso do patrício tonto ou traidor para quê evitar dizê-lo? Para quê o eufemismo “educado”? Por causa dos bons costumes? Ide …

jpt


  • Share/Bookmark

O Velho do Restelo?

Sexta-feira, Outubro 30th, 2009

por ABM (Cascais, 30 de Outubro de 2009)

Gostava que fosse. Mas talvez não seja. Mas para quem ama Portugal, aperte o cinto de segurança antes de ver isto, que é dedicado a quem viu o que se passa nos EUA e achar que Portugal está melhor.

Henrique Medina Carreira, no dia 9 de Março de 2009 fala com Mário Crespo, emissão da estação de televisão da Sociedade Independente de Comunicação.

Parte 1 de 3

Parte 2 de 3

Parte 3 de 3


  • Share/Bookmark

Análise da situação do Sporting Clube de Portugal

Sexta-feira, Outubro 30th, 2009

No A Norte de Alvalade o jornalista José Goulão publicou uma excelente reflexão sobre o estado do Sporting Clube de Portugal, uma análise muito para além da mera discussão sobre os resultados futebolísticos. Direi que obrigatório para sportinguistas lerem – e muito para além do rame-rame dos habituais comentadores televisivos.

jpt


  • Share/Bookmark

10 de Junho de 1973

Sexta-feira, Outubro 30th, 2009

19730610gepnilzalm

(por ABM) Cascais, 30 de Outubro de 2009

Mão amiga me arranjou a fotografia acima, que me chamou a atenção porque parecia velha e porque tinha em segundo plano a estátua do enigmático Mouzinho de Albuquerque, nos tempos em que enfeitava a praça em frente do edifício do actual Conselho Municipal de Maputo até pouco antes da declaração de independência de Moçambique em 1975 (agora há lá uma obra de ferro um pouquinho menos…monumental).

No verso da fotografia vinha uma nota: “dia da Raça, 10 de Junho de 1973, desfile dos GEPs, Nilza”.

Em 1973 eu tinha 13 anos e vivia naquela dolce vita própria da idade, completamente alheado do que agora se revela como a Grande, Valorosa e Gloriosa Luta para a Libertação de Moçambique. Bem, para mim, que era um pouquinho menos ciente das coisas que a família Couto, a “guerra” era algo relativamente obscuro que acontecia lá longe no Norte, e é preciso ver que “lá no Norte” em Moçambique, dada a geografia, era mesmo muito, muito longe para quem vivia a mais que dois mil quilómetros ao Sul.

Para além do desporto, jogar ao berlinde e da escola, as maiores recordações que tenho desse ano foi o carnaval no Desportivo (choveu potes), que a canção Popcorn era o maior hit na cidade e ainda aquele dia em que o pai BM decidiu podar as gigantescas mangueiras no quintal da delapidada casa onde vivíamos, algo que levou o dia inteiro e deixou no quintal montanhas de ramos das ditas cujas. E o governador, que diziam que tinha a boca na forma do cu de uma galinha.

Aliás já nem me lembrava que se chamava ao dia 10 de Junho o “Dia da Raça”. Da raça? que raça? Hoje o 10 de Junho tem uma designação um nadinha mais prosaica e abrangente – acho que é “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”. Supostamente, 1′ de Junho é o dia em que o Luis Vaz morreu em 1580, pouco antes de o octagenário rei-cardeal, infalivelmente, falecer sem deixar descendência, passando a coroa portuguesa, depois de umas negociatas com a local nobreza, para as mãos da monarquia espanhola, iniciando-se assim a “grande noite” que durou até que, sessenta anos mais tarde, o então Duque de Bragança, quiçá mais apreensivo que a sua mulher (que terá proferido o famoso “antes rainha um dia que duquesa toda a vida”) apadrinhou a retoma da regência por nobreza made in Portugal e se seu o título de Dom João IV.

