Archive for Outubro 2009

Vem a propósito

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Raymond Carver, Queres Fazer o Favor de te Calares? (Teorema, 2004, tradução de Carlos Santos). Gente-de-nada em momentos-de-afinal-nada, o esqueleto da angústia. Queres fazer o favor de te calares?, calas-te?

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Na sequência do ABM: o velho do Restelo e o “fato”


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Patrioteirismo, de António Gouvêa Lemos

Os familiares de António Gouvêa Lemos criaram aqui (Facebook) um local memorial desse jornalista, referência do pensamento e escrita das décadas finais do regime colonial em Moçambique. Presumo que a responsabilidade desse sítio seja, pelo menos parcialmente, do seu filho também ele bloguista José Paulo Gouvêa Lemos. Confesso que preferia que essa memória surgisse em terreno aberto (entenda-se, blog) pois nem todos aderiram (aderimos) a essa febre facebookista. Talvez um “interface” blog-facebook fosse a mais adequada intervenção, se me permite(m) o conselho.

Mas independentemente disso (afinal minudências) não consigo resistir a transcrever o texto de António Gouvêa Lemos que acabou de ser deixado nessa página: “Patrioteirismo“. Parece ter sido escrito hoje, certeiro o seu conteúdo, louvável (e tão fresca) a sua forma. Até espantosa se o pensarmos escrito no Lourenço Marques de 1957 …

E assenta que nem uma luva, perdoem a apropriação, talvez abusiva e arrogante, a este jpt que aqui bloga.

PATRIOTEIRISMO

A consciência plena da nacionalidade que se tem, o orgulho inteligente de a ter, fundamentados ambos no verdadeiro conhecimento da História e na apreciação imparcial das realidades actuais; mais a preocupação sincera pelo futuro da Nação de que se é membro, com o desejo de colaborar na elevação do seu nível econômico, social e espiritual – tudo fundido na forma de uma personalidade vincada, que leva a guardar ciosamente o direito de ter opinião e participação no que é nacional e tudo realçado pelo amor à terra que é a nossa, a dos nossos antepassados e a dos nossos filhos e pela veneração das memórias daqueles que se ilustraram, de qualquer modo, ao serviço da Nação e ainda pelo respeito daqueles que abnegadamente a servem hoje – tudo isso se chama patriotismo.

É um sentimento antigo, cuja origem se perde nos séculos e tem raízes na própria natureza humana.

Não foi criada recentemente e não se manifesta por gritos, melindres histéricos, escrúpulos despropositados e receios de invasão por forças estrangeiras através de manifestações ligeiras e divertidas, de actividades inconsequentes e de factos, frases ou escritos sem qualquer significado especial.

Aí começa outro fenómeno e esse não tem nada a ver com o cérebro nem com o coração. Só terá a ver alguma coisa com o cérebro, em certos casos e isso mesmo, se considerarmos a esperteza uma qualidade intelectual. De resto, explica-se pela ignorância, pela estupidez ou pelo desequilibro nervoso. É o patrioteirismo.Encontra-se muito nos sujeitos que se arvoram – eles próprios – em pais da Pátria e que se sentem no dever de se ofenderem – por ele e pelos que julgam indiferentes – como tudo quanto se esforçam por considerar grave e não tem gravidade nenhuma. Indignam-se e pespegam lições de portuguesismo, sem cuidarem primeiro de saber se quem as recebe delas precisa ou as pode ministrar. Falam sempre na primeira pessoa. Porque eu, na minha qualidade de português, jamais consenti, não consinto nem hei-de consentir que, diante de mim, etc. e tal.

Há também os que se afligem, no seu portuguesismo de alfarrábio, porque se comparam em certos campos, realizações estrangeiras ou conquistas de outros povos, como o que nós fazemos, com o que nós temos. E não curam de explicar ou de justificar as diferenças, nem dão tempo a que o outro faça tal. Enfurecem-se patrioteiramente e, envergando a armadura, enfiando o elmo e de lança em riste, acometem o mouro, berrando sandices.

O patrioteiro – da família das sensitivas – dá-se muito bem em climas quentes.

(Notícias da Tarde, Lourenço Marques, ano VI, nº. 1705, em 27 de Dezembro de 1957, p. 1 e 5 na Col. Mesa Redonda.)


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Da fala

Sair à noite na sexta-feira e encontrar as pessoas que vão lendo o ma-schamba. Mais os olhares do que as falas mas também estas: “falas demais“, “espalhas-te“, desbragado. Em olhares e até falas vou tentando responder, sem justificações, “para quê falar se não para ser eu próprio?”. Para quê o encapotar a minha verdade se falo gratuitamente, que ninguém me paga nem mesmo a conta da internet? Ou melhor, já noite larga, para quê fingir respeito por quem, a troco do não-tão-parco-soldo, destrói o meu país? “Filho-da-puta“, “imbecil“? Se é isso que realmente penso do patrício tonto ou traidor para quê evitar dizê-lo? Para quê o eufemismo “educado”? Por causa dos bons costumes? Ide …

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Análise da situação do Sporting Clube de Portugal

No A Norte de Alvalade o jornalista José Goulão publicou uma excelente reflexão sobre o estado do Sporting Clube de Portugal, uma análise muito para além da mera discussão sobre os resultados futebolísticos. Direi que obrigatório para sportinguistas lerem – e muito para além do rame-rame dos habituais comentadores televisivos.

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Dicionário Macua-Português (cont.)

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Em Novembro de 2007 aqui deixei uma entrada dedicada ao Dicionário Macua-Português, da autoria de A. Pires Prata (Instituto de Investigação Científica Tropical, 1990). Na sequência de questões deixadas nessa caixa de comentários vem agora o leitor Valeriano Maia simpaticamente informar-nos sobre a possibilidade de o adquirir em Portugal, bem como ao Dicionário Português-Macua.

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Colectiva de Arte Infantil

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Na Fortaleza de Maputo, entre 29 de Outubro e 5 de Novembro.

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World Press Photo 2009

[esta entrada foi ficando para trás, a exposição já foi retirada, mas como as fotografias são interessantes põe-se o rascunho visível]

Na Fortaleza de Maputo foi apresentada a exposição World Press Photo 2009. Como exposição tem alguns contras, tradicionais nesta iniciativa anual. Os critérios de selecção temática, e assim sendo também de premiação, têm algo a ver com um roteiro de desgraças do ano transacto, o que traduz uma ideia do que é “press” – mais do que a informação é o espectáculo (visual, estético) da desgraça que é procurado. Diga-se que “não há festa nem festança onde não vá a dona Constança“, não há desgraça para a qual não haja categoria de premiação da World Press Photo, tudo debruado com uma tempestade atmosférica ou um leopardo-das-neves, para “alargar” o âmbito. Não quero forçar a nota mas a representação do ano, todos os anos, inclina-se para essa dimensão do horror humano. Desiquilibra-se. Para quem discorde desta minha opinião apelo a que olhe para os prémios dados à fotografia sobre Natureza – aí apela-se à estética, não se integra nessa dimensão uma vontade de denúncia das maleitas e horrores. E se há horrores e maleitas na natureza. Ou seja, os valores que pretendem ser mostrados na parte fotografia de natureza são diferentes (aparentemente mais apolíticos, mas só na aparência, pois na prática é mesmo um discurso político articulado) do que os que procuram ser transmitidos na parte fotografia humana.

Enfim, tem esse conteúdo mental sobre o que é imprensa. E tem alguns critérios de valorização de fotos verdadeiramente surpreendentes, mas para isso cada juri é soberano.

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Yasuyoshi Chiba, fotógrafo japonês, sobre os conflitos no Quénia.

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Carlos Cazalis (México), um sem-abrigo na noite.

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Anthony Suau (EUA) sobre a crise económica americana e sua repercussão no imobiliário – Foto vencedora

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Tomasz Wiech (Polónia), sobre a vida quotidiana.

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Carlos Gutiérrez (Chile), vulcão de Chaitén na Patagónia.

Retiradas daqui

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Chico Buarque, Leite Derramado

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[Chico Buarque, Leite Derramado, Dom Quixote, 2009]

Eulálio de Assumpção, centenário moribundo em hospital público, deixa as suas memórias em registo fragmentário e até balbuciante. Homem de velha estirpe, descendendo até de “um doutor Eulálio Ximenez d’Assumpção, alquimista e médico particular de D. Manuel I” (212), transposta para o Brasil na comitiva de D. João VI, aí originando uma linha de Eulálios de Assumpção grandes proprietários. Através deste Eulálio de Assumpção (com seus avatares geracionais) pode-se entrever certo percurso do Brasil, em particular do Rio de Janeiro – até mesmo sob o ponto de vista urbanístico – de XIX e XX. Mas mais do que referir a óbvia ligação ao registo das “Memórias Póstumas …” de Machado de Assis o que me chamou a atenção foi o fundo ideal do livro.

O protagonista é o verdadeiro Eulálio da Assumpção final, o da inversão de sentido, todos os que se lhe seguem (mas que morrerão antes dele) são tristes sequelas. Com ele, assassinado que foi seu pai em finais dos anos 20, se inicia um longo e doloroso processo de decadência. Económica, social, territorial (as deslocações das suas residências acompanham a geografia histórica do Rio). Mas onde está a força motriz dessa decadência? Na sua fragilidade pessoal, desprovido da verdadeira energia dos Assumpções, do encanto estratégico de seu pai. Mas bem mais do que isso, radica a decadência na incapacidade de resistir ao simples carnal. A morte do pai, o desaparecimento do seu viril controle civilizacional, deixa de imediato o jovem Eulálio à mercê da natureza desbragada, inconsequente, irracional - em pleno funeral de seu pai descontrola-se com a visão de sua futura mulher Matilde, e tem que se retirar, incumprindo a sua função social.