Para sorte do Duque, o rei espanhol andava tão ocupado a tentar não perder a cabeça na Holanda e arredores que em 28 anos nunca teve tempo nem recursos para vir dar uma valente tareia aos seus súbditos rebeldes. Estes entretanto deram o que tinham e não tinham para ter algum apoio dos ingleses e que incluiu efectivamente entregar toda Índia (menos Goa) e o Ceilão, mais uns naviozitos carregados de ouro e de electrodomésticos. Para selar o negócio, até casaram a filha de João, Catarina de Bragança, beata e estéril, a um indescritível Carlos II, que lhe pôs os cornos mais vezes do que há segundos numa hora. No fim, aquilo tudo funcionou mais ou menos e trezentos anos mais tarde fez-se uma curiosa praça em Lisboa no fim da Avenida da Liberdade, apropriadamente baptizada como a dos “Restauradores”, e instaurou-se um feriado. Em Portugal celebra-se esse evento todos os anos a 1 de Dezembro.

Portanto houve um desfile na baixa de Maputo (então LM) com os GEP’s a 10 de Junho de 1973. Como não sei o que eram os GEP’s fui ver. E fiquei surpreendido com o que encontrei aqui, aqui e aqui. Até encontrei um sítio com uma longa lista de emblemas que inclui alguns de Moçambique (do lado português, isto é).

Portanto os GEP’s eram compostos quase integralmente por moçambicanos que, do que depreendo, ou tinham sido da Frelimo ou que a ela se opunham.

Li algures (ok, num livro do Jaime Nogueira Pinto que já referi antes) que em 1974, da força militar que combatia a Frelimo, 60% eram nativos de Moçambique. Pergunta estúpida: o que é que aconteceu a estes militares – de que o que está na foto acima é um deles? ficaram em Moçambique após a independência a prestar contas à Frelimo? vieram para Portugal? têm reforma nossa por prestação de serviços ao Estado português? foram integrados nas forças militares do Moçambique independente? imagino que na fase de transição alguém deve ter pensado nisto tudo. Mas não encontro referência escrita a este tópico.

Certamente um capítulo interessante da história de Moçambique (e de Portugal) sobre a qual seria interessante saber mais.

Entretanto aí fica a fotografia, com a Nilza a dar água a um militar GEP na parada deles no “dia da Raça” – o último que alguma vez se celebrou em Moçambique sob administração portuguesa.


  • Share/Bookmark

George Bush e Barack Obama

Sexta-feira, Outubro 30th, 2009

(por ABM) Cascais, 28 de Outubro de 2009

Este é o segundo de dois programas que recomendo vivamente que veja.

O contexto é este: a maior parte de nós que assistimos à eleição histórica de Barack Hussein Obama para a presidência dos Estados Unidos da América associa a esse evento duas coisas: a saída de George Bush 2 da cena, uma maior moralização da política externa norte americana, e a promessa de uma saída mais limpa dos exércitos norte-americanos do Médio Oriente. Enquanto isso, a economia americana, dramaticamente nos últimos meses do segundo mandato de Bush, quase entrou em colapso – e com ela o resto do mundo.

Mas há uma muito mais importante história que aqui é escalpada: a do que aconteceu ao défice norte-americano. Como ele cresceu, onde ele está, e com o que é que os EUA e o resto do mundo se confrontam neste momento e no futuro. Isolado, só este tópico vai ser um dos maiores, senão o maior, desafio para Barack Obama – já o é. Ao ponto que, cedo no seu mandato, alguns assistiram com alguma surpresa a um presidente Obama a dizer na televisão que o maior problema de longe dos Estados Unidos era … a questão do sistema de saúde nos EUA.

O sistema de saúde?? então e as guerras, o Irão, Israel, etc?