Nesse sentido a morte do pai empurra-o para uma distraída miscigenação: “Mas ora, ora, papai, disse Maria Eulália, está na cara que esse aí puxou a minha mãe mulata. Não sei quem abastecia minha filha com tantas maledicências, Matilde tinha a pele quase castanha, mas nunca foi mulata. Teria quanto muito uma ascendência mourisca, por via de seus ancestrais ibéricos, talvez algum longínquo sangue indígena.” (172). Meio século depois, já avô empobrecido, continuava incapaz de reconhecer o que a sua mãe (e afinal todos os outros) identificara: “Minha mãe era de outro século, em certa ocasião chegou a me perguntar se Matilde não tinha cheiro de corpo. Só porque Matilde era de pele quase castanha, era a mais moreninha de sete irmãs, filhas de um deputado correligionário de meu pai.” (39). Distracção feita de falta de preconceitos com a qual crescera: “No entanto garanto que a convivência com Balbino [com quem também desejou relações sexuais] fez de mim um adulto sem preconceitos de cor. Nisso não puxei ao meu pai, que só apreciava as louras e as ruivas, de preferência sardentas. Nem à minha mãe, que ao me ver arrastando a asa para Matilde, de saída me perguntou se por acaso a menina não tinha cheiro de corpo.” (27). – [esta repetição, até estilisticamente deselegante, do episódio do "cheiro de corpo" inquirido pela mãe salienta a sua importância na economia da narrativa].

Todo o percurso deste Eulálio de Assumpção se marca na desgraçada relação conjugal com esta, afinal, mulata. Que o trairá e abandonará, assim reforçando-lhe o imobilismo existencial, condenando-o ao imobilismo afectivo. E que marcará racicamente os seguintes Eulálios de Assumpção, cada vez mais negros, por herança genética e hipotéticos cruzamentos, cada vez mais inconsequentes e falidos, mais descentrados, culminando no último dos seus descendentes, o gigolo-traficante já negão.

Este típico evolucionismo decadentista brasileiro de XIX, o da miscigenação como factor “natural” obstáculo à civilização, causa de decadência, surpreendeu-me em Chico Buarque. Será que tresli? Ou é mesmo um manifesto antropológico em forma de ficção?

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Bloguismo político português

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Convém não esquecer que no seio da “esquerda” bloguista portuguesa – socialista ou gay friendly ou mugabe friendly – nenhum desses filhos-da-puta se lembra do Sahara ocidental (O que é isso?). Depois querem respeito. Ou, mesmo, tristes escroques desvalidos, serem tratados de “esquerda”, para se verem ao espelho. Merda são, merda serão. É bíblico.


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Observação Eleitoral

São quase 16 horas e levanto-me, alquebrado, da mesa do Rodízio, a maminha, o ananás, a picanha, ainda que no decadente serviço da Visabeira, estão a dar cabo mim. Enquanto caminho(amos) para o local de entrada cruzo uma mesa de “observadores eleitorais”, fardados com dísticos a propósito. Enrolo os palavrões de quem já o foi, e com directas seguidas e perigos assumidos, resmungando um “não deviam estes filhos-da-puta (europeus, diga-se) estar no terreno, de sanduíches no bornal?!”.

Quem me acompanha, patrícios nada desqualificados, ri-se diz: “E onde pensas que andam os teus diplomatas?” E sei, ali, ainda envergonhado, que os diplomatas portugueses andam a almoçar enquanto são, como é possível?, observadores: como é possível tamanha incompetência na Julius Nyerere, 720 (mesmo que seja sob o miserável governo de Amado e Cravinho?). E, até apita, até “a embaixatriz da Irlanda é observadora“. Vá lá, a imbecilidade não é só nossa – mas como é possível que uma missão diplomática participe numa missão de observação eleitoral, que independência, vá lá, que autonomia poderão vir a ter face aos resultados dessa missão? Que visão estratégica subjaz isto? Que gabarito político-diplomático têm os responsáveis desta paródia (e quem escreve isto é quem já acompanhou inteligente que soube em tempos apartar as águas, não é um mero mal-disposto)?

Incompreendo os donos da terra. Eu, se em tal caso, metia patrícios, irlandeses (o parvo do embaixador à frente mais a missionária que com ele dorme logo atrás) e quejandos no primeiro avião.

Uma vergonha militante. Anos a fio.

(Há algum tempo os embaixadores da União Europeia exigiram uma reunião com o presidente da Comissão Nacional de Eleições. Ele recebeu-os para ouvir as zangas da “comunidade internacional”. Entraram na sala e, à sua revelia, foram conduzidos para uma sala onde estava a imprensa. “Digam lá, então“. Calaram-se, atrapalhados, que, afinal, a imprensa ali … . Quem lá estava, e meu amigo, ri-se “o teu embaixador até tremia“. O país ainda anda a rir dessa cena. O embaixador de Portugal, pobre imbecil de corpo inteiro, ainda por aí anda, desrespeitado por todos, os seus, os patrícios, os nacionais daqui, ainda que carregue a bandeira no carro quando sai à rua. Os seus, mais seus, pobre gente MNE ainda por aí anda para gáudio geral, pobre – ou maquiavélico ”Almeida Santos”? – Luís Amado que para África manda os imbecis do MNE.

Nós … não pagamos impostos para não alimentar estas alimárias. E, de quando em vez, um dos bloguistas, muito raramente lembra-se do Sahara Ocidental. E cospe, é o termo, nas palavras “Luís Amado”. Conhecendo-o de puta ginjeira …)

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Dia de eleições moçambicanas

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[Maputo, 2009 - inscrição aqui muito original]

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[Beira, 2007 - inscrição muito cinéfila]

Dia de eleições. Presidenciais, legislativas, provinciais. Não me parece que venha a ocorrer alguma surpresa.

Nota: Na internet a fazer uma cobertura constante está o jornal “A Verdade” no facebook. E vários blogs (visíveis, para quem os não tem nos favoritos, aqui).

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Richard Zimler

zimler

Saramago e a Insustentável Leveza da Ignorância, de Richard Zimler. A ler este excelente texto sobre a Bíblia e sua tradição. E, também, sobre Portugal e seu “estado da arte”.


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“Uma Maitê Proença com Piada”

Blogos(fera)

A 15 de Abril de 2009 deixei aqui: “Em Portugal três eleições neste ano – com efeitos no bloguismo, já e daqui em diante. A uma crescente industrialização bloguística (cada vez mais blogs colectivos, principalmente de jornalistas) soma-se a concentração “capitalista” – suprablogs dedicados à “questão política” (o blog de direita, o blog de esquerda, o blog das eleições, etc.), na prática uma despolitização da política. (…) se até a (…) lhe puxa o pé para a chinela desta forma realmente que grande desatino aí vem no bloguismo lusopolítico. O escarro. Burguês.

É evitá-lo até lá para a quadra natalícia. E então, se ainda houver blogs (S. Twitter o permita), refazer as listas de favoritos.”.

Aproximando-se o Natal Luis Novaes Tito lamenta agora o estado das coisas; Joana Lopes reconhece-o, e lamenta a virulência. Mas atenção, desatino sempre houve nisto bloguismo, em particular no político. O que cansa, o que afasta, neste desatino de agora é ser eco desta vontade missionária, aparelhística.

Enfim, estará na altura de reordenar as listas de favoritos. Para constatar que alguns dos velhos estão bem alquebrados por aquela partidite pandémica. Que lhes deixou chagas a teclado aberto.


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Ainda Saramago. E Pulido Valente. E Lobo Antunes. Portugal.

1. A propósito da sequência das declarações “bíblicas” de José Saramago uma insistência no tema, talvez a aborrecer os visitantes. Mas é uma sequência de dizeres tão sintomáticos sobre Portugal que se tornam irresistíveis.

No Mar Salgado Vasco Lobo Xavier ecoa que Saramago defende que Deus devia ter vedado a macieira com rede. É uma afirmação deliciosa, levando a matéria para onde ela realmente pertence. Tal como o nosso ABM lembrou nestas declarações do que se trata é de um conflito ideológico-político com a Igreja Católica, nada reduzíveis às furibundas invectivas de publicidade ou senilidade. Pois torna-se óbvio que para Saramago é possível o paraíso, nos seus avatares que foram correntes: sociedade de lazer, sem exploração, sem escassez, de “homem novo”. O que para isso é necessário é que alguém, alguns, construa(m) a cerca (e por ela velem) que defenda os homens da “natureza humana”. À “incompetência” (aliás, inexistência) da divindade suceder-se-á a competente tutela do partido, em particular a dos seus intelectuais.

2. Ficou (algum?) Portugal aos gritos com o assunto (mesmo os que se aprestaram a dizer que não havia nada a dizer), uns vociferando contra o herege, outros lamentando-lhe a incapacidade de crítica literária, a falta de profundidade hermenêutica.

Finalmente chegou-me às mãos um jornal Público da semana passada. Onde diz Vasco Pulido Valente: “O problema com o furor que provocaram os comentários de Saramago sobre a Bíblia (mais precisamente sobre o Antigo Testamento) é que não devia ter existido furor algum.” Como é óbvio, e não só porque velhas como a própria Bíblia são as invectivas a Deus.