Este programa indica-nos que, para além das demais prendinhas deixadas por Bush, foi uma quase incompreensível série de medidas de simultaneamente a) aumentar dramaticamente a despesa do governo com duas guerras (Iraque e Afeganistão) e um brutal aumento nas despesas do governo com um plano médico para a terceira idade e b) dois cortes muito significativos nos impostos. O buraco foi sendo pago pela compra de dívida do governo por estrangeiros, de que se destaca a … China (eu se tivesse que inventar isto não conseguia). Ou seja, os norte-americanos devem montanhas e montanhas de deinheiro ao estrangeiro. Por causa disso o mapa financeiro do mundo mudou radicalmente e o valor do dólar oscila como erva ao vento.

Acho que sem se entender esta dinâmica, não se conseguirá entender o que foi que Obama encontrou e com que tem que lidar nestes próximos tempos. Pois antes de ser líder mundial, ele é presidente dos EUA.

Conseguirá Barack Obama aligeirar os efeitos quase devastadores do que Bush fez? como dizem os árabés, inshallah. Ou nós, oxalá.

Este programa, da PBS, foi para o ar em 29 de Março de 2009, mas mantém toda a actualidade. Em inglês, dura 54 minutos. Veja enquanto bebe um cházinho de tília.


  • Share/Bookmark

Dicionário Macua-Português (cont.)

Sexta-feira, Outubro 30th, 2009

pires-prata-capa

Em Novembro de 2007 aqui deixei uma entrada dedicada ao Dicionário Macua-Português, da autoria de A. Pires Prata (Instituto de Investigação Científica Tropical, 1990). Na sequência de questões deixadas nessa caixa de comentários vem agora o leitor Valeriano Maia simpaticamente informar-nos sobre a possibilidade de o adquirir em Portugal, bem como ao Dicionário Português-Macua.

jpt


  • Share/Bookmark

O Segundo 11 de Setembro

Sexta-feira, Outubro 30th, 2009

por ABM (Cascais, 29 de Outubro de 2009)

Enquanto me vou aprendendo e surpreendendo com o que existe na internet, tento utilizar o que encontro para tentar melhor entender o mundo que nos rodeia, o que acontece e porquê.

Há cerca de um ano, pouca gente se apercebeu de que o mundo esteve a um fio de cabelo de uma catástrofe económica (e, logo, política e social, eventualmente militar) sem precedente na história da humanidade. Curiosamente, o início e o desenrolar desse desastre oribinou nos sagrados corredores do capitalismo norte-americano: Wall Street, Nova Iorque, e Washington, a capital federal dos Estados Unidos.

Alguns dos leitores do Maschamba, que tem uma firme “verve” cultural e histórica, poderão à primeira pensar que perceberam o que aconteceu, ou então que não perceberam mas não querem perceber, ou que não perceberam, ou que nem são capazes de o fazer.

Ou ainda que isto pode não interessar.

Deixem-me dizer o seguinte de forma clara: o que aconteceu nos sete meses entre Março e Outubro de 2008 – e cujos efeitos ainda nem de perto estão resolvidos em todos os cantos do mundo – vai ser tópico de conversa durante décadas. Os vossos filhos e netos um dia vão perguntar-vos o que é que aconteceu em 2008.

E nós estávamos cá.

Porque nunca na minha vida – e eu tenho quase 50 anos de idade e já assisti a guerras, descolonizações, recessões, todo o tipo de tragédias – estivemos todos nós tão perto, tão perto de, de um momento para o outro, passarmos de uma vida de relativo conforto e de expectativa de normalidade, para o maior caos, miséria e total desorientação.

Todos nós, onde quer que estivéssemos.

Talvez por isso valha a pena ver o que foi, e como foi, desde a falência da firma de investimento Bear Stearns, à falência da firma Lehman Brothers, e o que aconteceu logo a seguir.

O vídeo que está em cima, em inglês e que dura uns “meros” 56 minutos e 23 segundos, com a maior das clarezas, calmamente e com uma qualidade fenomenal, explica tudo. Foi produzido para a cadeia de televisão pública norte-americana PBS (sim, há uma nos EUA) e exibido no programa Frontline, um dos meus favoritos de sempre.