Mas logo avança Pulido Valente: “Não assiste a Saramago a mais remota autoridade para dar a sua opinião sobre a Bíblia ou sobre qualquer outro assunto, excepto sobre os produtos que ele fabrica, à maneira latino-americana, de acordo com o tradição epigonal indígena.” Entenda-se, Saramago pode falar do que faz, do seu artesanato, do seu ofício. Sobre outros assuntos não tem autoridade, “a mais remota”. Depreendo, até porque condiz com o locutor, que para falar de assuntos abrangentes, fora da vidinha de cada um, há apenas alguns com autoridade, os especialistas. É uma explícita divisão social do trabalho (intelectual). À “incompetência” (aliás, inexistência) da racionalidade geral suceder-se-á a competente tutela do partido, perdão, das elites, em particular a dos seus intelectuais.

Para culminar com o gráfico de Portugal no mesmo jornal diz Lobo Antunes: [os populares] “É óptimo. Uma pessoa não tem guarda-chuva e eles emprestam.” 

Olhando para o agregado de locutores está bem marcado o quadro. As três ordens de Dumézil trazidas até quase-nós por Duby: 1. os sábios/intelectuais (com estudos) que têm autoridade abrangente; 2. os arrivistas (escritores que não pensam como os sábios, jornalistas, bloguistas, lumpen-burguesia, sindicalistas ex-aristocracia do ex-proletariado) que querem falar mais do que da sua vidinha; 3. os populares, porreiros porque emprestam o guarda-chuva. Modelo agora em aparência (pós)moderna, mas bem, bem, antigo. Foi feudal, antes indo-ariano. E ainda hoje vigora.

Isto são só coincidências. Releio o artigo “Indústria e Repressão Sexual numa Sociedade da Planície do Pó” e umas páginas antes diz assim (minha versão do francês): “Tem uma sincera e primitiva admiração por aquele que sabe. Desse sempre sublinha as suas qualidades manuais, a memória, a metodologia evidente e elementar: tornamo-nos cultos lendo muitos livros e retendo o que eles dizem. A suspeita que a cultura possa ter uma função crítica e criadora não lhe surge. À cultura julga-a segundo um critério puramente quantitativo. Nesse sentido (o de que para ser culto é necessário ter lido muitos livros durantes muitos anos) é natural que o homem que não é predestinado renuncie a qualquer tentativa“. (Umberto Eco, “Phénoménologie de Mike Bongiorno“, Pastiches et Postiches, 1992, p. 63). Ou seja, que emprestemos os nossos guarda-chuvas.

É óbvio que nada disto tem a ver com as insistentes considerações sobre “onde está” a direita ou a esquerda, característica questão da topologia portuguesa. É muito mais perene. O tal modelo trifuncional nas mentes de alguns. E sempre associado com a apropriação sociológica do discurso. No fundo com quem pode (e deve) vedar a macieira. Ou levar-nos até ela.

Chove! Vou ali emprestar o meu chapéu-de-chuva.

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Sátira a Um Burro, de Arménio Vieira

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[Arménio Vieira, Mitografias, Ilhéu Editora, 2006]

 

Sátira a Um Burro

Ser homem e ser burro,
ambos (o homem e o burro),
num só corpo fundidos,
não quer dizer que a besta,
que ao mesmo tempo
fala e zurra,
não seja asno
que preste e sirva.

Nenhum homem quer ser burro,
nem aceita que o é,
mesmo quando o que se vê
é um jumento
de sela e cabresto.

Sendo jerico o homem, aos pinotes
e coices, sem a inteligência,
que é o que falta aos burros,
mesmo assim é relevante o burro,
pois que ser asno, mesmo homem também
(embora não o seja inteiro e completo),
é ser diferente de outro homem
que é homem somente, sendo que este,
ao contrário do burro,
só fala, não zurra.

Ser jerico, asno ou jumento
não é diferente de ser burro.
No entanto, o burro (este burro
apenas e não outro burro qualquer)
é um burro importante,
dado que, a um tempo, ser homem e burro
é um modo de ser diferente,
é ser outra coisa.
Mal por mal, é melhor ser outra coisa
do que ser coisa nenhuma.

E, fazendo assim justiça ao burro,
mais não digo, ponto final.


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Três ligações a propósito do carácter visionário do ma-schamba

Rilke, a propósito do padre Carreira das Neves e de José Saramago

Acabo de ver na SIC o “debate” entre o padre Carreira das Neves, professor da Universidade Católica, e José Saramago, acolhido por Mário Crespo. Morno, desinteressante. O escritor algo defensivo e pouco convincente [talvez suspeitando que, como diz Eduardo Pitta (que agora leio) "Infelizmente, Saramago dá um passo maior que a perna."] . O padre explicitando o carácter histórico-cultural da Bíblia, a sua dimensão literária – visão com a qual é fácil concordar, mas se assim é então porquê tanta azáfama na contra-crítica? E, mesmo, porquê o inusitado debate “literário” (!?)? Se alguém disser que Marco Polo era uma aldrabão, Dante um mitómano, Virgílio um chato, Heródoto um falsário, haverá tanta irritação, tamanha ofensa? Mas não são estes textos compreensíveis no seu contexto histórico, literários, metafóricos, etc e tal? Tenho, temos, alguma obrigação moral ou política de dizer bem de Marco Polo? Algum impedimento social de o refutar ou, até mesmo, insultar?

Mas para além disso ao ouvir o bom padre (grosso modo: a Bíblia é simbólica, é literatura, são imagens, e nós estamos lá com as nossas notas de rodapé para guiarmos os leitores – ali no Mário Crespo a história do catolicismo debitada) logo me lembrei de Rilke

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[Rainer Maria Rilke, Histórias do Bom Deus, Quasi, 2008, tradução de Sandra Filipe]

Está o narrador de Rilke contando uma história centrada no facto de que “Deus, devido a uma feia desobediência das Suas mãos, não sabe qual é o aspecto final do homem” (20) pelo que engendra forma de o conhecer. Logo as crianças ouvem essa narração e …

A história anterior espalhou-se de tal modo que o senhor professor passeia pela travessa com um ar profundamente ofendido. Compreendo-o. É sempre desagradável para um professor as crianças saberem de repente qualquer coisa que ele não lhes contou. O professor deve ser, por assim dizer, o único buraco no tapume através do qual se pode ver o pomar; há no entanto outros buracos, por isso as crianças todos os dias se empurram para a frente de outro, mas em geral ficam logo fartas do panorama. (…)

Ele [o professor] estava de pé, à minha frente, a puxar os óculos para cima, vezes sem conta, e dizia: “Não sei quem contou esta história às crianças, mas, seja como for, é injusto sobrecarregar-lhes e exacerbar-lhes a imaginação com invenções tão extravagantes como esta. É uma espécie de conto de fadas …” (…) continuou muito apressado “Primeiro parece-me mal que se utilizem livre e arbitrariamente temas religiosos e sobretudo bíblicos. É que tudo isso foi descrito de tal forma na catequese que se torna impossível contá-lo melhor.” (…) “E finalmente (…) afigura-se-me que o assunto não está suficientemente aprofundado e visto sob todos os aspectos.” (…) “Sim, dou pela falta de muitas [coisas]. Do ponto de vista de crítica literária, maioritariamente.” (22-24)

***

Um delícia. Não fosse a tristeza de ver a paróquia tão paroquial.

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RTP – GRANDE ENTREVISTA

António Lobo Antunes na RTP – GRANDE ENTREVISTA.


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Mário David, deputado europeu, vice-presidente do Partido Popular Europeu

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[Mário David com a bandeira nacional, tal como se apresenta na sua página oficial]

 

Independentemente do que se pensa de Saramago, como escritor e/ou como cidadão, é interessante visitar a “página oficial de Mário David, deputado ao Parlamento Europeu, vice-presidente do Partido Popular Europeu” [entre aspas a forma como o sítio está apresentado], o qual desencadeou alguma polémica a propósito das recentes declarações do autor. Francamente não sei se a retórica e o grafismo muito institucional representam realmente uma página de cariz oficial dos deputados europeus. Mas a associação de ambos convoca essa ideia – há pelo menos uma vontade de a assumir.

Nesse caso será de referir que um deputado português (e vice-presidente de um partido europeu) propõe a pena de ostracismo (patrocina a sua adopção, ensaia a sua indução) de um cidadão português por este exercer a sua liberdade de culto, o seu direito à blasfémia (se assim se quiser entender). Não o faz numa mera página pessoal, mas numa página ou oficial ou de assumida vontade de oficialidade encenada. É grave. Recordo o que há anos aconteceu com uns comentários menos benquistos que um deputado da Assembleia da República fez no seu blog inscrito no sistema do parlamento. E as reacções desabonatórias que colheu tal modo de opinar num meio oficial.

Este indivíduo, Mário David, afirma ainda (num catastrófico português, que só o apouca e ao partido que o tem como vice-presidente): ” …povos e confissões religiosas, valores que certamente desconhece mas que definem as pessoas de bom carácter.”. Não compreendo, exactamente, o que quer dizer Mário David com o valor “povos” (e creio que também ele não o sabe, que é um mero deslize). Mas acho absolutamente inaceitável que um deputado português, ainda para mais num registo oficial (ou que o quer aparentar), se permita dividir os seus concidadãos em função da adesão a valores religiosos: os bons definidos pela sua comunhão. E, como óbvio corolário, os maus (os de mau carácter) como aqueles que não os partilham.