De vez em quando valer a pena tentar perceber o que se passa com a economia. A cultura enche-nos o espírito e a alma. A economia ajuda-nos a pôr o pão na mesa para nós e as nossas famílias.

Esta é uma lição de humildade e também de como todos dependemos uns dos outros. Frequentemente de formas que nem sonhamos.

Na realidade o título acima é apenas uma leve provocação. Na verdade, o ataque terrorista ocorrido no dia 11 de Setembro de 2001 foi um piquenique de crianças comparado com o que aconteceu em 2008.


  • Share/Bookmark

Colectiva de Arte Infantil

Quinta-feira, Outubro 29th, 2009

cartaz-exposicao

Na Fortaleza de Maputo, entre 29 de Outubro e 5 de Novembro.

jpt


  • Share/Bookmark

World Press Photo 2009

Quinta-feira, Outubro 29th, 2009

[esta entrada foi ficando para trás, a exposição já foi retirada, mas como as fotografias são interessantes põe-se o rascunho visível]

Na Fortaleza de Maputo foi apresentada a exposição World Press Photo 2009. Como exposição tem alguns contras, tradicionais nesta iniciativa anual. Os critérios de selecção temática, e assim sendo também de premiação, têm algo a ver com um roteiro de desgraças do ano transacto, o que traduz uma ideia do que é “press” – mais do que a informação é o espectáculo (visual, estético) da desgraça que é procurado. Diga-se que “não há festa nem festança onde não vá a dona Constança“, não há desgraça para a qual não haja categoria de premiação da World Press Photo, tudo debruado com uma tempestade atmosférica ou um leopardo-das-neves, para “alargar” o âmbito. Não quero forçar a nota mas a representação do ano, todos os anos, inclina-se para essa dimensão do horror humano. Desiquilibra-se. Para quem discorde desta minha opinião apelo a que olhe para os prémios dados à fotografia sobre Natureza – aí apela-se à estética, não se integra nessa dimensão uma vontade de denúncia das maleitas e horrores. E se há horrores e maleitas na natureza. Ou seja, os valores que pretendem ser mostrados na parte fotografia de natureza são diferentes (aparentemente mais apolíticos, mas só na aparência, pois na prática é mesmo um discurso político articulado) do que os que procuram ser transmitidos na parte fotografia humana.

Enfim, tem esse conteúdo mental sobre o que é imprensa. E tem alguns critérios de valorização de fotos verdadeiramente surpreendentes, mas para isso cada juri é soberano.

wp-2009-kenya

Yasuyoshi Chiba, fotógrafo japonês, sobre os conflitos no Quénia.

homeless_sao_paulo_brazil_contemporary_issue_stories_carlos_cazalis_corbis_2008_imagelarge

Carlos Cazalis (México), um sem-abrigo na noite.

worldpress-winner

Anthony Suau (EUA) sobre a crise económica americana e sua repercussão no imobiliário – Foto vencedora

NETHERLANDS WORLD PRESS PHOTO 2008

Tomasz Wiech (Polónia), sobre a vida quotidiana.

wpp-2009-temp

Carlos Gutiérrez (Chile), vulcão de Chaitén na Patagónia.

Retiradas daqui

jpt


  • Share/Bookmark

Chico Buarque, Leite Derramado

Quinta-feira, Outubro 29th, 2009

chicobuarqueleitederramado

[Chico Buarque, Leite Derramado, Dom Quixote, 2009]

Eulálio de Assumpção, centenário moribundo em hospital público, deixa as suas memórias em registo fragmentário e até balbuciante. Homem de velha estirpe, descendendo até de “um doutor Eulálio Ximenez d’Assumpção, alquimista e médico particular de D. Manuel I” (212), transposta para o Brasil na comitiva de D. João VI, aí originando uma linha de Eulálios de Assumpção grandes proprietários. Através deste Eulálio de Assumpção (com seus avatares geracionais) pode-se entrever certo percurso do Brasil, em particular do Rio de Janeiro – até mesmo sob o ponto de vista urbanístico – de XIX e XX. Mas mais do que referir a óbvia ligação ao registo das “Memórias Póstumas …” de Machado de Assis o que me chamou a atenção foi o fundo ideal do livro.