Não é uma brincadeira nem uma histeria ateia. É absolutamente inadmissível que um deputado eleito num partido democrático insulte, desqualifique, os seus concidadãos deste modo. E que os seus pares não se desculpem, não se demarquem, assobiem para o lado reduzindo este caso a um mero fait-divers. Ainda para mais, sublinho, quando se trata não de um mero amanuense mas sim de um vice-presidente do Partido Popular Europeu, com toda a certeza por escolha do PSD.

É um ultraje.

Adenda: Mário David escreve um “Para fechar sobre Saramago”. É mais uma vez interessante ler – para compreender que no seu relativo passo atrás, e por mais maiúsculas essencializadoras que utilize, o deputado não compreende os limites que cruzou: insultou os ateus e, se assim se entender, os agnósticos. E é incapaz de reconhecer – e repito – o direito à blasfémia. Para Mário David todos devemos respeitar a Bíblia. Ora, é exactamente o contrário. Todos podemos respeitar a Bíblia e o Corão (pessoalmente acho muito aconselhável, diga-se). Mas não há nenhuma obrigação, legal, política ou moral. O deputado manifestamente não compreende isso.

Insisto, não é concebível que alguém que desconhece as obrigações políticas do seu país possa ocupar lugares como aqueles que ocupa. É, sem dúvida, um ultraje à democracia.

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Famós no Camões

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Acabo de receber da organização um e-mail anunciando a exposição de desenho “Penúmbras [sic] da Vida“, uma individual de Famós. A exposição foi inaugurada ontem, 21 de Outubro, no Instituto Camões e estará disponível por algumas semanas (quinze dias?).

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Sitoe no Camões

convitesitoe09net

 

O ABM, que está lá longe em Portugal, reenviou-me um email que recebeu por via de uma empresa, a qual presumo patrocinadora, o qual contém um longo comunicado do Instituto Camões de Maputo, a explicitar que Sitoe inaugurará a individual de pintura “Celebrando Mulher” na próxima sexta-feira, 23 de Outubro. Contém 30 obras, acrílicos e óleos. Presumo que esteja à nossa disposição durante quinze dias, pelo menos.

Abraço Sitoe.

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Saramago

[Nota: Porfírio Silva, do Machina Speculatrix demonstrou nos comentários o seu desagrado pelo epíteto com que o descrevi. Tem toda a legitimidade para o fazer. Dou a mão à palmatória, ainda que insista que o meu propósito não era insultuoso do bloguista mas sim desqualificador do seu texto. Assim sendo alterei a entrada]

steiner-gramaticas

A mística judaica imagina que um segundo de distracção do escriba ao qual Deus ditou a Torah se traduziu pela omissão de um acento, de um signo diacrítico. Foi através desse erratum que o mal se infiltrou na criação. (…) Distraído por qualquer coisa de realmente importante, Deus “deixou cair do Seu bolso” um cosmos inacabado.” (49)

Job, o Edomita, não reclama justiça. Se tivesse sido judeu, tê-la-ia reclamado. Mas Job, o Edomita, reclama sentido. Exige de Deus que faça sentido (fazer sentido [make sense]): eis uma das fórmulas mais impensadamente problemáticas das gramáticas da criação). Exige que Deus Se torne compreensível. Recusando por completo a concepção agostiniana – “se o apreendes, não é Deus” – Job intima Deus a revelar-Se de outro modo que não o das aparências do absurdo e do insensato. Os horrores imerecidos que desabam sobre Job abrem uma dupla possibilidade: que o criador seja fraco – e o satânico poderá prevalecer – ou puerilmente volúvel e sádico. Como um homem que “matasse por prazer”. Que seja, como diz Karl Barth no seu comentário do Livro de Job, “um Deus sem Deus”. (…) Deus é então culpado de ter criado“. (55-56), etc., etc.

[George Steiner, Gramáticas da Criação, Relógio d'Água, 2001, tradução de Miguel Serras Pereira]

O mal-estar com deus não é novo, veja-se acima. O mal-estar com os homens de deus também não o é. José Saramago, num país onde os blogo-Blasfemos defendem o criacionismo diante do aplauso burguês, convém não o esquecer, e onde milhões continuam a acreditar na visão de Fátima, botou o seu mal-estar com os homens de deus. E, é esta apenas a minha opinião, o seu mal-estar com (o seu) deus, um deus crual e vingativo. Em termos felizes?