O protagonista é o verdadeiro Eulálio da Assumpção final, o da inversão de sentido, todos os que se lhe seguem (mas que morrerão antes dele) são tristes sequelas. Com ele, assassinado que foi seu pai em finais dos anos 20, se inicia um longo e doloroso processo de decadência. Económica, social, territorial (as deslocações das suas residências acompanham a geografia histórica do Rio). Mas onde está a força motriz dessa decadência? Na sua fragilidade pessoal, desprovido da verdadeira energia dos Assumpções, do encanto estratégico de seu pai. Mas bem mais do que isso, radica a decadência na incapacidade de resistir ao simples carnal. A morte do pai, o desaparecimento do seu viril controle civilizacional, deixa de imediato o jovem Eulálio à mercê da natureza desbragada, inconsequente, irracional - em pleno funeral de seu pai descontrola-se com a visão de sua futura mulher Matilde, e tem que se retirar, incumprindo a sua função social.

Nesse sentido a morte do pai empurra-o para uma distraída miscigenação: “Mas ora, ora, papai, disse Maria Eulália, está na cara que esse aí puxou a minha mãe mulata. Não sei quem abastecia minha filha com tantas maledicências, Matilde tinha a pele quase castanha, mas nunca foi mulata. Teria quanto muito uma ascendência mourisca, por via de seus ancestrais ibéricos, talvez algum longínquo sangue indígena.” (172). Meio século depois, já avô empobrecido, continuava incapaz de reconhecer o que a sua mãe (e afinal todos os outros) identificara: “Minha mãe era de outro século, em certa ocasião chegou a me perguntar se Matilde não tinha cheiro de corpo. Só porque Matilde era de pele quase castanha, era a mais moreninha de sete irmãs, filhas de um deputado correligionário de meu pai.” (39). Distracção feita de falta de preconceitos com a qual crescera: “No entanto garanto que a convivência com Balbino [com quem também desejou relações sexuais] fez de mim um adulto sem preconceitos de cor. Nisso não puxei ao meu pai, que só apreciava as louras e as ruivas, de preferência sardentas. Nem à minha mãe, que ao me ver arrastando a asa para Matilde, de saída me perguntou se por acaso a menina não tinha cheiro de corpo.” (27). – [esta repetição, até estilisticamente deselegante, do episódio do "cheiro de corpo" inquirido pela mãe salienta a sua importância na economia da narrativa].

Todo o percurso deste Eulálio de Assumpção se marca na desgraçada relação conjugal com esta, afinal, mulata. Que o trairá e abandonará, assim reforçando-lhe o imobilismo existencial, condenando-o ao imobilismo afectivo. E que marcará racicamente os seguintes Eulálios de Assumpção, cada vez mais negros, por herança genética e hipotéticos cruzamentos, cada vez mais inconsequentes e falidos, mais descentrados, culminando no último dos seus descendentes, o gigolo-traficante já negão.

Este típico evolucionismo decadentista brasileiro de XIX, o da miscigenação como factor “natural” obstáculo à civilização, causa de decadência, surpreendeu-me em Chico Buarque. Será que tresli? Ou é mesmo um manifesto antropológico em forma de ficção?

jpt


  • Share/Bookmark

Bloguismo político português

Quarta-feira, Outubro 28th, 2009

sahara-ocid

Convém não esquecer que no seio da “esquerda” bloguista portuguesa – socialista ou gay friendly ou mugabe friendly – nenhum desses filhos-da-puta se lembra do Sahara ocidental (O que é isso?). Depois querem respeito. Ou, mesmo, tristes escroques desvalidos, serem tratados de “esquerda”, para se verem ao espelho. Merda são, merda serão. É bíblico.


  • Share/Bookmark