Talvez não muito, dando o flanco a imputações de leitura pouco profunda da Bíblia. Pois o velho escritor (talvez já na idade e na situação de olhar deus) arranca agora umas declarações “chocantes”: A Bíblia (e o Corão) não é [são] de inspiração divina, disse. Coisa com que qualquer letrado deveria poder concordar. Invectiva também contra o deus castigador – aí reduzindo mas não falsificando. E alude (corrosivo, irado?) aos “maus costumes” vertidos na Bíblia – a mim choca-me a imagem dos “maus costumes”, o que é o Mal?, mas acima de tudo o que são os males?

[Tenho com a obra de Saramago uma relação há muito estabelecida. Não é a minha prosa (nesse registo o A Saga/Fuga de JB de Ballester encheu-me) nem é o meu mundo. Aos vinte anos li - e muito gostei - o Levantado do Chão. Antes lera, e gostara, o Memorial do Convento. Logo, logo, li o Ano da Morte de Ricardo Reis - que me terá sido um dos mais importantes livros da vida, foi a última leitura não-profissional que me forcei a levar até ao fim. Tinha vinte e um anos e ainda me lembro de o terminar: "nunca mais faço isto", exclamei, e desde então se não estou a gostar largo o livro. E assim fui fazendo, e também com vários dos seus livros. Depois, em 1998, li-lhe o Todos os Nomes, recebera ele o Nobel e por razões profissionais achei que lhe devia ler a obra. Nada gostei, lembro a sensação de estar diante de uma amálgama dos mundos de Borges e Kafka em registo longo e cansativo. São as vantagens do leigo, lê e pensa consoante o que lhe vem à cabeça.

Tenho do homem Saramago um conhecimento diferente. Cruzei-o em Maputo duas vezes. Deparei-me com uma cultura atroz (rais parta o homem), uma sageza ágil traduzida numa perspicácia fantástica, daquelas do "chegar, ver e entender", uma capacidade de improviso oral espantosa. E curvei-me diante da gentileza que comigo teve - e bem precisado estava eu, no meio dos lusobárbaros à solta. Não é por isso que lhe vou ler os livros, ainda comprei (em sessão de lançamento aqui, com direito a autógrafo final) o A Caverna, mas não terminei, cansado. Separo, como sempre, o homem dos seus livros, das coisas que faz.]

Mas não posso deixar de me espantar com o efeito Saramago. Em Portugal é um chorrilho. Cai o carmo e a trindade. O deputado Mário David, eurodeputado do PSD, propõe que o homem deixe de ser português pois ofende o povo – o que é isto, o ostracismo porque o homem diz que o deus nosso-senhor ensinado às crianças é castigador, porque lhe nega a omnisciência e restante omnipotência? A que miséria intelectual está condenado um dos partidos básicos do regime português, a que baixeza está condenada Portugal? Por todo lado abundam as críticas ao perverso escritor, ao medíocre escritor – imerecido Nobel. Dá para tudo: invectivam a ignorância com que põe em causa a grandiosidade literária da Bíblia (lendo as notas noticiosas bem que procuro saber como o fez, mas não o encontro: e até o mais arguto dos bloguistas carrega contra o gigantesco moínho de vento) – já agora gostaria de saber quais dos utentes deste argumento arrumam a sua Bíblia nas estantes no seio da literatura (letra B; secção vários; autor Deus, etc) … Na área do bloguismo político socialista (um bocado a despropósito, acho eu) aproveita-se para lembrar que Durão Barroso foi do MRPP em 1975 (mas nunca se refere que Mário Lino foi um abjecto controleiro estalinista dos comunistas portugueses destacados para Moçambique, não sei porquê, ou talvez porque as histórias são vergonhosas e “jamais” convirá lembrá-las). Os mais exaltados camaradas truncam-lhe os argumentos, feitos meras bandeiras ao deus-dará.

Ninguém se lembra que dos escritores o que interessa são os livros? Olho para trás, Oscar Wilde devia ser uma bicha insuportável, Shakespeare um tiranete lá no teatro, Tolstoi um chato do caralho. Lowry um bêbedo de fugir, Céline um nazi filhodaputa. É disso que falamos ou lemos-lhes, deliciados, os livros?

Vã política, vã jornalice, vã bloguice. Vã-glória de opinar.

jpt


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A Situação dos “Estudos Africanos” em Espanha

Interessante texto geral de Jordi Tomás e de Albert Farré, este um antropólogo espanhol com vasta experiência em Moçambique: “Os Estudos Africanos em Espanha. Balanço e Perspectivas. Não vou aqui discutir a pertinência da delimitação geográfica das ”áreas” de investigação, ”estudos africanos” é uma denominação delimitação criticável mas tem carta de corso. Registo o texto, tem um excurso histórico sobre esta área de actividade em Espanha e traça um quadro muito actualizado das tendências actuais e suas dinâmicas.

Noto que a gravação deste texto de 2009, com 77 páginas, é grátis.


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